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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0870-8967versão On-line ISSN 2183-9174

Diacrítica vol.39 no.2 Braga ago. 2025  Epub 11-Nov-2025

https://doi.org/10.21814/diacritica.6170 

Articles

A polivalência das formas do modo condicional em português

On the polyvalence of the verb forms of the conditional mood in Portuguese

*Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, Portugal.


Resumo

Este artigo discute a semântica das formas verbais (simples e compostas) com o morfema -ria, classificadas na tradição gramatical portuguesa como instâncias do modo condicional. Trata-se de formas extraordinariamente versáteis, que podem associar-se a diversos tipos de valores, entre os quais serão autonomizados seis: valores de localização temporal relativa de tipo reichenbachiano, quer puramente prospetivos quer prospetivos-retrospetivos, valores modais epistémicos, valores evidenciais reportativos e valores condicionais, quer hipotéticos quer contrafactuais. Será feita uma análise individual de cada um destes valores, identificando as suas propriedades gramaticais distintivas, com comparação dos valores mais próximos entre si. Destacar-se-á a oposição entre contextos dêiticos e contextos anafóricos, na medida em que eles condicionam de modo muito significativo a escolha das formas verbais. Serão ainda apresentados os resultados da análise de uma amostra aleatória de 400 excertos com formas verbais com a desinência -ria no corpus de texto jornalístico português cetempúblico, com o objetivo de registar a prevalência dos diversos valores no registo escrito do português europeu contemporâneo.

Palavras-chave: Condicional; Localização temporal; Modalidade epistémica; Evidencialidade reportativa; Condicionais hipotéticas e contrafactuais.

Abstract

This article discusses the semantics of simple and compound verb forms with the -ria morpheme (the counterparts of English conditional verb forms with would), classified in the Portuguese grammatical tradition as instances of the conditional mood. These forms are extraordinarily versatile and can be associated with various types of semantic values, six of which will be isolated here: Reichenbachian relative temporal location values, both purely prospective and prospective-retrospective, epistemic modal values, reportative evidential values and conditional values, both hypothetical and counterfactual. An individual analysis of each of these values will be provided, identifying their distinctive grammatical properties and comparing the closest values to each other. The opposition between deictic and anaphoric contexts will be highlighted, insofar as they significantly condition the choice of verb forms. The results of the analysis of a random sample of 400 excerpts with verb forms containing the -ria morpheme in the corpus of Portuguese newspaper text cetempúblico will be presented, with the aim of recording the prevalence of the different values in the written register of contemporary European Portuguese.

Keywords: Conditional; Temporal location; Epistemic modality; Reportative evidentiality; Hypothetical and counterfactual conditionals.

1. Introdução

Este artigo trata da análise semântica das formas verbais com o morfema -ria, que são classificadas na tradição gramatical portuguesa como instâncias do modo condicional. Trata-se de formas muito versáteis semanticamente, que têm sido amplamente estudadas para o português (e bem assim, nas suas contrapartidas morfossintaticamente paralelas, para outras línguas românicas). Nesta secção introdutória, farei uma apresentação sintética da diversidade de valores a que elas podem estar associadas, adotando uma tipologia sexpartida, e referirei a questão longamente debatida da sua designação como formas do modo condicional ou, alternativamente, do futuro do pretérito do modo indicativo. Nas três secções seguintes, analisarei cada um dos valores destacados; no decurso da apresentação, chamarei a atenção para a importância de se integrar na descrição gramatical dois fatores particulares com alguma complexidade, a que, aliás, a literatura sobre o português tem dado algum destaque: a competição das formas com o morfema -ria com outros tempos verbais equivalentes e, mais marginalmente, a sua combinação com os verbos auxiliares ir e vir a. Finalmente, na secção 5, apresentarei os resultados da análise de uma amostra aleatória de 400 excertos com formas verbais com a desinência -ria no corpus de texto jornalístico português cetempúblico (200 excertos com formas simples e 200 com formas compostas), de modo a registar e discutir a prevalência de valores no registo escrito do português europeu contemporâneo.

1.1. Polivalência das formas verbais com a desinência -ria - uma síntese

As formas verbais simples e compostas com a desinência -ria recebem designações diferentes nas tradições gramaticais portuguesa e brasileira (cf. e.g. Cunha & Cinta, 1984, p. 379), como ilustrado na Tabela 1. Na tradição portuguesa (que não é necessariamente seguida por todos os autores portugueses contemporâneos)1, elas são consideradas representantes de um modo autónomo (dissociado do indicativo e do conjuntivo), o condicional, e, na tradição brasileira, elas integram o modo indicativo, dentro do subsistema de valores do futuro.

Tabela 1: Variação na designação das formas verbais com a desinência -ria  

exemplos designação na tradição gramatical portuguesa designação na tradição gramatical brasileira
formas simples seria, compraria presente do (modo) condicional futuro do pretérito simples (do modo indicativo)
formas compostas teria sido, teria comprado pretérito perfeito do (modo) condicional futuro do pretérito composto (do modo indicativo)

As formas com a desinência -ria destacam-se, no sistema verbal do português, pela sua extraordinária versatilidade semântica, sendo de distinguir, na minha opinião, a sua associação a pelo menos seis grandes classes de valores, agrupáveis duas a duas em três macroclasses:

  • (i) valores temporais de localização relativa de tipo reichenbachiano,

  • (ii) valores epistémicos ou evidenciais reportativos e

  • (iii) valores condicionais (cf. Tabela 2, adiante).

Os diversos valores são naturalmente referidos na literatura, mas nem todos os autores estabelecem uma tipologia idêntica (cf. e.g. Oliveira, 2013, p. 527, que não separa os valores que adiante serão referidos como temporais prospetivos-retrospetivos dos temporais puramente prospetivos, e bem assim não separa os valores modais epistémicos dos valores evidenciais reportativos, ou Cunha, 2017). Adicionalmente, há diferenças gramaticalmente muito relevantes a que, em minha opinião, não tem sido dado o devido destaque na literatura, razão que justifica o presente artigo.

Os seis valores em causa são os que estão identificados abaixo com as letras A-F. Deve desde já notar-se que é possível que haja alguns outros valores a considerar (essencialmente em ligação a verbos modais, que merecem uma análise autónoma), mas o trabalho concentra-se apenas nestes seis.2

A. Localização temporal passada prospetiva-retrospetiva

As formas verbais sinalizam posterioridade da situação descrita na frase em que ocorrem a um ponto de perspetiva passado (sensu Kamp & Reyle, 1993). Ou seja, usam-se em contextos anafóricos (não em contextos dêiticos). Adicionalmente, neste caso particular, assume-se tipicamente que a situação ocorreu de facto antes do momento da enunciação, havendo, pois, um elemento dêitico no processamento. Assim, as formas verbais têm, na realidade, o que se pode descrever como um valor prospetivo-retrospetivo e um valor factual. Este valor só está normalmente associado a formas simples do chamado modo condicional, como em (1):

(1) Einstein terminou o seu doutoramento em 1905. Alguns anos mais tarde, em 1921, receberia o Prémio Nobel da Física.

B. Localização temporal passada puramente prospetiva

Tal como em A, as formas verbais sinalizam posterioridade da situação descrita na frase em que ocorrem a um ponto de perspetiva passado e só se usam em contextos anafóricos. Diferentemente, porém, neste caso, a ocorrência da situação é deixada em aberto, não havendo informação sobre a sua eventual realização futura ou não. Assim, as formas verbais associam-se ao que se pode descrever como um valor puramente prospetivo e não factual. Este valor também só está normalmente ligado a formas simples do chamado modo condicional, como em (2):

(2) O presidente estava hesitante. Receberia os conselheiros daí a meia hora e ainda tinha de decidir se abordaria aquele assunto ou não.

C. Modalidade epistémica (lato sensu)

As formas verbais sinalizam incerteza ou desconhecimento, tipicamente (mas não necessariamente) do enunciador, acerca do valor de verdade da proposição enunciada, normalmente num ponto de perspetiva passado. Ou seja, estas formas usam-se por norma em contextos anafóricos (e apenas muito excecionalmente em contextos dêiticos, como veremos). Este valor está frequentemente associado a formas simples do chamado modo condicional, como em (3), em que se observa, adicionalmente, um valor de sobreposição temporal, mas também pode ser associado a formas compostas, como em (4), em que se observa, adicionalmente, um valor de anterioridade temporal. A atribuição do epíteto lato sensu acima, que explicarei melhor adiante, resulta de, neste trabalho, serem incluídos nesta classe valores que alguns autores autonomizam como evidenciais (não reportativos), como o chamado valor evidencial inferencial (cf. e.g. Silva, 2022).

