INTRODUÇÃO
Os acrilatos e metacrilatos são monómeros derivados dos ácidos acrílico e metacrílico. A sua polimerização, quer por exposição à luz ultravioleta, quer espontaneamente à temperatura ambiente, origina resinas acrílicas-plásticos mais estáveis e com menor potencial sensibilizante do que os respetivos monómeros (1) (2).
As exposições ocupacionais a acrilatos mais comuns no passado estavam associadas sobretudo a indústria gráfica, pintura, aplicação de revestimentos, utilização de colas e tintas, medicina dentária e fabrico de fibra de vidro (3) (4) (5). Atualmente, os principais focos de sensibilização deslocaram-se para a estética, nomeadamente aplicação de unhas acrílicas/de gel e extensões de pestanas, afetando os profissionais envolvidos e/ou utilizadores (6).
O eczema de contacto a meta(acrilatos) afeta principalmente as polpas dos dedos (7), particularmente o primeiro, segundo e terceiro dedos de ambas as mãos, na mão não dominante, por segurar a unha da cliente e na mão dominante, por segurar o pincel. Também são comuns lesões na face lateral das mãos devido ao contacto com as superfícies de trabalho que se encontram frequentemente contaminadas com os resíduos. As manifestações podem ocorrer meses ou anos após o início da exposição (8).
Os sintomas típicos incluem pulpite dolorosa, hiperqueratósica, descamativa e fissurada, frequentemente associada a diminuição da sensibilidade tátil. Pode ainda ocorrer paroníquia e destruição ungueal, sobretudo em utilizadores de unhas de gel. A presença concomitante de parestesias nos dedos é altamente sugestiva de exposição a (meta)acrilatos (9) (10) (11).
As lesões eczematosas podem manifestar-se em zonas anatómicas afastadas do ponto de contacto direto, devido à transferência de resíduos- seja da cola ou do pó polimérico - pelas mãos para outras áreas da pele.
O pó do polímero pode ainda ser aerodisperso, contribuindo para a exposição a partículas suspensas no ar. As limalhas de unhas retêm frequentemente partículas de monómeros não totalmente polimerizados, os quais podem manter-se reativos até 48 horas após a aplicação (12).
Os indivíduos previamente sensibilizados, podem ainda desenvolver rinoconjuntivite, angioedema e/ou sintomas respiratórios, sobretudo devido à exposição aerossolizada a acrilatos (8). Neste contexto, apresenta-se o caso de uma esteticista com dermatite de contacto alérgica confirmada por testes epicutâneos, destacando o impacto ocupacional desta patologia.
DESCRIÇÃO DO CASO CLÍNICO
Trata-se de um caso de uma mulher de 39 anos, esteticista há seis anos, previamente trabalhava como lojista.
Na sua prática profissional aplicava unhas de gel e realizava massagens. Como antecedentes pessoais apresentava história de dermatite atópica desde os seis anos e psoríase controlada com tratamento tópico. Foi referenciada, pelos cuidados de saúde primários, à consulta de dermatologia por lesões bilaterais de pulpite nos polegares e dedos indicadores desde há 18 meses. À observação clínica, apresentava lesões descamativas e fissuras dolorosas localizadas predominantemente nos 1º, 2º e 3º dedos da mão direita e 1º dedo da mão esquerda (Figura 1A, 1B e 1C). Desenvolveu também lesões faciais eritematosas pruriginosas na região frontal (Figura 2).

Figura 1A, 1 B e 1C Lesões de Dermatite de Contato Alérgica localizadas nos 1º, 2 e 3ºdedos da mão direita e 1ºdedo da mão esquerda
Foram realizados testes epicutâneos com a série básica do Grupo Português de Estudos das Dermatites de Contato, série de cosméticos e conservantes e série de acrilatos/metacrilatos. A leitura, efetuada às 72 horas, mostrou as seguintes positividades: sulfato de níquel (++), hidroxietil metacrilato (HEMA) (+++), etilenoglicol dimetacrilato (EGDMA) (++), hexanediol diacrilato (HDDA) (++), tetrahidrofurfuril metacrilato (THFMA) (++), etilacrilato (EA) (++), hidroxi-etilacrilato (HEA) (++), trietilenoglicoldiacrilato (TREGDA) (++) e butanediol diacrilato (BDDA) (++) (Figura 3). Os resultados foram compatíveis com dermatite de contacto alérgica a múltiplos (meta)acrilatos (relevância atual, origem ocupacional), bem como sensibilização a níquel (relevância passada). Foi realizado tratamento tópico com corticóide e imunomodulador e foi recomendada, no contexto profissional, a limitação da atividade laboral a massagens em sala isolada, com exclusão do contacto com (met)acrilatos.

