(Figura 3.)

Figura 3. DPI - Inalador de pó seco; GEE - Gás com efeito de estufa; PAG - Potencial de aquecimento global; pMDI - Inaladores pressurizados de dose calibrada. Graphical abstract. Resumo dos principais dados sobre o impacto ambiental dos inaladores e das estratégias para o reduzir
Introdução
O impacto ambiental do setor da saúde não é negligenciável, sendo responsável por 4,4% das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) a nível mundial. Os GEE contribuem para o aquecimento global e alterações climáticas e têm sido o foco de múltiplas iniciativas com o objetivo de reduzir a sua libertação1-3. Os três principais responsáveis por este impacto ambiental do setor da saúde são os Estados Unidos (27%, 546 MtCO2eq/ano), a China (17%, 342 MtCO2eq/ano) e a União Europeia (12%, 248 MtCO2eq/ano), que globalmente contribuem com 56% das emissões de CO2 na saúde. Em Portugal, este setor representa 4,8% (3,61 MtCO2eq/ano) das emissões de CO2 (equivalente a 764 331 veículos de passageiros durante um ano) 1,2. A maioria das emissões de CO2 (71%) provém da cadeia de abastecimento, incluindo produção, embalagem, transporte e descarte de bens, e serviços adquiridos pelos cuidados de saúde (p.e., produtos farmacêuticos e outros produtos químicos, dispositivos médicos e equipamentos hospitalares) 1,2. As restantes são provenientes das emissões diretas associadas ao funcionamento das instalações de saúde (17%) e das emissões indiretas associadas à distribuição de eletricidade/gás para aquecimento e/ou arrefecimento (12%) 1,2.
Os produtos farmacêuticos foram associados a 7,6‑35,7% das emissões de GEE 4-6, sendo considerados especialmente relevantes os gases usados em contexto anestésico4, e os medicamentos usados para o tratamento da asma e de outras patologias obstrutivas das vias aéreas 7. A terapêutica inalada, essencial no tratamento de doenças respiratórias como a asma, contribui significativamente para as emissões de GEE e, portanto, para o aquecimento global 8-12. Existem diferenças significativas na pegada de carbono entre os vários dispositivos disponíveis e a escolha do inalador e o seu descarte são pontos críticos 8,9,12,13. Através da pegada de carbono é possível comparar o potencial de aquecimento global (PAG) dos vários inaladores, podendo esta informação ser considerada na tomada de decisões para escolha do tratamento 8,9,13.
Este documento tem como principal objetivo a revisão da evidência científica sobre o impacto ambiental dos inaladores utilizados no tratamento da asma. O documento descreve também as iniciativas em curso para minimizar esse impacto e elenca estratégias de sustentabilidade, com o objetivo de consciencializar a população, especialmente profissionais de saúde e doentes com asma ou outras patologias crónicas obstrutivas das vias aéreas, sobre a problemática do impacto ambiental dos inaladores e possíveis formas de a abordar.
PEGADA DE CARBONO DA TERAPÊUTICA INALADA DA ASMA
A asma é uma doença inflamatória das vias áreas que afeta crianças e adultos, sendo a doença respiratória crónica mais prevalente na infância 14. Estima-se que, em 2019, a asma afetasse 358 milhões de pessoas em todo o mundo 15. De acordo com o estudo EPI-ASTHMA, a prevalência de asma em adultos, em Portugal, é de 7,1% 16. A terapêutica inalada é o pilar do tratamento farmacológico nestes doentes, contribuindo para o controlo sintomático, a melhoria da qualidade de vida, a redução do risco de agudização, e, consequentemente, da morbimortalidade associada à asma 14.
Os principais dispositivos inalatórios utilizados no tratamento da asma são os inaladores pressurizados de dose calibrada (pMDI) e os inaladores de pó seco (DPI)17. Existem também os inaladores de névoa suave, mais frequentemente utilizados na doença pulmonar obstrutiva crónica17. A escolha do inalador a utilizar em cada doente deve ser individualizada e, apesar de ainda não ocupar um papel primordial nesta decisão, o impacto ambiental dos diferentes inaladores deve ser conhecido e considerado.
