Scielo RSS <![CDATA[Vista. Revista de Cultura Visual]]> http://scielo.pt/rss.php?pid=2184-128420260001&lang=pt vol. num. 17 lang. pt <![CDATA[SciELO Logo]]> http://scielo.pt/img/en/fbpelogp.gif http://scielo.pt <![CDATA[Paisagens Fabulatórias do Deslocamento: Cinema, Alteridade e Cartografia em <em>Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos</em>]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2184-12842026000102001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Resumo O artigo parte de uma reflexão sobre as experiências de deslocamento e migração no cinema contemporâneo, centrando-se na análise do filme Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos (2018), de Renée Messora e João Salaviza. Partindo do conceito de “fabulação”, formulado por Gilles Deleuze, discute-se de que modo as práticas cinematográficas realizadas em contextos de desterritorialização mobilizam-na como gesto criativo, que emerge do encontro com a alteridade e da abertura a outras temporalidades, afetos e epistemologias. A análise do filme enfatiza o seu processo de criação, marcado por uma convivência prolongada entre os realizadores e a comunidade indígena krahô, no Tocantins, que resulta em um modo ritualizado e colaborativo de filmar. Nesse contexto, o deslocamento figura como condição constitutiva da forma fílmica, do olhar e das relações intersubjetivas que sustentam o filme. Em diálogo com o conceito de “espaço diaspórico”, proposto por Avtar Brah (2005), argumenta-se que o filme constrói um espaço relacional, no qual fronteiras são constantemente negociadas, tanto para os realizadores quanto para os personagens. Por fim, o artigo propõe uma aproximação do filme e do método cartográfico, entendendo a obra como uma prática de mapeamento sensível, baseada no agenciamento coletivo. Defendese que a cartografia oferece ferramentas conceituais fecundas para acompanhar práticas cinematográficas colaborativas, nas quais sujeito e objeto emergem conjuntamente e onde o cinema se afirma como espaço de produção do comum e de reconfiguração dos modos de estar no mundo.<hr/>Abstract This article reflects on experiences of displacement and migration in contemporary cinema, focusing on the film Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos (The Dead and the Others; 2018), directed by Renée Messora and João Salaviza. Drawing on Gilles Deleuze’s concept of “fabulation,” the discussion examines how cinematic practices developed in contexts of deterritorialisation mobilise fabulation as a creative gesture emerging from encounters with alterity and an openness to other temporalities, affects, and epistemologies. The analysis emphasises the film’s creative process, characterised by a prolonged coexistence between the filmmakers and the Krahô Indigenous community in Tocantins, resulting in a ritualised, collaborative mode of filmmaking. Within this context, displacement appears as a constitutive condition of film form, the gaze, and the intersubjective relations that sustain the film. In dialogue with the concept of “diasporic space”, proposed by Avtar Brah (2005), it is argued that the film constructs a relational space in which boundaries are constantly negotiated, both for the filmmakers and for the characters. Finally, the article proposes an approach linking the film to the cartographic method, understanding the work as a practice of sensitive mapping grounded in collective assemblage. Cartography is therefore regarded as providing fertile conceptual tools for tracing collaborative cinematic practices in which subject and object co-emerge, and where cinema functions as a space for the production of the common and the reconfiguration of modes of being in the world. <![CDATA[Reelaborar os Legados Visuais dos Arquivos Fotográficos Coloniais com e Através do Eu: Uma Conversa com Dzifa Peters e Nurul Huda Rashid]]> http://scielo.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2184-12842026000104001&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt Abstract This interview is a follow-up on the symposium “Visual Legacies: Colonial Photographic Archives and the Self” held at Erasmus University Rotterdam in November 2025. This symposium explored the potential of artistic practices to reimagine colonial imagery and its impact on identity formation, featuring the works of artists-researchers Dzifa Peters and Nurul Huda Rashid. The two presented their research, which critically engages with photographic legacies. Dzifa Peters, a German-Ghanaian artist and scholar, draws on her bicultural background to reflect on colonial and diasporic contexts. Her work employs photography, photomontage, and installation to expose tensions between private and public archives, institutional frameworks, and personal narratives. She engages with both vernacular and institutional archives, reworking them through historical narratives and imaginative reinterpretations. Nurul Huda Rashid focuses on the algorithmic circulation of images depicting Muslim women. Through annotation and workshops with Muslim women, she investigates methods to disrupt the classification and reproduction of dominant imagery, thereby advocating for alternative modes of opacity and visibility. In the interview, Peters and Rashid discuss the influence of inherited images on self-perception and societal ways of seeing. They explore the role of artistic practice in challenging visual legacies and offer strategies to mitigate the colonial gaze and rework existing photographs to foster new meanings, care, and resistance.<hr/>Resumo Esta entrevista dá seguimento ao simpósio “Visual Legacies: Colonial Photographic Archives and the Self”, realizado na Universidade Erasmus de Roterdão em novembro de 2025. O simpósio explorou o potencial das práticas artísticas para reimaginar a imagética colonial e o seu impacto na formação das identidades, apresentando os trabalhos das artistas-investigadoras Dzifa Peters e Nurul Huda Rashid. Ambas apresentaram as suas investigações, que se dedicam a uma análise crítica dos legados fotográficos coloniais. Dzifa Peters, artista e investigadora germano-ganesa, parte da sua experiência bicultural para refletir sobre contextos coloniais e diaspóricos. O seu trabalho recorre à fotografia, à fotomontagem e à instalação para expor tensões entre arquivos privados e públicos, enquadramentos institucionais e narrativas pessoais. Trabalha tanto com arquivos vernaculares como institucionais, reelaborando-os através de narrativas históricas e de reinterpretações imaginativas. Nurul Huda Rashid centra-se na circulação algorítmica de imagens de mulheres muçulmanas. Através da anotação e de oficinas com mulheres muçulmanas, investiga métodos para perturbar a classificação e a reprodução de imagética dominante, defendendo, assim, modos alternativos de opacidade e visibilidade. Na entrevista, Peters e Rashid discutem a influência das imagens herdadas na autoperceção e nas formas sociais de ver. Exploram o papel da prática artística na contestação dos legados visuais e apresentam estratégias para mitigar o olhar colonial e reelaborar fotografias existentes, promovendo novos sentidos, cuidado e resistência.