(3) Via-se que o rapaz era muito jovem. Não teria mais de doze ou treze anos. (4) Fiquei muito surpreendido. Não teria chovido mais de quinze minutos, creio, mas as ruas ficaram inundadas.

D. Evidencialidade reportativa

As formas verbais sinalizam que a informação veiculada tem uma fonte exterior, o que, em certa medida, permite distanciar ou desresponsabilizar o enunciador da asserção. Estas formas (particularmente comuns no discurso jornalístico, no relato de notícias que o jornalista recebeu das suas fontes) usam-se tanto em contextos anafóricos como em contextos dêiticos. Podem naturalmente coocorrer com outras expressões que explicitem o valor em causa, como os sintagmas com segundo nos dois exemplos abaixo, como veremos melhor adiante. O valor em causa liga-se quer a formas simples, como em (5), onde há, adicionalmente, um valor temporal de sobreposição, quer a formas compostas, como em (6), onde há, adicionalmente, um valor temporal de anterioridade.

(5) Segundo a polícia, quando os corpos foram descobertos, já estariam em avançado estado de decomposição. (6) Segundo a polícia reportou na altura, a droga teria sido abandonada no local pelos traficantes.

E. Condicionalidade hipotética

As formas verbais sinalizam um valor que, por facilidade, referirei como condicional, envolvendo a dependência da situação descrita na frase em que ocorrem de uma outra situação, tipicamente (mas não necessariamente) realizada sob a forma de uma oração subordinada condicional. Adicionalmente, neste caso particular, as situações descritas (tanto na matriz como na condicional) são apresentadas como hipóteses em aberto, tipicamente (mas não necessariamente) num ponto de perspetiva passado. Ou seja, estas formas usam-se normalmente em contextos anafóricos, ainda que também surjam em certos contextos dêiticos, associados à expressão de implausibilidade, como veremos melhor adiante. Este valor também está por norma associado a formas simples do chamado modo condicional, como em (7), onde há, adicionalmente, um valor temporal de posterioridade ao ponto de perspetiva temporal (como em B): 3

(7) Estava decidido. Se chovesse, cancelaríamos o passeio.

F. Condicionalidade contrafactual

Tal como em E, as formas verbais sinalizam um valor condicional. Diferentemente, porém, neste caso, as situações descritas (tanto na matriz como na condicional) são apresentadas como diferentes da realidade (valor contrafactual) num ponto de perspetiva passado, ou no presente. Ou seja, estas formas usam-se normalmente tanto em contextos anafóricos como em contextos dêiticos, onde são aliás muito comuns. O valor em causa associa-se tanto a formas simples, como em (8), com interpretação dêitica ou anafórica de sobreposição (“estaria agora, mas não está”; “estaria nessa altura, mas não estava”), como a formas compostas, como em (9), com interpretação anafórica de posterioridade a passado (“chegaria depois dessa altura, mas não cheguei”).

(8) Se o clube tivesse perdido o jogo, o treinador estaria em maus lençóis. (9) (Ontem, a caminho do Porto, o meu carro avariou-se.) Se o carro não se tivesse avariado, eu teria chegado ao Porto rapidamente.

O conjunto de possibilidades, que serão exploradas com mais pormenor nas secções seguintes, é o indicado no Tabela 2.

Tabela 2: Diferentes valores semânticos e contextos de ocorrência das formas verbais com a desinência -ria  

valor contextos de ocorrência
temporal (associado a posterioridade) [A] prospetivo-retrospetivo (factual) contextos anafóricos (com elemento dêitico no processamento)
[B] puramente prospetivo (não factual) contextos anafóricos
epistémico ou reportativo (associado a sobreposição ou anterioridade) [C] modal epistémico lato sensu contextos anafóricos (normalmente)
[D] evidencial reportativo contextos anafóricos ou dêiticos
condicional [E] hipotético contextos anafóricos (dêiticos, se associados à expressão de implausibilidade)
[F] contrafactual contextos anafóricos ou dêiticos

1.2. Sobre a designação das formas verbais com a desinência -ria

A versatilidade semântica que acabamos de descrever leva a que não seja possível ter uma qualquer designação simples, de base semântica, para as formas verbais com a desinência -ria. As duas designações que as tradições gramaticais portuguesa e brasileira adotam (ou qualquer outra, simples, em que pudéssemos pensar, aliás) são misnomers num certo sentido, porque apenas conseguem representar parcialmente a diversidade de valores sinalizados.

A tradição portuguesa opta pela designação de “condicional” (distinguindo presente e pretérito perfeito), a qual remete diretamente para o uso das formas associadas aos valores E e F, acima. A tradição brasileira opta pela designação “futuro do pretérito” (distinguindo simples e composto), a qual remete diretamente para o seu uso em associação aos valores A e B, acima. É uma questão em grande medida convencional. Cada uma delas tem pontos a seu favor e pontos contra.

Em primeiro lugar, note-se que os valores que estamos aqui a designar como condicionais (hipotéticos ou contrafactuais) estão entre os que mais frequentemente se associam às formas com a desinência -ria, tanto simples como compostas, favorecendo a designação tradicional portuguesa. Mas o mesmo acontece com os valores temporais reichenbachianos (puramente prospetivos ou prospetivos-retrospetivos), favorecendo a designação tradicional brasileira.

Em segundo lugar, há que notar - como bem fazem, aliás, Cunha & Cintra (1984, p. 462) - que outras formas tradicionalmente classificadas como de indicativo stricto sensu, também ocorrem em construções condicionais hipotéticas ou contrafactuais; veja-se, por exemplo, em (10), a contrapartida dêitica da construção anafórica em (7), com uma condicional hipotética associada a uma frase com presente ou futuro imperfeito do indicativo, ou, em (11)-(12), as alternativas meramente estilísticas a (8)-(9), com o pretérito imperfeito do indicativo e o pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo, respetivamente.

(10) Está decidido. Se chover, {fico / ficarei} em casa. (11) Se o clube tivesse perdido este jogo, o treinador estava em maus lençóis. (12) Se o carro não se tivesse avariado, eu tinha chegado ao Porto rapidamente.

Assim, a designação portuguesa não delimita um conjunto semanticamente homogéneo de formas verbais, havendo valores condicionais associados a formas que não são classificadas como de modo condicional, mas sim de modo indicativo. Porém, a designação brasileira não é muito mais feliz, uma vez que não capta os valores não temporais (condicionais, epistémicos, reportativos) muito frequentemente associados às formas em causa; note-se, adicionalmente, que em alguns destes valores (com destaque para C e D acima), pode nem haver qualquer relação de posterioridade (ou “futuro”); por exemplo, em (3) (via-se que o rapaz era muito jovem; não teria mais de doze ou treze anos), em (5) (segundo a polícia, quando os corpos foram descobertos, já estariam em avançado estado de decomposição) ou em (8) (se o clube tivesse perdido o jogo, o treinador estaria em maus lençóis), as situações são descritas como sobrepostas, não como posteriores, a um ponto de perspetiva (passado, em (3) e (5), ambivalentemente passado ou presente, em (8)). Adicionalmente, como veremos melhor adiante, as formas compostas com a desinência -ria nunca têm valores estritamente de localização temporal reichenbachiana, apenas têm valores epistémicos, reportativos e condicionais: assim, a designação brasileira de “futuro do pretérito composto” para formas do tipo de teria sido ou teria comprado carece de motivação semântica.

Por mera facilidade de referência, ao longo deste trabalho designarei as formas verbais em análise como “formas simples ou compostas com a desinência -ria” (designação de base morfológica) ou, equivalentemente, como “formas simples ou compostas do chamado modo condicional” (remetendo para a tradição portuguesa, que, aliás, sigo no título deste trabalho).

