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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0870-8967versão On-line ISSN 2183-9174

Diacrítica vol.38 no.2 Braga ago. 2024  Epub 09-Mar-2025

https://doi.org/10.21814/diacritica.6001 

Articles

INTRODUÇÃO (Vol. 38.2/2024)

FOREWORD (Vol. 38.2/2024)

* Centro de Estudos Humanísticos, Escola de Letras Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Braga, Portugal.

** Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, Escola de Artes, Universidade de Évora, Évora, Portugal.


Resumo

O I Congresso Guitarrístico de Braga foi realizado no mês de setembro de 2022 no Edifício dos Congregados, na Universidade do Minho. O evento científico foi organizado pelo Grupo de Investigação em Artes (GiArtes), Núcleo de Investigação em Música (NIM), e contou com os apoios do Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM), Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH) e do Departamento de Música, Universidade do Minho. Teve como principal objetivo colocar em evidência temas atuais de investigação sobre guitarra clássica, focando quatro eixos temáticos: 1) A investigação em performance musical no caso da guitarra: o estado da arte; 2) Discussão sobre aspetos técnico/interpretativos do repertório para guitarra; 3) A guitarra no contexto da música de câmara: repertórios e questões atuais; 4) O ensino da guitarra clássica nos vários níveis e contextos: questões teóricas e pedagógicas. Este evento deu lugar à elaboração do dossier temático do presente volume da Revista Diacrítica - Contextos, práticas e repertório(s) para Guitarra Clássica: perspetivas e temas atuais de investigação, que inclui nove artigos internacionais representativos que evidenciam a vitalidade e o interesse em torno das múltiplas abordagens à Guitarra Clássica, contribuindo para o conhecimento nesta área específica. Na introdução ao volume são ainda apresentados os artigos que compõem a secção Varia e que exploram temas literários e culturais.

Palavras-chave: Guitarra clássica; Revista Diacrítica; Vol. 38.2; Investigação musical; Performance; Repertório.

Abstract

The I Guitar Congress of Braga was held in September 2022 at the Edifício dos Congregados, University of Minho. The scientific event was organized by the Grupo de Investigação em Artes (GiArtes), Núcleo de Investigação em Música (NIM), with the support of the Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM), Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas (ELACH), and the Department of Music, University of Minho. The main goal of the congress was to highlight current research topics on classical guitar, focusing on four main thematic axes: 1) Research in musical performance for guitar: the state of the art; 2) Discussion of technical/interpretative aspects of the guitar repertoire; 3) The guitar in a chamber music context: repertoires and contemporary issues; 4) The teaching of classical guitar at various levels and contexts: theoretical and pedagogical issues. This event led to elaborating the thematic dossier for this volume of Revista Diacrítica - Contexts, Practices and Repertoires for Classical Guitar: Perspectives and Current Research Topics, including nine representative international articles highlighting the vitality and interest surrounding the various approaches to Classical Guitar, contributing to knowledge in this specific area. This introduction to the volume also presents the articles included in the Varia section, which explore literary and cultural themes.

Keywords: Classical guitar; Revista Diacrítica; Vol. 38.2; Musical research; Performance; Repertoire.

1. Introdução

O presente volume procura reunir vários contributos de especialistas na área da Guitarra Clássica, integrando perspetivas transversais que evidenciam diferentes abordagens ao estudo da guitarra nas suas múltiplas expressões. Em particular, os editores destacam o enfoque de alguns artigos na dimensão histórica da guitarra, guitarristas e construtores em Portugal, assim como dos principais circuitos de concertos desde o século XIX. Outros contributos incluem as dimensões pedagógicas, interpretativas e técnicas, assim como questões relacionadas com os repertórios e as suas influências.

