1. Introdução
Nas últimas décadas, em Portugal, os estudos filológicos, e especificamente os de crítica textual stricto sensu, têm conhecido assinalável vitalidade, ultrapassado que parece estar o refluxo dos anos 1960-1980, época marcada pelo(s) estruturalismo(s) e pela busca de uma identidade disciplinar forte para os estudos literários. 1Em consequência deste movimento, diversas edições ou reedições, seja de textos até então inéditos e menosprezados, seja de textos canónicos e permanentemente revisitados, têm sido dadas a lume. Simultaneamente, uma panóplia de estudos, diretamente relacionados com essas edições ou não, têm-se sucedido a bom ritmo, a tal ponto que quem queira manter-se atualizado terá já certas dificuldades em fazê-lo. É certo que nem sempre esses trabalhos parecem encontrar o devido eco junto da comunidade científica, ficando a ideia de uma muito maior atomização do campo, por comparação com a “época dourada” dos filólogos oito e novecentistas. Tendência dos tempos atuais, também verificável noutros domínios, o filólogo e/ou o crítico textual sentir-se-á, talvez, estranhamente imerso em ruído, mas fechado numa bolha, falando para si mesmo e poucos mais. Independentemente disso, é inegável que muito - e bom - tem sido feito. E se a este panorama juntarmos, como é devido, a atenção filológica que a textos e autores portugueses têm dedicado estudiosos de países lusófonos (com predomínio para o Brasil) ou os lusófilos de países com fortes tradições nestes domínios (por exemplo, o Reino Unido, a Itália e os Estados Unidos), teremos ainda mais motivos para regozijo.
Apesar deste cenário globalmente positivo e aparentemente encorajador, persistem alguns desequilíbrios. Por muito que se fale em “pluralidade de vozes”, “atenção aos subalternos” (reais, metafóricos ou supostos), “alargamento e problematização do cânone”, etc., há ainda, na cultura portuguesa ou em culturas em que o português seja também língua de escrita, épocas, autores, tipologias textuais pouco, nada ou mal estudados. Uma das áreas em que isto se verifica com especial nitidez é o da produção manuscrita da chamada época moderna. Não obstante a persistência do manuscrito muito além da generalização da imprensa estar, de há muito, identificada, 2 e não obstante a atenção especial que alguns géneros têm recebido (por exemplo, e talvez com destaque, a poesia barroca3 e os livros de cavalarias), 4 a verdade é que há zonas pouco exploradas. Entre estas estão, paradoxalmente, géneros muito conhecidos e frequentemente utilizados em estudos de diversos tipos. Tal é o caso da historiografia. Mau grado algumas chamadas de atenção ou estudos que têm surgido5, verifica-se, com efeito, que o estudo desta tipologia textual, com os seus géneros e subgéneros, tem sido feito, quase exclusivamente, a partir de textos impressos (ou na época, ou posteriormente). Pelo menos duas grandes - e especialmente limitadoras - consequências decorrem daqui. Por um lado, tem-se uma visão bastante parcial do que foi o conhecimento histórico e os mecanismos de preservação e (re)criação da memória histórica durante essa época, ficando esquecidos, por exemplo, os nobiliários6 e os anais, 7 bem como a variação textual típica da circulação manuscrita. Por outro lado, muitas das edições utilizadas são bastante antiquadas e, como é normal, foram feitas com base em critérios hoje claramente datados (quando não mesmo ultrapassados) e nem sempre estão isentas de numerosos e graves erros, voluntários ou não. 8 Acresce todo um trabalho de contextualização histórico-cultural dos textos e respetivos testemunhos sem o qual muito do que possa dizer-se sobre esses textos carecerá de fundamento.
Um subconjunto em cujo estudo estas deficiências são especialmente notórias é o das crónicas e outros relatos historiográficos dedicados ao reinado de D. Sebastião (1554-1578). Apesar de este ser um reinado, e uma época, tradicionalmente muito estudados e debatidos, ocasionando mesmo não raras polémicas, o certo é que a base empírica sobre que repousam esses estudos depende, muitas vezes, no que a crónicas e textos afins diz respeito, de edições antigas e bastante imperfeitas. 9 Paralelamente, existem numerosas obras, de extensão e caraterísticas variáveis, ainda inéditas, enquanto de algumas outras já editadas subsistem versões por vezes com muito notórias diferenças entre elas. Tendo em vista este panorama, os autores deste trabalho decidiram levar a cabo um projeto de identificação e descrição de um corpus de textos historiográficos dos séculos XVI e XVII dedicados ao reinado e figura de D. Sebastião, intitulado Sebástica Manuscrita. A primeira e atual fase deste projeto visa estabelecer um corpus historiográfico sebástico, identificando textos e versões e respetivos testemunhos manuscritos. Estão, de momento, elencados os materiais pertinentes que existem em boa parte das principais bibliotecas portuguesas, 10 estando previsto prosseguir a tarefa com as restantes instituições nacionais e, posteriormente, com bibliotecas e arquivos internacionais. A segunda fase consistirá na edição de alguns destes textos, nomeadamente os inéditos ou muito insuficientemente editados. 11 No decorrer deste trabalho, temo-nos apercebido de muitas e evidentes lacunas no conhecimento de obras tidas como muito importantes para o estudo desta época, e por isso frequentemente citadas ou aludidas. Dois exemplos especialmente claros de tudo o que acabámos de dizer são o da Relação de Amador Rebelo e o da Crónica de D. Sebastião atribuída a Bernardo da Cruz, à qual dedicaremos o restante deste trabalho.