Os pMDI requerem utilização de gás propelente para aerossolização do fármaco, contrariamente aos DPI e aos inaladores de névoa suave. Os DPI dependem da energia gerada pelo esforço inspiratório do doente para dispensar o fármaco e os inaladores de névoa suave usam um mecanismo de ativação livre de propelente (usando a energia mecânica produzida por uma mola que fica em tensão após girar a base do dispositivo antes da utilização)18. Os propelentes são gases com elevada estabilidade e não apresentam toxicidade para o ser humano19, contudo são o principal contribuinte para o impacto ambiental dos pMDI (Figura 1)20,21. Para substituir os clorofluorcarbonetos (CFC), utilizados como propelentes em inaladores previamente ao Protocolo de Montreal, foram introduzidos os hidrofluoralcanos (HFA). Ao contrário dos CFC, os HFA não causam a destruição da camada de ozono (não sendo considerados GEE), mas têm um elevado PAG e contribuem a longo prazo para as alterações climáticas 20. Em 2016, foi feita uma emenda ao Protocolo de Montreal acordando uma redução progressiva dos HFA e a sua substituição por gases com baixo PAG. No entanto, foi criada uma exceção pela União Europeia (UE, Regulamento n.° 517/2014) para os propelentes de uso farmacológico, que poderão continuar a ser utilizados até que alternativas com PAG reduzido sejam identificadas e consideradas seguras17. Em Portugal, os diferentes inaladores disponíveis usam como propelente o HFA134a ou HFA227, correspondendo a um PAG 100 (PAG para um horizonte temporal de 100 anos) entre 1300 e 3350 (Tabela 1 e Figura 1) 20,21. Atualmente, está em curso um ensaio clínico de fase III para avaliar a segurança e tolerabilidade do propelente HFA152a 22, que apresenta um PAG 100 dez vezes inferior ao HFA 134a (Figura 1) 20.
Tabela 1 Inaladores pMDI disponíveis em Portugal e respetivos princípios ativos e propelentes

Informação obtida a partir dos Resumos das Características dos Medicamentos (RCM); pMDI - inaladores pressurizados de dose calibrada; MG - Medicamento genérico

Figura 1 Propelentes: a sua utilização na prática clínica e o seu potencial de aquecimento global para um período temporal de 100 anos (PAG 100). (Adaptado das referências 20,21). CO2 - dióxido de carbono; HFO - hidrofluorolefina; HFA - hidrofluoralcano; CFC - clorofluorcarboneto; pMDI - inaladores pressurizados de dose calibrada.
Os DPI não utilizam gás propelente. Desta forma, enquanto a maioria dos valores de PAG associados aos pMDI depende do propelente, e consequentemente da fase de utilização e fim de vida dos inaladores, a emissão de CO2 dos DPI depende essencialmente da fase de produção17. Os DPI apresentam um PAG expressivamente inferior ao dos pMDIs (aproximadamente 8 gCO2eq/utilização vs 82 a 119 gCO2 eq/utilização, respetivamente)17. Nos EUA estimou-se que os inaladores prescritos aos beneficiários dos centros Medicare e Medicaid resultaram na emissão de 1,11 MtCO2eq durante o ano de 2022, equivalente ao uso anual de eletricidade de 226 960 habitações, sendo que 98,7% destas emissões estavam associadas aos pMDI 23. Em Portugal, um estudo recente mostrou resultados semelhantes, com os pMDI a serem responsáveis por cerca de 95% do PAG da terapêutica inalada no ano de 2022 (com emissão de 30 665,6 tCO2eq vs apenas 1594,6 tCO2 eq pelos DPI) 24.