2. Valor de localização temporal: posterioridade a um ponto de perspetiva passado

Os dois valores A e B acima podem ser referidos conjuntamente como de localização temporal relativa (a um ponto de perspetiva passado), sendo tratáveis dentro de uma perspetiva reichenbachiana de análise do tempo verbal. Estes valores são normalmente veiculados pelas formas simples com a desinência -ria, não pelas formas compostas.4

2.1. Valor prospetivo-retrospetivo vs. valor puramente prospetivo

Observa-se que as formas simples com a desinência -ria sinalizam frequentemente posterioridade das situações descritas a um ponto de perspetiva temporal passado, integrando, nesse caso, o sistema de valores reichenbachianos do tempo verbal português. Sublinho aqui a necessidade de separar gramaticalmente duas situações, a meu ver insuficientemente distinguidas na literatura: uma envolvendo um valor prospetivo-retrospetivo e outra envolvendo um valor puramente prospetivo; estas distinções têm relevância tanto no plano estritamente temporal como no plano modal; por vezes, só pistas contextuais e/ou o conhecimento do mundo permitem destrinçar as duas situações. Mais concretamente, creio que são de distinguir:

  • (i) os casos em que há posterioridade a passado e anterioridade a presente, ou seja, um valor prospetivo-retrospetivo, e se assume que as situações descritas ocorreram de facto no passado (valor factual), como em (1), acima, ou (13), abaixo; poderíamos neste caso falar num “condicional de relato histórico”;

  • (ii) os casos em que há simples posterioridade a passado, ou seja, um valor puramente prospetivo, e se deixa em aberto se as situações descritas ocorreram no passado ou não (valor não factual), como em (2), acima, ou (14), abaixo:

(13) Aristides de Sousa Mendes chegou a Bordéus em 1938. Dois anos depois, ajudaria muitos judeus a escapar da perseguição nazi. (14) Os anfitriões estavam nervosos, porque os convidados chegariam daí a uma hora e ainda havia imensas coisas para fazer.

A factualidade nos casos de valor prospetivo-retrospetivo, como (13), é observável na equivalência das formas verbais com desinência -ria a pretéritos perfeitos simples: ajudaria pode ser substituído por ajudou, em (13);5 essa equivalência não se verifica nos casos de valor puramente prospetivo (e não factualidade), como (14), em que chegariam não pode ser substituído por chegaram. Nos casos de valor prospetivo-retrospetivo, podem ainda, em certos registos, usar-se variantes estilísticas, nomeadamente o presente narrativo ou o futuro narrativo (cf. e.g. Cunha & Cintra, 1984, pp. 449, 458). Assim, em (13), poderia utilizar-se equivalentemente o presente ajuda ou o futuro ajudará, vai ajudar ou irá ajudar (eventualmente associados a um presente narrativo, chega, na primeira frase). Estas alternativas também não estão disponíveis nos casos do valor puramente prospetivo, como (14), em que chegariam não se pode substituir por chegam ou chegarão. Inversamente, em (14), pode fazer-se seguir a forma verbal por uma intercalação do tipo de esperava-se ou esse era o plano, que não é possível (preservando o sentido) em (13).

2.2. Formas com os verbos auxiliares ir e vir a

Uma questão linguística interessante relacionada com o uso de formas com a desinência -ria associadas ao valor temporal de posterioridade a passado envolve a sua coocorrência, bastante frequente, com os verbos auxiliares ir e vir a (cf. e.g. Cunha, 2015, 2017; Móia, 2017, 2018)6. Estes dois verbos competem entre si na construção de formas verbais complexas, com ir a poder ser usado com os dois valores - retrospetivo-prospetivo e puramente prospetivo - e vir a a especializar-se na marcação do valor prospetivo-retrospetivo, isto é, factual (um facto notado em Móia, 2017, pp. 226-227 e Móia, 2018, p. 163). Vejamos muito brevemente cada um destes verbos separadamente, começando com ir.

Como sabemos, em contextos dêiticos, observa-se uma competição, na expressão de valores de posterioridade a presente, entre o chamado futuro sintético, sem verbos auxiliares, e o chamado futuro perifrástico, construído com o verbo auxiliar ir (cf., entre muitos outros, Giomi, 2010 ou Móia, 2017), como em (15). Ora, em contextos anafóricos passados, observa-se uma competição - paralela a esta - entre formas sem o verbo auxiliar ir, que podemos designar (por analogia) como condicional sintético, e as formas com esse verbo (flexionado no pretérito imperfeito ou no próprio condicional presente), seguido do infinitivo do verbo principal, que podemos designar (também por analogia) como condicional perifrástico, como em (16) (cf. e.g. Cunha, 2015, 2017; Móia, 2017, 2018).

(15) O barco acabou de chegar. {Partirá / Vai partir / Irá partir} amanhã. (16) O barco acabara de chegar. {Partiria / Ia partir / Iria partir} no dia seguinte.

As três opções ilustradas em (16) são equivalentes, isto é, são essencialmente variantes estilísticas. Aliás, observa-se, curiosamente, que estas três formas ocorrem com frequência em posições muito próximas, refletindo escolhas claramente do plano do estilo. Veja-se o seguinte exemplo:

(17) “Mesmo depois de morto o meu espírito não descansaria em paz; as pessoas não me iam recordar com... não iriam rezar por mim.” (cetempúblico, ext1136002-nd-92a-1)

As formas com o verbo auxiliar ir exibem o mesmo tipo de ambivalência que as formas sintéticas: podem ser prospetivas-retrospetivas (factuais), como em (18), ou puramente prospetivas (não factuais), como em (19).

(18) “O artigo é co-assinado por David Baltimore, prémio Nobel de Medicina, ... e iria tornar-se [= tornar-se-ia, ia tornar-se], nos anos que se seguiram, a publicação mais ... discutida da história da biologia.” (cetempúblico, ext514729-clt-96b-1) (19) “Previa-se que a intervenção de Clinton ... fosse ... mais forte do que a que ele fez no sábado .... Tudo indicava que o Presidente iria reforçar [= reforçaria, ia reforçar] os quatro pontos abordados no sábado.” (cetempúblico, ext953817-pol-95b-2)

Quanto às formas com o verbo auxiliar vir a, distinguem-se das formas sintéticas e das formas com ir por apenas serem compatíveis - no uso relevante - com o valor prospetivo-retrospetivo, isto é, assume-se sempre que a situação descrita se realizou no passado, depois do ponto de perspetiva e antes do momento de enunciação. No caso de vir a, a flexão pode ser feita - tal como a de ir - no chamado modo condicional, com a desinência -ria (viria a), ou - diferindo de ir - no pretérito perfeito simples do indicativo (veio a). 7 Assim, em (18) acima, poderiam ter sido usadas equivalentemente essas formas (viria a, veio a) no lugar das que estão destacadas em itálico, obtendo-se um total espantoso de cinco formas equivalentes. Veja-se um exemplo de texto jornalístico com vir a:

(20) “... Jimmy Carter, na altura quase um desconhecido, viria a tornar-se [= tornar-se-ia, ia tornar-se, iria tornar-se; veio a tornar-se] Presidente dos EUA, três anos depois.” (cetempúblico, ext105349-pol-92a-2)

3. Valores epistémicos e evidenciais

Nesta secção, discutem-se dois valores próximos: o valor modal epistémico lato sensu e o valor evidencial reportativo (referidos como C e D, no Tabela 2, acima). Trata-se de valores afins, não havendo consenso entre todos os autores quanto às divisões tipológicas pertinentes, envolvendo as categorias semânticas da modalidade e da evidencialidade, em que eles se inscrevem. A questão é, aliás, extremamente complexa e não pode ser aqui realizada uma discussão que lhe faça justiça; assumirei um divisão binária entre os valores C e D, que creio ser relativamente perspícua, sem a problematizar (cf. e.g. Silva, 2022, para uma análise extensa da questão). Estes valores são associados tanto a formas simples como a formas compostas do chamado modo condicional. Ambos os valores ocorrem frequentemente em contextos anafóricos, mas pelo menos os evidenciais reportativos são igualmente frequentes em contextos dêiticos.

3.1. Valor modal epistémico lato sensu vs. valor evidencial reportativo

Simplificadamente, podemos considerar que o valor modal epistémico envolve o compromisso (tipicamente) do enunciador com a verdade da proposição enunciada, associando-se diretamente a graus de crença - cf. (21) -, e o valor evidencial reportativo, envolve a origem externa, e eventual fiabilidade, da informação transmitida - cf. (22).

(21) a. Ela é culpada, certamente. b. Não tenho dúvidas de que ela é culpada. (22) a. {Alegadamente / Segundo o procurador}, ela é culpada. b. O procurador foi claro: ela é culpada.

Importa notar que certos autores fazem ainda distinções mais finas, separando, dentro de um conceito amplo de evidencialidade (considerada um domínio de significação autónomo da modalidade), por exemplo, um valor evidencial inferencial (cf. Silva, 2022, pp. 267, 271); neste caso, também está em jogo a “fonte da informação”, mas ela corresponde à própria dedução lógica do enunciador:

(23) Ela esteve muito nervosa durante todo o interrogatório: é culpada, certamente.

Creio que a distinção entre este valor evidencial inferencial e o valor modal epistémico tout court não é muito fácil de estabelecer (pelo menos sempre), e não identifico diferenças gramaticais (e.g. morfossintáticas) claras entre eles, pelo que, por facilidade, amalgamarei esses dois valores no presente texto, usando valor modal epistémico num sentido lato que incorpora o valor evidencial inferencial (e bem assim o chamado valor evidencial direto, associado a conhecimento obtido por perceção sensorial; cf. Silva, 2022, p. 267).

