1. Introdução
Manuel María foi um autor com grande ânsia por conhecer países e culturas diferentes, sempre a começar pela sua própria nação e por todas as suas manifestações culturais. Mas para ele Portugal era um prolongamento do seu país e, portanto, viajar além Minho tornou-se uma outra maneira de continuar andando a terra. Dois dos seus poemas têm o mesmo título de “Portugal”; o primeiro, incluído em Remol, obra escrita, segundo ele próprio diz na inicial “Nota do autor”, entre 1963 e 1968, surge significativamente depois do intitulado “Galiza” e está dedicado à sua amiga Maria Alexandrina Santos Teixeira (María, 1970, pp. 3940); pouco depois viria a ser incluído no volume 99 poemas de Manuel Maria (1950-1970), editado no Porto por Arsénio Mota (María, 1972a). O outro poema, que também se intitula “Portugal”, apareceu publicado em 1982 na revista Nordés e logo foi incluído no livro O camiño é unha nostalxa (María, 1985, p. 29); no “Limiar” desta obra, Vázquez Cuesta ressalta que nela são três os poemas dedicados a Portugal, “a terra á que sempre volta, ou millor dito a terra donde nunca sai Manuel Maria” (María, 1985, p. 15).
Com efeito, neste poemário de viagens figuram essas três composições, ocupando uma posição que não se deve considerar nada aleatória: o primeiro poema, “Sei dun país...”, trata sobre a Galiza como pátria do poeta; o segundo, “A miña tribu”, está dedicado à Terra Chá onde nasceu; o terceiro, “O Bierzo”, reivindica as “raigañas” galegas deste território; e o quarto poema do livro já é "Portugal", dedicado a Francisco José Veloso, o seu grande amigo portugalego. A seguir, como quinta composição do poemário, temos “Lisboa”, que “non é unha cidade: é a cidade”, e na sexta posição “O Porto”, esse “recendo nostálxico dun viño”. Depois seguem-se outros poemas cuja ordem também não é casual: “Euzkadi”, “Hasparren”, “O Norde”, “Cataluña”, “Italia”, “Bretaña”, “Rennes”, “Calvario da Bretaña”, etc. Isto é, após a Galiza, Portugal, e de seguida as nações basca, catalã e bretã, irmãs na luta pela existência em dignidade. Aqueles dois poemas com o nome da nação vizinha como título justificam bem a afirmação de Manuel María ser um poeta amante de Portugal. Mas já talvez antes de escrever o primeiro tinha publicado em Mar maior (María, 1963) a composição "Carta a Don Enrique o navegante", encabeçada com a citação de um verso de Miguel Torga. 1
Como se pode ver, no início da década de 60, Manuel María já tinha no seu horizonte poético Portugal, a sua história, as suas personagens ilustres e a vinculação com a Galiza. Também o terá posteriormente no horizonte jornalístico, vital e cultural, como se patenteia nos artigos que publicou em A Nosa Terra no período 1977-1987 e em El Correo Gallego nos anos posteriores, até pouco antes do seu passamento, vários reunidos em coletânea. Assim, no semanário nacionalista escreve, por exemplo, sobre “O viaxe a S. Martinho de Antas e os ‘Poemas ibéricos’, de Torga” (Hortas Vilanova, 1990, pp. 73-74), “Romeria en Amarante” (Hortas Vilanova, 1990, pp. 95-96), “Noticia de ‘4 Ventos'’, revista lusiada” (Hortas Vilanova, 1990, pp. 147-148), “Noticia de Gualter Povoas” (Hortas Vilanova, 1990, pp. 151-152) ou “Consideracións sobre a literatura galaico-portuguesa e o Camiño de Santiago” (María, 2015, pp. 88-96). E no jornal compostelano “Un embaixador de Galiza en Portugal” (María, 1996, pp. 16-18), em que trata sobre o seu amigo e correspondente destacado José Viale Moutinho, ou “A casa da poesía” (María, 1996, pp. 71-72), em que dá o seu apoio ao projeto da Universidade de Coimbra de criar uma Casa da Poesia.
Além do mais, desde os anos 60 até ao final dos seus dias fez contínuas viagens por Portugal e participou em inúmeros eventos culturais (palestras, cursos, congressos, recitais poéticos, etc.), nomeadamente em cidades e vilas do norte do país.
2. Correspondência do poeta galego com intelectuais e escritores portugueses
Manuel María manteve relação epistolar com personalidades de diferentes procedências, mas destaca-se de modo singular a que estabeleceu com intelectuais portugueses, quase todos escritores e escritoras. O volume da correspondência existente a respeito na documentação custodiada nos arquivos da sua Casa-Museu em Outeiro de Rei deixa bem clara a sua relevância, muito superior a qualquer outra. Estão catalogadas mais de 600 cartas que o poeta recebeu com carimbo de Portugal, a maioria procedente de personalidades da cultura lusitana e algumas de entidades e instituições pertencentes também a este âmbito cultural. São cerca de 80 os correspondentes portugueses de que se conserva alguma carta dirigida a Manuel María. Entre eles há autores e autoras tão importantes como Miguel Torga, José Saramago, Hélia Correia, Wanda Ramos, Rodrigues Lapa, Ana Hatherly, Casimiro de Brito, Fátima Hasse, etc., mas deve ser destacada de modo especial a intensidade da relação epistolar com Francisco José Velozo (137 cartas), Maria Alexandrina Santos Teixeira (62), José Carlos González (58), Manuel de Oliveira Guerra (47), José dos Santos Marques (22), José Viale Moutinho (27), Arsénio Mota (22) ou Hugo Rocha (18). A maior parte destes pertence ao Norte de Portugal ou mantém vínculos familiares e/ou laborais com esta parte do país. Além das missivas procedentes de Portugal, estão as escritas por Manuel María aos seus correspondentes lusitanos, das quais só foi possível aceder, até ao momento, às dirigidas a Viale Moutinho, a Santos Simões, a António José Queirós, a Vergílio Alberto Vieira e a Maria Virgínia Guerra Monteiro, 47 no total. A primeira carta conservada na Casa-Museu do poeta é da autoria de Amândio César e está sem datar, embora seja de finais da década de 50. Trata sobre a publicação de textos de Manuel María na revista Quatro Ventos, de Braga, onde em 1954 já apareceram poemas seus e em 1957 deu a conhecer o “Auto do taberneiro”. 2 Salvo esta carta, todas as outras correspondem às quatro últimas décadas do século XX e aos primeiros tempos do seguinte. São, pois, 44 anos de frutífera relação epistolar.
