Introdução
As tecnologias de reconhecimento facial, uma das tecnologias de inteligência artificial (IA) mais presentes em diversos setores da sociedade, desde segurança pública, comércio retalhista, tecnologia móvel, banca e finanças, entre outros, têm vindo a suscitar reações variadas, contraditórias e complexas, num continuum entre a sua normalização e aceitação, e crítica e oposição pública. Estas tecnologias funcionam através da análise de características faciais extraídas de imagens ou vídeos, incluindo a distância entre os olhos, a forma do nariz e os contornos do rosto, servindo essencialmente dois propósitos principais: autenticação (esta pessoa é quem diz ser?) e identificação (quem é esta pessoa?). Mais recentemente, estas tecnologias estão também a ser desenvolvidas para aplicações altamente controversas que extravasam as tradicionais funções de autenticação e identificação, desde a avaliação de estados emocionais à inferência de tendências comportamentais e traços de personalidade (Hupont et al., 2022; Kaur et al., 2020).
Com origem em aplicações militares desenvolvidas nos EUA desde a década de 1960 (Gates, 2011), as tecnologias de reconhecimento facial experimentaram um crescimento significativo no início do século XXI, impulsionado pelas crescentes preocupações com a segurança nacional após o 11 de setembro. Nos últimos anos, o mercado expandiu-se substancialmente devido ao crescente interesse das grandes empresas tecnológicas nessas tecnologias. Analistas do setor preveem que o tamanho do mercado global de reconhecimento facial mais do que quadruplicará entre 2020 e 2032 (Allied Market Research, 2023). Atualmente, os sistemas de videovigilância com capacidades de reconhecimento facial tornaram-se padrão em muitos países do mundo, em locais como aeroportos, postos fronteiriços, estádios e espaços públicos, com o objetivo de controlar fluxos de migrantes e identificar pessoas de interesse, que, por exemplo, constem de listas de foragidos, de terroristas ou de bases de dados criminais nacionais (Dauvergne, 2022a, 2022b; Ellerbrok, 2011; Kloppenburg e van der Ploeg, 2018; Magnet, 2011; Sánchez-Monedero e Dencik, 2022).
Os promotores de tecnologias de reconhecimento facial enfatizam diversas vantagens, como a melhoria na eficácia e segurança dos processos de identificação e autenticação de pessoas em contextos como aeroportos, transações financeiras e compras ou o seu uso na localização de pessoas desaparecidas. Além disso, destacam o potencial uso dessas tecnologias em diagnósticos médicos, apoio em saúde mental e personalização de tratamentos. No entanto, a proliferação dessas tecnologias tem gerado preocupações significativas entre académicos, ativistas, especialistas em privacidade e reguladores sobre os possíveis efeitos prejudiciais para a sociedade. Entre os tópicos que suscitam preocupações destacam-se: a ampliação da vigilância massiva por governos e empresas e as ameaças à privacidade, às liberdades civis e aos direitos humanos (Bueno, 2020; Bucher, 2022); a perpetuação de discriminação contra comunidades e grupos vulneráveis, que são mais suscetíveis a processos de suspeição e vigilância (Galligan et al., 2020; Søraa, 2023); e as falhas e imprecisões que essas tecnologias apresentam, que tendem a atingir pessoas que saem fora do modelo dominante de treino de dados de sistemas de IA - o padrão de “homem branco” (Buolamwini, 2023; Cabitza, Campagner e Mattioli, 2022).