O valore modal epistémico lato sensu e evidencial reportativo estão frequentemente associados ao uso de determinados tempos verbais, sendo os mais estudados, para o português, o futuro imperfeito e o futuro perfeito do indicativo (cf. e.g. Squartini, 2004, Giomi, 2010, Marques, 2020, Silva, 2022), que ocorrem em contextos dêiticos. Os exemplos (24) ilustram o futuro epistémico e os exemplos (25) o futuro reportativo:

(24) a. A criança terá uns oito anos, imagino. b. Ele não terá apanhado o autocarro na paragem certa, imagino. Deve ser por isso que se está já a preparar para sair, ainda agora entrou. (cf. exemplo semelhante em Silva, 2022, p. 279) (25) a. De acordo com os jornais de hoje, o suspeito será originário de Marrocos. (cf. Silva, 2022, p. 279) b. Segundo a polícia acabou de relatar, o ladrão terá entrado pela janela e terá tentado arrombar o cofre.

Ora, as formas simples e compostas do chamado modo condicional, que são as que aqui nos interessam centralmente, também podem sinalizar valores do mesmo tipo, principalmente em contextos anafóricos passados, como nas frases paralelas a (24) e (25) abaixo.8 Este é um facto conhecido da literatura (cf. e.g. Cunha, 2017, pp. 92-93, que remete para alguma da extensa literatura sobre o condicional reportativo noutras línguas, onde é comum o condicional, mas não o futuro, assumir este valor semântico). Os exemplos (26) ilustram o condicional epistémico e os exemplos (27) ilustram o condicional reportativo:

(26) a. A criança teria uns oito anos, imaginei. b. Ele não teria apanhado o autocarro na paragem certa, supus. (27) a. De acordo com os jornais daquela altura, o suspeito seria originário de Marrocos. b. Segundo a polícia relatou na altura, o ladrão teria entrado pela janela e teria tentado arrombar o cofre.

Precisemos melhor a extensão dos dois valores em causa que considerarei neste trabalho. Quanto ao valor modal epistémico lato sensu, incluirei nesta classe, como já disse, o que alguns autores distinguem como um valor evidencial direto, associado a conhecimento obtido por perceção sensorial, e um valor de evidencialidade indireta inferida, associada a conhecimento obtido por dedução lógica, como em (28) (cf. Silva, 2022):

(28) A mãe procurou a filha e não a encontrou em lado nenhum da casa. a. ... Estaria em casa de uma amiga, certamente. b. ... Teria ido a casa de uma amiga, certamente.

Também incluirei nesta classe as construções afins em que as formas com a desinência -ria dependem de predicados claramente epistémicos, como nas sequências seguintes:

(29) A mãe procurou a filha e não a encontrou em lado nenhum. {Pensou / Achou / Supôs / Imaginou / Calculou} que ela {estaria em casa / teria ido a casa} de uma amiga.

Por fim, incluirei também nesta classe as estruturas em que a incerteza ou desconhecimento se associa diretamente à formulação de uma interrogativa (direta ou indireta), como em (30)-(31):

(30) Por momentos, duvidei. {Seria correto agir como eu estava a agir? / Perguntei-me se seria correto agir como eu estava a agir.} (31) Por momentos, duvidei de mim próprio. {Teria agido corretamente? / Interroguei-me sobre se teria agido corretamente.}

Como se pode ver pelos exemplos acima, quando são usadas formas simples, o valor temporal é prototipicamente de sobreposição temporal (da situação descrita ao ponto de perspetiva temporal da frase) e quando são usadas formas compostas, o valor temporal é prototipicamente de anterioridade temporal. Sobre os casos que envolvem valores de posterioridade associados a valores epistémicos, que não incluirei na classe C, veja-se a secção 5 adiante.

Quanto ao valor evidencial reportativo, considerarei centralmente os casos em que estão presentes formas que explicitam estar-se perante um reporte indireto da informação, com atribuição da responsabilidade da asserção a terceiros. Estas formas incluem, entre outras:

  • (i) adjuntos encabeçados por segundo, de acordo com ou afins, com sinalização específica da fonte da informação, como em (32a) e (33a);

  • (ii) advérbios como alegadamente, que é exclusivamente reportativo, ou supostamente, que pode ser reportativo numa das suas aceções (cf. Marques 2012, 403-404), com sinalização vaga da fonte, como em (32b) e (33b);

  • (iii) predicados declarativos e afins, como e.g. dizer, noticiar, constar ou rumor, em cujas orações completivas surge uma forma verbal com a desinência -ria e valor reportativo, como em (32c);

  • (iv) intercalações do tipo de dizia-se ou (ao que) constava, como em (32d):

(32) a. De acordo com os jornais, o suspeito seria originário de Marrocos. b. O suspeito seria alegadamente originário de Marrocos. c. Constava que o suspeito seria originário de Marrocos. d. O suspeito seria, dizia-se, originário de Marrocos. (33) a. Segundo a polícia, o ladrão teria entrado pela janela e tentado arrombar o cofre. b. O ladrão teria alegadamente entrado pela janela e tentado arrombar o cofre.

Considerarei ainda casos em que, mesmo na ausência de formas explícitas deste tipo, o contexto alargado permite deduzir que se está perante um reporte de informação atribuível a uma fonte externa e não e.g. perante inferências do enunciador.

As formas verbais com o morfema -ria e valor evidencial reportativo são, tal como as que têm valor epistémico lato sensu, prototipicamente usadas em contextos anafóricos passados - cf. (32) e (33) acima. Porém, também surgem com alguma frequência em contextos dêiticos, em competição (estilística) com o futuro do indicativo. Vejam-se dois exemplos ilustrativos, de texto jornalístico:

(34) “Ainda de acordo com informações obtidas pela resistência, dois outros estudantes estariam [= estarão] neste momento sob tortura nas celas da polícia indonésia.” (cetempúblico, ext872062-pol-95a-1) (35) “E é bem provável que o facto de o Benfica se ter atrasado no pagamento de algumas prestações, que já teriam atingido [= terão atingido] os 200 mil contos, tenha facilitado o entendimento entre os dois clubes ....” (cetempúblico, ext176484-nd-98b-1)

3.2. Diferenças gramaticais na sinalização dos valores epistémico e reportativo

Como já foi referido, o valor modal epistémico e o valor evidencial reportativo são muito próximos, não sendo autonomizados por alguns autores (cf. e.g. Oliveira, 2013). Adicionalmente, nem sempre são fáceis de distinguir, mesmo quando há um contexto alargado, podendo não ser claro, por exemplo, se uma asserção se baseia em dedução do enunciador ou em informação obtida de fonte externa. Porém, há certas distinções gramaticais (morfossintáticas) que parecem separar os valores em causa e justificam, em minha opinião, um tratamento autónomo na descrição do sistema gramatical. Vejamos brevemente algumas dessas distinções.

Em primeiro lugar, só os valores modais epistémicos permitem com plena naturalidade uma paráfrase como o verbo modal dever.9 Assim, em (36), teria pode ser substituído equivalentemente por devia ter ou deveria ter; mas, em (37), seria não pode ser substituído por devia ser ou deveria ser, com preservação plena do sentido original:

(36) a. A criança teria uns oito anos, imaginei. b. Ele não teria apanhado o autocarro na paragem certa, supus. (37) De acordo com os jornais daquela altura, o suspeito seria originário de Marrocos.10

Importa notar que a possibilidade de paráfrase em causa não se aplica universalmente. Há pelo menos duas, ou três, exceções notáveis (cf. observação de restrições semelhantes para o futuro epistémico em e.g. Squartini, 2004, 2010; Giomi, 2010 pp. 156-157, ou Marques, 2020): frases interrogativas, frases com verbos auxiliares modais e, discutivelmente, certas frases completivas. Assim, apesar do valor modal epistémico, teria não pode ser substituído por devia ter ou deveria ter, em (38) e poderia ter não pode ser substituído por devia poder ter ou deveria poder ter, em (39).11

(38) Teria o jovem dezoito anos? Ninguém sabia. (39) O jovem poderia já ter dezoito anos.

Em segundo lugar, como vimos acima, o português dispõe de operadores especializados na sinalização do valor evidencial reportativo, como alegadamente, ou segundo SN, distintos dos que se especializam na sinalização da epistemicidade, como certamente ou possivelmente, ainda que possa haver marcadores ambivalentes epistémicos ou reportativos, como supostamente ou ao que parece (cf. Marques, 2012 e Silva, 2022).

