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Sociologia

versão impressa ISSN 0872-3419versão On-line ISSN 2182-9691

Sociologia vol.52  Porto dez. 2025  Epub 30-Nov-2025

https://doi.org/10.21747/08723419/soc52ed 

Editorial

Percursos escolares estudantis: acessos e permanências

João Teixeira Lopes1 

Benedita Portugal e Melo2 

1Departamento de Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto

2 Instituto de Educação da Universidade de Lisboa


Este conjunto de textos resulta de um colóquio organizado pelo Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto nos dias 12 e 13 de junho de 2024 que reuniu investigadores portugueses, brasileiros, espanhóis e franceses. Este dossier recupera alguns dos textos que aí foram apresentados.

Pretendia-se, então, estimular a reflexão sobre a importância do cruzamento entre diacronia e sincronia nos trajetos escolares. Na verdade, apesar das origens sociais, na sua multidimensionalidade e interseção (classe, género, etnia) serem preditores importantes, não é menos necessário ter em conta as desigualdades que se vão formando ao longo das trajetórias estudantis, nem tampouco a sua moldagem pelos projetos e mecanismos da socialização antecipatória e dos grupos de referência. Assim se cruzam, pois, diacronia (ciclos de vida; bifurcações e encruzilhadas ao nível individual; papéis sociais - do aluno ao jovem; etc.) e sincronia (na pluralidade de contextos, princípios, agentes e instituições de socialização). Assim se cruza, também, a precisão de ter em conta, não apenas o franquear dos ciclos de estudo, mas fundamentalmente as condições de sustentabilidade dos percursos longos, em particular quando falamos das classes populares.

Um percurso designa, na sua origem etimológica, um caminho percorrido na totalidade. Pressupõe, por isso, movimento, transformação e desenvolvimento ao longo do tempo. Esta mobilidade pode assumir múltiplas formas e é sensível à escala de análise. Numa perspetiva individual, os percursos podem incluir desde deslocações quotidianas até migrações transnacionais, mudanças de papéis sociais, de instituições ou de contextos - dinâmicas que se tornam mais frequentes e complexas nas sociedades atuais, marcadas por uma crescente diferenciação social, espacial e temporal. Já numa escala estrutural ou coletiva, mesmo com mudanças aparentes, pode persistir uma tendência de reprodução social, como bem observaram Bourdieu e Passeron (1964; 1970). Um exemplo disso é a mobilidade estrutural, onde todas as posições sociais parecem ascender, mas conservam entre si as mesmas relações hierárquicas. Existem também trajetos que combinam elementos de continuidade e de mudança, lembrando-nos que os percursos não são isolados, mas moldados em relação com os outros e com o contexto.

Contudo, todo o percurso implica uma dinâmica. Mesmo quando a posição social permanece inalterada, os indivíduos passam por transformações, influenciados por múltiplas experiências e instâncias sociais. A partir do habitus, esse sistema interiorizado de perceção e ação, os sujeitos reinterpretam as suas experiências e ajustam práticas e disposições. A nível existencial, é comum sentirmos que já não somos exatamente quem éramos, ou percebermos que, consoante o contexto ou o papel desempenhado, ativamos diferentes saberes, competências e atitudes. Assim, os percursos são processos vivos, em constante recomposição, onde se cruzam estruturas, práticas e subjetividades.

As pessoas mudam de territórios, grupos, instituições; migram de contexto para contexto ou os próprios grupos e contextos em que se movem sofrem transformações ao longo do tempo, algumas muito aceleradas pela “pressão” induzida pelo ciberespaço e as redes sociais, reconfigurando rapidamente o significado das práticas, alimentando cascatas de eventos e respetivas retroações, fomentando a ambiguidade e o sentimento de incerteza. Além do mais, as práticas não são - nunca foram - entidades substanciais, fixas e de fronteiras estanques, nem têm um só significado causal. Muitas vezes são contraditórias.

