1. Introdução
Durante a transcrição do dicionário de português-chinês do século XVIII, inédito, correspondente ao códice 3306 da Biblioteca Nacional de Portugal, que temos levado a cabo desde 2014, tornou-se evidente o interesse de extrair e investigar conjuntamente todos os verbetes relativos à figura do mandarim, uma vez que não abundam noutras obras lexicográficas as informações a ele concernentes, achando-se a palavra mandarim praticamente ausente de dicionários bilingues posteriores, como os de Joaquim Afonso Gonçalves (Diccionario portuguez-china, 1831, e Diccionario china-portuguez, 1833).
O códice em estudo, a publicar em breve, apresenta trinta verbetes nos quais a figura do mandarim é referida (através do emprego desta palavra), seja logo nos lemas em português seja especificando uma aceção chinesa de uma entrada geral, ou seja, como equivalente, com o respetivo significado etimológico indicado sob os carateres chineses; neste trabalho apresentaremos a edição semidiplomática da segunda metade dos lemas e ainda dos equivalentes específicos de lemas ou entradas gerais, acompanhados da fotografia das linhas correspondentes do manuscrito. O conjunto de toda esta informação lexicográfica - cuja primeira parte, que caracteriza mais diretamente o mandarim, foi editada e investigada no artigo “A figura do mandarim num dicionário manuscrito de português-chinês do século XVIII”, contextualizada em termos literários, históricos e culturais, recorrendo a fontes lexicográficas chinesas e portuguesas antigas, mas também a estudos contemporâneos - permitirá um conhecimento mais abrangente da figura do mandarim e, sobretudo, a formulação de interrogações conducentes a investigação futura mais aprofundada, para a qual a comunidade científica muito poderá contribuir, na respetiva área de estudos, a partir da edição destes verbetes e do seu estudo prévio, de âmbito necessariamente geral, dada a extensão do corpus e a riqueza dos problemas linguísticos e históricos que levanta, irredutível à economia de um artigo, ou mesmo dos dois trabalhos em que foi possível apresentá-lo.
No dicionário manuscrito surgem referidos, ora como lemas ora apenas como equivalentes (dentro de uma entrada geral), abano do mandarim (1); abater ou tirar de mandarim (2, vd. 16); acrescentar o rei mais algum mandarim (3); acusar ou fazer petição ao mandarim (4); audiência do tenente de mandarim (5); apontar o mandarim (6); atormentar de mandarim (7); botar o mandarim os bambus (8); Cha yuên, nome de um mandarim (9); colégio de mandarins (10); colegial do rol dos mandarins (11); cunhos, sinete [de mandarins] (12; vd. 15, 30); dar conta a mandarim (13); dar fiança diante dos mandarins (14); dar um selo de mandarim (15; vd. 30); descer de mandarins (16; vd. 2); delegado mandarim (17); devassa dos mandarins (18); escrivão de mandarim (19); filha de mandarim (20); informar os mandarins (21); mandarim (22), mandarim culpado (23); mulher de mandarim (24); morrer [o mandarim] (25); orelhas de mandarins [do chapéu] (26); paço do mandarim (27); pajem de mandarim (28); renda de mandarins (29) e selo (diz que se usa para os mandarins) 1 (30, vd. 15).
Tendo já editado e comentado num primeiro artigo as entradas relativas ao próprio mandarim - mandarim (22), mandarim culpado (23); Cha yuên, nome de um mandarim (9); delegado mandarim (17) e renda de mandarins (29), bem como as mais caraterizadoras da sua atividade profissional - abater ou tirar de mandarim (2, vd. 16); acrescentar o rei mais algum mandarim (3); acusar ou fazer petição ao mandarim (4); atormentar de mandarim (7); botar o mandarim os bambus (8); dar conta a mandarim (13); dar fiança diante dos mandarins (14); descer de mandarins (16; vd. 2); devassa dos mandarins (18) e informar os mandarins (21) - ocupar-nos-emos neste trabalho dos lemas que o caraterizam menos diretamente: alcaide / Audiencia del sú yâ , (5); apontar o mandarim (6); colégio de mandarins (10); colegial do rol dos mandarins (11); escrivão de mandarim (19); filha de mandarim (20); mulher de mandarim (24); morrer [o mandarim] (25); orelhas de mandarins [do chapéu] (26); paço do mandarim (27); pajem de mandarim (28) e selo (diz que se usa para os mandarins) (30, vd. 15).
Identificámos ainda uma terceira categoria lexicográfica relativa ao mandarim nos verbetes de lemas gerais que apresentam equivalentes chineses a ele concernentes, com inclusão desta palavra portuguesa como seu significado literal, que também editamos e estudamos neste trabalho: abano, com o equivalente掌扇 (zhǎngshàn), que levam os mandarins para se cobrir do sol (1); abater, com equivalente 裁抑 (cáiyì), tirar de mandarim (2); cunhos, sinete, com equivalente印號, yń haó, de mandarins (12) e dar um selo, com equivalente打印 tà yń ([selar] de mandarim) (15).
2. Verbetes relativos aos mandarins
2.1. Alcaide / Audiencia del sú yâ, o tenente de mandarim (5, fl. 20) / (Figura 1)
Alcaide
Audiencia del sú yâ, o tenente de mandarim
官衙四o舘捕督o舘捕巡
quoǹ yâ sú . quoǹ pú tŏ . quòn pú siuǹ
No Diccionario portuguez-china de Joaquim Gonçalves (1831), alcaide tem como equivalentes 衙役 (yáyì) e 捕快 (bǔkuài); termos chineses que também figuram no mesmo dicionário como equivalentes de justiça, no sentido de 'oficial que administra a justiça', tal como já referia Bluteau (1712-1728). O termo 衙役 (yáyì) acha-se igualmente registado como equivalente de oficial de justiça (Gonçalves, 1833, p. 226), referindo de modo genérico aquele que tem ofício no 衙 (yá), um órgão de justiça, lugar que Gonçalves (1833) traduz como palácio de magistrado, administrado por um magistrado ou mandarim da justiça, semelhante a uma esquadra. Já o 捕快 (bǔkuài) era aquele que se encarregava de prender criminosos e manter a segurança do yá e do mandarim, bem como a dos cidadãos, profissão semelhante à de polícia. Bluteau (1712) define Alcaide Môr, do árabe al (artigo) + caydion, derivado do verbo cade, 'capitanear', como “o que tem a seu cargo a guarda do Castello, ou fortaleza”, incluindo no mesmo verbete “Alcaide, que prende”, e ainda “Alcaide com vara. Ministro inferior de Justiça”, o que também se aproxima do indicado por Gonçalves.