Estima-se que a substituição de pMDI por DPI num doente resulte numa redução de emissão de 420 kg detaram na emissão de 1,11 MtCO2eq durante o ano de 2022, equivalente ao uso anual de eletricidade de 226 960 habitações, sendo que 98,7% destas emissões estavam associadas aos pMDI (23). Em Portugal, um estudo recente mostrou resultados semelhantes, com os pMDI a serem responsáveis por cerca de 95% do PAG da terapêutica inalada no ano de 2022 (com emissão de 30 665,6 tCO2eq vs apenas 1594,6 tCO2 eq pelos DPI) 24.
Estima-se que a substituição de pMDI por DPI num doente resulte numa redução de emissão de 420 kg de CO2eq/ano (equivalente à substituição de carro a combustão para um carro híbrido ou a tornar-se vegetariano)25. Apesar desta discrepância em termos de PAG, que favorece a prescrição de DPI, a correta utilização deste tipo de dispositivos depende da capacidade inspiratória e da colaboração do doente, o que limita a sua utilização em algumas situações (p.e., agudizações graves, crianças em idade pré-escolar…), nas quais os dispositivos pMDI são de uso preferencial 10,26.
Além do PAG, é fundamental considerar outros impactos ambientais, como o impacto na depleção de recursos, e possível toxicidade humana e para o meio ambiente, tendo em consideração todo o ciclo de vida do dispositivo. Esta avaliação global é intrínseca a cada dispositivo utilizado, considerando as suas particularidades.
A comparação de pMDI com diferentes propelentes com o DPI Diskus® demonstrou que apesar de este DPI apresentar um PAG bastante inferior ao dos pMDI apresentou
o pior resultado em oito outros domínios, com destaque para a depleção fóssil, eutroficação marinha e formação de oxidantes fotoquímicos 27. Esta diferença está principalmente associada aos materiais utilizados no fabrico do DPI e ao seu descarte 27.
De acordo com um estudo que avaliou o impacto ambiental do ciclo de vida de diferentes inaladores, os DPI são a melhor opção para o PAG (impacto ambiental ≈ 690 vezes menor que o HFC-227ea) e camada de ozono (impacto 140 vezes menor que o HFC-227ea), enquanto o HFC-134a e o HFC-227ea são, dos pMDI, os que têm menor impacto na formação de oxidantes fotoquímicos (impacto 3,5-5 vezes menor do que os DPI) 27.
A avaliação do impacto ambiental do ciclo de vida de diferentes inaladores demonstrou ainda que para os pMDI a maior emissão de GEE, e consequente maior PAG, ocorre durante a fase de utilização (Figura 2), que nos inaladores com HFC-134a contribui com 98% do PAG e nos inaladores com HFC-152a e HFC-227ea com 90% 27.
Para os DPI, os principais contribuintes para o PAG são a extração de matéria-prima (≈ 70%) e o processo de produção (≈20%) (Figura 2). As contribuições da distribuição e armazenamento e da eliminação são inferiores a 10% para os dois tipos de inaladores 27.

Figura 2 Etapas do ciclo de vida dos inaladores e potencial de aquecimento global. Adaptada da referência (27). DPI - inalador de pó seco; PAG - potencial de aquecimento global; pMDI - inaladores pressurizados de dose calibrada.
O impacto ambiental dos inaladores utilizados na terapêutica de um doente com asma não depende apenas do dispositivo prescrito. A inadequada gestão terapêutica e/ou a má adesão, associadas à sobreutilização de agonistas beta-2 de curta ação (SABA), associam-se a um controlo inadequado e a um maior risco de agudizações28. Esta situação pode resultar num maior consumo de recursos humanos e materiais, com elevado impacto ambiental.
De acordo com Gagné et al., o uso adequado de SABA está associado a uma redução na libertação de aproximadamente 60 700 MtCO2eq por ano29. Em comparação com a asma controlada, estima-se que a asma não controlada se associe a emissões três vezes superiores de GEE (64 kg CO2 vs. 192 kg CO2eq/pessoa/ano no grupo de indivíduos com asma controlada vs. grupo com asma não controlada), sendo a utilização de SABA identificada como o principal responsável individual por esta diferença 30. Adicionalmente, deve ser considerado que a própria gestão de crise se associa à utilização de dispositivos pMDI, incluindo em Portugal, em que os pMDI ainda prevalecem na terapêutica de alívio 24, potenciando ainda mais o seu impacto ambiental.