2. A Crónica de D. Sebastião: texto(s) e autor(es)
Esta crónica aguarda há muito um estudo meticuloso. No universo de crónicas mais antigas dedicadas à figura e ao reinado de D. Sebastião, é o texto com o maior número de cópias conservadas até hoje. As buscas efetuadas no PSM inventariaram, até ao momento, vinte e seis testemunhos guardados em bibliotecas e arquivos portugueses. 12 Contudo, não só grande parte destes testemunhos nunca foram estudados, como subsistem ainda numerosas dúvidas e confusões em relação a aspetos tão importantes quanto a autoria, o conteúdo e a história desta crónica.
O texto foi publicado em 1837 por Alexandre Herculano e António Castelo de Paiva, que editaram o ms. 1216 da Biblioteca Pública Municipal do Porto (proveniente da rica livraria do mosteiro de Tibães); em 1903 (Cruz, 1903), o texto desta edição foi reeditado na Bibliotheca de Classicos Portuguezes. Há, ainda, a edição de António Ferreira da (Serpa, 1925), que deu a público a primeira parte do manuscrito Liv. 982 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT) acreditando estar perante um texto inédito e que estudos posteriores13 revelaram não ser mais do que a Crónica de D. Sebastião editada por Herculano e Paiva.
A autoria do texto permanece incerta, também em consequência de equívocos gerados pelo conteúdo dos próprios manuscritos. Alguns, de facto, atribuem-na a Amador Rebelo, 14 outros a Bernardo da Cruz, 15 outros ainda a Mestre Afonso Guerreiro. 16 Em diversos manuscritos, 17 a Crónica foi copiada em conjunto com a Crónica e sumario do Cerco e combates de Mazagão de António de Vaena. De notar, ainda, que, no COD. 6831 da BN, a portada refere o facto de os textos aí contidos18 terem sido copiados dos “que escreveo Ruy de Pinna guardamór da Torre do Tombo e chronista mór do mesmo Reyno”, enquanto uma nota moderna no verso da segunda folha de guarda do BPMP, Ms. 1216 sugere que a crónica podia ter sido “escripta por D. Manoel de Menezes S.or do Reguengo da Maia Chronista Mor do Reino que vivia no principio de 600”.
Frente a esta variedade e, em grande medida, conforme o conteúdo dos manuscritos sucessivamente conhecidos, a crítica tem indicado ora um, ora outro nome. Frei Manuel do Cenáculo, no tomo II das suas Memorias Historicas dos Progressos e Restabelecimento das Letras na Ordem Terceira de S. Francisco em Portugal e seus Dominios (1794), ao aludir a Frei Bernardo da Cruz, primeiro Capellão-mor, indica que teria escrito uma Crónica de D. Sebastião (“escreveo a Campanha, e destroço de África como testemunha de vista”) - e cita um “Manoel da Sylva de Sampaio, que ENT#091;aENT#093; copiou” (Cenáculo, 1776- 1794, p. 303). Veremos a seguir que a menção a este nome remete para o grupo de manuscritos da Crónica onde, efetivamente, se atribui o texto a Fr. Bernardo da Cruz. Frei Vicente Salgado, poucos anos a seguir, ainda com base nestes manuscritos, confirma esta atribuição (Salgado, 1790, p. 29).