Em suma, em vez de atributos estáticos a análise de percursos incita-nos a lidar com cadeias ou sequências de eventos, fazendo sobressair o seu encadeamento temporal e não apenas correlações entre variáveis “fora do tempo”. Esta ontologia relacional não é nova e encontra-se tanto em Abbott como em Bourdieu, Lahire ou Elias. Todos rejeitam a preguiças das “variáveis isoladas”. Para Bourdieu (1986), tudo se joga em campos de relações e posições (o autor fala em trajetórias no espaço social como deslocações marcadas pela variação de capital); Lahire (1998, 2004) enfatiza a pluralidade dos domínios de ação e as contradições entre os vários momentos e contextos de socialização; Elias (1978) insiste no uso das configurações como rede de elementos interdependentes e para Abbott (1995) as trajetórias devem ser descritas como sequências (ordens, durações, viragens).

Tal como os quadros de referência aqui mencionados, os artigos deste dossier mostram uma diversidade de perspetivas sobre os percursos escolares, em diferentes contextos nacionais.

O texto de Cédric Hugrée e Tristan Poullaouec analisa as transformações demográficas e institucionais no ensino superior francês, a partir das “explosões escolares” dos anos 90 e 2000 e equaciona os seus efeitos na seleção e hierarquia do sistema educativo francês. Os autores discutem como a massificação do acesso à universidade,paradoxalmente, aprofundou as desigualdades de aprendizagem e de destino entre as classes sociais, especialmente para os filhos das classes populares. Observando a crescente importância dos diplomas num mercado de trabalho competitivo, Hugrée e Poullaouec refletem sobre o papel do capital cultural no século XXI e sugerem uma redefinição do modelo universitário com vista à promoção de uma democratização genuína e do desenvolvimento do pensamento crítico e à necessidade de se combater a precarização do saber académico e as disparidades da formação universitária francesa.

O artigo de Hustana Maria Vargas analisa a relação entre o espaço tempo universitário e a permanência estudantil no ensino superior brasileiro. A autora argumenta que, apesar das contribuições sociológicas tradicionais destacarem a integração do aluno, é crucial considerar a compressão espaçotemporal contemporânea, que afeta negativamente a experiência académica e as taxas de conclusão dos cursos superiores. A pesquisa, focada no curso de Pedagogia da Universidade Federal Fluminense, utiliza uma metodologia exploratória que combina questionários, entrevistas e fotografias para ilustrar como a rigidez estrutural do campus e dos currículos, aliada a mudanças espaçotemporais e à “sociedade hiperconectada e do cansaço”, afeta o bem-estar e o sucesso dos estudantes. O texto defende um redesenho dos tempos e espaços universitários para promover a convivência, a sociabilidade e, consequentemente, a permanência e o sucesso académico no ensino superior brasileiro.

O artigo de Edilene Silva e Chantal Medaets explora as experiências de estudantes indígenas no ensino superior no Brasil, com base numa pesquisa realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Propondo a sociologia da educação como uma relevante ferramenta teórica para analisar os percursos destes estudantes, as autoras analisam as suas trajetórias desde a educação básica até à universidade e salientam os desafios por eles enfrentados como o "gap educacional" e o choque cultural. Neste processo, destacam a semelhança das vivências dos estudantes indígenas com as dos estudantes oriundos de classes populares. Através de uma análise aprofundada de dois retratos sociológicos, discutem a complexidade do processo de inclusão desses estudantes e a importância do apoio institucional e familiar para a sua permanência na universidade e para o seu sucesso académico, salientando ainda como a universidade constitui um espaço de reafirmação étnica e de transferência de "capitais" dos estudantes indígenas para as suas comunidades.

O artigo de Leonor Lima Torres, José Augusto Palhares e Pedro Abrantes discute como as condições estruturais, os mandatos atribuídos à escola e as formas de participação dos jovens se articulam, com o propósito de refletir criticamente sobre o papel da escola na promoção da cidadania democrática e na construção de espaços de inclusão. Baseando-se num extenso inquérito nacional com alunos do 10º ano realizado em 2008, 2011, 2014 e 2017, os autores analisam as experiências participativas dos jovens em diferentes contextos. Os resultados apresentados revelam a persistência de desigualdades ligadas à origem socioeconómica e ao género, o que denuncia as limitações dos espaços de participação e questiona o papel democratizador da escola. A análise realizada enfatiza como a tensão entre meritocracia e democratização afeta a função social da escola, originando uma reprodução das desigualdades sociais em vez da efetiva inclusão a que as políticas educativas têm vindo a apelar.