A terapêutica combinada para a asma, especificamente a associação budesonida + formoterol DPI, foi também associada a uma menor pegada de carbono em comparação com o uso de salbutamol pMDI quando necessário (95,8% inferior, least-squares mean 1,1 vs. 26,2 kgCO2eq, p<0,001) e budesonida DPI de manutenção associada a salbutamol pMDI quando necessário (93,6% inferior, least‑squares mean 1,1 vs. 17,3 kgCO2eq, p<0,001) 31. Um estudo de Woodcock et al. reforça estes dados mostrando também que as emissões anuais de KgCO2eq por doente (considerando tratamento de manutenção e alívio) foram significativamente inferiores no grupo tratado com uma associação fixa de furoato de fluticasona + vilanterol DPI comparativamente aos cuidados habituais (incluindo várias combinações de DPI e pMDI), sem que houvesse perda de controlo (consistentemente superior no grupo tratado com a associação de furoato de fluticasona + vilanterol DPI) 10.
ESTRATÉGIAS PARA REDUZIR A PEGADA DE CARBONO
O conhecimento do impacto ambiental do setor da saúde tem levado a um número crescente de iniciativas globais, no sentido de reduzir a pegada de carbono e promover uma maior sustentabilidade 8-10. Intrinsecamente ligado a estas iniciativas está o conceito de One Health 32, que reconhece, através de uma perspetiva interdisciplinar, a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental com o objetivo de alcançar melhores resultados na área da saúde de forma mais sustentável 2.
Considerando o impacto significativo do tratamento inalado, as sociedades científicas dedicadas às patologias respiratórias têm vindo a sugerir e implementar estratégias globais para minimizar o impacto ambiental nos cuidados de saúde, com foco nas terapêuticas inaladas, mas sempre sem descurar a importância do controlo da patologia subjacente 11. A iniciativa Go Green, da European Academy of Allergy & Clinical Immunology (EAACI), é um exemplo de promoção de maior sustentabilidade através do desenvolvimento e implementação de medidas e comportamentos que promovam o equilíbrio entre a saúde humana e ambiental 33. Também em Portugal foram recentemente publicadas recomendações para a redução do impacto ambiental dos inaladores sob alçada do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, das sociedades científicas que representam as especialidades com maior volume de prescrição destes medicamentos (incluindo a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, a Sociedade Portuguesa de Pediatria, a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar) e de uma associação de doentes, a Associação Respira 24.
Na Tabela 2 sistematizam-se algumas estratégias que visam a redução do impacto ambiental do tratamento da asma e que poderão ser postas em prática, quer ao nível dos cuidados de saúde primários, quer a nível hospitalar.
Tabela 2 Estratégias a implementar na prática clínica para promover a redução do impacto ambiental do tratamento da asma.
Após confirmar o diagnóstico de asma, com base em meios complementares de diagnóstico adequados, é fundamental alcançar um bom controlo sintomático e minimizar
o risco de agudizações e de morbimortalidade associadas à asma14. A otimização da abordagem das comorbilidades e, sempre que possível e adequado, a promoção de terapêuticas não farmacológicas, deve ser privilegiada. O tratamento farmacológico deve incluir, na maioria dos doentes com asma, um corticoesteroide inalado e, quando indicado, um broncodilatador, administrados através de um (ou mais) dispositivos inalatórios adaptados individualmente a cada doente, potenciando a sua adequada utilização e a adesão terapêutica 14.
Deve ser também considerado o PAG de cada inalador (Figura 1), dando preferência aos DPI, quando adequado, e aos inaladores com HFA 134a em detrimento de HFA 227ea, principalmente perante a existência de inaladores equivalentes (Tabela 1) 26. A inclusão de mecanismos de alerta sobre o PAG de cada inalador nos sistemas de prescrição (com base num sistema de cores), foi recomendada como uma estratégia a implementar em Portugal 24.
