Scielo RSS <![CDATA[Comunicação e Sociedade]]> http://scielo.pt/rss.php?pid=2183-357520250003&lang=pt vol. 48 num. lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://scielo.pt/img/en/fbpelogp.gif http://scielo.pt <![CDATA[Nota Introdutória: Invisibilidades no e do Jornalismo]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000301001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt <![CDATA[Jornalismo de Influência Regional: Uma Proposta Para as Cidades Médias Brasileiras]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo O artigo tem como objetivo apresentar a proposta conceitual de “jornalismo de influência regional”, voltada à atividade desenvolvida nas cidades médias brasileiras não metropolitanas, situadas no interior dos estados. A proposição parte de uma pesquisa empírica empreendida na cidade média de Imperatriz, localizada no sudoeste do Maranhão, e em 18 cidades pequenas da sua região de influência (Regiões de Influência das Cidades: 2018; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020). Como estratégia metodológica foram adotados os seguintes procedimentos: (a) mapeamento dos veículos de comunicação em funcionamento nas cidades investigadas; (b) entrevistas semiestruturadas com jornalistas de Imperatriz; (c) aplicação de questionários com moradores de Imperatriz e das cidades na sua região de influência; e (d) análise de conteúdo dos produtos jornalísticos. Os resultados obtidos indicam a existência de um jornalismo especializado na: (a) produção simultânea de notícia local e regional, a qual denominamos “notícia polarizadora”; (b) realização da cobertura noticiosa da região de influência; (c) mediação das demandas e reivindicações das pequenas comunidades do entorno; (d) informação de proximidade para o consumo da região; e (e) intermediação de fluxos informativos produzidos em outros centros urbanos.<hr/>Abstract This article presents the conceptual proposal of “regional influence journalism”, centred on the journalistic practices developed in medium-sized, non-metropolitan Brazilian cities located in the interior of the states of the states. The proposal is grounded in empirical research conducted in the medium-sized city of Imperatriz, in southwestern Maranhão, as well as in 18 small municipalities within its region of influence (Regiões de Influência das Cidades: 2018; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020). The methodological strategy comprised the following procedures: (a) mapping of media outlets operating in the cities studied; (b) semi-structured interviews with journalists in Imperatriz; (c) administration of questionnaires to residents of Imperatriz and of cities in its surrounding region; and (d) content analysis of journalistic outputs. The results point to the existence of a form of journalism characterised by (a) simultaneous production of local and regional news - termed here “polarising news”; (b) news coverage that encompasses the broader region of influence; (c) mediation of the demands and concerns of nearby small communities; (d) production of local information aimed at regional consumption; and (e) intermediation of information flows originating from other urban centres. <![CDATA[Invisível e Vulnerável, mas Resiliente: Um Retrato da Imprensa Regional Centenária em Portugal]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Num contexto de profunda crise no setor mediático e de crescente desertificação informativa em vastas regiões de Portugal, este estudo propõe um mapeamento da imprensa regional centenária enquanto expressão resiliente do jornalismo de proximidade. Através de uma metodologia mista - combinando análise documental e levantamento quantitativo - foram identificadas e analisadas 40 publicações com mais de 100 anos de existência, ainda em atividade no território nacional. O estudo examina a sua distribuição geográfica, periodicidade, formato (papel e/ou digital) e composição das direções editoriais em termos de género. Os resultados apontam para uma forte ancoragem territorial destas publicações e assimetrias regionais significativas e revelam padrões preocupantes, como a frágil transição digital, a reduzida diversidade de género nas chefias num quadro de segregação vertical e a persistente vulnerabilidade económica. Apesar dessas limitações, estes jornais continuam a desempenhar um papel relevante na preservação da memória coletiva, na coesão social e no fortalecimento da democracia local. Além disso, oferecem pistas importantes sobre práticas de resistência e adaptação que desafiam o declínio do jornalismo de proximidade. O estudo propõe, por fim, uma reflexão sobre o valor público desta imprensa e a urgência de políticas que a reconheçam como património informativo e bem comum, fundamental para garantir o direito à informação em regiões periféricas e sub-representadas.