Nota introdutória: as crianças e os jovens como fontes privilegiadas de informação
As culturas infantis, apesar de serem reflexo da cultura da sociedade em geral e de se desenvolverem na socialização com os adultos, apresentam especificidades próprias (Sarmento, 2004). As crianças são vistas como sujeitos ativos na produção das suas próprias culturas e não como recetáculos passivos das culturas dos adultos (Sarmento, 2007). Elas constroem significados próprios sobre o contexto em que estão inseridas, têm capacidade de produção simbólica e de constituição das suas representações e crenças (Sarmento e Pinto, 1997). São, por isso, fontes privilegiadas para o conhecimento dos seus mundos. Nesse sentido, mais do que reconhecer que as suas visões e opiniões devem consideradas, importa reconhecer que têm esse direito, ou seja, têm o direito de expressar e de partilhar as suas visões sobre o mundo. Escutar as suas vozes é, portanto, essencial para (re)conhecer os seus mundos e para concretizar os seus direitos.
A aprovação da Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1989, marcou uma viragem na forma de olhar para o estatuto das crianças. Como refere Almeida, “inaugura uma nova representação da criança e consagra o princípio do seu ‘superior interesse’” (2016: 20-21), dando visibilidade e importância à ideia de criança-cidadão (Pereira, 2000). Assiste-se a uma “apresentação pública de uma criança participativa, uma criança-sujeito que se impõe, agora, como interlocutor ativo dos seus educadores adultos” (Almeida, 2016: 21).
Às crianças são atribuídas diferentes categorias de direitos, nomeadamente, o direito à participação (Comité Português para a UNICEF, 2019), aplicável hoje também aos ambientes digitais (Committee on the Rights of the Child, 2021). Destaca-se, naquela categoria, o direito a expressar a sua opinião e que esta seja tida em consideração nos assuntos que as afetam (artigo 12.º).
A atribuição de direitos parece, contudo, não ser suficiente. A partir dos resultados de um inquérito respondido por 11834 crianças e jovens, no quadro da iniciativa “Tenho Voto na Matéria” da UNICEF Portugal, essa ideia é clara: “as crianças têm direito a expressar os seus interesses e preocupações e de estes serem tidos em consideração pelos adultos, mas 70% continua a afirmar que não tem essa oportunidade” (UNICEF Portugal, 2023: 3). Mesmo no quadro de uma cultura participativa, “com barreiras relativamente baixas para a expressão artística e o envolvimento cívico” (Jenkins, 2009: 5), possibilita-se, mas não se assegura, que as vozes sejam proferidas, escutadas, reproduzidas e partilhadas (Pereira, Brandão e Pinto, 2021).
Encarando as crianças como seres no presente e não adultos em construção (Lee, 2001; Pereira, 2013), como protagonistas e atores sociais competentes e com direitos, em linha com o que a sociologia da infância tem procurado reconhecer, este artigo analisa as perspetivas de 1131 crianças e jovens com idades compreendidas entre os 11 e os 19 anos, a frequentar os 6.º, 9.º e 12.º anos, sobre os seus interesses e preocupações, as suas alegrias e tristezas.
Pretende-se, com estes dados, expandir o conhecimento sobre os mundos das crianças e dos jovens, ligando-os com o seu bem-estar, assim como contribuir para a tomada de decisão e a concretização dos direitos dos mais jovens.
A voz das crianças e dos jovens e o seu bem-estar
O conceito de “bem-estar” é um constructo não consensual e contestado, cujas definições são frequentemente descritivas (Wood e Selwyn, 2017). De acordo com Rees et al. (2010: 8), “não existe uma definição consensual do termo ‘bem-estar’, no entanto, é geralmente definido como um conceito abrangente relativo à qualidade de vida das pessoas”. Shah e Marks (2004: 2) definem-no da seguinte forma: “o bem-estar é mais do que apenas felicidade. Para além de se sentir satisfeito e feliz, o bem-estar significa desenvolver-se como pessoa, sentir-se realizado e dar um contributo para a comunidade”. Ainda segundo os autores, o bem-estar é influenciado pelos pais (pela genética familiar); pelas circunstâncias da vida (salário, local onde se vive e outros fatores externos, como o clima); bem como pelas atividades quotidianas (amizade, envolvimento com a comunidade, desporto e tempo livre) (Shah e Marks, 2004).
As abordagens que propõem a medição do bem-estar assentam em dois tipos de dados: (1) medidas factuais objetivas (como os resultados escolares) e (2) bem-estar subjetivo (Wood e Selwyn, 2017). Neste campo, é ainda comum a distinção entre bem-estar subjetivo e psicológico, incluindo este último o sentido de propósito ou significado e crescimento pessoal (Rees et al., 2010).
O bem-estar subjetivo “refere-se à forma como as pessoas avaliam a sua vida, tanto em geral como em domínios específicos (família, amigos, tempos livres, etc.)” (Navarro et al., 2017: 176). De acordo com Rodríguez-Pose et al. (2024: 312), “julgamentos individuais e subjetivos sobre a satisfação com a vida e reações emocionais (positivas e negativas) aos acontecimentos da vida” definem o bem-estar subjetivo.