Por outro lado, na Bibliotheca Lusitana, encontram-se menções a, pelo menos, três supostos autores quinhentistas de crónicas sobre D. Sebastião: António de Vaena (Machado, 1741, p. 409), Agostinho Gavy de Mendonça (p. 66) e M.e Afonso Guerreiro (p. 38). A indicação que mais repercussão teve foi a de António de Vaena, a quem Barbosa Machado dedica um brevíssimo verbete: “Antonio Vaena cuja patria, e estado de vida ignoramos. Escreveo Chronica delRey D. Sebastiaõ 4. M.S. Della conservo em meu poder huma Copia, cujo Original se guarda na Livraria do Conde do Vimieiro”. Tal como sugeriu posteriormente (Queirós Veloso, 1950, p. 157), corroborando afirmações anteriores de Herculano, o manuscrito do conde do Vimieiro terá sido o número 166 da lista descrita pelo conde da Ericeira e publicada pela Academia de Ciências em 1724. 19 Nesta lista, refere-se que este códice continha um “Sumário do cerco de Mazagão, escrito por António de Vaena ENT#091;…ENT#093; dividida em dous capítulos” (Sobral, Almeida & Askins, 2012, p. 119). Todavia, Queirós Veloso (Sobral, Almeida e Askins, 2012, p. 193), tendo identificado outro testemunho do texto visto por Barbosa Machado, 20 revelou que esta descrição estaria incompleta e algo inexata. No manuscrito, com efeito, encontrar-se-iam uma cópia do Cerco de Mazagão, a Crónica de D. Sebastião (em 77 capítulos) e, com toda a probabilidade, a Crónica do Cardeal infante atribuída a Álvaro Lobo. Como veremos em breve, a advertência “ao leitor” que se encontra logo a seguir à dedicatória refere-se ao conteúdo global do códice como à “Chronica de El Rey Dom Sebastiaõ”, indicando que estaria dividida em três partes (“Couzas mais notaueis q~ no tempo de El Rey Dom Joaõ o 3º aconteceraõ”; “çerco de Mazagão” e “Vida e ffeitos del Rey Dom Sebastiaõ”, BNP, A.T./L. 70, fl. 1v). Além disto, abaixo do título exarado no primeiro fólio, menciona-se António de Vaena. Podemos, portanto, afirmar que, na origem da atribuição a Vaena de uma Crónica de D. Sebastião, estão a transmissão da Crónica de D. Sebastião em conjunto com o Cerco e o conteúdo da advertência “ao leytor” que os antecede.
Levando o raciocínio um pouco mais longe, poderíamos sugerir que a menção a Vaena e os equívocos sobre a autoria dos textos referentes à história de Mazagão, por sua vez, terão dado origem à hipótese da existência de uma crónica de D. Sebastião escrita por Agostinho Gavy de Mendonça. Sabe-se, com efeito, que o Sumário do Cerco de Vaena foi utilizado por Agostinho Gavy de Mendonça, que publicou, em 1607, na Oficina de Vicente Álvares, em Lisboa, uma História do famoso cerco que o xarife pôs a fortaleza de Mazagam deffendida pello valeroso capitam mór delle Ruy de Sousa Carvalho, reeditada em 1890, por Francisco Marques de Sousa Viterbo (Mendonça, 1980). 21
De muitos outros autores foi dito terem escrito uma crónica sobre D. Sebastião. No Prologo da sua edição (Herculano & Paiva, 1837), Alexandre Herculano dedica-se a dissociar da crónica que edita diversos destes: Manuel de Menezes, M.e Afonso Guerreiro, João Baptista Lavanha, António de Vaena, Amador Rebelo e Pedro de Mariz. O primeiro nome é o que aparece na guarda do manuscrito tomado como base da edição - Manuel de Menezes. A Crónica de D. Sebastião escrita por este autor, já então desaparecida, fora citada e utilizada como fonte por diversos autores, entre os quais Fr. Manoel dos Santos, na sua Historia Sebástica (1735). Herculano constata a falta de correspondência entre os conteúdos desta e o texto que edita, pelo que pode seguramente excluir este nome. A seguir, M.e Afonso Guerreiro e João Baptista Lavanha são descartados por razões cronológicas: a Crónica refere-se a acontecimentos do ano de 1586, pelo que terá sido escrita posteriormente a esta data, enquanto M.e Afonso Guerreiro faleceu em 1581, e João Baptista Lavanha não terá começado a escrever a sua Crónica de D. Sebastião antes de 1618. Depois, é a vez de António de Vaena. À época em que Herculano escreve, não tinha sido identificado o outro exemplar do manuscrito visto por Barbosa Machado e que, teoricamente, justificava a atribuição a Vaena, pelo que não se sabia da existência dos manuscritos em que a Crónica é transmitida juntamente com o Cerco. Por isto, sabendo apenas que o Vaena teria escrito “uma historia do cerco de Mazagaõ, a que vinhaõ appensas algumas relaçoens dos acontecimentos do reino” em tempos de D. Sebastião (Herculano & Paiva, 1837, p. XIV), e constatando que no manuscrito do Porto por ele editado “naõ se tracta do cerco de Mazagaõ”, Herculano pôde afastar facilmente mais esta atribuição. Finalmente, são dissociados da Crónica os nomes de Amador Rebelo e de Pedro de Mariz. O primeiro, por ser autor de uma relação que nada tem a ver com esta obra; o segundo, por, de acordo com o estado de conhecimentos de então, a sua associação à Crónica se basear, apenas, numa vaga alusão de Faria de Sousa, depois repetida por Barbosa Machado. Restava a Herculano o nome de Fr. Bernardo da Cruz, vinculado à Crónica de D. Sebastião por “opinião comum” e que é adotado pelo estudioso por “muitas outras provas, posto que negativas” (Herculano & Paiva, 1837, p. X) ou, em outras palavras, pela confutação de todos os demais nomes acima elencados.