Paralelamente, outras estratégias devem ser tidas em conta para minimizar o impacto ambiental dos inaladores, nomeadamente evitar o armazenamento de inaladores, promover primariamente (quando possível e adequado) a utilização da medicação já existente e promover o descarte adequado dos dispositivos em fim de vida 34,35. Adicionalmente, é importante promover uma maior participação por parte da indústria farmacêutica e do governo nas estratégias de redução do impacto ambiental36. Aliada a estas medidas, em Portugal é fundamental promover a disseminação de conhecimento sobre o impacto ambiental dos inaladores entre os médicos prescritores, colmatando o défice de conhecimento reportado por Campos et al 24, com 47,7% dos médicos prescritores a indicar desconhecimento sobre este tema, e sensibilizá-los para que tenham em consideração os aspetos ambientais no momento da prescrição (que atualmente não são tidos em conta por mais de 70% 24).
EXEMPLOS DE INICIATIVAS NA COMUNIDADE
A nível mundial existem diversos exemplos de projetos desenhados especificamente para fomentar a redução da pegada de carbono associada ao uso de inaladores, quer promovendo a reciclagem dos dispositivos, quer a sua reutilização 37-49.
No Reino Unido, o projeto Take AIR (Action for Inhaler Recycling), criado e financiado pela Chiesi, avaliou a viabilidade da recuperação e reciclagem de inaladores durante 12 meses. Os inaladores eram enviados para reciclagem/recuperação por correio pelos doentes, sem custos, em envelopes previamente entregues pelas farmácias e hospitais. Os pMDI eram desmontados e os seus componentes reciclados, se possível, enquanto o gás propelente restante era extraído para reaproveitamento nas indústrias de refrigeração e ar condicionado. Outros dispositivos, como os DPI, eram incinerados, com valorização energética. A Take AIR evitou que o equivalente a mais de 110 toneladas de emissões de CO2 entrassem na atmosfera, demonstrando a viabilidade e eficácia da iniciativa (37). Outra iniciativa, também no Reino Unido, foi desenvolvida pela GlaxoSmithKline (GSK) entre 2011 e 2020, promovendo a devolução do inalador antigo e/ou usado na farmácia. De acordo com a GSK, mais de 1,2 milhões de inaladores foram reciclados e recuperados, evitando emissões de CO2eq equivalentes à quantidade produzida por 8665 carros (tipo de carro não especificado) num ano 38,39.
Para além destes projetos, têm sido implementadas no Reino Unido outras iniciativas com o objetivo de incentivar a reciclagem de inaladores 40-42. Neste país parece existir maior sensibilização para esta temática, com a disponibilização de informação à população, bem como plataformas de apoio aos profissionais de saúde com informação e materiais baseados na evidência, de forma a promover boas práticas e a favorecer uma maior sustentabilidade 43-45.
Em Portugal, a Valormed promove a recolha seletiva e a gestão de resíduos de embalagens e medicamentos através do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens e Medicamentos (SIGREM). As farmácias comunitárias e os locais ou estabelecimentos de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica aderentes assumem a responsabilidade de receção dos resíduos posteriormente transportados, triados e orientados para centros de reciclagem ou para incineradores com valorização energética 46. Os dispositivos inalatórios, por conterem medicamentos, incluem-se no grupo de resíduos que devem ser eliminados desta forma; no entanto, não existe adequada sensibilização dos doentes e médicos para esta necessidade 50-52.
No que diz respeito às iniciativas para reutilização dos inaladores, um estudo recente avaliou a potencial redução das emissões de CO2 associada à substituição de pMDI/DPI por inaladores reutilizáveis (Respimat) em 12 países europeus e nos Estados Unidos durante um período de 5 anos, usando um modelo de impacto ambiental 47.
