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Etnográfica

versão impressa ISSN 0873-6561

Etnográfica vol.28 no.3 Lisboa dez. 2024  Epub 02-Dez-2024

https://doi.org/10.4000/12lai 

Artigo original

“Pra virar gente”: a imitação afetuosa nas relações das crianças Capuxu com seus bichos

To grow up: affectionate imitation in the relations of Capuxu children with their animals

Emilene Leite de Sousa1  , concetualização, curadoria de dados, análise formal, aquisição de financiamento, investigação, metodologia, administração do projeto, redação do rascunho original, redação - revisão e edição
http://orcid.org/0000-0003-2608-6677

Antonella Maria Imperatriz Tassinari2  , concetualização, análise formal, aquisição de financiamento, metodologia, redação do rascunho original, redação - revisão e edição
http://orcid.org/0000-0002-8649-7593

1 Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Brasil, emilene.sousa@ufma.br

2 Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Brasil, antonella.tassinari@ufsc.br


Resumo

Este artigo analisa as experiências das crianças Capuxu com os animais de seu convívio diário, buscando compreender como as relações das crianças com estas espécies companheiras atravessam o tecido social Capuxu conformando o sistema onomástico, a comensalidade infantil, as técnicas para a produção do corpo e as tarefas desenvolvidas pelas crianças com ou para os seus bichos. Em todas estas experiências ocorre um tipo de aprendizagem mediada pelo afeto e cuidado mútuo, num processo de imitação afetuosa, no qual as crianças fazem parentesco com os bichos e com isso, paradoxalmente, na visão dos adultos, acabam “virando gente”.

Palavras-chave: crianças; Capuxu; animais; aprendizagem; imitação

Abstract

This paper analyzes the experiences of Capuxu children with the animals they interact with daily, looking for un understanding about how children’s relationships with these companion species cross the Capuxu sociality, including the onomastic system, children’s commensality, the techniques for the production of the body and the tasks performed by children with or for their animals. In all these experiences, there is a kind of learning mediated by affection and mutual care, in a process of affectionate imitation, in which children make kinship with animals and paradoxically finish off “growing up as humans”, in the view of adults.

Keywords: children; Capuxu; animals; learning; imitation

Apresentação

Os Capuxu residem no sítio Santana-Queimadas, no sertão da Paraíba, Nordeste do Brasil, e compõem um grupo camponês cuja diferenciação está marcada através da produção de fronteiras e de um sentimento de pertença que os constitui enquanto povo. Sua etnicidade é circunscrita pelas fronteiras que estabelecem a diferenciação entre os Capuxu e os outsiders, por um sentimento de pertença que envolve o grupo e pela identificação local com certos sinais diacríticos: a aparência comum, o sotaque diferenciado, a endogamia com união preferencial entre primos, o etnônimo e a contiguidade territorial (Sousa 2014a). O etnônimo Capuxu faz referência a um antepassado que se chamava João e tinha como hábito a caça de abelha da espécie Capuxu, de modo que o apelido João Capuxu lhe foi concedido pela população das redondezas e repassado de geração a geração tornando-se etnônimo do grupo (idem, ibidem).

O povo Capuxu é composto por aproximadamente 200 habitantes organizados em 39 famílias. Vivem praticamente da agricultura, dos programas de transferência de renda condicionada, como o Programa Bolsa Família, e de aposentadorias, já que boa parte do grupo é idosa com marcante longevidade. Quando jovens, migram para o estado de São Paulo onde conseguem construir carreiras de sucesso como comerciantes, mas voltam para o sítio ao envelhecer. No sítio Santana-Queimadas há escola de ensino fundamental, posto de saúde, igreja católica com casa paroquial agregada, campo de futebol e pequenos comércios. Está a 8 km da cidade de Santa Terezinha que é detentora de 4500 habitantes.

Este texto parte da pesquisa de doutorado de Emilene Sousa orientada por Antonella Tassinari, cujos resultados foram revisitados sob uma nova perspectiva, provocada pelos desenhos feitos pelas crianças. Naquele trabalho, sem isolar as crianças do grupo ao qual pertencem, Sousa (2014a) elaborou uma etnografia do corpo, da pessoa e da etnicidade Capuxu, fazendo uso da observação direta, dos desenhos e das conversas informais em uma investigação com e sobre crianças.1

Dentre os aspectos que se demonstraram profícuos para entender a produção da pessoa Capuxu, Sousa se debruçou sobre a gestão onomástica, uma vez que o nome produz a pessoa. Foi este tema que nos fez atentar para outro tipo de gestão onomástica revelada por meio dos desenhos das crianças: a nominação dos bichos. Os desenhos chamaram a atenção por duas razões: primeiro, o fato de as crianças terem incluído animais nos desenhos; segundo, o fato de terem nomeado todos os animais que apareciam nos desenhos, quando nem mesmo as pessoas eram nomeadas. Foi assim que os desenhos infantis nos guiaram não apenas à onomástica dos bichos e ao protagonismo infantil, tendo em vista que a atribuição de nomes aos bichos é tarefa das crianças, mas à forma como se estabelecem, desde a infância, relações entre pessoas e bichos no sítio Santana-Queimadas, relações fundamentais para a produção da pessoa Capuxu, ou como falam, para “virar gente”.

Neste artigo refletimos sobre as experiências das crianças Capuxu com os animais a partir de uma análise das formas de nominar os bichos, comer com eles, cuidar e serem cuidados por eles. Procuramos apresentar um tipo de aprendizagem em que a experiência com os animais é fundamental: a do modo de ser Capuxu formatada por relações entre humanos e não humanos,2 tão caras ao sertanejo, ao campesinato e ao povo Capuxu.

Das relações entre espécies

Inspiradas em Mauss (1974 [1934]) e seu texto clássico sobre as técnicas corporais, que aponta para a aprendizagem através da “imitação prestigiosa”,3 partimos da hipótese de que por meio de uma imitação afetuosa as crianças Capuxu aprendem com os animais uma série de técnicas corporais que as auxiliam na dinâmica produção do corpo, dando início - paradoxalmente, através da imitação dos animais - ao processo de “virar gente”, diferenciando-se dos bichos. Se Mauss ressaltava a tendência em imitar as pessoas de prestígio como fonte de uma aprendizagem cotidiana, silenciosa e atenta para os mínimos movimentos, procuramos mostrar que esse mesmo movimento imitativo ocorre frente àqueles a quem as crianças dirigem seu afeto, incluindo os bichos de sua convivência diária.

Os vínculos sociais que se ancoram nas relações com animais não passaram despercebidos da Antropologia clássica, como as relações dos Nuer com o gado, tão bem analisada por Evans-Pritchard (2002 [1940]), que retomamos ao longo do texto. Mas foi nas últimas décadas que as relações entre humanos e outras espécies, incluindo animais, plantas e fungos, foram apontadas como constituintes da vida social, e estes como seres que compartilham uma vida comum com humanos, sendo incluídos na investigação antropológica. As contribuições vieram justamente de autores e autoras com formação inicial em Ciências Naturais, como Donna Haraway (2021) e Tim Ingold (2010), ou em Psicologia, como Christina Toren (2012), que inspiram nossas reflexões sobre as relações das crianças Capuxu com os animais, principalmente por questionarem as distinções alicerçadas numa contraposição entre natureza e cultura.

