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Etnográfica

versão impressa ISSN 0873-6561

Etnográfica vol.29 no.1 Lisboa abr. 2025  Epub 30-Abr-2025

https://doi.org/10.4000/13fpn 

Artigo original

“Eu já aguentei muita gente nessa vida”: sobre cuidados, gênero e geração em famílias cabo-verdianas

Eu já aguentei muita gente nessa vida”: about care, gender, and generation in Cape Verdian families

Andréa Lobo1  , conceitualização, investigação, redação do rascunho original, redação - revisão e edição
http://orcid.org/0000-0001-7525-1953

André Omisilê Justino2  , investigação, redação do rascunho original,, redação - revisão e edição
http://orcid.org/0000-0002-5549-2351

1 Universidade de Brasília, Brasil, andreaslobo@yahoo.com.br

2 Universidade de Brasília, Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil, andref.215@gmail.com


Resumo

Este artigo reflete sobre a categoria cuidado quando atravessada pelas dinâmicas de gênero e geração na sociedade cabo-verdiana. O ato de cuidar é de fundamental importância para as dinâmicas familiares nesta sociedade que é marcada por mobilidades de múltiplas ordens - entre pessoas, vilas, cidades, ilhas, países. O interesse é pensar sobre o cuidado a partir do idioma local expresso pela categoria “aguentar”, expressão que carrega em si múltiplos significados que nos permitem compreender o valor de cuidar na construção da pessoa ao longo de seu percurso de vida. O que desejamos com tais reflexões é complexificar as noções de cuidar ao observar as diversas disputas sobre o universo dos cuidados: com, quando, quem cuida ou deve cuidar não compõe um campo que está dado, mas que é construído e constrói pessoas e moralidades nesta sociedade marcada por fluxos.

Palavras-chave: cuidado; Cabo Verde; fluxos migratórios; família; infância; gênero

Abstract

This article reflects on the care category when crossed by the dynamics of gender and generation in Cape Verde. The act of caring is of fundamental importance for family dynamics in this society, which is marked by mobilities of multiple orders - people, towns, cities, islands, countries. The interest is to think about care based on the local language expressed by the category “aguentar”, an expression that carries multiple meanings that allow us to understand the value of caring in the construction of the person throughout their life course. What we want with such reflections is to make the notions of care more complex by observing the various disputes about the universe of care: how, when, who cares or who should care do not make up a field that is given, but that is constructed and builds people and moralities in this society marked by flows.

Keywords: care; Cape Verde; migratory flows; family; childhood; gender

Esse artigo é resultado de uma reflexão sobre o campo dos cuidados em Cabo Verde. Nosso objetivo é explorar a multiplicidade das práticas e significados em torno de uma expressão da língua local, o “aguentar”.1 Como demonstraremos ao longo do texto, os sentidos de “aguentar” nos permitirão passear por um vasto campo semântico, sendo uma categoria rica para pensar as práticas de cuidado que se desdobram no cotidiano cabo-verdiano, sobretudo no dia a dia das mulheres. Nosso interesse é, a partir dos dados etnográficos, mobilizar os múltiplos sentidos de cuidar que a expressão “aguentar” abarca. Isso permitirá que observemos o universo dos cuidados em suas relacionalidades e interdependências que extrapolam a noção muito a ele vinculada de “fazer o bem”, permitindo que deslizemos seus significados e práticas para os agenciamentos de opressões e para suas dimensões ambíguas. Ficar com a categoria êmica “aguentar” nos permitirá pensar sobre as qualidades ambivalentes ou percebidas como negativas que os atos de cuidar podem expressar, pois muitas vezes “cuidar”, assim como o parentesco, carrega em si um aspecto coercivo (Carsten 2014).

Os dados analisados são resultados de anos de pesquisas etnográficas realizadas em Cabo Verde sobre dinâmicas familiares, fluxos e infâncias, e nossas interlocutoras são mulheres e crianças com quem convivemos em nossas pesquisas etnográficas.2

A literatura sobre o cuidado é vasta e diversificada. Não nos cabe aqui fazer um mapeamento do campo, tarefa já feita com competência por outras colegas (Drotbohm e Alber 2015; Offenhenden 2017; Engel e Fietz 2023). Nos concerne mencionar que sua problemática tem sido abordada a partir de distintas disciplinas, sobretudo por pesquisadoras mulheres que vêm dedicando esforços em colocar em relevo as temáticas do cuidado, analisar suas implicações e debater sobre seus conteúdos. Do ponto de vista da antropologia, o conceito de cuidado está intimamente interligado e informado pelos universos do trabalho, do parentesco, dos ciclos de vida - todos transversalizados pela perspectiva de gênero (Drotbohm e Alber 2015). Tal como salienta Offenhenden (2017), gênero e parentesco se combinam na gestão e provisão do cuidado, ambos sendo constructos sociais com dimensões performativas e colocando em evidência os aspectos relacionais e contextuais. Nesse sentido, a perspectiva do cuidado nos permite observar as multiplicidades do “fazer gênero” e “fazer família/parentesco”.

O conceito de cuidado é marcado por sua polissemia. Ele se refere a uma gama de práticas que podem ou não ser remuneradas; que podem ou não ser reguladas por um contrato de trabalho; que ocorrem na esfera doméstica ou pública; e que podem cruzar fronteiras nacionais e ser estabelecidas entre diferentes países (Baldassar 2008). Apesar de ser um termo que pode significar muitas coisas, é corrente a associação entre as práticas de cuidados e uma noção - permeada por perspectivas morais - de “fazer o bem” (Puig de la Bellacasa 2017). Os casos que analisamos aqui nos permitem uma aproximação com outra abordagem, a de que o campo do cuidar está permeado por negociações, composições, disputas e sentimentos. Ao optar pela categoria êmica “aguentar”, nosso intento é, por meio de uma tradução que nos afete, agregar às noções de cuidado as possibilidades de deslizamentos semânticos que abarquem suas variadas feições.

Como afirmou Talal Asad em artigo publicado em 1986, o problema é saber o que precisamente é, pode, ou deve ser uma tradução, e como levar adiante tal operação. E é aqui que as coisas começam a ficar complicadas. Conforme pontua Viveiros de Castro (2018), a posição de Talal Asad diante desse diagnóstico é a de que na antropologia, a comparação deve estar ao serviço da tradução - ou seja, a antropologia compara para que possa traduzir, e não explicar, justificar, generalizar, interpretar, contextualizar, revelar, e assim por diante. E se traduzir é sempre trair, uma boa tradução é aquela que trai a língua de destino e não a língua de origem. Citando Eduardo Viveiros de Castro, “uma boa tradução é uma que permite que os conceitos alienígenas deformem e subvertam a caixa de ferramentas conceitual do tradutor para que o intentio da língua original possa ser expresso dentro da língua nova” (Viveiros de Castro 2018: 250).

