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Revista Diacrítica

versão impressa ISSN 0870-8967versão On-line ISSN 2183-9174

Diacrítica vol.39 no.3 Braga dez. 2025  Epub 06-Fev-2026

https://doi.org/10.21814/diacritica.7146 

Articles

Introdução ao dossiê temático “A língua portuguesa na China: ensino, literatura, cultura e tradução”

Introduction to the special issue “The Portuguese language in China: teaching, literature, culture, and translation”

* Escola de Estudos Estrangeiros, Universidade Nankai, China.

** Centro de Estudos Humanísticos, Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Portugal.

*** Centro de Estudos Humanísticos, Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Portugal.

**** Centro de Estudos Humanísticos, Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Portugal.


Resumo.

O presente dossiê temático da Diacrítica (39.3), intitulado “A língua portuguesa na China: ensino, literatura, cultura e tradução” tem a sua origem no “VI Fórum Internacional de Ensino e Estudos da Língua Portuguesa na China”, que ocorreu em julho de 2024, na Universidade Nankai, China, porém não está limitado a este evento, visto que reúne diversas contribuições que exploram diferentes perspetivas nas mais variadas áreas, apontadas no título deste volume, e resultados significativos a respeito do tema proposto. Além disso, outros contributos de diversas áreas de investigação são apresentados nas secções Varia e Recensão. Neste texto introdutório, descrevemos e discutimos brevemente a situação e o estatuto atual do português na China para, em seguida, apresentar de maneira sucinta os trabalhos selecionados, bem como as suas relações e contribuições para os tópicos aqui abordados.

Palavras-chave: Português língua não materna (PLNM); China; Estudos literários; Estudos culturais; Estudos de tradução.

Abstract.

This special volume of Diacrítica (39.3), “The Portuguese Language in China: Teaching, Literature, Culture, and Translation”, has its origins in the “VI International Forum on Teaching and Studies of the Portuguese Language in China”, which took place in July 2024 at Nankai University, China. However, it is not limited to this event, as it brings together various contributions that explore different perspectives in several areas mentioned in the title of this volume, as well as significant results. Furthermore, there are the works in the Varia and Review sections. Therefore, in this introduction, we briefly describe and discuss the current situation and status of Portuguese in China, followed by a succinct presentation of the texts, their relationships and contributions to the topics addressed here.

Keywords: Portuguese as a foreign language (PFL); China; Literary studies; Cultural studies; Translation studies.

1. Introdução

Este dossiê temático da revista Diacrítica (39.3) merece destaque por trazer uma seleção dos trabalhos apresentados ao “VI Fórum Internacional de Ensino e Estudos da Língua Portuguesa na China”, que ocorreu entre os dias 4 e 7 de julho de 2024, na Universidade Nankai, em Tianjin, China, contando com a equipa organizadora e o apoio da própria Escola de Estudos Estrangeiros da Universidade Nankai, da Faculdade de Línguas e Tradução da Universidade Politécnica de Macau (UPM), do Grupo de Estudos Luso-Asiáticos (GELA) do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho e da revista Diacrítica, desta mesma universidade.

Este fórum é fundamental na internacionalização da língua portuguesa, sendo igualmente o maior evento da China e do continente asiático sobre o português. O Fórum Internacional de Ensino e Estudos da Língua Portuguesa na China tem história e tradição académicas, tendo tido a sua primeira edição em 2011, numa parceria da UPM (na época, Instituto Politécnico de Macau - IPM, atualmente Universidade Politécnica de Macau) com a Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim, e por se manter até à atualidade com participações e trabalhos significativos. O evento continuou com frequência bianual, tendo o segundo ocorrido em 2013, com organização do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do IPM, sediado na mesma instituição. No ano de 2015, aconteceu a terceira edição, desta vez, na Universidade de Xangai. No ano de 2017, a Universidade de Comunicação da China, em Pequim, organizou e sediou o quarto Fórum. Em 2019, o quinto evento ocorreu na Universidade de Estudos Estrangeiros de Cantão. É digno de nota que todos os fóruns mereceram a publicação das suas respetivas atas com a seleção dos principais trabalhos apresentados, a saber:

Atas do 1.º Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China (Choi & Zhao, 2012); Actas do 2.º Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China (André & Li, 2015); Actas do 3.º Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China (André & Pereira, 2017); Actas do 4.º Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China (André, Pereira & Inverno, 2018); Actas do 5.º Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China (Zhang & Christiano, 2021).