No atual contexto de expansão generalizada de tecnologias de reconhecimento facial em diversos setores, acompanhado pela ampliação de vozes críticas em relação aos riscos e danos dos seus usos, várias organizações da sociedade civil, transnacionais, regionais e locais, que incluem uma ampla diversidade de apoiantes de base e de tipo de estrutura, têm desencadeado várias atividades para contestar o uso destas tecnologias, incluindo protestos públicos, campanhas de sensibilização, estudos sobre efeitos negativos e ações judiciais. O objetivo principal dessas ações de contestação é destacar as preocupações públicas, atuais e futuras, em relação à presença de tecnologias de reconhecimento facial em espaços públicos e em diversos setores da sociedade, e pressionar os decisores políticos por mudanças. Os estudos sobre a contestação das tecnologias de reconhecimento facial levada a cabo por organizações da sociedade civil ainda são limitados, destacando-se um estudo que oferece uma visão geral do caso dos EUA (Dauvergne, 2022a) e outro que compara os objetivos e estratégias de contestação da parte de organizações da sociedade civil nos EUA e na Europa (Schopmans e Ebetürk, 2023).
Este artigo pretende ampliar o conhecimento sobre ações de contestação de tecnologias de reconhecimento facial, analisando a oposição às tecnologias de reconhecimento facial na América Latina.1 [MOU1]Em particular, focar-se-ão as formas pelas quais estas ações de contestação projetam aquilo que Schopmans e Ebetürk, a propósito da comparação entre o caso dos EUA e da Europa, designam como “imaginários tecno-autoritários”:
visões coletivas de um futuro social indesejável em que os atores públicos e privados utilizam sistematicamente tecnologias que, pela sua própria conceção, facilitam práticas não democráticas, para retirar os direitos democráticos de indivíduos ou grupos. (Schopmans e Ebetürk, 2023: 944 [tradução da autora]).
A partir de uma análise de documentação produzida por organizações da sociedade civil atuando na região da América Latina (Associación por los Derechos Civiles, na Argentina; Igarapé e Internet Lab, no Brasil, Derechos Digitales, no Chile; Karisma Foundation, na Colômbia; Fundación Acceso, na Costa Rica; R3D-Rede em Defensa de los Derechos Digitales, no México)2 visa-se compreender as dinâmicas de contestação (Prasse-Freeman, 2020) à luz de configurações atuais do ativismo institucionalizado no campo dos direitos digitais. Neste contexto, o presente artigo tem como objetivo principal responder à seguinte questão: Como é que as ações de contestação de organizações da sociedade civil na América Latina, dirigidas a tecnologias de reconhecimento facial, reconfiguram “imaginários tecno-autoritários”, e como é que essas dinâmicas de contestação revelam tensões e conflitos estruturais fortemente marcados pelo contexto político e social?
Esta questão suscita uma análise do modo como as ações de contestação, da parte de organizações da sociedade civil, dirigidas a tecnologias de reconhecimento facial, na América Latina, refletem tensões e conflitos estruturais sob a forma daquilo que Pierre Bourdieu designou “opiniões mobilizadas” (Bourdieu, 1993) que, por sua vez, traduzem um mundo de relações entre públicos mobilizados e públicos não mobilizados mas potencialmente mobilizáveis. Ou seja, essas ações refletem uma arena de disputa simbólica em que determinados grupos conseguem transformar preocupações éticas e políticas em discursos públicos articulados, direcionando a atenção para os riscos de vigilância e invasão de privacidade associados a essas tecnologias. Na minha perspetiva, existe não só uma diferenciação entre os públicos já mobilizados - aqueles empenhados ativamente na causa, que geralmente pertencem a contextos mais politizados ou são afetados diretamente pelas práticas de vigilância - e públicos ainda não mobilizados mas potencialmente sensíveis a comprometerem-se (Machado, Silva e Neiva, 2023). Em suma, a capacidade de mobilização das organizações da sociedade civil aponta para dinâmicas de poder que influenciam quem tem voz na definição dos rumos dessas tecnologias e quem permanece silenciado. Ao longo deste texto procurar-se-á analisar de que forma as opiniões mobilizadas destas ações de contestação das tecnologias de reconhecimento facial projetam imaginários tecno-autoritários e estão fortemente marcadas pelo contexto político e social, envolvendo inter-relações entre ciência e desenvolvimento tecnológico, governos, empresas, cidadãos, movimentos sociais e ativismo (Hess, 2015).
