Introdução
A leitura do espaço urbano permite-nos interpretar dinâmicas e transformações que transcendem o espaço físico territorial, tornando-se refletora de uma narrativa histórica e de uma identidade que contribuem para a definição de space (espaço) como “specific sites (...) that are shaped by human beings and shape the lives of human beings.”1 (Chen, Orum & Paulsen, 2012: 3). Esta contextualização do território, refletora de comportamentos sociais díspares na forma e no tempo, caracteriza a evolução do espaço, mas, também, a influência da envolvente em quem nele habita.
Mais do que o urbanismo e as arquiteturas edificadas, a noção de espaço urbano assenta em conceitos como território, humanidade, relações, lugar, identidades e consumo. Esta rede orgânica de influências, pautada por uma forte interculturalidade, revela-se um contributo para a operacionalização da cidade e para o desenvolvimento da comunidade, uma vez que “apela à colaboração diferenciada, mas ativa dos vários atores implicados, única via suscetível de favorecer a emergência construtiva, partilhada e pessoalmente formadora de práticas e aptidões culturais e sociais” (Carvalho & Baptista, 2004: 65).
A problemática aqui colocada é a da relação entre conhecimento (potenciado pela cultura) e ação social, na medida em que os diferentes olhares da história da arte e da sociologia, na sua dimensão etnográfica, atentam para conceitos contextualizadores do comportamento em sociedade. A simbiose entre o que é cultural, social e histórico evidencia a organização própria de cada sociedade, confluindo num processo complexo de descoberta-produção-criação, no qual os recetores “grow up to be cultural beings”2 (Gaskins, Miller & Corsaro , 1992: 6). Claude Rivière justifica igualmente que:
“Uma vez que a historicidade é inerente ao social, convém não forçar a oposição entre, por um lado, a etnologia, caracterizada pela oralidade, a espacialidade, a alteridade, o inconsciente, e, por outro lado, a história, delimitada pela escrita, a temporalidade, a identidade e a consciência.” (Rivière, 1995: 21)
O estudo do território enquanto objeto sociológico, moldado por “experiências emocionais e pelas expectativas pessoais de cada indivíduo” (Peralta, 2007: 19) assenta igualmente em “quadros de significação e em contextos culturais específicos” (Peralta, 2007: 19). Este interacionismo entre indivíduo-lugar e indivíduo-cultura manifesta valores, crenças, saberes e tradições singulares, mas, também, caracteriza a respetiva comunidade à luz de um sistema económico, político e religioso, bem como práticas quotidianas, linguísticas e artísticas. Por isso, o espaço e a produção de sentidos culturais (identidade coletiva) transportam-nos para o significado cultural dos lugares que, consecutivamente, se tornam lugares de conhecimento, possibilitando compreender a dinâmica proxémica de uma comunidade, influenciando a sua interação comportamental, social e cultural (Juncal, 2023: 36).
Ao aliarmos dois campos do saber distintos, mas complementares, como a sociologia e a história da arte, caminhamos para uma análise mais rica relativamente ao envolvimento e desenvolvimento da comunidade e do território. Considera-se, assim, que a etnografia é um instrumento multidisciplinar fulcral na interpretação das condicionantes da urbe, tanto ao nível urbano, como social e cultural, sendo reforçada pelo debate atual a importância do conhecimento cultural para o desenvolvimento comunitário em ordem à sua potenciação, como refere a Agenda 2030, nomeadamente “(...) por meio da educação (...) e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável.” (BCDS, 2022).
Não obstante, o conceito de conhecimento, na sua subjetividade, decorre de diversas fontes de aprendizagem e de referência, podendo ser entendido como o “somatório do que se sabe; o conjunto das informações e princípios armazenados pela humanidade” (Houaiss & Villar, 2001: I: 1041). Para tal, a “familiaridade adquirida pela experiência” (Houaiss & Villar, 2001: I: 1041) estabelece-se com a “noção que cada um tem da sua própria existência e das pessoas familiares, coisas (ou) factos do dia-a-dia” (Houaiss & Villar, 2001: I: 1041). Tendo como foco o conhecimento potenciado pelo espaço envolvente e pela dinâmica urbana, resultante em identidades e sentidos culturais particulares, torna-se possível interpretar o desenvolvimento social territorial através dos distintos autores que justificam “o processo participativo de produção de conhecimento social” (Azevedo & Baptista, 2010: 39). Destacam-se W. F. Whyte, ao contrariar a ideia de que “o problema das áreas pobres e degradadas, dizem alguns, é que são comunidades desorganizadas” (Whyte, 2005, p. 276); Fran Tonkiss, ao afirmar que a urbe, apesar das grandes dimensões que possui, tem “informal modes of urban order, and the formation of diferente urban subcultures”3 (Tonkiss, 2005, p.14), e a carta da Associação Internacional das Cidades Educadoras, ao alertar para o facto de que “a cidade, grande ou pequena, dispõe de incontáveis possibilidades educadoras, mas também podem incidir nelas forças e inercias deseducadoras” (AICE, 1990).