Todos os autores apresentados por Alexandre Herculano circulavam nas menções dos eruditos há muito tempo. Em 1929, surge uma nova hipótese, proposta por Francisco Rodrigues, na sessão de 11 de maio de 1929 da Secção de Arqueologia Histórica da Associação de Arqueólogos Portugueses (Ata manuscrita, 1929). O novo nome é o de Estevão Ribeiro. Nenhuma notícia se tem sobre este autor, cuja pátria e vida Barbosa Machado afirma ignorar (Machado, 1741, p. 760). Todavia, Francisco Rodrigues argumenta que Fr. António da Purificação, no De viris illustribus… ordinis Eremitarum sancti… Augustini, Liv. III, cap. 14 (1642) e Jorge Cardozo, no Agiologio Lusitano Tomo II, p. 621 (1657), afirmam que no capítulo 87 de uma Crónica de D. Sebastião de Estevão Ribeiro se menciona Fr. Tomé de Jesus. Verifica-se que a Crónica atribuída a Bernardo da Cruz contém, neste mesmo capítulo, menção a Fr. Tomé de Jesus. Tanto António da Purificação como Jorge Cardozo publicaram em meados de 600 e referem-se a Ribeiro com familiaridade, pelo que o P.e Francisco Rodrigues conclui, sem mais elementos, que “não errarENT#091;áENT#093; juntando o nome de Estevão Ribeiro à famosa Crónica” (Machado, 1741, p. 82).
Nos trabalhos que consultámos, esta hipótese parece não ter tido seguimento, sendo que as propostas posteriores defenderam, principalmente, ou o nome de António de Vaena ou o de Fr. Bernardo da Cruz, com duas exceções: João Palma (Ferreira, 1980), que retoma a atribuição a Pedro de Mariz presente no manuscrito 2601 da Universidade de Salamanca, 22 e José Manuel (Garcia, 2011), que propõe António de Castilho. Mas continuemos por ordem cronológica.
A seguir à edição de Herculano e Paiva e à intervenção de Francisco Rodrigues, saiu a público o estudo de José Maria Queirós Veloso (Queirós Veloso, 1950), ainda hoje leitura imprescindível para quem se dedica a este tema. No artigo, o estudioso discutiu o conteúdo da Crónica de D. Sebastião; revelou a identificação de novos trechos do texto, que também editou; divulgou novos dados biográficos de Fr. Bernardo da Cruz, que utilizou como provas para refutar a sua autoria da Crónica; defendeu, por outro lado, a autoria por António de Vaena, com base na identificação do já citado novo testemunho do texto consultado por Barbosa Machado. Vejamos um ponto de cada vez.
Quanto ao conteúdo da Crónica, mencionámos de passagem, e aprofundaremos este aspeto daqui a pouco, que alguns testemunhos transmitem uma versão do texto que abarca também o reinado de D. Henrique - a própria edição de Herculano dá a ler esta versão, que é geralmente tida como a mais fidedigna. Noutros testemunhos, existe uma versão mais breve do texto, que termina com os acontecimentos marroquinos posteriores à batalha de Alcácer-Quibir; alguns destes testemunhos, a seguir, contêm uma Crónica do Cardeal infante composta, geralmente, por 54 capítulos. Esta crónica, cujo conteúdo coincide quase totalmente com o texto referente ao reinado de D. Henrique da versão extensa da Crónica de D. Sebastião, circulou autonomamente em diversos testemunhos23 e foi publicada, em 1840, com o título Chronica do Cardeal Rei D. Henrique, tendo sido atribuída a Álvaro Lobo.
Queirós Veloso parte do pressuposto de que a parte final da Crónica de D. Sebastião com 113 capítulos, e a Chronica do Cardeal Rei D. Henrique publicada em 1840, são na verdade o mesmo texto. Demonstrá-lo-iam dois indícios: desde logo, a identidade de conteúdo entre as duas, mas, sobretudo, o facto de, no capítulo 76 da Crónica de D. Sebastião, se anunciar que o reinado de D. Henrique será abordado a seguir: “…pera o Cardeal tomar logo o ceptro de Rei, como abaixo mais largamente contaremos” (Queirós Veloso, 1959, p. 153, itálico nosso). Por outras palavras, exclui existirem dois textos distintos, legitimando implicitamente a versão da Crónica constituída por 113 capítulos (aliás, 118, considerando os que dá a conhecer logo a seguir) face àquela constituída por 77 capítulos, e rejeita a autoria de Álvaro Lobo para o texto sobre o reinado de D. Henrique.
A seguir, o estudioso traz a público a existência de quatro capítulos “finais” da Crónica, numerados do 114 ao 118, no COD. 6963 da BN.
Dedica-se, então, à confutação de algumas autorias: os nomes de M.e Afonso Guerreiro e João Baptista Lavanha são excluídos usando os mesmos argumentos precedentemente empunhados por Alexandre Herculano; ao de Fr. Bernardo da Cruz dedica um capítulo inteiro do seu estudo, onde apresenta correspondência guardada no Arquivo de Simancas que comprova ter morrido o religioso “na primeira quinzena de setembro de 1579” (Queirós Veloso, 1959, p. 189). A isto contrapõe que a Crónica se refere a acontecimentos posteriores a esta data: no capítulo 37, o texto menciona o falecimento de Francisco de Sá de Meneses (1584); no capítulo 89, o narrador refere-se ao ano então corrente (1586) e, em diversos trechos, faz referências a Miguel de Moura como estando ainda vivo. O Secretário de Estado morreu em 1600, portanto a crónica “teria ENT#091;…ENT#093; sido escrita antes desta data” (Queirós Veloso, 1959, p. 190). Recusadas estas atribuições, volta a considerar a possibilidade de associar à Crónica o nome de Vaena e remata o estudo trazendo a público a identificação do testemunho do texto visto por Barbosa.