Os autores concluíram que a substituição de antagonista muscarínico de longa ação (LAMA) em dispositivo não reutilizável por Spiriva® Respimat Reusable e Spiolto® Respimat Reusable reduziria as emissões de CO2 em 13,3-50,9% e 9,5-92,6%, evitando a emissão de 93-6228 e 31-50843 toneladas de CO2, respetivamente 47.
Em Espanha, o estudo AIRE project teve como objetivo avaliar o conhecimento dos utilizadores de inaladores relativamente a como e onde descartar estes dispositivos após utilização, bem como a sua opinião sobre inaladores reutilizáveis. Os autores concluíram que, apesar de os utilizadores considerarem importante a reciclagem dos dispositivos e a eventual utilização de inaladores reutilizáveis, a maioria referia nunca ter sido informada pelos profissionais de saúde e não os depositava no local adequado 48.
Em Portugal, não temos conhecimento de qualquer iniciativa para reutilização dos inaladores.
Para além das iniciativas referidas no âmbito da reciclagem e reutilização dos inaladores, a indústria farmacêutica e os fabricantes apresentam também um papel relevante na redução do PAG dos inaladores através da implementação de estratégias de melhoria dos processos de produção. A título de exemplo, em quatro anos as emissões de CO2 associadas ao ciclo de vida do Easyhaler® foram reduzidas em cerca de 10% 49.
Perspetivas e conclusão
Os inaladores prescritos para o tratamento da asma associam-se a impacto ambiental em todas as fases do seu ciclo de vida. Os pMDI são os dispositivos que mais contribue para a emissão de GEE devido à utilização de propelente. A escolha de um inalador com menor impacto ambiental e clinicamente apropriado pode ter impacto significativo nas emissões de GEE, tendo os profissionais de saúde um papel relevante na proteção e promoção da saúde do planeta e das populações. No entanto, a gestão dos doentes com asma deve ter como objetivo primordial o seu controlo com a dose terapêutica mínima eficaz. É fundamental colocar o doente no centro dos cuidados e personalizar o seu tratamento, com um foco na melhor evidência científica disponível aliada à humanização dos cuidados de saúde. Um correto diagnóstico e a implementação de estratégias que promovam a adesão ao tratamento e controlo da doença (incluindo otimização das comorbilidades e intervenções não farmacológicas, como cessação tabágica, exposição a aeroalergénios, exposição ocupacional, etc) permitem também uma redução do impacto ambiental do tratamento da asma e os custos em saúde. Desta forma, além de melhores resultados clínicos, é possível contribuir para uma menor pegada ambiental.
A escolha de um inalador deverá assentar primariamente nas características e particularidades de cada doente, de forma a promover a adesão e o seu uso correto. Esta escolha deve também considerar o impacto ambiental de cada inalador. Na prática clínica, nos doentes que se encontram corretamente tratados, com a sua patologia controlada, a troca de inalador poderá ser considerada caso a caso tendo sempre em conta a sua efetividade e segurança e o consentimento e preferência do doente. No entanto, na necessidade de troca de inalador ou início de terapêutica inalada, o impacto ambiental do inalador selecionado deve ser tido em conta. Nos casos adequados, a prescrição de um DPI ou, na necessidade de pMDI, a escolha de um inalador contendo HFA134a em detrimento de HFA227 e a sua utilização com câmara expansora reduzem o impacto ambiental associado ao tratamento da asma.
É necessário sensibilizar os profissionais de saúde e a população para a forma correta de utilização e eliminação dos dispositivos inalatórios, bem como promover iniciativas para a sua reciclagem e reutilização.
Por fim, profissionais de saúde, doentes e cuidadores devem exigir da indústria farmacêutica e das entidades governamentais maior responsabilização e ações efetivas para minimizar o impacto ambiental da terapêutica inalada.
É igualmente crucial garantir transparência e acesso a informações detalhadas sobre toda a cadeia de produção e eliminação destes produtos, para assegurar uma avaliação completa do impacto ambiental e promover soluções mais sustentáveis.