Face ao exposto, apresenta-se o caso do Espaço Raiz - Centro Comunitário de Ramalde, situado na freguesia de Ramalde (Porto). Com este estudo procuramos compreender o respetivo funcionamento do Centro Comunitário, os métodos de atuação e os contributos da entidade relativamente ao desenvolvimento da comunidade local. Inserido no Programa Escolhas, o Projeto Raiz foi implementado em 2002, tendo como mote a intervenção sociocomunitária pela inclusão social de crianças, jovens e famílias dos bairros de Ramalde e das Campinas.
A associação fomenta atividades de cariz pedagógico, segundo uma perspetiva interventiva no campo da educação/formação, participação social/comunitária e mediação familiar, visando o desenvolvimento de competências pessoais e sociais assentes em valores. À época da investigação, a entidade promotora, a Obra Social do Sagrado Coração de Maria (coordenada pelo Colégio de Nossa Senhora do Rosário) e o seu consórcio de instituições atuavam já na 8ª geração.
De acordo com Fátima Carvalho, os projetos comunitários enquanto estratégia de intervenção são fulcrais para pensar “não só nos problemas e nas necessidades, mas também nas potencialidades da comunidade que são instrumentos importantes para a mudança” (Carvalho, 2018: 30). Assim sendo, o principal contributo de um Centro Comunitário, como o Espaço Raiz, prende-se à consciencialização da participação e iniciativa local, “acenando com a possibilidade de padrões e recompensas” (Whyte, 2005: 122) face à mobilidade social e à formação da Pessoa, provocadas pelo espaço urbano e respetivas redes de comunicação. Ao incitar valores prospetivos nas gerações mais novas, a estratégia do Programa Escolhas é concordante com a ideia de W. A. Corsaro ao referir:
“a major change in children’s worlds is their movement outside the family. By interacting with playmates (...) children produce the first in a series of peer cultures in which knowledge and practices gradually are transformed into the knowledge and skills necessary to participate in the adult world.”4 (Corsaro, 1992: 162)
Segundo a estratégia de coesão social, definida pelo Conselho da Europa em 2008, importa responder “to demographic change and multiculturalism by building confidence in a common and secure future for all”5 (inConselho da Europa, 2008: art.º 38). Também na perspetiva patrimonial a cultura é entendida como uma criação humana orientada para as pessoas, mais do que para os objetos6, tal como sublinha a Convenção Quadro de Faro (2005), apontando para as questões porquê? e para quem? esclarecendo que:
“O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam (...) como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução. Inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo.” (inConselho da Europa, 2005: art.º 2)
Contudo, atente-se para o facto da cultura e do saber serem ainda entendidos socialmente como preocupações secundárias na vivência/construção da Pessoa, pelo que a escolha do tema assenta numa reflexão sobre a importância da cultura para o desenvolvimento individual e social. Sendo o indivíduo produto e produtor de cultura (Carvalho, 2018: 29), considera-se que a aprendizagem transcende o papel familiar e escolar, integrando a cidade enquanto laboratório instigador de uma formação presente, inclusiva e ativa no seio de uma comunidade intergeracional (Juncal, 2023: 42), o que vai ao encontro do próprio conceito de culturalismo, ao definir a cultura como um “sistema de comportamentos aprendidos e transmitidos pela educação, a imitação e o condicionamento (enculturação), num dado meio social” (Rivière, 1995: 43).
Colocou-se, então, como questão de partida: Como é que o conhecimento potencia o desenvolvimento comunitário? A partir daqui estabeleceram-se objetivos específicos, nomeadamente: 1) caracterizar o espaço nas vertentes territorial, social e cultural; 2) compreender o caráter operacional da cultura para o desenvolvimento urbano; e 3) interpretar as relações intergeracionais.
Para o efeito, o presente artigo estrutura-se em três pontos: 1) Contextualização; 2) Metodologia; e, por fim, 3) Escalas de observação. Em primeiro lugar, reflete-se sobre a malha urbana e a disparidade dos modos de viver dentro da freguesia. De seguida, apresenta-se o processo de investigação, desde a seleção do tema, até à recolha e organização de dados. Por último, a leitura comparada entre os conteúdos teóricos e os dados recolhidos é feita com base nas distintas escalas de observação aplicadas no decurso da investigação.