Numa primeira parte, descrevem-se as principais controvérsias em torno de tecnologias de reconhecimento facial e o tipo de contestação que tem surgido nos EUA e na Europa. Numa segunda parte, analisam-se as controvérsias que têm vindo a emergir em alguns países da América Latina e as ações de contestação das organizações da sociedade civil, comparando-as com as ações de contestação na Europa e nos EUA. Na conclusão, sintetizam-se os principais elementos dos imaginários tecno-autoritários associados à contestação das tecnologias de reconhecimento facial na América Latina.
Contestação das tecnologias de reconhecimento facial
A tendência acentuada para o tecno-solucionismo por parte de governos, tecnocratas e empresas tecnológicas a uma escala global, ou seja, a crença que o desenvolvimento incessante de novas tecnologias é a solução para resolver problemas complexos (Morozov, 2013), faz com que um dos aspetos centrais de legitimação e justificação da expansão de tecnologias de reconhecimento facial se associe a preocupações com segurança pública e controlo da violência e da criminalidade. Em contraponto com discursos laudatórios que sugerem que estas tecnologias permitem uma identificação e autenticação segura de pessoas que poderá, por exemplo, identificar criminosos ou ajudar na busca de pessoas desaparecidas, vozes críticas receiam um controlo social autoritário, ou melhor dizendo: um autoritarismo tecno-digital (Schopmans e Ebetürk, 2023).
A emergência da China como líder em tecnologias de reconhecimento facial aumentou estas preocupações sobre uma vigilância massiva distópica, intensificando os debates nos países ocidentais sobre o equilíbrio entre liberdade e repressão e a interseção entre vigilância e democracia. Estas preocupações são grandemente amplificadas pelas narrativas dos meios de comunicação social, que frequentemente retratam a utilização de reconhecimento facial pela China como um exemplo flagrante de controlo estatal, servindo como um contraste pungente com as aplicações éticas previstas da IA e os ideais democráticos presumivelmente incorporados pelos EUA e pela União Europeia, reproduzindo, deste modo, visões geopolíticas do Norte Global que operam uma divisão simbólica entre o “ocidente” e o “resto do mundo” (Aradau e Blanke, 2022: 139). Neste contexto, escasseia conhecimento sobre os contornos do debate entre liberdade e repressão, vigilância e democracia no contexto particular da América Latina. Clamando como urgente investigar os contornos da utilização de tecnologias de reconhecimento facial, Peter Dauvergne refere que o reconhecimento facial
é especialmente perigoso em locais com um estado de direito desigual, fraca proteção dos direitos humanos, direitos de privacidade limitados e governos repressivos, que, não por coincidência, são os locais onde os líderes políticos na Ásia, África e América Latina estão a avançar particularmente depressa para integrar a tecnologia em ferramentas policiais e sistemas de vigilância. (Dauvergne, 2022b: 2326 [tradução da autora]).
Em vários países, a contestação da expansão da utilização de tecnologias de reconhecimento facial tem aumentado nos últimos anos, com diversas organizações da sociedade civil a ganharem força e coerência nos seus esforços de crítica à expansão das tecnologias de reconhecimento facial, com uma ampla variedade em termos de abrangência das suas ações, tanto a nível local, como nacional e internacional. Esta contestação é tanto de base de ativismo popular como apoiada por organizações estabelecidas da sociedade civil, abrangendo defensores da justiça racial, dos direitos LGBTQ+, da justiça social, dos direitos dos imigrantes e das liberdades democráticas (Dauvergne, 2022a). A presença de organizações da sociedade civil que contestam tecnologias de reconhecimento facial varia significativamente a nível mundial, sendo os EUA e a Europa as regiões do mundo que apresentam ações mais fortes de contestação (Dauvergne, 2022a, 2022b).
De acordo com um estudo comparativo de movimentos sociais de contestação da expansão e utilização de reconhecimento facial nos EUA e na Europa (Schopmans e Ebetürk, 2023) existem diferenças em termos dos problemas identificados: a atuação de organizações da sociedade civil nos EUA, como a American Civil Liberties Union (ACLU) e a Surveillance Technology Oversight Project (STOP), centra-se em dois tipos de controvérsias: por um lado, a vigilância massiva; por outro lado, os vieses e erros.