Devido à pandemia, o mundo assistiu à interrupção de diversas atividades, incluindo as relacionadas com este Fórum. Por isso, salientamos a importância da sexta edição do evento, que contou com a presença de mais de 50 investigadores da língua portuguesa, oriundos de Portugal, do Brasil, de Macau e do interior da China, juntamente com autoridades oficiais portuguesas e chinesas. Com isso, foi finalmente retomada a tradição do evento e da publicação dos trabalhos apresentados, mostrando a vitalidade do português na China, bem como das diferentes relações deste país com os países de língua portuguesa.

2. Porquê falar da importância da China para a língua portuguesa e vice-versa?

Nos últimos anos, muito se tem discutido, tanto a respeito de Macau ser uma “porta” ou uma “ponte” entre o Oriente e o Ocidente, ou entre a língua portuguesa e a China, ou a Ásia, como das características histórico-culturais da presença portuguesa em Macau. Da mesma maneira, a expansão da língua portuguesa na China, especialmente em Macau, foi registada a partir de 2005, conforme atestado por vários autores, entre eles Teixeira e Silva e Lima-Hernandes (2014), André (2017), Gonçalves (2019), Yan (2019), Jatobá (2020) e Pires (2022). No interior da China, verificou-se um boom - também denominado como “erupção vulcânica” por alguns - nos números de universidades e cursos de língua portuguesa; de professores chineses e estrangeiros; de estudantes universitários e da procura da língua portuguesa; de material didático, traduções, pesquisas e outras publicações, bem como da taxa de empregabilidade dos licenciados ou habilitados com cursos de português. Os números mais recentes estão registados em Pires (2022) e resumidos a seguir:

56 Instituições de Ensino Superior (IES); 51 no interior da China e cinco em Macau; 6370 alunos; 4401 matriculados em licenciaturas, 1748 em cursos livres e 221 em cursos de pós-graduação; 304 professores; 34 brasileiros, 67 portugueses e 203 chineses.

Assim, podemos afirmar que Macau observou não apenas o crescimento desses números no âmbito universitário, linguístico e educacional, mas também de outras áreas socioeconómicas, destacando-se o turismo, os casinos, outros setores que necessitam de mão de obra de base (ou não qualificada) e a imigração de países asiáticos vizinhos e do interior da China. Macau é um centro de referência de língua portuguesa para a China e para a Ásia, visto que a deslocação para o Brasil ou Portugal é dispendiosa para chineses e cidadãos de outros países asiáticos.

Outra iniciativa importante para as relações da China com o mundo lusófono foi a criação do Fórum de Macau, conhecido oficialmente pelo nome de Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau), que é uma plataforma desenvolvida pelo governo chinês, no ano de 2003, com objetivos como o fortalecimento das relações económicas, comerciais, culturais e linguísticas entre a China e os países de língua portuguesa, estando também ligada à iniciativa “Uma faixa, uma rota” (一带一路,yīdài yīlù) 1.

Pinto (2005), Fernandes (2008), Cardoso (2021) e Marrocos (2024), entre outros autores, destacam os diferentes papéis, significativos, que o Fórum de Macau pode desenvolver ou já desenvolve, como a manutenção estratégica de algumas políticas e relações diplomáticas passadas, as quais têm uma história de sucesso, especialmente nas relações China-Portugal e China-Brasil; a continuidade do protagonismo chinês nas trocas comerciais, culturais e linguísticas com os países da CPLP; o interesse em investimentos nos países africanos; a verificação da importância da língua portuguesa para a China a nível nacional e internacional e os benefícios para a promoção e a difusão da língua portuguesa por meio desse fortalecimento das trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa.

Mais dois aspetos positivos sobre a língua portuguesa na China podem ser mencionados. Um deles concentra-se no mercado de trabalho e o outro nas políticas atuais do governo chinês. Sobre o mercado de trabalho para profissionais de língua portuguesa na China, tem havido alguma pesquisa com foco nas taxas de empregabilidade dos graduados em português na China, em cidades ou províncias específicas, como Pequim, Dalian, Nanquim, Xi’an e Cantão. Os trabalhos de investigação realizados até ao momento, por Ye (2012), Li (2014), Pereira (2014), Sun (2018) e Jatobá (2020), apresentam resultados promissores. Devido a diferentes demandas em vários setores muito diferenciados (iniciativa privada, funcionalismo público, jornalismo, finanças, etc.) e à carência de profissionais capacitados, as taxas de empregabilidade nos diferentes locais mencionados variam entre 72% e 100% para os alunos recém-formados, o que representa dados positivos do português quando comparados com outras línguas estrangeiras.