Recuperamos esse, que é um clássico debate entre antropólogos, não porque tenhamos qualquer ambição de aprofundá-lo aqui, mas porque esse é o ponto de partida desta reflexão sobre o entrecruzamento entre o universo do feminino e as práticas de cuidado a partir da expressão “aguentar”.3 Adotando a perspectiva de Talal Asad (1986), o nosso objetivo é fazer um exercício de comparação entre os diferentes significados de aguentar a partir dos usos que nossas interlocutoras de pesquisa dão a essa expressão. A intenção é ensaiar assim uma tradução que nos afete, ou seja, que permita que os conceitos dessas mulheres se somem às nossas caixas de “ferramentas conceituais” quando pensamos sobre cuidados, complexificando-as.

A afirmação de Nha Bia,4 que dá título ao artigo, “Eu já aguentei muita gente nessa vida”, pode ser interpretada de muitas formas. De fato, em nossos diálogos a expressão foi ressemantizada por Nha Bia e por tantas outras mulheres com quem conversamos, para dar conta de diferentes momentos de sua trajetória individual e familiar nas quais a categoria aguentar parecia sintetizar o universo do feminino e suas relações com práticas de cuidado. É essa diversidade que nos estimula a pensar que os múltiplos e não contraditórios significados de aguentar podem ampliar nossos entendimentos não do que o cuidado é, mas do que ele tem potencial de produzir em termos relacionais.

Mirando nesses objetivos, organizamos o artigo a partir dos diversos exemplos de aguentar que surgem em nossas etnografias passeando por este vasto campo semântico. E concluímos reforçando a potencialidade que adotar essa categoria êmica traz para os estudos do cuidado.

Aguentar: um campo semântico

Nesta secção, esboçamos algumas traduções possíveis das relações que observamos entre aguentar, cuidados e o universo do feminino a partir de conversas com mulheres cabo-verdianas de diferentes gerações, classes sociais, cor da pele e localizações espaciais (ilhas ou diáspora), e com crianças em diferentes idades de uma periferia urbana e que se engajam enquanto sujeitas das práticas de cuidado. São quatro os aspectos ou traduções que trazemos aqui para nosso debate e que nos remetem às dinâmicas de parentesco e de gênero: (1) aguentar e as relações de filiação - uma forma de ajuda ou cuidado intergeracional; (2) aguentar e as relações de distinção entre as crianças - o modo como as meninas se engajam nas tarefas de cuidado; (3) aguentar e as relações de aliança e conjugalidade - como suportar uma carga, um peso; (4) aguentar como “fazer família” nas mobilidades.

Embora todos esses aspectos estejam conectados entre si dentro de um mesmo campo semântico, as variações que encontramos ao olhar etnograficamente para as práticas de cuidado indicam um universo de relações possíveis que podem ser acionadas para a manutenção da vida 5 e que de alguma forma são atravessadas pela intersecção entre práticas de cuidado, gênero e geração. Para além de nossos dados de pesquisa, a literatura sobre gênero e dinâmicas familiares na sociedade cabo-verdiana corrobora que esta é uma categoria central para o entendimento dos processos de interação nesses universos (Rodrigues 2007; Fortes 2015; Drotbohm 2009; Martins e Fortes 2011; Lobo 2010, 2014; Challinor 2011, 2012, 2017; Silva e Vieira 2016; Justino 2022) em dois dos aspectos que atravessam os quatro eixos que desenvolvemos a seguir. O cuidado tem gênero e opera em rede. Em redes articuladas entre mulheres que congregam diversas camadas de cuidado e afeto e estruturam as relações. Tais práticas envolvem os universos familiares, de amizade e vizinhança, mulheres de diferentes gerações e estratos sociais que participam em vários graus compondo um emaranhado que as mantém ligadas umas às outras em nexos que vão do local ao transnacional.

Aguentar como filiação

Aguentar é uma expressão muito usada quando estamos nos referindo aos cuidados com as crianças, mas também com os mais velhos ou idosos. Quando Nha Bia afirma que aguentou muita gente na sua vida, certamente se refere à responsabilidade assumida tanto com seus pais quanto com filhos, netos e outras crianças que circularam por sua casa estando sob seus cuidados. Para o caso das crianças, aguentar pode se referir aos cuidados cotidianos com uma criança expressos pelos atos de fazer dormir, alimentar, limpar, dar banho, dar atenção, brincar, acarinhar, repreender, dar colo, brigar ou castigar, socorrer, etc. Para esses casos, uma rede de mulheres pode ser acionada, não sendo necessariamente a mãe a assumir tais tarefas.6

É importante salientar que este conjunto de atos de cuidados enumerados acima não diz respeito apenas a uma dimensão prática da vida. Aguentar é uma prática de construção e manutenção de pessoas, ou seja, está diretamente ligado a um projeto compartilhado pelo coletivo de cultivar boas pessoas que tendem a ter espaço cada vez maior na rede de cuidados. Conforme mostram os dados de Justino (2022), o cuidado é uma prática complexa, que interliga diversas pessoas e casas em uma rica rede de relações baseadas em troca, confiança e mutualidade, no sentido acionado por Sahlins (2013).

Na elaboração e realização de um projeto de pessoa, no caso das crianças, as gerações interagem entre si, transmitindo e ressignificando práticas adquiridas ao longo do curso de vida e respondendo às mudanças estruturais (clima, economia, tendências sócio-históricas e políticas, entre outras). Por sua vez, as crianças cuidadas não são passivas do ato de cuidar e fazem ouvir sua voz no que acham um desacordo com suas expectativas, assim como o fazem as pessoas mais velhas. Olhar para o cuidado a partir dessa noção, de um projeto que implica múltiplas gerações, permite também atribuir dinamicidade às análises etnográficas produzidas, ou seja, o cuidado torna-se um constructo dinâmico e aguentar deixa de ser uma categoria cristalizada, passando a tensionar o já complicado jogo de tradução.

Temos aqui um aspecto geracional interessante a mencionar. Moças jovens exercem importante papel nos cuidados cotidianos com as crianças. Tal fato foi também observado por Challinor (2011) e Fortes (2011) entre estudantes cabo-verdianas vivendo em Portugal e que, ao serem mães umas das outras - no duplo sentido de se cuidarem entre si e aguentarem os eventuais bebês que nascem durante os anos de estudo -, se apoiam e se fortalecem.