Figura 3 Leitura dos testes epicutâneos - série básica, série de cosméticos e conservantes e acrilatos/metacrilatos às 72 horas
Tabela 1 Alergénios positivos detetados nos testes epicutâneos às 72 horas
| Sulfato de níquel | ++ |
| Hidroxietil metacrilato (HEMA) | +++ |
| Etilenoglicol dimetacrilato (EGDMA) | ++ |
| Hexanediol diacrilato (HDDA) | ++ |
| Tetrahidrofurfuril metacrilato (THFMA) | ++ |
| Etilacrilato (EA) | ++ |
| Hidroxi-etilacrilato (HEA) | ++ |
| Trietilenoglicoldiacrilato (TREGDA) | ++ |
| Butanediol diacrilato (BDDA) | ++ |
DISCUSSÃO
A exposição cutânea a acrilatos induz, na maioria dos casos, a reações de hipersensibilidade do tipo IV, manifestando-se principalmente como eczema das mãos (especialmente nas extremidades dos dedos por contacto direto) (13). No caso apresentado, a exposição ocupacional e pessoal a verniz-gel resultou em dermatite de contacto alérgica aos acrilatos com múltiplas reações positivas nos testes epicutâneos. A reatividade cruzada entre os diversos monómeros acrílicos é comum, justificando a sensibilização simultânea a múltiplas substâncias (14).
A dermatite de contacto alérgica a (meta)acrilatos constitui uma causa importante de dermatose ocupacional com um impacto negativo na atividade do trabalhador que, uma vez sensibilizado, terá dificuldade em encontrar equipamentos de proteção individual eficazes (8), dado que os (meta)acrilatos são capazes de penetrar a grande maioria dos meios de proteção existentes. Poderá também ocorrer, como se verifica neste caso, agravamento da situação clínica pelo facto destas moléculas serem voláteis e poderem afetar áreas da pele exposta, como a face, pescoço e antebraços (2).
A proteção coletiva deve ser prioritária e preceder qualquer medida individual. Sempre que possível, deve ser promovida a substituição de produtos com elevado potencial irritante e sensibilizante por alternativas de menor risco. É fundamental eliminar ou, pelo menos, reduzir a exposição cutânea a (met)acrilatos, através da automatização dos processos e da utilização de sistemas fechados para manipulação de substâncias. Deve ainda ser promovida uma ventilação adequada dos espaços de trabalho, assegurando a captação na origem dos produtos voláteis. A limpeza regular dos locais de trabalho é igualmente essencial para limitar o risco de contaminação por contacto cutâneo. Por fim, é imprescindível garantir que os trabalhadores recebem informação clara sobre os perigos associados aos produtos utilizados, bem como formação específica para a correta leitura das fichas técnicas e fichas de dados de segurança, para a adoção de boas práticas (15).
A prevenção da dermatite de contacto alérgica a (meta)acrilatos no contexto profissional exige medidas rigorosas de proteção individual. O uso de máscaras, vestuário protetor e luvas específicas é fundamental. As luvas do tipo 4H trilaminadas de etileno-vinilo-álcool-polietileno são uma das poucas opções com eficácia comprovada contra a penetração destes monómeros. No entanto, a sua rigidez limita a execução de tarefas que requerem elevada destreza manual, como a realização de unhas de gel, o que dificulta a adoção generalizada em contexto de estética (8). As luvas de nitrilo parecem conferir proteção parcial, contudo devem ser mudadas com frequência (são permeáveis aos metacrilatos após meia hora de utilização) (16).
Neste caso, foi recomendada a evicção de todos os (met)acrilatos aos quais a utente reagiu. É igualmente aconselhável vigilância clínica periódica, de forma a detetar precocemente eventuais sintomas decorrentes da sua exposição profissional.
No caso de ser ponderada a requalificação e reintegração profissional de pessoas alérgicas a acrilatos, para que esta seja bem-sucedida, é fundamental ter em conta que estas substâncias estão presentes em diversos ambientes de trabalho. Profissões como a de dentista, esteticista, trabalhador da construção civil ou trabalhador da indústria gráfica, envolvem frequentemente o contacto com (met)acrilatos. Por isso, qualquer plano de reintegração deve incluir uma avaliação cuidadosa dos riscos de exposição nesses contextos, de modo a evitar recaídas ou agravamento da situação clínica (13).
CONCLUSÃO
A dermatite de contacto alérgica a (meta)acrilatos apresenta um impacto significativo, onde as medidas de proteção individual se revelam notoriamente desafiantes. A prevenção deve focar-se na implementação de medidas como a substituição de produtos com elevado potencial sensibilizante, a ventilação adequada dos espaços de trabalho e a formação contínua dos profissionais.