Sobre as políticas internas e externas da China, é possível verificarmos o impacto de algumas delas ou refletirmos sobre as suas perspetivas. Primeiramente, é possível citar o interesse do governo chinês nos diferentes blocos económicos e nas parcerias internacionais, destacando-se o BRICS (com a presença do Brasil e da China, bem como de parceiros político-ideológicos, como a Rússia e a África do Sul), a UE (de que Portugal faz parte e China tem diversas relações comerciais e diplomáticas), a ASEAN (com a recente adesão de Timor-Leste, em 2025), o Mercosul (com o protagonismo do Brasil) e os diferentes blocos económicos africanos. A China também tem interesse, e poderá beneficiar-se cada vez mais com o incremento da formação em língua portuguesa, por meio do seu uso em diversas entidades e organizações internacionais, incluindo a possibilidade vindoura da sua expansão para a ONU. Outras duas grandes estratégias do governo chinês são a iniciativa “Uma faixa, uma rota”, já mencionada, que procura a adesão de vários países pelo mundo e que, apesar de um interesse maior nas áreas do comércio e da tecnologia e nos diferentes tipos de mobilidade entre os países membros, considera importante o estudo das línguas estrangeiras, possuindo uma ligação com uma política chinesa tradicional, a política de formação de talentos (Wen, 2014; Fu & Wu, 2018), e o programa de formação de talentos em línguas menos comuns na China, que visa fomentar o desenvolvimento desses idiomas nos mais variados setores do país, entre eles a contratação de profissionais estrageiros, a produção de material didático e publicações científicas e a formação inicial e contínua de profissionais chineses. Sobre a formação de talentos em língua portuguesa, leiam-se os trabalhos de Li (2012, 2018).

A encerrar esta secção, é importante referir que apontamos algumas características positivas e de destaque sobre as relações da língua portuguesa e dos países lusófonos com a China, tendo apresentado informação relevante que comprova que o português na China não se limita a Macau, mas se está a expandir notavelmente no interior da China continental. Contudo, chamamos também a atenção para o facto de que tais aspetos positivos devem ser vistos com cautela, visto que há uma série de elementos que podem afetar este desenvolvimento da língua portuguesa em território chinês, como a instabilidade política e económica (a nível nacional ou internacional) ou o advento da IA e outras tecnologias.

3. Os artigos deste dossiê temático

Após este texto introdutório, o volume inicia-se com um conjunto de seis textos classificado no primeiro dos quatro blocos temáticos deste dossiê, a saber: língua portuguesa e ensino (seis artigos), literatura (dois artigos), cultura (dois artigos) e tradução (dois artigos). O primeiro artigo do bloco de língua portuguesa e ensino é o de Minsi Hu, “Construções passivas no Chinês Mandarim e no Português Europeu: uma perspetiva descritiva contrastiva”. Conforme se explicita no título do trabalho, a autora apresenta primeiramente uma breve descrição da passiva em ambas as línguas, chinês mandarim e português europeu, para, em seguida, desenvolver um estudo contrastivo entre as duas, destacando as diferenças morfológicas e tipológicas. O estudo comparativo visa contribuir para um melhor conhecimento dessas línguas e da transferência linguística no processo de aquisição e aprendizagem de línguas estrangeiras, neste caso, o Português Língua Estrangeira (PLE).

Em seguida, no estudo intitulado “Saliência e funções semânticas dos países de língua portuguesa e China em manuais didáticos de Português Língua Estrangeira”, Jiaqi Li analisa a frequência com que ocorrem referências aos países de língua portuguesa em quatro livros didáticos de PLE, bem como o tipo de orações em que aparecem e as suas respetivas funções, utilizando o enquadramento da Linguística Sistémico-Funcional e um estudo quantitativo. Os resultados obtidos pela autora são os esperados, visto que Portugal é o país com maior ocorrência, seguido por escassas referências ao Brasil e a Macau, enquanto as funções semânticas são as mais variadas, a depender da oração, posição e significado, entre outros fatores.

Almiro Ebani de Mello Neto e Anelise Fonseca Dutra investigam o impacto dos métodos interculturais no ensino de PLE no texto “Práticas docentes e estratégias pedagógicas interculturais para o ensino de Português como Língua Estrangeira no eixo sino-brasileiro”. Os autores acreditam que há a possibilidade da construção de pensamento crítico e da formação de identidades e perceções sensíveis à interculturalidade, defendendo, assim, um processo de ensino-aprendizagem distinto, com práticas de aprendizagem compartilhada, ressignificação e transformação dos aprendentes, bem como das suas ideias, conhecimentos e comportamentos.