Entre as meninas mais novas, parece haver certo prazer em aguentar irmãos mais novos, primos, vizinhos, filhos de amigas, sendo essa uma atribuição comumente dada a jovens meninas a partir de certa idade. É possível, inclusive, testemunhar disputas entre quem vai cuidar dos bebês, ou entre quem ficará com determinadas tarefas que são tidas como de mais prestígio, levando em consideração a atenção necessária para realizá-la (alimentar e limpar, principalmente, são tarefas que demandam um cuidado maior para que a criança não engasgue ou se machuque, e a destreza é fundamental).

Complementarmente, tais cuidados são assumidos também pelas avós que, como Nha Bia, aguentam muitas crianças, netos ou não, em suas casas, assumindo os cuidados diários em complementaridade com as mães, noras ou vizinhas e amigas. A noção de complementaridade é importante porque, tal como sinalizado em Lobo (2010, 2013), não se trata de uma simples “ajuda” às mães que precisam de um apoio para sair para trabalhar ou mesmo para emigrar deixando as crianças sob os cuidados de outras mulheres, mas na articulação de uma rede de complementaridade entre essas mulheres que acaba por construir tanto as maternidades quanto as infâncias (Lobo 2013).

Mas há ainda uma outra dimensão associada ao ato de aguentar uma criança, aquela que se refere à responsabilidade de educar, sustentar e criar essa pessoa. Mais uma vez, mães, avós maternas ou paternas, irmãs mais velhas ou outras mulheres que compõem o circuito podem se complementar nessa tarefa que extrapola o “fazer crescer” uma criança em seus cuidados diários, significando aquela que é a responsável pelo processo de sua formação e de seu sustento, ainda que essa responsabilidade seja passageira.

Andréa Lobo argumenta em seu artigo “Um filho para duas mães: notas sobre a maternidade em Cabo Verde” (2010) que a maternidade é uma construção que se dá a partir de duas gerações, em um processo que se inicia quando a mulher dá à luz uma criança, mas que só se concretiza quando a mulher é avó e, já mais velha, pode se dedicar ao cuidado dos netos, tendo diminuído o ritmo de trabalho, assumindo outra posição na organização familiar. Essa interação geracional, no entanto, não é exclusiva de relações familiares, podendo ser observada também em contextos de comunidades onde o valor vizinhança é forte e a rede de solidariedade entre as casas é atualizada constantemente. O caso de Vandinha é bom para pensar.

Vandinha era uma adolescente que morava em um bairro periférico da capital cabo-verdiana onde André Justino fez sua pesquisa de doutoramento. A jovem fazia parte de uma estatística que, embora tenha tendência a diminuir, ainda pode ser considerada alta: a taxa de gravidez na adolescência.7 Segundo o Inquérito Demográfico e de Saúde Reprodutiva (INE-CV 2018), 16% das adolescentes cabo-verdianas já tinham engravidado ou estavam esperando o primeiro filho à época do inquérito feito à população. Este número varia pouco entre os ambientes rural e urbano, ou entre as ilhas, e chama a atenção à correlação entre a gravidez na adolescência e o nível de instrução. É no grupo com menos instrução que incide o maior número de casos de gravidez. Esses dois elementos combinados aumentam a dificuldade do curso de vida, tendo em vista que a pouca instrução pode também estar ligada ao nível de pobreza e que algumas adolescentes precisam abrir mão de continuar os estudos para buscar formas de sustento, contornando as dificuldades econômicas que um bebê representa para o agregado familiar.

No caso de Vandinha isso não foi necessário. A jovem, que morava com a mãe e duas irmãs mais novas, contava com algum apoio de sua genitora e pôde continuar os estudos após o nascimento de Diego, seu primogênito. O pai do menino não a auxiliava nas tarefas de cuidado ou com dinheiro, e nem ao menos manifestava desejo de saber se o filho estava bem, o relacionamento dos dois durou apenas até o terceiro mês de gestação e a relação posterior nunca chegou a ser harmoniosa. No entanto, Vandinha pôde continuar os estudos após a mãe ter feito uma negociação com uma vizinha que mantinha um jardim de infância em sua casa. Desse modo, o pequeno Diego passava as manhãs na instituição e as tardes com Vandinha, quando esta retornava da escola. A permanência do bebê era permitida desde que a mãe respeitasse o combinado de horário, e nenhum valor era cobrado exceto alimentação e fraldas para que o menino se mantivesse limpo.

Além de permitir que os estudos da jovem continuassem e ela pudesse concluir o ensino secundário no liceu, o arranjo permitia ainda que o fenômeno da complementaridade geracional se desdobrasse plenamente. De forma mais clara: para continuar seus estudos, Vandinha precisava confiar seu bebê ao cuidado de outras mulheres (em dias que o dinheiro para o lanche ou as fraldas faltava, a criança era mandada para outro lugar, onde outra mulher próxima aguentava o menino). Nesse fluxo, ela recebia conselhos, ensinamentos, e até broncas de mulheres mais velhas que diziam como ela deveria segurar o bebê, como carregá-lo, com o que alimentá-lo, de que forma vesti-lo, como evitar que o corpo dele ficasse de um jeito ou de outro, enfim, a experiência de mulheres de gerações anteriores era transmitida para a mais nova. Cuidar do bebê é quase como continuar gestando por fora do corpo e outras mulheres assumem esse papel (Justino 2022). O bebê, por sua vez, representa para as mulheres uma nova dimensão do ser mulher, uma nova faceta da feminilidade cabo-verdiana, a da maternidade, um outro exercício de ser.

Como esperamos já estar explícito, aguentar uma criança aciona, com grande frequência, uma rede feminina que, solidariamente, mas não sem conflitos e tensões, opera nos processos de formação e constituição desses pequenos. O caso de Vandinha exemplifica bem como as performances de gênero se interrelacionam na composição dos cuidados. Se observamos a figura do pai da criança, este não se faz exceção ao que comumente tem sido observado quando se trata da performance masculina no papel de companheiro/pai. Tal como já sistematizado por diversas autoras (Åkesson, Carling e Drotbohm 2012; Lobo 2014; Rodrigues 2007; Laurent 2016; Challinor 2017; Massart 2013), em especial nas camadas mais populares, cabe às mulheres a centralidade dos cuidados com relação aos filhos, sendo os homens figuras “parciais”, para utilizarmos categoria usada por Rodrigues (2007: 132) ao recuperar a expressão de suas interlocutoras.8

Cabe salientar que a rede feminina que se forma em torno da criança não opera em uma relação de causalidade com a “parcialidade” da presença do homem/pai. Isso já foi bem argumentado por Lobo (2014) e por Rodrigues (2007) quando demonstram que a centralidade dos laços mães-filhos opera a despeito da presença ou ausência masculina. E, certamente, não opera em um “mar de rosas”. Lobo (2010), ao tratar das relações entre avós e mães, desfia toda a rede de negociações, acusações e tensões que operam neste cuidado coletivo e compartilhado que faz crescer as crianças e que está nas entrelinhas da história de Vandinha.