A língua que domina nesse epistolário é, logicamente, o português, empregado pela totalidade das pessoas que se dirigem a Manuel María, com a exceção de Hugo Rocha, que lhe escreve em espanhol, idioma em que ocasionalmente se infiltram algumas palavras ou expressões de outros correspondentes como “concessão” a quem identificam com tal nacionalidade, embora não seja esta a vontade do autor, galego de nação e de sentimento, ou como explicação para tentar evitar confusões; é o caso, por exemplo, de polvos (pulpos) ou segunda-feira (lunes). A língua da Galiza é a utilizada sistematicamente por Manuel María e também por José Carlos González, nado em Lisboa de mãe e pai galegos, nas primeiras cartas que dirige ao poeta da Terra Chá, embora não tarde em passar ao português. Certamente, também há nas cartas procedentes de Portugal alguma pequena concessão ao galego, como o uso das formas bico ou aperta, provavelmente tiradas do interlocutor galego. De modo excecional, há uma carta em galego de José dos Santos Braga.
Em termos gerais o autor galego não muda no substancial o seu modelo linguístico ao responder às cartas que lhe chegam em português, para além de algumas concessões à modalidade lusitana (moito obrigado, gostar de, carro, comboio, brinquedo, casal, etc.), por vezes acompanhadas da expressão “como decides os portugueses”. O uso do português por parte dos correspondentes de Manuel María é conforme à tradição que já provém dos séculos precedentes, mas no caso das pessoas galegas foi habitual o uso do espanhol para se dirigirem por carta às portuguesas, dando conta de uma opção preferente pela utilização do galego entre as de adscrição ideológica galeguista a partir da eclosão do movimento nacionalista no primeiro terço do século XX (Freixeiro, 2017). Manuel María situa-se claramente neste grupo com a coerência e firmeza que nele são habituais, pois todas as cartas dirigidas a pessoas portuguesas que conhecemos estão no idioma próprio do seu país. O modelo de galego que o autor utiliza na sua correspondência, para além das concessões já aludidas, torna-se bastante coincidente com o que transparece nos diferentes géneros da escrita que cultivou. 3 Apesar de utilizar o galego mais ou menos convencional da altura, defende que este deveria ser escrito com a ortografia portuguesa que ele não pratica, como norma geral, por se julgar já velho para mudar os hábitos adquiridos, segundo afirma em Caño (1990, pp. 110-112), onde deixa bem claro o seu pensamento a respeito da relação entre galego e português. 4
De qualquer modo, a correspondência portuguesa de Manuel María confirma plenamente o seu grande amor pelo país que julga irmão, como atesta a citação: “Eu amo fondamente a Portugal. E no fondo e nos orixes galegos e portugueses somos a mesma xente” (carta a Santos Simões de 15-4-1971).
3. A lírica galego-portuguesa e a história medieval na obra de Manuel María
Na revista Quatro Ventos (n.º 4/6, 245) apareceram em 1954 os poemas do autor da Terra Chá “Cantiga da coita miña” e “Cantiga do romaxe de Santa Isabel” e no ano seguinte outros dois pertencentes à coletânea Poemas da cinza que foi anceio, “Cantiga da mañán” e “Cantiga do serán” (Gómez Torres, 2003, p. 173), e mais dois que logo fizeram parte do livro Escolma de poetas de Outeiro de Rei (Gómez Torres, 2003, p. 89); um deles levava o título de “Cantiga do abalamento”, que depois acabará por não figurar no livro, passando a ser citado pelo primeiro verso, “¡Que ledicia leva o vento!”, e é claramente um poema neotrovadoresco, mesmo com o refrão meu amigo!; o segundo, “Cantiga do rapaz novo”, também vai passar, com variantes, à Escolma... - “¡Non quero morrer de anguria!” - e conserva igualmente certo tom trovadoresco.
Nesse mesmo ano 1955 Manuel María publica, em edição não venal e numerada de 35 exemplares, o caderno Libro de cantigas, composto por 12 poemas e com uma pequena introdução em que o poeta se define como “o Xograr da Terra Chá” que “adeprendeu a arte da Xograría” de Pepe da Costa e de Manuel Paderna e que também “adeprendeu a ler aos poetas vellos e a alta e clara teoloxía do canto” de um “señor tío crego”. Termina definindo o caderno como “un ramiño de poemas ao xeito antergo das cancións de amor servil dos Cancioneiros galego-portugueses do medievo” (María, 2001a, p. 157). Todos estes poemas são neotrovadorescos, cinco deles cantigas de refrão, e por todos eles circulam as reminiscências léxicas - amigo, coita, belida, coitada, corpo delgado, trobador, segrel... -, a singeleza formal, o ritmo e a musicalidade das composições medievais. Noutro caderno de nove poemas, Versos florecidos en louvanza de Foz, de 1967, todo ele perpassado pelo perfume da lírica medieval, há três cantigas de refrão - “Cantiga á terra”, “Cantiga ao mar” e “Cantiga de cada día”- (María, 2001a, pp. 258-260), claramente neotrovadorescas.
Mas os ecos poéticos do Medievo estão em boa parte dos livros do poeta de Outeiro de Rei, incluindo o tão emblemático Terra cha, cuja primeira edição é de 1954; na secção “Romaxes”, toda ela de sabor trovadoresco, há poemas como “Cantiga de romaxe pra ir ó San Ramón de Vilalba”, “Cantiga da romaxe de Santa Isabel” e “Cantiga da romaxe da Santa María de Rábade”, todas três de refrão e feitas ao estilo das primitivas cantigas de romaria galego-portuguesas (María, 2001a, pp. 119-124). O livro Mar maior, de 1963, que tanto impressionou a poeta Maria Alexandrina Santos Teixeira, tem uma citação inicial de Mendinho: “... Non hei barqueiro nin remador; morrerei fremosa no mar maior...”; e inclui a composição “Carta a Don Enrique o Navegante” que termina ligando a história da Galiza e de Portugal através do trovador Paio Gómez Charinho (María, 2001a, pp. 246-248). No Informe pra axudar a alcender unha cerilla, de 1973, também não falta a evocação da lírica trovadoresca e do mundo medieval por meio do poeta Pero Meogo e do irmandinho Roi Xordo (María, 2001a, p. 514).
No entanto, é no livro Escolma de poetas de Outeiro de Rei (María, 1982a) onde mais diretamente transparece a lírica galego-portuguesa medieval, pois das 10 vozes poéticas que Manuel María (re)cria, as duas primeiras são de poetas que ele situa naquele período histórico: Xohán de Gaudioso (século XII, sete cantigas de refrão, as duas últimas dedicadas a Xohán de Requeixo e Fernando Esquio respetivamente) e Paio Xordo (século XIII, cinco cantigas de refrão, com citação de Nuno Fernández Mirapeixe na última). Exclui precisamente da “escolma” este trovador, o único que tem existência real, porque, segundo diz no “Limiar”, “a escolla presente se refire somentes a poetas nacidos no circundo da vila de Outeiro de Rei e non no seu termo municipal”, o que explica que “quede excluido Nuno Fernández de Mirapeixe, poeta do Cancioneiro da Vaticana”; acha Manuel María que “Mirapeixe naceu na veciña parroquia de Santa Mariña da Ponte de Rábade, anexa a Outeiro de Rei mais con pía bautismal propia” (María, 2001b, p. 61). Este poeta medieval é assunto central na correspondência do autor da Terra Chá com Rodrigues Lapa, como logo se verá. Ainda há outra poeta na Escolma..., Gabriela Maira Roibás, a única mulher, nada no início do século XX, que foi precursora “do que escribirían Amado Carballo e Fermín Bouza-Brei e Trillo, que eran os seus contemporáneos” (María, 2001b, p. 81). Dela colige oito poemas, três dos quais são cantigas de refrão ao estilo medieval e os demais mantêm as estruturas paralelísticas e a musicalidade próprias das cantigas de amigo. Por este livro Alonso Montero (2001, p. 218) qualifica Manuel María como “un caso claro de poeta neomedieval” e lamenta “que non figure, como tal, na Antoloxía da poesía neotrobadoresca preparada pola profesora Pilar Castro (Galaxia, 1993)”. 5 De todos os modos, como já foi visto, não são os deste livro os únicos textos neotrovadorescos do autor de Outeiro de Rei.