Haraway (2021), em seu Manifesto das Espécies Companheiras, empresta da biologia evolutiva a ideia de “simbiogênese”, que considera que a evolução da vida no planeta se deu a partir de relações de ajuda mútua entre organismos mais simples para a formação de um ambiente propício ao surgimento de organismos mais complexos. A partir disso a autora propõe a ideia de “naturezas-culturas emergentes”, de modo a esbater fronteiras entre natureza e cultura e considerar como diferentes espécies têm se desconstruído enquanto espécies distintas e “fazendo parentesco” entre si.

Ingold (2010) também problematiza a visão do ser humano cindida entre uma dimensão biológica (enquanto organismos) e cultural (enquanto pessoas), propondo considerar “a realização da pessoa/organismo inteiro em um ambiente” a partir de uma “abordagem ecológica”: “Sua premissa básica é que a cognoscibilidade humana está baseada não em alguma combinação de capacidades inatas e competências adquiridas, mas em habilidade (skills)”. (id. ibid.: 18). O conceito de habilitação, enquanto processo que envolve uma educação da atenção, realizada em movimentos de imitação/improvisação ou de cópias enquanto redescobrimentos dirigidos, é central para nossa análise das relações das crianças Capuxu com os animais. Citando a contribuição de Gibson (1979: 246 apudIngold 2010: 21) a respeito de uma psicologia ecológica, o autor defende que a aprendizagem se dá “através de uma sintonia fina ou sensibilização de todo o sistema perceptivo, incluindo o cérebro e os órgãos receptores periféricos junto com suas conexões neurais e musculares, com aspectos específicos do ambiente”.

Toren propõe igualmente uma abordagem antropológica que considere o ser humano integral (e não apenas o ser pensante racional cartesiano), argumentando que “em humanos, o biológico e o social são aspectos uns dos outros ou, colocando de outro modo, como humanos, nos é dado requerer os outros se quisermos alcançar nossa respectiva poiesis” (Toren 2001: 159, tradução nossa). A noção de autopoiesis, analisada por Maturana e Varela (1972 apudToren 1993) como característica de todos os organismos, é proposta pela autora para pensar o desenvolvimento humano como um processo de autoprodução ou autocriação. A ênfase na intersubjetividade, considerada “a condição primária do ser humano no mundo”, coloca o desenvolvimento autopoiético humano como intrinsecamente social, intersubjetivo e atrelado a um contexto micro-histórico. Embora o foco das análises da autora sejam os vínculos que as crianças estabelecem com a família, sua abordagem nos inspira a pensar na extensão desses vínculos intersubjetivos das crianças com seus bichos.

Atenta aos desenhos das crianças de Fiji sobre o ritual da bebida kava, Toren (1993) observou que os significados que as crianças atribuem à hierarquia implícita no ritual eram inversões dos significados atribuídos pelos adultos. Ao comparar essa constatação com materiais etnográficos sobre crianças de outras duas populações da Melanésia (pesquisadas por Margaret Mead e Anthony Forge nos anos 1930 e 1970, respectivamente), Toren reconhece essas mesmas inversões de significados dados por adultos e crianças, concluindo que a cognição é mais bem compreendida como um processo biologicamente micro-histórico e que “um estudo sistemático de como as crianças constituem seu conhecimento sobre o mundo é crucial para qualquer análise das relações coletivas” (Toren 1993: 461).

O livro de Taylor e Pacini-Ketchabaw (2019) desenvolve uma interessante contribuição para nossa análise, ao abordar as relações entre crianças e animais que se interconectam na produção de mundos comuns. A obra toma de empréstimo a categoria mundos comuns de Latour (2004, 2011, 2014 apud op. cit.) para explorar os encontros cotidianos e o emaranhamento das relações entre crianças e animais. Defendem que as crianças crescem em comunidades geográficas, biológicas e culturalmente diversas não apenas em sociedades humanas, refletindo como crianças e animais estão emaranhados nesse mundo comum. Este mundo comum não é o cenário onde tudo se passa, mas o processo das relações e interações coletivas dos seres, já que nos mundos comuns a agência não é exclusivamente humana, focando na agência coletiva de crianças e animais. As autoras aproximam a categoria de mundos comuns com o que Donna Haraway (2021) chama de “fazer mundo juntos”, enfatizando sua dimensão processual (como verbo e não como substantivo).

As vidas de crianças e animais estão material, semiótica e ecologicamente entrelaçadas e são mutuamente constitutivas. Um exemplo disso são as espécies companheiras cuja relação com as crianças é marcada por rotinas, proximidades físicas, familiaridades, companheirismo, cuidado, aprendizagem, exercício e trabalho. Todavia, as autoras defendem que o contato real entre crianças e animais nunca está fora de um contexto discursivo semiótico, havendo uma herança cultural que precede e molda estas relações.

Utilizando essas contribuições, procuramos mostrar que nos seus processos de “virar gente” as crianças Capuxu “fazem parentesco” com os bichos do seu cotidiano, nomeando-os, comendo junto com eles, aprendendo com seus movimentos. Através de uma “imitação afetuosa” de seus bichos, descobrem os movimentos e possibilidades de seus corpos e criam vínculos intersubjetivos com eles, tornando-os parte importante de seu processo de desenvolvimento autopoiético.

Argumentamos que é por meio do interesse das crianças na imitação dos bichos e de suas habilidades que as crianças Capuxu “viram gente”. “Virar gente”, esta categoria nativa que intitula o artigo, sendo um conceito de experiência próxima (Geertz 2000), é geralmente usado pelos adultos para se referir às crianças em seu convívio com os animais, quando estão engatinhando ao lado deles ou segurando em suas costas para andar, quando estão balbuciando sons parecidos com os emitidos pelos bichos: “bora aprender a andar p’ra virar gente, bicho é que anda de quatro”; “tem que aprender a falar feito gente”. Curiosamente, ao fazer parentesco com seus bichos, as crianças Capuxu, aos olhos dos adultos, vão se distinguindo deles e vão “virando gente”. Ou seja, há aqui uma diferença dos modos como as gerações consideram os animais, conforme apontado por Toren, há uma inversão nas leituras que adultos e crianças fazem das relações estabelecidas com os bichos e do que se apreende destas relações.