Contextualização
A freguesia de Ramalde, pertencente à cidade do Porto desde 18957, caracteriza-se como uma “terra de contrastes” (Cortezão, Neves & Sampaio, 2013: 36) na dupla perspetiva de espaço urbano e social.
Atualmente, Ramalde caracteriza-se por uma paisagem de edificações variadas, essencialmente marcada por “residenciais de gama média-alta, bairros sociais, ilhas, habitações com feição rural, bairros construídos por cooperativas de habitação, áreas comerciais, de serviços, espaços agrícolas e algumas indústrias” (Matos & Rodrigues, 2009: 42), contrastando os bairros sociais das décadas de 50, 60 e 80 com as luxuosas residências dos anos 80 e 90.
De notar que, na década de 50, a necessidade de habitações económicas urge na cidade, à qual a Câmara Municipal do Porto dá resposta com o Plano de Melhoramentos (1956), com o intuito de extinguir as ilhas em prol da construção de bairros, iniciando-se um novo modelo urbano que visava melhorar as condições de salubridade. Apesar de o plano não ter sido concretizado na sua totalidade, foi um instrumento fundamental para a valorização das áreas periféricas da cidade do Porto.
A extensa malha urbana constitui, assim, um conjunto de relações sociais numa “freguesia sociologicamente com assimetrias” (Manuel Maio inCortezão, Neves & Sampaio, 2013: 36), acentuada por artérias que se cruzam, como, por exemplo, a Av. Antunes Guimarães e a Av. Vasco da Gama, sendo nesta última que se localiza a associação em estudo.
Se, por um lado, a expansão das vias de comunicação contribuiu para o desenvolvimento económico, demográfico e urbano da freguesia, por outro, não favoreceu as “tradicionais relações de vizinhança e solidariedade” (Teobaldo, Lopes & Batista, 2008: 5), uma vez que a mobilidade potenciada hoje, por exemplo, pela VCI, a Circunvalação ou a linha de metro, permitiu uma maior dispersão e interação entre os habitantes e as distintas áreas da cidade.
Conforme os Censos de 2021, entre os 38 849 habitantes da freguesia, há um crescente número da faixa etária +65 anos, relativamente aos dados de 2011, sendo que a faixa etária trabalhadora (25-64) reduziu. Tal como referem Teobaldo, Lopes e Batista (2008), verifica-se uma “quebra de sociabilidade e relação de vizinhança, pelo facto de parte significativa da população activa trabalhar fora da freguesia, mantendo assim, contactos privilegiados em diferentes espaços”, pelo que a questão da mobilidade se torna uma ferramenta para pensar o espaço urbano e, consequentemente, como este se encontra em permanente mutabilidade social.
Não obstante a crescente mobilidade, o “cenário da cidade”8 (Benevolo, 1984: 14) no seu todo, i.e., na sua dimensão territorial, social, associativa e cultural, justifica a organização das pessoas no espaço e as respetivas interações sociais. Ao observar e interpretar os seus comportamentos torna-se possível recolher, não só as “relações informais de grupos”, mas, também, perceber o “ajustamento do indivíduo à sua sociedade” (Whyte, 2005: 272-73).
Segundo o diagnóstico social do Projeto Raiz, fornecido pelo informante privilegiado9, os bairros supracitados são descritos como áreas caracterizadas pela escassez de equipamentos sociais, baixas qualificações escolares - resultantes de uma forte desvalorização escolar -, desemprego, contextos familiares desestruturados, pobreza e a socialização no contexto de “rua” e grupo de pares. Mas, também, destaca positivamente o espírito de hospitalidade, as práticas de solidariedade, a capacidade de escuta e diálogo e a participação positiva.
No que diz respeito ao Espaço Raiz, mais do que um espaço de sociabilidade, este revela-se um agente de desenvolvimento comunitário, na medida em que promove a comunicação, a formação e a informação entre crianças e jovens de contextos socioeconómicos desfavorecidos.
Metodologia
O presente artigo é o culminar de um processo de investigação, no qual a exposição de resultados deriva do acesso ao terreno e consequente reflexão sobre a problemática teórica in loco. Numa confluência de áreas disciplinares - história da arte e sociologia - os métodos etnográficos acompanham a metodologia de análise relativamente ao desenvolvimento comunitário potenciado pelo Programa Escolhas.
Definido o tema e o respetivo campo de estudo determinou-se a pergunta de investigação - Como é que o conhecimento potencia o desenvolvimento comunitário? - e estruturaram-se os objetivos gerais, já mencionados, concordantes com a mesma.
Nesta linha, o levantamento bibliográfico foi essencial para fazer um recorte das sucessivas camadas que permitem observar e interpretar o território, tendo como eixos a etnografia, a sociologia, a historiografia, a arquitetura e o urbanismo, conceitos que sistematizaram a consulta de fontes.