O processo de edição, nas suas diversas etapas, permitiu constatar a existência de uma produção académica relevante e transversal a várias disciplinas no âmbito dos estudos sobre guitarra, com especial destaque para áreas como os Estudos de Performance, a Musicologia Histórica, a Etnomusicologia, a Pedagogia da Música, entre outras. O cruzamento da temática da Guitarra Clássica com os diferentes universos disciplinares é visível na abrangência dos próprios revisores que contribuíram para este número. Os comentários trocados entre revisores e autores durante a revisão cega por pares revelam, para além das dimensões teóricas e metodológicas, a partilha de novos dados de pesquisa e direções de investigação que evidenciam a vitalidade e o interesse em torno das múltiplas abordagens à Guitarra Clássica. O presente número da revista Diacrítica apresenta, assim, os resultados de diferentes processos de investigação sobre a Guitarra Clássica, contribuindo para o conhecimento nesta área específica. Para além do dossiê temático, o volume 38.2 conta ainda com quatro artigos na secção Varia.

2. Os estudos académicos sobre guitarra clássica

Os estudos académicos sobre a guitarra clássica, a nível internacional, são numerosos e abrangem diversas perspetivas disciplinares, bem como enfoques teóricos e metodológicos variados. Destacam-se trabalhos de referência que abordam perspetivas históricas, organológicas, pedagógicas, além de estudos focados em compositores e/ou repertório, questões técnicas e performativas, entre outros, constituindo um campo de investigação bastante vasto.

Como evidenciado na literatura da especialidade, a denominada guitarra clássica tem na vihuela e na guitarra barroca, mas, primordialmente no instrumento hoje identificado como guitarra romântica ou viola francesa, os seus predecessores, tendo sido estabilizada ao nível da construção por Antonio de Torres (1817-1892) (Romanillos, 1990). A pesquisa de caráter histórico sobre a guitarra abarca, por isso, um abrangente período histórico marcado pelas transformações organológicas associadas a diferentes formas de construção e formatos do instrumento, aos seus usos e funções nos diversos contextos sociais, e aos repertórios.

A perspetiva que hoje temos sobre a guitarra deve-se, em grande parte, a um conjunto de monografias que exploram a história do instrumento a partir de diversas fontes, como coleções de instrumentos, iconografia musical, fontes textuais e repertório, entre outras. Desde os anos 70, vários autores no panorama internacional têm contribuído significativamente para um melhor entendimento da história do instrumento (Aviñoa, 1985; Coelho, 2003; Dell’Ara, 1988; Mitéran, 1997; Nuti, 1988; Schmitz, 1983; Summerfield, 2003; Turnbull, 1974; Wade, 2010; Westbrook, 2005; entre outros).

De entre as obras incontornáveis sobre a Guitarra, destaca-se The Guitar from the Renaissance to the Present Day, de Harvey (Turnbull, 1974). O livro oferece uma narrativa organizada cronologicamente e dividida em duas partes. A primeira do Renascimento ao Barroco, e a segunda que explora a guitarra de seis cordas e a sua construção nos períodos Clássico e Romântico, focando nomes relevantes, como Tárrega no séc. XIX ou Andrés Segovia no séc. XX. Outras publicações incidiriam igualmente sobre o desenvolvimento histórico do instrumento (Wade, 2010), focando também os principais intérpretes (Summerfield, 2003) ou construtores incontornáveis, como o supracitado Antonio de Torres (Romanillos, 1990). Um contributo marcante, pela sua abrangência de perspetivas, é o volume editado por Victor Anand (Coelho, 2003), no qual vários dos autores abordam dimensões associadas à guitarra clássica na terceira parte do livro, sendo a segunda dedicada ao Jazz, roots e rock e a primeira às novas histórias da guitarra e tradições do mundo.

Com uma abordagem mais prática, mas mantendo o enfoque histórico, destacam-se os dois volumes do Manuale di storia della chitarra (1988), idealizados para uso no contexto dos conservatórios. O primeiro volume, com o subtítulo La chitarra antica, classica e romântica é da autoria de Mario Dell’Ara; o segundo volume, La chitarra nel ventesimo secolo, foi escrito por Gianni Nuti. Ambos os autores apresentam uma síntese histórica da guitarra nos diferentes períodos históricos, dedicando também atenção aos principais desenvolvimentos organológicos, contextos performativos, principais compositores e repertório, discorrendo sobre as inovações técnicas e instrumentais. Ao nível de abordagens mais práticas destaca-se também a publicação de (Glise, 2016).

