Introdução: uma falsa guerra
Em 20 de maio de 2020, uma portaria do presidente da Câmara Municipal de Brindisi, uma cidade industrial no Sul da Itália, decretou “a suspensão imediata do funcionamento da instalação de cracking”,1 ou seja, a suspensão do coração da produção das fábricas petroquímicas a sul da cidade. A portaria, explicou o presidente da Câmara, era uma resposta à necessidade e ao dever de proteger a saúde pública na sequência de queixas de numerosos cidadãos sobre os fortes cheiros de mistura gasosa, que alegadamente tornavam o ar irrespirável. A portaria tinha sido assinada ao mesmo tempo que o problema foi assinalado à Agência Regional de Prevenção e Proteção Ambiental (ARPA Puglia), que assim iniciou os levantamentos e a monitorização no interior da área petroquímica. A fábrica petroquímica mal tinha recomeçado a funcionar após o encerramento previsto para a manutenção. A ordem do presidente da Câmara desencadeou imediatamente as reações oficiais do mundo sindical, quase inteiramente alinhadas em defesa das fábricas petroquímicas e da principal empresa, a Versalis, uma subsidiária da multinacional italiana Eni. A portaria de 20 de maio foi apenas o início de um caso que durou várias semanas e finalmente desembarcou em Roma, onde o governo e os ministérios assumiram um papel de mediação entre o município e a empresa. A portaria, contudo, fazia parte de uma história de protestos contra as chamas das chaminés da fábrica petroquímica e os seus efeitos no ambiente e na saúde. O próprio presidente da Câmara, antigo líder de um movimento ambientalista local chamado No al Carbone (Não ao Carvão), representava, em certa medida, o culminar político de uma importante época de mobilizações ambientalistas contra as emissões das duas centrais termoelétricas a carvão da cidade, iniciadas uma década antes. Estas mobilizações juntavam-se ao historial de protestos - desde os anos 80 - contra os efeitos ambientais da indústria pesada em Brindisi.
Além disso, a ordem de suspensão surgiu numa altura delicada, quando a cidade enfrentava o teste severo do confinamento devido à pandemia de Covid-19, com todos os aspetos críticos de um serviço nacional de saúde frágil, debilitado por anos de cortes. O conjunto de tensões que toda a situação produziu refletiu-se nas redes sociais, através de opiniões polarizadas entre a defesa da saúde da cidade e a defesa do trabalho. Em particular, numerosos trabalhadores petroquímicos e suas famílias reivindicaram abertamente a eficiência tecnológica das fábricas, acusando o presidente da Câmara (e os seus apoiantes) de presunção ao falar de uma situação que desconhecem e da qual fantasiam através de uma moda de ambientalismo. A esposa de um operário reagiu assim ao comentário daqueles que apoiaram a decisão do presidente da Câmara, que também foi considerada uma decisão para proteger os trabalhadores: “Como esposa de um empregado, digo-vos que aqueles que se encontram sob essas instalações são constantemente protegidos. A Versalis é uma grande família que controla cada passo dos seus empregados. Mas compreendo que aqueles que não vivem esta realidade só podem falar com base nas chamas que veem”.
Cerca de dez dias após a portaria, um jornal local publicou uma carta dirigida ao presidente da Câmara, intitulada Basta con questa finta guerra (Chega desta falsa guerra), assinada por: “I Lavoratori Eni Versalis” (Os trabalhadores da Eni Versalis).2 A carta defendia a empresa “que colocou SEMPRE [sic] a proteção da segurança das pessoas e do ambiente na linha da frente”. Expressando o seu orgulho em pertencer à empresa, os trabalhadores descreveram a sua condição como a de “operários privilegiados e eticamente formados”. As suas competências profissionais estavam associadas a uma forte consciência cívica: “os protocolos rígidos e procedimentos vigorosos a que nos submetemos no interesse de todos não proibiam, contudo, que a chamada fábrica fosse uma forja de consciências e, de facto, como sabem, cultivava não só figuras profissionais invejáveis, mas também almas louváveis ricas em moralidade”.3 Tudo isto para contrariar a imagem negativa da fábrica petroquímica (“Aqueles que não nos conhecem pensam que estão a lidar com um ecomostro”)4 e para reivindicar, em vez disso, a imagem limpa e positiva (“dignidade e proteção da terra”) de uma fábrica considerada “a joia da química italiana”. Em tons decididamente mais conciliadores do que os utilizados por alguns sindicatos, a carta conclui com a esperança de que “esta falsa guerra entre operários e ambientalistas acabe de uma vez por todas”.