Dentro da sociologia e da etnografia, destaca-se a leitura da Sociedade de esquina, de William Foote Whyte (1943), visto debruçar-se sobre a “ação social lida com as interações entre os indivíduos” (Velho, 2005: 11); da Introdução à Antropologia, de Claude Rivière (1995), e da Antropologia Cultural, de Marvin Harris (1993), obras introdutórias aos conceitos e estudos sociológicos relacionados com os fenómenos sócio-culturais; da obra Introduction to cities. how place and space shape human experience (Chen, Orum & Paulsen, 2013), a propósito da noção de espaço e dos respectivos usos e significados que lhe são atribuídos; das Abordagens teóricas ao estudo da memória social: uma resenha critica, na qual Elsa Peralta (2007) aborda a relação entre memória e sociedade; bem como o Diagnóstico Social do Porto, de Joaquim Azevedo e Isabel Baptista (2010), direcionada mais concretamente para a área de estudo.
Na ótica urbanística e arquitetónica sublinham-se as obras Análise morfológica de alguns espaços públicos: Cidade do Porto 1910-1974, de Helena C.N. Henriques (2012); e Ouvindo Ramalde: Memórias e Registos, de Luiza Cortezão, Francisco Coelho Neves e Maria da Luz Sampaio (2013), na medida em que se direcionam para uma leitura focalizada da freguesia.
Paralelamente ao campo teórico, o caráter operativo deu-se, numa primeira fase, com a observação exploratória e, posteriormente, com a observação participante, beneficiando do registo e organização de dados em diário de campo. Para além das referidas ferramentas do método etnográfico, recorremos ainda a uma outra abordagem desta área de estudo - a autoetnografia -, na qual o etnógrafo “use their own experiences as a route through which to produce academic knowledge”10 (Pink, 2009: 64). Neste caso, tendo como base formativa a história da arte, convocamos a ideia de Sarah Pink de que a subjetividade sensorial de um investigador - face ao seu caso de estudo - leva-nos a refletir “how this subjectivity might be implicated in the production of ethnographic knowledge”11 (Pink, 2009: 52), justificando a tónica da temática apresentada.
Com o intuito de conhecermos a composição da malha urbana, optou-se inicialmente pela circulação nos espaços centrais, à partida de maior sociabilidade, como a zona da igreja e da Junta de Freguesia. Na sua extensão, a forte incidência na habitação resulta num variado leque de serviços comerciais, escolares e associativos, revelando-se um desafio a seleção do campo de estudo. Todavia, a seleção do Espaço Raiz resulta da consonância entre a própria atuação associativa e os objetivos gerais ambicionados, bem como pela sua centralidade na freguesia e pela realidade contrastante com algumas das áreas envolventes.
As visitas ao terreno decorreram entre os dias 07 de março e 09 de maio de 2022. Partindo de uma observação exploratória, paulatinamente, passamos para uma observação participante, começando a integrar as dinâmicas do Centro - como, por exemplo, ir buscar as crianças do 1.º ciclo à escola e/ou auxiliar no apoio ao estudo12. O Espaço Raiz reúne crianças e jovens de faixas etárias (6 aos 18 anos) e anos de escolaridade distintos (1.º ano ao 12º. ano), pelo que também os horários em que frequentam o espaço difere consoante os respectivos horários escolares - das 14h às 17h encontram-se os jovens mais velhos (do 5.º ano ao 12.º ano) e, a partir das 17h30, as crianças do 1.º ciclo.
Relativamente à definição do informante privilegiado, o Rui Amado, um dos coordenadores e o criador conceptual do projeto, deve-se ao facto de ter sido o primeiro membro a quem foi apresentada a proposta de estudo e o responsável pela apresentação à equipa, ressaltando-se ainda a partilha de informações essenciais para a fundamentação teórica do Programa Escolhas.
No decurso do estudo de campo, o registo em diário de campo seguiu a estrutura13: notas de observação, notas temáticas, notas sobre terminologia e notas “fragmentárias e fugazes”14. Recorreu-se, ainda, à realização de quatro entrevistas semiestruturadas, realizadas na sede da associação a elementos da equipa técnica15. Por fim, a análise e exposição de resultados teve como eixos interpretativos as distintas escalas de observação: recetividade (no Espaço Raiz), equipa (técnica), utentes (do Espaço Raiz) e problemática (no caso de estudo).
Recolha e análise de dados
A interpretação das dinâmicas relacionais e de atuação no Espaço Raiz baseiam-se na observação de eventos e de relações individuais, anotadas em diário de campo e aprofundadas nas quatro entrevistas individuais realizadas na sede da associação. Em termos metodológicos, as entrevistas semi-estruturadas partiram de um guião, sendo a sequência das perguntas flexível e, ainda, suscetível a alterações consoante o decurso das mesmas. Curiosamente, o tempo das entrevistas variou de entrevistado para entrevistado, entre os 15 minutos e as 2 horas e 30 minutos, conforme se verificou nas gravações, posteriormente transcritas e apresentadas parcialmente.