Tal como referem Navarro et al. (2017: 176), “hoje, existe um consenso de que não é possível determinar o bem-estar subjetivo das crianças e dos adolescentes sem lhes perguntar sobre isso diretamente”. A sua caracterização implica então uma autoavaliação (Diener, 1994; Rodríguez-Pose et al., 2024), neste caso, da criança:
é a avaliação da satisfação com a vida e da felicidade pelas próprias crianças. Foi derivado do termo genérico “bem-estar infantil” e foi recentemente abordado por vários académicos como um indicador positivo do estatuto das crianças (Lippman et al., 2011). Em comparação com os quadros anteriores sobre o bem-estar das crianças, que se centravam na sobrevivência, nas necessidades básicas e na identificação de fatores de risco negativos, a investigação recente destacou a importância de enfatizar os fatores positivos e as avaliações subjetivas da qualidade de vida global das crianças, em vez de se basear em avaliações definidas pelos adultos (Casas, 2011). (Park, Jung e Han, 2023: 16802)
Falar de bem-estar subjetivo das crianças é falar das suas próprias perceções sobre as suas vidas e o seu bem-estar (Andresen, Bradshaw e Kosher, 2019). Os estudos neste domínio consideram diferentes dimensões: família, amigos, bens, vida escolar e, mais recentemente, os efeitos das tecnologias, entre outros (Gündogan, 2022).
Com efeito, são vários os fatores com impacto no bem-estar subjetivo das crianças, que vão desde uma rede de apoio (familiar, de amigos, escola e comunidade), às condições de vida, idade, género e ambiente cultural específico (Rodríguez-Pose et al., 2024). Tal como no caso dos adultos, as relações interpessoais são um importante fator para o bem-estar subjetivo das crianças e adolescentes, não se podendo ignorar as relações estabelecidas através das tecnologias audiovisuais (Casas, 2011). Aliás, já em 2011, Casas referia que estas teriam, possivelmente, um papel mais importante nas culturas infantis e juvenis do que nas culturas dos adultos.
Quando se procura conhecer a perceção que os mais jovens têm do seu próprio bem-estar e o que o influencia, percebe-se que a família e os amigos são, de facto, elementos essenciais (Navarro et al., 2017). Reportamo-nos aqui a um estudo em torno da realidade espanhola, com participantes entre os 10 e os 15 anos (Navarro et al., 2017). Na definição e nos fatores que contribuem para o bem-estar subjetivo encontram-se, em todas as idades, as relações familiares e com os amigos e a saúde. No que diz respeito aos fatores que reduzem o bem-estar subjetivo, também aparecem, em todas as idades, as relações com a família e os amigos. Aqui, surgem ainda os aspetos relacionados com a escola. Viver situações negativas com a família (doença, morte, discussões ou divórcio) ou com os amigos (discussões, mal-entendidos, críticas, insultos, os amigos não estarem ao seu lado quando precisam ou terem uma influência negativa) afeta-os negativamente. Na escola, afeta negativamente o seu bem-estar “(i) ter más notas; (ii) estudar muito e não ser aprovado; (iii) a pressão dos pais para estudarem; e (iv) ter muitos exames e trabalhos de casa” (Navarro et al., 2017: 181). Considerando também outros fatores que os afetam positiva ou negativamente, apesar de não serem comuns a todas as faixas etárias, são mencionados: sentir-se bem consigo mesmo, aspirações/objetivos pessoais, jogar e divertir-se com as tecnologias, relações interpessoais no geral e necessidades básicas (como comida, bebida e uma casa).
Embora neste artigo não esteja em causa a avaliação do bem-estar subjetivo das crianças e dos jovens, consideramos que analisar os assuntos que geram preocupação ou interesse, bem como tristeza ou alegria, nos pode dar pistas importantes para entender a sua (in)satisfação com as suas vidas e o seu bem-estar subjetivo. É a partir desta ideia que formulamos a questão de investigação que orienta este trabalho: “que interesses e que preocupações expressam crianças e jovens entre os 11 e os 19 anos?” Na secção seguinte descrevemos os métodos que orientaram esta parte do estudo.
Métodos
Reconhecendo a necessidade e a importância de ouvir as crianças e os jovens para conhecer os seus mundos e os assuntos que lhes dizem respeito, encarando-as como seres sociais competentes e cidadãos com direitos, este artigo tem por base uma amostra constituída por 1131 crianças e jovens com idades entre os 11 e os 19 anos de idade, a frequentar o 6.º, o 9.º e o 12.º anos em escolas públicas nacionais. Partindo da questão “que interesses e que preocupações expressam crianças e jovens entre os 11 e os 19 anos?”, pretende-se conhecer e analisar o que, no mundo atual, preocupa e interessa as crianças e os jovens da amostra.
Este estudo, que integra o projeto de investigação “bYou: Estudo das vivências e expressões de crianças e jovens sobre os media”, financiado pela FCT, tem por base dados provenientes de um questionário digital aplicado a nível nacional. Para a sua aplicação foi solicitada autorização à Direção-Geral da Educação e às direções dos agrupamentos de escolas. Foi também solicitado consentimento aos próprios participantes e aos seus encarregados de educação, através do preenchimento de um consentimento informado disponibilizado e enviado previamente.