O estudo de Queirós Veloso é fundamental na discussão sobre a autoria da Crónica de D. Sebastião e pôs as bases para a difusão que da hipótese de Vaena fizeram Joaquim Veríssimo (Serrão, 1972) e Francisco de Sales Mascarenhas (Loureiro, 1977). Apesar disto, o que não convence no estudo de Queirós Veloso é precisamente a atribuição a António de Vaena, que, lembre-se, foi defendida sem ter consultado pessoalmente o testemunho da Casa Tarouca, tendo o autor tido acesso apenas à descrição feita por António Machado de Faria. Por isto, não teve oportunidade de verificar algumas incongruências que ficam claras a quem lê na íntegra a dedicatória e a advertência “ao leytor” contida no manuscrito (“Chronica, e Summario do Cerco, e combates de Mazagam Por Antonio de Vayena”, A.T./L. 70, fls. 1r-1v). Nomeadamente, 1. a referência a António de Vaena só aparece abaixo do título aposto na margem de cabeça do primeiro fólio; 2. a dedicatória menciona apenas o Cerco, que considera uma “uma piquena escritura”; 3. o Cerco é dedicado a um príncipe de “piquena Jdade” e “inclinacaõ natural ENT#091;…ENT#093; aos feitos darmas e ao amor que mostra aos boñs caualeiros”, que não é ilógico identificar com D. Sebastião, sobretudo considerando que as pessoas de que o texto fala, ainda conforme a própria dedicatória, estão vivas (“bem vejo que emprehendi huã perigoza empreza que he tratar de pessoas viuas”), e “aventuraraõ as vidas” em serviço do mesmo rei, do qual esperam “merçes”; 4. a menção a uma “Crónica de D. Sebastião” ocorre só no texto da Advertência, onde, aliás, se revela o caráter compilatório do texto (“E nesta terceira parte se emcluio quasi as duas primeiras partes, posto que abreuiadamente o que fizemos por nos pareçer pertençer a ditta chronica”, A.T./L. 70, fl.1v).
Será justamente sobre estes pontos que incidirá o cabal estudo de Augusto (Ferreira do Amaral, 1982), em que se defende, antes, a autoria de Fr. Bernardo da Cruz. Para melhor sustentar esta tese, Ferreira do Amaral publica um estudo da vida de António de Vaena, indicando que teria morrido em 1564 e demonstrando, consequentemente, que não poderia ser autor da Crônica de D. Sebastião.
Finalmente, José Manuel Garcia (Garcia, 2011), no artigo “A Batalha de Alcácer-Quibir e a cronística portuguesa”, resume o estado da discussão acerca da autoria e contribui com algumas considerações. Primeiramente, volta a admitir a possibilidade de a crónica ser constituída por mais do que um núcleo, um dos quais poderia ser efetivamente de autoria de Fr. Bernardo da Cruz, “mesmo que a forma como ela chegou até nós tenha sido acrescentada depois da sua morte em 1579” (Garcia, 2011, p. 382). Sugere também que as intervenções feitas em 1586 sejam de António de Castilho,
pois este guarda-mor da Torre do Tombo era a personalidade que desde Julho de 1582 estava encarregado oficialmente de preparar as crónicas do reino. Ainda que a sua atividade conhecida até à data em que morreu a 4 de julho de 1593 seja limitada no domínio da história, tal facto não obsta à sua hipotética participação na revisão e acréscimo do texto da crónica que aqui consideramos (Garcia, 2011, p. 382).
Finalmente, indica a existência de “três tipos de manuscritos: um deles teria registado o nome de Frei Bernardo da Cruz; outro estava associado à história do cerco de Mazagão de António de Vaena e outro não tinha qualquer nome, tendo sido posteriormente associado ao de outros autores” (Garcia, 2011, p. 383).
3. A tradição manuscrita da Crónica: conhecimentos atuais
Todos os trabalhos até agora citados baseiam-se num conhecimento muito fragmentário da tradição. Até agora, tendo-nos proposto fazer um levantamento mais exaustivo, temos conhecimento de vinte e seis exemplares guardados em bibliotecas públicas portuguesas, sem excluir que possam existir outros testemunhos em bibliotecas particulares. Ainda não desenvolvemos um estudo aprofundado, mas, a um primeiro olhar, os testemunhos apresentam características que permitem agrupá-los em dois conjuntos principais - que, possivelmente, distinguem diferentes redações da CDS: o primeiro reúne nove testemunhos em que a narração se conclui com os eventos imediatamente posteriores a Alcácer-Quibir; o segundo compreende quinze testemunhos que incluem o início do reinado do Cardeal Infante. 24 Os do primeiro grupo são:
BNP, A.T./L. 70 (século XVII);
Casa Cadaval, Ms. VIII.2.805 (século XVII);
BNP, COD. 949 (século XVIII);
BNP, COD. 6831 (1721);
BPE, CIII/1-13 (1724);
ACL, Vermelho 475 (1798);
BNP, COD. 3663 (1817);
BGUC, Ms. 557 (século XVII-XVIII);
ANTT, Manuscritos da Livraria, n.º 982 (século XVIII).