A organização dos dados em distintas escalas de observação - recetividade, equipa, utentes e problemática - facilitou a análise por camadas dos distintos elementos que justificam o funcionamento do espaço, ou seja, as redes de comunicação e de sociabilidade, bem como a própria significação do lugar. Neste ponto dedicado à recolha e análise de dados são apresentados, simultaneamente, excertos do diário de campo, designada D.C., e excertos das entrevistas.
Numa abordagem holística, a frequência de idas ao terreno salientou denominadores comuns de comunicação-ação, presentes na exposição de resultados, como, por exemplo, a utilização de termos como: 1) Monitores e Professores - referentes à equipa técnica; 2) Utentes - referente às crianças e jovens; e 3) Escolhas - referente ao espaço.
Recetividade (no Espaço Raiz). Como referido na contextualização, há no Espaço Raiz um forte espírito de hospitalidade, igualmente descrito em diário de campo, no qual se regista um “espírito de acolher os outros muito presente, mesmo nos mais novos” (D.C.; 30-03-2022), visto que as crianças colocaram sucessivamente questões como “Vens todos os dias?” e “Quando é que voltas?”.
Há, pois, um envolvimento pessoal inerente ao longo da investigação, evidenciado no papel de observador participante, neste caso, manifestado no apoio ao estudo do 1º ciclo ou no auxílio na dinamização de atividades. O caráter ativo ultrapassa a mera observação, tendo-se denotado, ao longo do processo de investigação, que “a recetividade da equipa é cada vez maior. Há uma clara familiaridade com a minha presença.” (D.C.; 22-04-2022). Esta nota de observação é complementada com o comentário de um dos membros da equipa ao dizer:
A.: Tu já fazes parte da equipa. (22-04-2022)
Todavia, a experiência alargada da equipa técnica, que assume um papel quotidiano na imposição de regras, e não apenas de auxílio pontual, demonstra que a recetividade:
M.: De início é difícil (...) Eles desafiam-te até ao máximo dos teus limites e aí tu tens duas formas: ou encaras e bates nariz com nariz, ou então começas a aceitar que a melhor forma é a paciência e é o amor. E é mostrar-lhes não vás por aí, porque eu não estou aqui para vos desafiar (...). (02-05-2022)
Z.: Porque eles não vão gostar de ti, vão-te testar, vão-te pôr à prova (...) porque os miúdos daqui... repara, quando tu tens que batalhar pela vida desde que nasceste, apanhas manhas. Ninguém te dá nada (...) instintivamente é muito complicado (...). (06-05-2022)
Equipa (técnica). As ações definidas pela equipa técnica são fundamentais na dinamização de boas práticas associadas ao papel social do Centro Comunitário, no qual “há um forte investimento por parte da equipa em criar atividades, como, por exemplo, colónias ou convívios.” (D.C.; 06-04-2022). De salientar a pluralidade dos membros, não só na dimensão formativa, mas, sobretudo, nas distintas formas de interação com os jovens, originando elos de confiança, tal como destaca um dos membros mais antigos da equipa ao dizer que:
Z.: há um capital de confiança que vem do tempo, que vem do respeito (...) Há um capital de importância mútua que é o que faz do Raiz aquilo que o Raiz é (...). (06-05-2022)
Na sua diacronia, o Espaço Raiz cresceu com um núcleo técnico bastante coeso, contribuindo para fomentar relações de confiança mútuas entre a equipa e a comunidade ao longo dos quase vinte anos de existência, conforme sublinham alguns dos entrevistados:
M.: (...) tens aqui pessoas que os pais também já frequentaram (...) É natural que eles que confiem muito em nós (...). (02-05-2022)
Z.: Nós somos quase que avós, não é? Nós temos miúdos nossos que eram miúdos na altura... e que tiveram filhos e já temos filhos deles (...) Repara, eu digo muitas vezes isto... nós não estamos a trabalhar para os que estão aqui, nós estamos a trabalhar para os filhos dos que estão aqui. (06-05-2022)
R.A.: É preciso uma continuidade no tempo e uma perseverança entre várias coisas. E uma das coisas que também é necessário, na medida do possível, é que as equipas técnicas se mantenham. Sejam as mesmas pessoas também ao longo do tempo que vão criando esses elos de ligação, esses elos de confiança com as pessoas, porque se tens uma equipa que todos os anos está a mudar, quer dizer... é muito difícil depois também voltar a fazer todo o trabalho do 0. E nós mal ou bem tivemos sempre grupos da equipa técnica muito estáveis. (02-05-2022)
Utentes (do Espaço Raiz). Verifica-se, assim, a criação de elos de ligação entre as famílias e a equipa, refletindo uma envolvência incitada no tempo longo, pelo que “os monitores assumem muito um papel de conselheiros” (D.C.; 08-04-2022), muitas vezes pela necessidade de fomentar mecanismos de saber ser e saber estar, repetidamente mencionado como um dos objetivos da associação.