Sobre o contexto rural nordestino, Teixeira (2019) aborda as relações entre humanos e não humanos no sertão do Ceará, a partir das categorias locais de cristãos e pagãos (bichos brutos). O autor critica os estudos do rural no Brasil, que tomaram a produção agrícola como centro, abandonando aspectos diversos da vida campesina, inclusive as relações dos humanos com tudo o que não era humano: plantas, seres encantados, forças cósmicas e animais. Neste ponto, através da categoria entendimento, o autor revela uma aproximação entre bichos brutos e crianças, seres cujo entendimento estaria prejudicado ou pouco desenvolvido. Para o autor, entendimento “trata-se da consciência do lugar que se ocupa em um mundo habitado por outros viventes (sejam eles humanos ou não) e de um consequente e contínuo exercício de reflexão ética necessário para se viver com os outros” (2019: 147).

Daqui decorre outra importante categoria trazida por Teixeira: a de criação, utilizada tanto para animais como para crianças para se referir à constituição e ao cuidado (2019: 160-168). Em relação aos Capuxu, observamos que, no cuidado que as crianças dirigem aos seus bichos, vão progressivamente passando de “criação”/“pessoas cuidadas” para cuidadoras, aspecto que também se relaciona ao processo de “virar gente”.

Como na etnografia de Teixeira (2019), também entre os Capuxu, se ocorre os animais morderem ou ferirem uma criança, é certo que o fazem por acidente ou porque não detêm entendimento. É comum que as crianças desajeitadas pisem a cauda de seus cachorros. Se o fazem durante uma brincadeira, os cães emitirão um grito ou rugido, sendo logo acariciados, mas se são pegos desprevenidos, dormindo, por exemplo, podem agir impulsivamente e morder a criança. O mesmo ocorre durante uma briga entre cães em que a criança tenta intervir e acaba sendo mordida. Nestes casos, pode ocorrer da criança chorosa brigar com seu animal, apontá-lo furiosa e até jogar o que alcançar nele, mas os adultos vão sempre explicar “não foi porque quis”, e defender o animal que, machucado enquanto dormia, reagiu com uma mordida sem que tivesse “tempo de pensar”, atribuindo a racionalidade humana aos animais.

A relação entre crianças Capuxu e animais é marcada pela prevalência da vontade humana sobre os demais. São as crianças que os encaminham para onde devem ir, que os chamam para acompanhá-los nos longos mandados, que os proíbem de determinadas ações. Quando um cachorro se aproxima de qualquer resto de animal morto para comê-lo, ouvirá da criança: “Não! Solta isso”, ou “saia daí!” em tom de ordem. As crianças se esbaldam em mandar nos animais, os únicos sobre os quais elas podem mandar, imitando os adultos. Embora cachorros e gatos não estejam presos às coleiras ou cordas, geralmente acompanham seus donos que os ordenam. Quanto aos outros animais, de criação, como porcos, cabras, bezerros, galinhas, todos estes obedecem às crianças que exercem seu poder sobre eles na hora de prendê-los sob seus gritos agudos que ecoam pelos lajedos: “Bora, bora, Gasolina, Estrelinha, Branquinha”, e seguem exercendo seu poder de coerção sobre o rebanho.

O nome: das pessoas e dos bichos

Embora a relação entre humanos e animais não seja apanágio da infância Capuxu, mas de toda a comunidade, as crianças desenvolvem uma série de experiências próprias com os bichos: experiências com o sistema de nominação, com o corpo, com os modos de comer, e nas atividades que as crianças desenvolvem junto aos bichos ou nos cuidados com eles.

Sousa (2014b) já demonstrara que as crianças Capuxu são responsáveis por nomear os animais e que o sistema de nominação é parte dos processos de construção da pessoa (Moura 2010; Silva 1986). Além de se constituir num signo de identidade, a nomeação revela formas de interação e distinção entre indivíduos e entre grupos e produz um senso de comunidade, como aponta Zonabend (1977). No caso Capuxu, o nome é um importante idioma revelador das relações de parentesco - especialmente neste sistema endogâmico - da construção da pessoa e da produção e compartilhamento da identidade Capuxu.

Antes de nascer, as crianças Capuxu já possuem um nome através do qual serão reconhecidas. Nomear o feto é conceder-lhe um dos primeiros atributos reconhecidos da pessoa - embora não exclusivamente da pessoa humana pois, como vimos, as crianças atribuem nomes aos bichos. O fato de os animais serem nomeados pelas crianças revela a importância dos primeiros na produção dos corpos dos segundos: as relações mais estreitas entre humanos e não humanos em Santana-Queimadas ocorre entre as crianças e os bichos.

Embora as relações intersubjetivas entre estes agentes ocorram antes mesmo que as crianças possam falar e nomear os seus bichos, começamos a dar conta desta relação a partir dos sistemas de nominação, sua importância na formação da pessoa para a literatura antropológica e sua importância para unir humanos e não humanos, pessoas e bichos entre os Capuxu. Para o povo Capuxu dar nomes aos animais é um modo de compartilhar com eles uma espécie de lugar comum no mundo, o lugar dos seres nominados, sejam eles humanos ou não.

Evans-Pritchard (2002 [1940]) conta que, entre os Nuer, os nomes próprios são marcados pela atividade pastoril, pois os homens são chamados por nomes de seus bois favoritos e as mulheres recebem os nomes de vacas que elas ordenham. Os meninos também se chamam uns aos outros por nomes de bois quando brincam nos pastos e a criança geralmente recebe o nome da cria da vaca que ela e sua mãe ordenham. Os chamados nomes-de-gado podem ser legados à posteridade e não os que receberam ao nascer, revelando uma identificação lingüística de um homem com seu boi preferido. Se a lógica pastoril inerente ao pensamento Nuer aparece também em sua onomástica é porque o sistema de nominação de um povo revela muito a respeito de sua própria cosmologia e do seu modus vivendi.

O povo Capuxu utilizou-se, durante muito tempo, do sistema endonímico de nomeação, com a transmissão de nomes internamente e sua repetição num limitado estoque de possibilidades. Além disso, com união preferencial entre primos, encontramos na comunidade praticamente quatro sobrenomes que prevalecem: Ferreira, Menezes, Lima e Costa. Logo, não só nomes próprios se repetem no seio de uma mesma família consanguínea, mas em geral seus sobrenomes também, sendo definidores da etnicidade do povo. Com o estabelecimento de relações mais estreitas com os outsiders, a partir dos anos 1980, este sistema passou por profundas transformações, modificando-se as regras de atribuição de nomes e os sentidos destas. Os Capuxu transformaram o sistema endonímico em exonímico, importando nomes de fora da comunidade. Com a transição do sistema endonímico de nomeação das pessoas para o sistema exonímico, muda-se também os modos endonímicos e exonímicos de nomear os animais, revelando mais uma vez uma parecência no tratamento de humanos e bichos entre os Capuxu.

Uma criança revela ter tido três gatos, todos chamados Xanin: “Esse é Xanin, o outro também era, e o outro. O primeiro morreu e o segundo foi-se embora, virou ladrão”. Assim como ocorria às famílias com alto índice de mortalidade infantil no passado, sempre que uma criança morria, se no ano seguinte nascesse outra do mesmo sexo, era-lhe dado nome e sobrenome idênticos aos da irmã falecida. Ou seja, os modos de nomear as pessoas servem também para nomear animais.

