Num ano marcado pela efeméride dos 75 anos da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC) olhamos também para a Revista Portuguesa de Imunoalergologia (RPIA), revendo o passado, aprendendo com ele e projetando o futuro.
O livro de Susana Amaro Velho1 celebra este momento, compilando a história da SPAIC através dos olhos dos seus presidentes. Nele, a RPIA é identificada por Luís Delgado como… uma das linhas mais importantes na congregação da informação científica. Neste editorial, que finaliza o triénio desta equipa editorial da RPIA, recordo a linha que acompanhei ao longo destes anos, reflito sobre ela e revejo o desejo de futuro.
A publicação científica e a comunicação enfrentam novos desafios focados na entrada e, em algumas situações, quase de fusão da utilização da “inteligência artificial” dos large language models no processo de escrita e publicação. Assumi isso no meu primeiro editorial 2 e na revisão das normas editoriais incluímos a necessidade de transparência e regulação do seu uso 3. Atualmente, na revisão e no processo editorial, a verificação, a transparência e o impacto do seu uso são cada vez maiores. O reconhecimento do impacto da inteligência artificial foi fundamental para a indexação da RPIA na Directory of Open Access Journals (DOAJ). Esta marca foi um momento essencial deste triénio. Torna esta revista não só um elemento agregador de informação científica fiável, mas também disseminador e porta de acesso à ciência. Um dos desafios para o futuro citado por Mário Morais de Almeida no livro de Susana Amaro Velho é… garantir o acesso equitativo… 1. A publicação em português da RPIA melhora o acesso em países cuja língua oficial é portuguesa, tanto em África como no Brasil (em que a cooperação com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia permite a publicação no formato de português do Brasil). A possibilidade de publicar em inglês, língua de referência na publicação científica, melhora a divulgação global. Adicionalmente, o acesso aberto e gratuito ao conteúdo desta revista, que inclui protocolos clínicos da nossa sociedade, permite a disseminação dos melhores cuidados. A investigação científica em diferentes áreas e países pode expor o seu trabalho e experiência de forma gratuita na RPIA, algo que nem sempre é possível em outras revistas. A RPIA acaba por espelhar os interesses de quem procura melhorar o conhecimento científico e os cuidados médicos nos diferentes locais.
“A medicina é diferente e exige um maior conhecimento, daí a necessidade de criar áreas de diferenciação”, como refere Elisa Pedro1. A RPIA é diferente e está diferente. Numa leitura estratégica da produção da RPIA em 2023, analisava-se ainda o impacto da pandemia COVID em paralelo com um maior interesse na área de alergia a fármacos e das patologias cutâneas, nomeadamente na urticária e angioedema; em 2024 nota-se uma maior representação de áreas associadas, por um lado à abordagem dos erros inatos da imunidade, por outro a terapêuticas diferenciadas no doente com alergia grave, com as normas de orientação em imunoterapia oral na alergia alimentar, apresentadas de forma didática na página educacional; em 2025, há um foco progressivo na perspetiva também do ambiente, dos alergénios e do impacto ambiental. Temos, contudo, áreas que podem, e devem, ser mais bem representadas: a patologia respiratória, a asma, a rinite e a rinosinusite; patologias gastroenterológicas como a esofagite eosinofílica ou patologia cutânea, como a dermatite atópica que, pela mudança na abordagem terapêutica imunomodeladora, podem e devem ser áreas de expansão. A visão dos nossos autores está na linha da perspetiva de futuro de Ana Todo Bom, que tem o doente no centro do cuidado: É preciso, sim, melhorar o controle, melhorar a situação clínica dos doentes; caminhamos no bom sentido, ainda que existam cada vez mais desafios1. Esses desafios foram elencados no editorial de Ana Margarida Pereira, com uma análise em formato SWOT4. Para dar resposta a estes desafios, temos, tal como Manuel Branco Ferreira refere em relação à SPAIC, e notamos também na RPIA A sua capacidade de inovação e seguimos no futuro com o exemplo de Ana Morete: É sempre importante relembrar que podemos sair fora da caixa e fazer mais, desejar mais1. Num esforço de adaptação e crescimento, continuamos a analisar e partilhar ciência, dar formação, fazer a Imunoalergologia crescer com qualidade e rigor. O mundo exige uma adaptação, mas, como José Rosado Pinto aconselha aos jovens imunoalergologistas, e que recebemos também como RPIA, Adaptem-se sem perder valores1. Numa luta contínua para sobrevivência ameaçada por um universo competitivo, é importante também homenagear, como o fiz usando os ensinamentos dos presidentes da SPAIC neste editorial, as palavras de Maria Graça Castelo Branco e o que sinto para a RPIA: Lutamos por reconhecimento e temos hoje uma sociedade que apela à componente formativa, à partilha e à presença. A presença da RPIA deve crescer, deve chegar mais longe e mudar ao mesmo passo do mundo, mas não nos deve desvirtuar, nem mudar a essência, que é ser uma fonte confiável e segura de informação científica que usamos em prol dos nossos doentes e do melhor cuidado médico.














