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Análise Social

versão impressa ISSN 0003-2573

Anál. Social  no.252 Lisboa set. 2024  Epub 30-Set-2024

https://doi.org/10.31447/202249 

Artigo Dossiê Temático

A receção da Falange nos fascismos latino-americanos: o caso da Ação Integralista Brasileira

The reception of the Falange in Latin American fascisms: the case of the Brazilian Integralist Action

Gabriela de Lima Grecco1 
http://orcid.org/0000-0002-7137-5251

Leandro Pereira Gonçalves2 
http://orcid.org/0000-0002-9233-1098

1 Universidad Complutense de Madrid, Facultad de Geografía e Historia » Edif. B, Calle del Prof. Aranguren, Campus Universitario - 28040 Madrid, España ». gadelima@ucm.es

2 Universidade Federal de Juiz de Fora, Instituto de Ciências Humanas - ich » Rua José Lourenço Kelmer, Campus Universitário - cep 36036-900 Juiz de Fora, MG, Brasil ». leandro.goncalves@ufjf.br


Resumo

Este artigo, numa perspetiva transnacional, tem como propósito identificar a receção da Falange Espanhola nos movimentos fascistas latino-americanos, nomeadamente na aib (Ação Integralista Brasileira), partindo de três conceitos relacionados: hispanidad, catolicismo e império. Para Espanha, a América Latina era um espaço sonhado para a difusão do fascismo à espanhola e, nesse contexto, procurava-se também atrair Portugal para o campo gravitacional espanhol. Consequentemente, devido às tradições culturais, o Brasil passou a ser um espaço de circulação do falangismo e do franquismo. Partindo da imprensa integralista e dos escritos teóricos do movimento, a análise tem o objetivo de identificar a importância da política espanhola para o combate ao comunismo e ao liberalismo.

Palavras-chave: Ação Integralista Brasileira; Falange; fascismo; Guerra Civil Espanhola

Abstract

This article, from a transnational perspective, aims to identify the reception of the Spanish Falange within Latin American fascist movements, particularly in the aib (Brazilian Integralist Action), based on three related concepts: Hispanidad, Catholicism, and empire. For Spain, Latin America was a dreamed space for the diffusion of Spanish-style fascism, and in this context, there was also an effort to attract Portugal into Spain’s gravitational field. Consequently, due to cultural traditions, Brazil became a space for the circulation of Falangism and Francoism. Drawing from Integralist press and the theoretical writings of the movement, the analysis aims to identify the importance of Spanish politics in the fight against communism and liberalism.

Keywords: Brazilian Integralist Action; Phalanx; fascism; Spanish Civil War

Introdução1

Num contexto global de descrédito do sistema liberal, que apontava para a afirmação fascista como um novo modelo emergente, a génese do fascismo na América Latina foi justificada pela constatação da falta de soluções imediatas para a experiência liberal e republicana. De facto, a América Latina é uma região onde o fascismo foi um elemento fundamental na implantação de novas opções no campo político no período entreguerras. Desenvolveram-se, portanto, movimentos fascistas no continente, embora não tenham chegado ao poder, como foi o caso da Ação Integralista Brasileira (AIB).2

O fascismo não foi um fenómeno exclusivamente europeu, mas sim um movimento transnacional que teve um impacto importante na América Latina (Grecco, 2022), num contexto que coincidiu com o surgimento, pelo mundo, de um autoritarismo político (Fausto, 2012). Perante isso, é possível contrapor o argumento desenvolvido por alguns historiadores, como Emilio Gentile (2002), Renzo de Felice (1975) ou Stanley Payne (2014), acerca da inexistência do fascismo na América Latina.

Neste sentido, pode-se afirmar que a era fascista não foi apenas europeia, mas sim que se mostrou muito mais internacional, penetrando nos discursos e nas práticas de líderes carismáticos e em movimentos políticos em todo o mundo (Grecco e Gonçalves, 2022). Além disso, é importante realçar que estes movimentos fascistas latino-americanos não foram simples réplicas do fascismo italiano, pois sofreram adaptações às realidades locais (Trindade, 2004).

Para Roger Griffin, a era fascista significou, geograficamente, o surgimento de modelos fascistas que foram emulados - parcial ou semioticamente - e que, por outro lado, tiveram uma dimensão de criação de imaginários utópicos, internalizados e sonhados por milhões de pessoas ou por líderes políticos atraídos pelo fascismo. Dessa forma, como resultado, “coexistiram fundamentalmente diferentes maneiras de mapear subjetivamente o mundo em termos de valores de forças positivas e negativas, ideais e, portanto, de diferentes cenários de progresso” (Griffin, 2020). Ademais, entender as dimensões globais e internacionais do fascismo requer compreender as suas variações a nível nacional e as trocas intelectuais no oceano Atlântico e no mundo ( Finchelstein, 2019, p. 57).

A sedução em torno do regime fascista e a crítica à democracia que era associada ao liberalismo e ao anticomunismo foram elementos que moveram diversos fascistas, como é o caso dos integralistas na política nacional brasileira. Não há dúvidas de que o anticomunismo foi o principal elemento aglutinador de diversos grupos políticos. Através do diálogo com diversas experiências globais, os fascistas do Brasil passaram a fomentar a propagação das suas ideias, principalmente por meio da imprensa escrita, que teve um papel ativo nesse processo (Motta, 2002). Assim como outras práticas e outros pensamentos nacionalistas do período entreguerras, a política espanhola da década de 1930, que apresentava o anticomunismo como forte elemento, passou a fazer parte da dinâmica da aib.

Dessa forma, procura-se compreender o impacto que a Falange Espanhola (FE) teve no desenvolvimento dos movimentos fascistas latino-americanos, ao analisar, em particular, as reminiscências do falangismo, do franquismo e, inclusive, da Guerra Civil Espanhola no caso da AIB, o maior movimento fascista da América Latina. O exame destes elementos será realizado sobretudo a partir da imprensa integralista e dos escritos de teóricos do movimento, com o objetivo de identificar a importância de Espanha neste contexto de autoritarismo político brasileiro, bem como a receção3 do fascismo espanhol por parte dos camisas verdes. Do mesmo modo, tenciona-se visualizar a forma como ocorreu a construção do movimento fascista espanhol e como é que as suas principais ideias foram difundidas do outro lado do Atlântico.

Falange espanhola: surgimento e ideias principais

Na Espanha dos anos 1920 e 1930, havia uma tendência generalizada de fascistizar as práticas e os discursos de certos setores conservadores. O triunfo de Mussolini em Itália, em 1922, e de Hitler, que assumiu o governo em janeiro de 1933, na Alemanha, apareceu aos olhos da opinião pública conservadora como a garantia da conquista do poder por meio de um novo projeto com ares modernos. Naquela época, enquanto o fascismo triunfava no resto da Europa, a direita era esmagada em Espanha pelo curso dos acontecimentos, especialmente com o avanço da esquerda, que atingiu o seu clímax com a vitória nas eleições de 1936.