<hr/>Abstract In a context of deep crisis in the media sector and growing news deserts across vast regions of Portugal, this study maps the centenary regional press as a resilient expression of proximity journalism. Using a mixed-methods approach - combining documentary analysis and a quantitative survey - 40 publications over 100 years old and still active nationwide were identified and analysed. The study examines their geographical distribution, periodicity, medium (print and/or digital) and editorial board composition in terms of gender. The results indicate a strong territorial anchoring of these publications and significant regional asymmetries, revealing concerning patterns, such as a fragile digital transition, limited gender diversity in leadership within a framework of vertical segregation, and persistent economic vulnerability. Despite these limitations, these newspapers continue to play a relevant role in preserving collective memory, fostering social cohesion and strengthening local democracy. Moreover, they offer essential insights into practices of resistance and adaptation that challenge the decline of proximity journalism. Finally, the study reflects on the public value of this press and the urgency of policies recognising it as informational heritage and a common good, essential to guaranteeing the right to information in peripheral and under-represented regions. <![CDATA[Entre a Inércia Institucional e a Vulnerabilidade Sistémica: Compreender as Ameaças Invisíveis à Segurança dos Jornalistas]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract Research on journalists’ safety reveals two intertwined dimensions: physical risks in conflict zones and less tangible risks to performance in comparatively safe environments. In Latvia, as elsewhere in Europe, journalists face online humiliation, harassment, hate speech, and attacks on their professional credibility. This raises two central questions: how do journalists perceive safety risks, and are media institutions equipped to provide adequate support? This paper examines the perceptions of Latvian media professionals regarding work-related safety issues and the mechanisms available to mitigate stress and risks. A mixed-methods design was applied, combining literature analysis, a two-round Delphi expert survey (25 and 23 participants from national and regional media, non-governmental organisations, and journalism-related organisations), eight semi-structured interviews with solicitors and media law specialists, case studies of court decisions, and three focus group discussions (with legal experts, media managers, and investigative journalists). The results highlight a complex threat environment in which multiple risks coexist, while support structures remain limited. Women, regional reporters, Russian-language journalists, and freelancers emerge as the most vulnerable groups, revealing safety risks shaped by both group invisibility - where their professional identities are insufficiently recognised - and concerns of invisibility - where persistent threats are normalised or dismissed. While institutional shortcomings are partly due to resource constraints and insufficient legal or psychological expertise, reluctance and reactive practices further weaken organisational responses. A lack of effective action from law enforcement and courts, combined with the rise of strategic lawsuits against public participation, reinforces a “culture of impunity”. A paradox emerges: online humiliation and harassment are omnipresent and thus routinised, making them effectively invisible despite their persistence. By contrast, cyberattacks and strategic lawsuits against public participation cases are highly visible, as they directly affect media companies’ legal and financial interests. This asymmetry of visibility exacerbates the erosion of journalists’ professional integrity and their societal role.<hr/>Resumo A investigação sobre a segurança dos jornalistas evidencia duas dimensões interligadas: os riscos físicos em zonas de conflito e os riscos menos tangíveis que afetam o desempenho em contextos considerados relativamente seguros. Na Letónia, como noutros países europeus, os jornalistas são alvo de humilhações online, assédio, discurso de ódio e ataques à sua credibilidade profissional. Perante este cenário, colocam-se duas questões centrais: quais são as perceções dos jornalistas relativamente aos riscos para a sua segurança? Estarão as instituições de média preparadas para prestar o apoio adequado? Este artigo analisa as perceções dos profissionais dos média letões relativamente a problemas de segurança associados ao trabalho e aos mecanismos disponíveis para mitigar o stress e os riscos. Foi seguida uma metodologia mista que integrou análise da literatura, um painel de Delphi em duas rondas a especialistas (25 e 23 participantes de média nacionais e regionais, organizações não governamentais e entidades ligadas ao jornalismo), oito entrevistas semiestruturadas com advogados e especialistas em direito dos média, estudos de caso de decisões judiciais e três grupos focais (com especialistas jurídicos, gestores de média e jornalistas de investigação). Os resultados revelam um ambiente de ameaças complexo, onde coexistem múltiplos riscos, mas as estruturas de apoio permanecem limitadas. Mulheres, repórteres regionais, jornalistas de língua russa e freelancers surgem como os grupos mais vulneráveis, enfrentando riscos de segurança influenciados