Seguindo uma técnica de amostragem não probabilística, o questionário foi distribuído por alunos de 26 agrupamentos de escolas de 23 unidades territoriais de Portugal continental. Os critérios de seleção tiveram em consideração as NUTS III1 tendo-se contemplado mais três agrupamentos: um da cidade de Braga, por ser o local onde se desenvolve o estudo; outro da área metropolitana do Porto e outro da área metropolitana de Lisboa.
O questionário, aplicado no primeiro semestre de 2022, totalizou uma amostra de 1131 crianças e jovens dos 11 aos 19 anos2 de 78 turmas (26 do 6.º, 26 do 9.º, 26 do 12.º). A caracterização da amostra é apresentada no quadro 1 3 e no quadro 2.
A análise estatística dos questionários foi realizada recorrendo ao software IBM SPSS Statistics. A codificação das perguntas abertas (relativas aos assuntos que provocam mais tristeza e aos que provocam mais alegria) foi realizada após a leitura de todas as respostas dadas pelos inquiridos e originou a criação de categorias. Estas, depois de submetidas a um processo de validação interna interpares, foram tratadas e analisadas com recurso ao SPSS.
Sempre que se revele oportuno, e como forma de aprofundar a informação obtida, estes dados são confrontados/complementados com os resultados de 59 grupos de foco realizados com uma subamostra de participantes que preencheram o questionário. Os grupos focais foram realizados em oito agrupamentos de escolas de Portugal continental, envolvendo 390 alunos: 127 do 6.º ano, 136 do 9.º ano e 127 do 12.º ano. Destes, 206 são raparigas, 184 são rapazes.
Resultados
Nos seus tempos livres, as crianças e os jovens apreciam sobretudo realizar atividades que envolvem os media, nas quais se incluem ouvir música, ver séries, filmes, documentários, ir ao cinema, jogar videojogos, etc. (44,2% das respostas), bem como atividades desportivas, de passeio e ar livre (35,7%). No 6.º ano, este último tipo de atividades tem mais expressão do que aquelas realizadas com os media, reduzindo-se este interesse à medida que o ano de escolaridade avança. Por oposição, a preferência por atividades com os media tende a crescer com o ano de escolaridade (logo, a idade). Conviver com a família, os amigos e os colegas surge em terceiro lugar, mas com uma percentagem bem mais reduzida (13,4%). A preferência por esta convivência aumenta nos anos de escolaridade mais avançados. Já o interesse por atividades culturais e artísticas reduz-se entre os mais velhos. As atividades escolares e extraescolares surgem mencionadas como preferidas por um grupo muito residual de inquiridos (0,9%). Oquadro 3 apresenta estes dados.
Quadro 3 Atividades que as crianças e os jovens da amostra mais gostam de fazer nos tempos livres, por ano de escolaridade (em %)

Nota: Pergunta de resposta múltipla (% dos casos válidos; n = 1121).
Relativamente às diferenças entre rapazes e raparigas, será de destacar, entre os rapazes, a maior expressão das atividades desportivas, de passeio e ar livre (48,7% dos rapazes e 26,7% das raparigas) face às atividades com os media (39,1% dos rapazes e 47,3% das raparigas). As preferências dos rapazes estão mais concentradas nas atividades com os media e atividades desportivas, de passeio e ar livre, havendo uma maior dispersão das preferências das raparigas entre as restantes opções.
Entre os assuntos de que mais falam com os amigos, os media e os amigos estão em destaque, com uma dispersão pouco significativa das respostas. A partir da média das respostas (numa escala de 1 a 5 pontos) (ver quadro 4), percebe-se que depois de conversas sobre dois agentes determinantes no contexto das suas vidas - os pares (4,15) e a escola (3,94) - seguem-se os media, primeiro numa dimensão que podemos entender como mais associada ao entretenimento (séries - 3,78), mas também numa outra formativa/informativa (por exemplo, notícias/assuntos da atualidade - 3,58). As conversas sobre a família (3,52) surgem depois das séries (3,78), tecnologia e media (internet, redes sociais, televisão, rádio, jornais, etc. - 3,77), filmes (3,72), música (3,58) e notícias/assuntos da atualidade (3,58). No caso dos rapazes, o lugar dos media é ainda mais expressivo: os videojogos (4,00), o desporto (3,74) e a tecnologia e media (3,73) surgem como como temáticas ligeiramente mais frequentes nas suas conversas do que a escola (3,68).
Quadro 4 Assuntos de que as crianças e os jovens falam com os amigos, por ano de escolaridade

Nota. N = número válido de casos; M = média; DP = desvio padrão; escala de Likert: 1 = nunca a 5 = sempre; resultados de acordo com o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis a 95% de confiança com a correção de Bonferroni (os valores estatisticamente significativos estão assinalados a negrito).