Este ensaio interroga a “falsa guerra entre operários e ambientalistas” como um dilema socioecológico, adotando uma perspetiva centrada na categoria de valor. A análise centrar-se-á na relação trabalho-ambiente tal como se manifesta num contexto, como uma cidade industrial do Sul da Itália, marcado por condições socioambientais problemáticas, em que as questões de saúde associadas à poluição industrial são agravadas por fragilidades socioeconómicas e crises recorrentes de emprego. A perspetiva aqui definida como “ecologias de valor” mobiliza diferentes abordagens teóricas para enquadrar os nexos entre valor, natureza e reprodução social (De Angelis 2007; Franquesa 2018; Kalb 2017; Martinez-Alier 2009; Narotzky e Besnier 2014; Moore 2015; Salleh 2017 [1997]; Skeggs 2014). Embora a noção de ecologias de valor não seja de todo nova,5 este artigo procura enquadrá-la numa abordagem que combina diferentes vertentes da crítica do valor com a antropologia dos valores (Graeber 2001), com o objetivo de articular uma análise do capitalismo como regime ecológico - ou seja, como forma de organizar a natureza (Moore 2015) - através da experiência histórica concreta do nexo trabalho-ambiente. Este nexo define-se, de forma geral, como nexo fundamental das relações metabólicas entre sociedade e ambiente e, dentro da forma-valor capitalista, como ponto nevrálgico da contradição subjacente entre necessidades humanas e lógicas da acumulação capitalista (Burkett 2014 [1999]). A perspetiva das ecologias de valor visa portanto abordar o nexo trabalho-ambiente como nível fundamental de articulação das contradições socioecológicas experienciadas (e de alguma forma conceptualizadas), na sua concreta manifestação histórica no contexto industrial do Sul da Itália ou, como é habitualmente designada esta parte do país, o Mezzogiorno.6 Além dos elementos caraterizadores do contexto analisado neste artigo, o nexo trabalho-ambiente, de uma forma geral, tem surgido como uma questão central no horizonte da transição energética em curso. Por esta razão, considero as reflexões aqui desenvolvidas como pontos estratégicos de partida para comparações mais alargadas.
Trabalho e ambiente
A necessidade de pôr fim, “de uma vez por todas”, à “falsa guerra entre operários e ambientalistas” fazia evidentemente parte de uma história de conflitos entre o mundo operário-sindical e uma frente ambientalista heterogénea que surgiu a partir dos anos 80, em paralelo com o início das grandes reestruturações industriais, particularmente intensas na área petroquímica de Brindisi. É a partir dessa década que a proteção do trabalho (entendida como garantia de salários) começou a absorver todo o horizonte das reivindicações sindicais. No exame da trajetória do ambientalismo local (Pusceddu 2020a), observei como esta passagem temporal teve um reflexo socioespacial no deslocamento do conflito ambiental das relações de produção dentro da fábrica para as relações mais amplas de reprodução social fora da fábrica, ao ponto de redefinir o conflito ambiental como um dilema de interesses (ou mesmo um trade-off) entre “trabalho/fábrica” e “ambiente/cidade” (ou mesmo “saúde”). Portanto, o espaço alargado da reprodução social tornou-se, por um lado, o lugar de maturação e irradiação da contestação às grandes fábricas e, por outro lado, a realidade onde mais se repercutem as experiências contraditórias da fábrica como fonte de bem-estar e, ao mesmo tempo, de mal-estar (Curcio 2014). A reprodução social, enquanto “reprodução das condições de produção social na totalidade” (Harris e Young 1981), refere-se ao conjunto de práticas, conceções, relações e condições através das quais uma sociedade se reproduz ao longo do tempo; portanto, inclui todas as atividades necessárias para a reprodução da vida (desde o trabalho reprodutivo não pago às atividades geradoras de rendimentos), numa base diária e intergeracional (Katz 2001). No exame parcial do nexo trabalho-ambiente como um aspeto da reprodução social em Brindisi é importante, como sugere Narotzky (1997: 158), considerar “a forma como a realidade histórica concreta se encarna nos agentes através das identidades pessoais e coletivas”. O exemplo seguinte ilustra, por um lado, como o nexo trabalho-ambiente (nas suas dimensões materiais, simbólicas e ideológicas) é articulado no espaço público da cidade, quais os grupos que o articulam e de que forma; por outro lado, ilustra como o nexo trabalho-ambiente se expressa através de diferentes ecologias de valor, ou seja, através de articulações variadas (até polarizadas) do dilema socioecológico local, enquanto reflexo da tensão entre formas e regimes de valor diferentes, e de respostas a este dilema.