No verbete alcaide do manuscrito da Biblioteca Nacional de Portugal incluem-se os equivalentes chineses 巡捕舘 (xúnbǔguǎn), 督捕舘 (dūbǔguǎn) e 四衙官 (sìyáguān), que podem também ser considerados sinónimos de yáyì. Os alcaides xúnbǔ têm a função de patrulhar, prender e capturar, enquanto os dūbǔ inspecionam, censuram e prendem, funções, todas elas, de um oficial de justiça. No Diccionario china-portuguez, o termo xúnbǔ apresenta como equivalente guarda policia (Gonçalves, 1833, p. 302). No Grande dicionário da língua chinesa explica-se que, na dinastia Qing, havia oficiais xúnbǔ nos palácios do magistrado de cada província, com funções militares ou civis, sendo o seu cargo inferior ao dos capitães e governadores das províncias. Quanto a dūbǔ, os dois carateres significam comandar e prender, referindo-se às funções do oficial de justiça.
Os termos incluídos no manuscrito, 巡捕舘 (xúnbǔguǎn) e 督捕舘 (dūbǔguǎn), referiam o órgão ou lugar onde estes funcionários permaneciam e trabalhavam.
Quando o povo precisava da intervenção do mandarim para resolver problemas - por exemplo, quando alguém era acusado de roubo -, o mandarim presidia uma audiência para ouvir as partes em público; esta ocasião era a referida audiencia del “sú yâ”. Segundo regista o verbete, o termo chinês sú yâ equivale a tenente do mandarim. Por outro lado, o equivalente em chinês surge com o caráter 官 (guān), que representa o mandarim, como se explica mais adiante, no verbete 22, e não com o caráter 舘 (guǎn), como vemos nos dois primeiros equivalentes. O termo 四衙, sú yâ ou sìyá (pinyin atual), surge em Gonçalves (1831, p. 468), na entrada de justiça: justiça da terra - 地方官 (dìfāngguān) / 四衙 (sìyá), relacionado com os mandarins que tratam dos assuntos políticos e administrativos nas regiões fora da capital (Luo, 1988, p. 1019). Na Arte China, Gonçalves (1829, p. 276) utiliza o termo num dos seus diálogos: logo me foi accussar ao juiz da terra que me desse huma sova - 把我告四衙里他用上钱叫那个典史打我一顿. Nessa frase utiliza-se também um segundo termo, 典史 (diǎnshǐ), para significar juiz, que em Gonçalves (1833) é equivalente de empregado sem grao de nobreza. Numa obra da dinastia Qing sobre a vida social do povo chinês desse período, da autoria de um mandarim de Hanlinyuan (Academia Imperial), refere-se a ordem hierárquica de quatro cargos de funcionários a nível regional: o primeiro é 縣令 (xiànlìng), o segundo, 丞 (chéng), o terceiro, 簿 (bù), e o último, 尉 (wèi) (Yu, s.d., v. 3, p. 13). Gonçalves (1833, p. 104; p. 7; p. 205; 1831, p. 575) regista os cargos anteriores respetivamente como juiz de fora, assessor do juiz de fora, official maior e chefe da policia. Segundo Yu, o cargo de wèi pertence ao quarto nível, pelo que era chamado 四衙 (literalmente, o quarto yá). Assim, podemos afirmar que sú yâ é o cargo mais baixo de mandarim de nível regional. Isto também se aproxima da explicação do autor, o tenente de mandarim é igualmente um cargo inferior ao de mandarim.
2.2. Apontar o mandarim (6, fl. 38) / (Figura 2)
O termo em chinês está registado no manuscrito com o caráter 僉 (qiān), e assim era usado antes, contudo, hoje inclui o caráter 簽 (qiān), acrescentando-se o radical de bambú, com o significado de assinar/assinar um documento2. É possível encontrar o lexema escrito nas duas versões em diferentes obras. Já Gonçalves (1833) indica que o termo 簽押 (qiānyā) representa o papel autenticado. Ambos os termos, 僉押 (qiānyā) e簽押 (qiānyā), se acham registados no Grande dicionário da língua chinesa com o significado de 'assinar documentos para se responsabilizar pelo escrito'. Embora o termo chinês não faça referência direta ao mandarim, trata-se de um ato que se realizava na sua presença, no palácio do magistrado ou órgão governamental competente. Para além do termo qiānyā, outros se formaram relacionados com esse ato, como qiānyāfáng, 'gabinete onde trabalha o oficial mandarim', qiānyāzhuō, 'a secretária do mandarim', e qiānyāchù, 'edifício ou espaço de trabalho no órgão oficial' (Luo, 1991, p. 1263). Embora o lema português pudesse, no século XVIII, significar 'indigitar, nomear o mandarim', ou o mandarim 'registar, escrever' algo, o equivalente chinês não possui esses significados, mas o de 'registar o nome'. Talvez se trate de referir o ato de apontar um facto ou indivíduo, no sentido de acusar alguém cujo ato precisa de ser devidamente registado na escrita e “assinado” na presença do mandarim, para completar o processo. No Diccionario portuguez-china, Gonçalves (1831) inclui apontar o sujeito - 指名 (zhǐmíng), ou seja, indicar o nome de uma pessoa. De facto, no Grande dicionário da língua chinesa regista-se zhǐmíng nas acepções de apontar o nome e também de apontar o crime de uma pessoa.
2.3. Colegio de mandarins e Colegial do rol dos mandarins (10 e 11, fl. 102) / (Figura 3)
Colegio de mandarins
中※舘o閣舘
chūm quōn . kŏ quoǹ
Colegial do rol dos mandarins
人中※舘
gîn chūm quon̄
No palácio imperial existia um sítio para os mandarins fazerem os seus estudos. Segundo se regista no Grande dicionário da língua chinesa, 舘閣 (guǎngé), durante a dinastia Song, era a denominação geral dada aos órgãos que se responsabilizavam pela administração dos livros e material bibliográfico, pela edição e compilação dos livros sobre a história do país ou da dinastia. Estes órgãos eram os seguintes: 史館 (shǐguǎn, Academia de História), 昭文館 (zhāowénguǎn, Academia de Literatura), 集賢館 (jíxiánguǎn, Academia dos Letrados), 秘閣 (mìgé, Pavilhão dos Livros Originais e Pinturas) e 龍圖閣 (lóngtúgé, Pavilhão das Obras do Imperador Taizong e da Família Real da Dinastia Song). Nas dinastias Ming e Qing, todas as funções do Guǎngé passaram a pertencer ao 翰林院 (hànlínyuàn), conhecido também como Academia de Hanlin. Entretanto, esta também era conhecida como Guǎngé, por terem as mesmas funções. Para além das funções acima referidas, estes espaços serviam para a formação de talentos profissionais. É nesta função que o verbete Colegio de mandarins encaixa. Segundo Cheng Mingming (2006, p. 84), durante a dinastia Song, a função mais importante do Guangé era a de reunir e formar talentos. No Guǎngé, a coleção, arquivo, revisão e compilação de livros eram as funções básicas. Era neste Colégio que as pessoas talentosas se juntavam, de modo a aproveitar essa plataforma para desenvolver a sua carreira na corte imperial (Cheng, 2006, pp. 104-105). No mesmo contexto, o caráter 館 (guǎn) equivale a Guǎngé, por isso o equivalente 館中 (guǎnzhōng) diz respeito ao próprio Guǎngé ou a tudo o que é do seu âmbito. No caso da segunda entrada, Colegial do rol dos mandarins, refere-se especificamente o mandarim com cargo no Guǎngé, pois no equivalente 館中人 (guǎnzhōngrén), 人equivale a pessoa, assim, este termo indica as pessoas que aí trabalhavam ou permaneciam.