Os nomes dos animais podem revelar características que são físicas, como a cor do pêlo (Branca, Nêgo, Pretinho, Pretinha, Mel, Pintado), do corpo (Rabito, Molenga), a espessura do pêlo (Fofinha), o peso (Baleia), tamanho (Gigante) ou características que remetam a coragem, determinação, habilidades (Vencedor, Caçador). Percebemos que o modo como nomeiam os animais através de características físicas remete aos mesmos critérios de escolha dos apelidos entre as próprias crianças quando estes se referem a características do fenótipo.

É também possível atribuir aos animais nomes relacionados ao temperamento: Brabim - que vem de brabo ou zangado, Mansinha; ou ao comportamento: Ventania, Furacão, esses últimos associados à velocidade. Outro fator a ser destacado é a possibilidade de se atribuir aos animais nomes de pessoas (José, Mário, Luís, Lulu, Evans, Rodrigo, João Neto, Pedro Neto, Nina, Leo), sendo este costume revelador do lugar que os animais ocupam na comunidade.

Em seu artigo sobre nomeação de espécies animais pelo povo Koyukon do Alasca, Tim Ingold (2015) aponta algumas diferenças em relação às formas ocidentais de nominar pessoas, de forma a ressaltar sua singularidade enquanto indivíduos e identificar a espécie de animais ou plantas, negando sua singularidade e destacando sua semelhança com outros seres da mesma espécie.

“Ser propriamente humano, aos olhos ocidentais, é, portanto, ser uma pessoa com uma identidade única, nomeada, e ocupar um lugar específico, nomeado, de acordo com certos princípios de aquisição. Trata-se em suma, de ter um nome e um endereço. […] Através da atribuição de nomes e endereços a animais os introduzimos em nossas casas como companheiros quase humanos.” (Ingold 2015: 244-245)

O hábito de se atribuir nomes de pessoas aos animais demonstra que as fronteiras entre eles se diluem. Ainda que os animais não sejam considerados completamente como pessoas, por não possuírem todos os atributos de pessoa, a não proibição de atribuição a estes animais de nomes de pessoas sugere que eles possuem alguns destes atributos. Afinal, nomes de pessoas colocados em animais nos fazem crer que há algo nestes que nos remete àqueles. Outrossim, se é possível ao animal ter nome de pessoa, comer dentro de casa, em algumas circunstâncias, ou ser enterrado com alguma dignidade, isto demonstra que o estatuto de pessoa pode ser atribuído, em parte, a estes. Atribuir nomes aos animais não os tornaria humanos, mas os aproximaria do estatuto de pessoas.

Entre os Capuxu não apenas os animais domésticos,4 como gatos e cachorros, são nomeados, mas todas as espécies animais que habitam com o povo o mesmo espaço, como vacas e bois, jumentos e cabras. Não existe, entre os Capuxu, um animal sem nome e esta atribuição de nomes é feita tanto por adultos quanto por crianças.

No que concerne aos adultos, os animais são companheiros de trabalho, da labuta diária, na lida agrícola. Por isso não se pode nem se deve negar um nome ao companheiro tão presente no dia-a-dia do camponês. Pensamos que a fronteira para a construção da pessoa pode passar entre os Capuxu pelos seres nominados e inominados. E o mais importante: quem mais atribui nomes aos animais são as crianças e isso, decerto, informa algo.

As experiências das crianças Capuxu com os animais

A relação da criança com os animais emerge na comunidade Capuxu nos primeiros meses de vida dos pequenos, quando chega a existir uma semelhança entre eles. É que, tal qual as crianças, crescem livres os animais (ou seria o contrário?). São estes dois os que ocupam todos os lugares do sítio a toda hora.

Juntos caminham pelas estradas, trilhas ou pela relva, matagal adentro. Juntos correm, levantando poeira tão alta nos verões dos anos fatidicamente secos, que quase não podemos enxergá-los. Juntos almoçam sentados no chão da cozinha ou de qualquer outro cômodo da casa. Vão juntos levar recados às casas da redondeza, vão à igreja, à casa paroquial e à escola. Se o pequeno entra na escola e o seu animal é um cachorro, fica o último à espera na frente da escola à mercê do tempo.

Os animais mais comuns do sítio que são de posse das crianças são cachorros e gatos. As crianças brincam com eles, os alimentam e banham. Eles adormecem dentro das casas ao longo do dia, nas sestas infindáveis, e em seus arredores ao longo da noite, cumprindo o papel de vigilante. Seguem seus donos aonde quer que eles vão. São os maiores amigos das crianças, os seus diletos brinquedos.

Mas há uma grande variedade de animais. Há aquelas crianças que preferem pintinhos ou galinhas, porquinhos ou patinhos, jumentos ou cavalos, cágados ou papagaios, bezerros ou cabritos, coelhos e iguanas. Todos os animais são do agrado das crianças, mas os filhotes têm preferência na hora de tornarem-se amigos. É que, no caso dos animais menores, é mais fácil para as crianças terem-nos nos braços, no colo ou fazerem um afago. Não é raro encontrarmos crianças e animais deitados juntos na sala enquanto veem televisão, ou crianças adormecidas em suas redes enquanto seu bicho se acomoda embaixo da rede, velando o sono de seu amigo.

As crianças falam de seus bichos constantemente, exibindo orgulhosas suas qualidades, como eles são bonitos, gordos, limpos, espertos. E não só falam deles, mas falam com eles. Dirigem-lhes palavras de carinho e afeto, contam-lhes segredos e brigam com eles por qualquer razão. Gritam-lhes seus nomes e eles vêm correndo encontrarem seus donos. No caso dos cachorros nem é preciso chamá-lo pelo nome, basta um assovio, um gesto dos dedos e um “qui, qui” numa corruptela do “aqui, aqui” e eles vêm abanando o rabinho. Mesmo aquelas crianças com vocabulário minguado estabelecem uma relação prazerosa com os seus animais com monólogos e gestos de carinho.

Curiosa é a ausência de medo das crianças com relação aos bichos. Elas atravessam uma manada, um rebanho sem qualquer temor. Ainda na primeira infância, transitam pelos currais, aproximam-se de bois, vacas, jumentos, cavalos. Tentam alcançar as galinhas e agarrá-las. Nada as assusta. E, quando crescem mais um pouco, já começam a alimentar os animais, banhá-los, domesticá-los e falam com aquela voz autoritária dos adultos segurando cipós na entrada do curral: “Ê, boi, ê…”, “Vai!”, “Estrelinha! Gasolina! Gigante! Moça Bonita!”, chama o seu cachorro, tange as vacas. O seu animal está sempre ao seu lado. Depois voltam os dois para casa e ela cuida de alimentar seu gato. Na infância Capuxu há sempre espaço para mais um bicho.