tanto pela invisibilidade de grupo - quando as suas identidades profissionais não são devidamente reconhecidas - como pela preocupação com a invisibilidade - quando ameaças persistentes são normalizadas ou desvalorizadas. Embora algumas insuficiências institucionais resultem de restrições de recursos e da falta de competências jurídicas ou psicológicas, a relutância em agir e as práticas reativas fragilizam ainda mais as respostas organizacionais. A ausência de ação eficaz por parte das autoridades policiais e dos tribunais, a par do aumento das ações judiciais estratégicas contra a participação pública, reforça uma “cultura de impunidade”. Deste modo, emerge um paradoxo: a humilhação e o assédio online são omnipresentes e, por isso, normalizados, tornando-se efetivamente invisíveis apesar da sua persistência. Em contrapartida, os ciberataques e os processos estratégicos contra a participação pública são altamente visíveis, uma vez que afetam diretamente os interesses jurídicos e financeiros das empresas de média. Esta assimetria de visibilidade agrava a erosão da integridade profissional dos jornalistas e do seu papel social. <![CDATA[Comunidades Invisíveis: Vozes Minoritárias no Jornalismo Profissional Alavancadas Pelo Jornalismo Comunitário em Rádios Alternativas]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Assente em estudos acerca dos critérios de noticiabilidade nos média tradicionais e na invisibilidade de temáticas e grupos sociais (Hall, 1997; Traquina, 2000), este estudo enquadra-se na discussão do papel dos média na construção da realidade social e na marginalização e não representação de determinados grupos sociais. Com o avanço da internet e das redes sociais, apesar de terem sido criadas formas de exclusão mediática, com a personalização dos conteúdos através dos algoritmos (Noble, 2018; Pariser, 2011; Roberts, 2019), os média comunitários surgem como uma alternativa para dar voz a estes grupos marginalizados, através do jornalismo cidadão, comunitário e independente, promovendo a tão desejada, e prometida, maior participação cívica e democrática (Atton &amp; Hamilton, 2008; Forde, 2011; Radsch, 2016). Este estudo exploratório centra-se na análise qualitativa a quatro rádios comunitárias portuguesas, Rádio Sintoniza-T, Rádio Ophelia, Rádio Freguesia de Belém e Rádio Antecâmara, exclusivamente online, sem fins lucrativos e geridas por voluntários. A pesquisa evidencia que, apesar dos esforços dessas emissoras comunitárias para preencher as lacunas deixadas pelo jornalismo mainstream, o jornalismo praticado por estas rádios e pelos seus voluntários ainda está em desenvolvimento. O envolvimento comunitário é um desafio e as emissoras estão mais voltadas para programas culturais e de entretenimento do que para noticiários regulares e a produção de notícias, justificado pelo seu ainda curto período de existência. Contudo, o potencial dessas iniciativas é significativo, podendo evoluir para modelos mais estruturados de jornalismo alternativo, jornalismo cidadão e jornalismo comunitário, que atendam às necessidades informativas das suas comunidades.<hr/>Abstract Grounded in studies on newsworthiness criteria in traditional media and the invisibility of themes and social groups (Hall, 1997; Traquina, 2000), this study is framed within the discussion of the media’s role in constructing social reality and marginalising and non-representing certain social groups. With the rise of the internet and social media, although new forms of media exclusion have been created through the personalisation of content by algorithms (Noble, 2018; Pariser, 2011; Roberts, 2019), community media have emerged as an alternative to give voice to these marginalised groups through citizen, community, and independent journalism, promoting the long-desired - and promised - greater civic and democratic participation (Atton &amp; Hamilton, 2008; Forde, 2011; Radsch, 2016). This exploratory study focuses on a qualitative analysis of four Portuguese community radio stations: Rádio Sintoniza-T, Rádio Ophelia, Rádio Freguesia de Belém, and Rádio Antecâmara. These are exclusively online, non-profit, and volunteer-run. The research shows that, despite the efforts of these community broadcasters to fill the gaps left by mainstream journalism, the journalism practised by these radios and their volunteers is still in development. Community engagement remains a challenge, and the stations are more oriented towards cultural and entertainment programmes than towards regular newscasts and news production - a situation justified by their relatively short existence. Nevertheless, the potential of these initiatives is significant, as they may evolve into more structured models of alternative, citizen, and community journalism that meet the informational needs of their communities. <![CDATA[Os Custos Invisíveis de Trabalhar a “Diversidade” Para Jornalistas Minorizados]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract Journalism has long been criticized for its lack of diversity, both in the newsrooms and in content production. In response, media professionals, policymakers, and even some scholars