Os receios em relação à vigilância massiva dirigem-se sobretudo às alianças entre o aparelho militar do governo, as forças policiais e as parcerias com grandes empresas, tendo surgido várias controvérsias relacionadas com usos de reconhecimento facial dirigidos a comunidades mais vulneráveis e estigmatizadas e junto de participantes em manifestações públicas contra a violência policial e o racismo.
As preocupações relacionadas com viés e erros técnicos das tecnologias de reconhecimento facial focam os modos como estas tecnologias reproduzem e reforçam o racismo sistémico e têm efeitos discriminatórios, sobretudo quando são usadas por forças policiais, podendo levar a prisões injustas de pessoas de cor.3 É frequentemente apontado que as tecnologias de reconhecimento facial perpetuam e agravam a discriminação, por apresentarem mais erros e falhas quando se trata de populações fora do padrão “homem branco” (Buolamwini, 2023). Esses vieses estão relacionados com o chamado “problema de alinhamento” em inteligência artificial (Gabriel, 2020), que se refere à dificuldade em garantir que sistemas automatizados, como a IA e as tecnologias de reconhecimento facial, estejam alinhados com valores, princípios e normas éticas humanas: ao operar com dados que refletem preconceitos históricos e sociais, as tecnologias de reconhecimento facial não só falham em neutralizar esses vieses, como também os reforçam (Russell, 2019).
Em organizações da sociedade civil atuando na Europa, como Euroactive, Statewatch e European Digital Rights (EDRi), o imaginário de uma vigilância massiva indiscriminada e totalitária é o aspeto mais proeminente (Schopmans e Ebetürk, 2023), sendo argumentado que a utilização de reconhecimento facial para vigilância indiscriminada em espaços públicos potencia violações de direitos fundamentais, abusos de poder por parte das autoridades e entidades privadas ou comerciais. A reforçar este argumento principal apontam-se outros aspetos: por um lado, a ausência de responsabilização, na medida em que o uso de reconhecimento facial ocorre num vazio de responsabilidade do estado e num contexto em que grandes empresas privadas têm um poder desproporcionado sobre esta tecnologia, sem prestarem contas pelas suas ações. Por outro lado, a utilização de reconhecimento facial para “reconhecimento de emoções” ou “previsão comportamental”, que está a ser desenvolvida por alguns cientistas e empresas, pode ser explorada para utilizações extremas de controlo social autoritário, como a classificação social,4 ou mesmo a pontuação social,5 e a manipulação comportamental.
Nos EUA, algumas cidades e estados implementaram proibições de uso de reconhecimento facial, mas também assistimos a tentativas de cooptação do enquadramento da justiça racial por parte das empresas e das forças policiais, que reformularam o debate em torno de soluções técnicas para o viés e discriminação, a fim de evitarem uma regulamentação mais restritiva e mitigarem danos reputacionais (Wen e Holweg, 2023). Na Europa, a ênfase dada pelos ativistas à incompatibilidade do reconhecimento facial com os direitos fundamentais repercutiu-se nos decisores políticos e contribuiu para uma proposta de proibição das tecnologias biométricas à distância. No entanto, a Lei da IA da União Europeia (Comissão Europeia, 2024), recentemente aprovada, ao longo das suas sucessivas redações foi diminuindo as restrições ao uso destas tecnologias, relegando nos estados-membros a opção de adotarem regras mais rigorosas e concretas a nível nacional.
Contestação do reconhecimento facial na América Latina
Comparando com os EUA e Europa, na América Latina são relativamente escassas as organizações da sociedade civil e movimentos sociais de contestação das tecnologias de reconhecimento facial (Dauvergne 2022a, 2022b), mas em países como o Brasil e a Argentina o ativismo contra o reconhecimento facial está a crescer (Caeiro, 2022; Ramiro e Cruz, 2023).