Ao conviver com os bichos em seu cotidiano, as crianças aprendem a respeitá-los. Mais do que se tornarem brinquedos para as crianças, sua principal companhia nos dias da infância, as crianças aprendem dos animais e com eles. Uma série de descobertas a respeito de si mesmo e do próprio corpo são feitas pelas crianças através dos animais, incluindo aprendizagens sobre a sexualidade.

As crianças engatinham dentro de casa tentando alcançar os seus gatos. Adormecem no chão frio da casa encostados aos seus cachorros. São levadas para longas jornadas montadas em jumentos. Antes mesmo de aprender a equilibrar-se de pé, a criança Capuxu é capaz de montar e percorrer trajetos no lombo de um jumento ou cavalo. São capazes de atravessar currais passando por baixo de pernas de vacas para buscar o leite.

Também com os animais as crianças aprendem a utilizar de maneira diferenciada e particular os espaços da casa: deitar no chão da sala, embaixo da rede, na soleira da porta. Por vezes, em espaços que somente os animais se deitam, como embaixo de mesas e cadeiras. E aprendem também a dividir a comida com os bichos dando-lhes com suas próprias mãos.

Certa ocasião uma criança de cinco anos argumentava com a avó para que essa não matasse uma galinha para comer no domingo. Ela dizia que todas as galinhas e pintinhos no terreiro pertenciam a ela, que era dona daquela “fazendinha”.5 Depois de muito interceder pela vida da galinha, predestinada a virar cozido no almoço de domingo, a criança alegou: “Vó, a galinha é um ser humano!”. A criança não hesitou em atribuir à galinha a condição de humana. Observamos que boa parte da aprendizagem corporal das crianças Capuxu se dá com os animais, de modo que a percepção do corpo da pessoa ou de si mesmo pode se dar através da descoberta do corpo do animal. O engatinhar-se, o morder-se, o lamber-se também são aprendidos, como o bebê que deita imitando o cachorro, fecha os olhos apertados imitando o gatinho e corre cambaleante tentando acompanhar as galinhas.

Desde criança, os Capuxu são ágeis como gatos do mato, podendo se deslocar pela mata como um deles, e raivosos como cães, sendo brabos e destemidos quando se veem caçoados ou ameaçados. No mais das vezes, o seu temperamento é associado ao do seu bicho, ou vice-versa, como o é o próprio temperamento do povo associado à espécie de abelha que os nomeia.6

O bebê Capuxu consegue erguer-se do chão se apoiando em seu cão, e ensaia, enquanto tateia o corpo do animal, os primeiros passinhos. Assim, as crianças vão desenvolvendo suas habilidades motoras através do contato com seus bichos. É também com os animais que aprendem as crianças por onde pisar e, sobretudo, a ouvir. Se segue por um atalho dentro do mato em terrenos com espinhos, basta a criança estar atenta por onde segue seu cachorro adiante, abrindo caminho. Os animais sabem ensinar as crianças onde pisar, livrando-lhes de animais peçonhentos como cobras e guiando seus pés em segurança.

Também o ouvir é treinado nesta relação. Como veremos adiante, os animais podem ser tomados como “tutores” na educação da atenção das crianças, usando os termos de Ingold (2010). Qualquer barulho que venha do mato fechado e os cachorros magricelos param estáticos, orelhas erguidas, olhos rápidos e atentos, rabos e focinho elevados. Atrás deles, para o seu dono, esperando um comando qualquer que lhes diga se devem voltar correndo para um lugar seguro ou seguir adiante.

Os animais domésticos, especialmente gatos e cachorros, são responsabilidade das crianças. Depois de certa idade elas devem alimentá-los, banhá-los, protegê-los no caso de ataque por outros animais, cuidar deles de modo geral. Estas passam a ser tarefas de responsabilidade das crianças. Há uma espécie de cuidado mútuo entre crianças e animais. Quando bebês, as crianças Capuxu são zeladas por seus animais, sempre dispostos a protegê-las e, na medida em que crescem, são elas que passam também a proteger seus bichos e a cuidar deles, devolvendo o cuidado que lhes fora despendido na primeira infância. Nesse aspecto, consideramos que é parte do processo de “virar gente” passar de quem é cuidado para quem cuida.

Eudvan, dono de 87 pintinhos, era também uma espécie de “parteiro”. De cócoras, procedia a abertura do ovo quebrando sua parte superior e retirando os pedacinhos da casca que o encobria. Avistando o pintinho, ele devolvia o ovo para o ninho e deixava que o próprio pintinho terminasse a tarefa de quebrar o ovo. Era também ele o responsável por jogar milho ou farelo e tanger as galinhas para o poleiro.

Interessante perceber que, em geral, todos os habitantes da comunidade sabem os nomes dos animais domésticos da maioria das famílias. Assim, os adultos em geral tratam os animais que encontram pelas estradas nas portas das casas de seus donos pelos nomes, para cumprimentá-los e muitas vezes para repreendê-los, especialmente quando eles estão acuando alguém ou “estranhando”, como dizem. Curiosamente, o termo “estranhar” tanto pode ser utilizado para os bebês, que ao se verem no colo ou nos braços de alguém não familiar desatam em choro, como para os animais que avançam em direção ao estrangeiro.

As crianças, os bichos e o “lugar de comer”

Também no que se refere à comensalidade Capuxu, cabe uma breve reflexão sobre o lugar das crianças e dos animais. É que estes dois sujeitos compartilham do mesmo “lugar de comer”: o chão. E é assim que mais um aspecto do cotidiano Capuxu une crianças a animais.

Apesar de Sousa (2016) já ter feito uma análise da dieta Capuxu e dos modos de comer, voltamos a enfatizar o lugar da criança pequena na hora das refeições. Não podemos falar do lugar da criança à mesa, porque, se não tem ainda três ou quatro anos completos, ou se não alcança da cadeira a mesa da cozinha, tem em geral um lugar específico para fazer as refeições, especialmente para almoçar. Num canto da cozinha um pano é estendido no chão, lá a criança senta de pernas abertas e o prato pequenino de plástico é colocado entre suas pernas. Assim, ela entende que sobre o paninho tudo pode cair, se sua coordenação motora não permite ainda acertar sempre a boca. O que cai sobre o pano não é considerado bagunça ou sujeira, é permitido. No final, basta juntar com cautela o paninho e jogar os restinhos de comida para os pintinhos no quintal. Mas se cai para além do paninho um macarrãozinho, a mãozinha da criança com seus dedinhos desajeitados tentará alcançá-lo para levá-lo, no mais das vezes, direto à boca, quando não para cima do paninho.

Isto ocorre somente quando não há um animal muito perto, afinal há sempre algum tentando ganhar as sobras da refeição. Os gatos rondam as crianças, e os adultos os espantam vez por outra. O mesmo ocorre com os cachorros. Essa facilidade de acesso às crianças se dá pelo fato de ocuparem, crianças e animais, os mesmos espaços à hora de comer, ou o mesmo “lugar de comer”.