Em abril de 2014, sob uma leve chuva primaveril, dois grupos distintos estavam a manifestar-se diante das portas da central termoelétrica de Brindisi Norte, assim denominada para a distinguir da central Federico II, localizada mais a sul na localidade de Cerano. A central foi construída na década de 1960 pela companhia elétrica nacional Enel, pouco depois da nacionalização do sector energético em 1962. Inicialmente alimentada por fuelóleo, foi convertida a carvão em 1979, a seguir às crises petrolíferas. Segundo um acordo entre a Enel e a Câmara Municipal de Brindisi (cuja negociação incluía uma frente mais ampla de sujeitos, como as principais organizações sindicais), a central deveria ter sido desmantelada no final dos anos 90, após a entrada em operação da central de Cerano, cuja construção se iniciou nos anos 80.7 No entanto, as coisas correram de forma diferente. A central Brindisi Norte foi incluída no plano de privatização no início dos anos 2000 e adquirida pela empresa Edipower, depois pelo grupo A2A. Em 2012, a central suspendeu a produção, na sequência dos efeitos da crise económica e financeira de 2008 no mercado da energia. Os cerca de 250 trabalhadores foram colocados em regime de layoff. Entretanto, a empresa tinha apresentado um novo plano industrial para converter a central a carvão à produção de energia a partir de resíduos. Os trabalhadores e os sindicatos esperavam uma avaliação positiva do projeto. Os grupos ambientalistas, pelo contrário, exigiram a sua rejeição e o desmantelamento definitivo da central. Os trabalhadores e ambientalistas eram, portanto, os dois grupos que estavam a manifestar-se em frente aos portões da central.
Assim, a imprensa local relatou essa dupla manifestação:
“em frente aos portões, as exigências dos operários e das associações ambientalistas. De um lado, a faixa dos operários. Do outro, a das associações ambientalistas. As exigências ligadas às questões do meio ambiente e do trabalho cruzaram-se em duas manifestações diferentes realizadas em frente aos portões da central Edipower […], na zona industrial de Brindisi.”8
Operários e ambientalistas foram assim identificados como portadores de necessidades opostas: as do ambiente e as do trabalho. No entanto, a faixa dos operários e dos sindicatos afirmava que “o trabalho e o ambiente podem ser conciliados”. No seu comunicado, os sindicatos sublinharam que as tecnologias do novo plano industrial garantiriam a sustentabilidade ambiental do processo de produção. Os ambientalistas, pelo contrário, estavam menos dispostos ao compromisso com uma mensagem inequívoca: “encerrar e recuperar” (chiudere e bonificare).
O episódio relatado reproduz de uma forma bastante convencional e até estereotipada a representação do conflito entre trabalho e ambiente. Mais ou menos a mesma representação aludida no título interrogativo de um ensaio do historiador ambiental Richard White (1996): “Are you an environmentalist or do you work for a living?” Na verdade, foi precisamente a história ambiental que evidenciou a complexidade e a variedade das formas históricas através das quais o trabalho e o ambiente se constituem mutuamente; e como a classe, o género, a etnia e a “raça” mediaram a complexidade desta relação nas articulações desiguais (espaciais e sociais) do capitalismo (Barca 2014; Montrie 2008). Através do estudo das variações nas relações entre ambiente e trabalho nas sociedades industriais, a história ambiental também destacou o papel fundamental dos trabalhadores industriais na formação de sensibilidades ecológicas sobre a poluição atmosférica ou condições de trabalho pouco saudáveis (Barca 2012; Dewey 1998). A história ambiental é sem dúvida uma referência indispensável quando se olha para a “falsa guerra entre operários e ambientalistas”; contudo, é essencial esclarecer de que trabalho falamos, qual é a sua colocação social e de que forma passou a caracterizar a perceção da crise socioambiental.
O termo trabalho (lavoro), em italiano, engrossa tal quantidade de significados que o torna uma fonte persistente de ambiguidade (Pusceddu 2020b).9 Isto apesar de uma claramente definida geografia simbólica que coloca o trabalho assalariado (o “emprego”) no seu centro como trabalho por excelência. É precisamente neste sentido que é referido no episódio acima. Mas é também implicitamente um tipo de trabalho, o trabalho industrial, que tem gozado de um forte estatuto simbólico (sobretudo entre algumas gerações das classes trabalhadoras do Sul da Itália), de modo que os operários por excelência são os da indústria.10 Contudo, no dilema socioecológico de Brindisi, o trabalho industrial, embora persistindo como um emprego seguro (“privilegiado”, segundo a carta dos trabalhadores citada anteriormente), perdeu a centralidade social (“uma breve hegemonia”, segundo Campennì 2002) que tinha mantido durante algumas décadas, mesmo nas dimensões fragmentadas da experiência fordista no Mezzogiorno (Mingione 1991). A própria fábrica, de um lugar de emancipação coletiva e promoção social, tornou-se, além disso, um símbolo mortal da sociedade local (Curcio 2014; Ravenda 2018). É oportuno recordar algumas passagens que marcaram localmente, mas num quadro de transformações globais, a metamorfose dos operários e do “ambientalismo operário” (Barca 2019). Um momento-chave é representado pela reestruturação do sector petroquímico, no contexto da crise da química italiana, já sobrecarregada por problemas endógenos de sobredimensionamento, que explodiu durante e após os choques petrolíferos dos anos 70.