Com base nos princípios do método heurístico (Heineman-Pieper, Tyson e Pieper, 2002), que orienta a análise da complexidade dos fenómenos sociais através da descoberta, exploração e flexibilidade, procedeu-se a uma recolha sistemática de documentos disponíveis na internet sobre controvérsias e ações de contestação às tecnologias de reconhecimento facial em países da América Latina. A seleção dos documentos para este estudo foi realizada com base em critérios de relevância e representatividade, considerando a natureza dos casos documentados e a credibilidade das fontes. Focou-se em relatórios, comunicados e artigos de organizações da sociedade civil que abordavam a temática, complementados por artigos da imprensa para contextualizar e validar as situações descritas. Esta abordagem, embora flexível e orientada para a descoberta, implica algumas limitações, como a potencial falta de dados uniformes ou a dependência de fontes públicas, o que pode introduzir vieses. No entanto, esta estratégia permitiu captar uma ampla diversidade de perspetivas e casos, refletindo a complexidade e pluralidade do fenómeno de contestação ao uso do reconhecimento facial na região.
De acordo com o estudo de Caeiro (2022), Argentina, Bolívia, Brasil, Costa Rica, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru têm implementações de sistemas de reconhecimento facial em curso; o Chile, El Salvador, a Guatemala e o Uruguai têm planos para a sua implementação, estimando-se, ainda, que os usos de reconhecimento facial já terão começado nas Honduras e na Nicarágua (Caeiro, 2022: 3-4). Com base num estudo realizado pela Comparitech, uma empresa de defesa do consumidor que promove a privacidade digital e a cibersegurança, sobre a prevalência das tecnologias de reconhecimento facial em diversos setores - como serviços públicos, forças policiais, aeroportos, escolas, bancos, locais de trabalho e transportes (Bischoff, 2022) - os países que na América Latina apresentam maior prevalência da utilização de reconhecimento facial são a Argentina, o Brasil e o México. Em resultado da pesquisa documental realizada, sobre situações de controvérsias e de contestação de tecnologias de reconhecimento facial em países da América Latina, foi possível apurar os cenários que constam do quadro 1.
De acordo com Venturini e Garay (2021), as controvérsias geradas em torno da utilização de reconhecimento facial nos diferentes países da América Latina permitem identificar algumas preocupações comuns manifestadas por organizações da sociedade civil, certos círculos académicos e alguns meios de comunicação social: a justificação do uso do reconhecimento facial em nome da segurança pública pode conduzir a uma vigilância massiva e sem prestação de contas; processos obscuros de introdução de tecnologias de vigilância nos mercados latino-americanos, cruzando corrupção governamental, fraude e interesses comerciais; a implementação de sistemas de reconhecimento facial em contextos regulatórios e legais débeis; a ausência de mecanismos adequados de transparência e de supervisão da utilização e retenção de dados; receios que o uso desta tecnologia por forças policiais reforce a discriminação racial estrutural e a vigilância sobre manifestantes e dissidentes políticos. Na secção seguinte, procede-se a uma comparação das controvérsias identificadas na América Latina com aquelas que mais se destacaram no estudo realizado por Schopmans e Ebetürk (2023) para os casos dos EUA e Europa.
Discussão: autoritarismo tecnicamente assistido?
A segurança pública
A justificação para o uso de reconhecimento facial em nome da segurança pública é um tema recorrente nas críticas e contestações, tanto nos EUA e Europa como na América Latina. No entanto, uma distinção fundamental emerge, entre estas regiões, ao nível das configurações de justificação da utilização de tecnologias de reconhecimento facial por motivos segurança pública. Nos EUA, a utilização de reconhecimento facial é frequentemente justificada como uma medida de segurança nacional, direcionada principalmente para o controlo de fronteiras e a identificação de suspeitos de listas de foragidos e de terroristas. Na Europa, a justificação para segurança pública é frequentemente circunscrita a situações específicas, como eventos públicos com grandes aglomerados de pessoas e práticas de segurança em aeroportos. No entanto, tanto nos EUA como na Europa, a justificação para a utilização do reconhecimento facial e de outras tecnologias biométricas no domínio da segurança pública baseia-se em uma construção social e política que define categorias de suspeição voltadas para indivíduos considerados como “de fora” - como o “estrangeiro”, o “terrorista” ou o “imigrante” (Machado, Granja e Amelung, 2019).