Em terceiro lugar, em contextos dêiticos, o uso de formas do chamado modo condicional (como alternativa estilística ao futuro do indicativo) é relativamente comum com o valor evidencial reportativo - cf. (34)-(35) acima -, mas não com o valor modal epistémico (ainda que haja exceções - cf. n. 8). Vejam-se os contrastes abaixo.

(40) Vê-se que o rapaz é muito jovem. {Terá / *Teria} no máximo doze anos. (41) De acordo com informações obtidas pelo jornal, os partidos {estarão / OKestariam} neste momento a ponderar um acordo.

3.3. Expressão redundante dos valores epistémico e reportativo

O tempo verbal (seja o chamado condicional seja o futuro) pode ser a única marca linguística que sinaliza o valor modal epistémico ou o valor evidencial reportativo. Mas não é incomum haver a presença de outras expressões modais que expressam o mesmo valor, havendo redundância, inócua, entre os diferentes marcadores (cf. e.g. Giomi, 2010; Marques, 2012, 2020).

Comecemos pelo valor modal epistémico. Em contextos dêiticos, com o futuro, as marcações redundantes em causa observam-se, por exemplo, na coocorrência do morfema de futuro imperfeito (-r) com advérbios epistémicos como porventura, possivelmente, eventualmente ou certamente, ou com verbos modais como poder e dever (flexionados eles próprios no futuro) - cf. e.g. eles estarão porventura/certamente habituados, ele deverá/poderá estar já habituado. Em contexto anafóricos passados, em que se usam as formas verbais com a desinência -ria, observam-se redundâncias inócuas paralelas; note-se que, nestes contextos, as formas ditas condicionais podem ser substituídas sem alteração semântica por formas do indicativo stricto sensu (como sinalizado entre parênteses retos nos excertos abaixo).

(42) “Os médicos não atendiam os utentes, porque [eu] não os via entrar para a zona das salas de consulta; perguntei a um funcionário ali de serviço se aqueles estariam [= estavam] porventura de greve ....” (cetempúblico, ext1303011-nd-92a-1) (43) “Este atentado bombista está a ser investigado pelas autoridades ..., sendo de considerar a hipótese de conivência de algum elemento ... que, possivelmente, teria facultado [= facultou] informações de carácter interno referentes a horários, planta das instalações e outros pormenores.” (cetempúblico, ext416167-nd-94b-2)

Consideremos agora o valor evidencial reportativo, onde as marcações redundantes são porventura ainda mais comuns. Com efeito, como referido na subsecção anterior, é muito frequente as formas do chamado condicional estarem associados a formas que sinalizam de forma explícita o valor reportativo - cf. exemplos (32) e (33) acima. Nestes contextos, as formas verbais ditas condicionais também se associam a redundâncias inócuas e podem ser substituídas, sem alteração semântica, por formas do indicativo stricto sensu (como sinalizado entre parênteses retos nos excertos abaixo):

(44) “Dias depois ..., a General Motors ... anunciou que tinham desaparecido alguns importantes documentos ..., que estariam [= estavam] alegadamente na posse de López.” (cetempúblico, ext1222075-eco-93b-2) (45) “... ontem dizia-se que o FC Porto estaria [= estava] para ser notificado de uma outra dívida ..., mas o papel teria ficado pelo caminho.” (cetempúblico, ext1433098-des-94a-2) (46) “O diário ... noticiou, na sexta-feira passada, que Cunha Rodrigues teria pedido [= pediu] a Daniel Sanches para regressar aos tribunais ....” (cetempúblico, ext1899-pol-96a-1)

Sobre estes operadores reportativos e as combinações em causa, veja-se e.g. Giomi (2010, pp. 190-191) ou Marques (2012), trabalhos que focam o futuro, onde as redundâncias na marcação do valor reportativo são igualmente frequentes - cf. e.g. estarão à espera, segundo a polícia; estarão alegadamente à espera; diz-se que estarão neste momento à espera.

4. Valores condicionais, em condicionais hipotéticas ou contrafactuais

Considero aqui separadamente, pelas suas propriedades gramaticais muito particulares, os valores condicionais, que naturalmente caem dentro da esfera dos valores modais num sentido lato.

4.1. As estruturas condicionais (bioracionais e outras)

A condicionalidade envolve uma dependência entre situações, em estruturas tipicamente (mas nem sempre) bioracionais (cf. e.g. Brito, 2003, pp. 705-710, ou Lobo, 2013, pp. 2020-2025). São exemplos prototípicos destas estruturas frases complexas com uma oração principal (apódose) e uma oração subordinada adverbial condicional (prótase) introduzida pela conjunção se, que pode ser, nos casos que aqui interessam, de tipo hipotético, como em (47) - com um contexto dêitico em (47a) e um contexto anafórico em (47b) -, ou de tipo contrafactual, como em (48):

(47) a. Está decidido. Se chover, {fico / ficarei} em casa. b. O dia estava cinzento e eu já tinha tomado uma decisão. Se chovesse, {ficaria / ficava} em casa. (48) Se tivesse chovido, eu {teria ficado / tinha ficado} em casa.

Importa destacar o caso particular (referido em Marques 2010, pp. 553-554) de orações condicionais hipotéticas em contextos dêiticos, como os de (47a), que usam as formas verbais dos contextos anafóricos, como as de (47b), para sinalizar crença fraca na realização das situações referidas, dada a sua implausibilidade:

(49) O céu está azul. Se chovesse agora, eu {ficaria / ficava} muito admirado.

Interessa ainda sublinhar que, como é bem sabido, as estruturas de valor condicional nem sempre se materializam em sequências bioracionais compostas por uma frase subordinada condicional (introduzida por conectores condicionais como se, caso, a ou mesmo que, por exemplo) e uma frase principal, apesar de estas serem as construções mais prototípicas. A prótase das estruturas em causa também pode ser representada, por exemplo, por orações gerundivas, por adjuntos não oracionais anafóricos ou por adjuntos não oracionais de valor afim a orações condicionais, como em (50)-(51):12

(50) {Tendo essa possibilidade / Nesse caso / Caso contrário}, eu não hesitaria. (51) Com mais dez anos de serviço, ele já poderia pedir a aposentação.

Pode até acontecer que a prótase (isto é, a condição de que depende a verificação da situação descrita no consequente da estrutura condicional) esteja completamente subentendida, dificultando porventura a identificação das construções em causa (e, muito destacadamente a sua distinção das construções com valor temporal puramente prospetivo - cf. discussão em 5, adiante). Vejam-se os seguintes exemplos, o primeiro adaptado de um texto ficcional traduzido:

(52) A casa situava-se numa zona isolada. Com alguns cliques no Google, Emma descobriu que demoraria apenas uma hora a lá chegar de carro. (53) Eu podia ter-lhe tentado explicar, mas ele não teria entendido. (cf. exemplos semelhantes em Oliveira, 2003, pp. 165-166)

No primeiro exemplo, a ocorrência da situação descrita pela frase demoraria apenas uma hora a lá chegar de carro está naturalmente dependente da própria realização da viagem pela personagem referida, Emma, isto é, subentende-se uma condicional hipotética como se fizesse a viagem ou se fosse até lá. No segundo exemplo, está subentendida a informação que pode ser veiculada por uma condicional contrafactual, como se eu lhe tivesse tentado explicar.

O uso dos tempos verbais em estruturas condicionais é um tópico complexo, que não pode ser aqui tratado em profundidade (cf., entre muito outros, Ferreira, 1996 ou Justino, 2018). Destaco aqui apenas alguns factos, centrando-me nos usos das formas com a desinência -ria em construções condicionais (bioracionais ou não) hipotéticas e contrafactuais.

4.2. Condicionais hipotéticas

Nas construções condicionais de valor hipotético, que integram formas verbais com a desinência -ria na apódose, os contextos são tipicamente anafóricos. Vejamos primeiro estes contextos, em estruturas bioracionais com subordinadas condicionais com se. A situação descrita na oração subordinada condicional (evs) pode ser apresentada como sobreposta ou como posterior a um ponto de perspetiva passado (TPpt-PAST), usando-se tipicamente o pretérito imperfeito do conjuntivo nessa oração, como acontece em (54a) e (54b), respetivamente, ou como anterior a esse ponto de perspetiva passado, usando-se, neste caso, o pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo nessa oração, como em (55). Quanto à situação descrita na oração principal (evp), em que ocorre a forma com -ria, ou tem um valor temporal de posterioridade ao ponto de perspetiva passado, sendo puramente prospetiva (como na construção de tipo B, acima), como em (54b) e (55b), ou tem um valor de sobreposição a esse ponto, como em (54a) e (55a).