Além do seu labor como poeta, Manuel María prestou também atenção à poesia galego-portuguesa medieval e aos seus poetas nos artigos jornalísticos que ao longo da sua vida foi publicando em diferentes meios. Assim, foram aparecendo artigos da sua autoria como “Pequena noticia e homaxe ao troveiro Pero de Ver” (Programa de festas do San Xil, de Bóveda, 1972); “O troveiro da San Miguel do Monte”, sobre Xoán de Requeixo (A Nosa Terra, 23-5-1980, coligido em Hortas Vilanova, 1990, pp. 51-52), “Fernán Velho e Fernán-Vello” (coligido em Hortas Vilanova, 1990, pp. 75-76); “Consideracións sobre a literatura galaico-portuguesa e o Camiño de Santiago” (A Nosa Terra, 25-5-1983, n.º especial Letras Galegas, coligido em María, 2015, pp. 88-96); “Os xantares de Afonso X o Sabio” (El Correo Gallego, 17-10-1992, coligido em María, 2015, pp. 135-139); “Nota encol dunha cantiga de Alfonso X” (El Correo Gallego, 25-8-1995); “Amores medioevais” (El Correo Gallego, 2-12-1996); "“Un maldicente do século XIII”, sobre Afonso Eanes do Cotón (El Correo Gallego, 16-12-1997, coligido em María, 2015, pp. 176-178).
O interesse de Manuel María não é só pela poesia da escola trovadoresca, mas também pela história medieval, segundo fica patente noutras colaborações jornalísticas como: “As debilidades dun abade do século XII” (El Correo Gallego, 22-4-1989); “O Rei García de Galicia” (El Correo Gallego, 29-10-1989); “O Reino de Galiza en Lugo: a ben murada” (El Correo Gallego, 17-6-1990); “Os galegos na Historia Compostelana” (El Correo Gallego, 7-4-1995); “Unha curiosa historia medieval” (El Correo Gallego, 15-3-1996); “O latinista López Pereira e o dumiense” (El Correo Gallego, 24-6-1997); “Os reises de Galicia” (El Correo Gallego, 21-4-1998); etc. E inclusivamente na sua obra poética dedica algumas composições a exaltar feitos ou personagens da história; por exemplo, em Remol há um poema “Ós Irmandiños”, com invocação direta a Roi Xordo (María, 1970, p. 91); e em As rúas do vento ceibe, de 1979, com o propósito de ensinar o passado da Galiza à juventude, inclui os poemas “Medulio”, “A revolución Irmandiña” e “O Mariscal Pardo de Cela” (María, 2001a, pp. 715-716).
4. A literatura e a história medievais na correspondência portuguesa de Manuel María
Esse interesse pela história do reino da Galiza na Idade Média está igualmente presente no epistolário de intelectuais e escritores portugueses com Manuel María, nomeadamente nalguns dos mais relevantes, como Oliveira Guerra, Rodrigues Lapa ou Francisco José Velozo, que manifestam uma profunda simpatia pela Galiza e que conhecem bem a primitiva unidade política, literária e linguística a um lado e outro do rio Minho. Eles próprios sentem a sua identidade como galego-portuguesa, reconhecendo também que as origens de Portugal e da sua língua estão na antiga Gallaecia.
Manuel de Oliveira Guerra é um dos intelectuais portugueses de que mais correspondência com Manuel María se conserva, num curto período de tempo entre 1960 e 1964. Foi um grande amigo e promotor da cultura galega que faleceu prematuramente quando a relação epistolar com o poeta galego era intensa. Os seus grandes projetos “galeguistas” foram a revista Céltica. Caderno de Estudos Galaico-Portugueses, em cujos quatro números fica patente a visibilidade que pretendia dar à cultura e ao idioma galegos (cf. Delgado Corral, 2004), e a criação do Círculo de Estudos Galaico-Portugueses com personalidades da Galiza e do Norte de Portugal, ambos abortados nos seus inícios por alguns problemas pessoais e, sobretudo pelo seu repentino, passamento. Na sua carta de 18-12-1963 escreve a propósito da leitura de alguns textos do poeta galego:
Em “Lembranzas e Soedades” gostei muito, muito, das Cantigas, ou seja a parte final. Evidentemente que eu li todo o conjunto com interesse, mas foi sobretudo aquela parte cancioneiristica (sic) que me seduziu. Quero reler tudo novamente e escrever alguma coisa que diga melhor o que a leitura dos seus poemas me sugere. 6
De Manuel Rodrigues Lapa são 11 as cartas conservadas, pertencentes ao período que vai de 1965 a 1974. Lapa foi um atento e preocupado observador da evolução da cultura, da literatura e do idioma da Galiza, temática que impregna todas as cartas dirigidas a Manuel María, nas quais tanto agradece as obras que o poeta lhe envia como mesmo lhe solicita outras. Além do seu interesse por tudo o que se relacionasse com a Galiza e das frequentes referências à identidade cultural e linguística galego-portuguesa, as missivas tratam de um tema específico vinculado com a literatura trovadoresca medieval, de que era grande especialista universalmente reconhecido. Foi Manuel María quem lhe solicitou informação sobre o poeta Nuno (ou Munio) Fernández de Mirapeixe, trovador de princípios do século XIII que, embora lhe fosse atribuída origem catalã, parece proceder da zona de Mirapeixe, em Outeiro de Rei, nas proximidades da vila natal de Manuel María, à beira do rio Minho, onde está localizado o Paço de Mirapeixe. Lapa, além de lhe fornecer toda a informação disponível a respeito, aproveita mesmo para ele próprio pedir ao seu correspondente outras informações relativas à documentação medieval existente em Monforte de Lemos, onde o poeta morava na altura. Na sua carta de 25-9-1965 escreve:
Brevemente lhe direi o que há sobre Nuno Fernández de Mirapeixe, que é quase nada. Dele ficaram-nos 2 cantigas d’amor, editadas por D. Carolina Michaëlis no seu Canc. da Ajuda. Diz-nos ela, no vol. II, pág. 526, n. 4, que procurou povoações com esse nome na Galiza antiga de aquém e de além Minho, mas sem resultado. Vejo agora pela sua carta que existe realmente esse topónimo em terras de Lugo. Existirá verdadeiramente? Poderá localizar esse nome? .... É muito possível que passe por Monforte um dia .... Visitaremos os eidos dalguns trovadores antigos.