Por outro lado, na América Latina, a justificação para o uso de tecnologias de reconhecimento facial assume frequentemente a forma de um “problema nacional”. A região é frequentemente caracterizada como atravessando uma “crise crónica de segurança pública”, com taxas de criminalidade e vitimização em constante crescimento (Melgaço e Botello, 2015). As preocupações com a segurança são particularmente intensas nos centros urbanos, onde as políticas anticrime são vistas como ferramentas cruciais para enfrentar tanto a criminalidade quotidiana quanto as formas mais severas de violência associadas ao crime organizado. Esse contexto resulta no fenómeno descrito por Hochmüller e colaboradores (2024) como “militarismo e militarização” da vida quotidiana na América Latina, em resposta a problemas sociais, políticos e económicos aparentemente insolúveis. Nesse cenário, a justificação para a implementação extensa de tecnologias de reconhecimento facial como um meio de combater a insegurança pública pode ganhar uma legitimidade reforçada. Isso levanta preocupações de que o elevado nível de apreensão pública em relação à criminalidade e à violência possa levar a uma aceitação acrítica generalizada dessas tecnologias (Caeiro, 2022; Ramiro e Cruz, 2023).
Parcerias público-privadas
As controvérsias sobre o uso de tecnologias de reconhecimento facial na América Latina destacam-se das dos EUA e Europa devido às exigências de transparência e a dúvidas sobre parcerias público-privadas. Na Europa, os receios de que as parcerias entre governos e empresas na utilização de tecnologias de reconhecimento facial apontam para a necessidade de regulamentação e de uma inteligência artificial “responsável” e de “confiança” (Machado e Silva, 2024), que se demarque de usos abusivos de vigilância por parte de grandes empresas tecnológicas (como acontece nos EUA) e da vigilância autoritária e repressiva (como acontece na China). Nos EUA, a utilização indevida de tecnologias de reconhecimento facial por grandes empresas tecnológicas, em colaboração com agências governamentais e forças policiais, esteve no centro de controvérsias públicas, conduzindo a Amazon, a IBM e a Meta a anunciar o fim dessas colaborações, embora críticos vejam essas ações como estratégias para proteger a reputação (Wen e Holweg 2023).
Por outro lado, os receios em torno das parcerias entre governos e empresas no contexto da América do Sul revelam dois aspetos principais. Em primeiro lugar, há preocupações de que as cidades da América Latina estejam a ser utilizadas como experimentação por parte de empresas tecnológicas chinesas (Venturini e Garay, 2021), o que convoca receios sobre a perpetuação da posição subordinada de países com economias emergentes em relação a potências estrangeiras com regimes autoritários. Esse cenário levanta temores de que os interesses comerciais dessas empresas, acoplados com tendências de vigilância massiva, sejam priorizados em detrimento de iniciativas autênticas para reduzir a criminalidade e a violência.
Debilidades legais
Uma das principais diferenças dos contextos em que atuam as organizações da sociedade civil na América Latina em relação às da Europa e dos EUA prende-se com legislação e regulação. As organizações da sociedade civil na Europa invocam o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e, mais recentemente, o Regulamento da Inteligência Artificial (Comissão Europeia, 2024). Deste modo, as organizações da sociedade civil na Europa têm-se focado em exigir que as leis existentes sejam cumpridas ou que novos regulamentos surjam mais ajustados aos desafios que decorrem da evolução das tecnologias digitais (Schopmans e Ebetürk, 2023). Nos EUA, não obstante não existir uma lei federal aplicável à regular a utilização de tecnologias de reconhecimento facial, vários estados promulgaram ou propuseram legislação que visa especificamente a utilização da tecnologia de reconhecimento facial. Várias cidades (São Francisco, Oakland, Berkeley, entre outras) promulgaram leis que proíbem ou restringem especificamente a utilização da tecnologia de reconhecimento facial por parte de organismos públicos. No entanto, de um modo geral, o ambiente regulamentar da tecnologia de reconhecimento facial nos EUA é fragmentado e está em constante evolução, com uma combinação de leis estatais e locais que tentam preencher as lacunas derivadas da ausência de legislação federal abrangente (Dauvergne, 2022a, 2022b).