Não se pretende aqui fazer uma extensa revisão da literatura sobre a guitarra clássica, principalmente porque muitos desses trabalhos não se limitam à dimensão histórica do instrumento e ao seu repertório. Assinala-se, a título de exemplo, algumas temáticas que têm sido abordadas, sobre: guitarristas e compositores (Gilardino, 2012, 2018); obras específicas para guitarra (Carlevaro, 2007); técnica guitarrística (Offermann, 2019); gravação da guitarra clássica (Marrington, 2021); questões pedagógicas (Glise, 2014), entre outros assuntos. De assinalar também revistas científicas da especialidade, como por exemplo a revista Roseta, da Sociedad Española de la Guitarra, e a publicação periódica de La Guitarra en la Historia, cujo primeiro número foi publicado em 1990, na sequência das Jornadas de Estudio sobre Historia de la Guitarra, associada ao Festival de Córdoba. Eusebio Rioja, figura incontornável do estudo da guitarra, editou os volumes I a XII, o último em 2001.

3. A institucionalização do ensino da guitarra

A introdução da guitarra clássica em Portugal no contexto do ensino superior em Portugal é tardia quando comparado com outros países, como por exemplo Espanha. Em meados do século XIX, por exemplo, o ensino da guitarra foi incorporado no Real Conservatorio de Música y Declamación Maria Cristina em Madrid, (predecessor do atual Real Conservatorio Superior de Música), fundado em 1830, onde chegaram a lecionar, como professores honorários, grandes nomes como Tomás Damas (c. 1817-1880) e Julián Arcas (1832-1982). Um momento relevante teve lugar quando Regino Sainz de la Maza começou a lecionar nesse Conservatório em 1935 (Neri de Caso, 2010), embora apenas em 1941, após a guerra civil espanhola (1936-1939), se tenha iniciado oficialmente o ensino da guitarra clássica na supracitada instituição, na especialidade de “Guitarra Práctica y Vihuela histórica” (Martín-Gil, 2023, p. 194). Sainz de la Maza tornou-se catedrático e era uma das grandes referências da Guitarra tendo estreado em 1940 o Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo (1901-1999), que lhe fora dedicado.

Em Portugal, o Conservatório de Música foi fundado em 1835 e integrado em 1836 no Conservatório Geral de Arte Dramática, ou seja, poucos anos mais tarde do que o seu homólogo de Madrid. Ao longo da sua história, adotou diferentes denominações (Rosa, 2010), assumindo-se como instituição central no ensino de música em Lisboa. No entanto, a guitarra clássica não integrava inicialmente o elenco de disciplinas ministradas no Conservatório Nacional de Música, em Lisboa, à semelhança do que acontecia no Conservatório de Paris, instituição que serviu de modelo a outras instituições fundadas em capitais europeias.

Na realidade, a guitarra clássica começou a ser lecionada no ensino público mais cedo em Portugal do que em França. O primeiro professor de guitarra no ensino público em Portugal foi o guitarrista espanhol Emilio Pujol (1886-1980), que lecionou o Curso Especial de Guitarra no Conservatório Nacional, em Lisboa, entre 1947 e 1969. Curiosamente, noutras escolas internacionais de referência, como o Conservatório Superior de Música e Dança de Paris, o reconhecimento foi mais tardio, tendo sido integrado na oferta pedagógica apenas em 1969, por Alexandre Lagoya (1929-1999).

Em 1983, houve uma reforma significativa e reorganização do ensino artístico em Portugal, resultando na criação de escolas de arte de ensino superior, sendo que o Conservatório ficou encarregado do ensino básico e secundário. Com o Decreto-Lei 310/83, é criada a Escola Superior de Música de Lisboa, integrada em 1985 no Instituto Politécnico de Lisboa. No Porto, é também criada a Escola Superior de Música, designada a partir de 1994 como Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) (Melo, 2010, p. 417). No ano letivo 1999/2000, entra em funcionamento o curso de música Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco.