Com o resultado das eleições de novembro de 1933, as forças do conservadorismo antirrepublicano recuperaram posições e alguns militantes da coligação católica de centro-direita, liderada pela Confederação Espanhola de Direitos Autónomos (CEDA), chegaram ao poder em 1934. Essa formação do catolicismo político foi identificada por grupos de esquerda como uma manifestação do fascismo espanhol. Por outra parte, inversamente, para alguns intelectuais, como Ernesto Giménez Caballero e Ramiro Ledesma Ramos, que vinham progressivamente adotando posições fascistas, a crise das formações da direita tradicional abriria novas possibilidades para o fascismo revolucionário conquistar o poder e empreender a construção de um Estado fascista, como solução para os problemas da Espanha, que o liberalismo havia corrompido.

A “Carta a un compañero de la Joven España”, publicada no dia 15 de fevereiro de 1929 por Giménez Caballero em La Gaceta Literaria (1927-1932), pode ser lida como “a ata de nascimento do fascismo espanhol” (Albert, 2003, p. 355). O fascismo como movimento político, porém, só chegaria a Espanha em 1931. No mês de fevereiro, um grupo de jovens distribuiu pelas ruas de Madrid um panfleto intitulado La conquista del Estado. Manifiesto político. Este grupo, herdeiro intelectual de Giménez Caballero, esteve sob a liderança de Ramiro Ledesma Ramos (Rodríguez Jiménez, 2000, pp. 66-67).

A criação de organizações de tipo fascista terminaria com a fundação da FE e das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista (JONS). As JONS foram o resultado do cruzamento de duas outras tendências, a liderada pelo jovem Ledesma e a liderada por Onésimo Redondo, as Juntas Castellanas de Actuación Hispánica. A 29 de outubro de 1933, onze anos após a Marcha sobre Roma, teve lugar no Teatro de la Comedia, em Madrid, a cerimónia de lançamento do partido falangista. Este acontecimento marcou de forma decisiva o aparecimento do movimento fascista na vida pública espanhola, definido em si mesmo como um movimento análogo ao fascismo europeu. Poucos meses depois, foi aprovada a fusão das JONS com a FE, dando origem à Falange Espanhola das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista (FE de las JONS).

Fundada por José Antonio Primo de Rivera, a FE pretendia ser um movimento nacional dotado de um projeto político moderno e inovador.4 Para Rivera, o Estado liberal levara a um individualismo cujo resultado fora a opressão dos trabalhadores. Esse desvio do Estado nacional havia sido uma consequência do liberalismo, que tinha minado a unidade nacional espanhola através do sistema partidário. Entretanto, o socialismo também ameaçava o país, por meio de uma constante instabilidade que implicava a ideia da luta de classes. O falangismo tentou apresentar-se como uma alternativa séria para os trabalhadores, procurando conquistá-los com um projeto de corporativismo nacional e a construção de um partido único de direita moderno, autoritário e revolucionário, que transcendesse partidos e classes sociais (Grecco, 2017).

Após a unificação dos partidos, a 15 de fevereiro de 1934, os princípios falangistas foram fundidos com o conceito jonsista de sindicalismo nacional. De facto, este seria incorporado como o principal elemento do partido, considerado como uma fórmula de nacionalismo a nível político-organizacional, através de uma união única e vertical. A doutrina jonsista era constituída por cinco pontos fundamentais: a unidade de Espanha; o respeito pela tradição católica e pelo seu destino imperial; o apelo à juventude; a liquidação das organizações marxistas; a revolução socioeconómica, por meio da sindicalização compulsória, do controlo público da riqueza e da integração das massas submetidas a um novo Estado (Gallego, 2014, p. 124).

Apesar de os jonsistas não rejeitarem a religião católica como símbolo fundamental da identidade espanhola, uma vez que era vista com reverência, o fascista Ledesma Ramos defendia a existência de um claro contraste entre a religiosidade católica e o projeto nacionalista da Falange: o fascismo viria substituir o catolicismo como religião nacional. Sem dúvida, houve uma tensão entre as duas dimensões, a espiritual e a fascista, mas, ao mesmo tempo, assumiu-se a tarefa de conciliar o catolicismo e o nacional-sindicalismo, na tentativa de articular um projeto fascista com a moral católica, num país com as características históricas de Espanha.

Porém, deve-se realçar que, até à eclosão da Guerra Civil Espanhola, o movimento fascista não teve uma influência política importante. No início de 1935, a FE de las JONS era uma organização política muito pequena: num país com cerca de 25 milhões de habitantes, o partido tinha apenas cerca de seis mil membros (Bernecker, 1998). Assim, até ao levantamento militar de 18 de julho de 1936, a Falange não conseguiu alcançar uma posição efetivamente influente na política, na sociedade e na cultura espanholas. Ao contrário de outros movimentos fascistas, como a própria AIB, durante os três anos decorridos entre a sua fundação e a Guerra Civil, o movimento teve a sua existência comprometida em várias ocasiões, devido à sua incapacidade de recrutamento. Por outro lado, no início de 1935, a Falange deu uma guinada para um processo de radicalização e conseguiu ter um maior impacto na política (Rodríguez Jiménez, 2000, pp. 203-204).

A 29 de junho de 1936, José Antonio Primo de Rivera enviou uma circular aos altos funcionários do partido, em que assinava a adesão da Falange ao iminente golpe de Estado, advertindo, no entanto, que deveriam manter a sua idiossincrasia como movimento. Tanto durante a guerra como após a sua conclusão, a Falange promoveu o projeto fascista no regime do general Francisco Franco, com o objetivo de canalizar e mobilizar os espanhóis para a participação política. Desta forma, o lado nacionalista foi dotado de um ornamento estético e até fascista fornecido pelos jovens falangistas. Como consequência, o regime de Franco assumiu para si a estética dos fascistas, que estava muito mais capacitada para a mobilização social e política. A Falange, entretanto, não adquiriu importância apenas no contexto espanhol ou europeu: o projeto fascista espanhol foi difundido pelo mundo, especialmente na América Latina.

A falange espanhola e os movimentos fascistas da américa latina

Para compreender a receção que a Falange teve na América Latina, é fundamental analisar três conceitos que estão intrinsecamente relacionados: hispanidad, catolicismo e império. A partir de uma visão paternalista e imperial, a FE considerava a Espanha como a grande “Mãe Pátria” e os povos da América Latina como a “imagem e semelhança” daquela. Esta projeção em relação ao subcontinente americano baseava-se na hispanidad - um conceito do reacionarismo católico que entendia a Espanha como o povo escolhido para ser porta-voz da fé católica - e na teoria falangista, por meio da ideia de império, ou seja, pretendia-se revitalizar o antigo nexo metrópole-colónia (Gómez- Escalonilla, 1988, pp. 27-31).