Alguns destes manuscritos têm particularidades que devem ser destacadas. Certos elementos sugerem proximidade entre o COD. 3663 e o A.T./L. 70. Na portada do COD. 3663, com efeito, António Lourenço Caminha afirma ter feito “copia fiel de hum Original que possue o Jll.mo e Excell.mo Marquez de Penalva ENT#091;…ENT#093; Anno de 1817” e, no fl. 228r, refere a existência, no apógrafo, de uma nota à margem sobre Miguel de Moura. Posto isto, o segundo, tal como a cota indica, provém justamente da livraria dos condes de Tarouca, e verifica-se que contém, no fl. 139v, a tal nota indicada por Caminha. Além disto, em ambos os testemunhos, existe uma lacuna que abrange o final do capítulo 38 e parte do 39: de “paternal amor, e manifessençia de animo Real”, o texto passa diretamente para “e Espanto diziaõ m.tos q̃ os Portuguezes traziaõ consigo os mares”, que se situaria no final do capítulo 39. Assim, falta a epígrafe e o início do capítulo 39 (“Como os reis de Portugal e Castella jantaraõ ambos juntos duas vezes, e pela mesma maneira outras duas vezes os fidalgos portuguezes e castelhanos”) e passa-se diretamente para o capítulo 40, sem corrigir a numeração.
O Vermelho, 475 da Academia das Ciências foi copiado, em 1798, por Frei Vicente (Salgado, 1793) para a livraria do convento de Nossa Senhora de Jesus (Lisboa), a partir de um manuscrito de José Lopes de Mira, o qual tinha 77 capítulos e sobre cujo percurso somos informados: pertenceu a Fr. Luís Santoya, foi herdado por Lopo Dias de Sousa Goes Santoya e Cogominho e foi por este oferecido ao P.e Mira. Na “advertencia do copiador”, afirma Salgado ter produzido mais três cópias da Crónica. Duas, “com pouca differença de tempo” entre uma e outra, ambas in-quarto, para Cenáculo e a partir de um manuscrito de Cenáculo. Este antígrafo, por sua vez, tinha chegado às mãos do Bispo de Beja por aquisição a um secular, que o tinha comprado “nas escadas do Loreto pelo annos de 1766 em quarto encadernado em pergaminho” (ACL, Vermelho 475, fl. VIII). A terceira cópia fez-se necessária poucos meses depois de ter começado a produção do (atual) Vermelho, 475. Conta Fr. Vicente Salgado que um dos primeiros dois exemplares por ele copiados foi confiado ao bibliotecário do convento de Nossa Senhora de Jesus, com uma nota da mão de Cenáculo onde se dizia: “Este livro está fielmente copiado, como eu conferi, pelo q̃ me emprestou Monsenhor Gama - Fr. Manoel do Cenaculo”. Todavia, ao comparar este com o exemplar em curso de cópia, Salgado observou profundas diferenças entre as lições, o que o animou a trasladar o manuscrito de Cenáculo pela terceira vez.
Depreende-se, assim, terem existido sete testemunhos que passaram pelas mãos de Fr. Vicente Salgado, dos quais alguns estão hoje dispersos. Em primeiro lugar, uma cópia com 77 capítulos (μ) que pertenceu ao P.e José Lopes de Mira, o qual, por sua vez, a emprestou a Fr. Salgado. Deste manuscrito, foi tirada por Salgado uma cópia em 1798, (atual ACL, Série Vermelha, ms. 475, que identificamos por AC1). Por outro lado, refere-se a existência de um manuscrito (λ), vendido em 1766 nas escadinhas do Loreto a um secular e que chegou, entre 1766 e 1798, às mãos de Fr. Manuel do Cenáculo, de que foram tiradas duas cópias (σ1 e S2), ainda por Salgado. Uma destas duas foi revista por Cenáculo, que lhe incluiu uma nota, e serviu de antígrafo para uma terceira, produzida também em torno de 1798 (σ4). A existência do sétimo manuscrito (γ) infere-se apenas pela menção feita à cópia emprestada por Monsenhor Gama a Cenáculo, na nota deste último. 25
Quanto ao segundo grupo, os manuscritos atualmente conhecidos são:
BPMP, Ms. 1216 (finais do século XVI);
BNP, COD. 13528 (finais do século XVI);
BNP, COD. 13282 (século XVII);
BNP, PBA, 186 (século XVII);
BNP, A.T./L. 2a (século XVII);
BA, 49-XI-74 (século XVIII).