De maneira semelhante, em “Culturas de partida e de chegada no ensino de PLE: considerações sobre a prática da oralidade em sala de aula”, Yushan Zhong também enfatiza o ensino de aspetos culturais na aula de PLE e as vantagens do pós-método. A fim de ilustrar os seus pontos de vista, a autora apresenta um planeamento de aulas como exemplo, com foco no ensino da oralidade por meio de um elemento cultural específico (bebidas alcoólicas em Portugal, Brasil e China), utilizando diversas microestratégias, de acordo com a proposta do pós-método.

O artigo de Sara Pita, “Emotions as the core of the development of argumentative competence a study with Chinese PLE students”, apresenta o resultado de uma pesquisa diferente das anteriores, visto que a autora investigou o papel das emoções nas sequências argumentativas de aprendentes chineses de PLE em atividades em sala de aula, chegando à conclusão de que elas são centrais para o desenvolvimento de todo o processo argumentativo elaborado pelos participantes.

O último artigo deste primeiro bloco de língua portuguesa e ensino é da autoria de Xiang Zhang e Vanessa Amaro, intitulando-se “Das percepções discentes e docentes às implicações pedagógicas: pesquisa-ação sobre o ensino da transedição jornalística português-chinês em uma Universidade de Macau”. As autoras conduziram uma investigação por meio de métodos qualitativos a fim de verificar as dificuldades das práticas de retextualização para a edição jornalística de estudantes universitários numa instituição macaense. Entre os resultados encontrados, destacam as dificuldades da redação de tais práticas e a necessidade de oferta de disciplinas com foco no jornalismo, pensando nas demandas do mercado de trabalho atual.

O segundo bloco, dedicado à literatura, consta de apenas dois textos. O primeiro, da autoria de Lola Geraldes Xavier e Sara Augusto, intitula-se “Camões em Macau: substrato e memória de uma presença física e cultural”. Neste artigo, as autoras realizam um estudo das biografias camonianas e respetivas fontes, das memórias e da produção literária de Camões, apontando aspetos prováveis e (im)possíveis a respeito da sua presença em Macau, e, com isso, relacionando características da vida e obra do mais célebre autor de língua portuguesa.

O segundo artigo é “Literatura comparada: pontes do Oriente ao Ocidente. O ensino de Camilo Castelo Branco e de ‘Os Amantes Borboleta’ em contexto intercultural”, de Liliana Isabel da Cunha Soares e Qian Tong. As autoras, partindo de conceitos de literatura comparada e intertextualidade, propõem um projeto que tem como foco o trabalho de leitura, na aula de PLE, da obra Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, e do conto tradicional chinês Os amantes borboleta, observando aspetos temáticos, culturais e tradicionais comuns e distintos em ambas as obras.

O terceiro bloco, de estudos culturais, começa com o texto de Maria da Graça Gomes Fernandes, Xiaoyan Wang e Meng Ye subordinado ao título “Comunidade macaense de Macau: um estudo de caso”, no qual conduzem uma investigação por meio do levantamento de dados de jovens macaenses com o objetivo de observar como se encaixa esta nova geração na respetiva comunidade atual.

Já o artigo de Ricardo Pereira e Pedro Brancher, “O olhar da academia chinesa para o Brasil: uma revisão de escopo dos artigos sobre o Brasil publicados em periódicos chineses entre 2018 e 2023”, enquadra-se apenas num conceito amplo de cultura, visto que elaboram um estudo bibliométrico nas bases de dados CNKI e WanFang quantificando trabalhos científicos em língua chinesa publicados entre 2018 e 2023 tendo como tema o Brasil, nas mais variadas áreas do conhecimento. Os autores argumentam que ainda existe uma lacuna nos estudos sino-brasileiros pelo facto de muitos pesquisadores não consultarem fontes chinesas, pelas mais variadas razões. Os resultados obtidos mostram que as publicações académicas chinesas sobre o Brasil, no período citado, se focam apenas em dois grandes temas: a divulgação da governança (ingl. statecraft) chinesa no Brasil e o estudo, por parte dos chineses, das políticas brasileiras e da possibilidade de implantação destas na China.

Finalmente, no primeiro dos dois artigos do bloco de estudos de tradução, da autoria de Wang Chengxu, com o título de “Uso de conjunções pelos intérpretes aprendentes chineses na interpretação consecutiva português-chinês: estudo baseado em corpus”, a autora conduz uma investigação a respeito do modo como os aprendentes chineses utilizam conjunções em interpretações consecutivas, verificando a frequência e o uso dessa classe de palavras. Os resultados alcançados apontam no sentido de que as conjunções mais utilizadas são as aditivas e as adversativas, conquanto haja também certas dificuldades e desvios por parte de alguns estudantes e profissionais. A investigadora termina o seu artigo com uma proposta que defende a necessidade de enfatizar o ensino de conjunções na formação de profissionais da área da tradução e interpretação.

