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Revista Portuguesa de Imunoalergologia

versão impressa ISSN 0871-9721versão On-line ISSN 2184-3856

Rev Port Imunoalergologia vol.33 no.2 Lisboa jun. 2025  Epub 30-Jun-2025

https://doi.org/10.32932/rpia.2025.06.161 

EDITORIAL

Desafios na abordagem diagnóstica e terapêutica em Imunoalergologia: Reforçar o valor multidimensional da especialidade!

Ana Margarida Pereira1 
http://orcid.org/0000-0002-5468-0932

1 Unidade de Imunoalergologia, CUF-Porto Hospital e Instituto, Porto, Portugal


O âmbito de atuação da Imunoalergologia é muito amplo, sem limites de idade e abordando patologias que tocam a área de ação de várias outras especialidades. Este espetro alargado é complementado pela constante evolução tecnológica e científica, que tem vindo a criar novas oportunidades de atuação, bem como novos desafios. De facto, os desenvolvimentos recentes do ponto de vista diagnóstico e terapêutico têm vindo a aumentar a complexidade da atuação do Imunoalergologista.

A diversidade, amplitude da ação e desafios para a Imunoalergologia são claros no presente número de Revista Portuguesa de Imunoalergologia, que inclui, por exemplo: 1) Um artigo original que, através da análise retrospetiva de 67 doentes tratados com imunoterapia com veneno de vespídeos, reforça a eficácia e a segurança deste tratamento,1 o único com efeito modificador da doença e que tem indicação formal nos doentes com anafilaxia a veneno de vespídeos. Apesar dos desenvolvimentos recentes na capacidade e precisão diagnóstica, que têm permitido melhorar o tratamento dos doentes polissensibilizados a venenos, continua a haver necessidade de melhorar a evidência disponível e de a traduzir numa melhor estandardização dos extratos para imunoterapia. 2) Um artigo de revisão sobre tosse crónica, uma patologia complexa, com múltiplos diagnósticos diferenciais e em que é frequente encontrar mais do que uma etiologia (em cerca de 30%) ou não se conseguir identificar uma etiologia bem definida (com até 40% classificados como tosse crónica idiopática)2, O papel da Imunoalergologia é fundamental no diagnóstico diferencial e na abordagem adequada das suas causas mais frequentes, que incluem, por exemplo, a asma, a patologia das vias aéreas superiores e a bronquite eosinofílica não asmática(2). 3) Uma carta ao editor sobre rinite alérgica dupla, um fenótipo de rinite descrito recentemente e que se caracteriza pela coexistência de rinite alérgica com rinite alérgica local3. Este fenótipo é frequentemente subdiagnosticado, uma vez que a sua identificação implica a realização de provas de provocação nasal, um método diagnóstico específico da Imunoalergologia, que atualmente, em Portugal, ainda está muito pouco implementado na prática clínica.

A capacidade de abordar de forma diferenciada e integrada as várias manifestações da doença alérgica ao longo da vida (fundamental no diagnóstico e tratamento de patologias complexas, como a tosse crónica), associada a um conhecimento cada vez mais profundo e preciso sobre os mecanismos subjacentes, com impacto no tratamento (p. ex. estando na base do uso de biológicos), é uma das maiores forças da Imunoalergologia (Figura 1). Adicionalmente, a disponibilidade de recomendações clínicas desenvolvidas com base em práticas metodológicas cada vez melhores e mais inovadoras, incluindo com o apoio de inteligência artificial,4 de que são exemplo as novas recomendações ARIA (Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma) para tratamento de rinite alérgica, a publicar em 2025, torna esta especialidade um exemplo a seguir. Estas forças aliam-se a oportunidades criadas pela evolução epidemiológica, pelo aumento da sensibilização pública para as patologias alérgicas e pela disponibilidade de novas ferramentas que apoiam o seu diagnóstico e caraterização mais precisa (Figura 1). A tradição de investigação clínica própria e em colaboração com profissionais de outras áreas (p. ex. farmacêuticos, informáticos) abre portas para uma evolução multidimensional, baseada na evidência e com uma vertente prática que lhe confere maior potencial para implementação na prática clínica. Um exemplo recente de colaboração multidisciplinar culminou na aprovação de financiamento para o projeto VIGIA - Sistema de VIGilância de medicamentos e dispositivos médicos com Inteligência Artificial5, que visa a melhoria da colheita e análise at the point of care de informação relativa a reações adversas a medicamentos e dispositivos médicos, com um foco particular na alergia medicamentosa.

Figura 1 Análise SWOT (Strengths, Weaknesses, Opportunities, Threats) da abordagem diagnóstica e terapêutica em Imunoalergologia, em 2025 

Estas forças e oportunidades são contrabalançadas pelas desigualdades no acesso à Imunoalergologia e às suas terapêuticas mais diferenciadas (p. ex. biológicos), com outras especialidades a aproveitar a baixa capacidade de resposta e a alargar a sua atuação a áreas caracteristicamente imunoalergológicas (p. ex. alergia alimentar e medicamentosa; Figura 1). A melhoria no acesso à especialidade de Imunoalergologia, promovendo um alargamento do número de locais onde está disponível, fortalecendo os locais onde já existe e criando mecanismos para minimização das iniquidades no acesso às terapêuticas, é fundamental para um diagnóstico e tratamento precoce e adequado, acessível a todos os que deles necessitam.

Em suma, a Imunoalergologia tem um papel cada vez mais forte e central no diagnóstico e abordagem de múltiplas patologias, com um horizonte pleno de oportunidades.

No entanto, é fundamental trilhar caminho para minimizar as fraquezas atuais e enfrentar as ameaças externas e internas que podem pôr em risco a evolução da especialidade.

REFERÊNCIAS

1. Coelho AC, Lages M, Areia M, Dias LP, Cadinha S, Barreira P, et al. Eficácia da imunoterapia com veneno de vespídeos: Experiência de um Hospital Central em Portugal. Rev Port Imunoalergologia.2025. [ Links ]

2. Bragança M, Vasconcelos MJ, Amaral L. Tosse crónica. Rev Port Imunoalergologia . 2025;33:1-15. doi: 10.32932/rpia.2025.03.157 [in press]. [ Links ]

3. Lopes JC, Cunha F, Loureiro G. Rinite alérgica dupla. Rev Port Imunoalergologia 2025;33:1-4. doi: 10.32932/ rpia.2025.03.159 [in press]. [ Links ]

4. Sousa-Pinto B, Vieira RJ, Marques-Cruz M, Bognanni A, Gil-Mata S, Jankin S, et al. Artificial intelligence-supported development of health guideline questions. Ann Intern Med 2024;177(11):1518-29. doi: 10.7326/ANNALS-24-00363. [ Links ]

5. Portugal 2030. Lista de operações aprovadas Portugal 2030 [Internet]. 2025 [citado 21 de maio de 2025]. Disponível em: https://portugal2030.pt/wp-content/uploads/sites/3/2025/05/PT2030-Lista-Operacoes-a-Publicar_30-abril-2025.xlsxLinks ]

Recebido: 29 de Junho de 2025; Aceito: 30 de Junho de 2025

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