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Revista Portuguesa de Imunoalergologia

versão impressa ISSN 0871-9721versão On-line ISSN 2184-3856

Rev Port Imunoalergologia vol.33 no.2 Lisboa jun. 2025  Epub 30-Jun-2025

https://doi.org/10.32932/rpia.2025.03.159 

CARTA AO EDITOR

Rinite alérgica dupla

Dual allergic rhinitis

1 Serviço de Imunoalergologia, Unidade Local de Saúde de Coimbra, Coimbra, Portugal


A rinite alérgica dupla (RAD), fenótipo descrito por Eguiluz-Gracia et al. 1, consiste na sensibilização local (reatividade nasal) e sistémica a diferentes aeroalergénios, ou seja, na coexistência de rinite alérgica (RA) e rinite alérgica local (RAL). O fenótipo mais descrito é caracterizado pela presença de rinite perene com agravamento sazonal, sensibilização a aeroalergénios sazonais (pólens) e reatividade nasal a alergénios perenes e sazonais (ácaros e fungos), sugerindo que a sensibilização local é distinta da sistémica 1.

A RAD parece ser um fenótipo relevante tanto em crianças como em adultos, com uma prevalência estimada de 11,6% na população pediátrica e de 82,1% na adulta2. O diagnóstico de RAD deve ser considerado em doentes atópicos, cuja sensibilização a aeroalergénios não se correlaciona com o padrão dos sintomas nasais.

Em relação à patofisiologia, os estudos ainda são limitados. Tradicionalmente, acreditava-se que a produção de plasmócitos secretores de IgE por class switch recombination (CSR) ocorria apenas nos tecidos linfoides. No entanto, estudos demonstraram que a CSR ocorre também localmente, na mucosa nasal de doentes asmáticos e não asmáticos. A CSR e subsequente produção de IgE requerem IL-4, IL-13 e ligante CD40, que, ao ligar-se ao CD40 na superfície das células B, permite a continuidade do processo. O ligante CD40 é expresso por mastócitos e células Th2 ativadas. Pawankar et al. 3 demonstraram que mastócitos nasais ativados segregam níveis mais elevados de IL-4 e IL-13 comparativamente aos linfócitos T nasais ativados, promovendo a síntese de IgE. Como ambos os sinais necessários para a CSR estão presentes na mucosa, presume-se que este processo também ocorra localmente.

Os recetores FcεRI têm elevada afinidade para a IgE, de modo que as IgE livres só são detetadas perante saturação dos recetores. Na RA, as IgE produzidas localmente ocupam os recetores FcεRI nas células efetoras, entrando posteriormente na circulação sistémica e ligando-se aos recetores FcεRI dos basófilos. Nos doentes com RAL, a produção de IgE parece insuficiente para atingir os tecidos periféricos, o que justifica testes cutâneos negativos, IgE indetetáveis no soro e baixas nas secreções nasais, apesar de prova de provocação nasal específica (PPNE) e teste de ativação de basófilos (TAB) positivos 3.

O diagnóstico (Figura 1) de RAD recorre, em primeira linha, aos testes cutâneos por picada (TCP), utilizados para demonstrar sensibilização IgE-mediada, devido à sua elevada sensibilidade e especificidade. No entanto, um TCP positivo apenas confirma a sensibilização, sendo necessária correlação clínica. Perante sintomatologia sugestiva, mas resultados de TCP não correlacionáveis ou díspares, deve-se considerar RAL ou RAD, sendo a PPNE o gold standard no diagnóstico destas entidades4. Recentemente, um protocolo de consenso foi desenvolvido numa tentativa de padronização deste método diagnóstico 4. Adicionalmente, o TAB e a quantificação de IgE nasal também têm sido propostos como biomarcadores úteis para o diagnóstico de RAL 1.

TCP Testes cutâneos por picada; PPNE - Prova de provocação nasal específica; TAB - Teste de ativação de basófilos. 

Relativamente ao tratamento, a literatura disponível ainda é limitada, não existindo recomendações específicas para a RAD. No entanto, é possível que o tratamento siga as mesmas linhas de abordagem da RA e RAL, incluindo educação para a saúde, evicção alergénica e tratamento sintomático com corticosteroides nasais e anti-histamínicos orais e/ou intranasais.

A imunoterapia com alergénios (ITA), o único tratamento capaz de alterar a história natural da doença, pode ser relevante no tratamento da RAD, embora ainda não existam dados suficientes que validem a sua eficácia neste fenótipo. Contudo, a ITA tem uma eficácia bem estabelecida na RA, e alguns estudos sugerem benefícios em doentes com RAL 2. A menor eficácia da ITA em alguns casos de RA pode, inclusive, estar relacionada com a presença concomitante de sensibilização sistémica e local (RAD).