Os falangistas viam-se como os herdeiros dessa tradição imperial e católica que representava um vínculo inquebrável entre os povos hispânicos. Desta forma, as referências históricas da Espanha imperial - as quais tinham como pilares os valores tradicionais e católicos e a expansão da hispanidad - encontravam-se representadas, especialmente, no processo de Reconquista e nos reis católicos (Maza Zorrilla, 2014).

O império, neste sentido, representava a perfeita ideia de grandeza que unia passado/presente e América/Espanha, enquanto a ideia de hispanidad era usada para articular um novo modelo de identidade nacional, na qual a Espanha reclamava a sua posição como potência mundial na era fascista. Aliada a isso, a ideia de unidad de destino, ou seja, de que havia um destino coletivo e imperial instaurado e difundido em Espanha, proclamada pelos falangistas, estava presente no programa do partido, na afirmação de que estes tinham “a vontade do Império” e que “a conquista histórica da Espanha era o Império” (Sebastiani e Marcilhacy, 2016). Para o líder falangista, José Antonio Primo de Rivera, a missão de Espanha e, portanto, da Falange era a sua vocação imperial por meio da expansão das tradições espanholas, da língua castelhana e da religião católica.

Em definitivo, no desenrolar da Guerra Civil Espanhola, a Falange identificou que esse seria o momento histórico perfeito para recalibrar e concretizar o seu sonho imperial e difundir a política fascista à espanhola na América Latina. Ademais, aspirava, nesse contexto, a influir na nova política da Península Ibérica, procurando atrair Portugal para o seu campo gravitacional (Fuentes e Dogliani, 2021, p. xi).

A relevância do falangismo encontra-se nos vínculos históricos e no seu poder de penetração na América Latina, e, por conseguinte, no seu transnacionalismo. Além disso, a sua importância reside no facto de se ter tornado um caso único entre os fascismos globais, pela sua duração - quase quarenta anos de existência - e por ser o único caso, entre os fascismos ibero-americanos, a chegar ao poder, embora a partir de uma posição subordinada ao general Francisco Franco. Por outra parte, o catolicismo, promovido pela Falange, também se mostrou como um elemento aglutinador, assumindo, em alguns casos, dimensões “clérigo-fascistas radicais” (Finchelstein, 2019, p. 86) em alguns movimentos fascistas latino-americanos.

A expansão das conceções falangistas tornou-se um elemento relevante porque, a partir disso, Espanha poderia recuperar a influência perdida sobre os países latino-americanos. Nesse contexto, visualiza-se uma poderosa atração gravitacional exercida pela Falange na América Latina. Pode-se afirmar, desse modo, que o falangismo inspirou diretamente a construção do fascismo no continente. Além disso, Francisco Franco foi visto como um ditador-modelo, em termos do seu autoritarismo fascistizante. O carácter emblemático da Guerra Civil Espanhola adquiriu um significado único por representar a primeira grande batalha entre o fascismo e o comunismo. Os fascistas latino-americanos conceberam a guerra civil como um confronto contra a “fúria” marxista, mas também como uma luta pela fé católica, considerando assim o comunismo anticlerical como um inimigo transnacional.

Uma determinada parcela de residentes de origem espanhola, tanto nos países da América hispânica como no Brasil (Pena-Rodríguez, 2014), foram importantes aliados na defesa do lado franquista e na difusão das ideias fascistas europeias no continente. O mesmo pode ser percebido em relação às colónias italianas e alemãs, em que parte da comunidade procurou estreitar os laços do continente com os fascismos italiano e alemão. No caso particular do Brasil, nessas comunidades havia um sentimento de apoio ao fascismo (Gertz, 1987). Grupos de imigrantes italianos foram particularmente afetados pelo esforço geopolítico fascista de reconectar os imigrantes e os seus filhos com a Itália de Mussolini, procurando transformá-los em protagonistas da política fascista ativa (Bertonha, 2001).

Os movimentos fascistas da região não só experimentaram a marca dos fascismos espanhol, português, italiano ou alemão como também estabeleceram intercâmbios entre eles. A partir de uma circularidade cultural no campo das apropriações, por exemplo, o fascismo boliviano (Andrade, 2022) ( através da Falange Socialista Boliviana) inspirou-se especialmente no falangismo espanhol, mas também no fascismo chileno, enquanto o fascismo paraguaio se baseou, mais do que no falangismo, no modelo autoritário de Francisco Franco (Seiferheld, 2022). Juntamente com isso, pensadores falangistas e jonsistas, como José Primo de Rivera e Ramiro Ledesma, foram fundamentais como referentes teóricos para o desenvolvimento do fascismo na América Latina, como foi o caso do fascismo brasileiro, dos nacistas chilenos e dos nacionalistas argentinos (Grecco e Gonçalves, 2022). Da mesma forma, a ideia jonsista de nacional-sindicalismo - considerado como uma fórmula do nacionalismo a nível político-organizacional, por meio de uma união única e vertical - inspirou intelectuais e movimentos fascistas e fascistizados no continente, como no Equador, com as Compañias Orgánicas Nacionales de Ofensiva Revolucionaria, e no Chile, com o Movimiento Revolucionario Nacional Sindicalista.5

Naturalmente, o maior impacto da FE foi na América hispânica. Entretanto, apresentou relevância também no espaço luso-brasileiro, sobretudo no caso da AIB, que alcançou uma posição de referência para outras organizações latino-americanas. O projeto fascista brasileiro identificado na AIB teve como elemento central aspetos oriundos do maurrasianismo e da Doutrina Social da Igreja, bem como alguns aspetos da doutrina e da prática do fascismo italiano, regime do qual adotou o modelo do partido único e o corporativismo de Estado. Veem-se, na doutrina católica e no princípio da autoridade do discurso cristão, antiliberal e anticomunista, matizes de criação de uma doutrinação no Brasil da década de 1930, na qual o integralismo estava incluído e que possuía, em componentes ibéricos, elementos centrais para a consolidação do fascismo como principal representação latino-americana (Gonçalves, 2017, p. 75).

A circularidade no campo das apropriações é notória. Ao se analisar o caso de Portugal, por exemplo, percebe-se que o movimento fascista português, liderado por Rolão Preto, se inspirou diretamente nas ideias proclamadas pela Falange - e mais especificamente pelos jonsistas -, e não por menos se autodenominaram os seus membros de “camisas azuis”, tal como eram conhecidos os fascistas espanhóis. O nacional-sindicalismo (N/S) representou uma radicalização fascista do integralismo lusitano (IL), tendo sido um elemento de relevância no projeto político da AIB.