Já local de um modesto, mas significativo, núcleo de indústrias mecânicas (principalmente aeronáuticas) que surgiu durante o fascismo, desde os anos 60 Brindisi experimentou a rápida expansão de uma nova e extensa área industrial. Em poucos anos surgiu um dos maiores polos petroquímicos do país, a indústria farmacêutica, indústrias mecânicas e a primeira central termoelétrica (Brindisi Norte). Duas décadas depois, surgiu a segunda central termoelétrica, a carvão, Federico II (chamada, pelas grandes dimensões, mega-centrale). Esta nova central - atualmente a maior em funcionamento em todo o país - tinha sido planeada em 1981 no Plano Nacional de Energia (PNE) e posta em função no início dos anos 90. A construção da central foi também uma medida “compensatória” da queda do emprego que se seguiu à crise e reestruturação do sector químico nacional, tornada particularmente problemática em Brindisi pela explosão do cracking na noite de 8 de dezembro de 1977, na qual morreram três operários. As consequências foram dramáticas: entre 1977 e 1983, 2000 trabalhadores diretos foram expulsos do processo produtivo, mais 1000 indiretos das empresas de manutenção e outros serviços.11
Na sequência da escolha de Brindisi como local para uma segunda central termoelétrica, nos anos 80, abriram-se várias frentes de conflito: entre as autoridades locais, a Enel e o Estado central; entre apoiantes (partidos políticos, trabalhadores e sindicatos) e opositores do projeto, que formaram uma frente heterogénea, incluindo a igreja católica local, associações cívicas e ambientalistas (como Legambiente), grupos extraparlamentares de esquerda e o movimento antinuclear (Prato 1993). Assim que a construção começou, em meados dos anos 80, o conflito intensificou-se, levando ao primeiro confronto significativo entre trabalhadores industriais e grupos ambientalistas. Este poderia ser considerado o início da “guerra falsa entre operários e ambientalistas”; foi, sem dúvida, o início de fricções problemáticas.
É útil salientar que as fases de arranque da nova central foram marcadas por preocupações crescentes sobre os efeitos da grande indústria fóssil sobre a saúde da população. No final dos anos 80, Brindisi foi classificada pelas autoridades nacionais como “área de alto risco ambiental” (Portaluri 2012). Neste cenário, a disputa sobre a nova central termoelétrica tornou-se o principal campo de contestação das políticas energéticas assentes na grande produção industrial. Uma disputa que reproduzia as mesmas linhas de fratura do debate nacional e até internacional na sequência dos choques petrolíferos dos anos 70 (Nebbia 2015). Não é por acaso que, durante a última década (e mesmo antes da explosão mundial do “ativismo climático”), a palavra de ordem “não ao carvão” conseguiu unir diferentes formas de compromisso e militância, dando origem a uma importante época de ativismo ambiental (Ravenda 2018). No entanto, durante a década de 80, o consenso em torno do movimento de oposição nunca foi de molde a impedir o avanço de um novo ciclo industrial.12 É interessante que alguns ativistas, retrospetivamente, tenham lido esta derrota do movimento ambiental recorrendo ao argumento da “chantagem ocupacional” (Ravenda 2018: 65-66).13 Num contexto marcado pela redução substancial de oportunidades de emprego no sector petroquímico e por taxas de desemprego estruturalmente elevadas, a esperança de um novo ciclo industrial e a criação de novos empregos teria contribuído a desarmar, pelo menos na perceção comum,14 o risco ambiental implícito na aceitação de uma nova central a carvão. Trabalhadores e sindicatos tinham apoiado o novo plano industrial, que representava uma estratégia temporária no processo de recuperação a longo prazo da economia local, para o qual era fundamental preservar a produção industrial (e os empregos). As condições socioeconómicas que tornaram possível a aceitação da nova central são assim indicadas como a origem do dilema socioecológico expresso pela “chantagem ocupacional” (ver também Curcio 2014).
A partir deste momento, operários e ambientalistas tornam-se, tanto na prática como no senso comum, os dois polos de perspetivas divergentes sobre a relação entre trabalho, ambiente e indústria; tornam-se expressão daquilo a que, na perspetiva delineada neste capítulo, chamo ecologias de valor, que identificam experiências, posições e respostas divergentes ao mesmo dilema socioecológico.
Ecologias de valor
A definição das ecologias de valor assenta na tentativa de operacionalizar na análise empírica um conjunto de pistas teóricas oriundas de duas vertentes da crítica do valor: a ecomarxista e a feminista. A estas devemos, segundo Collins (2017), a principal expansão da teoria do valor através da inclusão da “natureza” e do “trabalho reprodutivo” na compreensão dos processos de apropriação capitalista e de formação de valor. O ecomarxismo tem insistido nas implicações ecológicas da contradição entre valor de uso e valor de troca (Burkett 2014 [1999]; Foster e Clark 2018); o domínio da forma valor capitalista na mediação das relações metabólicas entre sociedades humanas e natureza extra-humana é assim colocado no centro daquela contradição fundamental. A crítica feminista, questionando a separação entre produção e reprodução, tem, em vez disso, desvirtuado o esquema da produção como local privilegiado de formação de valor, deslocando a atenção para o cone sombra do trabalho assalariado, a começar pelo trabalho doméstico não remunerado (Caffentzis 2013; Collins e Gimenez 1990; Federici 2012; Mies 1986); ou, segundo a formulação da socióloga ecofeminista Ariel Salleh (2010: 212), o “trabalho metaindustrial”. Este é uma componente decisiva dos processos de reprodução social, constituído por um conjunto de atividades que não estão diretamente envolvidas nos processos produtivos (pelo contrário, são marginalizadas como improdutivas) mas são “essenciais” para sustentar a reprodução da vida e a sua integridade ecológica (como a recente pandemia veio demonstrar).