commonly assume that hiring journalists from minoritized groups would lead to a more diverse and inclusive news coverage - or, put simply, that “diverse” journalists would produce more “diversity-related” content. Yet, interviews with LGBT journalists and racialized journalists working in French-speaking Belgium call this assumption into question. Drawing on 61 semi-structured interviews, this research challenges institutional discourses that frame minoritized journalists as a solution to the lack of diversity in media content. The findings highlight three key issues: minoritized journalists feel that they have a limited influence on newsroom content due to routines and bias, their efforts to improve representation result in unpaid, unrecognized and invisible labor and they face professional risks for engaging in diversity-related work. Systemic barriers embedded within newsroom routines, editorial gatekeeping and entrenched journalistic norms significantly restrict minoritized journalists’ capacity to influence media narratives. As a result, they often find their ability to shape coverage severely constrained. Yet, pushing back against these institutionalized practices and ideological frameworks in an effort to foster more inclusive reporting demands considerable labor - labor that is frequently invisible, uncompensated, and disproportionately borne by journalists from minoritized groups. Moreover, this study reveals a distinct professional penalty associated with working on diversity. Many minoritized journalists recount being cast as biased simply for defending stories that reflect the realities of their own communities, further reinforcing their precarious position within news organizations.<hr/>Resumo O jornalismo tem sido há muito criticado pela sua falta de diversidade, tanto nas redações como na produção de conteúdos. Em resposta, profissionais dos média, decisores políticos e até alguns académicos assumem frequentemente que contratar jornalistas de grupos minorizados levaria a uma cobertura noticiosa mais diversa e inclusiva - ou, dito de forma simples, que jornalistas “diversos” produziriam mais conteúdos “diversos”. No entanto, entrevistas com jornalistas LGBT e jornalistas racializados que trabalham na Bélgica francófona põem em causa esta suposição. Com base em 61 entrevistas semiestruturadas, esta investigação questiona os discursos institucionais que enquadram os jornalistas minorizados como solução para a falta de diversidade nos conteúdos mediáticos. Os resultados destacam três questões centrais: os jornalistas minorizados sentem que têm uma influência limitada sobre o conteúdo das redações devido a rotinas e preconceitos; os seus esforços para melhorar a representação resultam num trabalho não remunerado, não reconhecido e invisível; e enfrentam riscos profissionais por se envolverem em trabalho relacionado com a diversidade. As barreiras sistémicas incorporadas nas rotinas das redações, na filtragem editorial e nas normas jornalísticas enraizadas restringem significativamente a capacidade dos jornalistas minorizados de influenciar as narrativas mediáticas. Como resultado, estes veem frequentemente a sua capacidade de influenciar a cobertura extremamente limitada. Contudo, resistir a estas práticas institucionalizadas e a estes enquadramentos ideológicos, na tentativa de promover uma cobertura noticiosa mais inclusiva, exige um esforço considerável - um esforço muitas vezes invisível, não remunerado e assumido de forma desproporcionada por jornalistas de grupos minorizados. Além disso, este estudo revela uma penalização profissional particular associada ao trabalho sobre diversidade. Muitos jornalistas minorizados relatam ser considerados tendenciosos apenas por defenderem histórias que refletem as realidades das suas próprias comunidades, reforçando ainda mais a sua posição precária dentro das organizações noticiosas. <![CDATA[Evolução da Representação Fotográfica das Mulheres nas Primeiras Páginas da Imprensa Espanhola (1977-1997): Uma Análise Comparativa do <em>ABC</em> e do <em>El País</em>]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302006&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract The aim of this research is to analyse the evolution of the photographic representation of women on the front pages of the newspapers ABC and El País, based on a convenience sample of all March issues from 1977 to 1997. The research method used is visual content analysis (Neuendorf, 2017). The units of analysis were obtained from the digital newspaper archives of both newspapers, specifically the front-page archive sections. Of the 1,300 front pages examined, 242 photographs featured women. Beyond the quantitative dimension, the interpretative aspects of visual representation were also considered. This dual approach not only allows for measuring frequencies but also for understanding the cultural and ideological implications of the portrayals. The presence of women on the front pages remains a minority compared to that of men, usually not exceeding 10-15%. Results show that ABC reinforces traditional roles and the decorative representation of women, while El País highlights their political and labour presence, albeit with an emphasis on victimisation. The analysis reveals how these photographs shaped a gendered visual narrative in the press, restricting women’s visibility and recognition in political and professional spheres. Extending these findings to the present, visual stereotypes are shown to persist and to be reproduced not only in digital environments but also in artificial intelligence-generated imagery.