Aguentar e distinção entre as crianças

E se olharmos para o universo dos cuidados, ou do aguentar, a partir da perspectiva das crianças? Este foi o esforço realizado por Justino (2022) ao realizar uma etnografia em um jardim de infância na capital Praia. Os dados de tal pesquisa nos permitem observar algumas nuances que não podem ficar de fora de nossa discussão. As crianças também estão envolvidas nas tarefas de aguentar, e não apenas como objetos de cuidado, mas como sujeitos que executam tarefas e recebem responsabilidades no cotidiano.

Como já mencionado, o universo dos cuidados é feminino e suas atividades são exercidas por mães, irmãs, avós, vizinhas, etc. Na infância isso não é muito diferente, as meninas dominam os espaços e, quanto mais velhas ficam, mais responsabilidades adquirem dentro de casa, nas instituições de ensino e cuidado, ou mesmo na rua durante as brincadeiras. A distinção de gênero que opera na infância cabo-verdiana é bem clara: meninas ocupam os espaços domésticos, cuidam dos seus iguais, dos mais novos ou dos mais velhos, brincam nas proximidades da casa e estão sempre aptas para auxiliar as mulheres adultas no cuidado de bebês, ou no cuidado com a casa e o restante da família; os meninos, por outro lado, ocupam as ruas, distanciam-se de suas casas e circulam pelos bairros sozinhos ou em grupos, respondendo ao chamado dos adultos para realizar mandados, ou tarefas que demandem deslocamento, como ir até um comércio local comprar algum ingrediente que falta para o preparo de uma refeição, por exemplo.

Embora os meninos pequenos ocupem um espaço ambíguo nessa distinção de gênero por ficarem mais limitados à casa enquanto ainda não formaram seus grupos de amizade e ainda não foram apresentados às cercanias, eles ainda são mantidos afastados do cotidiano de cuidado. Nilton (3 anos), por exemplo, dizia que varrer o chão é tarefa de mulher. O menino, que era matriculado no Jardim Acalanto de Tia Maria, um jardim de infância que funcionava na casa da proprietária, Maria, no coração de um bairro periférico da capital cabo-verdiana, se recusava a ajudar em qualquer tarefa doméstica, pois não era uma mulher, como ele mesmo dizia. No entendimento dele, pegar em uma vassoura seria o equivalente a uma torção ontológica, uma inversão do sistema sexo-gênero, a ponto de ele apontar um dos autores como mulher e passar a tratá-lo desta forma a partir do momento que este se engaja nas tarefas de cuidado no Jardim Acalanto.

Nilton parece ser um caso extremo, mas outros meninos não ficam muito distantes dele. Quando perguntados o que faziam em suas casas, já que só mulheres cuidavam das tarefas domésticas, eles diziam, como se fosse óbvio: a gente brinca. Nesse contexto, brincar seria quase um sinônimo para não estar em casa, enquanto as meninas seguem o caminho oposto e mesmo suas brincadeiras são reflexo das práticas de cuidado.

Massart (2013), em interessante estudo sobre as conformações de masculinidade entre um grupo de homens na cidade da Praia, afirma que a inscrição do gênero nos corpos individuais é facilmente observada nos comportamentos diferenciados dos pais em relação com filhos homens ou mulheres. Lobo (2013) também vai apontar, para o caso da Ilha da Boa Vista, como desde cedo as mães fazem diferenciações de gênero nos afazeres domésticos, ficando os meninos mais responsáveis pelas tarefas na rua (os mandados) do que as moças, que ficam mais próximas às adultas nos cuidados com crianças menores, com alimentos e higiene da casa.

Nos momentos de lazer e interação no Jardim Acalanto, as meninas se juntavam em grupos e brincavam de casinha. As bonecas eram bebês a serem alimentados, vestidos e carregados nas costas amarrados com um pano à moda local. Na falta de bonecas, outras crianças faziam esse papel e é importante ressaltar que essa outra criança, que seria mimada e disputada entre as meninas, era quase sempre um menino. No cotidiano do Jardim havia outros momentos em que a brincadeira virava coisa séria. Na hora das refeições, por exemplo, as meninas eram convocadas para ajudar as adultas responsáveis servindo a comida e dando de comer para as crianças pequenas (principalmente para os meninos).

Nessas ocasiões, como em outras em que elas eram chamadas a ajudar, as meninas disputavam entre si as tarefas. Justino (2022) aventou a possibilidade de que exercer o cuidado no universo das meninas permite a elaboração de um sistema de prestígio interno a essa faixa etária. Ao disputar entre si, as meninas usam de diversos elementos: a escolha das adultas por uma ou outra menina, a quantidade de crianças menores que uma pode cuidar ao mesmo tempo, o sucesso em fazer um bebê comer uma tigela toda de sopa, ou o “fracasso” em realizar esse feito, entre outros. A combinação desses elementos cria também uma relação de proximidade com as adultas, que passam a confiar e delegar um maior número de tarefas àquelas que se saem melhor em sua realização.

Potencialmente, todas as meninas podem ser convidadas a ajudar as adultas e se engajar no cotidiano dos cuidados, mas algumas acabam se sobressaindo e se distanciando das companheiras de mesma idade que não são chamadas com frequência. No entanto, na ausência das primeiras, as do segundo grupo ocupam de bom grado esse espaço e realizam as tarefas com prazer, tendo a oportunidade de reverter seu quadro de prestígio perante as adultas.

Assim, meninos e meninas distanciam-se a partir da lógica dos cuidados, ocupando polos quase opostos em uma dicotomia sujeito-objeto da relação de cuidados. O aguentar se infiltra no campo das brincadeiras e é incorporado na noção que as meninas constroem de si, por um lado, e nos limites que os meninos estabelecem entre eles e as meninas, por outro. Por fim, é notável que mesmo nessa faixa etária em que os meninos ainda estão desocupando o espaço ambíguo entre os campos feminino e masculino do cotidiano, o sujeito da frase “eu cuido” quase nunca é masculino. Isso quer dizer que os meninos não ajudem nos cuidados cotidianos? Não necessariamente, mas certamente quer dizer que a iniciativa não parte deles.