Noutra carta de 20-10-1965 Lapa envia a sua edição dos dois poemas de Mirapeixe e continua a especular sobre a procedência deste, mas não se esquece de fazer referência à poesia satírica, de raiz trovadoresca, do seu interlocutor: 7
Só agora lhe pude preparar as duas cantigas de Mónio ou Nuno Fernández de Mirapeixe .... A minha edição é um pouco diferente da de Carolina Michaëllis e mais de acordo com a lição do manuscrito .... O seu elemento de “Casa de Mirapeixe” presta-se a dúvidas: pode, por hipótese, designar uma casa com vista sobre um rio, de qualquer modo, não será um topónimo, rigorosamente falando, mas um antropónimo (nome de pessoa) .... Tinham-me escapado as cantigas de mal dizer que vinham num dos seus livros. Têm o saboroso realismo e a acidez das do século XIII.
Transcreve a seguir Lapa, como textos anexos à carta, as composições de Mirapeixe “Pois me fazedes, mia senhor” e “Dizer-vos quer’ eu, mia senhor”, a que acrescenta este comentário: “É possível que esta cantiga esteja incompleta. D. Carolina Michaëlis chama-lhe esparsa, que é uma designação posterior para um tipo de cantiga curta e geralmente triste”. Há outra carta de 19-5-1966 em resposta à que lhe deve ter enviado Manuel María, em que se põe em evidência que ainda continuavam a dar voltas às origens do trovador em causa, mas onde também transparece o firme compromisso e empenho de Lapa em aprofundar o conhecimento dos textos medievais para assim melhor fundamentar a unidade linguístico-cultural da Galiza e de Portugal:
Agradeço-lhe os informes que me dá sobre a casa Mirapeixe. Ainda está tudo um pouco nebuloso; e só a publicação de documentos medievais poderá desvanecer essas e outras dúvidas do mesmo género. Felizmente que vamos trilhando o bom caminho, com a publicação, dentro em pouco, dos “Documentos medievais galegos da região de Ourense”, a cargo de Ferro Couselo. Outros se deverão seguir, em quantidade cada vez maior; essa é uma das maiores e mais urgentes tarefas da Galeguidade.
Mais outra carta, de 23-11-1967, permite entrever que Manuel María continuava a recorrer a Lapa para resolver certas dúvidas, neste caso o topónimo Valedolide, sobre temas vinculados com a lírica medieval, de grande interesse para o professor de Anadia, além de mostrar a preocupação deste pela deturpação da toponímia galega:
...pois está mais ou menos estabelecido que o Valedolide de que fala o Airas Núnez deverá ser o da região de Arzúa, que fica entre Melide e Santiago, o que muito bem se ajusta aos dizeres da cantiga e seu sentido geral. Em todo o caso, se houver nos velhos registos judiciais alguns dados sobre a verdadeira forma, não castelhanizada, do termo Valedolide, muito lhe agradeceria que mos comunicasse. Há um grande trabalho a fazer sobre a Toponímia galega, afrontosamente deturpada pelo centralismo castelhanizante.
Manuel María ainda deve ter continuado a dar voltas ao topónimo Valdeolide/Valedolide, segundo se deduz da carta de Lapa de 26-12-1967, onde também ressalta o ar medieval do poema que o autor galego lhe enviou, segundo o costume, como felicitação do Ano Novo: 8
Recebi, muito reconhecido, a sua “Cantiga de Aninovo”, cujo refran (sic) apreciei. Está cheio de significado… trovadoresco! Também lhe desejo um bom Ano Novo. Não se afadigue com o Valdeolide, que deve ser o da Arzúa e não esse.
Uns anos depois mantinha Lapa, numa carta de 8-3-1972, o seu desejo de conhecer Monforte de Lemos e o interesse pela língua e também pela literatura galega:
Então farei todo o possível por ir a Monforte, que aliás não conheço e desejo muito conhecer. Aí mesmo verei o seu trabalho sobre os poetas da Terra Chá; mas já lhe digo, com sinceridade, que no estado actual das nossas relações culturais, esse estudo é mais adequado à Galiza do que a Portugal.
Parece deduzir-se disto que Manuel María tinha preparado um trabalho algo extenso sobre esta temática e andava à procura da sua publicação, incluída a possibilidade de a fazer em Portugal, como no caso do estudo sobre Crecente Vega aparecido anteriormente na revista Biblos, de Coimbra (María, 1964). Porém, não o deve ter conseguido, pois em El Progreso de Lugo sairão nove artigos com o título “Os poetas da Terra Cha” (I-IX) entre 9-1-1973 e 3-4-1973. Na sua última carta conservada, de 5-11-1974, o erudito lusitano volta a pôr em relevo a relação da poesia do autor galego com as cantigas medievais, neste caso as satíricas, a propósito de uma ode que, curiosamente, não fora incluída no volume Odes num tempo de paz e de alegria publicado dois anos antes em Portugal (María, 1972b), como também o seria, um ano antes, o Laio e cramor pola Bretaña (María, 1973). Não desaproveita Lapa este facto para mostrar a sua satisfação pela presença da poesia de Manuel María além Minho e pela intensificação da relação cultural entre os dois países:
Gostei de ler a sua “Oda aos críticos”, que me lembra as cantigas de escarnho e maldizer dos velhos cancioneiros… Também li com prazer e emoção o seu “Laio e cramor pola Bretaña” e gostei que, como algumas outras de suas poesias, fosse impressa em Portugal, pátria do Amadis (novela).
Não há dúvida de que é Rodrigues Lapa, entre os correspondentes portugueses de Manuel María, quem mais alude nas suas cartas à literatura galego-portuguesa comum, também pela sua dedicação profissional a essa matéria, além do seu mil vezes demonstrado amor pela Galiza (cf. Lapa, 1979, 2001).
Disto também é um exemplo Francisco José Velozo, que foi quem teve uma relação epistolar, e finalmente amical, mais intensa e prolongada com Manuel María. São muitas as cartas da sua autoria que se conservam, por via de regra extensas, nomeadamente as da etapa final da vida de ambos. Velozo exerceu como magistrado e chegou a ser Juiz-Conselheiro do Supremo Tribunal Administrativo em Lisboa, após o desempenho profissional no distrito de Braga. Apesar de, quando iniciou a relação epistolar com Manuel María, já morar na capital portuguesa, manteve sempre os vínculos com o norte do seu país e com a história galego-portuguesa, segundo demonstram a sua colaboração em jornais como Notícias de Guimarães e a participação direta nas revistas bracarenses Quatro Ventos e Scientia Ivridica. A relação epistolar entre ambos vai ser progressivamente mais intensa e durará até à morte do poeta galego, em 2004. São, pois, mais de três décadas de correspondência continuada que poderia conformar, por si só, um epistolário profundo e interessante.