Os distintos media não recebem o mesmo nível de interesse nas conversas. Em pólos opostos encontram-se as séries (3,78), abordadas com maior frequência, e as telenovelas, com menor (2,04), sendo de notar um maior interesse das raparigas (2,33) por este último tipo de conteúdo do que dos rapazes (1,70).
As notícias acolhem algum interesse nos alunos do 12.º ano, ocupando o terceiro lugar dos assuntos mais falados com os amigos (3,97). O mesmo acontece com a política, embora de forma menos expressiva (2,90).
Os dados recolhidos no âmbito dos grupos de foco reforçam a importância dos media, mas também das atividades desportivas e artísticas. Os media são comentados sobretudo numa visão positiva, sendo por vezes apresentados como um modo de ultrapassar ou de evasão de problemas, o que não significa que ignorem a existência de dimensões negativas.
Entre as atividades desportivas e artísticas, surgem mais frequentemente as desportivas, com grande variedade. Estas também são algumas vezes apresentadas como um modo de ultrapassar ou de fugir de problemas e de alcançar o bem-estar.
O tema da guerra assume particular destaque nos resultados dos grupos de foco, sendo de notar que estes foram realizados pouco tempo depois do início da guerra na Ucrânia (24 de fevereiro de 2022).
Regressando novamente aos questionários, os resultados evidenciam a saúde como o assunto que mais preocupa (4,54), gerando um grau de preocupação ligeiramente superior nos alunos do 6.º ano (quadro 5). Este resultado estará relacionado com a pandemia de Covid-19 ainda a ser vivida no momento de aplicação dos questionários. Os grupos de foco, realizados já num período de desconfinamento, confirmaram esta perceção. Os participantes falaram do receio pela sua saúde e dos seus familiares, em particular dos seus avós. Mas falaram também muito da sua saúde mental, mostrando-se preocupados por não ser um assunto muito debatido nem valorizado.
Quadro 5 Assuntos que preocupam as crianças e os jovens da amostra, por ano de escolaridade

Nota. N = número válido de casos; M = média; DP = desvio padrão; escala de Likert: 1 = não me preocupa nada a 5 = preocupa-me muitíssimo; resultados de acordo com o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis a 95% de confiança com a correção de Bonferroni (os valores estatisticamente significativos estão assinalados a negrito).
Ainda nos primeiros lugares, há uma preocupação com o futuro profissional (4,48), racismo (4,29), crime e violência (4,28) e direitos humanos (4,23). Entre os cinco assuntos mais expressivos, no caso das raparigas, estão a saúde (4,59), o futuro profissional (4,58), depressão e ansiedade (4,51), o racismo (4,51) e crime e violência (4,49). No caso dos rapazes, surgem nas primeiras cinco posições a saúde (4,48), o futuro profissional (4,37), o crime e a violência (4,02), o desemprego (4,00) e o racismo (4,00). Como se pode verificar, a saúde e o futuro profissional são assuntos comuns a rapazes e raparigas em termos de maior preocupação, sendo também comum o crime e violência e o racismo. O desemprego, embora surja entre as cinco principais preocupações dos rapazes e não nas das raparigas, assume, ainda assim, um nível mais elevado de preocupação no sexo feminino (4,32) do que no masculino (4,00). A depressão e a ansiedade é uma preocupação mais forte das raparigas (4,51) do que dos rapazes (3,73). De notar que as raparigas expressam mais preocupação do que os rapazes em todos os assuntos.
Considerando a totalidade dos participantes, a preocupação com a guerra (4,15) surge em décimo lugar. Embora não sendo uma situação vivenciada de perto, a mediatização dos conflitos bélicos, e o receio de uma guerra mundial, coloca o assunto na sua lista de preocupações.
As questões ambientais, também amplamente mediatizadas e nas quais os jovens assumiram um forte protagonismo a partir do movimento iniciado em 2018 por Greta Thunberg e da ação “Sextas pelo futuro”, ocupam (apenas) o 12.º lugar das suas preocupações (4,07). De salientar que este assunto colhe mais preocupação junto dos alunos do 6.º ano de escolaridade (4,21) e menos nos alunos do 9.º ano (3,88), sendo esperável precisamente o contrário, pelo suposto envolvimento dos alunos mais velhos nas ações públicas pelo clima. De referir que este assunto também não estava entre os mais frequentes nas conversas com os amigos (2,81).
No último lugar do ranking surge a política (2,99), que também é referido como o menos frequente nas conversas com os amigos (2,34). Se considerarmos a média (e considerando que 2 corresponde a “preocupa-me pouco”), de um modo geral, este é o único assunto que, entre os apresentados, os preocupa pouco. É de notar, ainda assim, que a preocupação aumenta com a idade e que no 12.º surge como o quinto assunto que mais os preocupa (3,43). As conversas dos grupos de foco, sobretudo com os estudantes do 12.º ano, são muito elucidativas a propósito do (des)interesse dos jovens pela política. Vejamos algumas dessas falas:
No geral todas as notícias me chamam à atenção, exceto aquelas que falam sobre política porque eu não percebo nada de política, acho que a escola nunca nos explica… não percebo nada disso, então não me chama a atenção. Na escola podia haver uma disciplina relacionada com a política e com a nossa vida […]. E depois ainda nos culpam de nós não querermos votar. Eu não vou votar numa coisa que não sei o que é [Catarina, 18 anos, 12.º ano].