Aguentar como conjugalidade e aliança

Se, como vimos observando, o aguentar cria, atualiza, fortalece e mantém relacionalidades intergeracionais, interligando adultas e crianças nos dois sentidos da relação, na perspectiva feminina aguentar também tem relação com seus universos de conjugalidade, ou seja, nas relações entre elas e seus companheiros, maridos ou pais de filhos. Quando este é o cenário, aguentar adquire o aspecto de suportar um peso, dificuldades ou um destino.

“Aguentar a carga” é a expressão usada por muitas mulheres para se referir a relações conjugais difíceis, seja em seus aspectos financeiros, afetivos ou mesmo violentos. Tal expressão também é permeada de sentidos. Pode ser usada com o intuito de uma autovalorização de trajetória, ou seja, quando uma mulher ressalta que aguentou e superou as dificuldades de uma trajetória conjugal que, no presente, é avaliada positivamente graças à sua própria tenacidade. Mas aguentar a carga também pode ser um lamento, sinal de um destino, uma sina da mulher que teria que aguentar situações de sofrimento ou violências associadas ao masculino nesse cenário. Em ambos os sentidos dessa dimensão de suportar as dificuldades, observa-se uma moralidade que se vincula às construções de masculino e feminino que associa mais fortemente o aguentar a um sentido de sacrifício ao universo delas.

Isa, uma das filhas de Nha Bia que vive na cidade da Praia trabalhando como comerciante, se ancora na noção de “ter que aguentar a sua carga” nas diversas vezes que se refere às suas relações conjugais. Isa tem três pais de filhos e, ao conectar suas experiências afetivas com diferentes homens, menciona a sina da mulher cabo-verdiana face às relações conjugais com homens que tenderiam a não assumir as responsabilidades perante a companheira, a casa e os filhos. Em contrapartida, caberia à mulher aguentar não só tais relações que com frequência desembocam em conflitos e violência física (foi esse o caso em seu segundo relacionamento), mas também ter tenacidade no sentido de insistir, ajudar e trabalhar para que tal homem venha a cumprir o que elas esperam dele (seja com um mesmo homem, seja em um novo relacionamento). Por fim, enquanto este dia ou este homem não chega, caberia também a ela aguentar a família, os filhos e as responsabilidades (Fortes 2015).

Adentrar no universo das conjugalidades em Cabo Verde exige uma pausa que contextualize práticas e significados dos relacionamentos afetivos entre homens e mulheres. Diversos estudos que abordam a questão familiar nesta sociedade (Carreira 1977; Lobo 2017, 2014, 2022; Fortes 2013, 2015; Silva 2013; Laurent 2016; Anjos e Furtado 2016; Carvalho 2016; Rodrigues 2007; Challinor 2011, 2017) apontam as seguintes dinâmicas de gênero:9 de um lado, temos o homem que por vezes tem um comportamento autoritário (e por vezes violento), frequentemente se relaciona com outras mulheres, vive um distanciamento com relação aos filhos e um pertencimento errático ao universo doméstico. Por outro, temos a mulher que aguenta (suporta) e o faz por diversas razões que são associadas ao seu papel moral: aguenta pelos filhos, porque espera que este homem melhore, aguenta por sua honra, afinal, como nos revelou Nha Bia certa vez e com algum orgulho, “tenho 11 filhos e são todos de um homem só”. Ao fim e ao cabo, ela sinalizava que aguentar valeu a pena, pois os filhos foram criados e ela sempre teve seu lugar de respeito na comunidade, fato aqui já destacado por nós.10

Ao trazermos o exemplo de mãe e filha, observamos continuidades no que elas definem como “sina da mulher”, mas vivenciadas de formas distintas. Nha Bia, ao se referir aos diferentes pais dos filhos de Isa, diz que “as moças de hoje não aturam desaforos como nós aturávamos”. Tal expressão carrega um sentido de elogio a uma nova geração de mulheres que impõe aos homens uma resistência, tal como observado pelos interlocutores de Massart (2013) ao se referirem ao comportamento rebelde das mulheres mais jovens. Mas a frase também expressa uma crítica moral a um comportamento associado a moças jovens que subverte o prestígio que “aguentar o fardo” conjugal confere a mulheres como Nha Bia.

Challinor (2017), ao refletir sobre as relações de gênero no âmbito da vida familiar em Cabo Verde, nos remete a três categorias que nos ajudam a pensar sobre o valor do aguentar em relações conjugais. Ao inserir tais relações no contexto do catolicismo implementado durante o regime colonial nas ilhas argumenta sobre como a relação entre silêncio, sacrifício e prestígio é importante para pensar as relações familiares nesse contexto. Indo além, a autora elabora como tal relação entre esses fatores é vivida de formas absolutamente distintas, mas complementares, entre homens e mulheres. Em diálogo com o trabalho de Massart (2013) percebemos como o prestígio masculino - associado à sexualidade livre, distanciamento do universo doméstico - guarda íntima dependência com a manutenção do prestígio feminino associado a uma moralidade que se impõe sobre os corpos femininos e à sua honra que se vincula intimamente à noção de aguentar que estamos aqui analisando.

Tal como ressaltado por Challinor (2017), destaca-se dessa moralidade a forte influência cristã que está entremeada na história do arquipélago. Segundo dados preliminares do censo de 2021 (INE-CV 2021), quase 90% da população se autodeclara pertencente a alguma vertente cristã (católica ou protestante). No dia a dia vemos esses dados materializados nas festas religiosas, nos domingos de igreja cheia, nos projetos sociais levados a cabo por grupos religiosos, entre outros. A moralidade cristã se pauta no sacrifício como forma de cuidado e expressão maior do amor por si e pelo próximo. De sua perspectiva, uma vida de luta é tolerável tendo em vista um pós-vida paradisíaco, conquistado a duras penas. De certo modo, é esse o espírito que anima parcialmente o jogo de cuidados que se desdobra no cotidiano. Parcialmente, pois a outra noção que pode ser trazida para a reflexão é a de projeto. Como afirmamos, cuidar é fazer pessoas e, nessa intensa relação, identidades se constroem mutuamente. No entanto, cuidar também é trilhar um caminho onde o objetivo final seja ter companhia na vida, ter uma retribuição do trabalho investido, ter uma vida plena e poder contar com as pessoas próximas quando as necessidades da velhice chegarem. Seja como fardo, como zelo ou como prazer, aguentar faz relações.