Mais oito testemunhos fragmentários ou truncados, que podemos incluir num subgrupo:
ACL, Vermelho, 688 (século XVIII);
ACL, Azul, 323 (1766-1798);
BPMP, Ms. 1218 (século XIX);
BNP, COD. 11048 (século XVII);
BNP, COD. 13312 (final do século XVII);
BPE, CIII/1-12 (século XVII);
BPMP, Ms. 1217;
Casa Cadaval, Ms. VIII.3.887;
BA, 49-XII-1 (século XVII-XVIII).
Começando pelos testemunhos não fragmentários, como já foi mencionado, o manuscrito 1216 da BPMP é o que serviu de base para a edição de Herculano, que, com base na grafia e no conteúdo de uma nota no capítulo 50, determinou ter sido copiado em Alcobaça, “por pessoa contemporanea do Cardeal Rei” (Herculano & Paiva, 1837, p. IX), ou seja, até 1580. A narração articula-se em cento e treze capítulos.
O COD. 13528 da BNP veio a público apenas recentemente26 e é, neste momento, o testemunho mais intrigante de todos. Trata-se de uma cópia de finais do século XVI, que compreende os acontecimentos do reinado do cardeal D. Henrique. O texto contém profundas intervenções coevas. No fl. 1, abaixo do título do primeiro capítulo, há três notas de posse: “M.el Correa 593”; “Este liuro he meu e anda furtado ha mais de vinte annos. Naõ o dou a quẽ o tem e he obrigado a restituilo ou telo de meu beneplacito. em 4 de jan.ro de 1609 de um Miguel (…)ques” (?); e “D. Rodrigo da Cunha”. Dos capítulos, apenas os primeiros quatro e os números 35 e 36 são numerados. Acaba com: “…no colegio da companhia q̃ elle fundou e dotou com singular magnificencia”, sendo que, a seguir à frase que constitui o explicit da versão fixada pela edição, adiciona uma breve descrição do rei D. Henrique e alude aos acontecimentos posteriores à sua morte. Ao longo do códice, existem diversos espaços em branco que correspondem a metades de fólio ou fólios inteiros. Em dois destes, o texto indica explicitamente que quem o copiou previa aí elementos que não chegou a inserir (p.e., no fl 115r: “nesta forma foraõ formados os exerçitos, os quaes mais claramente se veraõ na seguinte discripçaõ”). O último fólio (198) foi acrescentado posteriormente, tendo sido preenchido pela mesma mão que copiou o COD. 13282 da BN.
Este, por sua vez, aproxima-se ao que acabámos de descrever. Com efeito, não apenas termina com: “…no Collegio da Companhia, q~ elle fundou, e dotou com singular magnificencia”, incluindo a descrição do cardeal rei e aludindo aos acontecimentos posteriores à sua morte, mas também integra no texto diversas das correções e intervenções feitas naquele manuscrito. Considerando, além disto, o facto de existirem, em ambos, intervenções feitas pela mesma mão, futuramente será profícuo explorar as relações entre estes dois testemunhos.
O manuscrito pombalino, o da casa Tarouca e o da BA têm alguns aspetos em comum. O pombalino tem cento e quinze capítulos, mas o total indicado no manuscrito é cento e vinte e cinco: isto deve-se a um salto de uma dezena na numeração, 27 ao facto de a morte do Xarife velho e o juramento dos três Estados se encontrarem em dois capítulos à parte e, por último, à omissão dos números de dois capítulos. 28 Além disto, quiçá em razão de uma troca de cadernos algures na tradição, a sequência dos capítulos que correspondem, na versão fixada pela edição de Herculano, aos 61-65 é invertida: apesar de a sucessão numérica ser linear, os capítulos 61 e 62 contêm o texto que nos outros testemunhos se encontra nos capítulos 64 e 65, e os 63, 64 e 65 contêm o texto dos capítulos 61, 62, 63. O A.T./L. 2a e o 49-XI-74 têm cento e catorze capítulos, sendo que o da Ajuda também trata a morte do Xarife velho como um capítulo à parte, mas apresenta uma lacuna em correspondência ao da Sentença ao Sr. D. António. Ambos os testemunhos apresentam a inversão da ordem do conteúdo dos capítulos 61-65 que acabámos de referir.
De entre os testemunhos fragmentários, os primeiros três (ACL, Vermelho, 688; ACL, Azul, 323 e BPMP, Ms. 1218) contêm cinquenta e cinco capítulos, terminando com o início da descrição das condições de cativeiro dos portugueses em Marrocos. O COD. 11048 contém sessenta e sete capítulos, sendo que faltam os capítulos 14 a 34 e 76 e a organização da matéria está profundamente modificada em relação ao texto da edição de Herculano. O COD. 13312 contém cópia de apenas vinte e oito capítulos - de 68 a 96; o da BPE contém cento e quatro capítulos; o códice 1217 da BPMP, citado por Herculano, omite os capítulos 1, de 7 a 14 e acaba no 80. Quanto ao 49-XII-1 da BA, apesar de o último número de capítulo indicado ser o 113, faltam diversos capítulos anteriores, perfazendo apenas noventa e cinco. Por fim, não tivemos oportunidade de consultar o manuscrito da Casa Cadaval.