<hr/>Resumo O objetivo desta investigação é analisar a evolução da representação fotográfica das mulheres nas primeiras páginas dos jornais ABC e El País, com base numa amostra por conveniência de todas as edições de março entre 1977 e 1997. O método de investigação utilizado foi a análise de conteúdo visual (Neuendorf, 2017). As unidades de análise foram obtidas através dos arquivos digitais dos jornais, especificamente das secções de arquivo das primeiras páginas. Das 1.300 primeiras páginas examinadas, 242 fotografias incluíam mulheres. Para além da dimensão quantitativa, também foram considerados os aspetos interpretativos da representação visual. Esta abordagem dupla permite não só medir frequências, como compreender as implicações culturais e ideológicas das representações. A presença de mulheres nas primeiras páginas continua a ser minoritária em comparação com a dos homens, normalmente não ultrapassando 10-15%. Os resultados revelam que o ABC reforça os papéis tradicionais e a representação decorativa das mulheres, enquanto o El País destaca a sua presença política e laboral, embora com ênfase na vitimização. A análise evidencia como estas fotografias moldaram uma narrativa visual de género na imprensa, restringindo a visibilidade e o reconhecimento das mulheres nas esferas política e profissional. A extrapolação destes resultados para o presente mostra que os estereótipos visuais persistem, sendo reproduzidos não só em ambientes digitais, como também em imagens geradas por inteligência artificial. <![CDATA[“Não Se Pode Guardar em Algodão, Nem Embalar em Seda”: Experiências de Jornalistas Sámi na Cobertura da Violência Sexual]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000302007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This article examines the internal experiences of Indigenous Sámi journalists reporting on sexual violence in their homeland of Sápmi, a region spanning the Northern areas of Norway, Sweden, and Finland, and the Kola Peninsula of Russia. Drawing on interviews with nine Sámi journalists and an analysis of 30 articles from Sámi news publications, the study identifies the challenges they face in their reporting. These include their experiences of hostile work environments and a deep, almost indescribable discomfort at the prospect of encountering the subjects of their reporting in non-professional “arenas” (Clarke et al., 2018) such as grocery stores or weddings. Using situational analysis, the study explores how these challenges are also relational, situated within interacting social worlds. Although they were not explicitly asked about their own experiences of harassment, five out of six female Sámi journalists shared that they had been sexually harassed at work, some saying that this impacted their sexual violence reporting. Some of those participants felt the incidents had not affected them, while others described longstanding negative impacts on their self-esteem and recent efforts to discuss their experiences with fellow journalists. The findings point to a need for scholarly attention to the complex internal and relational lives of Indigenous journalists.<hr/>Resumo Este artigo analisa as experiências internas de jornalistas indígenas sámi ao reportar sobre violência sexual na sua terra natal, Sápmi, uma região que abrange as áreas do Norte da Noruega, da Suécia e da Finlândia, bem como a Península de Kola, na Rússia. Com base em entrevistas a nove jornalistas sámi e na análise de 30 artigos de publicações noticiosas sámi, o estudo identifica os desafios que enfrentam no exercício da atividade jornalística. Estes desafios incluem experiências de ambientes de trabalho hostis e um desconforto profundo, quase indescritível, perante a possibilidade de encontrar os sujeitos das suas reportagens em “arenas” não profissionais (Clarke et al., 2018), como supermercados ou casamentos. Recorrendo à análise situacional, o estudo explora de que forma estes desafios são também de natureza relacional, inseridos em mundos sociais em constante interação. Embora não tenham sido explicitamente questionadas sobre as suas próprias experiências de assédio, cinco das seis jornalistas sámi relataram ter sido alvo de assédio sexual no local de trabalho, referindo algumas que tal teve impacto na sua cobertura da violência sexual. Algumas dessas participantes afirmaram que os incidentes não as afetaram, enquanto outras descreveram impactos negativos duradouros na sua autoestima e tentativas recentes para discutir as suas experiências com colegas jornalistas. Os resultados apontam para a necessidade de uma maior atenção académica às complexas dimensões internas e relacionais da vida profissional dos