Como qualquer outro movimento fascista, a aib pretendeu construir um programa original, principalmente no seu nacionalismo, mas o Estado Integral dos ideólogos aproximava-se bastante do Estado Nacional Sindicalista. No projeto político da AIB, a influência mais importante do il e do n/s foi, sem dúvida, no corporativismo. Salgado, particularmente, sintetizou alguma influência italiana com a literatura corporativista de António Sardinha. Alguns pontos do programa, como da autonomia municipal, tema caro aos teóricos do il, foram diretamente adaptados à realidade brasileira. [Pinto, 1994, p. 144]

Os integralistas brasileiros tinham uma sólida relação com Portugal, principalmente com o modelo corporativista estabelecido pelo il e pelo n/s, que apresentava um modelo semelhante ao da Falange, o que contribuiu para uma indireta aproximação da aib com o movimento espanhol e com o desenvolvimento da Guerra Civil Espanhola.

A receção do fascismo espanhol na ação integralista brasileira

A aib foi criada oficialmente a 7 de outubro de 1932. Tendo como chefe supremo Plínio Salgado, o integralismo apresentava um forte discurso com uma sólida base cristã. Alcançou um rápido crescimento até à instauração do Estado Novo brasileiro de Getúlio Vargas, em novembro de 1937 (Gonçalves e Caldeira Neto, 2022). A partir de uma ótica transnacional, os integralistas estavam atentos à política global durante a era fascista. Neste contexto, a política espanhola apresentou-se como um modelo a ser seguido, principalmente na luta contra o comunismo. Por essa razão, a Falange passou a ser identificada pelos integralistas como uma organização crucial numa perspetiva internacional. Por meio da imprensa e dos escritos dos principais teóricos integralistas, é possível identificar a receção - ou seja, o ato de reconfigurar narrativas e símbolos, conferindo-lhes novos significados (Chartier, 2002) - que o fascismo espanhol teve no Brasil.

Além de Plínio Salgado, a AIB contava com a liderança e a ação do segundo grande nome do movimento, Gustavo Barroso. Destacado intelectual, foi presidente da Academia Brasileira de Letras e fundador do Museu Histórico Nacional. No fascismo brasileiro, foi nomeado comandante-geral das milícias integralistas e membro do seu Conselho Superior, além de ter sido um dos mais importantes difusores do antissemitismo no Brasil (Maio, 1992). Esses elementos, que constituíam o pensamento barrosiano, são importantes para entender a relevância adquirida pela FE entre os integralistas. Na obra O Integralismo e o Mundo (1936), por exemplo, Barroso identifica a relevância da política de José Antonio Primo de Rivera para a organização do fascismo em Espanha, principalmente no que dizia respeito ao “combate ao comunismo, ao liberalismo, ao judaísmo e à maçonaria” (Barroso, 1936, p. 67).

A Falange era vista como um “movimento de elites intelectuais e de milícias populares contra o marxismo destruidor de elites e escravizador de massas” (Barroso, 1936, p. 63). Esse era exatamente o mesmo modelo existente na AIB, que valorizava a militância no combate aos inimigos bem como a intelectualidade numa perspetiva corporativista, modelo exaltado por Barroso ao refletir sobre a organização fascista espanhola.

O corporativismo espanhol procurava criar um sistema harmónico e “uma consciência de fraternidade entre todas as classes e entre todos os homens” (Chueca, 1983, p. 98, tradução nossa). Neste sentido, o teórico integralista indicava que a estrutura tradicional, do tipo corporativista, promovia a animação da mocidade contra a modernização solidificada pelo liberalismo político-económico. Barroso repetia para os brasileiros a proclamação feita em Espanha de que a juventude, consciente da sua responsabilidade perante a história, deveria organizar-se e defender a nação em prol de uma recomposição dos equilíbrios sociais com base nos sindicatos e nas milícias, tal como havia sido idealizado no fascismo brasileiro.

Ademais, uma característica central do integralismo era a representação do espiritualismo na organização política. Havia um apelo para a devoção cristã, caminho esse que deveria ser percorrido pelos camisas verdes. Com isso, havia uma identificação com a Falange, a partir de uma espécie de unidade das organizações fascistas mundiais (ou, pelo menos, das latinas). Para Barroso, a vitalidade nacional de Espanha deveria ser identificada como um exemplo que pregava a harmonia das classes divididas, como pela reconquista da autoridade nacional a partir da formação de um Estado nacional- -sindicalista, corporativo e totalitário de tipo espanhol. Esta proposta seria formada a partir da construção de uma democracia orgânica e de um governo de elites abertas no campo político, com as corporações a representarem os interesses de toda a nação, principalmente no combate à “pseudodemocracia do liberalismo e a todas as mentiras do comunismo” (Barroso, 1936, p. 64).

Ao mesmo tempo, os fascistas espanhóis identificavam a importância do integralismo para o projeto autoritário e corporativista a partir de uma ação política no continente. Em 1934, apenas dois anos após a fundação da AIB, numa análise política sobre o Brasil publicada no periódico F. E., os falangistas exaltaram a proposta de Plínio Salgado:

O Brasil foi e é um daqueles Estados sul-americanos cujo Estado é mais um nome do que uma realidade. É uma confederação de Estados, imersa numa ideologia liberal e num relativo caos étnico, que de vez em quando experimenta convulsões políticas, terramotos espirituais e económicos que trazem desolação, ruína e desespero aos seus líderes, respondendo a este confuso e revoltoso estado de coisas, que são nitidamente estrangeiros do Brasil. Assim, a última revolução foi representada e liderada pelo general alemão Klinger.6 Diante de tais fraturas políticas e nacionais, surgiu um partido jovem e ambicioso, com o emblema fascista e estatal como lema: o Partido Integralista. Já participou em eleições e está a desenvolver a sua ideologia numa luta de fé e esforço. Desejemos-lhe toda a sorte e ousadia. [F. E., n.º 2, 11-01-1934, p. 8, tradução nossa]

Com uma relação de proximidade e trocas, não há dúvida de que a política espanhola foi relevante para o movimento integralista; porém, Primo de Rivera e Franco receberam destaque não apenas entre a intelectualidade fascista brasileira mas também na imprensa do movimento, que noticiava de maneira constante o desenrolar da política espanhola. Desta forma, “a vitória do fascismo na Espanha” durante a Guerra Civil foi comemorada nos periódicos integralistas a cada avanço político dos nacionalistas, bloco em que se integrava a Falange. Constantes relações eram estabelecidas, com o propósito de consciencializar os militantes brasileiros para a necessidade de lutar contra o comunismo, principalmente pela existência de um suposto “plano global do estalinismo”. (Acção, n.º 2, 08-10-1936, p. 2).