Algumas últimas considerações antes de concluir. Alexandre Herculano, na introdução à edição da Crónica, dá notícia dos exemplares por ele consultados. Entre estes, cita dois códices provenientes da livraria do convento de Nossa Senhora de Jesus e guardados na ACL, ambos com uma nota do Bispo de Beja - num, a nota seria de punho do próprio e o outro seria uma cópia de Fr. Vicente Salgado. Além destes, consultados diretamente pelo historiador, é mencionada a existência de um sétimo testemunho, oferecido à ACL pelo Bispo de Coimbra e consultado em 1829 por Fr. Matheus de Assunção, que tencionava publicá-lo. Este, quando Herculano estava a escrever, estaria desaparecido, mas o autor diz que conteria na primeira folha a nota de Cenáculo e estaria “miseravelmente deturpado”, o que o associaria aos primeiros três referidos pelo editor (Herculano & Paiva, 1837, p. VI). Recorde-se que, atualmente, existem na ACL três manuscritos da Crónica de D. Sebastião: os números 475 e 688 da Série Vermelha e o número 323 da Série Azul. Se a identificação deste último com um dos manuscritos citados por Herculano - o sétimo - é bastante segura, 29 o mesmo não se pode dizer no caso dos dois da Série Vermelha. O 688 contém, com efeito, a cópia em cinquenta e cinco capítulos da CDS, mas não apresenta a nota manuscrita de Cenáculo; o 475 foi efetivamente copiado por Fr. Vicente Salgado, como vimos, mas é cópia do texto em setenta e sete capítulos e a tal nota apenas se encontra citada no texto da “Advertencia do copiador”. Isto pode ser interpretado de duas maneiras diferentes. Por um lado, forçando um pouco a interpretação, talvez possamos admitir que Herculano não se tenha dado conta, na altura, de que o 475 afinal não era “perfeitamente semelhante” aos outros dois identificados e que a nota de mão de Salgado à qual se refere seja, efetivamente, a citada na “Advertencia do copiador”. Neste sentido, talvez seja interessante considerar que tanto os manuscritos que contêm o texto em cinquenta e cinco capítulos, como o que contém o texto em setenta e sete capítulos têm o mesmo título e abrem-se com a Dedicatória ao Reino de Portugal e a advertência “Aos que lerem”, sendo que as variantes mais ostensivas se manifestam mais à frente na narração. Ao querer continuar na mesma linha de raciocínio - contando apenas com os manuscritos hoje conhecidos -, o outro manuscrito por ele identificado talvez nada mais fosse do que o próprio Azul, 323. Por outro lado, também se pode presumir que Alexandre Herculano tenha visto (pelo menos) um códice entretanto perdido. Se assim fosse, poder-se-ia até conceber que o códice - com a “nota do Bispo de Beja ENT#091;…ENT#093; escripta pela letra ENT#091;…ENT#093; de Fr. Vicente Salgado, que copiou o livro” - visto pelo historiador fosse o nosso σ4.
4. Conclusão
O levantamento, sistematização e análise dos testemunhos de um texto transmitido de forma manuscrita constituem etapas preliminares de todo e qualquer estudo que sobre ele se debruce, ainda mais quando se trata de uma obra de importância significativa paradoxalmente ainda pouco estudada. Os dados sobre a Crónica de D. Sebastião aqui apresentados permitem não apenas lançar as bases para uma nova edição do texto, que tenha em conta os testemunhos identificados desde 1925 (data da última edição de que foi objeto) e se beneficie das possibilidades abertas pelo paradigma digital, de acordo com os objetivos definidos pelo Projeto Sebástica Manuscrita, como começar a responder com bases mais sólidas a algumas dúvidas que ainda subsistem sobre a origem e o percurso desta obra. Por um lado, a identificação de novos testemunhos (entre os quais se destaca o COD. 13528 da BNP, que ainda não tinha sido noticiado pela comunidade académica); por outro, o agrupamento da tradição manuscrita, de acordo com as suas caraterísticas, em duas famílias principais que, possivelmente, denotam a existência de duas versões sucessivas (hipótese que exploraremos em futuros trabalhos); por outro, ainda, a revisitação crítica de estudos anteriores, conduzem-nos à conclusão de que o que chamamos Crónica de D. Sebastião é uma realidade múltipla, fruto da intervenção de diversos agentes ao longo do tempo. Entre as intervenções devidas a esses agentes estão não só a introdução ou eliminação de segmentos textuais e/ou a sua reorganização, mas também a atribuição de autoria - problema que, julgamos, e por tudo quanto acabámos de dizer, deve permanecer em aberto. O aprofundamento da análise da tradição manuscrita é, por isto, um requisito indispensável para melhor percebermos a génese e o devir desta(s) obra(s).