jornalistas indígenas. <![CDATA[Arquitetura e Branding: O Património Como Elemento da Identidade Corporativa nas Universidades]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000305001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This study examines the role of architecture in shaping the corporate identity of universities designated as “UNESCO World Heritage Sites”. The objective is to assess how these institutions utilize their architectural heritage in institutional communication, particularly through their official videos, to reinforce their image and values. To this end, a qualitative methodology is employed, based on audiovisual discourse analysis, adopting the heritage quotient model, which allows for the examination of five key dimensions of heritage brands: trajectory, longevity, values, symbols, and history as identity. The analysis of institutional videos from the University of Coimbra, the National Autonomous University of Mexico, and the University of Alcalá confirms that architecture is not merely a functional space but also a symbolic resource that conveys prestige, continuity, and institutional legitimacy. It is observed that the prominent architectural spaces featured in institutional videos serve as key elements in the construction of university identity and their heritage branding strategy. Ultimately, the research concludes that architecture is a strategic asset in the institutional communication of heritage universities.<hr/>Resumo O presente estudo analisa o papel da arquitetura na construção da identidade corporativa de universidades classificadas como “Património Mundial da Unesco”. Pretende-se compreender de que forma estas instituições integram o seu património arquitetónico na comunicação institucional, em particular através dos seus vídeos oficiais, visando reforçar a sua imagem e valores. Para tal, recorre-se a uma abordagem qualitativa, baseada na análise do discurso audiovisual, utilizando o modelo do quociente patrimonial, que permite explorar cinco dimensões fundamentais das marcas patrimoniais: trajetória, longevidade, valores, símbolos e história como identidade. A análise dos vídeos institucionais da Universidade de Coimbra, da Universidade Nacional Autónoma do México e da Universidade de Alcalá demonstra que a arquitetura funciona não apenas como espaço funcional, mas também como recurso simbólico, transmitindo prestígio, continuidade e legitimidade institucional. Verifica-se que os espaços arquitetónicos destacados nesses vídeos desempenham um papel central na construção da identidade universitária e na respetiva estratégia de branding patrimonial. Em suma, conclui-se que a arquitetura constitui um ativo estratégico na comunicação institucional das universidades patrimoniais. <![CDATA[O Apelo à Emoção nas Estratégias de Comunicação: O Caso das Universidades Espanholas no Instagram]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000305002&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo O objetivo deste artigo é analisar as emoções que as universidades espanholas mobilizaram a partir dos seus perfis no Instagram, no início do ano letivo de 2024/2025. O regresso às aulas é um momento importante de primeiro contato das universidades com os novos estudantes, por isso, consideramos pertinente estudar as estratégias de comunicação utilizadas neste período. Como metodologia, combinamos a análise retórica e a análise do discurso digital, complementadas por entrevistas semiestruturadas com os profissionais de comunicação de quatro universidades (Universidade Autônoma de Barcelona, Universidade Complutense de Madrid, Universidade de Salamanca e Universidade de Sevilha). Os resultados identificaram que estas instituições adotam um discurso multimodal (com textos, imagens e vídeos) e multiplataforma (por exemplo, o seu site e outras plataformas sociais, como o TikTok). As universidades procuram construir um ethos de internacionalização, bem como despertar nos estudantes emoções de orgulho, pertencimento e nostalgia. Também foi possível concluir que os profissionais de comunicação universitária mobilizam intencionalmente emoções na sua comunicação em plataformas digitais, como, por exemplo, no Instagram, para captar a atenção e o envolvimento dos seus públicos. No entanto, apesar deste esforço comunicativo, a interação do público permanece baixa. Ou seja, a mobilização de emoções funciona, mas ainda não é suficiente para estabelecer uma conexão mais profunda com os estudantes online.