(54) Um funcionário estava a controlar as entradas no recinto. a. ... Se as pessoas tivessem bilhete, estariam autorizadas a avançar. [TPpt-PAST ( evs ( evp] b. ... Se as pessoas avançassem mais depressa, a fila rapidamente desaparecia. [TPpt-PAST < evs < evp] (55) A polícia acorreu ao lugar do acidente. Disseram que, se alguém tivesse presenciado a colisão dos automóveis a. ... estaria obrigada a prestar declarações. [evs < TPpt-PAST ( evp] b. ..., seria contactado pela polícia em breve. [evs < TPpt-PAST < evp]

Em frases matriz associadas a condicionais hipotéticas, ocorrem essencialmente as formas simples do modo condicional. Estas formas estão em variação mais ou menos livre, sujeita a considerações estilísticas, com o pretérito imperfeito do indicativo (eventualmente com o verbo auxiliar ir). Veja-se um exemplo com este tempo verbal, igualmente com perspetiva passada:

(56) “Despi-me. Hesitei um instante. Se me deitasse naquele momento ia ter [= iria ter, teria] insónias, de certeza.” (cetempúblico, ext6931-clt-93a-1)

Como já vimos, em condicionais hipotéticas com perspetiva presente (TPpt-PRES), isto é, em contextos dêiticos, é possível usar formas simples com a desinência -ria (e bem assim o pretérito imperfeito, como alternativa estilística), quando se sinaliza crença fraca (na existência presente ou ocorrência futura das situações descritas na prótase e na apódose), como em (49) acima. Vejam-se mais dois exemplos deste tipo em texto jornalístico com diferentes tipos de relações temporais.

(57) “A CIA mantém que Pyongyang dispõe já da tecnologia para a construção de engenhos nucleares .... Se isso fosse verdade, iria provocar o retorno ao Sul da península de engenhos nucleares norte-americanos ....” (cetempúblico, ext438155-pol-94a-1) [TPpt-PRES ( evs < ( evp] (58) “... Beira Mar ..., Farense ... e Guimarães ... podem discutir entre si no próximo domingo quem será o terceiro clube português na Taça UEFA. Se o Beira Mar, por hipótese, ganhasse no Jamor[,] iria à Taça das Taças ....” (cetempúblico, ext535114-des-91a-1) [TPpt-PRES < evs < evp]

4.3. Condicionais contrafactuais

Nas construções condicionais de valor contrafactual que integram formas verbais com a desinência -ria na apódose, os contextos podem ser tanto anafóricos como dêiticos. A situação diferente da realidade que é descrita na oração condicional (evs), pode ser apresentada como sobreposta a um ponto de perspetiva presente (TPpt-PRES) ou passado (TPpt-PAST), usando-se tipicamente o pretérito imperfeito do conjuntivo nessa oração - é o que acontece em (59)-(60); pode ainda ser apresentada como anterior ao ponto de perspetiva temporal (presente ou passado), usando-se, neste caso, o pretérito mais-que-perfeito do conjuntivo nessa oração - é o que acontece em (61)-(62).13 Quanto à situação descrita na oração principal (evp), em que ocorre a forma com -ria, ou tem um valor temporal de sobreposição ou posterioridade ao ponto de perspetiva, como em (59) e (61), usando-se neste caso as formas simples com o morfema -ria, ou tem um valor de anterioridade a esse ponto, como em (60) e (62), usando-se neste caso as formas compostas com o morfema -ria. Note-se ainda que a relação temporal entre a situação descrita na principal e na subordinada pode variar muito: no caso das formas compostas com -ria, em (62), tanto se associa a anterioridade (evp < evs) - cf. (62a) - como a sobreposição (evs ( evp) - cf. (62b) - como a posterioridade (evs < evp) - cf. (62c). Por uma questão de espaço, apresento a seguir apenas contextos dêiticos, mas é fácil construir as correspondentes contrapartidas anafóricas (sem diferenças nas formas verbais relevantes, na prótase ou na apódose).

(59) Se o Pedro estivesse aqui agora, a. ... estaríamos a celebrar. [TPpt-PRES ( evs ( evp] b. ... despachar-nos-íamos mais cedo. [TPpt-PRES ( evs < evp] (60) Se o Pedro estivesse aqui, já teria resolvido o problema. [evp < TPpt-PRES ( evs] (61) Se o Pedro tivesse vindo, a. ... ainda estaríamos agora a celebrar. [evs < TPpt-PRES ( evp] b. ... despachar-nos-íamos mais cedo. [evs < TPpt-PRES < evp] (62) Se o Pedro tivesse vindo, a. ... teria comprado o bilhete com antecedência. [evp < evs < TPpt-PRES] b. ... teria vindo com a namorada. [evs ( evp < TPpt-PRES] c. ... já teríamos bebido várias cervejas. [evs < evp < TPpt-PRES]

Em suma, os exemplos acima mostram que as formas simples com a desinência -ria marcam sobreposição ou posterioridade (de evp a TPpt), podendo evp ser sobreposto ou posterior a evs; as formas compostas com a desinência -ria marcam anterioridade (de evp a TPpt), podendo evp ser anterior, sobreposto ou posterior a evs. Sem prejuízo de que haja outras possibilidades eventualmente atestadas, estas parecem ser as combinações típicas e mais frequentemente observadas em corpora de texto escrito.

As formas com a desinência -ria em construções condicionais contrafactuais também alternam estilisticamente com formas do indicativo, pretérito imperfeito para as formas simples e pretérito mais-que-perfeito para as formas compostas. Trata-se porventura de alternativas sentidas como particularmente informais, sendo relativamente raras em registo jornalístico:

(63) “O armador ... reconhece que, ‘se estivesse inactivo, com os subsídios até não estava [= estaria] mal’ ....” (cetempúblico, ext225542-eco-95b-1) (64) “Se ainda tivesse faltado algum tempo para terminar o jogo, o árbitro não tinha assinalado [= teria assinalado] a penalidade a nosso favor...” (cetempúblico, ext7236-des-94a-1)

5. Frequência dos valores no registo jornalístico português - um estudo exploratório

Por curiosidade e para aferir, por um lado, a adequação e cobertura da tipologia aqui proposta, e, por outro lado, a vitalidade das construções no português europeu padrão contemporâneo, analisei e classifiquei as primeiras 200 ocorrências das formas de condicional simples (de terceira pessoa do plural, 3PL) e as primeiras 200 ocorrências das formas de condicional composto (3PL) do cetempúblico, excluindo, por mera conveniência e para salvaguardar eventuais especificidades, aquelas que envolvem verbos modais (e.g. poderiam, deveriam, teriam de).14 Os resultados estão na Tabela 3.15 As classificações são da exclusiva responsabilidade do autor, não tendo sido consultados informantes. Naturalmente, as proporções observadas no registo jornalístico escrito poderão não se observar de forma exatamente igual em todos os outros tipos de registo escrito, dadas as particularidades da escrita jornalística (em especial o seu extenso uso da evidencialidade reportativa); porém, estou em crer que dão uma indicação bastante clara das preferências contemporâneas da escrita portuguesa.

Tabela 3: Prevalência dos valores associados às formas verbais com a desinência -ria (para uma mostra aleatória de 400 excertos do corpus cetempúblico, excluindo os verbos modais poder, dever e ter de) 

formas valores formas simples (3PL) formas compostas (3PL) TOTAL
temporais (associados a posterioridade) [A] prospetivo- -retrospetivo (factual) 28 (14%) 94 (47%) - 94 (23,5%)
[B] puramente prospetivo (não factual) 66 (33%)
epistémicos e evidenciais (associados a sobreposição ou anterioridade) [C] modal epistémico lato sensu 7 (3,5%) 30 (15%) 17 (8,5%) 148 (74%) 178 (44,5%)
[D] evidencial reportativo 23 (11,5%) 131 (65,5%)
condicionais [E] hipotético 54 (27%) 76 (38%) - 128 (32%)
[F] contrafactual 22 (11%) 52 (26%)
TOTAL 200 200 400

Este exercício revelou algumas dificuldades de classificação, que descrevo e exemplifico a seguir. Algumas delas constituem-se como problemas em aberto para investigação posterior. Destaco quatro.