No âmbito do ensino de guitarra, destacam-se também a criação de ciclos de estudos em contexto universitário, nos quais se desenvolve a dimensão interpretativa e de investigação científica. Em 1993, entrou em funcionamento o curso de música na Universidade de Aveiro no Departamento de Comunicação e Arte, incluindo o ensino da guitarra clássica, inicialmente a nível da Licenciatura, para ampliar o seu nível de formação aos Mestrados em Ensino de Música e de Música (Instrumento) e aos Doutoramentos em Música (Instrumento), que ainda funcionam no presente. Outras universidades passaram a oferecer o mesmo tipo de ensino, nomeadamente, a Universidade de Évora, a Universidade do Minho e o ISEIT - Instituto Piaget.

Numa perspetiva comparativa, é de salientar que em Portugal a chegada da música e da guitarra clássica ao ensino superior público ocorre quase vinte anos mais tarde do que no Brasil, onde o guitarrista uruguaio Isaías Sávio (1901-1977) propôs a abertura do curso de guitarra no ano 1947, no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Posteriormente, entre os anos 70 e 90 do século XX, o ensino da guitarra clássica foi acolhido em numerosas instituições de ensino universitário superior no Brasil (Pereira & Gloeden, 2012).

Pelo menos nas últimas duas décadas, a pesquisa académica em torno da guitarra clássica em Portugal tem sido muito ampla, motivada pela produção de numerosos trabalhos académicos dos vários mestrados e doutoramentos em Música, na especialidade de Instrumento - guitarra clássica. É interessante observar que nestas teses, relatórios de estágio e dissertações, tem-se aprofundado em temáticas sumamente diversas e ecléticas, debruçando-se sobre aspetos musicais, técnicos, históricos, sociais, e culturais com uma enorme variedade de enfoques e abordagens enriquecedoras para a prática guitarrística. Entre essa plêiade de tópicos investigados, é possível destacar que algumas das questões associadas com a guitarra têm sido estudadas com maior frequência nos trabalhos académicos referidos anteriormente, o que também se revela nos artigos incluídos neste volume.

Em Portugal, a abertura de cursos de música e de programas de 1.º, 2.º e 3.º ciclos no contexto do ensino superior, e o incremento da investigação científica por via da atividade dos centros de investigação, permitiram uma produção sem precedentes em torno de várias temáticas associadas ao estudo da guitarra. De destacar, em particular, os relatórios de estágio no âmbito dos mestrados em Ensino de Música, que têm abordado temáticas que ligam a dimensão pedagógica a aspetos específicos da interpretação e da técnica. Uma pesquisa nos repositórios das Instituições de Ensino Superior é ilustrativa da diversidade de abordagens e temas de pesquisa no âmbito guitarrístico, e, como referido, alguns dos temas estão representados no presente número desta revista através de vários artigos.

4. Os artigos do dossiê temático

Os artigos do presente dossiê temático cobrem, como referido anteriormente, diferentes temáticas em torno de um instrumento musical associado a múltiplos contextos e práticas performativas. Vários dos artigos apresentados evidenciam uma abordagem histórica do panorama musical guitarrístico em Portugal desde o séc. XIX. Exemplo disso é o artigo de Pedro Rodrigues, intitulado “Uma Grande Surpreza A Atividade Concertística de Guitarristas Espanhóis em Portugal (1854-1909)”, no qual apresenta um leque de guitarristas espanhóis que passaram por Portugal (Francisco Trindad Huerta, Antonio Cano, José Rojo e José Toboso, Antonio Jiménez Manjón, Luis de Soria, Agustin Rebel Hernández, Rafael Tost, Brassó e Peraire), denotando aspectos relevantes da sua receção. O autor contribui com dados inéditos resultantes da sua pesquisa em periódicos que permitem um entendimento mais profundo dos circuitos concertísticos, colocando em evidência a estrutura dos concertos, repertório, entre outros elementos que permitem lançar um novo olhar sobre a temática em epígrafe.

A pesquisa histórica marca também o artigo de Teresinha Prada Soares, intitulado “Apontamentos sobre Atividades com Guitarra Clássica no Início do Século XX em Portugal”, destacando a atividade de nomes como António Augusto Urceira, Agustín Rebel Fernández, Adolfo Alves Rente e a sua atividade concertística nas décadas de 30 e 40. O trabalho da autora, resultante da sua pesquisa pós-doutoral acolhida pelo CESEM (Centro de Estudos em Sociologia e Estética Musical) procura revelar o papel central de Urceira e de outros guitarristas, incidindo na diversidade das suas atividades musicais como guitarristas.