As portas das cozinhas das casas Capuxu, em geral, são divididas no meio, exatamente para que se possa deixar a parte de cima aberta por onde circula o vento, e a parte de baixo fechada, para que galinhas, pintinhos, porcos, cachorros e gatos não invadam a casa. Ainda assim, as galinhas e os gatos, às vezes até os cachorros, pulam a parte de baixo, dando um salto para cima da porta, e em seguida para o chão. Em vão, a criança sentada sobre seu paninho ensaia um “xô, xô…” abanando a mãozinha. Mas nesta situação, todos os animais parecem, vistos de baixo da meia-porta fechada, imponentes, maiores, mais ágeis e hábeis em relação à criança, que se não é socorrida por um adulto perde seu pedacinho de carne, a mistura, que é rapidamente levada por um dos seus bichos.

Também na reciprocidade de alimentos, a participação das crianças e seus bichos é notória. Elas são importantes agentes de troca entre as famílias, uma vez que são as responsáveis por levarem comidas que podem ser ofertadas como presentes, aquelas que são temporárias - como as comidas de milho na época junina - mais difíceis de preparar ou exigem mais ingredientes. São as crianças em companhia de seus animais que procedem às trocas. Não raras vezes encontramos pelas estradas do sítio crianças e seus pratinhos cobertos com paninhos amarrados em cima, protegendo a comida da poeira. Seguem com vasilhas, pratinhos ou panelas e travessas, geralmente acompanhados pelos seus cachorros que torcem para que qualquer acidente leve ao chão um pouco da comida para que eles também possam se fartar.

Os bichos disputam com as crianças as comidas, como disputam as corridas pelas estradas do sítio. Essa disputa não se dá a ferro e fogo, mas tem caráter lúdico como ocorre em geral com as disputas entre crianças em suas brincadeiras. Às vezes, se consegue pegar o pedaço de carne do pequeno Capuxu e foge para comê-lo em segurança, o cachorro ouvirá de lá o choro inconformado da criança, que teve sua mistura roubada pelo cachorro mais ágil. Mas logo a celeuma será dissipada. Não se guarda rancor dos bichos que, como o dizem os adultos, “são inocentes como crianças”.

As atividades para ou com os animais: as habilidades das crianças

Para viver em Santana-Queimadas, ser portador da identidade Capuxu e do ethos camponês é preciso desde criança saber alimentar os animais, dominar as técnicas para dar milho às galinhas. Também é preciso ser competente na entonação da voz que se comunica com as galinhas, no seu ti-ti-ti, e com o gado, num êeee boi, êeeee. Para “prender os bichos” ou guiá-los até o curral é preciso ter autoridade, uma autoridade que aparece na postura, na mão erguida, no peito estufado, e na entonação da voz. Em tudo isso são hábeis as crianças Capuxu, por dominarem todas estas técnicas.

O mesmo ocorre na hora de dar banho no cachorro ou gato. No cavalo ou égua. É preciso coragem, autoridade e determinação. Ter pulso firme, numa palavra, dominar o animal. Também a ordenha é uma tarefa difícil e delicada, ao passo que exige coragem e paciência.7

Toda a cosmologia do povo Capuxu e toda visão que se faz de si mesmo e dos outros é circunscrita pela crença de que o trabalho e a aprendizagem estão em tudo (Sousa 2014a). Tassinari (2014: 98) também discute a articulação entre atividades produtivas e aprendizagem entre famílias agricultoras faxinalenses do Paraná, mostrando como “a aprendizagem e a participação das crianças nas atividades produtivas são fundamentais para a reprodução das famílias e para a adequada educação das crianças, produzindo seus corpos para as atividades cotidianas”.

Afora as atividades do roçado, orientadas pela dinâmica dos ciclos agrícolas, é preciso dominar os animais. Dedinhos que aprendem a ordenhar nas pequenas cabras ou que jogam os milhos para as galinhas, mãozinhas que tangem as galinhas para o poleiro e intentam contá-las enquanto o cachorro traquino as espanta. Mãos capazes de levar o jumento arrastando-o pela cordinha sempre à frente e amarrá-lo a qualquer árvore. Mas não apenas dominá-los, a comunidade Capuxu requer das crianças que cuidem deles: mãos capazes de proceder o curativo - spray de rifocina sobre a orelha ou a patinha machucada do cão, e um esparadrapo se um corte o abriu a pele e o pêlo, pela barriga ou em um dos seus membros.

Mesmo que sua tarefa seja a de carregar um instrumento, tanger as galinhas que invadem a cozinha, banhar e alimentar gatos e cachorros, localizar a cabra ou bode que, perdido entre o mato, emite um som estridente, e trazê-lo de volta, levar um recado à casa de um compadre, acompanhar a procissão, as crianças Capuxu ocupam-se de atividades produtivas sempre em companhia e com a ajuda de seus bichos.

“Pra virar gente”: a imitação afetuosa

Foi Mauss (1974 [1934]), que chamou atenção para a corporalidade e para essa “imitação prestigiosa”. Entre os Capuxu acreditamos que ocorra o que chamamos de imitação afetuosa. Pois se há a construção de relações de afeto entre as crianças e os bichos do sítio, desta relação nasce a imitação dos bichos por parte das crianças. O afeto está por detrás do interesse das crianças em imitar os animais, sem desconsiderar o prestígio que os animais têm para as crianças e toda a comunidade.

Além disso, existe uma relação de proximidade entre as crianças e os bichos, sob vários aspectos, maior do que aquela existente entre adultos e crianças, porque os bichos da casa, gatos e cachorros, principalmente, e alguns filhotes, como cabritos, bezerros e ovelhas, possuem quase a mesma estatura das crianças e são eles que se arrastam com elas pelo chão, que lhes fazem companhia enquanto os adultos se ocupam de tarefas que não lhes cabem. Do chão da sala ou da cozinha, das calçadas e terreiros assistem os dois quase iguais em estatura à mãe que estende roupas no varal, varre o terreiro ou cozinha no fogão a lenha.

Ingold (2010) resgatou a importância desta atividade imitativa, articulada à improvisação, para assegurar a aprendizagem:

“O iniciante olha, sente ou ouve os movimentos do especialista e procura, através de tentativas repetidas, igualar seus próprios movimentos corporais àqueles de sua atenção, a fim de alcançar o tipo de ajuste rítmico de percepção e ação que está na essência do desempenho fluente. […] Este copiar, como já mostrei, é um processo não de transmissão de informação, mas de redescobrimento dirigido. Como tal, ele envolve um misto de imitação e improvisação […].” (Ingold 2010: 21)

Podemos dizer que, em várias situações, os animais estão na posição que Ingold (2010: 21) chama de “tutores” de uma “educação da atenção”, com ênfase na atitude de “mostrar”.