2.4. Filha de Mandarin (20, fl. 196) / (Figura 4)
Filha
女※小o嫒※令o子※女o児女o女
niù siaò . ngái liḿ . çú niù . lhˆ niù . niù
Filha do Rey, ou gr.de
姐※小 o 主縣 o 主郡 o 主※公
çiè siaò . chù hiuên . chù kiuń . chù cum̄
Filha de Mandarin Filha de cap.m geral Filha de regulos Filha do Reẏ3
O lema Filha do Rey, ou grande inclui naturalmente como um dos equivalentes chineses, na época, 小姐 (siaò çiè na romanização antiga), com o sentido literal de Filha de Mandarin, como se anotou no manuscrito. O equivalente小姐 (xiǎo jiě) sofreu evolução semântica. O termo surge nos documentos do início da dinastia Song (960-1279); embora não se registe para referir as meninas fidalgas, era utilizado para designar as meninas da classe social baixa; por exemplo, assim se chamavam as concubinas, as criadas e as donzelas que ganhavam a vida e sustentavam a família a cantar e dançar, ou mesmo prostituir-se. Em finais da dinastia Song e inícios da dinastia Yuan, o termo小姐 (xiǎo jiě) dignificou-se, passando a usar-se como forma de tratamento para expressar respeito às filhas jovens das famílias dos mandarins e dos ricos, até se casarem. Durante as dinastias Yuan e Ming, este tratamento foi ainda mais utilizado do que na anterior, achando-se o sentido negativo do termo小姐 (xiǎo jiě) já em desuso. Até à dinastia Qing, manteve-se o uso de小姐 (xiǎo jiě) como forma de tratamento respeitoso das meninas de famílias ricas, e não só de mandarins (Lu, 2008, pp. 7-9). Contudo, na obra intitulada《陔余丛考》(Gāi yú cóng kǎo)(1990, p. 682), de Zhao Yi (dinastia Qing, 1727-1814), há uma referência concreta à utilização desse nome no âmbito do mandarinato a sul do país: 今南方缙绅家女多称小姐 ("Hoje em dia chama-se às filhas dos mandarins小姐no sul"). Atualmente, convivem os dois significados - termo de cortesia, 'senhorita, menina', e forma pejorativa, 'prostituta' (Lu, 2008, pp. 9-10).
2.5. Molher de Mandarim (24, fl. 246v) / (Figura 5)
O primeiro equivalente chinês do lema Molher de Mandarim, 命婦 (mìng fù), é um título para nobilitar as mulheres da família desses magistrados, uma graça concedida pela corte feudal. Quando um homem da família - marido, filho ou neto - conseguia entrar no quadro dos funcionários públicos ou subir de posição, a mulher, mãe e/ou avó ganhava a oportunidade de receber um título concedido pelo imperador. Trata-se do regime de 命婦 (mìng fù), em que as mulheres que recebiam os títulos também assim se chamavam (Chen et al., 2019, p. 252). Nas dinastias Ming e Qing, a categoria dos postos oficiais dividia-se em nove níveis, descendo do primeiro até ao nono; os mandarins ocupavam um posto superior ao da sétima categoria, e as mulheres tinham a oportunidade de ser reputadas como 命婦. Este título também se dividia em seis subtítulos: 夫人 (fū rén), para as mulheres dos mandarins da primeira e segunda categorias; 淑人 (shū rén), para as da terceira categoria; 恭人 (gōng rén), para as da quarta; 宜人 (yí rén), para as da quinta; 安人 (ān rén), para as da sexta, e 孺人 (rú rén), para as da sétima. Por esse motivo, antigamente, ser a mulher de um mandarim significava ao mesmo tempo ser uma coadjuvante do marido no caminho da fama e da conquista de um cargo superior (Chen, 2006, p. 158).
O segundo equivalente 夫人 (fū rén), além de se utilizar para indicar fidalga da 1ª ou 2ª ordem (Gonçalves, 1833, p. 175), tem-se generalizado como uma forma de tratamento de cortesia para referir as mulheres casadas, independentemente da profissão do marido (Luo, 1988, p. 1455).
Quanto ao equivalente 奶奶 (nǎi nai), com que geralmente os chineses identificam e tratam a “avó paterna”, era antigamente uma forma de cortesia para indicar ou tratar as mulheres casadas (Luo, 1989, p. 418). Na obra O Sonho do pavilhão vermelho (Cao, 2015, p. 28), que descreve cenas da família de um mandarim, chama-se 奶奶 (nǎi nai) 4 à protagonista Wang Xifeng, mulher do Jia Lian, um mandarim da quinta categoria, apesar de o seu posto ter sido comprado.
2.6. Id'. [Morrer] Pŭ Lŏ, se dis dos Mandarins chamados - súy-de. Tá fū (25, fl. 247v) / (Figura 6)
Morrer
世※去o世下o世※辞o世※謝o世即o逝※o死※
xý kͨiú . xý hiá . xý çͨû . xý sié . xý çiĕ . ký . sù
Id. Pum̄ - se dis do Rey.
Hum̄ se dis de -chū cheû
o薨o崩o目瞑o亡o沒o故o世※棄o故※身
hum̄ . pum̄ . mŏ̇ mîm . vam̂ . mŏ̇ . kú . xý kͨý . kú xin̄
Id'. çŏ - se dis de -Tá fū -
Pŭ Lŏ, se dis dos Mandarins chamados - súy-de. Tá fū
夫大o士o夫※大o侯※諸o子天o禄不o卒
fū tá . sú . fū tá . heû chū . çù tͨien̄ . lŏ pŭ . çŏ
Id
候※諸o子※天o天𡚖 o子天o賔上o子※天o天賔
heû chū . çù tͨien̄ . tͨien̄ queȳ . çù tͨien̄ . pin̄ xaḿ . çù tͨien̄ . tͨien̄ pin̄
Id
了尽※数寿o了𣼛※数寿o子天o落狙o駕宴
leaò çͨiń sú xeú . leaò muoǹ sú xeù . çù tͨien̄ . lŏ çͨû . kiā yeń
Id
梦大※帰已o氣※絶o氣※断o終※命生o了※終
muḿ tá . quēy ỳ . kͨý çͨiuĕ . kͨý + tuoń . chum̄ miḿ sem̄ . leaò chum̄
Id
絶※将氣o尽※将氣
çͨiuĕ çiam̄ kͨý . çiń çͨiam̄ kͨý
Neste verbete registam-se várias formas de mencionar a morte na língua chinesa, a maioria delas eufemísticas. De facto, o que tem a ver com o falecimento é considerado, desde os tempos mais longínquos, um tema ominoso tanto em Portugal como na China. O temor da morte resulta numa interdição verbal. Sendo inevitável falar dela, consideramos melhor, muitas vezes, substituí-la por uma expressão suavizada (Wang, 2015, p. 26) - embora o contrário também suceda, desagravando-se a funesta ocorrência com expressões disfemísticas.