<hr/>Abstract This article analyses the emotions conveyed by Spanish universities through their Instagram profiles at the start of the 2024/2025 academic year. The beginning of the academic year marks a pivotal moment of first contact between universities and incoming students; as such, it is particularly relevant to examine the communication strategies employed at this time. The research adopted an integrated methodology, combining rhetorical analysis and digital discourse analysis with semi-structured interviews conducted with communication professionals from four universities: the Autonomous University of Barcelona, Complutense University of Madrid, University of Salamanca, and University of Seville. The findings indicate that these institutions adopt a multimodal discourse - incorporating text, images, and videos - and a multiplatform approach, utilising their websites and other social media platforms, such as TikTok. The universities aim to construct an ethos of internationalisation and evoke emotions such as pride, belonging, and nostalgia among students. The findings also indicate that university communication professionals intentionally evoke emotions in their digital communications, such as on Instagram, to attract attention and foster engagement among their audiences. Nevertheless, despite these efforts, interaction levels remain low. In other words, although emotional appeal proves effective, it remains insufficient to establish a deeper connection with online student audiences. <![CDATA[A Plataforma X e a Redefinição da Comunicação Política na Colômbia: Um Olhar Sobre a Literatura Recente]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000305003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Os estudos sobre a relevância da plataforma X nos processos de informação e comunicação política na Colômbia experimentaram um aumento considerável nas últimas duas décadas. Mediante uma revisão sistemática da literatura, que explorou os estudos publicados entre 2016 e 2022, e utilizando uma abordagem metodológica multidimensional, foram identificados os contextos em que esses estudos foram desenvolvidos e os desafios enfrentados por esse campo de pesquisa. Foram analisados 42 documentos científicos indexados em bases de dados como a Scopus, EBSCO, ScienceDirect, JSTOR, ProQuest e Google Acadêmico, aplicando rigorosos critérios de inclusão e exclusão, conforme o protocolo PRISMA. Os resultados foram organizados em três categorias principais: atores (emissores e destinatários), debates políticos e campanhas eleitorais, destacando-se a crescente influência do microblogue na política colombiana. Apurou-se que a plataforma X é amplamente utilizada no cenário político do país, transformando as dinâmicas de interação entre atores políticos, e consolidou-se como um espaço chave para o engajamento político e eleitoral na Colômbia. Os resultados fornecem um quadro analítico para estudar o impacto das plataformas digitais na política e contribuem para a literatura global em comunicação política, explorando dinâmicas informacionais em contextos democráticos.<hr/>Abstract Research on the significance of platform X in Colombia’s political information and communication processes has grown substantially over the past two decades. This study presents a systematic review of the literature published between 2016 and 2022, employing a multidimensional methodological approach to identify the contexts in which these studies were conducted and the challenges faced within this field of inquiry. Drawing on peer-reviewed publications indexed in databases such as Scopus, EBSCO, ScienceDirect, JSTOR, ProQuest and Google Scholar, and applying rigorous inclusion and exclusion criteria following the PRISMA protocol, the review identified 42 relevant studies. The findings were organised into three main categories: actors (senders and recipients), political debates, and electoral campaigns, emphasising the increasing influence of microblogging on Colombian politics. The analysis reveals that platform X is extensively utilised within the country’s political landscape, reshaping interaction dynamics among political actors and establishing itself as a key arena for political and electoral engagement. The results offer an analytical framework for examining the impact of digital platforms on politics and contribute to the global literature on political communication by exploring informational dynamics in democratic contexts. <![CDATA[Ativismo Etílico: Convocações Discursivas e Publicitárias ao Consumo de Cervejas Panfletárias]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000305004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Este artigo analisa as estratégias discursivas de convocação ao consumo presentes em rótulos de cervejarias artesanais que fizeram referência às eleições presidenciais brasileiras de 2022. A partir dos pressupostos teóricos e metodológicos da análise de discurso de linha francesa, foram examinados os rótulos das cervejarias Rock n’ Bräu, Mito, Vapor Negro e Hey Ho, produzidos entre janeiro e setembro de 2022 e divulgados em sites e redes sociais. O estudo busca compreender de que modo esses rótulos funcionam como palavras de ordem e enunciados performativos que vinculam o ato de beber a formas de engajamento político e moral, produzindo o que se denomina “consumo efígico”. Os resultados mostram que as marcas mobilizam discursos alusivos ao pertencimento político, à ironia e à celebração de candidatos, transformando o rótulo em espaço de expressão ideológica e de circulação de afetos cívicos. Conclui-se que as cervejas panfletárias exemplificam um movimento de politização dos objetos de consumo, no qual a comunicação publicitária atua como mediadora simbólica entre consumo e participação pública. O artigo contribui para o campo da comunicação publicitária ao evidenciar como marcas de pequeno porte podem intervir no debate político por meio de estratégias criativas de branding e discurso, ampliando as fronteiras entre publicidade, cultura e política.