Aguentar como fazer família nas mobilidades

E isso nos remete ao último ponto, que é a associação entre aguentar, cuidado e o universo feminino no “fazer família a distância” na sociedade cabo-verdiana (Lobo 2014). Temos razões para deixar essa importante dimensão da vida social em Cabo Verde para o final. Se, por um lado, as mobilidades migratórias atravessam todos os aspectos aqui já explorados e redimensionam as práticas de cuidado expressas pela categoria aguentar, por outro lado, entendemos que os fluxos transnacionais tal como se caracterizam em Cabo Verde são conformados pelas dinâmicas familiares estruturadas pelo idioma do cuidado feminino, e não o contrário (Åkesson 2004; Lobo 2014; Laurent 2016; Defreyne 2017; Åkesson, Carling e Drotbohm 2012; Grassi e Évora 2007; Drotbohm 2009).

Se esse argumento é válido para tratar da emigração em Cabo Verde de forma mais geral, quando nos perguntamos sobre como as relações se reconfiguram quando quem emigra é a mulher, essa inter-relação entre o universo familiar e as dinâmicas migratórias fica ainda mais evidente. Portanto, vamos nos dedicar aqui aos contextos de emigração feminina, um tipo de mobilidade que tanto se assenta quanto aprofunda as redes de cuidado das quais estamos falando até agora. Como muitas pesquisas sobre as diásporas vêm argumentando para o caso da emigração feminina, mulheres que emigram e mulheres que ficam se entrelaçam em uma complexa rede de apoio que faz pessoas, coisas, valores e recursos circularem, reproduzindo e fazendo família em situações de distância.

Salientamos no primeiro item deste artigo que as maternidades não são vivenciadas individualmente, mas se conformam em redes tecidas por um conjunto de mulheres, que ao aguentarem suas crianças aguentam-se mutuamente. A nosso ver, é exatamente o acesso a esse repertório, a essa estrutura que permite que mães que emigram recorram às suas redes para se adaptar às experiências de serem mães em um campo social que articula as diversas mães e crianças em nexos complexos.

Como bem salienta Lobo (2010, 2014), a tríade mãe-filho-cuidadora é central para que o vínculo diádico entre mãe e filho permaneça vivo e intenso. Sendo que não é necessariamente a distância física, mas o rompimento dos fluxos o fator que pode esgarçar os laços, pois é nessa quebra que reside o sentimento de abandono, e não necessariamente na situação de distância física prolongada (ver também Rodrigues 2007; Åkesson 2004; Laurent 2018). O argumento da autora é que, na perspectiva dos filhos, sentir-se abandonado não está diretamente ligado à partida da mãe ou à distância em si, mas à incapacidade de esta em manter os laços entre os três elementos - mãe-cuidadora-filho.11

Este é um debate tão interessante que seria importante conectar estas reflexões sobre o caso específico de Cabo Verde com uma literatura que tem se dedicado a compreender contextos similares: mulheres que emigram de países pobres para países ricos, trabalham como empregadas domésticas (ou profissionais do sexo, ou cuidadoras, etc.), deixando os filhos e companheiros/maridos em suas sociedades de origem.

Neste cenário, as pesquisas sobre as ditas famílias transnacionais e as teorias sobre o cuidado transnacional, circulação de afeto, copresença ganham volume como alternativas analíticas nos últimos anos (ver Baldassar, Wilding e Baldock 2006; Baldassar 2008, 2016; Lyon 2006; Hochschild 1983; Bryceson e Vuorela 2002). Os autores desta perspectiva encadeiam de forma direta o aumento das migrações nas últimas décadas com o surgimento das famílias transnacionais e a necessidade destes emigrantes de cuidarem dos que ficaram.12

De acordo com Baldassar, Wilding e Baldock (2006), os estudos sobre o care-giving supõem que o ato de cuidar requer proximidade, negando a possibilidade do cuidado a distância, sendo a proximidade geográfica um pressuposto para a construção e manutenção de laços familiares. Para ultrapassar e se contrapor a esta perspectiva, os autores se voltam para os estudos das migrações transnacionais que focam na conexão entre os lugares de origem e de destino e desafiam a tradicional noção de que a migração termina com a fixação ou a integração do migrante no novo lugar (Basch, Schiller e Blanc-Szanton 1992). Na perspectiva transnacional, a migração seria percebida como um processo de complexas interações entre indivíduos a distância, e seria este viés analítico que permitiria olhar para as relações familiares como campos sociais em que a distância geográfica não impede as práticas de cuidado (Baldassar, Wilding e Baldock 2006; Lyon 2006; Baldassar 2008, 2016; Åkesson 2004).

Para estes autores, as novas tecnologias são percebidas como ferramentas poderosas que viabilizam e têm influenciado a troca de cuidado transnacional e a construção da copresença. Assim, a democratização das chamadas telefônicas, da Internet e dos smartphones que permitem que as pessoas se comuniquem online por envio de mensagens SMS, Whatsapp, Facebook, Viber, Messenger, etc., estaria intimamente ligada à possibilidade de criação e manutenção de práticas cotidianas de cuidado entre familiares que compõem redes transnacionais por onde circulam pessoas, coisas e afetos.

Nossos dados reiteram a possibilidade de o cuidado ser exercido a distância, como mostra o caso de Neuza e seu neto Daniel (4 anos). Neuza morava em Portugal há muitos anos, onde conseguira um bom trabalho, mas ia com frequência para Cabo Verde, geralmente em seu período de férias. Quando nas ilhas, Neuza ficava na casa da filha e era vista passeando pelo bairro com Daniel, levando-o para vários passeios tanto na cidade quanto em outros pontos da Ilha de Santiago no carro que ela deixava guardado na casa da filha e que só podia ser utilizado por ela nesses momentos de visita. Apesar da distância, era Neuza quem pagava pela creche de Daniel e a maioria das roupas e brinquedos que o menino tinha eram presentes da avó. Os passeios, além de uma forma de passar o tempo com o neto, serviam também para que a mulher se atualizasse sobre quem estava à volta dele. Nesses passeios ela se mostrava ciente das fofocas mais recentes e conversava com amigas para entender os fatos que chegavam até ela em Portugal. Nesse jogo de distância e proximidade, Neuza se mantinha presente no cotidiano do neto e auxiliava como podia a filha, que criava o menino praticamente sozinha enquanto terminava o curso superior na Universidade de Cabo Verde. O que tal caso demonstra é como o cuidado assume outras faces, como a transferência de valores e a circulação de informações por uma extensa rede internacional, por exemplo.