A temática das missivas de Velozo é, naturalmente, variada, mas possui um fio condutor: a própria produção literária e jornalística dos dois amigos, a literatura galega que ele conhecia e seguia com interesse, e os vínculos históricos galego-portugueses, tema de que era bom conhecedor e grande erudito, como demonstram as próprias cartas e a sua produção escrita. Não faltam tampouco os juízos de caráter toponímico, linguístico e sociolinguístico relativos ao galego ou galego-português (à variação linguística neste espaço). Também são constantes nas suas missivas as declarações de irmandade entre os dois povos e de amor pessoal pela Galiza, pela sua cultura e pela literatura galega, cujos autores conhece e lê, além de ter mantido relação de amizade com vários. Velozo, à luz deste epistolário, deve ser considerado como um dos melhores amigos portugueses da Galiza e o máximo valedor de Manuel María em Portugal. 9 Nas suas cartas evoca com frequência a Gallaecia bracarense, onde situa sempre as origens de Portugal e da sua língua. Na de 25-6-1994 escreve sobre duas publicações do amigo, dizendo que as leu “com devoção, evocando, na realidade e na fantasia, a querida Galiza, inclusive até o concílio de Braga sobre a lampreia!” Na carta de 19-12-1997, a propósito de ter recebido os “Poemas ó viño” de Manuel María, Velozo ressalta nalgum deles o sabor trovadoresco, combinado com o ar renovador:
Como me embalou o ritmo dos versos trovadorescos! Reminiscências ou coincidências -até com os grandes Poetas galegos-, inclusive com os clássicos, mas sem repetição da Renascença. Tudo novo, saboroso, a fazer dar estelos (sic) com a língua e a ouvir, ouvir.
Na de 12-8-2000 dá conta a Manuel María do envio de um trabalho seu sobre o rei poeta: “Vai junto um estudozito sobre Dom Dinis, em homenagem ao teu émulo trovador”. Noutra missiva, de 8-3-2001, situa Lisboa dentro da Gallaecia, apoiando-se em documentação antiga: “Não te poderia aliás propor que viesses pela beira-mar até Lisboa 'in Gallaecia', como se lê em hispano texto medieval...”. Na de 15-11-2001, Velozo fala da necessidade de a literatura e a língua galegas serem divulgadas em Portugal para assim eles conhecerem melhor a sua própria história e as diferentes variedades do seu idioma:
É preciso divulgar a literatura galega, que tem autonomia, e a língua, idioma ou particularidades do galego, que explicam tantas coisas do português, inclusive da fala medieval de Lisboa e dos códices medievais, para não citar as linguagens e dialectos portugueses... e alguns de além fronteira a norte e a sul do Douro, por exemplo - do Algarve, v. g. “andive”, etc.
Maria da Conceição Morais Sarmento foi professora do ensino liceal com morada em Coimbra e é autora do prefácio e das notas de edição das Cartas familiares de Francisco Manuel de Melo, além de se interessar pela obra de Miguel Torga, motivo que a levou a contactar com o poeta galego. Numa carta de “Natal, 1967”, retribui os desejos de boas festas que Manuel María lhe enviara mediante “um belo poema tão simples e puro como os dos tempos em que os poetas de Portugal e da Galiza trovavam numa mesma língua”
José Viale Moutinho foi um grande amigo e correspondente de Manuel María, com cartas conservadas entre 1972 e 1995, além de divulgador da literatura galega e do poeta da Terra Chá em Portugal (cf., por exemplo, Moutinho, 1978). Neste caso também pudemos aceder às cartas enviadas por Manuel María, que confirmam a amizade e camaradagem entre ambos e demonstram, mais uma vez, o interesse do poeta galego pela lírica medieval. Assim, na carta a Viale de 25-2-1975, Manuel María solicita uma conhecida edição das cantigas trovadorescas: “Desexaba que me remesaran as CANTIGAS DE AMOR e as CANTIGAS DE AMIGO, de Nunes, con desconto de librería”. 10 Noutra carta, de 9-7-1994, Manuel María cita um verso do Rei Sábio, a mostrar o seu conhecimento dos textos poéticos medievais: “Paréceme moi ben ese cancioneiro do viño portugués-galaico. Xa Alfonso X o Sabio fala ‘do viño de Ourens’”.
Arsénio Mota, autor de numerosas cartas escritas entre 1971 e 1987, desempenhou também um papel fundamental na projeção de Manuel María e da sua obra em Portugal. Como escritor possui uma extensa obra e dedicou-se igualmente à edição de antologias, entre elas as de Celso Emilio Ferreiro (1972) e Manuel María (1972a), bem como do livro de odes deste antes citado (María, 1972b) e da posterior versão para português de Sonhos na gaiola (María, 1977). Na sua carta de 4-10-1976 acusa o pedido que lhe faz o escritor galego das cantigas religiosas atribuídas ao Rei Sábio: “Recebi o teu pedido do livro ‘Alfonso X. Cantigas de Sta. Maria’”.
Aliás, a poesia trovadoresca medieval também foi tema de alguma intervenção de Manuel María como palestrante em Portugal, pois, de acordo com Gómez Torres (2001, p. 225), o poeta galego falou em começos de setembro de 1982 em Vilar de Perdizes sobre “Os camiños de Santiago na lírica galego-portuguesa”, provavelmente no âmbito de um Congresso de Medicina Popular organizado pelo seu correspondente António Lourenço Fontes (carta de 11-9-1982).
5. A valorização de Manuel María e da sua obra em Portugal
Manuel María foi um dos poetas galegos mais valorizados em Portugal e um dos que mais amou esse país, que sentiu como parte do seu. Carlos Quiroga qualificou-o como “um poeta no fascínio de Portugal”, a usar propositadamente a preposição de, em lugar de por, já que “o encantamento será mútuo” (Quiroga, 2016, p. 213); e também afirma que Manuel María “é o escritor galego de maior difusão no Portugal da altura” (Quiroga, 2016, p. 219). O volume, o número de correspondentes e o conteúdo da sua correspondência portuguesa contribuem para a veracidade de tal asserção. Evidentemente, não poderemos fazer menção a todos os depoimentos que apontam nessa direção nas mais de 600 cartas existentes. Limitar-nos-emos apenas a coligir alguns dos mais salientáveis, tanto pela relevância da personalidade que os emite, como pela do testemunho dado.
A começar por Miguel Torga, um dos maiores escritores portugueses, a sua correspondência conservada reduz-se a uma carta e a uns poucos bilhetes postais; na primeira, de 30-6-1963, agradece o envio dos livros que, na altura, o poeta galego já tinha publicado e acrescenta:
Li-os com o mais vivo interesse, atraído pelo magnetismo lírico de que os poetas galegos têm o segredo. Seduziu-me particularmente o primeiro, MORRENDO A CADA INTRE, onde a frescura da inspiração se casa naturalmente com a moça desenvoltura expressiva do autor.