O artigo de Vinicius Fernandes e Pedro Rodrigues aborda os Guitarristas Portugueses e seus descendentes estabelecidos no Brasil no decorrer de um século (1875-1975), debruçando-se especificamente no caso de Maria Lívia São Marcos. O trabalho de pesquisa realizado apresenta novas informações sobre a ação dos descendentes de guitarristas portugueses no Brasil, denotando o papel cimeiro que alguns desempenharam na divulgação e pedagogia da guitarra no Brasil e na relação com Portugal. O enfoque permite perceber o desenvolvimento da carreira de Maria Lívia São Marcos nas suas várias vertentes enquanto guitarrista no contexto da segunda metade do séc. XX., inclusive enquanto artista que gravou vários fonogramas.

A temática da lutheria em Portugal é abordada no artigo de Eduardo Baltar Soares intitulado “As Guitarras Fabricadas no Norte de Portugal entre 1799 e 1926”. O autor fornece uma perspetiva histórica construída a partir de uma extensa recolha de dados da arte da violaria no norte de Portugal. Para o efeito, parte, de entre outras fontes, dos próprios instrumentos musicais enquanto fonte de informação histórica, debruçando-se depois sobre vários exemplos bem documentados que permitem uma visão ampla do tema e uma problematização do uso de conceitos em determinados contextos, como guitarra, viola, cítaras campeiras, e.o.

O artigo de Isabel Rei Samartim, que parte da pesquisa realizada no âmbito da sua tese de doutoramento, explora a guitarra e outros cordofones dedilhados na Galiza numa perspetiva histórica a partir de diferentes fontes documentais, permitindo o conhecimento de um vasto repertório a partir do séc. XVIII. A incidência deste artigo na música de câmara do séc. XIX, no contexto galego, traz um novo olhar sobre repertórios praticamente desconhecidos, e que se encontravam depositados em fundos documentais abordados ao longo do artigo. Destaca-se, para além do repertório, os principais compositores, com enfoque também em mulheres compositoras que marcam presença nos fundos galegos. O artigo permite perceber dinâmicas e relações (pessoais, associativas, por exemplo). que contribuíram para a construção do contexto musical galego no período em apreço.

O artigo de Humberto Amorim aborda um manuscrito até então inédito do Choros N. 1, atribuído a um antigo nome da guitarra carioca, Joaquim Francisco dos Santos, também conhecido como Quincas Laranjeiras (1873 -1935). A partir do documento mencionado, Amorim propõe diferentes formas de elaborar uma edição moderna que facilite a sua difusão, tal como divulgar o trabalho em geral de Quincas Laranjeiras, ampliando o conhecimento sobre o repertório de uma época da música no Brasil, que ainda pode ser explorado.

Daniel Wolff incide, no seu artigo, na temática do candombe uruguaio na guitarra clássica. Aborda várias obras contemporâneas para música de câmara nas quais é utilizado de forma consistente um ritmo típico afro-uruguaio, executado tradicionalmente por grupos de tambores que vão tocando pelas ruas, especialmente na época do Carnaval, conhecido este como candombe, com raízes na cultura angolana, que se tornou um emblema musical do Uruguai, pelo menos desde o século XIX. Neste trabalho, além de fornecer dados sobre a evolução histórica do candombe, Wolff cita, entre outras obras, uma de suas composições camerísticas, intitulada California Card, a qual é alvo de uma análise mais detalhada.

No artigo de Dejan Ivanović, são alvo de reflexão aspetos pedagógicos do ensino inicial da guitarra clássica, destacando o benefício do uso da lengalenga na aprendizagem musical de alunos entre os sete e onze anos. Neste trabalho, Ivanović reflete sobre o conceito de familiaridade, partindo do trabalho de E. Gordon, propondo a introdução do uso da lengalenga no ensino de guitarra. Foca-se particularmente num extrato da Coletânea de composições para guitarra do compositor Vjekoslav Andreé (1935-2002), que foi um manual muito utilizado no último quartel do século passado, especialmente na região dos balcãs, na pedagogia guitarrística. Assim, é analisada a viabilidade da introdução da lengalenga tradicional no estudo inicial de guitarra clássica, como estratégia pedagógica.