A reflexão desenvolvida em torno da relação entre a forma-valor capitalista e as diferentes configurações dos valores morais e culturais (Collins 2017; De Angelis 2007; Graeber 2001; Narotzky e Besnier 2014; Skeggs 2014) tem destacado a tensão entre circuitos, regimes e formas diferentes do(s) valor(es). Esta tensão constitutiva do valor, bem como as dinâmicas intrínsecas de valorização e desvalorização, permite pensar a articulação das diferentes escalas, geografias e moralidades que moldam a experiência histórica do desenvolvimento capitalista (Kalb 2017). Apesar da distinção entre valor económico e valores morais e culturais, em si problemática (Graeber 2001), aqui é essencial destacar o “entrelaçamento” do(s) valor(es) na sua manifestação histórico-fenomenológica, e como esta complexa configuração é também constitutiva de práticas e conceções da relação humano-ambiente (o metabolismo social), que, como tal, é sempre mediada por alguma forma de valor.
O problema que as ecologias de valor nos permitem colocar, ao examinar a relação trabalho-ambiente (e o conflito entre operários e ambientalistas), diz assim respeito às formas práticas e simbólicas da mediação humano-ambiente, ou seja, à forma concreta que as relações socioecológicas assumem num contexto específico do capitalismo contemporâneo. Uma questão-chave a interrogar é se as práticas que partilham o mesmo horizonte socioecológico e cultural, apesar de posicionamentos diferentes em relação à perceção do nexo trabalho-ambiente (assim como se concretiza nesta cidade industrial), podem negociar um horizonte comum para pôr fim à “falsa guerra”, “mending the breach” entre trabalho e natureza, como sugerem Uzzel e Räthzel (2013); ou seja, como as fricções são efetivamente reconciliáveis num horizonte de reconhecimento mútuo (Gibson-Graham 2006). Voltarei a este ponto nas conclusões. É agora necessário completar a ilustração das ecologias de valor, voltando brevemente às fricções entre operários e ambientalistas em relação à central termoelétrica de Brindisi Norte.
Um ano após a manifestação, a situação tinha-se mantido inalterada. Entretanto, eu tinha tido a oportunidade de conhecer e entrevistar Cosimo, um técnico da central, então com mais de 50 anos,15 que corria o risco de ser transferido para outra região se o plano de reconversão industrial fosse rejeitado. Criado numa família operária, Cosimo trabalhou na mesma central termoelétrica onde o seu pai tinha trabalhado até à sua morte, devido a cancro do estômago, com apenas 50 anos de idade. Segundo Cosimo, o projeto de conversão da central num projeto de geração de energia através de resíduos sólidos era a melhor opção para salvaguardar os postos de trabalho e o ambiente. Ele estava confiante de que as tecnologias disponíveis ofereciam elevados padrões de segurança e que, ao mesmo tempo, o projeto seria a solução para o problema recorrente da eliminação de resíduos.16 No entanto, ficou bastante desapontado com a falta de compreensão na cidade e com os receios “infundados” de reativação da central. Ressentiu-se da “propaganda ambientalista” por divulgar informações distorcidas sobre todo o projeto, suscitando atitudes suspeitas em relação aos trabalhadores, que eram tratados - na sua opinião - “como transmissores de peste (untori)”. A opinião de Cosimo sobre os benefícios das novas tecnologias e a falta de conhecimentos adequados entre os ambientalistas era partilhada por muitos outros trabalhadores e líderes sindicais que entrevistei. Embora reconhecendo o impacto prejudicial das atividades industriais no passado - especialmente nos primeiros anos de funcionamento das fábricas petroquímicas -, não tinham dúvidas sobre a defesa das estruturas industriais como a espinha dorsal da economia local e do seu futuro. Evidentemente, esta avaliação era também influenciada por preocupações pessoais sobre a dificuldade de realizar planos de vida e aspirações familiares (desde a hipoteca da casa até à educação dos filhos), em caso de perda ou redução de empregos. Segundo os quadros de avaliação dos trabalhadores, as inovações tecnológicas no processo de produção eram tidas como fundamentais para uma mediação razoável (e moralmente compatível) entre a indústria e o ambiente.