Miguel Reale, terceiro nome da hierarquia da AIB e responsável pela doutrina do movimento, dissertou sobre a Guerra Civil Espanhola no periódico Acção: “A sorte da Espanha parecia trágica. A fatalidade comunista pairava sobre a terra de Cervantes com tal força que bem poucos esperam uma reação salvadora” (Reale, 1936, p. 1). E, como bloqueio ao “avanço vermelho”, havia o exército de Primo de Rivera, que, em respeito pela história das glórias da pátria, procurava “defender o património sagrado que as gerações novas receberam dos antepassados” (Reale, 1936, p. 1). Nesse sentido, é evidente a identificação com os “fascistas, tanto na Espanha como no Brasil, tanto na Itália como na Alemanha, [que] servem a pátria e por ela se sacrificam sem esperar recompensa” (Reale, 1936, p. 1).

Neste contexto, os integralistas salientavam a importância do conflito espanhol, na medida em que ações entre fascistas e comunistas eram cada vez mais recorrentes no Brasil. No Acção, por exemplo, Reale destacou a existência de “emissários de Moscou”, que, a mando de Estaline, procuravam causar um desgaste político no Brasil, por meio da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que, em 1935, promoveu um levantamento armado contra o governo de Getúlio Vargas. Da mesma forma, no jornal A Offensiva pode ser identificada a utilização de referências ao caso espanhol. Há, por exemplo, a denúncia de incêndios em conventos em Espanha, atrelada à lamentação em torno da existência de ataques comunistas responsáveis por despejarem o ódio dos inimigos da religião:

Já tivemos uma prova de rancor dos comunistas contra os conventos, quando da arruaça que fizeram em Petrópolis, no ano passado. Ameaçaram covardemente pelo telefone as religiosas que ali dirigem colégios, dizendo que iriam atacá-las. Mas, felizmente, o bando chefiado pelo comunista Sisson fugiu apavorado, com uma simples bomba cabeça de negro (hoje ali apelidada [de] “Espanha comunista”) que foi atirada do núcleo integralista, quando por ele se dirigiram os comunistas dando tiros de revólver e carabinas. Mas, como nem todos os comunistas são medrosos como os que foram a Petrópolis e podem ser dispersados com um simples foguete, é preciso que todos os bons brasileiros se unam para libertar a nossa pátria desses miseráveis. [Kendall, 1936, p. 9]

A utilização de imagens de igrejas e conventos incendiados pelos “vermelhos” era recorrente na imprensa integralista. Na edição que coincidiu com o início do conflito, a revista Anauê! reproduziu duas fotografias que mostravam a Igreja dos Jesuítas incendiada por elementos da Frente Popular e a “fúria iconoclasta dos comunistas do Sr. Largo Caballero”. Além disso, nesse mesmo artigo, realçava-se o papel que caberia aos camisas verdes se porventura tais ações viessem a ocorrer no país, destacando-se o seguinte: “Monstruosidades como as que se cometeram na Espanha não as verá o Brasil, porque estão vigilantes os ‘camisas verdes’ em defesa do patrimônio espiritual da religião cristã, da integridade do território e da intangibilidade da honra da família patrícia” (Anauê!, n.º 11, 1936, p. 5).

Nesta mesma linha argumentativa, o “avanço esquerdista na Espanha” era apontado como uma “grande desgraça para a história do mundo contemporâneo” (A Offensiva, n.º 172, 03-05-1936, p. 13). Devido ao levantamento comunista no Brasil em novembro de 1935, os integralistas usaram com muita força os acontecimentos espanhóis como exemplo de um caso de alerta, destacando possíveis direções da iii Internacional, que, para eles, seria a grande responsável pela orientação política em Espanha e cujo propósito central era a consolidação de um movimento ateísta influenciado pelo bolchevismo. A luta de classes era vista, portanto, como uma rebelião contra todas as forças, contra o Estado, a hierarquia, a religião e Deus (A Offensiva, n.º 172, 03-05-1936, p. 13).

A presença comunista em Espanha era motivo de lamentos constantes pelos camisas verdes. Num artigo no jornal A Offensiva, com o título “Arriba, España!”, os integralistas criticavam que deputados comunistas espanhóis exigissem a liberdade dos “agitadores vermelhos que ensanguentaram o Brasil, nos trágicos dias de novembro”. Ao mesmo tempo, um discurso sobre a força espanhola era entoado para representar a grandeza perante o mundo no combate ao inimigo comunista, como demonstra a seguinte passagem: “O sangue dos teus mártires, que neste momento se ergueram para defender a civilização maculada pelo barbarismo soviético, será mais uma página fulgurante de tua raça e um exemplo para o mundo ameaçado pelo cancro russo” (Thompson Filho, 1936, p. 2).

Nesse sentido, os fascistas brasileiros recorreram inclusive a Cervantes para refletir sobre o contexto de luta política: “Parece que as massas enraivecidas e furiosas da Espanha fazem questão de reviver o espírito de D. Quixote, numa nova forma de loucura, essa extremamente sanguinária e selvagem” (A Offensiva, n.º 172, 03-05-1936, p. 13). Como se pode verificar, o propósito dos integralistas tinha duas frentes de ação: noticiar os acontecimentos internacionais e expor à militância não só os males do comunismo como também a solução fascista no combate ao materialismo:

Que a Espanha nos sirva de Nação. Que recolhamos para nosso governo os ensinamentos que repontam da realidade espanhola tão eloquentemente. Vamos combater o marxismo. Mas vamos combatê-lo numa linha renovadora, plano de reivindicações das massas brasileiras, e condutoras dos anseios de cultura que atormentam a nação. Cuidado com a barbárie burguesa, cidadãos! Cuidado com o reacionarismo, mocidade! Cuidado com a bancarrota, produtores! Cuidado com a opressão anti-sindical, operários! Cuidado com os conventos graves e as igrejinhas brancas, clero! Cuidado com a anarquia, Exército! [Thompson Filho, 1936, p. 2]

“O drama da Espanha” foi a temática abordada por um editorial escrito n’A Offensiva pelo líder fascista brasileiro, Plínio Salgado. A partir desse artigo, as afinidades entre a AIB e os falangistas passaram a ser mais visíveis, momento que marcou o início da Guerra Civil Espanhola (Gonçalves e Pereira, 2019). Com o questionamento de “como foi que as coisas chegaram a esse pé?”, Salgado propõe elaborar uma espécie de síntese da história política de Espanha a partir dos anos 1930 aos leitores do periódico e aos militantes da AIB. Além da vitória dos republicanos e dos partidos de esquerda nas eleições gerais de 1931, o autor destacou também a subsequente renúncia do rei Alfonso XIII ao trono. Na sua análise, os republicanos e as esquerdas tinham vencido as eleições em virtude da ditadura de Miguel Primo de Rivera (1923-1930). Na sequência disso, questiona: como é que um governo forte se deixou “vencer dessa maneira?” Para o integralista, o erro teria sido decorrente do facto de o governo de Miguel Primo de Rivera ter sido uma “ditadura enérgica”, mas não um “governo forte” (Salgado, 1936, p. 2).