Por fim, Raquel Loner expõe um recurso técnico para a mão esquerda na guitarra clássica, conhecido atualmente com um termo inglês: walking (andando ou caminhada), e como dirigir a ação dos dedos dessa mão segundo os princípios do walking, baseando-se numa proposta do guitarrista dos EUA Frank Koonce, para facilitar a fluência musical e mecânica dos movimentos da mão esquerda sobre a escala da guitarra, propiciando o legato. Com o fim de evidenciar a utilidade desta técnica, é realizada uma descrição pormenorizada dos movimentos da mão esquerda num Prelúdio muito conhecido de Johann Sebastian Bach, com o que se pretende demonstrar que mediante o uso do walking é possível evitar interrupções não desejadas no discurso musical que prejudiquem a expressividade do guitarrista.

5. Os artigos da secção Varia

Os artigos da secção Varia exploram uma diversidade de temas literários e culturais, oferecendo leituras críticas e reflexões que abrangem o ensino da língua portuguesa, a estética literária e a representação das vivências humanas.

No primeiro artigo desta secção, Manuel Duarte João Pires aborda o ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) com ênfase na promoção de uma cidadania intercultural que valorize a diversidade cultural e identitária da língua. O estudo analisa quatro manuais de PLE - Português XXI e Aprender Português, de Portugal, e Falar... Ler... Escrever... Português e Muito Prazer, do Brasil. A análise do autor revela que esses manuais não refletem plenamente a heterogeneidade da língua portuguesa, centrando-se em referências hegemónicas como Lisboa e São Paulo, o que limita a representação da diversidade geográfica e cultural do mundo lusófono.

Ibrahim Alisson Yamakawa explora como o romance Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo M. Tavares, utiliza o silêncio e o vazio para contornar a crise da palavra e expressar o indizível. A partir do encontro entre Marius e Moebius, o estudo dialoga com teorias de autores como Lauro José Siqueira Baldini, Santiago Kovadloff, David Le Breton e George Steiner para mostrar que a ausência de palavras no romance não implica falta de sentido, mas sim uma comunicação diferenciada que vai além da linguagem verbal. O autor conclui que a evocação de temas como o holocausto, o trauma e a compaixão só se torna possível pelo uso de silêncios e vazios que dão ao indizível uma expressão significativa, tornando o romance acessível e comunicativo para o leitor, mesmo sem recorrer a uma narrativa convencional.

Por seu turno, Andreia Almeida analisa como Maria Ondina Braga utiliza a "arte da sugestão" no conto A China fica ao lado para abordar o aborto clandestino, prática ilegal em Macau e Portugal até 2007. A narrativa equilibra o que é dito e o que é silenciado para tratar de um acontecimento traumático na vida de uma mulher anónima. A partir da crítica feminista, o estudo questiona se essa escrita sutil contribui para a invisibilidade das vivências femininas ou se, ao contrário, dá visibilidade ao sofrimento e às escolhas das mulheres, tornando temas como o aborto e a sexualidade feminina parte de um discurso literário que expõe o silêncio imposto pelo contexto social e histórico.

No campo da literatura brasileira, Alexandra Fonseca de Morais aborda, numa perspetiva intersemiótica, o conto As Margens da Alegria de João Guimarães Rosa e as respetivas ilustrações, da autoria de Luís Jardim, as quais integraram o livro Primeiras Estórias. Neste ensaio, a autora reflete acerca das relações entre palavra e imagem e como este foco interdisciplinar resulta numa recriação da linguagem, sendo que as imagens não apenas ilustram o texto, antes expandindo a sua compreensão e as suas potenciais interpretações.

Em conjunto, os artigos desta secção ampliam o entendimento sobre a língua portuguesa como veículo de expressão cultural e intercultural e deixam revelar diferentes facetas das experiências humanas, bem como as dinâmicas entre texto e imagem na literatura.

Referências

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Recebido: 07 de Julho de 2024; Aceito: 28 de Agosto de 2024

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