Nas primeiras duas linhas encontram-se seis desses eufemismos chineses: 去世 (qù shì), 下世 (xià shì), 辞世 (cí shì), 谢世 (xiè shì), 即世 (jí shì) e 弃世 (qì shì). No século seguinte, Gonçalves explica 辞世 (cí shì) e 弃世 (qì shì) como Falecer, Deixar do mundo (Gonçalves, 1833, p. 5). O equivalente 即世 (jí shì) 5 também é uma forma para se referir morrer (Luo, 1988, p. 530). Joaquim Gonçalves (1833) traduz da seguinte forma os carateres弃 (qì), Deixar, Renunciar (409); 去 (qù), Ir, Tirar fora (184); 谢 (xiè), Retirar-se (814) e 辞 (cí), Rejeitar (504). Estes, combinados com um mesmo caráter chinês, 世 (shì), que significa Mundo (Gonçalves, 1833, p. 5), oferecem uma expressão suavizada de Morrer. É esta a origem das expressões eufemísticas de morrer compostas pelo caráter 世 (shì), Mundo. Nelas se pode observar a crença na vida depois da morte e o culto do espírito na China antiga, acreditando-se que morrer é o fim do corpo físico, mas que os espíritos dos falecidos deixam a terra dos vivos e vão para o outro mundo após a morte (Li, 2010, p. 104). O caráter chinês下 (xià), Abaixo (Gonçalves, 1833, p. 2), juntamente com o caráter 世 (shì), formam o lexema 下世 (xià shì), “abaixo do mundo”, relacionado com os costumes fúnebres do povo Han, a principal etnia da China, introduzindo o defunto dentro do caixão e o caixão debaixo da terra (Li, 2010, p. 95). Esta forma de enterro debaixo da terra,下世 (xià shì), é também uma designação eufemística de morrer.
Além de revelar a ideologia e os costumes fúnebres da China, o uso dos vocábulos sobre a morte também denuncia as diferentes posições sociais. Na antiga China, não eram apenas as formas de tratamento a diferenciar as pessoas das várias classes, mas também muitas outras palavras, quando se relacionavam com elas; até mesmo o vocábulo usado para referir a morte variava de acordo com a posição social do falecido. A morte dos imperadores designava-se崩 (bēng), literalmente cahir a monte, (Gonçalves, 1833, p. 296). O significado de morrer o imperador podia-se compreender a partir de três perspetivas. Em primeiro lugar, destaca-se a posição social do imperador; na época monárquica, era considerado a autoridade suprema dum país, ficando acima de tudo, pelo que se assemelhava a um monte, sempre acima do chão, por isso a sua morte era como o colapso de uma montanha. A seguir, destaca-se a dignidade de imperador; normalmente, os montes são altos e grandes, pelo que os imperadores partilhavam as suas caraterísticas. Em contrapartida, usava-se薨 (hōng) para referir a morte dos príncipes, 卒 (zú) para a morte de funcionários e不禄 (bú lù) para a dos académicos ou oficiais; por fim, a morte do povo vulgar era simplesmente 死 (sǐ), o morrer literal, sem nada de eufemístico (Wang, 2015, p. 29).
Entre todos estes verbetes para indicar sinónimos de morrer não podia deixar de figurar um específico para mandarins: “Id'. çŏ - se dis de -Tá fū - Pŭ Lŏ, se dis dos Mandarins chamados - súy-de. Tá fū”, ou seja, aquele que acima referimos para indicar o falecimento de funcionários,不禄 (bú lù).
2.7. Orelhas de Mandarins (26, fl. 259v) / (Figura 7)
Surgem no dicionário, a este respeito, os lexemas 紗㡌 (shā mào), Chapéu de gaze e 官㡌 (guān mào), Chapéu dos mandarins.
Antigamente, os mandarins cobriam a cabeça com um barrete específico, conhecido como chapéu de gaze preta, em chinês 乌纱帽 (wū shā mào), quer para seguir a moda, antes da dinastia Ming, quer para obedecer às ordens do imperador, depois desta dinastia (Zhang, 1974, p. 1637). Apresentam-se adiante pinturas desta peça da dinastia Song (Figura 8 e Figura 9) e da dinastia Ming (Figura 10, Figura 11 e Figura 12). Até à data, na cultura popular da China, o chapéu de gaze preta ainda se refere como símbolo da qualidade de oficial público (Niu & Zhang, 2021, p. 52). Na dinastia Song (960-1279), apesar de o chapéu de gaze preta não fazer parte do vestuário formal dos mandarins, todos apreciavam esta peça, desde o imperador até ao povo. Em comparação com o formato de chapéus anteriores, os dos mandarins possuíam duas asas finas e compridas de ambos os lados, conhecidas como趐 (chì), asinhas. Esta mudança terá sido proposta pelo primeiro imperador da dinastia Song, 赵匡胤 (zhào kuāng yìn), para impedir os mandarins de segredarem entre si nas reuniões habituais na corte (Niu & Zhang, 2021, p. 46).
Em Gonçalves o caráter chinês趐 (chì) equivale a Asas (1833, p. 675), e 帽 (mào) significa Barrete, Chapeo (1833, p. 287); neste último verbete apresenta-se também a combinação chinesa 乌纱帽, barretinho de seda.
Joaquim Gonçalves inclui no seu dicionário os lemas chineses 纱 (shā), caça, seda (1833, p. 702) e官 (guān), empregado (1833, p. 159). As suas explicações permitem-nos interpretar o lexema 纱帽趐 (shā mào chì) como 'asas de barrete', 'chapéu de seda, cassa ou gaze', e o lexema 官㡌趐 (guān mào chì) como 'asas de barrete ou chapéu do empregado'; segundo Xia e Chen (2009, p. 1954), o 纱帽 (shā mào) também se chamava 乌纱帽 (wū shā mào) e era sempre utilizado pelos monarcas, fidalgos e oficiais, sendo um símbolo dos oficiais. Na História da dinastia Ming (Zhang, 1974, p. 1637), refere-se que o barrete de gaze era uma parte indispensável do vestuário dos oficiais, tanto académicos como militares, nas ocasiões formais na corte. Nos equivalentes chineses, a expressão metafórica Orelhas de Mandarins não se refere, pois, aos órgãos acústicos dos mesmos, mas sim às asas do chapéu que os distinguia.
