A alergia à carne de frango é rara, apresenta uma incidência estimada de 0,6%-5%1,2. Afeta predominantemente crianças e jovens adultos. Consoante a via de sensibilização, existem dois tipos de alergia à carne de frango: primária ou secundária, como o caso da egg-bird síndrome em que a alergia à carne de frango ocorre por reação cruzada com alergénios do ovo3.
Relativamente à reatividade cruzada entre a carne de aves, são frequentes resultados duplamente positivos ao frango e peru em testes por picada e picada-picada, devido à elevada semelhança estrutural entre as suas proteínas4,5. Também se encontra descrita, embora seja menos prevalente, a reatividade cruzada entre a carne de frango e a carne de outras aves, nomeadamente a de pato, faisão ou ganso5,6. Casos raros de reação cruzada entre a carne de frango, a carne vermelha, a de peixe e camarão também estão descritos.
O tratamento para a alergia à carne de frango é a sua evicção e a dos produtos que possam contê-la. Em caso de ocorrerem reações alérgicas ligeiras, anti-histamínicos podem ser usados para alívio dos sintomas. Já em caso de reações graves, como anafilaxia, a prescrição de um dispositivo de autoadministração de epinefrina (adrenalina) é necessária.
Descrevemos o caso clínico de uma mulher de 36 anos, sem antecedentes pessoais relevantes, com história de três episódios de prurido e urticária aguda generalizada, com componente de angioedema palpebral. No primeiro episódio 20 minutos após ingestão de carne de frango assado sem temperos e/ou conservantes e no segundo aproximadamente no mesmo intervalo de tempo.
Deve ser destacado que no terceiro e último episódio ocorreram 5 minutos após a ingestão de uma fatia de piza com frango, com resolução em 1 hora, após toma de 1 anti-histamínico oral. Referia tolerância prévia a carnes de aves. Negava outra sintomatologia associada nomeadamente febre, alterações gastrointestinais, respiratórias ou cardiovasculares. Negou ainda a presença de outros cofatores, nomeadamente a ingestão de álcool ou fármacos, picada por himenópteros, contacto com animais domésticos ou a realização de exercício físico.
Foi referenciada a consulta de alergia alimentar, onde realizou: 1) Testes cutâneos por picada a extratos comerciais a alimentos e ainda picada-picada com carne de frango e carne de peru cozinhadas, que foram positivos, apresentando pápulas de 7,5mm e 3mm respetivamente (Figura 1); 2) Doseamento de IgE específicas para carne de frango e peru, que foram negativas. Para avaliar a reatividade cruzada com outras carnes de aves foram realizadas provocações oral (PPO) com peru e pato, que foram negativas. A identificação de sensibilização a determinados aeroalergénios em testes por picada e por IgE’s especificas séricas foram negativas. Recomendou-se a evicção da carne de frango e a liberalização do consumo de carne de outras aves, incluindo a de peru.

Figura 1 Testes picada-picada positivos a carne de frango e peru cozinhadas, apresentando pápulas de 7,5mm e 3mm respetivamente. Os testes em picada-picada expõem a epiderme ao alimento fresco, aumentando a sensibilidade do teste.
Descrevemos assim um caso de alergia isolada à carne de frango que se enquadra numa alergia primária.
Apesar do consumo de carne de frango ser muito popular, a alergia a esta carne é reportada como rara. Os casos de sensibilização secundária são os mais descritos na literatura1,4.
A alergia primária afeta predominantemente adolescentes e jovens adultos, apesar da hipersensibilidade poder desenvolver-se em idades pré-escolares. A ausência de história pessoal de alergia ao ovo e/ou penas de aves é requisito para o diagnóstico2. Este tipo de reação alérgica é presumidamente dirigida a alergénios termo-resistentes presentes na carne de frango, com ausência de sensibilização ao ovo e a penas de aves. Por regra, acompanha-se de sensibilização a outras carnes de aves5. A via principal de exposição aos alergénios é pela ingestão, podendo ocorrer por inalação de vapores durante a cozedura. As carnes de frango e peru apresentam elevada reação cruzada entre si, sendo esta co-sensibilização presente na maioria dos casos, enquanto que a sensibilização à carne de pato ou ganso é menos frequente1.
Curiosamente, existem casos descritos de doentes com alergia à carne de frango com alergia a outros alimentos associados, como o peixe ou carne de vaca7.
Os sintomas de alergia à carne de frango mais reportados são de reações IgE-mediadas, como a urticária, síndrome de alergia oral e raramente a anafilaxia, porém estão descritos também casos de colite não-IgE mediada8. O presente caso enquadra-se num quadro reprodutível de urticária aguda com angioedema após a ingestão de carne de frango isolada sem cofatores presentes para a reação.
Os casos de alergia secundária ocorrem por reaçãocruzada entre albuminas séricas presentes no ovo, em penas e na carne de frango. Nestes casos, a sensibilização primária pode ocorrer na fase adulta pela via respiratória por exposição a penas de aves (bird-egg-syndrome) ou em fases mais precoces, como descrito em crianças com alergia ao ovo no primeiro ano de vida (egg-bird-syndrome)1. Oposto aos casos de alergia primária à carne de frango, os alergénios envolvidos nestas síndromes são predominantemente albuminas séricas termolábeis, pelo que raramente surgem sintomas com a ingestão do alimento cozinhado. Assim sendo, as reações são comuns com a exposição ao alimento cru e podem manifestar-se por quadros ligeiros de reações de contacto a quadros mais graves com reações sistémicas8.
O diagnóstico de alergia a carne de frango é clínico e suportado pela positividade aos testes cutâneos por picada à carne de frango, pelo doseamento de IgE específica sérica ou pelo teste de ativação de basófilos (BAT).
Do ponto vista molecular, apesar dos perfis de sensibilização serem complexos e ainda pouco conhecidos foram identificadas imunoglobulinas E dirigidas à proteína α-parvalbumina do músculo (Gal d 8) numa série de casos de doentes com alergia primária à carne de frango. Os autores encontraram uma homologia da Gal d 8 com as parvalbuminas presentes na carne do peru, vaca e cavalo2,9. Recentemente, identificou-se um novo antigénio major implicado na alergia primária à carne de aves: a cadeia leve miosina 1 (Gal d 7), uma proteína termo‑resistente semelhante a proteínas homólogas da carne de peru, ganso, pato e faisão10. Por outro lado, a albumina sérica (Gal d 5) também é um alergénio major e responsável pela alergia secundária à carne de frango pela sua presença concomitante na gema do ovo. Quanto à fish-chicken syndrome, esta parece ocorrer por homologia de enolases, aldolares e parvalbuminas comuns a esses alimentos.
As provas de provocação são o gold-standard para a confirmação de alergias, tendo um papel relevante em doentes com suspeita de alergia alimentar. Neste caso a doente apresentava-se em restrição alimentar a todas as carnes de aves. Apesar do risco de reação cruzada entre a carne de frango e peru, optou-se por avançar com a prova de provocação à segunda, pela fraca positividade a esta carne evidenciada nos testes cutâneos picada-picada (pápula de 3mm), assim como pela ausência de sintomatologia prévia com a ingestão de peru.
Em conclusão, este caso raro de alergia isolada à carne de frango realça a importância da investigação na área da Imunoalergologia, não só na confirmação da alergia alimentar, senão também na avaliação da reatividade cruzada entre alimentos presumivelmente relacionados. Só assim poderemos evitar a estes doentes restrições alimentares desnecessárias, que causariam um grande impacto a nível psicológico e social.