(i) valor temporal prospetivo-retrospetivo (A) vs. puramente prospetivo (B)

Trata-se de valores que são muito próximos e partilham tipicamente os marcadores morfossintáticos, como vimos na secção 2. A dificuldade da sua distinção faz-se sentir apenas de forma muito esporádica: nos 400 excertos analisados, quase sempre foi absolutamente claro qual o sentido pretendido; geralmente, o contexto mais alargado permite verificar se o enunciador está a reportar um facto anterior ao momento da enunciação ou uma situação cuja ocorrência real não está em consideração. Além disso, há casos com formas que não oferecem dúvidas, como vir a (associado apenas ao valor prospetivo-retrospetivo). Exemplos de classificações no Tabela 3:

(65) [A] “De certo modo ‘Lohengrin’ é uma ópera desigual, na medida em que marca a ‘despedida’ de Wagner da ópera romântica tradicional, ao mesmo tempo que esboça já técnicas e ambientes sonoros que seriam explorados de forma mais desenvolvida no ‘Anel do Nibelungo’.” (cetempúblico, ext11612-clt-94a-2) (66) [B] “Em simultâneo, o professor propôs que existissem três enunciados de exame possíveis, sendo um sorteado e utilizado, enquanto os outros dois seriam mostrados aos alunos juntamente com a sua resolução.” (cetempúblico, ext3039-soc-96b-1)

(ii) valor modal epistémico lato sensu (C) vs. valor evidencial reportativo (D)

Trata-se de valores que são muito próximos e nem todos os autores distinguem, como vimos na secção 3. A dificuldade da sua distinção faz-se sentir apenas de forma muito esporádica, quando não há expressões que marcam explicitamente os valores em causa (e.g. alegadamente, segundo SN ou verbos declarativos na matriz, para o valor reportativo; orações interrogativas ou verbos epistémicos como supor na matriz, para o valor epistémico). Porém, mesmo sem esses operadores, quase sempre o contexto mais alargado permite verificar se o enunciador está a reportar factos com uma origem externa, ou deduções ou dúvidas próprias, por exemplo. Exemplos de classificações no Tabela 3:

(67) [C] “... do meio da sala (seriam cinco, seis, sete mil espectadores?) via-se pouco e mal.” (cetempúblico, ext6206-clt-95a-1) (68) [D] “A mãe de Rui Gomes diz ainda que tanto o filho como a nora teriam receio de Eduardo Cardoso ..., dando assim a entender que este os obrigaria a cometer crimes. (cetempúblico, ext4057-soc-97a-1)

Veja-se um caso sem marcador explícito de evidencialidade reportativa, mas que parece ter claramente essa interpretação (cf. possibilidade de adicionar alegadamente):

(69) [D] “Todos os deslocados, que no conjunto dos campos, ainda na semana passada, ascenderiam a 250 mil, foram obrigados a sair ... para serem identificados antes de seguirem para as suas terras natais.” (cetempúblico, ext11086-pol-95a-1)

(iii) valor temporal puramente prospetivo (B) vs. valor condicional hipotético (E)

A possibilidade de a prótase de uma relação condicional estar totalmente subentendida está tipicamente na origem da dificuldade de distinguir estes dois valores. Note-se que ela não afeta a distinção entre o valor temporal prospetivo-retrospetivo (A) e o valor condicional hipotético, que é sempre muito clara. Com formas puramente prospetivas - seja em relação a um ponto de perspetiva presente, com futuro, seja em relação a um ponto de perspetiva passado, com o chamado condicional -, há sempre um elemento de incerteza, que pode ser materializado através de uma condicional hipotética de sentido geral (não explicitada) como se o universo não terminar/terminasse entretanto, em (70), ou se tudo correr/corresse conforme o previsto, em (71):

(70) a. Amanhã o sol nascerá às 6h45. b. Já sabia. No dia seguinte, o sol nasceria às 6h45. (71) a. Casarei em breve. b. Estava tudo planeado. Casaria em breve.

Na classificação dos excertos, considerei, em todos estes casos, o valor temporal puramente prospetivo (B), não o eventual valor condicional, trivialmente implícito. Sobre as diferenças e semelhanças entre os valores em causa, cf. Cunha (2015). Exemplos de classificações no Tabela 3:

(72) [B] “O general (britânico) Rupert Smith ... e o general sérvio bósnio Dragomir Milosevic assinaram terça-feira um acordo segundo o qual as armas pesadas inamovíveis dos sérvios bósnios seriam neutralizadas, armazenadas ou destruídas ...” (cetempúblico, ext3856-pol-95b-1) (73) [E] “A Comissão ... é da opinião de que este novo imposto deve ser fiscalmente neutro .... Desta forma, os seus custos macroeconómicos seriam negligenciáveis, não afectando a competitividade das empresas ...” (cetempúblico, ext3856-pol-95b-1)

(iv) valor temporal puramente prospetivo (B) vs. valor modal epistémico (C) e valor evidencial reportativo (D)

Em contextos de prospetividade, seja a presente seja a passado, a fronteira entre localização temporal reichenbachiana, por um lado, e modalidade epistémica ou evidencialidade reportativa, por outro lado, é difusa, havendo frequentemente acumulação de valores. No Tabela 3, sempre que há prospetividade, considerei o valor temporal puramente prospetivo (B), não o eventual valor adicional epistémico (C) ou reportativo (D), mesmo quando estes valores adicionais são explicitamente sinalizados.

Note-se que o valor modal epistémico pode ter uma projeção prospetiva, como acontece em (75), que classifico como B, por oposição a (74), que classifico como C.

(74) O Paulo era inteligente. Estaria certamente a ter boas notas. (75) O Paulo era inteligente. Certamente resolveria o problema.

Também o valor evidencial reportativo pode ter uma projeção prospetiva, como em (77), que classifico como B, por oposição a (76), que classifico como D:16

(76) Chegou a Londres no dia 10. Segundo a polícia, nessa altura, já estaria a planear assaltar o banco. (77) Chegou a Londres no dia 10. Segundo a polícia, partiria para Oxford no dia seguinte para realizar o assalto. (Mas isso nunca chegou a acontecer.)

Em suma, os valores C e D só foram considerados, no Tabela 3, quando associados a sobreposição ou anterioridade; para valores prospetivos, quer ligados apenas a um plano, quer a um valor epistémico ou reportativo, considerei sempre a classe B. Para facilitar eventuais comparações, segue-se o número de casos (classificados como de valor temporal prospetivo) que envolvem uma componente epistémica ou reportativa clara: dos 66 registos de formas simples com a desinência -ria com valor puramente prospetivo referidos no Tabela 3, 18 têm associados um valor epistémico (e.g. eles seriam absolvidos, certamente; deduzi que eles seriam absolvidos) e 21 um valor reportativo (e.g. segundo o advogado, o processo seria anulado; informaram-nos de que os prisioneiros seriam transferidos). Exemplos de classificações como B no Tabela 3:

(78) [B] “A PJ apreendeu ainda cinco quilos de produtos químicos que posteriormente seriam adicionados aos estupefacientes, aumentado assim o número de doses.” (cetempúblico, ext12603-soc-98b-1) [+ valor epistémico: a adição futura é uma dedução da polícia] (79) [B] “... aos dirigentes ‘laranja’ [Mário Soares] deixou, segundo alguns do presentes, a garantia de que por si não seriam alimentados quaisquer ataques gratuitos ao Governo.” (cetempúblico, ext1678-pol-93a-1) [+ valor reportativo: a informação de não serem futuramente alimentados ataques (por parte de Mário Soares) é reportada]

Observando a Tabela 3, conclui-se que os valores condicionais e os valores temporais de posterioridade a passado, que estão na origem das designações das formas verbais com -ria nas tradições gramaticais portuguesa e brasileira, respetivamente, não apresentam diferenças de frequência esmagadoras no corpus de texto jornalístico português analisado: correspondem aí a cerca de um terço vs. cerca de um quarto das ocorrências totais, respetivamente. Há, porém, diferenças significativas entre formas simples e compostas: nas formas simples, quase metade das ocorrências sinaliza o valor temporal de posterioridade a passado e cerca de 40% o valor condicional; nas formas compostas, cerca de dois terços das ocorrências sinalizam o valor evidencial reportativo e cerca de um quarto o valor condicional.

Deixo para investigação futura eventuais diferenças no uso das formas com a desinência -ria entre o português europeu e o português brasileiro, que creio poderem ser interessantes. Por exemplo, parece haver diferenças de frequência significativas entre as duas variedades: pesquisas realizadas no cetempúblico [PE] e no NILC/São Carlos [PB]17 deram 95 ocorrências do condicional por milhão de palavras no primeiro corpus e 221 no segundo corpus. Interessará certamente, a este propósito, considerar a exploração maior ou menor que cada variedade faz das alternativas estilísticas com tempos do indicativo stricto sensu (em particular, o pretérito imperfeito) e ainda diferenças na marcação do valor reportativo; aparentemente, o português brasileiro não usa o futuro perfeito com valor modal reportativo (cf. Silva, 2022, p. 281), pelo que importa verificar se essa função é sistematicamente assumida pelas formas compostas com a desinência

-ria.