<hr/>Abstract This article examines the discursive strategies of consumption solicitation on craft beer labels that referenced the 2022 Brazilian presidential elections. Drawing on the theoretical and methodological assumptions of the French-line discourse approach, the labels of the breweries Rock n’ Bräu, Mito, Vapor Negro, and Hey Ho, produced between January and September 2022 and disseminated on websites and social media, were analysed. The study aims to understand how these labels function as rallying cries and performative utterances that associate drinking with forms of political and moral engagement, producing what is termed “effigial consumption”. The results indicate that the brands mobilise discourses of political belonging, irony, and candidate celebration, transforming the label into a space for ideological expression and the circulation of civic affects. It is concluded that pamphlet-style beers exemplify a movement towards the politicisation of consumer objects, in which advertising communication acts as a symbolic mediator between consumption and public participation. The article contributes to the field of advertising communication by demonstrating how small-scale brands can intervene in political debate through creative branding and discourse strategies, expanding the boundaries between advertising, culture, and politics. <![CDATA[Desinformação Climática no TikTok no Brasil: Ciência e Autoridades Epistêmicas em Disputa]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-35752025000305005&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo Os recordes na temperatura média da Terra e a reincidência de eventos extremos tornaram as mudanças climáticas agenda central de organizações internacionais e governos de todo o mundo. A crise epistêmica da ciência, em paralelo com o avanço de sistemas de crenças individuais, acende um alerta sobre a propagação de desinformação climática, sobretudo com a midiatização do cotidiano em plataformas de redes sociais. Neste artigo, analisamos os sentidos circulados em conteúdos desinformativos sobre mudanças climáticas publicados no TikTok, para identificar quais atores, recursos técnicos e estratégias discursivas foram mobilizados para reforçar narrativas acerca do tema. Com esta finalidade, recorremos a procedimentos metodológicos vindos da análise de conteúdo para examinar materiais desinformativos selecionados randomicamente no TikTok a partir das palavras-chave “mudança climática”, “mudanças climáticas” e “aquecimento global”. Foram analisados 207 vídeos. Nossos resultados evidenciam um percentual alto (71%) de materiais recortados ou descontextualizados no TikTok que recorrem a argumentos científicos ou jornalísticos para propagar factoides sobre as mudanças climáticas. Contraditoriamente, os principais vetores da desinformação são profissionais da ciência ou jornalistas (34%), cujo capital científico é mobilizado em vídeos para desinformar, com ou sem intencionalidade do protagonista. Assim, os resultados apontam que há instrumentalização da ciência e mobilização de cientistas para promover uma desordem informacional baseada em exageros quanto às mudanças climáticas e seus desdobramentos, demandando ações coletivas igualmente complexas para mitigar tais efeitos.<hr/>Abstract Record highs in the Earth’s average temperature and the recurrent occurrence of extreme events have made climate change a central focus of international organisations’ and governments’ agendas worldwide. The epistemic crisis in science, together with the rise of individual belief systems, raises concerns about the spread of climate disinformation, particularly in a context where social networking platforms increasingly mediate everyday life. This article analyses the meanings conveyed in disinformation-based content about climate change published on TikTok to identify which actors, technical resources, and discursive strategies are mobilised to reinforce narratives on the topic. To this end, methodological procedures drawn from content analysis are employed to examine disinformation-based material randomly selected on TikTok using the keywords “climate change”, “climate changes” and “global warming”. A total of 207 videos were analysed. The results indicate a high percentage (71%) of cropped or decontextualised materials on TikTok that rely on scientific or journalistic arguments to disseminate factoids about climate change. Paradoxically, the main vectors of disinformation are science professionals or journalists (34%), whose scientific capital is mobilised in videos to disinform, whether intentionally or unintentionally, by the protagonist. These results thus suggest that science is being instrumentalised and scientists are being mobilised to promote an informational disorder based on exaggerations about climate change and its consequences, requiring equally complex collective actions to mitigate these effects.