Eu já me interessei menos pela política, mas depois chega a um ponto que é um bocado inevitável porque vemos as coisas a acontecer e é normal querermos saber o que é que se passa [Pedro, 18 anos, 12.º ano].
Eu tenho interesse em tudo. Política nem tanto [Martim, 18 anos, 12.º ano].
O que mais me interessa é a política. E até me costumam chamar “maluquinho”, porque eu gosto de ver os debates políticos, eu consigo estar uma tarde inteira a acompanhar um debate no canal do parlamento [Lourenço, 18 anos, 12.º ano].
Acho que não há um esforço em envolver os jovens na política. Acho que não nos ensinam sobre política ao longo da nossa adolescência para nós nos irmos habituando e perceber melhor [Camila, 17 anos, 12.º ano].
Acho que os jovens são o futuro do mundo e deviam ser mais ouvidos e a política devia ser um assunto para os jovens, porque há muitos jovens que vão fazer 18 anos que não fazem ideia do que é que é a direita e a esquerda, em quem votar, o que é que cada partido diz e quer fazer, e acabam por não votar. E nós não percebemos que há muitas mulheres e homens que morreram para nós hoje em dia podermos votar. Falta falar de política na escola. Falta uma disciplina que nos diga isto, que não seja só estudar para os testes e dar matéria [Caetana, 17 anos, 12.º ano].
Os jovens que não se interessam pela política ou que votam por brincadeira são os mesmos que depois reclamam como o país está, e não fazem nada… Acho que a política devia ser mais falada na escola porque muitos não sabem como é que funciona, em quem votar. É pouco falado. E como não tem muito conhecimento desinteressam-se e não sabem em quem votar. Acho que a política não está ligada ao mundo dos jovens, muitos acabam por não entender bem as palavras que os políticos usam e o que querem dizer e isso inibe a participação [Eva, 18 anos, 12.º ano].
Os jovens, principalmente os mais velhos, têm noção da importância da política para a suas vidas e para a vida coletiva, mas esta importância nem sempre resulta num real interesse. Por outro lado, as falas das raparigas remetem-nos para a falta de informação ou a dificuldade em informarem-se sobre o assunto. A escola surge como o contexto em que gostariam de discutir política, contudo, pelo que referem, esse debate não acontece. Os meios de comunicação, nomeadamente a televisão, também não são considerados boas fontes de informação a este respeito, não só pela (má) representação da política, dos políticos e dos partidos, mas também porque gostariam de poder fazer um diálogo em que pudessem esclarecer as suas dúvidas e debater as suas ideias.
De referir também que para muitos outros, em especial para os mais novos, a política é vista como “aborrecida” ou “difícil de entender” e alguns estudantes do 9.º ano comentam com algum cinismo as motivações dos políticos.
Como já anotado anteriormente, o modo como o assunto da guerra marcava a agenda mediática, à data dos grupos de foco, terá tido impacto na expressão desta preocupação, como mostram as citações abaixo.
A pandemia já foi um assunto mais preocupante, porque agora a guerra preocupa-nos mais, sendo que a Covid já se está a tornar uma doença como as outras [Eva, 18 anos, 12.º ano].
Desde que começou a guerra na Ucrânia a situação da COVID tornou-se menos preocupante [Cristina, 17 anos, 12.º ano].
Neste momento o assunto que mais me interessa e preocupa é a guerra entre a Rússia e a Ucrânia [Bruna, 14 anos, 9.º ano].
O que está agora na moda é a guerra… É um pouco difícil de saber o que pode acabar com esta guerra… porque se a Europa entra muito na guerra depois a guerra também vem para nós e torna-se uma terceira guerra mundial. A Europa não está de braços cruzados porque está a ter sanções económicas, e também está a recolher os refugiados, mas não está no terreno [Ana, 15 anos, 9.º ano].
O assunto que me interessa, não no bom sentido, são as guerras… estou interessado na guerra da Ucrânia, quero ver como é que vai acabar [Simão, 11 anos, 6.º ano].
A guerra [interessa-me]. É importante porque é o nosso mundo [Rui, 12 anos, 6.º ano].
No âmbito da doença e mal-estar físico e mental, destaca-se sobretudo a Covid-19, denotando-se no entanto, nos seus discursos, um tom de regresso ao “normal”. A saúde mental é uma matéria em destaque, surgindo frequentemente associada ao contexto escolar. O futuro, com expressão nos 9.º e 12º anos, traduz-se no medo de não entrarem na universidade, de não arranjarem emprego, de não gostarem do emprego que venham a ter, de ganharem pouco dinheiro ou de não atingirem os seus objetivos, estando patente que estão perante um momento de escolhas.