Deixo também para investigação futura análises contrastivas do português com outras línguas românicas, em que a literatura (que aqui foi largamente ignorada, por restrições de espaço) é extensíssima.

6. Conclusão

As formas verbais simples e compostas com a desinência -ria são extremamente polivalentes no português, ainda que as formas compostas se associem tipicamente a um leque menor de valores. Foi aqui proposta - a partir das descrições na literatura, mas insistindo nalgumas diferenças por vezes menos destacadas - uma tipologia de seis valores, agrupáveis dois a dois em três macroclasses: valores de localização temporal reichenbachiana, valores epistémicos e/ou evidenciais e valores condicionais.

Os valores estritamente temporais prospetivos, que estão na base da designação tradicional brasileira de “futuro do pretérito”, e os valores condicionais (hipotéticos e contrafactuais), que estão na base da designação tradicional portuguesa de “(modo) condicional”, parecem ter uma distribuição relativamente equilibrada. A estes acrescem, com um peso muito significativo, os valores modais epistémicos e evidenciais reportativos.

No uso das formas com a desinência -ria, como é bem sabido da literatura, tempo e modalidade interagem de forma particularmente estreita: mesmo quando se consideram apenas valores temporais, há aspetos modais que ganham destaque (cf. factualidade vs. não factualidade, que distingue os valores prospetivos-retrospetivos dos valores puramente prospetivos); mesmo quando se consideram apenas valores epistémicos, reportativos ou condicionais, os valores de localização relativa reichenbachianos estão na base de distinções gramaticais relevantes; essa interrelação é evidenciada, de forma muito especial, na utilização frequente de formas alternativas do indicativo stricto sensu (e.g. pretérito imperfeito para sinalizar sobreposição ou pretérito mais-que-perfeito composto para sinalizar anterioridade, em contextos não estritamente temporais).

Financiamento:

Esta pesquisa foi financiada com verbas do Projeto Estratégico do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa UIDB/214/2025

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1Cf. a sua associação ao modo indicativo em e.g. Peres (1993) ou Oliveira (2003, 2013). Alguns gramáticos mais antigos também associam as formas do condicional ao modo indicativo – cf. e.g. Barbosa (1881, pp. 142, 147–149, 151–153).

2Vejam-se, em especial, casos em que a desinência -ria se associa a um valor pragmático de cortesia linguística (Poderia dizer-me as horas? Importar-se-iam de fazer menos barulho?), a valores modais desiderativos (Gostaria muito de poder ajudar-te! Bem que poderiam arranjar esta estrada!) ou a valores modais deônticos (Deveriam mudar esta lei!).

3Pode estar associado a formas compostas, quando se discutem os efeitos de uma hipótese em aberto sobre situações anteriores a ela (“condicionalidade hipotética retrospetiva”): se chover, a festa será cancelada e teremos gasto o dinheiro em vão (contexto dêitico, com futuro perfeito); estávamos preocupados: se chovesse, a festa seria cancelada e teríamos gasto o dinheiro em vão (contexto anafórico, com o condicional composto). Este uso do condicional composto não parece comum no registo jornalístico e não ocorre na amostra analisada na secção 5.

4Podem ocorrer formas compostas, se for sinalizada anterioridade a um ponto de referência temporal (Rpt) que é posterior ao ponto de perspetiva temporal passado da frase (TPpt); ou seja, há também posterioridade da situação descrita a TPpt, ainda que anterioridade a Rpt (cf. Móia, 2025) – cf. alternativas a (13) ou (14): [dois anos depois]Rpt, já seria famoso e já teria ajudado muita gente; estavam descansados, porque [daí a uma hora]Rpt já tudo teria terminado. Este uso do condicional composto não parece comum no registo jornalístico e não ocorre na amostra analisada na secção 5.

5A possibilidade de substituição pelo pretérito perfeito simples é condicionada por fatores sintáticos-semânticos, não sendo normalmente possível, por exemplo, em contextos de subordinação (completiva): e.g. quando Aristides de Sousa Mendes chegou a Bordéus em 1938, não fazia ideia de que, dois anos mais tarde, {ajudaria / iria ajudar / ia ajudar / *ajudou} muitos judeus a escapar da perseguição nazi.

6Está prevista a publicação em dezembro de 2025, na Revista de Estudos da Linguagem (Faculdade de Letras da UFMG), de um artigo do autor especificamente sobre as particularidades do verbo vir a (“O verbo auxiliar vir a como marcador de posterioridade”).

7O verbo vir a – num uso distinto – pode ser associado a prospetividade pura. Nesse uso, vir é flexionado no futuro, em contextos dêiticos (e..g. não sei se ele virá algum dia a arrepender-se; virá ele a arrepender-se?), ou no chamado condicional (não substituível por pretérito perfeito simples), em contextos anafóricos afins – e.g. em completivas como na altura, achámos que ele viria a arrepender-se, mas isso nunca aconteceu, ou em orações interrogativas, como Viria ele algum dia a arrepender-se? Essa era a nossa dúvida... Deixo a análise dos diferentes valores do verbo auxiliar vir a para investigação futura.

8Como se pode ver pelos exemplos desta secção, as formas verbais com valor modal epistémico lato sensu são tipicamente anafóricas, não se usando normalmente em contextos dêiticos (cf. Via-se que o rapaz era muito jovem. Não {teria/*terá} mais de onze ou doze anos). Há, porém, algumas exceções, cuja análise remeto para investigação futura: veja-se o uso do chamado condicional composto, no seguinte contexto interrogativo dêitico: Viste o Pedro? Teria ele saído? (mas:{Será/*Seria} que ele saiu?).

9Giomi (2010, p. 156) refere, a propósito do futuro sintético, que é ambíguo entre uma interpretação estritamente temporal e uma interpretação epistémica, que só a segunda interpretação permite uma paráfrase com o verbo modal dever.

10Em (37), com devia/deveria ser, está a referir-se a existência de dúvidas na própria fonte externa, o que não acontece com seria, pelo que as duas construções não são exatamente equivalentes.

11Em completivas dependentes de verbos epistémicos, o uso redundante de dever não é totalmente bloqueado (cf. pensávamos que o jovem {teria / OK?deveria ter} menos de dezoito anos) e surge por vezes em registos escritos: “Paulo Santos calcula que deveriam estar radicados no Zaire entre cinco e seis mil portugueses ....” (cetempúblico, ext384863-pol-91b-1); “Por tudo isto eu seria capaz de supor que Mário Cesariny devia estar desgostosíssimo ....” (cetempúblico, ext108107-clt-95b-2).

12Oliveira (2013, p. 533) fala, a propósito de frases como com um Ferrari, teríamos ganho a corrida, em construções “não explicitamente condicionais, [mas que] têm uma interpretação desse tipo, que pode ser reconstruída (cf., por exemplo, se tivéssemos um Ferrari, teríamos ganho a corrida)”.

13A situação descrita na oração condicional (evs) pode ainda ser apresentada como posterior a um ponto de perspetiva presente ou passado, usando-se diversas combinações de formas, que não irei tentar aqui sistematizar. Veja-se: O carro {acabou / acabara} de avariar. Se tivesse chegado ao destino, teria sido um milagre. (com acabou: [TPpt-PRES < evs ( evp] com acabara: [TPpt-PAST < evs ( evp]).

14Pesquisas realizadas: “.ariam|.*eriam|.*iriam” (para o condicional simples) e “teriam” “.*do” (para o condicional composto), selecionando as primeiras 200 ocorrências relevantes dos resultados.

15No casos dos valores temporais, os excertos contêm os verbos auxiliares ir e vir a (cf. secção 2.2) nas seguintes proporções: [A] valor prospetivo-retrospetivo: 16% de excertos com ir, 25% de excertos com vir a; [B] valor puramente prospetivo: 20% de excertos com ir.

16Cf exemplo de Oliveira & Duarte (2012, p. 54), o ministro holandês disse que esse encontro levaria tempo a preparar, que, segundo as autoras, “peut véhiculer une information temporelle d’ultériorité, avec un temps de repère passé, tout en ayant aussi une valeur de modalité d’emprunt”.

17Pesquisaram-se sequências ter + particípio passado (com 0 a 2 palavras entre o auxiliar e o particípio), contemplando a possibilidade de mesóclises. Foram analisados os primeiros 250 resultados obtidos, sendo determinada uma taxa de resultados irrelevantes a partir desse análise, que foi aplicada ao número total de resultados obtidos.

Recebido: 02 de Janeiro de 2025; Aceito: 26 de Setembro de 2025

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