2.8. Passo6 do Mandarim (27, fl. 262v) / (Figura 13)
Passo do Rey
陛※殿o宫※皇o宇宫o殿※宫o庭※朝o朝
pí tień . cum̄ hoam̂ . yù cum̄ . tień cum̄ . tͨim̂ châo chaô
Id
廊※廟
lam̂ miaó
Passo do mandarim
舘※公o門※公o府公o衙※官o門※衙o衙
quoǹ cum̄ . muên cum̄ . fù cum̄ . yâ quon̄ . mûen yâ . yâ
Id
第府o府
tí fù . fù
Paço de barro ou pao
盤o盆※瓦o盆
puͨôn . puͨen̂ uà . puͨen̂
O manuscrito da Biblioteca Nacional inclui, para o lema Passo do mandarim, os seguintes equivalentes em chinês: 衙, 衙門, 官衙, 公府, 公門, 公舘, 府, 府第. Os três primeiros contam com o caráter 衙 (yá). Segundo Gonçalves (1833, p. 226), o termo 衙門 (yá mén) e o caráter 衙 (yá) correspondem a pálacio do magistrado, paço. No dicionário de Luo Zhufeng (1989 pp. 1047-1048), 衙 é um nome antigo das instituições oficiais7, e o termo 衙門 indica os lugares onde trabalhavam os oficiais8; a forma 官衙era um nome genérico para os órgãos do governo9 (Luo, 1989, p. 1393).
No Grande dicionário da língua chinesa encontram-se os três termos seguintes: 公府 (ɡōnɡ fǔ), 公門 (ɡōnɡ mén) e 公舘 (ɡōnɡ guǎn) (Luo, 1988, pp. 65-66, 78). O primeiro, 公府, também se utilizava para indicar as instituições oficiais. Este termo ter-se-á utilizado mais cedo do que o sinónimo公衙 (ɡōnɡ yá), segundo um registo de Feng Yan, mandarim da dinastia Tang. Este refere ainda que o uso do caráter 衙 (yá) para mencionar o 'lugar onde trabalhavam os oficiais' decorria de um engano10, devido ao qual公府 (ɡōnɡ fǔ) tinha sido substituído por 公衙 (ɡōnɡ yá).
No romance de Pu Songling existe uma conversa na qual se afirma que 公門 (ɡōnɡ mén) era o lugar onde os mandarins resolviam os crimes11, sendo, pois, sinónimo do termo 衙門 (yá mén).
Quanto ao termo公舘, em Gonçalves (1833, p. 996) correspondia a Hospedaria dos empregados. Existem três aceções para este termo no dicionário de Luo, a primeira indicando 'palácio', quer para viver quer para diversão dos nobres; a segunda, 'casa dos oficiais, hospedaria construída pelo governo', e a terceira, 'mansão de ricos e poderosos'. Não se inclui uma explicação ou exemplo que digam respeito ao lugar de trabalho dos mandarins.
2.9. Pagem de mandarim (28, fl. 263v) / (Figura 14)
Pagem de mandarim / aduirta q' o mûen çù signif[ica] in malam partem
官門o子※門
quōn mûen . çù muên
Pagem de gente grave
人随※親o人的右左o者侍※右左
gin̂ sûi çͨin̄ . gin̂ tiĕ yeú çò . chè xí yeú çò
No dicionário manuscrito apresentam-se verbetes distintos para os lemas Pagem de Mandarim, 門子 (mén zi) e 門官 (mén ɡuān), e Pagem de gente grave. Todavia, anotou-se junto ao primeiro lema que mûen çù tinha valor pejorativo (a expressão latina in malam partem significa 'para o mal', podendo mesmo indicar significado obsceno).
Segundo regista Yuan Mei, a figura do 門子 (mén zi), termo apresentado como equivalente do português Pagem de mandarim, correspondia, na dinastia Qing, ao empregado que servia o chá e cuidava da roupa, entre outras tarefas menores, numa instituição governamental, uma espécie de assistente ou faz-tudo (Yuan, 1993, p. 299). 12 Zhao Yi (1990, p. 1114) faz uma referência mais detalhada a esta designação, indicando que 門子, na dinastia Qing, eram os criados que trabalhavam nas repartições do governo, tendo como tarefa servir o chá e cuidar da roupa dos governantes principais. 13
Yuan Mei e Zhao Yi, literatos da dinastia Qing, referiram-se à figura do 門子na sua época, contudo, esta tem variado muito com o decorrer do tempo; nas épocas de Zhou (1046 a.C-256 a.C) e Chunqiu (período da Primavera e Outono, 770 a.C-476 a.C), o termo 門子 era utilizado para referir o filho de um oficial, mas este devia ser gerado pela consorte do mesmo, não pelas concubinas; na dinastia Tang (618-907), 門子passou a indicar o 'porteiro' (Luo, 1993, p. 3), numa relação direta com o caráter 門 (mén), porta, entrada (Gonçalves, 1833, p. 912).
Quanto ao lexema門官 (mén ɡuān), apesar de ser um sinónimo do termo 門子, a combinação com o caráter 官 (ɡuān), empregado (Gonçalves, 1833, p. 159), forma literalmente o sentido de Empregado da porta, o cargo do mandarim que se responsabilizava pela abertura e fecho das portas, sendo a entrada e saída de pessoal por ele controladas (Luo, 1993, p. 8).
Na peça de ópera de Pequim intitulada Batendo no Yan Song, uma história ocorrida na dinastia Ming, mas cuja estreia ocorreu em 1879, no fim da dinastia Qing, a figura do 門官 (mén ɡuān) era mais parecida com a de pajem de mandarim. Yan Song era um mandarim traidor; um門官 (mén ɡuān) de sua casa chamado Yan Xia era um criado que insultava e humilhava os outros, aproveitando o poder do seu dono. Segundo uma análise de Shu Tong (2008, p. 84), na peça, Yan Xia não só recebia os visitantes na porta de casa de Yan Song como também o acompanhava a recebê-los na sala, seguindo ainda o seu dono ao palácio imperial. Por isso não era apenas porteiro, mas também o pajem, que acompanhava o dono.
Esse mau comportamento de alguns pagens, espelhado nas obras literárias, poderia explicar a visão negativa dos mesmos no século XVIII, ainda que o termo menzi não refira diretamente uma pessoa que pratica atos desonestos. Existe mesmo um provérbio a esse respeito: 宰相家人七品官 (zǎixiànɡ jiārén qīpǐnɡuān), em sentido literal, “os criados de ministros são mandarins de sétimo nível”, ou seja, os pajens ou criados de funcionários de alto nível aproveitam-se do poder destes como se eles mesmos fossem também mandarins (Wang, 1991, p. 378).