Lorenzo, um ativista do movimento “Não ao Carvão” (NAC), foi um dos meus primeiros contactos em Brindisi. Para me apresentar à problemática situação ambiental da cidade, em janeiro de 2015 guiou-me numa visita pela extensa zona industrial.17 A visita guiada replicava o “Veleni Tour” organizado pelo movimento no passado recente.18 A excursão começou nas docas do cais no porto industrial e terminou à beira-mar, entre a central termoelétrica e o lido Cerano, uma praia renomada do litoral. O percurso incluía várias estações intermédias; primeiro, a central Brindisi Norte, “uma velha cafeteira”, segundo Lorenzo, cuja desativação definitiva o movimento exigia; depois, várias paragens em torno da área petroquímica, incluindo um aterro de resíduos tóxicos de 40 hectares, entre o mar e o recinto industrial. Parte do percurso seguia a correia transportadora de 15 quilómetros, construída para transportar o carvão do porto para a nova central. Nos arredores da central de Cerano, visitámos uma família de combativos agricultores, envolvidos no julgamento contra 13 altos dirigentes da empresa elétrica, acusados de “atirar coisas perigosas, danificar culturas e sujar habitações” ao longo da correia transportadora que abastece a central. O apoio do movimento ambientalista aos agricultores durante o dito “julgamento Enel” (Ravenda 2018: 105-111) deu continuidade à histórica aliança entre ambientalistas e agricultores que se opunham à construção da central já desde os anos 80. Para o movimento, os agricultores representavam os defensores da “natural vocação económica” da região, marginalizados pela imposição de indústrias pesadas. Nesta perspetiva, o processo de industrialização tinha produzido uma verdadeira “ocupação da terra” e a apropriação instrumental dos recursos naturais e sociais, com a consequente desvalorização da terra e das pessoas, com a terra ocupada pelas fábricas e os camponeses transformados em “operários”; segundo esta visão, aquele tipo de industrialização pesada tinha essencialmente distorcido as relações socioecológicas, colocando o lucro industrial no centro da mediação humano-ambiente.
Lorenzo, então um jovem de 30 anos que tinha passado algum tempo longe de Brindisi, combinava o seu compromisso ambientalista com a participação ativa numa cooperativa (da qual foi fundador) com o objetivo de impulsionar várias formas de turismo sustentável, verdadeiro contraponto ético à tour dos venenos. Como muitos outros em Brindisi, considerava a industrialização um fracasso socioambiental, alegando a necessidade de economias e narrativas alternativas.19 O movimento tinha uma composição social heterogénea, em grande parte trabalhadores de serviços, professores do ensino secundário, trabalhadores autónomos, estudantes, sem que faltassem operários da indústria, ou seja um amplo espectro de figuras sociais que representavam a metamorfose da classe trabalhadora local (Pusceddu 2022). Longe do (e muitas vezes contra o) ambientalismo dominante ou mainstream (frequentemente identificado com organizações mais institucionais como Legambiente), o movimento era expressão de novas revindicações e sensibilidades que apelavam à necessidade de recuperar o precário equilíbrio socioecológico da cidade, mobilizando localmente o discurso da justiça ambiental - a ideia de que os custos da poluição industrial são distribuídos de forma desigual e injusta, sobrecarregando populações e regiões mais desfavorecidas e marginalizadas.20 Na perspetiva aqui delineada, Cosimo e Lorenzo21 representam duas articulações diferentes das ecologias de valor, que expressam respostas diferentes ao dilema socioecológico da cidade em relação ao nexo trabalho-ambiente. Deste dilema (geralmente expresso sob a forma da “chantagem ocupacional”) é necessário traçar uma genealogia concisa, necessária para situar as ecologias de valor no campo das contradições que operam na crise socioecológica local.
Uma pedra na lagoa
No dia 8 de março de 1959, na presença do então chefe do governo Antonio Segni, teve lugar a cerimónia de lançamento da primeira pedra da fábrica petroquímica em Brindisi. A empresa Montecatini tinha identificado a área de desenvolvimento industrial recém-nascida como um local adequado para a construção do que viria a ser o maior complexo petroquímico italiano, destinado à produção em grande escala de polímeros. A área escolhida, ao longo da costa sul, tinha uma extensão correspondente ao quádruplo da cidade. O gigantesco projeto industrial enquadrava-se na “extraordinária intervenção” do Estado para o desenvolvimento industrial das regiões do Sul, coordenado e gerido pela Cassa per il Mezzogiorno, uma agência pública que tinha sido especificamente criada para o efeito em 1950. A empresa privada Montecatini era há muito monopolista no sector químico e tinha já uma fábrica de adubos em Brindisi. Este grande projeto industrial marcava a sua expansão no sector e no mercado petroquímico. Para a sua realização, que teve custos enormes para a época, a empresa beneficiou dos apoios financeiros do Estado, especificamente criados, a partir de 1957, para a industrialização direta do Sul do país (Barbagallo 2013; Pirro 1983). A fábrica petroquímica deveria tornar-se o pilar do polo de desenvolvimento, concebido como o epicentro da transformação do tecido social e económico da região envolvente; a nova fábrica foi assim identificada como um fator-chave no processo de modernização. Antonio Segni foi um porta-voz desta visão, no seu discurso durante a cerimónia de colocação da pedra de fundação, descrevendo a fábrica petroquímica como “uma pedra atirada para uma lagoa que terá de se expandir em círculos de prosperidade” (Russo 1964). A condição da sociedade e economia de Brindisi (mas a analogia é válida para todo o Mezzogiorno) foi equiparada às águas paradas de uma lagoa, que apenas um acontecimento de rutura, como a construção de uma grande instalação industrial, seria capaz de mover. Este foi, afinal, o esquema que orientou a transição da primeira fase de intervenção extraordinária, a da criação das condições infraestruturais para favorecer um desenvolvimento endógeno gradual, para a segunda fase, a da industrialização direta e exógena, como fator de rutura da suposta imobilidade socioeconómica do Mezzogiorno.