E como conflitos são fatos sociais que nos constituem, tais relações estão sujeitas a rupturas, negociações e constrangimentos que também configuram tais redes de aguentar a distância. As categorias sacrifício e abandono são as que melhor traduzem as tensões que envolvem os projetos de exercer o cuidado em redes transnacionais. O exemplo de Lena, uma jovem de 18 anos, que foi criada pela avó e pela tia, quando da migração de sua mãe para a França, nos apresenta uma das facetas dos riscos, dramas e conflitos que acompanham as mães nesse difícil equilíbrio de sair pelos filhos em um ato de superação e viver no fio da navalha, entre o sacrifício e o abandono.

A complicada relação entre Valda, Lena e os demais membros da família eclode quando Lena, ao terminar a escola secundária, consegue uma vaga para estudar em uma universidade no Brasil, entretanto, sem bolsa de estudos. Acompanhamos o drama da moça que ganha palavras na voz de sua tia, Isadora:

“Valda não teve trabalho nenhum com sua filha, deixou Lena aqui e foi embora esquecendo que tinha filho. Agora que Lena precisa, ela diz que não pode aguentar a filha. Que mãe que Valda é? E ainda abre a boca para dizer que foi ela que se sacrificou pelas filhas. Ela aguentou quem? Valda foi embora para a França, ganha um monte de dinheiro e não manda nada para a filha. Foi-se embora e esqueceu que tinha filho.” [Isadora, Ilha da Boa Vista, 2004]

Em conversas com Lena sobre a situação, em tom de mágoa e tristeza, ela lamenta o fato de sentir que a mãe a abandonou. Ela expressa que nunca havia sentido assim, pois apesar de a mãe não a apoiar financeiramente como as mães de suas amigas, ela sempre dava notícias, sempre telefonava e os avós nunca deixaram faltar nada, apesar das dificuldades de sempre. Em suas palavras:

“O que me deixa muito triste é que nunca pedi nada a ela, eu sempre entendi que ela teve a chance de ir, que vivia sua vida lá, que eu sei que não é fácil também… É um sacrifício viver na terra de gente (emigração). Mas agora, quando telefonei a ela feliz para contar que consegui ir para a universidade, ela disse que não tinha como me aguentar Brasil… aí eu vi que esse sacrifício não foi por mim… Foi por ela mesma… É triste!” [Lena]

Devemos complementar o relato informando que Lena não chegou a ir estudar no Brasil. Anos depois, em conversa com Valda quando de férias na cidade da Praia, ela conta sua versão dos fatos ressaltando a falta de emprego e as dificuldades de viver na Europa. Sobre os conflitos com a filha, ela culpa sua irmã, Isadora, por não ter feito seu papel de explicar à Lena as dificuldades de uma vida em outro país. A perspectiva de Valda nos permite refletir sobre os dilemas enfrentados por essas mulheres e o receio, expresso por muitas delas, de “perder a amizade de seus filhos”, perder o seu amor e não ter seu sacrifício reconhecido. Chamamos a atenção para como o aguentar aqui, quando na negativa, tem tanta força disruptiva quanto quando constrói as relações. Bongianino (2012) bem relata o drama de mulheres na Itália que, além de terem que lidar com a dor das saudades, têm que gerir à distância as vidas de seus filhos, as preocupações da maternidade e o risco iminente de não fazerem o suficiente para que sejam reconhecidas como “boas mães”, ou seja, aquelas que aguentam.

Este é o terreno escorregadio que a distância acrescenta nesse universo feminino constantemente avaliado pela capacidade de aguentar. Conforme ressaltam os autores aqui citados, estamos de acordo que os cuidados a distância permeiam a vida das famílias que se encontram em circulação. Entre elas circulam pessoas, dinheiro, objetos, presentes, informações e afeto em diversas vias. Para o caso de Cabo Verde não é diferente, a circulação de pessoas, objetos, presentes e dinheiro entre as ilhas e a diáspora tem importância fundamental no “fazer família” (Lobo 2014). Conforme afirma Laurent (2018) em seu trabalho sobre as famílias a distância de Cabo Verde, a circulação de cuidado neste contexto migratório é uma evidência e, portanto, uma faceta importante para a compreensão das dinâmicas familiares a distância. Nesse sentido, tanto a mulher que emigra quanto a que fica (Veiga 2013) são atores centrais, pois são elas que sustentam, ou aguentam, as imbricadas teias de cuidado que mantêm os sentidos de pertencimento que “fazem família”.

Considerações finais

Ao observar as dimensões aqui apresentadas, o que queremos chamar a atenção é para a complexidade da rede de cuidados em diferentes camadas da sociedade cabo-verdiana. Por meio de um entendimento mais aprofundado da categoria “aguentar”, argumentamos ser possível entrelaçar tais dimensões e compreender o aguentar como um “ato de cuidado” que assume sentidos múltiplos e complexos. É um ato de amor através do qual se desenvolvem e imaginam relacionamentos familiares e sociais e com os quais, sobretudo as mulheres, procuram contribuir para a criação de sujeitos desejados. Isso vale tanto no caso de aguentar como filiação quanto como conjugalidade, uma vez que o ato de aguentar tem como foco o outro, sendo pensado em função de um relacionamento entre ela e um outro indivíduo particular - filho, marido, pai ou mãe. Há certamente uma valorização positiva desse aguentar. Mas, como já dito, é também suportar uma carga, um peso - estando associado, portanto, a uma dimensão de sacrifício que, se aparece explicitamente quando se refere à conjugalidade, também é gramatical para os universos de filiação. A fluidez da noção de aguentar parece bem simbolizar o terreno escorregadio no qual caminham as mulheres que, ao cuidar de outros devem cuidar de suas redes e da manutenção de camadas do aguentar que, se ou quando falham, podem colocar não só sua face em risco, mas suas relações. Nha Bia traduz bem esse lugar do feminino, nem de mártir nem de vítima (Rodrigues 2007), quando em um final de tarde de um dia complicado desabafa: “A vida da mulher é uma vida cansada, a gente tem que aguentar tudo, e quem aguenta a gente?”.

Nosso investimento em pensar o cuidado a partir das noções e usos locais do aguentar vem de nosso encantamento com o poder que tal expressão tem de diluir algumas dualidades que a categoria de cuidado pressupõe, e aí finalizamos voltando à nossa conversa inicial sobre tradução e a possibilidade de essa categoria êmica mudar nossa caixa de ferramentas conceitual. Esperamos ter convencido o/a leitor/a que esse é o caso do par êmico e ético, aguentar e cuidado. Se trazemos os sentidos de aguentar para nosso conceito de cuidar poderemos repensá-lo em ao menos quatro aspectos: (1) o cuidado não é unidirecional; (2) ele nem sempre acontece face a um outro, mas pode ser um cuidar de si no sentido de aprimorar-se; (3) é coletivo, pois opera em redes que também devem ser objeto de cuidado; e (4) é tanto amor quanto sacrifício.