Embora os diferentes fenótipos de rinite sejam reconhecidos, as características que os distinguem ainda não estão completamente esclarecidas. A introdução dos conceitos de RAL e RAD evidenciou que atopia e alergia são fenómenos complexos que requerem métodos de diagnóstico diferenciados.

Adicionalmente, Powe et al. introduziram o conceito de entopia, que consiste na presença de sintomas alérgicos perante ausência de sensibilização sistémica detetável por testes cutâneos ou doseamento de IgE específica 5.

Enquanto a atopia se associa a uma predisposição genética para a produção de IgE específica em resposta a alergénios comuns, a entopia caracteriza-se por uma resposta alérgica local que não é detetável pelos métodos de diagnóstico convencionais. Assim, uma abordagem diagnóstica diferenciada é essencial para caracterização e tratamento dos diferentes fenótipos de rinite.

Apresentamos três casos clínicos que exemplificam a abordagem diagnóstica e terapêutica a considerar na RAD.

Criança do sexo masculino, 8 anos de idade, referenciada à consulta de Imunoalergologia por queixas perenes de obstrução nasal desde os 4 anos, com agravamento sazonal na primavera desde os 7 anos. Os TCP (extratos Leti®) revelaram sensibilização ao pólen de gramíneas, e a PPNE foi positiva para Dermatophagoides pteronyssinus (DP).

Criança do sexo masculino, 11 anos de idade, com rinorreia, esternutos e prurido nasal persistentes desde os 3 anos, mal controlados com terapêutica médica otimizada.

Os TCP revelaram sensibilização a DP e Lepidoglyphus destructor (LD), tendo sido cumprida ITA durante 4 anos, com bom controlo clínico. Um ano após o término da ITA, iniciou sintomas sazonais, realizando posteriormente uma PPNE, positiva para Phleum pratense.

Mulher de 31 anos, com rinoconjuntivite perene, de agravamento polínico, com TCP positivos para Poa pratensis e PPNE positiva para DP, LD e pólen de gramíneas. Está atualmente sob ITA com DP, LD e pólen de gramíneas, com melhoria clínica. Até ao momento, a evidência sobre a RAD é limitada, sendo necessários mais estudos para clarificar este fenótipo. Com este trabalho, procuramos colocar em evidência este “novo” fenótipo, discutir os critérios para o seu diagnóstico, enfatizar a importância de métodos diagnósticos adicionais, como a PPNE, de forma a clarificar o perfil de sensibilização de cada doente e expor a ITA como um tratamento também eficaz neste fenótipo.

Referências

1. Eguiluz-Gracia I, Fernandez-Santamaria R, Testera-Montes A, Ariza A, Campo P, Prieto A, et al. Coexistence of nasal reactivity to allergens with and without IgE sensitization in patient with allergic sensitization in patient with allergic rhinitis. Allergy. 2020 Jul;75(7):1689-98. doi: 10.1111/all.14206. [ Links ]

2. Mortada MM, Kurowski M. Challenges in local allergic rhinitis diagnosis, management, and research: Current concepts and future perspectives. Medicina (Kaunas) 2023 May 11;59(5):929. doi: 10.3390/medicina59050929. [ Links ]

3. Pawankar R, Yamagishi S, Yagi T. Revisiting the roles of mast cells in allergic rhinitis and its relation to local IgE synthesis. Am J Rhinol 2000 Sep Oct;14(5):309-17. doi: 10.2500/105065800781329582. [ Links ]

4. Augé J, Vent J, Agache I, Airaksinen L, Campo Mozo P, Chaker A, et al. EAACI Position paper on the standardization of nasal allergen challenges. Allergy 2018 Aug;73(8):1597-608. doi: 10.1111/all.13416. [ Links ]

5. Powe DG, Bonnin AJ, Jones NS. ‘Entopy’: Local allergy paradigm. Clin Exp Allergy 2010 Jul;40(7):987-97. doi: 10.1111/j.1365-2222. 2010.03536.x. [ Links ]

Recebido: 04 de Julho de 2024; Aceito: 16 de Setembro de 2024

Autor correspondente João Cardoso Lopes Serviço de Imunoalergologia dos Hopitais da Universidade de Coimbra (HUC) Unidade Local de Saúde de Coimbra (ULS de Coimbra) Praceta Prof. Mota Pinto 3004-561 Coimbra, Portugal Email: joaolopes1493@gmail.com

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