Ao apresentá-lo exclusivamente como nacionalista, tradicional e reacionário, Salgado argumentava que Miguel Primo de Rivera “se deixava isolar e deixava de captar, como fez Mussolini, as energias revolucionárias de um povo, a fim de lhes dar um sentido, não de destruição negativista, mas de construção e afirmação” (Salgado, 1936, p. 2). Ao abandonar as energias revolucionárias do povo espanhol, Primo de Rivera fez com que as massas se dirigissem para o lado daqueles que as atraíam, isto é, para a “propaganda bolchevista na Espanha”, que se teria disfarçado de liberal, democrática e republicana, com o objetivo de passar por essa etapa do “governo burguês”. Segundo o líder integralista, a queda de Rivera demonstrava que “para salvar uma Nação não basta o patriotismo, nem a força aparente das baionetas, mas é necessário, antes de tudo, a intuição política para compreender os fenômenos que se processam num dado momento histórico” (Salgado, 1936, p. 2).

Nesse contexto, a partir de uma interlocução internacional, o principal jornal integralista, A Offensiva, publicou uma charge alemã cujo propósito estava na visualização iconográfica da guerra civil. Nela, aparecia um touro como símbolo da luta espanhola em detrimento do comunismo judaico.

A Guerra Civil Espanhola foi interpretada como um acontecimento insurrecional, que promovia uma reação do nacionalismo contra a onda bolchevista que ameaçava o Ocidente. Era classificada como “o assomo da humanidade cristã contra a malta ruim do Anticristo” (Freitas, 1936b, p. 2). Se, por um lado, as tropas de Franco eram vistas como dotadas de heroísmo e de “lances épicos”, por outro lado, o governo republicano representava “os tiranos no poder”. Porém, também se realizava uma intensa crítica aos liberais, pois estes seriam responsáveis por abrir “o corpo das nações à agressão de seus inimigos originais”:

Essa coisa de dizer-se, como dizem os liberais: coitados dos comunistas! Eles, afinal, têm o direito de opinião, que se lhes não deve cercear - é o mesmo que se raciocinar, argumentando: coitadinho do bacilo de Kock! Afinal, ele é um ser vivo que Deus criou e a quem deu vida, vida a que, portanto, tem direito, e que ninguém lhe pode tirar. E morra de tísica a humanidade inteira… [Freitas, 1936b, p. 2]

Em editorial, Madeira de Freitas, diretor do jornal A Offensiva, destacou a necessidade de lutar não apenas contra os comunistas mas também contra outro grande mal que assolava a sociedade, ou seja, a democracia liberal, a qual era composta por “ardilosos maçons judeus” (A Offensiva, n.º 172, 03-05-1936, p. 13). Ademais, com a morte de José Antonio Primo de Rivera, em novembro de 1936, os integralistas exaltaram a criação de um mártir em Espanha:

Imagem 1 “A caricatura allemã”. 

Lendo nos jornais a notícia do triste fim de Primo de Rivera, não me pude furtar, como brasileiro que ama tanto a sua Pátria, quanto ele amou a dele, ao desejo de traçar essas linhas, que, despidas de melhores atavios literários, trazem apenas em si mesmas o meu sincero preito de homenagem ao insigne mártir da Nova Espanha: trazem ainda estas palavras toda a veemência de meu protesto junto aos governos de países cristãos, contra esse inominável ultrage que a matilha de Largo Caballero atira à face da cultura e da dignidade do Ocidente euro-americano. Este é o propósito que anima minhas palavras. Não quero ajudar-me delas para me dirigir a essa burguesia torpe, pusilânime e salafrária, que sorri a passagem dos camisas verdes e tem o desplante, a audácia, a desfaçatez de falar em honra, em família e em Pátria, em aspirações espirituais, quando tudo isso lhe é indiferente, desde que os interesses inconfessáveis encontrem boa maré, e se lhe abarrotem as arcas do proveito pessoal. […] a esta burguesia mole, capciosa, malandra, […] quero apenas atirar-lhe à cara o baldão de infâmia de que se faz credora, e preveni-la de que o sangue dos integralistas que tombaram na defesa da Pátria fará coro com o sangue de Primo de Rivera, no seu justo clamor, bradando aos céus contra aqueles que o mataram, e contra os que, pecando por omissão, consentiram na consumação de tamanha ignomínia. […] a esses burgueses quero marcar na face, a ferro em brasa, com o estigma da maldição, para que as gerações porvindouras saibam quanto custou aos verdadeiros patriotas defender o Brasil não só dos comunistas mas ainda, e principalmente, desta praga, que lhe infesta o organismo e que é a burguesia séptica, imoral e covarde de que se faz o grosso das democracias liberais. Que o sangue de Primo de Rivera lhes caia sobre a memória execranda, como o mais implacável dos opróbrios. [Freitas, 1936c, p. 2]

A posição de Freitas sobre a morte de José Antonio Primo de Rivera condiz com o projeto integralista de Plínio Salgado, que tinha uma base oriunda da encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII. Nas palavras do pontífice, era possível elevar a fé frente ao material: “O princípio da subordinação da economia à moral ilumina o juízo que os cristãos devem fazer relativamente às diversas economias do liberalismo capitalista e do comunismo marxista” (Guerry, 1960, p. 186). Segundo o discurso católico, o liberalismo passou a ser visto como um elemento político que violava as leis morais e a consequência do sistema.

Certamente, a Ação Integralista Brasileira identifica claramente os inimigos da nação brasileira, denunciando o liberalismo, o socialismo, o capitalismo internacional e as sociedades secretas ligadas aos judeus e à maçonaria, em outras palavras, uma variante dos quatro Estados confederados. [Compagnon, 2009, pp. 294-295, tradução nossa]

No projeto revolucionário de Plínio Salgado, haveria a organização de uma sociedade corporativista, autoritária e radical, com base nos preceitos do cristianismo a partir da relação com a trindade “Deus, pátria e família”. A AIB defendia um nacionalismo extremado através da oposição aos inimigos: o liberalismo, o judaísmo, as sociedades secretas, o capitalismo internacional e, fundamentalmente, o comunismo (Gonçalves, 2024). Desse modo, o integralismo defendia a criação de uma nova humanidade, desvinculada do materialismo e do liberalismo, tendo no espiritualismo a sua propagação. Assim, manifestou esse elemento no momento da morte e da criação do mártir fascista, José Antonio Primo de Rivera.