Enfatizamos esse último aspecto porque ambos, amor e sacrifício, compõem e constituem as dimensões morais do cuidado no mundo e na vida dessas mulheres. Nesse sentido, o termo “aguentar” nos permite compreender o cuidado como uma expressão que sintetiza amor e sacrifício sem opor tais sentimentos, mas um constituindo o outro. Como nos lembra Carsten (2014), as dinâmicas familiares, se observadas processualmente, são compostas por espessamentos e diluições, tanto por afetos quanto por conflitos, por amores e sacrifícios. Aguentar parece muito bem sintetizar essa esteira de relações tecida por muitas mulheres.

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1Agradecemos as leituras e sugestões de editores/as e pareceristas. O diálogo nos permitiu aprimorar o texto de forma considerável. Agradecemos também à Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal pelo apoio financeiro às nossas pesquisas e a essa publicação.

2Andréa Lobo realiza pesquisa sobre dinâmicas familiares há mais de duas décadas em Cabo Verde. Com pesquisas realizadas nas ilhas de Boa Vista e Santiago, a autora reúne grande volume de dados em forma de entrevistas, conversas, convivência no cotidiano das casas e universo de trabalho com mais de 70 mulheres e seus familiares. Deste universo mais amplo, a pesquisadora acompanha o ciclo de desenvolvimento doméstico de cerca de dez famílias com quem convive nessas décadas de pesquisa. As reflexões aqui apresentadas se somam aos dados de André Justino, que realiza pesquisa em Cabo Verde desde 2014, e nos últimos seis anos tem se debruçado sobre as dinâmicas de cuidado e as experiências de infância no arquipélago, seguindo nessa pesquisa até a atualidade.

3Crioulo é a língua corrente no arquipélago de Cabo Verde, denominada pelos cabo-verdianos de sua língua materna. O português é língua oficial utilizada em toda a documentação administrativa e ensinada nas escolas. Guardadas as variações do crioulo entre as ilhas, a categoria “aguentar” é amplamente utilizada com os significados que nos propomos aqui a explorar. Como salientado por Carter e Aulette (2009), a língua crioula é uma excelente porta de entrada para compreender as dinâmicas familiares e de gênero, uma vez que os usos da língua não só variam, mas são expressões vivas das posições culturais.

4Nha Bia foi interlocutora de pesquisa de Andréa Lobo desde o início de suas pesquisas sobre dinâmicas familiares na Ilha da Boa Vista (Lobo 2014). Mãe de muitos filhos e avó de algumas dezenas de netos, bisnetos e crianças da vizinhança, sua história de vida é marcada por agregar em sua unidade doméstica uma riqueza de que muito se orgulhava: pessoas. Nha Bia faleceu em 2018. Como expressão de sua importância na vida comunitária da ilha e sua diáspora, sua partida foi marcada por grandiosos rituais que expressavam gratidão de todos que por ela foram acolhidos. O presente artigo não deixa de ser uma forma de se somar aos que a ela agradecem por ter aguentado tantos de nós.

5Cabe ressaltar que estamos falando de contextos variados: famílias que se constituem na diáspora, agregados espalhados em diversas localidades (nacionais ou internacionais), redes de amizade e solidariedade ancoradas nas trocas de bens e valores e no fluxo de pessoas entre as casas, relações fundadas no compartilhamento do cuidado com as crianças, entre outras.

6Essa forma do cuidado feminino em rede foi objeto de atenção de autoras como Challinor (2011), Rodrigues (2007) e Lobo (2014) quando argumentam pela centralidade dos laços mãe-filhos entendendo a maternidade como um processo que é multidirecional e extensivo a mulheres que podem mesmo exercer a maternidade antes de serem mães biologicamente. O que Challinor (2011) denomina de maternidade extensiva seria, portanto, fonte de empoderamento.

7 Challinor (2017) apresenta uma interessante sistematização dos dados estatísticos sobre meninas que se tornam mães demonstrando que há diferenças importantes entre os contextos rural e urbano. Como a autora traz dados do censo de 2005 e nós temos os dados de 2018, podemos afirmar que, de forma geral, há uma pertinência e continuidade da realidade esboçada pela autora nesse intervalo de tempo.

8As relações de conjugalidade no contexto dos cuidados serão devidamente abordadas à frente, no terceiro item desta secção.

9Como já expresso aqui, pensar sobre dinâmicas familiares em Cabo Verde nos remete a uma fórmula que nos permite associar a filiação a laços fortes, duradouros e indissolúveis, especialmente quando o elo é entre mães e filhos; e a afinidade ou conjugalidade a um terreno escorregadio, de laços tênues e que se dissolvem com alguma facilidade. Certamente por detrás de tal fórmula encontramos um universo amplo de negociações, possibilidades, aproximações e distanciamentos, uma vez que dinâmicas familiares produzem arranjos diversos não só entre sociedades, no tempo e no espaço, mas em um mesmo universo social. Dar conta desse cenário complexo tem sido objetivo de nossas pesquisas no arquipélago, as quais têm o intuito mais amplo de sublinhar que, quando tratamos do contexto familiar cabo-verdiano (e não só), faz-se imperativo falar de famílias no plural.

10Nossos trabalhos têm apontado que esse quadro geral deve ser descrito e analisado em sua complexidade, pois esses “tipos sociais” são mais fluidos do que tais modelos comportam. Isabel Fêo Rodrigues (2007), por exemplo, tem interessantes reflexões que questionam o patriarcado como uma leitura possível para as relações de gênero em Cabo Verde.

11A noção de “othermothers” (Stack 1974; Collins 1990; Bloch 2017), que coloca a ênfase no papel central do parentesco e suas redes, parece ser bastante útil para pensar as dinâmicas que são objeto do presente artigo. No mesmo sentido, Challinor (2017) vai tratar do que denomina de maternidade extensiva.

12Para o contexto cabo-verdiano, a sistematização dos dados e da literatura feita por Lisa Åkesson, Jorgen Carling e Heike Drotbohm no artigo “Mobility, moralities and motherhood: navigating the contingencies of Cape Verdean lives” (2012) é um excelente atalho para quem deseja conhecer como a temática tem sido abordada no arquipélago.

Recebido: 15 de Maio de 2023; Revisado: 18 de Outubro de 2024; Aceito: 05 de Novembro de 2024

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