2.10. Selo <dis q' se usa p.ª os mandarins> (30, fl. 317) / (Figura 15)
Selo <dis q' se usa p.ª os mandarins>
書※圖o篆o府※官印o壐玉o壐
xū tͨû . chueǹ . fù quon̄ iń . sỳ yŏ . sỳ
Este lema, a que foi acrescentada posteriormente informação de uso restrita aos mandarins, apresenta cinco equivalentes em chinês, incluindo os dois primeiros o caráter 璽 (xǐ); segundo Feng Shi (2016, p. 683), a utilização deste selo, 璽 (xǐ), é anterior à dinastia Qin (221 a.C-207 a.C), servindo principalmente para selar cartas ou objetos, carimbar produtos de terracota e funcionar em geral como garantia de autenticidade. Xi Wenqian (2023, p. 637) explica que 璽 (xǐ) podia ser uma marca identificadora dos oficiais ou responsáveis, desempenhando também o papel do atual passaporte.
Antes de Qin Shi Huang, fundador da dinastia Qin e o primeiro imperador da China unificada, ter unificado os sete reinos, 璽 (xǐ) era a forma universal para referir um selo em sete reinos; ao mesmo tempo, o selo também se chamava 印 (yín) no reino Qin, não existindo qualquer diferença no uso das duas designações. O caráter 璽 (xǐ) também era sinónimo de 璽印 (xǐ yín) nessa época (Feng, 2016, p. 683; Xi, 2023, p. 636). Classificando-se os selos de acordo com o seu uso e finalidade, existiam os de uso pessoal, em chinês 私印 (sī yín), e os de uso oficial, 官印 (guān yín). Depois da subida ao trono de Qin Shi Huang, para reforçar a centralização e consolidar o poder, este impôs uma série de mudanças regimentais para se distinguir do povo; por exemplo, nas formas de tratamento dos selos de uso oficial, o caráter 璽 (xǐ) passou a referir exclusivamente o selo do imperador, tendo-se passado a chamar 印 (yín) aos selos de outrem. No período seguinte, a dinastia Han (202 a.C-220 a.C), seguiram-se estas regras de nomeação, mas alargou-se o uso de 璽 (xǐ) aos selos da imperatriz e dos senhores feudais (Xi, 2023, p. 636).
O termo 玉璽 (yù xǐ) significa literalmente selo de jade; segundo Lou (2015, p. 10), nas dinastias Qin e Han os selos dos imperadores eram feitos deste mineral. Gonçalves (1831, p. 752) também traduz o lexema 玉璽 (yù xǐ) como 'sêllo do imperio'.
O equivalente 印官府 (yín guān fǔ) presente no manuscrito suscita dúvida, por não ser comum a palavra composta por estes três carateres, nem se encontrar a mesma combinatória nas obras de referência. Além disso, não existe no manuscrito uma divisão clara entre os três carateres, podendo ser os dois primeiros juntos, 印官 (yín guān), uma palavra chinesa com significado completo, e mais um caráter isolado 府 (fǔ), ou então o caráter isolado 印 (yín), e os dois seguintes juntos, formando a palavra 官府 (guānfǔ).
Tratando-se do primeiro caso, segundo Wei (2013, p. 47), nas dinastias Ming e Qing eram os administradores efetivos, que eram recrutados pelo governo central e trabalhavam nos governos locais, que tinham o privilégio de utilizar selo quadrado no trabalho. Por esse motivo, aos administradores efetivos dos governos locais chamava-se 正印官 (zhènɡyínguān), oficiais com selo quadrado, ou simplesmente 印官 (yínguān), oficiais com selo, enquanto os empregados eventuais contratados pelas autoridades locais utilizavam selos retangulares (Wei, 2013, p. 48). Quanto ao caráter 府 (fǔ), que significa 'cidade', figura em Gonçalves (1833, p. 168) como equivalente de Palácio da 4ª ordem para cima. Quando se combinam os dois lexemas temos em português Palácio de oficiais com selo.
Se se tratar do segundo caso, 印 (yìn) 官府 (ɡuānfǔ), a parte final desta combinatória é a palavra chinesa 官府 (ɡuānfǔ), cujo equivalente português é Empregado (Gonçalves, 1833, p. 168). Este sinólogo indica ainda que 印 (yìn) significa sello (Gonçalves, 1833, p. 70). Os dois lexemas formam a expressão selo de empregado; na língua chinesa seria mais normal dizer-se官府印 (ɡuānfǔ yìn), não a combinação escrita no manuscrito, 印官府 (yìn ɡuānfǔ). Na dinastia Tang, para se identificarem, os oficiais preferiam levar consigo um acessório em forma de peixe em vez de um selo regular. Assim, os selos de empregados acabaram por cair em desuso, sendo substituídos pelo símbolo metálico da instituição em que trabalham os oficiais, a que se chamava官府印 (ɡuān fǔ yìn) (Wang, 2006, p. 2).
Joaquim Gonçalves (1831, s.v. letra) refere que o caráter 篆 (zhuàn) significa letra do sello (Gonçalves, 1833, p. 687). Essa letra zhuàn é um estilo antigo de caligrafia chinesa, utilizado universalmente para a escrita nos selos e objetos de culto em bronze desde a dinastia Qin (Zhang, 2002, p. 852). Por causa da estrutura quadrada e dos traços direitos, esse estilo é o preferido na escrita de selos, igualmente quadrados, razão pela qual se tem aproveitado o nome do estilo de caligrafia para indicar o selo.
Gonçalves (1831) inclui no verbete de sêllo a seguinte nota: o sello naõ consta senaõ do nome dos officiaes em letra antiga. Daqui se deduz que se usava a letra zhuàn para gravar nos selos dos mandarins, e por esse motivo se chamava ao selo de mandarim篆 (zhuàn) (Luo, 1991, p. 1219).
O equivalente 圖書 (túshū) representa o 'selo de uso privado', como referido nos verbetes dos lemas gerais Cunhos, sinete e Dar hum sello (vejam-se os pontos 3.3 e 3.4).
3. Equivalentes chineses relativos ao mandarim num verbete geral
3.1. Abano, com o equivalente掌扇 (zhǎngshàn), q[ue] levão os Mandarins p[ar]a se cobrir do sol (1, fl. 1v) / (Figura 16)
Abano
墜※扇 o 骨※扇 o 面※扇 o 扇※摺 o 扇※掌o扇※
chuí xeń . cŏ xeń . míen xeń . xeń chĕ . xeń cham̀ . xeń
o cheiro delle . os bambus. o papel . fecharlo . q̄ levão os Mandarins p.ª se cobrir do sol
O caráter 扇 (shàn) corresponde ao nome genérico do leque ou abano em chinês, como indica Joaquim Gonçalves no Diccionario china-portuguez (Gonçalves, 1833, p. 501). Na atualidade, os leques são objetos pequenos e leves que se levam na mão para produzir ar fresco, usados principalmente no verão. Entretanto, o presente verbete regista lexemas para vários tipos de abano ao longo da história chinesa, incluindo termos relacionados com a estrutura desse utensílio. No chinês, normalmente utiliza-se um caráter que indica o aspeto visual ou a função antes do nome genérico - 掌扇 (zhǎngshàn) é 'abano com a forma da palma da mão', 摺扇 (zhéshàn) é o 'leque que se fecha', o que corresponde ao que o famoso escritor da dinastia Qing Yuan Mei (1993, p. 143) explica sobre a distinção entre o zhǎngshàn e o zhéshàn: o primeiro é o 'abano com penas de faisão' e o segundo, 'aquele que se dobra ou fecha para se poder levar à cintura', pelo que também é designado como 腰扇 (yāoshàn), 'leque de cintura'. Por outro lado, para indicar as partes de um abano, coloca-se depois de扇 (shàn) o caráter específico: 扇面 (shànmiàn) é o rosto, a parte superior, feita de tecido ou papel; 扇骨 (shàngǔ) é a vareta ou armação, e 扇墜 (shànzhùi) é a decoração que se coloca na parte inferior do cabo.