De salientar a problemática relacional/educacional, sublinhada pelo testemunho informal de uma das estagiárias:
A.: Não estão habituados a ouvir um não e quando temos de lhes dizer reagem mal. Ou choram ou gritam ou insultam. (06-04-2022)
Trata-se de realidades complexas, muitas vezes desde fases primárias do crescimento/desenvolvimento e, tendencialmente, reagem de forma negativa à aplicação de regras. A postura dos jovens revela, ainda, “uma necessidade de afirmação através de bens materiais. Existe muito o discurso em torno do dinheiro.” (D.C.; 22-04-2022).
A título de exemplo, destaca-se uma situação em que um dos utentes confronta um colega com o comentário “Só estas calças comprava-te essa roupa umas trinta vezes” (F.; 06-04-2022), sobre a qual uma das monitoras elucida:
A.: Vais ver.… eles estão sempre a comparar roupa. Ver quem tem a melhor, a melhor marca... (06-04-2022)
Problemática (no caso em estudo). Considerando a heterogeneidade dos utentes, marcada por uma acentuada interculturalidade, por exemplo, com a presença de famílias de etnia cigana, de descendência africana e/ou muçulmanos, importa refletir sobre a perceção de sentidos culturais promovida nas atividades da Associação. Como refere a atual dinamizadora social (ex-utente):
R.: Opá, aqui há várias culturas para começar. Até, todos os anos... agora não temos feito por causa do covid, mas nós fazemos aqui um almoço com culturas. Imagina... famílias que vêm de Angola, elas cozinham comidas de Angola que, tipo, não vês aqui. Imagina que vêm da China...Pronto, há todos os anos aqui um almoço que é entre culturas. Imagina, tu trazes o que tu comias no teu país. Então juntamos tudo. Mas isto aqui há várias culturas (...) olha, por exemplo, (...) uma família (...) eles estiveram a contar-nos a história deles e que há dias em que eles não podem mesmo comer carne. Que há dias que eles não podem sair por causa da lua. Olha, é uma cena muito estranha, é coisas que ficam na cabeça. Mas o que mais me ficou na cabeça foi que eles estiveram a explicar às pessoas que não comem carnes, entre outras coisas (...) Tipo, os miúdos ficam... e especialmente do 1º ao 4º “O quê? Não comes carne? Eu como carne quase todos os dias.”. Agora já estamos habituados que eles já andam aqui há algum tempo. Mas no início os miúdos reagem “O quê? Não podes comer carne? Nós podemos comer o que quisermos aqui”. Não associam. (16-05-2022)
Para além das atividades socioculturais, registou-se como nota temática a valorização da educação informal, na medida em que se procura incutir valores e, sobretudo, segurança. Ou seja, as atividades no exterior, como, por exemplo, jogar à bola, são mais importantes do que “lhes dar na cabeça” ou “estarem fechados numa sala à frente do livro” (Z.). (D.C.; 06-04-2022)
Na dialética cidade-cultura-educação a aprendizagem transcende o papel familiar e escolar, pelo que o próprio Escolhas se transforma num agente educativo, ultrapassando a ideia convencional de uma educação formal, como é relatado nas entrevistas:
M.: Nós somos um projeto comunitário que visa servir materialmente, mas que também visa formar (...) nós somos um complemento, ou seja, uma valorização (...) depois aí vai entrar outra questão que é: Quantos destes miúdos é que nós vemos que no futuro se formem, se licenciem? Não serão muitos. Mas então nós aí estamos como complemento para lhes mostrar outros caminhos. (02-05-2022)
R.A.: A certa altura tens muitos resultados positivos, mas (...) o problema é tão complexo (...) não é a tua ação que vai mudar a estrutura social de um país ou de uma cidade (...) por exemplo, uma grande frustração que eu tenho é que ao longo destes 20 anos quase... pá os miúdos só conseguem estudar até ao secundário, pouco mais (...) nem sequer é visível para eles essa questão de percurso a longo prazo (...) É-lhes difícil ter essa capacidade de projetarem-se no futuro. (02-05-2022)
A partir da questão colocada nas entrevistas: Como é que acha que a cultura é entendida aqui?, um dos coordenadores, nascido e criado num bairro social, destacou a ideia de que:
Z.: A cultura é ótima para quem tem a barriga cheia, para quem tem o que comer ao fim do dia (...) posto isto, a cultura é fundamental por causa do belo. O que lhes pode dar uma dimensão verdadeiramente nova na vida deles é a noção do belo e não apenas do útil. Porque é que a cultura é uma coisa para quem tem a barriga cheia? Porque quem não a tem vive em função do útil (...) mesmo que tu tenhas mais dinheiro, os teus interesses vão sempre (...) para aquilo que tu entendes como fundamental (...) Se olhares para a maior parte das famílias do bairro, a questão delas não é a falta de dinheiro (...) a questão é que eles não têm noção da cultura. Não têm noção que há vida para além daquilo que é básico. (06-05-2022)