“O processo de aprendizado por redescobrimento dirigido é transmitido mais corretamente pela noção de mostrar. Mostrar alguma coisa a alguém é fazer esta coisa se tornar presente para esta pessoa, de modo que ela possa apreendê-la diretamente, seja olhando, ouvindo ou sentindo. Aqui, o papel do tutor é criar situações nas quais o iniciante é instruído a cuidar especialmente deste ou daquele aspecto do que pode ser visto, tocado ou ouvido, para poder assim ‘pegar o jeito’ da coisa. Aprender, neste sentido, é equivalente a uma ‘educação da atenção’.” (Ingold 2010: 21)

Bergamaschi (2005), em sua pesquisa com o povo Guarani, utilizando uma metodologia que chamou de “estar junto sensível” e “com-viver” afirmou: “o povo costuma dizer que a educação na cultura é integral e que educa-se em todas as coisas” (2005: 170). Segundo a autora, o início da confecção da pessoa Guarani se daria pela aproximação amorosa, pela comunicação corporal produzida pelo contato. Nesses primeiros momentos da vida, a aprendizagem tem sua base no sentimento, na emoção. É característica marcante dessa etnia a delicadeza da fala e dos gestos, o que gera proximidade amorosa e comunicação corporal. Entre os Guarani, há duas formas predominantes de aprender. A primeira é a busca desencadeada pela curiosidade que se desenvolve na pessoa desde pequena; a segunda é a revelação, pois é necessário viver de acordo com o modo tradicional, para que as divindades se revelem ao indivíduo. Na perspectiva Guarani, a curiosidade é o motor que conduzirá a criança a buscar o aprendizado.

Nesse sentido, falamos de uma imitação afetuosa que marca o aprendizado das crianças Capuxu no convívio com seus bichos. Um movimento iniciado pela própria curiosidade das crianças que leva à aproximação e contato corporal com seus bichos. Várias técnicas corporais são adquiridas por meio da relação com os animais e as crianças vão desenvolvendo suas habilidades junto com os bichos.

Ainda quando bebê, ao começar a engatinhar, ele pode ir ter com os animais domésticos, gatos, cachorros e bater neles - uma das primeiras ações ensaiadas pelas crianças - correndo o risco de ser mordido ou arranhado por algum destes animais. Também as galinhas e pintinhos que invadem a cozinha, patos ou porcos, podem ir até perto do bebê.

Quando começa a engatinhar, o contato de seus membros, braços e pernas com as superfícies ásperas da casa de cimento desgastado, de calçadas e batentes já começam a formatar o corpo da criança, a marcar suas pernas e joelhos, a enrijecer a palma de suas mãos que tocam o chão. O seu corpo já começa a se acostumar aos animais, seus pêlos, sua respiração, o seu odor. Se desce os batentes da casa alcançando o chão do terreiro, brinca com pedrinhas ou tacos de pau, cava a areia e às vezes leva à boca um punhado dela e se diverte com insetos.

É comum vermos crianças com menos de um ano sempre de joelhos encardidos. Como as casas têm pisos de cimento, a criança engatinha arranhando seus joelhos sobre o chão. E se os adultos ou suas irmãs que as cuidam vacilam, ela alcançará rapidamente o terreiro, e seguirá engatinhando pela terra. Algum adulto, ou até mesmo um dos seus irmãos poucos anos mais velho, virá ao seu encontro e colocará a criança à sombra, animada por ver os cachorros e gatos que brincam no terreiro.

Se não são gatos ou cachorros, as galinhas e seus pintinhos certamente encontrarão a criança Capuxu sentada no chão da cozinha. Se ainda é pequena e acaba de aprender a sentar-se, a criança pode chorar e assustar-se por nunca ter tido contato tão próximo com tais bichos. Mas já maiorzinha, ela se alegra em perceber pintinhos barulhentos que lhe passam por cima das pernas e até a galinha que se aproxima se à sua volta houver pelo chão alguns grãos de arroz ou milho. Mas se a criança segura nas mãos algum pedaço ou resto de comida, é preciso ter cuidado para que qualquer um destes animais domésticos, gatos e cachorros, ou criados no quintal como porcos e galinhas, não avancem sobre ela e possa machucá-la ou assustá-la.

Depois passa a andar a criança, primeiro na ponta dos pés, alcançando objetos pela casa onde possa se segurar e restaurar o equilíbrio por alguns instantes. O mesmo equilíbrio é requerido para manter-se em cima de um animal: um cavalo, jumento ou égua que segue a galope enquanto a criança tenta a todo custo se segurar na ausência de selas e arreios. Se são pequenas, montarão bodes e cabras, que são animais de pequeno porte, até conseguir manter o equilíbrio e a habilidade requeridos para a montaria. A técnica da montaria é primordial para a vida no sertão.

O primeiro treino do corpo para montar acontece sobre o lombo dos irmãos mais velhos, no começo sempre devagar para que a criança perca o medo, depois cada vez mais rápido e erguendo levemente o corpo enquanto a criança tenta se segurar em suas roupas ou cabelos enquanto ri eufórica ou grita. Assim vai se produzindo o corpo que montará os diversos animais do sítio Santana-Queimadas.

Em seguida, passam a montá-lo cada vez que alguém aparece em um cavalo selado, jumento ou égua. Sempre que aparece uma oportunidade num animal que seja considerando “manso” e não brabo, para que a criança não incorra em perigo, a criança é estendida para que aquele que monta dê uma voltinha com ela no colo sobre o cavalo.

Outra importante habilidade diz respeito ao modo de atravessar um rebanho. As crianças menores conseguem atravessar todo o curral passando por debaixo de pernas de vacas e bois. Os animais parecem respeitar as crianças menores que também não apresentam para eles qualquer ameaça, pelo menos não para os de grande porte, porque para gatos e cachorros a criança é sempre uma ameaça disposta a bater, machucá-los, puxá-los pelo rabo ou atirar sobre eles qualquer objeto que tenha às mãos.

Mas para bois, vacas e cavalos não há ameaça vinda de uma criança. Por isso, as crianças passam por eles sem qualquer receio de seus coices ou chifres. Sem demonstrar medo, forjando ares de indiferença é possível atravessar um rebanho inteiro, quase sem ser notado. É o que me dizem: “se ficar com medo, eles pegam”.

É nesse sentido que destacamos a capacidade agentiva dos animais do sítio Santana-Queimadas. Estes terminam por fazer papel de tutores para as crianças. Mesmo sem a intenção de ensinar e aprender, animais e crianças estabelecem relações por meio de experiências que terminam sendo úteis à aprendizagem de se tornar um adulto Capuxu. Especialmente para este povo cuja noção de construção de conhecimento se dá por meio da experiência e dos usos dos corpos (Sousa 2014a).

Considerações finais

Os processos de desenvolvimento de habilidades corporais - frequentemente chamados na antropologia de produção ou fabricação do corpo - ou do que chamamos comumente de crescer ou aprender, recebem nomes distintos a depender do povo e da cultura a que nos referimos. Pereira (2021) nos apresenta “fazer gente” como categoria nativa do povo Piratapuia para se referir a este processo; Tassinari (2013) menciona a categoria “criando corpo” utilizada pelos Galibi-Marwono; Araújo (2021) descobriu entre os Gavião Pyhcop Catiji a expressão “melhorando a pessoa” como categoria que equivaleria a ensinando. Os Capuxu se referem a este processo profundamente marcado pela participação dos animais como “virando gente”.