Importa ainda aprofundar o conceito de 掌扇 (zhǎngshàn), que se relaciona com os mandarins e a corte imperial. Trata-se de um tipo de abano especial, de tamanho avantajado, podendo ser superior à altura de uma pessoa, que se segura e maneja através do seu cabo comprido, na parte inferior, e cuja parte superior é habitualmente feita de penas. Criado na dinastia Han, começou por ser utilizado para proteger os imperadores do sol e da poeira durante as cerimónias, ou quando o imperador se deslocava para algum sítio. Zhang Tingyu regista em História da dinastia Ming (1974, p. 1559) que, no fim das cerimónias, o imperador regressa ao seu palácio acompanhado de música, de chapéu de sol e de abanos zhǎngshàn, apontando que estes últimos protegem a sua face. Trata-se de um sinal do seu estatuto e dignidade. Geralmente, duas criadas colocavam-se atrás do imperador, cada uma delas segurando um destes abanos com as duas mãos. Os dois abanos deveriam formar um triângulo no ar por detrás do imperador, conforme se pode observar na pintura abaixo apresentada de Yan Liben, da dinastia Tang, que regista o encontro entre o Imperador Li Shimin e o representante de Tu Bo (Figura 17), nome da antiga etnia tibetana. Mais tarde, a prerrogativa do uso deste abano acabou por alargar-se também aos mandarins, e daí a referência específica ao abano que funcionários do império usavam para se protegerem do sol, como se indica na presente obra manuscrita. Yuan Mei (1993, p. 143) refere ainda que, na sua época, os mandarins ou pessoas com importância na sociedade passeavam na rua e levavam um abano grande para os proteger do sol, chamado zhǎngshàn, relacionando o objeto com o estatuto de quem o usava.
Aparentemente, de modo a situá-los na hierarquia, existiam decorações de abanos para diferentes cargos de mandarins. A corte imperial seria a responsável por impor certas regras, como surge documentado em Esboço da história da dinastia Qing: “No terceiro ano do Imperador Shunzhi, foi estabelecido que os mandarins que possuíam cargos na capital, de primeira categoria, seriam acompanhados de homens de cortesia transportando abanos decorados com uma folha de ouro de forma quadrada” (Zhao, 1977, p. 3097). 14
3.2. Abater, com equivalente 裁抑 (cáiyì), tirar de Mandarim (2, fl. 2) / (Figura 18)
Conforme se deixou explícito no manuscrito, o lema abater corresponde a vários equivalentes em chinês, com diferentes significados. No primeiro, 低他 (dītā), dī significa 'baixar, fazer cair', e tā, o pronome 'ele', ou seja, 'destituir, deitar algo ou alguém abaixo'. Quanto ao segundo e terceiro equivalentes, têm em comum o caráter 裁 (cái), que tem o sentido de 'cortar com tesoura ou faca', ou 'cortar o excesso'. Gonçalves (1833, p. 386) regista o significado desse caráter e do terceiro equivalente 裁剪 (cáijiǎn) como 'talhar'. No que concerne ao segundo equivalente, 裁抑 (cáiyì) é abater no sentido de 'oprimir, reduzir', podendo também referir-se à demissão ou despromoção de um cargo, ou à redução de poderes ou funções de um funcionário. Em Gonçalves (1831, s.v. abatêr, 1833, p. 1021) encontramos o mesmo significado com o caráter 黜 (chù), no sentido de 'abater, repelir'. Este termo era comum no ambiente da corte imperial, uma vez que o imperador tinha poder acima de todos e de tudo, sendo ele que nomeava todos os funcionários e decidia do seu destino. Na obra Esboço da história da dinastia Qing, o vocábulo cáiyì surge na seguinte frase: “O Imperador deve considerar diminuir os poderes desses mandarins, ou conceder-lhes cargos de folga, ou outorgar-lhes títulos sem poderes verdadeiros” (Zhao, 1977, p. 12205) 15, evidenciando essa faculdade imperial de retirar poderes a um mandarim como castigo, ou porque o próprio imperador desejava juntar mais poderes.
3.3. Cunhos s.e sinete, com equivalente印號, yń haó, de Mandarins (12, fl. 121v) / (Figura 19)
O lema cunhos é apresentado no dicionário como sinónimo de sinete - segundo Bluteau (1720), 'aquilo que se usa para selar as cartas', sendo cunho 'um pedaço de ferro, aberto ao buril, que se usa para marcar moedas ou outras peças de metal'. Entretanto, interessa acrescentar o termo selo como sinónimo, já que em Gonçalves (1831) tanto selo como sinete têm o lexema 圖書 (túshū) como equivalente (veja-se, acima, o lema relativo a sello). Bluteau (1720) define selo como:
…pedaço de metal, ovado ou redondo, com face chata, em que estão gravadas as Armas, ou a divisa de hum Rey, Principe, pessoa de marca, ou de hum Estado, Republica, Religião, com o qual se sellão Alvaràs; Provisoens, Patentes, & e outros papeis de importancia. (Bluteau, 1720)
Os três termos têm em comum a ideia de impressão de uma marca sobre algo.
Na China antiga, o caráter 印 (yìn) era normalmente relacionado com o mandarim ou a corte imperial e referia-se ao selo do mandarim (Luo, 1988, p. 512). Trata-se de um selo usado para identificação do mandarim e do seu cargo, necessário ao exercício das suas funções. Entretanto, no contexto imperial chinês, yìn pode referir também o cargo do mandarim que se encarregava do selo, o 印官 (yìnguān), oficiais com selo, que atrás se apresenta, no verbete selo. Quanto ao equivalente 印號 (yìnhào), representa o selo do mandarim e o cargo de mandarim (Luo, 1988, p. 512). Na obra histórica Registos dos três reinos16 este termo surge na seguinte frase: “Os ladrões das vilas Liang, Jia e Luhun receberam o selo do general Guanyu”. 17 Zhu Dechun (1991, p. 1928) explica que, nessa frase, 印 equivale a 官印 (guan yìn), 'selo do mandarim', e號 equivale a 封號 (fēnghào), 'título concedido pelo imperador'.