De acordo com Whyte, “o quadro fica claro quando se observa a maneira como as pessoas representam simbolicamente (…) seu mundo para si mesmas” (Whyte, 2005, p. 273), evidenciando-se o testemunho do coordenador anteriormente mencionado:
Z.: Eu sou parte da casa, porque lá está, como eu sou de um bairro social (...) há uma linguagem que é do bairro que é minha desde sempre, entendes? (...) Aquela base do nós e dos outros. Para nós é permitido tudo, para os outros não é permitido nada. (06-05-2022)
Dentro desta leitura do nós e dos outros, a forma como o Sujeito interpreta o sítio onde vive foi corroborada ao longo do processo de investigação, destacando-se dois comentários de jovens no decurso de conversas informais:
T.: Não são como nós (...) o que eu quero dizer é que são pessoas com mundo. (30-03-2022)
E.: Eu sou do bairro (...) Vou-lhe mostrar o que é ser bairrista! (09-05-2022)
A dinâmica social resulta de interações, redes de contacto e laços de pertença que potenciam esta ideia de núcleo fechado, com base em relações habituais e de familiaridade, conferindo a ideia de segurança e proteção. Manifesta-se, então, uma mentalidade intrínseca à comunidade, espelhada no próprio Centro, visto que “há muito um espírito de irmandade e os mais velhos assumem bastante um papel de responsabilidade” (D.C.; 30-03-2022) e, portanto, “os mais velhos são monitores dos mais pequenos, mas só o podem ser se se comportarem, não só no centro, mas também lá fora.” (D.C.; 06-04-2022). De salientar que dentro do Programa Escolhas, como referiu o informante privilegiado:
R.A.: Há uma parte sempre do orçamento que é destinada, se os projetos assim o entenderem, a poderem contratar alguém que seja da comunidade para ser monitor no próprio projeto (...) o nome que o programa lhe dá é dinamizador comunitário, mas é um bocado isso... é educação pelos seus próprios pares. Porque nós acreditamos que a aprendizagem pode ser mais facilitada se estiver a ser feita por alguém que é do meu contexto pessoal, social, cultural. (02-05-2022)
Se, por um lado, “adoram todos ser monitores cá”, promovendo uma determinada conduta nos jovens mais velhos, por outro lado, o Z. referiu igualmente que:
Z.: Pá, tu vês miúdos que chegam aqui com 6 anos e tu foste vê-los ir para a cadeia. Há um envolvimento teu que às vezes é desespero (...) Tu podes dar as condições todas, certo? Há de haver uma altura em que não depende de ti (...) E tens de ter a capacidade de não te sentir culpado por causa disso, sabes? Que também é difícil (...) No dia-a-dia às vezes dói muito, sabes? Dói, porque vês vidas a serem desperdiçadas. E vidas com potencial, sabes? (06-05-2022)
Tendo como missão “servir a comunidade e incutir valores” (M.; 02-05-2022), bem como “dar capacidades e dar-lhes outra coisa” (R.A.; 02-05-2022), importa atentar que a concretização destes objetivos depende, não tanto da capacidade de resposta do Espaço, mas, principalmente, da vontade da própria comunidade em utilizar estas ferramentas no seu quotidiano. A propósito das ações estimuladas pelo Centro em prol do desenvolvimento comunitário é igualmente relevante, segundo um dos monitores, compreender que:
M.: (...) nós existimos para servir e para agregar da forma que as pessoas acharem que nós podemos fazer (...) Nós somos um projeto para acrescentar, sim. Para ajudar, não. (...) Nós vamos mudar estes miúdos? Se eles quiserem... Mas isso tem de partir deles, estás a entender? (02-05-2022)
Considerações Finais
A dualidade interpretativa apresentada ao longo do artigo prende-se à ideia relacional dos caminhos da história da arte com os da sociologia que, ao confluírem na própria leitura do espaço, denotam a importância da etnografia como uma ferramenta de análise multidisciplinar. Este combinação de diferentes campos do saber reporta-nos, por exemplo, para a afirmação de Claude Revière de que:
“Antropólogos e historiadores trabalham de braço dado num campo de actividade comum, embora com diferenças nas heranças, nas aprendizagens, nas carreiras e na textura da profissão.” (Rivière, 1995: 22)
Deste modo, o confronto entre os objetivos gerais estipulados e os resultados adquiridos, assentes nas fontes de referência das respetivas áreas científicas, permitem estruturar breves considerações face ao exercício etnográfico no Espaço Raiz - Centro Comunitário de Ramalde.