As preocupações não são espelhadas diretamente nas tristezas. De acordo com os dados dos questionários, entre os assuntos que provocam mais tristeza (figura 1), estão, em primeiro lugar, questões relacionadas com a pobreza, desigualdades, discriminação, exclusão e injustiça (20,8% das respostas), as quais contemplam tópicos associados a direitos, preconceitos, homofobia, entre outros. Esta resposta não surpreende se considerarmos que entre os assuntos que os preocupavam mais estavam, por exemplo, racismo, crime e violência e direitos humanos. Em segundo lugar, surge a morte (perda de familiares, amigos, crianças, animais, com 15,7% das respostas) e, em terceiro, preocupações do foro pessoal (inseguranças e erros pessoais, ser julgado e gozado, falta de autoestima, etc., com 11,5% das respostas).
No caso dos alunos do 6.º ano, é a morte que ocupa o primeiro lugar, reduzindo-se a sua expressão ao longo dos anos (22,8% no 6.º, 13,5% no 9.º e 11,5% no 12.º). Em sentido contrário, ou seja, a aumentar com a progressão do ano de escolaridade, surge a categoria pobreza, desigualdades, discriminação, exclusão e injustiça (16,3% no 6.º, 19,7% no 9.º e 26,0% no 12.º) e a das preocupações de foro pessoal (9,6% no 6.º, 12,4% no 9.º e 12,5% no 12.º) enquanto assunto que lhes provoca mais tristeza. Não há variações nos primeiros três lugares em função do sexo.
A doença e mal-estar físico e mental (Covid-19, depressão, ansiedade, solidão, isolamento e saúde mental), com destaque entre as preocupações, fica em quarto lugar (com 7,2% das respostas) entre o que lhes provoca mais tristeza. A guerra fica em sexto (6,7%) e a incerteza face ao futuro em último (2,6%), tendo este último aspeto uma expressão mais considerável no 12.º ano (6.º ano 0,6%, 9.º 1,9% e 12.º 5,1%).
Há ainda quem refira não ter preocupações e quem não as identifique (5,4%). Nos outros (4,5%) estão incluídas questões como partir o telemóvel, jogos, o passado, a velocidade do tempo, a desinformação e a ignorância.
No que diz respeito ao que lhes provoca mais alegria (figura 2), destaca-se, sem dúvida, a família (23,5%), os amigos e as relações amorosas (19,7%) e, com uma expressão bastante menor, as atividades desportivas e artísticas (10,9%), que se destacam entre as atividades que mais gostam de fazer nos seus tempos livres. As primeiras duas reduzem a sua expressão consoante progridem os anos de escolaridade (família 27,4% no 6.º, 22,5% no 9.º e 21,0% no 12.º; amigos e vida amorosa 23,4% no 6.º, 19,2% no 9.º e 16,7% no 12.º). Os objetivos pessoais e escolares (ser rico, alcançar o que querem, dinheiro, futuro, ter um emprego, etc.) aumentam a sua expressão à medida que progride o ano de escolaridade, ficando em terceiro lugar no 12.º ano, (4,5% no 6.º, 7,6% no 9.º e 10,3% o 12.º), o que se alinha com os resultados obtidos a propósito das preocupações face ao futuro.
Os media, que alcançavam uma importante expressão nas atividades preferidas e nos interesses, surgem, na globalidade das respostas, em quinto lugar no que lhes provoca mais alegria (8,1%), aumentando entre os mais velhos (6,5% no 6.º, 7,6% no 9.º e 10,0% no 12.º). Pensando numa outra instituição de socialização, a escola, que era dos assuntos mais frequentes nas conversas com os amigos, encontra-se apenas de forma indireta entre o que os faz mais felizes: objetivos pessoais e escolares (ser rico, alcançar o que querem, dinheiro, futuro, ter um emprego, etc., com 7,5% de respostas). Por outro lado, importa recordar que os “assuntos da escola” aparecem entre os que lhes provocam mais tristeza (estudar, testes, trabalhos de casa, falta de tempo, pressão e insucesso, com; 3,8% de respostas). Se olharmos para os resultados dos grupos de foco, percebe-se que a escola surge como um espaço associado ao mal-estar, sobretudo, pela pressão e a ansiedade que lhes cria.
Na categoria “outros” (5,3%) surgem assuntos como escravatura (quererão referir-se às novas formas de escravatura no trabalho?), Deus, sexo/sexualidade, história e política.
Em relação às diferenças entre rapazes e raparigas, observa-se uma diferença considerável. Se considerarmos os três assuntos que mais se destacam, no caso dos rapazes, a ordem é a seguinte: família (21,4%), atividades desportivas e artísticas (19,4%) e amigos e vida amorosa (17,3%). No caso das raparigas, mantém-se em primeiro lugar a família (25,6%), seguida dos amigos e da vida amorosa (22,1%) e dos media (9,7%).
É de referir que existe evidência estatística para considerar uma associação entre o “ano de escolaridade” e o “assunto que provoca mais tristeza na vida” (p < 0,001), verificando-se o mesmo para o “sexo” e o “assunto que provoca mais tristeza na vida” (p < 0,001).
De igual modo, existe evidência estatística para considerar que existe uma associação entre o “ano de escolaridade” e o “assunto que provoca mais alegria na vida” (p < 0,001), verificando-se o mesmo para o “sexo” e o “assunto que provoca mais alegria na vida” (p < 0,001). Em todos os testes de hipóteses realizados foi considerado um erro de tipo I = 5% (ou nível de significância = 0,05).