Por outro lado, 圖書 (túshū) era antigamente o selo de uso privado, enquanto 印 (yìn) 18 era o de uso oficial, segundo se indica na obra Yìn Wén Kǎo Lüè. O túshū, que também significa livro, era o selo que qualquer pessoa podia possuir para uso privado, por exemplo, aquele que um letrado usava para carimbar nas suas obras ou poesias, motivo pelo qual o selo foi adotando esta designação (Ju, 1756, p. 1). Na obra crítica da dinastia Qing, Rulin Waishi, surge a seguinte frase: “Queria pedir ao senhor para esculpir um selo”. 19 A pessoa que a pronunciou era um jovem estudante que foi a uma loja encomendar um túshū com o seu nome gravado, e que pretendia usar tal selo para carimbar numa poesia. Já o yìn é o selo atribuído na corte imperial a cada funcionário, nele se achando gravados os dados relativos ao seu possuidor. Xu Shen20 afirma que o yìn é uma prova de identificação das pessoas do poder, autoridades e oficiais, uma função muito parecida com a do cartão de cidadão ou de trabalhador atual. Portanto, podemos concluir que tanto 印號 como印 representam o selo usado pelos mandarins.
Tal como referimos no ponto 2.10, referente ao lema selo, este tem na China uma história com mais de mil anos, remontando às dinastias anteriores à Qin (2100-221 a.C). Existia um sistema para o uso oficial dos selos com caraterísticas próprias em cada dinastia, desde a elaboração dos mesmos, de acordo com a hierarquia dos oficiais, ao material, à forma de o levar na roupa e às regras e costumes de uso. Os selos eram utilizados por toda a hierarquia, desde o imperador até aos mandarins. Na dinastia Qing, os selos do imperador, da imperatriz e dos reis eram designados por 璽 (xǐ) ou 寶 (bǎo), os dos nobres, dos ministros e dos generais eram denominados 章 (zhāng) e os dos mandarins eram conhecidos como 印 (yìn). Wang Tingqia (2006, p. 3) explica que os selos particulares dos mandarins eram usados tanto para comprovar o nível hierárquico do seu proprietário como para apresentar os seus conselhos e propostas ao imperador ou a um mandarim superior, entre outras funções. Quanto ao equivalente 印記 (yìnjì), refere-se ao selo de uso oficial (Luo, 1988, p. 516). Nas dinastias Sui e Tang, os selos dos mandarins, em vez de印, eram denominados 記 (jì) ou 印記 (yìnjì) (Wang, 2006, p. 123). Em História da dinastia Song, utiliza-se este último termo num episódio da dinastia Song que deixa evidente a relação entre o yìnjì e o mandarim: “Na Casa da Renda da capital, apareceram muitos selos falsificados, impressos no comprovativo para renda, e com isso muitos bens foram levados”. 21
Para autenticar documentos, era preciso carimbá-los devidamente com o selo do mandarim.
3.4. Dar hu' sello, com equivalente打印 tà yń ([selo] de Mandarim) (15, fl. 126v) / (Figura 20)
Dar hu' sello
印用o信※印用o書圖印 o 書圖打 o 印※打
yń yuḿ . siń yń yuḿ . xū tͨû yń . xū tͨû tà . yń tà
de homem ordinario . de Mandarim
Tal como referido no verbete anterior, 印 (yìn) representa o selo dos mandarins, que é de uso oficial, e 圖書 (túshū) o selo de uso privado. Desta vez surge mais uma alternativa, 印信 (yìnxìn), que Gonçalves (1831, p. 752) regista inicialmente com o significado de selo de empregado, e mais tarde como selo particular (Gonçalves, 1833, p. 70). Esta designação é, pois, mais genérica, podendo ser usada para referir o selo de uso privado ou o de uso oficial, nos órgãos governamentais (Luo, 1988, p. 516). Entretanto, tendo em conta que o verbete menciona o ato de selar, os equivalentes chineses incluem carateres indicativos do mesmo: o caráter 打 (dǎ), que equivale a bater ou usar força sobre alguma coisa, o caráter 用 (yòng), que significa usar, e o próprio caráter 印 (yìn), indicando o ato de selar. Os lexemas 打印 (dǎyìn) e 打圖書 (dǎtúshū) que transmitem este ato também surgem registados em Gonçalves (1831, p. 752) como equivalentes do termo selar.
4. Conclusão
O códice 3306 da Biblioteca Nacional de Portugal, um dicionário de português-chinês anónimo, do século XVIII, oferece um amplo leque de lemas específicos com respeito à figura do mandarim e ainda alguns equivalentes chineses que se reportam a esta palavra portuguesa, a qual surge registada sob os carateres chineses para identificação do seu significado etimológico ou distinção semântica relativamente a outros equivalentes. Ao longo da edição semidiplomática do mesmo, tornou-se evidente o valor da obra, inédita, no tocante ao aprofundamento das aceções desse termo, ao tipo de equivalentes propostos para cada um dos lexemas relativos à sua natureza e identidade, cargo, estudos e aspirações, carreira, vestuário, adereços que o distinguem, seus familiares, regalias, instalações, atividades, atitudes, responsabilidades e contingências profissionais, instrumentos de trabalho, subordinados, etc. Estes elementos lexicográficos, apesar de sucintos por natureza, revelaram-se extremamente informativos no tocante a diversas vertentes da história, da cultura, das mentalidades, da sociedade e do quotidiano chinês anteriores ao século XIX.
A extração sistemática de todo esse conteúdo bilingue (lemas, explicações/significados e equivalentes), apresentado em edição semidiplomática e acompanhado de um estudo prévio, tendo excedido o dobro do tamanho máximo de um artigo, exigiu a separação desse material em duas partes, sendo esta a segunda, na sequência do artigo intitulado “A figura do mandarim num dicionário manuscrito de português-chinês do século XVIII”, já no prelo.
Cada um desses lemas e equivalentes tem tanta informação a oferecer como dúvidas e problemas a suscitar, exigindo a continuidade da investigação no âmbito linguístico diacrónico, histórico e sociocultural, tanto do chinês como do português.
Disponibilizada a edição integral desses verbetes, acompanhada pelas imagens do manuscrito, acreditamos que este estudo prévio possa promover o diálogo académico e investigação mais aprofundada da parte de especialistas das diversas áreas e períodos em estudo. Uma pesquisa bibliográfica mais alargada, partindo da comparação com outras obras da história do ensino-aprendizagem das línguas chinesa e portuguesa e da lexicografia bilingue, manuscritas e impressas entre os séculos XVI e XIX, trará certamente mais luz sobre algumas destas questões, aqui meramente esboçadas.
Como trabalho futuro, interessará ainda reunir, a partir da edição completa do manuscrito, já efetuada, todo o léxico chinês relativo ao mandarim que não foi identificado no dicionário pelo uso deste termo português.


