Já no caso de países da América Latina, as organizações da sociedade civil trabalham num cenário com leis de proteção de dados mais difusas ou, em alguns casos, inexistentes. Nesse sentido, os esforços destas organizações passam, entre outros aspetos, pela defesa da criação de quadros legais abrangentes de proteção de dados que incluam o reconhecimento facial (Caeiro, 2022).
Democracias e liberdades civis
Da análise realizada, constata-se que um aspeto central que distingue a atuação de organizações da sociedade civil na Europa e nos EUA das organizações da sociedade civil na América Latina diz respeito aos receios das implicações para a democracia e as liberdades civis. Enquanto nos EUA e na Europa estas organizações atuam em democracias relativamente estáveis, as organizações da sociedade civil atuando na América Latina tendem a enfatizar o potencial de abuso do reconhecimento facial por parte de regimes autoritários ou com democracias débeis, operando em ambientes políticos mais voláteis, onde a prestação de contas da responsabilidade dos governos tende a ser mais reduzida.
A frágil confiança pública nos governos constatada na América Latina (Machado et al., 2024), combinada com a ausência de legislação robusta vocacionada para regular a recolha e processamento de dados, intensifica os receios de que a utilização de reconhecimento facial possa reforçar práticas de vigilância autoritária sobre as populações (Caeiro, 2022; Ramiro e Cruz, 2023). Isso pode afetar gravemente os dissidentes políticos, como no caso da Argentina, as populações racializadas e segregadas, como no Brasil, e resultar em taxas de erro e vieses inaceitáveis devido ao treino dessas tecnologias com base em dados que não se adequam às características das populações locais, como no caso do México (Nieves Delgado, 2023).
Resistência dos públicos
Um último aspeto que ressalta da análise realizada, diz respeito à sensibilização e envolvimentos dos públicos: Enquanto as organizações da sociedade civil atuando nos EUA e na Europa partem do pressuposto de que existe uma crescente consciencialização dos públicos sobre as questões de privacidade e as suas campanhas se orientam para envolver esses públicos em esforços de contestação de usos indevidos de tecnologias digitais como o reconhecimento facial, as organizações da sociedade civil na América Latina investem mais em campanhas de educação básica de literacia digital, desde logo porque se deparam com questões prementes de dificuldades de acesso à internet e à informação e cultura digitais, o que cria dificuldades adicionais de envolvimento e sensibilização dos públicos. Um outro aspeto saliente da abordagem da atuação das organizações da sociedade civil na América Latina é a sua ênfase na importância da resistência dos cidadãos às tecnologias de reconhecimento facial como forma de luta contra a corrupção e o controlo político, num contexto percebido como marcado por amplas desigualdades sociais, histórias de autoritarismo e violações de direitos humanos, elevada insegurança social, políticas de austeridade e crenças otimistas em promessas de desenvolvimento por via da importação de tecnologias (Caeiro, 2022).
Conclusão
À medida que cresce a contestação da vigilância estatal e corporativa por via de tecnologias digitais como o reconhecimento facial, tanto na América Latina, como nos EUA e Europa, essa mesma vigilância expande-se e incrusta-se nas sociedades, a uma escala global, sob o apanágio da segurança pública, ainda que com reconfigurações de sentido consoante o contexto social e político. Vários autores apontam, para o caso do EUA e da Europa, que, perante a vigilância massiva por meio de tecnologias digitais, os significados de privacidade, direitos humanos e segurança não só estão a mudar, tornando-se mais heterogéneos, fragmentados e difusos, como as relações entre vigilância massiva, governos, empresas, cidadãos, democracia e autoritarismo estão a desestabilizar-se (Bauman et al., 2014). O conhecimento sobre essas transformações e (re)configurações é ainda muito escasso para o contexto da América Latina.