Com o avanço do conflito espanhol e, portanto, com a morte de muitos dos seus principais líderes, os integralistas passaram a destacar o papel de Francisco Franco. Por isso, a 11 de agosto de 1936, realçava-se n’A Offensiva que “um sistema fascista para a Espanha é o que promete o General Franco” (A Offensiva, n.º 255, 11-08-1936, p. 5). O projeto franquista era visto como um modelo político relacionado com a ideia de corporativismo, “semelhante ao de Portugal, da Itália e da Alemanha” (A Offensiva, n.º 255, 11-08-1936, p. 5). Olbiano de Mello, um destacado intelectual integralista, indicava o seguinte sobre o conflito:

Que promova, pois, a maior força nacionalista da América do Sul, no Brasil surgida, contra o “vírus” do Kremlin moscovita, um grande movimento de solidariedade às forças revolucionárias do general Franco, para que o governo brasileiro rompa relações com o marxista de Azaña, e reconheça o instalado em Valladolid. Pois que as forças nacionalistas, que estão em armas na Espanha, não defendem somente a Honra e a Dignidade de um povo. Mas do mundo inteiro, contra a objetivação da segunda etapa da revolução materialista, rotulada de proletária por Moscou. [Mello, 1936, p. 2]

O mês de setembro de 1936 foi central para a relação política entre integralistas e falangistas. No início desse mês, um grupo de jovens falangistas espanhóis, procedente de Buenos Aires, foi recebido pelos integralistas na sede do jornal A Offensiva.7 No editorial “Arriba, España!” é possível verificar o exemplo mais contundente das afinidades entre os militantes da AIB e os falangistas espanhóis. Além da bravura e do entusiasmo pela causa, o integralista Madeira de Freitas destacou a abnegação destes jovens, pois muitos deles tinham abandonado as comodidades e os interesses pessoais “que os radicavam a terra do Prata” para marchar prontos e decididos “a dar até a última gota de seu sangue pela honra, pela glória e pela salvação da Espanha” (Freitas, 1936a, p. 2).

Outro aspeto que o diretor do jornal A Offensiva fez questão de sublinhar foi que, mesmo num curto instante de convívio e confraternização, foi possível perceber que os camisas azuis e os camisas verdes partilhavam os mesmos anseios, ideais e elevados propósitos. Se a curta passagem daqueles jovens falangistas pelo Brasil poderia ter algum significado para os militantes da AIB, esse seria a necessidade de lutar pela soberania da pátria, ocupando o posto de luta e de sacrifício, ou seja, “o posto que nas horas memoráveis da história das nações cabe, por dever e por direito, a todos os homens de boa raça” (Freitas, 1936a, p. 2).

Ontem, às 23 horas, quando maior era a atividade em nossa redação, fomos surpreendidos pela entrada de um grupo de rapazes envergando camisas azuis e ostentando insígnias milicianas. Eram os primeiros dos falangistas espanhóis residentes em Buenos Aires que, passando pelo nosso porto, vinham visitar a nossa redação. […] Saudados pelo nosso diretor, Dr. Madeira de Freitas, que lhes falou com palavras de admiração e de estímulo, responde a saudação em nome dos jovens falangistas o seu chefe, Nicolas Guintane, com profundo e impressionante ardor nacionalista. Em seguida empregou a saudação à nossa Pátria: - Arriba, Brasil! E em seguida: - Arriba, España! O Dr. Gustavo Barroso, presente ao ato, dirigiu-lhes, por sua vez, a saudação integralista à Espanha Nacionalista, sendo acompanhado pelos camisas verdes que vinham acompanhando os nacionalistas espanhóis. [A Offensiva, n.º 274, 02-09-1936, p. 1]

Tal como os militantes que passaram pela redação do jornal, a AIB destacou, no jornal Acção, a importância que havia adquirido o papel dos espanhóis residentes fora de Espanha para a Guerra Civil Espanhola, já que estes poderiam aumentar o número de combatentes do grupo nacionalista e assumir uma posição de destaque nas trincheiras:

Todo o espanhol deve contribuir com o seu esforço. Há de chegar o momento em que, para voltar à atividade no interior do país, será necessário apresentar uma folha de serviço, e os que não julgarem dever assumir responsabilidades não poderão ombrear com os que tudo deram pela causa da Espanha. [Acção, n.º 16, 24-10-1936, p. 6]

Imagem 2 Integralistas e milicianos falangistas a caminho de Espanha. 

Segundo um estudo desenvolvido por João Fábio Bertonha e Murilo Paschoaleto, há um grande equívoco em torno desse episódio. Quando do embarque dos falangistas argentinos, foi tirada uma fotografia. A fonte dessa imagem, depositada no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro com a legenda “Integralistas a caminho da Espanha, acompanhados de milicianos franquistas”, possibilitou a interpretação de uma possível participação de integralistas na Guerra Civil Espanhola. “O fato em si não é impossível, mas não foi confirmado até esse momento e muito menos nessa ocasião” (Bertonha e Paschoaleto, 2018, pp. 202-203).

Desta forma, as edições dos primeiros meses de 1937 saudavam o chefe do novo Estado espanhol, o general Francisco Franco (A Offensiva, n.º 426, 02-03-1937, p. 5): “A vitória do nacionalismo espanhol será o fim do esforço bolchevista no Ocidente” (A Offensiva, n.º 427, 03-03-1937, p. 5). E ao Brasil cabia recolher “os ensinamentos dos infortúnios de uma velha nação latina, onde não faltou, felizmente, em meio da terrível tempestade que a açoita, esse sentimento tradicionalista, patriótico e cristão” (Lins, 1936, p. 2).

Os textos dedicados ao conflito na imprensa integralista seguiram um modelo de interpretação da guerra favorável às tropas franquistas, concentrando-se nas dimensões nacionais e religiosas do conflito: uma luta por Deus e pela Espanha, diante de um inimigo demonizado e apátrida ao serviço de Moscovo, que estabelecera um modelo político de luta em defesa do nacionalismo.

Conclusão

Designado por alguns autores como “giro transnacional”, o transnacionalismo converteu-se num elemento central para compreender certos processos históricos, entre eles os ocorridos durante a era fascista, uma vez que o fenómeno se caracterizou pelas suas dimensões fluidas e entrelaçadas, em que os diferentes fascismos foram moldados nos seus contextos específicos, mas também contribuíram para a constituição de outros. Nesse sentido, segundo Benjamin Martin (2016), o transnacionalismo fascista pode ser visto como um fenómeno que procurava construir uma nova ordem cultural e que tentou responder a questões que surgiram em torno de expressões também dotadas de uma dimensão transnacional, como o comunismo. Em definitivo, a abordagem transnacional ajuda a iluminar quais foram os princípios de acordo e colaboração desejados e consolidados durante a era fascista (Rezola e Gonçalves, 2022).

A partir desta perspetiva, este trabalho pretendeu analisar a importância que adquiriu o fascismo espanhol na América Latina e, principalmente, a receção do falangismo no Brasil. O projeto fascista e internacionalista da FE implicou a criação da sua própria nova ordem no mundo latino, sobretudo na América do Sul hispânica, a partir das ideias de hispanidad e imperialismo. No entanto, o falangismo também influenciou o fascismo brasileiro, especialmente entre os teóricos integralistas.