A Antropologia da criança tem se focado na aprendizagem de uma geração mais velha sobre a outra ou de uma criança para outra, entre pares (Codonho 2009) sem quase nunca atentar para o que as crianças aprendem através de relações inter-específicas, especialmente por meio do interesse e da imitação. Procuramos mostrar nesse artigo o quanto as crianças Capuxu aprendem com o ambiente e por meio da interação com os bichos no sítio onde vivem.

A hipótese que orienta este artigo nasceu da utilização dos desenhos como técnica legítima da pesquisa. Estes desenhos elaborados por crianças nos despertaram para a onomástica e a presença dos animais no seu cotidiano, e nas suas atividades diversas, reconhecendo que estão sempre com os bichos e estes últimos têm um estatuto de seres nomeados pelas primeiras.

Passamos a nos perguntar: o que as crianças aprendem com os animais? E descobrimos que as técnicas corporais para a produção do corpo, e a nominação - todas estas dinâmicas que fazem parte do processo de aprendizagem para se tornar Capuxu - são constitutivas do rol de aprendizados adquiridos pelas crianças através das suas experiências com os bichos, de modo que os bichos estão enredados nesta teia de aprendizagens.

É difícil dissociar estes diversos aspectos da organização social Capuxu que são atravessados pela relação que se estabelece entre humanos e não humanos. Ainda assim, optamos por organizar o texto a partir da gestão onomástica, de onde obtivemos a primeira suspeita da força das relações existentes entre crianças e animais que se confirmaria a partir destes outros vários elementos da organização social Capuxu. Depois buscamos tratar da comensalidade infantil, das tarefas das crianças com os bichos e, por fim, das técnicas corporais, demonstrando como, através de uma imitação afetuosa, as crianças aprendem “a virar gente”, como esperam os adultos Capuxu.

Acreditamos que a aprendizagem dos modos de ser Capuxu pelas crianças através do interesse, da observação e da imitação dos animais seja uma consequência destas experiências. A leitura que os adultos fazem destas relações, inclusive interpretando as ações animais como aquilo que a criança não deve fazer - andar de quatro, comer direto da vasilha, não falar - dá sinais de que os adultos não deixam os filhos em companhia dos animais com a intenção de que aprendam algo. Da experiência infantil de coabitação, imitação afetuosa e partilha de alimentos e cuidados com seus bichos, à experiência dos adultos com os animais, há diferenças importantes nos modos de ver e tratar a alteridade inter-espécies. Mas ambas fazem parte dos modos Capuxu de coabitar uma história ativa com essas espécies companheiras.

Financiamento

Este artigo contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Código de Financiamento 001 e da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (Fapema). As autoras contam com bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Bibliografia

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1Sobre a metodologia, Sousa (2014a) esteve em campo durante seis meses ao longo de 2012 e 2013. A etnografia foi construída por meio da observação participante com a imersão da pesquisadora em campo. Sousa viveu entre eles, residindo nas casas locais e acompanhando as crianças no cotidiano, nas idas e vindas da escola, nos banhos de açudes, nos mandados dos adultos, nos cuidados com os animais e nas brincadeiras e tarefas desenvolvidas pelas crianças. Ao mesmo tempo em que ouvia e observava adultos e crianças nos processos de produção dos corpos dos bebês. Aliadas à observação participante, entrevistas, conversas informais, a produção de desenhos e fotografias foram algumas das técnicas utilizadas pela autora. Sobre a produção de desenhos, estes foram feitos na escola da comunidade, com tema livre, ou seja, sem a sugestão de um tema por parte da pesquisadora.

2Sobre a produção da pessoa na relação com não humanos, mencionamos dois trabalhos recentes das autoras: Sousa (2021) escreveu sobre a relação da comunidade Capuxu com os malassombros. Tassinari (2021) escreveu sobre a relação com “invisíveis” relacionados ao xamanismo e ao catolicismo, para a produção da pessoa Karipuna.

3“O que se passa é uma imitação prestigiosa. A criança, como o adulto, imita atos que obtiveram êxito e que ela viu serem bem-sucedidos em pessoas em quem confia e que têm autoridade sobre ela. O ato impõe-se de fora e do alto, ainda que seja um ato exclusivamente biológico e concernente ao corpo. O indivíduo toma emprestada a série de movimentos de que ele se compõe do ato executado à sua frente ou com ele pelos outros” (Mauss 1974 [1934]: 215).

4Aqui vale retomar a distinção que Donna Haraway (2021) faz entre “animais de companhia/pets” e “espécies companheiras”, estas últimas abarcando uma diversidade de seres que coabitam uma história ativa, que criam relações de alteridade significativa. No sítio Santana-Queimadas são consideradas “espécies companheiras” cachorros, gatos, galinhas, patos, porcos e jumentos. Embora nenhuma delas durma na casa à noite, todas ocupam os mesmos espaços, os arredores da casa em seus terreiros e monturos. Para fins desta análise, estamos distinguindo dois grupos de “espécies companheiras”: as de pequeno porte e de dentro de casa, cuja companhia constante seria das crianças (gatos, cachorros, galinhas, porcos), e os animais de médio ou grande porte, utilizados ou não como instrumentos de trabalho pelos adultos e cujos nomes são atribuídos e conhecidos mais por estes (jumentos, cavalos, vacas, bois).

5É comum no universo camponês que desde cedo as crianças tenham suas próprias “fazendinhas”, sendo donos de uma ninhada de pintinhos, uma cabra, um bezerrinho, ou qualquer outro filhote para dar início a sua própria criação, conforme observou Godoi (2009: 298): “Esta é constituída de um ou dois animais, de toda maneira de pelo menos uma fêmea, para que a criança possa começar a constituir seu próprio rebanho. As crianças, menino ou menina, desde muito pequenas são encorajadas a cuidar dos animais. Tassinari (2014) também observou essa estratégia entre agricultores do Paraná: a criança que queria ganhar uma bicicleta recebeu, em seu lugar, um leitãozinho para criar e futuramente vender para comprar uma bicicleta.

6Fato semelhante observa Teixeira (2019: 170): as aproximações entre crianças e animais também dizem respeito às características da personalidade que podem ser exemplificadas em expressões como “brabo e manso” ou “brabo como bicho do mato”.

7Evans-Pritchard observou sobre os Nuer que “as primeiras tarefas da infância dizem respeito ao gado. Crianças muito pequenas seguram as ovelhas e cabras enquanto as mães ordenham; e quando as mães ordenham vacas as crianças carregam as cabaças, puxam os bezerros para longe dos úberes e amarram-nos em frente das vacas” (Evans-Pritchard 2002 [1940]: 48).

Recebido: 18 de Outubro de 2022; Aceito: 07 de Agosto de 2023

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