Discussão e considerações finais
Este artigo integra um projeto de investigação mais amplo que pretende estudar as vivências mediáticas de crianças e jovens e as suas expressões sobre e nos media. Neste âmbito, interessou-nos conhecer os interesses e as preocupações, bem como as alegrias e as tristezas, da amostra do estudo. Sendo esta uma geração que nasceu na era digital e que vive num mundo profundamente mediatizado (Couldry e Hepp, 2017), foi nosso objetivo identificar os assuntos que fazem parte das suas conversações diárias, nomeadamente com os seus pares, e aqueles que estão no centro dos seus interesses e preocupações, causando alegria ou tristeza. Era também nosso objetivo perceber se os assuntos mais mediatizados eram aqueles que estavam nessas suas agendas e se os próprios media, tão presentes nas suas vidas, faziam parte das mesmas.
Deste projeto sobressai a forte presença dos media nas vidas das crianças e dos jovens inquiridos, evidenciando-se como centrais nos seus tempos livres, como já demonstrado por outros estudos (e.g., Andrade et al., 2021). A sua cultura é cada vez mais uma cultura da internet, estando os media, nos países de elevado rendimento, subjacentes a todas as dimensões da infância, não só do lazer, mas contribuindo também para “a aprendizagem, a informação, a saúde, a política e muito mais” (Livingstone, 2022: 110).
Tal como demonstram os resultados deste estudo, os media apresentam-se como importantes mediadores do mundo, sendo sobretudo motivo de interesse e de alegria. É de notar que não são assinalados como preocupação nem são motivo para tristeza. Usados para fins de entretenimento, mas também de conversação, será de registar que, se de facto as relações interpessoais têm um importante papel no bem-estar dos jovens, não se poderá ignorar a importância das relações estabelecidas através das tecnologias, como já anotado por Casas (2011) uns bons anos antes.
As atividades desportivas e artísticas, mas também a família, os amigos e as relações amorosas, assumem particular importância entre interesses e alegrias. Ao contrário da família, que é apontada como motivo de alegria, a escola, que surge entre os assuntos mais frequentes nas conversas com os amigos, é em geral associada a um mal-estar, sobretudo pela pressão e ansiedade que lhes causa. Estes resultados não se desalinham com as conclusões do estudo de Navarro et al. (2017), em que a escola surgia como um dos fatores que reduzia o bem-estar subjetivo entre participantes de todas as idades. Com efeito, neste estudo, em particular a partir das discussões nos grupos de foco, são tecidas duras críticas à escola por alunos dos três anos de escolaridade. Percebe-se que para muitos dos participantes a escola é perturbadora do seu bem-estar, sendo apontadas como razões para isso a pressão por boas notas (também extensível aos pais), a carga horária excessiva, o tempo que passam na escola e que não lhes permite ter disponibilidade para outras atividades, os métodos de ensino desatualizados e a memorização que lhes está associada, bem como o desgaste físico e psicológico que sentem. A este respeito, são notórias algumas falas, pelo nível de reflexão que denotam, nomeadamente esta de uma aluna de 12 anos, do 6.º ano de escolaridade: “os professores preocupam-se mais com as notas do que com a saúde dos alunos”. Ou esta de um aluno de 15 anos, do 9.º ano: “aqui na escola nós somos quase vistos como números, porque não pensam em nós como cada pessoa que nós somos”. Ou ainda esta, de uma aluna de 18 anos, do 12.º ano: “a saúde mental devia ser discutida mais na escola. Os professores deviam ter mais consideração pelo facto de o contexto da escola poder perturbar-nos. Eu tenho muito stresse com a escola”. A saúde mental, que os jovens consideram que é colocada em risco pelo stresse causado pela instituição escolar, surge como uma das suas preocupações mais constantes, associada à depressão e à ansiedade que muitos dizem viver.
Como foco de preocupações, surgem assuntos que marcam a atualidade e a agenda mediática à data da realização do estudo, nomeadamente a saúde (relacionado com a pandemia Covid-19) e a guerra (na Ucrânia). Curiosamente, considerando que, “nos últimos anos, o movimento juvenil para as alterações climáticas ganhou um destaque extraordinário através de greves e manifestações escolares e de uma forte presença online” (Carvalho, Russill e Doyle, 2021: 9), as questões climáticas não apareceram com particular destaque. Com efeito, durante os grupos de foco, apercebemo-nos que alguns dos participantes não sabiam quem era a ativista pelo clima Greta Thunberg nem estavam a par da greve climática dos estudantes. Não podemos, ainda assim, ignorar aqueles que estavam informados a este propósito e, portanto, atender à diversidade dentro dos grupos. Como nos recordam Rebelo et al. (2023: 21), num outro estudo centrado no público juvenil,
embora as questões climáticas sejam valorizadas e vistas como relevantes para as vidas dos jovens, nem todos as consideram prioritárias. Por exemplo, os jovens diretamente afetados por barreiras estruturais como a pobreza ou a discriminação social consideram outras lutas sociais e políticas mais urgentes.