Se quem foi um maciço aspirante ao mais alto reconhecimento literário louva a produção poética do autor galego quando ainda estava pouco mais do que iniciando a sua carreira literária, o único Prémio Nobel em língua portuguesa, José Saramago, também pôs em valor a poesia de Manuel María, que citou laudatoriamente numa intervenção no exterior (carta de 28-9-1984):
Estive em Cuba as duas últimas semanas, por ocasião de uma conferência internacional sobre a literatura depois da Revolução. Ali fiz uma pequena comunicação acerca de um poeta cubano, Luis Rogelio Nogueras, e, a propósito, foi-me grato falar da tua Escolma como exemplo da criação de apócrifos, género que o dito poeta igualmente cultiva. Um outro poeta, Raúl Luis, que nessas mesmas águas poéticas usa navegar, mostrou-se muito interessado em saber mais de Manuel María, a começar pelo livrinho onde reuniste os vates de Outeiro de Rei.
Não parece irrelevante que uma figura de primeiro nível da literatura universal cite e recomende publicamente um modesto poemário escrito em galego e publicado na Galiza. Noutra carta (de 1988, s. d.) Saramago louva a qualidade poética de Manuel María a propósito da receção de uma reedição do livro Muiñeiro de brétemas e agradece-lhe mesmo a “grandeza” da sua poesia:
Obrigado pelas notícias e pelo livrinho. Aos dezanove anos não são muitos os que se podem gabar de tocar a poesia com a ponta dos dedos. Claro que essas coisas vêem-se melhor depois, mas o poeta estava lá inteiro, não tinha mais que crescer. E crescer, crescer até a grandeza enorme que é a tua hoje. Obrigado também por isso. 11
Maria Alexandrina Santos Teixeira inaugura o contacto com Manuel María, estabelecido por iniciativa dela, na sua carta de 7-3-1968, pois deseja conhecer o autor de Mar maior, obra de que declara ter gostado muito:
Mão amiga enviou-me o seu livro Mar-maior e coração sensível pôs na minha ansiedade uns momentos de verdadeiro encantamento: os seus versos. Tenho pena de não conhecer profundamente o seu idioma, muito eu o traduzo, mas, creia-me! - encontro verdadeiro encantamento em toda a sua poesia, nada é forçado, tudo canta dentro de si, mesmo quando a tristeza é verdadeiro Mar-Alto... .... Toda a sua poesia traz a mensagem da verdade, da angústia que disfarçamos humanamente mas que não nos deixa lugar para as ilusões, não está de acordo comigo?
Um tema recorrente das cartas dela é a louvação da obra poética de Manuel María. São muitíssimos os testemunhos que se poderiam acrescentar, tendo em conta que são mais de 60 as missivas dirigidas ao poeta galego, mas sirva de exemplo o seguinte fragmento da de 13-6-1969, em que o compara com outro grande poeta português coevo:
Fiquei deslumbrada com a tua poesia, achei-te (e acho!) igual ao José Gomes Ferreira .... Compreendo que gostasses dos poemas do Gomes Ferreira, posto que vós ambos sois dois poetas iguais. Na forma, na sensibilidade, na emotividade, na beleza e humanidade de imagens, na altíssima concepção poética, na força que nos arrasta e faz sentir que estamos em face dum verdadeiro poeta, como é o teu caso e o de Gomes Ferreira.
Na de 7-5-1970 estabelece Maria Alexandrina a distinção entre um poeta novo que inicia a sua carreira literária - Darío Xohán Cabana - e um poeta consagrado como Manuel María: “ao Cabana posso falar com carinho e admiração e de ti tenho que falar com carinho, admiração e o máximo respeito pelo Poeta maior que tu és, nada mais”.
Porém, não há dúvida de que o grande valedor da obra do poeta da Terra Chá é o seu melhor amigo português, Francisco J. Velozo. Na carta de 14-4-1989 socorre-se de um verso da Divina comédia de Dante Alighieri para exaltar Manuel María:
É minha intenção voltar à tua poesia. A única dificuldade é sentir-me submergido por ela! Muitas pessoas a quem a tenho mostrado ficam maravilhadas. “Onorate l’altissimo poeta!”.
Noutra missiva, de 14-6-1993, mostra a sua alegria pelo reconhecimento que estava a ter Manuel María na Galiza e reitera a mesma qualificação de grande poeta no seu idioma: “Felicito-te por tudo isto, e congratulo-me com as homenagens que a Galiza te vai tributando com toda a justiça, reconhecendo o ‘altíssimo poeta’ que Deus lhe deu!” Na carta de 6-1-1996 combina a exaltação de Manuel María como poeta que exprime o sentir coletivo da Galiza e como um dos maiores do seu tempo, ideias que reiteradamente aparecem noutras missivas: “Enfim, excelente lembrança para homenagem devida a um Poeta máximo entre os máximos da Galiza dos nossos tempos”. A propósito da receção dos “Poemas ó viño” enviados pelo seu amigo, na carta de 19-12-1997, além de reiterar a ideia de Manuel María ser a voz do povo galego, compara a sua poesia com a de grandes poetas alemães admirados e traduzidos por Velozo:
Li-os dum junto, para apreciar a sinfonia dum Poeta que continua a ser um maestro (sic) da palavra, quero dizer, do galego - a um tempo tradicional (medieval) e moderno, clássico (em sentido grego-alemão...) e popular. Como me agradou achar ali o paralelo duma balada de Goethe, sem cópia evidentemente, mas sentimento afim, - “pagar a este xograr / abondalle unha cunca de vinho” -, ou o de Hölderlin lamentando a expulsão dos deuses .... É um tesouro, de quem tantos mais tem. Que equilíbrio, ritmo, sonoridade, e que bom gosto nos ecos do cantar do Povo!
Velozo não só exalta o valor poético de Manuel María, também o seu labor literário nos demais géneros. Sobre a prosa narrativa afirma em carta de 25-6-1994: “Muito e muito obrigado pelos teus novos livros, ‘Viaxes e vagancias de M. P.’, e ‘Cantigas e cantos de Pantón’ .... Só faria um voto. Que não acabasse o ciclo de M. P. de todo!”. A respeito do teatro e com motivo da edição em 1989 de Abril de lume e ferro, “obra teatral básica na dramaturxia de Manuel María e no corpus do teatro nacional galego” (Gómez Torres, 2001, pp. 261-262), afirma em carta de 7-1-1990:
...e enfim a emocionante evocação trágica de 1846 em “Abril de lume e ferro”, em boa hora arrancada ao limbo! Bendita Galiza que desde cedo descobriste, mas que te descobriu a ti como voz do maior nível! Isso revela uma atmosfera cultural invejável. Continuas assim a dar à tua Pátria, irmã gémea da nossa, contribuições inestimáveis!