O catolicismo foi o elemento unificador dos fascismos latino-americanos e do falangismo, mas outras questões também tiveram relevância. Além do combate ao comunismo, visto como inimigo internacional pelo seu materialismo e pela ideia de luta de classes, em que a Guerra Civil Espanhola era considerada como a grande representação dessa luta entre o fascismo e o marxismo, as ideias falangistas do nacional-sindicalismo, do corporativismo e dos seus líderes - em que se destacam Francisco Franco e José Antonio Primo de Rivera - serviram como fonte de inspiração e tiveram importância no desenvolvimento das ideias fascistas brasileiras.

O encerramento da AIB em 1937 não representou o fim do integralismo, muito menos das relações com a Espanha no contexto após a Segunda Guerra Mundial. Várias ações políticas continuaram no período da ilegalidade, tanto no Brasil quanto em Portugal, onde Plínio Salgado se exilou (1939-1946) e, a partir de 1945, rearticulou o movimento sob a roupagem do Partido de Representação Popular (PRP), que, no novo cenário democrático brasileiro, valorizava o espiritualismo, elemento fundamental para a sua proposta política.

Em busca de aproximações, que foram o resultado de uma intensa circulação de ideias, Salgado publicou, em 1946, em Espanha, pela Editorial Escelicer, uma obra de relativo impacto editorial, político e religioso: Vida de Jesús. A política ibérica era identificada como um modelo a ser seguido pela sociedade cristã. Em 1962, o líder integralista afirmou: “Sob o aspeto brasileiro, temos de apoiar Portugal. Portugal e Espanha. A Península Ibérica é um dispositivo admirável que o comunismo se esforça a todo o transe por conquistar” (Novidades, 12-05-1962).

Uma das últimas entrevistas ao líder integralista antes da sua morte, a 8 de dezembro de 1975, ocorreu em novembro de 1975, para a Agência S, de Madrid, na presença do repórter Manoel Pelegrini. Nela, Salgado destacou que

[o] General Francisco Franco foi uma das figuras contemporâneas mais notáveis pelo que representou na História de sua Pátria, num momento difícil para sustentar a independência e a soberania da Nação. Às vésperas da grande guerra mundial, quando o imperialismo soviético desencadeou suas forças militares na Península Ibérica, Franco marchou de Marrocos para Andaluzia, prosseguindo rumo ao norte, onde parecia já vencedor o governo Bolchevista, praticando as maiores barbaridades. Numa guerra longa, foi apoderando-se de cidade por cidade até à conquista de todo o território e finalmente estabelecendo um regime que restaurou a ordem e a tradição nacionais. Daí por diante consolidou o prestígio da Espanha na Europa e no mundo, e o seu próprio, como grande estadista. [Salgado, 1975]

Pelas paixões que despertou e pelas energias que mobilizou, o fascismo espanhol pode ser visto como um evento histórico que catalisou os principais debates políticos da primeira metade do século xx, repercutindo-se diretamente na composição do autoritarismo e do corporativismo cristão na política nacionalista latino-americana e sendo, a partir da receção e do diálogo com a AIB, de grande relevância na construção de um projeto fascista que teve impacto na formação política do Brasil.

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Notas

1Este estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (cnpq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (fapemig), assim como pelos projetos “Identidades en movimiento. Flujos, circulación y transformaciones culturales en el espacio atlántico (siglos xix y xx)” (pid2019-106210gb-i00) e “Corporativismo e fascismo: circulação de ideias no âmbito ibero-americano” (405420/2023-4 Chamada cnpq/mcti n.º 10/2023). Ademais, a autora integra o projeto “Género y nación franquista. Perspectivas transnacionales e interseccionales” (pid2022-141082nb-c22), e o autor integra o projeto “Franquismo e nação. Perspectivas transnacionais” (pid2022-141082nb-c21), que, por sua vez, fazem parte do projeto coordenado “Franquismo, nación y género en perspectiva transnacional” (FRANGETRANS), financiado pelo Ministério da Ciência e Inovação espanhol.

2A aib foi o maior movimento fascista da América Latina. Dessa forma, tornou-se uma das principais referências políticas para os fascismos latino-americanos (Trindade, 1974). Em Fascismos Iberoamericanos (2022) é possível observar o processo de atuação de diversos movimentos como a Acción Revolucionaria Mexicanista, a Unión Revolucionaria (Peru), a Acción Revolucionaria Nacionalista Ecuatoriana ou a Acción Revisionista del Uruguay, entre outros. Para uma análise mais ampla, ver Pinto (2021).

3Para Hans-Robert Jauss (1992), a receção e a leitura não são um processo linear, literal e neutro, mas sim algo repleto de preconceitos e conveniências. Além disso, de acordo com Roger Chartier (2005), dependem, entre outras coisas, das condições contextuais em que são produzidas.

4Há uma relação intrínseca entre o modernismo e os fascismos, conforme indica Roger Griffin: “Esse género peculiar de projeto revolucionário de transformação da sociedade […] só poderia surgir nas primeiras décadas do século xx numa sociedade permeada por metanarrativas modernistas de renovação cultural, que moldaram uma legião de atividades, iniciativas e movimentos ‘pelo chão’. Nas suas variadas permutações, o fascismo assumiu a responsabilidade não apenas de mudar o sistema estatal mas também de purificar a civilização da decadência e de promover o surgimento de uma nova raça de seres humanos, que definiu em termos não de categorias universais, mas essencialmente míticas, nacionais e raciais.” No caso espanhol, por exemplo, apesar de o fascismo ter sido, de certa forma, marginalizado no governo de Franco, “o modernismo social ligado à sua visão ‘nacional-sindicalista’ da nova Espanha e o impulso futurista da singular estética ‘passista’, exemplificada na revista cultural El Escorial, pode provar bem [a relação entre modernismo e fascismo]” (Griffin, 2007, pp. 6 e 356, tradução nossa).

5Para uma maior compreensão do fascismo latino-americano, indica-se: Grecco e Gonçalves (2022); Pinto (2021); Espinosa (2018); Alpini (2015); Finchelstein (2010); Gojman de Backal (2010); Molinari (2006); Ruiz-Vásquez (2004); Sznajder (1993); e Seiferheld (1985, 1986).

6De família de imigrantes alemães, Bertoldo Ritter Klinger foi um general do exército brasileiro e comandante na Revolução Constitucionalista de 1932, conflito que tinha como objetivo derrubar o governo de Getúlio Vargas

7Os passageiros do transatlântico General San Martin eram: Carlos Castro, Amelio Fernandez, Manoel Mendez, Juan Arregri, Antonio Dapena, Ramon Ramoni, Benito Atrio, Laureano Casero e Rufo Arguñarena. Os aviadores uruguaios eram: Antonio e Benito Arribas e Bernardo Corrosco.

Recebido: 17 de Maio de 2022; Aceito: 05 de Dezembro de 2023

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