Se na perspetiva da Montecatini a fábrica petroquímica de Brindisi representou a grande aposta para escapar ao seu declínio,22 a construção da enorme fábrica no contexto do planeamento público respondeu a outra grande necessidade, nomeadamente a absorção da enorme massa de força de trabalho excedentária (“o antigo problema da economia italiana”, segundo o economista Augusto Graziani 1998: 10), que já tinha sido parcialmente canalizada, através dos grandes fluxos de migração interna, para os centros industriais do Norte (Ginsborg 1990: 210-233). A indústria petroquímica, neste sentido, gerou horizontes de expectativas salariais, geridas e reguladas pelas redes de “mediadores” locais do partido no poder, a Democracia Cristã (Gribaudi 1980), típicas figuras de brokers. Daí a identificação da fábrica petroquímica como “fábrica de recomendações”, frequentemente referida pelos antigos trabalhadores e que, em geral, reflete uma perceção comum em volta do nexo entre indústria e poder no contexto local.23 Na empresa industrial de Brindisi (como em grande parte do Mezzogiorno) conciliaram-se, portanto, duas grandes necessidades: a do capital, o grande monopólio químico, favorecido por investimentos facilitados e um custo do trabalho entre os mais baixos do país, graças ao sistema de zonas salariais;24 a do Estado (e do poder democrata-cristão), que visava a criação controlada de um proletariado industrial, sob a proteção e garantia do poder político (Pirro 1983).
A imagem da lagoa é útil para problematizar um aspeto-chave da relação entre natureza e capital no Mezzogiorno. Muitas vezes popularizada nos noticiários da época como uma rutura do imobilismo secular, a industrialização no Sul rompeu equilíbrios bastante diferentes através da apropriação da natureza e de força de trabalho “barata” (Moore 2015). Adotando as categorias do geógrafo Gidwani (2012), poder-se-ia dizer que a qualificação da natureza e do trabalho no Mezzogiorno como “desperdício” (waste, no sentido de “recurso não utilizado”), como antítese relacional de valor capitalista, teria estabelecido as condições para a sua apropriação e “valorização”. A ambiguidade da fórmula de valorização não deve ser descurada, o que na lógica da valorização implica tanto uma nova escala de integração nos circuitos de acumulação capitalista, como a produção de novas hierarquias morais de valorização, que investem espaço, força de trabalho e reprodução social como um todo. O processo de valorização produz constantemente o seu oposto, ou seja, a desvalorização; o “fracasso” do processo industrial em satisfazer as expectativas de emprego é assim medido no crescimento de excedentes de força de trabalho e na degradação ambiental.
O crescimento demográfico de Brindisi, que foi quase constante até aos anos 90,25 em parte devido à dinâmica de urbanização à escala territorial, mas também em parte devido ao processo de polarização industrial, intensificou o desequilíbrio entre a força de trabalho excedentária e a capacidade de absorção pela economia industrial. Além disso, a expansão industrial não foi acompanhada pelo desenvolvimento de um sector terciário avançado; um facto que, por um lado, fez de Brindisi a articulação periférica de estratégias industriais mais amplas, por outro lado contribuiu para o crescimento considerável de um sector terciário de baixa qualidade (ou de baixo valor acrescentado), com condições de trabalho precárias e mal remuneradas, um traço comum às economias do Sul (ver Mingione 1991). A crise petrolífera dos anos 70 e a subsequente reestruturação (entre redução de efetivos e inovações tecnológicas) limitaram ainda mais as oportunidades de emprego no sector industrial, que se foi reduzindo a um núcleo de trabalhadores diretos “privilegiados” e a um conjunto de trabalhadores precários, principalmente no sector mecânico, ligado a cadeias de subcontratação no sector da manutenção. É neste contexto, com a decisão de construir a nova central nos anos 80, que o conflito entre operários e ambientalistas tomou a forma acima referida; um conflito hoje alimentado pela incerteza sobre o futuro do sector industrial26 e pela perceção cada vez mais generalizada do nexo entre saúde e poluição industrial (Ravenda 2018), em parte sustentada por provas científicas (Forastiere et al. 2017; Mangia, Cervino e Gianicolo 2015), mas em grande parte alimentado por um longo e trágico “inventário íntimo” (Vasudevan 2021) de toxicidade, doença e morte.