A contestação das organizações da sociedade civil na América Latina contra as tecnologias de reconhecimento facial projeta um imaginário tecno-autoritário que incita a uma resistência necessária contra um “autoritarismo tecnicamente assistido” (Venturini e Garay, 2021: 23) que pode perpetuar desigualdades sociais e históricas, configurando-se como uma discussão política essencial para definir o tipo de sociedade almejada. No cerne do imaginário tecno-autoritário projetado por organizações da sociedade civil atuando na América Latina está a preocupação com a tendência dos governos de ocultar os riscos e abusos associados a essas tecnologias como tentativa de impor um controlo velado, ao qual a sociedade civil deverá responder com exigências de transparência, debate democrático e uma implementação tecnológica que respeite os direitos humanos.
Outro aspeto que se destaca ao nível dos imaginários tecno-autoritários projetados pela contestação das tecnologias de reconhecimento facial é a ênfase colocada no facto de a América Latina ser uma região onde os direitos humanos e liberdades civis são frequentemente ameaçados. Neste sentido, as organizações da sociedade civil na América Latina tendem a destacar a resistência dos cidadãos para assegurar que as tecnologias de reconhecimento facial não sejam usadas como instrumentos de opressão, alertando ainda para a necessidade de reflexão crítica em torno de promessas de modernidade e desenvolvimento frequentemente veiculadas por governos para justificar a introdução de novas tecnologias controversas.
Neste contexto, este estudo sugere implicações relevantes para a política e investigação futura, salientando o papel crucial das organizações da sociedade civil na construção de uma resistência contextualizada e autêntica, adaptando estratégias de contestação a condições de autoritarismo ou de democracia que variam amplamente. A capacidade de articular estas questões em modos que dialoguem com as vivências locais poderá contribuir para envolver cidadãos ainda não mobilizados (Machado, Silva e Neiva, 2023; Machado et al., 2024), aumentando o impacto das campanhas.
Embora as regulamentações emergentes sobre reconhecimento facial noutras regiões, como a UE, possam servir como referências, é essencial que a América Latina desenvolva abordagens próprias, que se baseiem nas experiências regionais e na defesa de direitos numa perspetiva descolonial (Mohamed, Png e Isaac, 2020). A partir de marcos regulatórios que respeitem as necessidades locais, as organizações não governamentais latino-americanas têm a oportunidade de moldar políticas inovadoras, inclusivas e transparentes, que não se limitem a reproduzir modelos do Norte Global, mas que fortaleçam uma governação tecnológica ancorada nas realidades do Sul Global.
Em suma, a análise das organizações da sociedade civil na América Latina que contestam as tecnologias de reconhecimento facial revela ações geradoras de transformações que aspiram a moldar o presente e o futuro (Prasse-Freeman, 2020). Estas ações reivindicam um repensar fundamental das relações de poder na era da IA, exigindo novos direitos, formas de cidadania e ativismo em resposta ao autoritarismo digital suscitado por tecnologias de reconhecimento facial. Ao expandir esta reflexão, predominantemente focada no Norte Global, para os contextos sociais e políticos latino-americanos, o presente estudo não só tenta ampliar a compreensão dos impactos globais do reconhecimento facial como pretende contribuir para novas abordagens de governação que incorporem as realidades e as necessidades específicas da região.
Agradecimentos
Agradeço aos revisores anónimos pelas suas sugestões e comentários críticos, e, de um modo particular, à colega Susana Silva (UMinho, CRIA/IN2PAST) pelos comentários aprofundados a uma versão preliminar deste artigo. Este estudo teve apoio do Conselho Europeu de Investigação, no âmbito do projeto fAlces (grant agreement n.º 101140664), ref. ERC-2023-AdG.