O texto de Carlos Alonso Carmona analisa o envolvimento parental no desempenho escolar dos filhos, defendendo a ideia de que a pesquisa tradicional neste campo correlaciona de modo superficial os comportamentos familiares com o sucesso académico. Em alternativa, o autor propõe a adoção de uma perspetiva processual e relacional, a partir do argumento fundamental que as interações entre pais e filhos se modificam mutuamente ao longo do tempo. Através de uma pesquisa qualitativa e longitudinal, apresenta três tipos de dinâmicas familiares - confiança, resignação e controle - que ilustram como as trajetórias escolares dos filhos e a classe social dos pais moldam o envolvimento familiar. A análise ressalta o papel ativo dos filhos na relação com a escola e como a perceção mútua entre família e professores influencia o envolvimento parental, desafiando a visão dominante de uma causalidade unidirecional e explicando as diferenças de envolvimento entre classes sociais.

Em suma, este conjunto de textos constitui-se como um valioso contributo a uma análise dos percursos enquanto trajetórias simultaneamente moldadas por estruturas e abertas à agência, exigindo uma leitura atenta às dinâmicas de continuidade e transformação. Compreendê-los é, por isso, entender a relação entre o indivíduo e o mundo social - uma relação feita de trajetórias singulares, mas sempre inscritas em processos de produção social. Longe de serem linhas retas ou previsíveis, os percursos são trajetos complexos, feitos de ajustamentos, ruturas e sedimentações, onde o passado e o presente se entrelaçam continuamente.

Analisar percursos é, no fundo, aceder à espessura social da experiência humana, onde as disposições individuais se cruzam com os condicionamentos estruturais e as possibilidades (limitadas) de reinvenção.

Referências bibliográficas

ABBOTT, A. (1995), “Sequence analysis: New methods for old ideas”, Annual Review of Sociology, 21, 93-113. [ Links ]

BOURDIEU, P. (1986), “The forms of capital”, In J. G. Richardson (Ed.), Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education (pp. 241-258), New York, NY, Greenwood. [ Links ]

BOURDIEU, P., & PASSERON, J.-C. (1964), Les héritiers: Les étudiants et la culture, Paris, Les Éditions de Minuit. [ Links ]

BOURDIEU, P., & PASSERON, J.-C. (1970), La reproduction: Éléments pour une théorie du système d’enseignement, Paris, Les Éditions de Minuit. [ Links ]

ELIAS, N. (1978), What is sociology?, London, Hutchinson. [ Links ]

LAHIRE, B. (1998), L’homme pluriel: Les ressorts de l’action, Paris, Nathan. [ Links ]

LAHIRE, B. (2004), La culture des individus: Dissonances culturelles et distinction de soi, Paris, La Découverte. [ Links ]

João Teixeira Lopes (autor para correspondência). Role: Concetualização, Análise formal, Investigação, Metodologia, Administração do projeto, Supervisão, Validação, Visualização, Redação - rascunho original, Redação - revisão e edição. Professor Catedrático do Departamento de Sociologia, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Investigador do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto. Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Via Panorâmica s/n, 4150-564, Porto, Portugal. ORCID ID: 0000-0001-6891-7411 E-mail: jlopes@letras.up.pt

Benedita Portugal e Melo. Role: Concetualização, Análise formal, Investigação, Metodologia, Administração do projeto, Supervisão, Validação, Visualização, Redação - rascunho original, Redação - revisão e edição. Professora Auxiliar do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. UIDEF, Instituto de Educação, Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, 1649-013 Lisboa. ORCID ID: 0000-0003-1981-5931. E-mail: mbmelo@ie.ulisboa.pt

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