O último artigo selecionado para este dossiê temático é “Sequestro enquanto tradução feminista? Um estudo comparado das traduções inglesa e portuguesa de ‘O problema dos três corpos: o passado do planeta Terra’”. Nele, a autora, Gaozhao Chen, debruça-se sobre questões de tradução comparada, ao verificar se os conceitos e práticas da tradução feminista empregues na tradução inglesa de O Problema dos três corpos, de Liu Cixin, também são utilizados na tradução portuguesa do mesmo livro.

4. Varia e Recensão

Este volume da Diacrítica (39.3) apresenta ainda cinco artigos na secção Varia e uma Recensão. Estes trabalhos são dedicados, na sua maioria, às áreas do cinema e literatura, com exceção do último trabalho, que se dedica ao debate duma questão no campo da teologia.

O primeiro texto da secção Varia é de Tiago Ramos e intitula-se “Nope. Uma parábola sobre o aparato do cinema”; nele, o autor elabora um estudo a partir do filme Nope (Jordan Peele, 2022), com reflexões a respeito de como as imagens e o cinema podem influenciar os sentimentos e pensamentos humanos.

Em “Bull’s-eye agency in audiovisual adaptations of Oliver Twist (1838), by Charles Dickens”, Helena I. Lopes preocupa-se com as diferentes soluções audiovisuais nas adaptações do romance Oliver Twist, de Charles Dickens, para a personagem Bull’s-eye, um cão. Neste contexto, a autora discute questões que poderiam ser classificadas como pertencentes ao campo da ecocrítica, apesar de o texto não se referir a esta área, sobre conceções e representações de animais não humanos em diferentes meios semióticos, particularmente televisão e cinema.

Neste último campo, o do cinema, o artigo intitulado “Música que não ri sozinha. Música e humor no cinema de João César Monteiro”, de José Nicolau Pinto, analisa as funções que a música assume na obra cinematográfica de João César Monteiro. O autor conclui que o elemento musical é complexo, não podendo ser reduzido a uma única função ou regra, visto que, em diferentes filmes e cenas, apresenta significados distintos, com apenas uma parte relacionada ao humor.

No artigo “A Brasileira de Prazins: questões de estilo”, Cristina Sobral trata uma questão interessante em relação às duas versões existentes do romance A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco. A primeira foi publicada no formato de folhetim em A arte, em 1879, enquanto a segunda veio a lume na forma de livro, pela Livraria Chardron, em 1882. O tema do artigo pode ser resumido, porém, em duas questões interligadas: o que levou Camilo a demorar anos para publicar a segunda versão do seu romance, e o que mudou duma versão para a outra. A autora faz comparações entre ambas as fontes documentais e conclui que a segunda versão é mais extensa e intensifica o “tom” do novo estilo realista na obra camiliana.

“Did Paul think Christ was a pre-existent being?”, da autoria de Pedro Rosário, é dedicado à teologia e propõe uma releitura de certas passagens das cartas do apóstolo Paulo para resolver uma questão central da cristologia encarnacionista: “Jesus Cristo era um ser divino que se fez homem ou um homem que foi transformado num ser divino?”. A conclusão do autor é que o apóstolo Paulo se enquadra na Cristologia adocionista, com o surgimento, primeiro, de Cristo como homem, sendo posteriormente adotado por Deus e unido ao Espírito Santo.

O último artigo da secção Varia, intitulado “Música que não ri sozinha. Música e humor no cinema de João César Monteiro”, José Nicolau Pinto elabora uma reflexão sobre o humor no cinema de João César Monteiro, procurando estabelecer ligações entre diferentes elementos, por exemplo musicais ou textuais, da sua cinematografia para atingir momentos de comicidade.

Finalmente, o volume 39.3 da revista Diacrítica encerra com uma recensão de Marcela Faria do livro Uma história da Linguística, da autoria de Marcos Bagno.

Referências

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1 Digno de nota é que, anteriormente, Esperança (2009) e Reto (2012), já haviam investigado os valores e potencial económico da língua portuguesa, o que contribui para a sua internacionalização, uma vez que pode ser encarada como um importante ativo económico para outros países.

Recebido: 16 de Janeiro de 2026; Aceito: 19 de Janeiro de 2026

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