Na de 26-12-1995 qualifica-o como um dos grandes poetas do seu tempo, mas também põe em valor o resto dos géneros cultivados por ele, com menção especial para os autos teatrais, já louvados noutras missivas:
Felicito-te -e à Galiza- pelo reconhecimento do seu Poeta que julgo o Poeta-Mór, ou dos maiores do nosso tempo, sem esquecer os outros géneros que tens cultivado com brilho - entre os quais renovando os nossos autos.
Não só se declara Velozo admirador constante e incondicional da obra de Manuel María, como também estende essa consideração à família dele. São muitas as cartas em que exprime tal ideia, de que a de 12-8-2000 é só mais um exemplo: “Os teus versos são lidos em minha casa em voz alta e pelos meus filhos, com o mesmo assombro”. E quando recebe a triste nova da morte do poeta galego, envia as condolências à sua viúva com louvores para o autor desaparecido que não deixam lugar a hesitações quanto à altíssima estima, também literária, em que o tinha (carta a Saleta Goi de 1-6-2005):
...enviamos os nossos sentimentos de profundo pesar pela perda do seu genial marido Manuel Maria Teixeiro, perda também da Galiza e nossa e das Letras Mundiais, novo Mistral do Mundo Latino, amigo nunca esquecido, e Mestre de sempre!
Também não se deve obviar a qualificação de “poeta do povo” que lhe apôs Lapa (1972) num artigo de jornal. Destaca igualmente este na sua correspondência o valor satírico de alguns textos do poeta galego, que têm “o saboroso realismo e a acidez das do século XIII” (carta de 20-10-1965) e o sabor rústico de outros: “Tenho gostado da poesia fresca e rural de seu ‘Terra Chá’” (carta de 26-12-1967). Mas talvez seja Luís de Miranda Rocha (carta de 29-6-1980) quem com mais clareza exprima a opinião, partilhada por outros correspondentes, de Manuel María ser o melhor ou o mais importante poeta galego do seu tempo:
Tu não deves ser nada de um “monstro sagrado” da Literatura Galega, embora (em minha opinião -e não é um elogio, por certo, que sejas o melhor ou pelo menos o mais importante poeta galego hoje em dia… (se não és tu quem será? Isto não é uma questão de hierarquia, de topo, mas talvez uma evidência irrecusável. Há na tua poesia um fôlego, um sopro, um élan, uma força, eu sei lá, que não encontro em mais nenhuma depois da de Celso Emílio...).
E como tal foi tratado quando no I Encontro Luso-Espanhol de Poesia (Figueira da Foz, 1983), organizado pela Sociedade Portuguesa de Autores, fez parte da Comissão de Honra, como único galego, ao lado dos grandes vultos da poesia peninsular da altura: Alberti, Aleixandre, Eugénio de Andrade, Bousoño, Raul de Carvalho, Ángel Crespo, Espriu, Manuel de Fonseca, Gloria Fuertes, Gedeão, Gomes Ferreira, Jorge Guillén, José Hierro, Sophia de Mello Breyner, Mourão-Ferreira, Pere Quart e Ramos Rosa12. Ou quando a escritora Wanda Ramos, em nome da mesma entidade, lhe pede em carta de 2-2-1989 que participe como “convidado especial” no I Congresso de Escritores de Língua Portuguesa que se ia celebrar em Lisboa: “Assim, e dado o grande interesse desta iniciativa, que reunirá em Lisboa escritores dos 6 países de Língua portuguesa (Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé, Guiné-Bissau e Brasil) e especialistas estrangeiros das literaturas de língua portuguesa, gostaríamos de poder contar com a sua presença como convidado especial”. E não só isso, pois segundo Gómez Torres (2001, p. 263) Manuel María foi “o escollido entre os convidados ao congreso para elaborar a intervención final”.
6. Valorização da literatura portuguesa por parte de Manuel María
Através da sua correspondência também se pode perceber a opinião de Manuel María a respeito da literatura portuguesa do seu tempo e dos tempos precedentes, o que transparece, aliás, nos artigos que ele próprio foi publicando ao longo da sua vida na imprensa galega. Os primeiros que apareceram nos primórdios da década de 60 tratavam sobre escritores lusitanos com quem mantinha uma relação de amizade e epistolar, como é o caso de Oliveira Guerra ou Hugo Rocha, normalmente respondendo a pedidos dos próprios autores ou correspondendo a outros artigos publicados por eles sobre o poeta galego. Posteriormente foi-se passando o mesmo com outros autores como A. Mota, Viale Moutinho ou F. J. Velozo. Porém, ocasionalmente vão aparecer alguns artigos de Manuel María sobre autores com os quais não tinha uma especial relação de amizade nem nenhuma dívida pessoal, ou já falecidos. Os exemplos mais claros disto são Miguel Torga no primeiro caso e Teixeira de Pascoaes no segundo, dois escritores portugueses da sua especial predileção.
Já na carta de 4-11-1964 Hugo Rocha tenta resolver dúvidas linguísticas de Manuel María no processo de tradução de uns versos de Torga em que estava empenhado: “En cuánto a los versos de Miguel Torga que ha traducido y con los que ha tenido algunas dificultades, vamos a ver se (sic) consigo deshacerle algunas”. No ano seguinte Manuel María publica “Poemas ibéricos, de Miguel Torga” (Faro de Vigo, 19-12-1965) 13 e, a partir da leitura deste artigo, Maria da Conceição Morais Sarmento contactou epistolarmente com ele com o propósito de o publicar no seu país em versão portuguesa, o que não conseguiu. Na sua primeira carta, de 4-2-1966, mostra a adesão ao que o poeta galego escreveu sobre Torga, partilha a sua admiração por ele e lamenta o silêncio existente em Portugal sobre a sua obra:
Tenho também uma enorme admiração pela obra de Miguel Torga .... Todo o seu artigo provocou em mim uma adesão perfeita ao que nele diz. Muito obrigada por tê-lo escrito e por tido um feito de justiça que, infelizmente, no meu país ainda não foram capazes de ter.
Na de 10-7-1966, volta a reconhecer e valorizar muito positivamente a atenção que Manuel María prestou à obra de Torga naquela colaboração: “O artigo elogia Torga, reconhece desassombradamente o seu valor e, no meu pobre país, nunca se soube apreciar e acarinhar os grandes homens”. Numa carta posterior (de 25-11-1968) esta mesma professora decide enviar como presente ao poeta galego um livro daquele acabado de sair do prelo, pois bem sabe “do seu interesse pela obra de Miguel Torga”. Talvez por pedido de Manuel María também António Cabral lhe envia uma publicação sobre Torga da sua autoria: “Apenas tinha três exemplares, em arquivo, do caderno que escrevi sobre o Torga. Envio-to, com um grande prazer” (carta de 15-4-1986). Na correspondência portuguesa de Manuel María fica bem claro que Torga é um dos seus autores preferidos.