A partir de uma lógica sinérgica, o “fazer sociedade” e o “fazer cidade” (Carvalho & Baptista, 2004: 39) são práticas devedoras da acuidade face aos problemas urbanos, tornando-se fulcral conhecer as pessoas no espaço em que se movem. Para o efeito, a “visão cultural e relacional da cidade” (Carvalho & Baptista, 2004: 53) resulta das variadas constituintes do lugar que retratam uma estrutura física, um sistema de organização social e um conjunto de atitudes. Note-se que o território não é, à priori, o objeto de estudo, mas antes, o contexto de estudo que, todavia, acaba por emergir como objeto ao longo do processo de investigação.
Conclui-se que a caracterização do espaço nas vertentes territorial, social e cultural apresenta uma disparidade, não só ao nível da malha urbana - acentuada pelas habitações -, como, também, ao nível dos valores prospetivos e das ambições das comunidades que frequentam núcleos urbanos distintos. A partir daqui a perceção dos diferentes tipos de acesso e, sobretudo, de interesses relativamente às fontes de conhecimento, principalmente a desvalorização escolar, reforçaram a reflexão sobre o caráter operacional da cultura para o desenvolvimento comunitário.
As dinâmicas de sociabilidade e culturais justificam a construção de identidades coletivas, promotoras de laços de pertença que, no entanto, são mutáveis na conceção tempo-espaço. Seguindo a Convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais (2005), destaca-se a importância de “fomentar a interculturalidade de forma a desenvolver a interação cultural, no espírito de construir pontes entre os povos” (UNESCO, 2005: alínea d)). De modo a percecionar estes elos de ligação, as metodologias de análise possibilitam compreender as pessoas em sociedade, isto é, grupos, lugares, práticas e redes que frequentam, através de um paulatino processo de observação, registo e interpretação.
Surgiu, assim, a questão: Como é que se justifica o desinteresse pelo conhecimento e pela cultura no caso de estudo? Tal como explica um dos coordenadores, apresentado no ponto anterior, a problemática prende-se à própria noção da cultura, sendo que o conceito é em si variável na sua subjetividade. Embora se verifique, atualmente, um crescente fluxo de informação potenciado pelo mundo digital, este não garante que haja um efetivo conhecimento por parte do indivíduo, verificando-se uma falta de acesso e valorização decorrente, muitas vezes, de problemáticas motivacionais (Juncal, 2023: 40-42).
Não obstante, a cultura do conhecimento como meio de desenvolvimento comunitário impõe um olhar amplo face ao próprio conceito de conhecimento, ou antes conhecimentos. No caso do conhecimento gerado pela cultura, este está associado, essencialmente, a sistemas simbólicos que organizam a vida gerada por hábitos que formam e justificam o próprio conceito de relativismo cultural (Juncal, 2023: 41).
Apesar da pluralidade dos referentes culturais dos diferentes participantes do Espaço Raiz, desde monitores, utentes e voluntários, o funcionamento do espaço converge numa dinâmica social baseada em premissas comuns, considerando-se como principal papel do Centro Comunitário, a promoção da qualidade de vida baseada na educação do Ser através de uma coexistência sociocultural positiva. Assim, o Espaço Raiz, mais concretamente o Programa Escolhas, serve como um ativo para o desenvolvimento, pelo seu caráter pedagógico sendo, por isso, “indissociável do seu sentido transformador.” (Carvalho & Baptista , 2004: 75)
Numa lógica de participação-desenvolvimento, o sentido de comunidade estimulado pelas organizações e instituições conflui no seu papel ativo direcionado para o desenvolvimento comunitário, pressupondo as potencialidades e debilidades estruturais das comunidades locais. Trata-se, pois, de um processo coletivo de consciencialização, no qual o Sujeito (coletivo) é produto e produtor da transformação.
Em suma, o processo de evolução da Pessoa pode traduzir-se na história da cultura vinculada ao fenómeno social, na medida em que a inter-relação entre cultura e educação promove a construção e participação cidadã, encerrando em si um valor de aprendizagem na comunidade envolvida e, consequentemente, o seu desenvolvimento.