Para o total da amostra, a política é o assunto que menos os preocupa, aumentando ligeiramente a preocupação no 12.º ano, momento em que o seu direito ao voto começa a estar presente. Este último lugar não será propriamente surpreendente, considerando que se tem vindo a aludir a um maior défice na cultura cívica associado aos mais jovens, colocando-se, umas vezes, a tónica na sua apatia, outras, no entretimento mediático e na cultura do consumo e, outras ainda, no afastamento dos políticos das questões que preocupam os jovens e da comunicação com eles (Banaji e Buckingham, 2013). Em geral, são os estudantes mais velhos que, mesmo não tendo interesse por política, têm consciência da sua importância e se mostram preocupados com o seu próprio desinteresse. Estes jovens parecem sentir pouca motivação para serem cidadãos politicamente informados e participantes ativos na esfera política. Atendendo a estes dados e parafraseando Buckingham (2000: 98), fica a questão: “há motivos significativos para preocupação quanto ao futuro da democracia”? Outra questão que estes dados também nos levantam, na linha de conclusão de Buckingham (2000: 98), é se “de alguma forma, a falta de interesse pela política parece ser entendida como parte da condição de ser criança”.
Um aspeto interessante a registar é o facto de os jovens não mostrarem interesse pela política, mas se mostrarem preocupados com a incerteza quanto ao futuro. Esta preocupação, naturalmente, envolve questões de natureza política, revelando também um certo pensamento político por parte dos jovens. A este respeito, vale a pena seguir a proposta de Buckingham (2000: 207), quando refere que “ao analisarmos o desenvolvimento da compreensão política, temos de adotar uma definição mais ampla de política, que reconheça as dimensões potencialmente políticas da vida ‘pessoal’ e da experiência quotidiana”. Citando de novo o autor,
os jovens desenvolvem política através das suas experiências quotidianas na vida familiar, na escola, no bairro e no grupo de pares […]. O “lado pessoal” não é automaticamente “político”: só se torna político em virtude das formas como está ligado às preocupações e experiências de outros grupos sociais. (Buckingham, 2000: 219-220)
Neste sentido, vale a pena retomar as falas dos jovens, anteriormente citadas, em que defendiam que a política devia ser abordada e debatida na escola. Efetivamente, este é um contexto privilegiado para trabalhar esta matéria, começando por alargar a aceção de política e entender que as decisões que são tomadas a nível da escola, da família e do município são de natureza política, e que participar delas significa envolver-se politicamente.
Por último, vale a pena realçar que a apreensão, sobretudo dos jovens mais velhos, quanto ao futuro, nomeadamente a nível profissional, aparece ligada a problemas de saúde mental, considerada, como já mencionado, como uma das suas preocupações.
Os dados aqui apresentados permitem-nos conhecer os interesses e as preocupações dos participantes no estudo, expandindo o nosso conhecimento sobre os mundos sociais e culturais das crianças e dos jovens, a partir das suas perspetivas. Muito embora não fosse objetivo do estudo medir o bem-estar subjetivo das crianças e dos jovens, os dados relativos aos seus interesses e às suas preocupações, bem como aos assuntos que lhes provocam tristeza e alegria, fornecem-nos evidências sobre a satisfação nas suas vidas tendo por base um conjunto de assuntos e de atividades. Permitem-nos também confirmar a premissa de Becchetti, Pelloni e Rossetti (2008) relativa à importância de “bens relacionais”4 para a felicidade.
Os resultados não esgotam os olhares sobre os seus próprios mundos, sobretudo considerando a heterogeneidade etária e socioeconómica. Entendemos, ainda assim, que contribuem para a construção de conhecimento sobre as suas culturas, em geral, e o seu bem-estar, em particular, podendo subsidiar a tomada de decisões e a concretização dos direitos das crianças. Uma das principais conclusões deste estudo é a importância de escutar ativamente as crianças, ouvi-las sobre os seus interesses e preocupações. Num artigo de opinião publicado no jornal Público em 2022, a realizadora Teresa Villaverde dava conta da sua experiência de seleção de uma rapariga de 10/11 anos do interior do país para entrar no seu novo filme. Do contacto com cerca de 500 raparigas e do que viu nos vídeos que pediu a cerca de 200 (em que lhes pediu para dizer o que é que as fazia mais felizes e o que é que as preocupava mais no futuro), a realizadora teceu algumas reflexões muito pertinentes, das quais destacamos esta: “temos que as deixar falar [às crianças] do que as preocupa. Não me parece que seja facultativo, nem me parece que seja uma coisa que possa esperar. Não lhes podemos atribuir angústias e preocupações que elas talvez nem tenham, têm de ser elas a dizer-nos o que as preocupa” (Villaverde, 2022: 17).
Financiamento
Este trabalho é parte do projeto “bYou: Estudo das vivências e expressões de crianças e jovens sobre os media”, financiado por fundos nacionais através da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. (PTDC/COM-OUT/3004/2020), em curso no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.
O estudo obteve parecer positivo da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho (CEICSH 041/2022).


