Conclusões
O caso de Brindisi deve evidentemente ser colocado num cenário mais amplo, no qual a reconversão dos sectores da economia diretamente ligados à produção de derivados do petróleo desempenha um papel fundamental (também pelas suas implicações socioeconómicas). Não é difícil encontrar numerosos outros casos análogos, em Itália e no resto do mundo, a fim de compreender como o problema examinado neste ensaio não pode deixar de ser colocado dentro de uma perspetiva multiescalar; as posições e situações aqui examinadas participam em processos e dilemas que transcendem a dinâmica local, nomeadamente as mudanças sistémicas na economia global a as reconfigurações ideológicas e sociais que contribuem a moldar a perceção da crise socioecológica. Ao mesmo tempo, de acordo com Lawhon e McCreary (2020), não podemos ignorar como as formas do discurso dicotómico da oposição trabalho-ambiente são contextuais e devem ser lidas dentro das relações que se produzem naqueles contextos. No caso aqui analisado, como foi ilustrado, o nexo trabalho-ambiente deve ser lido em relação a duas condições importantes: primeiro, a erosão, por razões estruturais, da economia industrial como horizonte de emprego; segundo, a emergência, na esfera pública, de um discurso aberto sobre as questões ambientais e sanitárias da cidade. Esta última, além disso, encontra importantes articulações com o tornar-se senso comum da crise ecológica global, juntamente com uma maior recetividade que vai ao encontro da ideia de justiça ambiental. Neste cenário, operários e ambientalistas tornam-se elementos contrastivos (mais ainda do que as figuras sociais que lhes corresponderiam) de um discurso que simplifica a complexidade de uma situação caracterizada por necessidades materiais e morais diversificadas, inscrita numa problemática crise socioambiental. As duas trajetórias de Cosimo e Lorenzo, com as quais ilustrei as ecologias de valor, apesar da possível representatividade de posições contrastantes, são indicativas de uma continuidade de preocupações entre as duas polaridades representadas por operários e ambientalistas. Face à aparente antinomia das suas avaliações, ambas as ecologias de valor respondem ao mesmo dilema socioecológico, dentro de um campo de forças que transcende a escala da cidade; ambas são complicadas pela tensão entre diferentes formas de valorização; pela diversidade de experiências geradas pelo seu posicionamento no campo local.
O discurso contrastivo trabalho-ambiente é uma expressão dessa tensão, mas também um sintoma problemático da dificuldade de superá-la, tanto na dimensão material quanto na simbólica. Com efeito, parece claro como as respostas ao dilema socioecológico são indissociáveis da modificação dos campos de força e dos imaginários coletivos, que se articulam de forma problemática com as situações descritas, em que as estruturas do poder económico industrial desempenham um papel decisivo. O caso aqui examinado confirma o quanto trabalho e ambiente se constituem mutuamente (ao nível material e simbólico) e como a questão socioambiental se manifesta como um conflito sobre os vínculos de valor que definem a mesma relação trabalho-ambiente. Este dilema de valoração desdobra-se em múltiplos cenários de transformação do trabalho, dos quais a “chantagem ocupacional” representa um importante indicador, como veículo semântico das dinâmicas estruturais que moldam o discurso de contraposição entre trabalho e ambiente, que é expressa (em sentido fortemente ideológico) no conflito entre operários e ambientalistas. Os operários como portadores de uma visão que assenta na avaliação da dimensão tecnológica dos processos produtivos, capaz de garantir a continuidade da economia industrial e a proteção do meio ambiente. Os ambientalistas, como expressão da necessidade de repensar o nexo trabalho-ambiente para além dos imperativos produtivos, através de uma profunda reconversão da economia local, capaz de sanar a fratura entre os processos produtivos e as necessidades reprodutivas (Salleh 2010). A possibilidade de resgatar os atritos entre diferentes visões e experiências do nexo trabalho-ambiente representa, portanto, um ponto-chave para a emergência de uma visão comum e compartilhada diante de uma ordem de relações socioecológicas caracterizada pela apropriação capitalística do ambiente e da reprodução social como um todo.
Este ensaio procurou enquadrar estas tensões na perspetiva das ecologias de valor, que responde à necessidade de desenvolver categorias capazes de operacionalizar, ao nível da análise etnográfica, ferramentas conceptuais úteis para a compreensão das dinâmicas socioecológicas globais. Nesse sentido, as ecologias de valor traçam um horizonte de análise e uma perspetiva de articulação das contradições que atuam sobre as expectativas, os anseios e as necessidades de uma realidade industrial do Sul, mas que se abrem ao diálogo com as complexas trajetórias da transição contemporânea.
Financiamento
A investigação e a redação deste artigo receberam apoio da ERC Advanced Grant “Grassroots Economics: Meaning, Project and Practice in the Pursuit of Livelihood” [GRECO] (IDEAS-ERC FP7, Project Number: 323743); da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (CEECIND/01894/2018/CP1533/CT0001); e do Centro em Rede de Investigação em Antropologia (UIDB/04038/2020).