Sobre Teixeira de Pascoaes, falecido em 1952 quando Manuel María apenas iniciava a sua carreira literária, escreveu este vários artigos e neles deixou claro que era para ele um poeta de referência: “Romería en Amarante” (A Nosa Terra, 24-9-1982), “Viaxe a São João de Gatão” (A Nosa Terra, 24-4-1986), “Un bosque chamado Teixeira de Pascoaes” (El Correo Gallego, 14-7-1991) e “Divagaciós encol de Pascoais” (El Correo Gallego, 6-4-1999). O poeta galego manteve nos anos finais da década de 90 e inícios do século XXI vínculos com a Associação Amarante Cultural Edições do Tâmega e com as revistas Cadernos do Tâmega, Anto e Saudade através da relação epistolar com António José Queirós. Nelas e nas cartas deste a figura de Teixeira de Pascoaes esteve sempre presente, e também transparece a admiração do poeta galego por ele. Uma carta de Manuel María a Queirós (s. d., mas de dezembro de 1991) vai acompanhada do poema “Homaxe a Teixeira de Pascoais”, que será inserido no n.º 6 de Cadernos do Tâmega, e nela escreve o poeta galego: “Envio esa modesta - mais sentida - homaxe ao gran Pascoais". Apenas meses antes da sua morte, ainda Manuel María receberá um convite do presidente da Câmara Municipal de Amarante para participar num encontro de poetas como homenagem a Pascoaes no quadro do cinquentenário do seu passamento: “Conforme os contactos já estabelecidos, dirijo a V. Exa. o convite para integrar esse grupo de poetas, que evocarão a figura de Teixeira de Pascoais” (carta de 13-10-2003).
O epistolário português de Manuel María deixa ver igualmente a admiração dele pela obra de um dos vates oitocentistas mais conhecidos e divulgados em Portugal, na Galiza e no mundo, Guerra Junqueiro. A carta de Hugo Rocha de 24-11-1964 permite deduzir que o poeta galego lhe pedira alguma obra dessa autoria:
Ya tengo en mi poder el libro de Guerra Junqueiro, “Vibrações Líricas”, hoy mismo adquirido, pero todavía me falta el otro. Espero obtenerlo por toda esta semana. Los próximos domingo y lunes, 29 y 30, Dios mediante, estaré en Vigo con mi mujer y desde allí le remitiré los dos libros, en un paquete por el correo.
A própria filha do poeta português, Maria Isabel Guerra Junqueiro, na sua carta (6-7-1969) de resposta a outra de Manuel María que desconhecemos, põe em relevo a admiração deste pela figura e a obra do seu pai: “Sensibilizam-me profundamente as palavras que dedica a Guerra Junqueiro, cuja obra conhece desde muito jovem e que com tanto fervor aprecia”.
Outro dos escritores portugueses que mais interesse despertou em Manuel María foi Camilo Castelo Branco, como deixa transparecer na carta que escreveu a Joaquim Santos Simões, de 1-12-1971, onde afirma:
Eu peguei a lér como un tolo nos volumes que trouxen de Camilo. Coñocía as NOVELAS DO MIÑO -que semellan galegas- na súa tradución castelán. Como hai que lélas é en portugués. Eu xa lín os dous primeiros volumes i ando co terceiro.
De todos os modos, os próprios correspondentes de Manuel María vão orientando as suas leituras portuguesas ao enviarem-lhe ou recomendarem-lhe livros de diversos autores. Assim o faz, por exemplo, Luís de Miranda Rocha na sua carta de 28-11-1979:
Mando-te mais livros; “O livro de Cesário ‘Verde’”: Cesário é (com Camilo Pessanha) um dos nossos dois maiores poetas do sec. XIX, muito acima (quanto a mim) de Junqueiro, ou Gomes Leal (os nossos Curros Enríquez), ou Soares de Passos, ou mesmo Garrett. “Zé Povinho”: Trata-se da nossa maior criação, no século passado, no domínio da sátira política.
Também o faz Maria Alexandrina Santos Teixeira, admiradora e estudiosa de Florbela Espanca, que em várias cartas lhe transmite o seu entusiasmo por esta escritora e até lhe envia alguma das suas obras. É possível que através dela Manuel María aprofundasse a leitura dessa autora, até se tornar a poeta portuguesa da sua preferência, como assinala F. J. Velozo na dedicatória do livro de Espanca Contos e diário que ele oferece ao poeta galego: “A D. Saleta, lembrando com amizade a sua presença entre nós; Ao Poeta Manuel Maria recordando a sombra da sua poetisa preferida de aquém Minho, e a sua visita”. 14
Além dos grandes clássicos da literatura portuguesa, Manuel María seguia o percurso literário dos escritores do seu tempo e, de modo especial, lia as obras dos seus correspondentes que eles próprios lhe ofertavam, pedindo-lhe também a sua opinião. Daí que, na sua correspondência portuguesa, emirjam, de forma direta, nas cartas da sua autoria e, de modo indireto, nas dos seus interlocutores, praticamente todas e todos eles também escritores, juízos valorativos do poeta galego a respeito de obras de Oliveira Guerra, H. Rocha, M. A. Santos Teixeira, A. Mota, J. C. González, Miranda Rocha, Viale Moutinho, F. J. Velozo, Wanda Ramos, M. V. Monteiro, etc., geralmente benévolos, como costuma ser habitual no género epistolar. No entanto, quando o grau de amizade e confiança é maior não faltam críticas mais severas, como acontece na carta a Viale Moutinho de 25-2-1975:
Lín o teu derradeiro libro A OUTRA NOSSA SENHORA. Gostei dele. De todos xeitos coido que é inferior a O PAIS DAS LAGRIMAS. Dame a impresión que este teu libro está feito un bocadiño a presa e mesmo como si tiveras moita presa en rematar os relatos. Todo é moi simple, moi liñal. Os derradeiros relatos danme a impresión de que non son verdadeiros relatos, senón bocetos de relato. De todos xeitos o libro é moi bó. E tamén moi direuto.
7. Conclusão
Manuel María teve uma grande devoção por Portugal e isso fica bem refletido tanto na sua obra como na correspondência com autores e autoras desse país. Interessou-se muito pela história antiga comum aos territórios de um lado e do outro do Minho e também pela poesia trovadoresca galego-portuguesa, que o levou a cultivar o neotrovadorismo já desde os seus inícios como poeta. Em correspondência com o seu amor por Portugal, este país acolheu com generosidade o poeta galego e a sua obra. A ampla relação epistolar com autores lusitanos demonstra que foi altamente valorizado por eles, vários dos quais o consideram o escritor galego mais importante da altura, além de um dos mais conhecidos. Ao mesmo tempo, foi um apaixonado leitor e profundo admirador das grandes figuras da literatura lusitana, bem como um atento seguidor do labor literário dos seus autores coevos.














