Introdução
Os estudantes do ensino superior ao ingressarem num curso são confrontados com a necessidade de adaptação a uma nova realidade, que pode interferir com a sua saúde mental. Esta nova experiência pode conduzir a um estado de maior vulnerabilidade, o que consequentemente pode levar a aumento de sofrimento psicológico e assim conduzir a uma baixa performance (Ferreira et al., 2023; Romeira et al., 2021) e resultados académicos insatisfatórios, culminando em abandono escolar (Sun & Lyu, 2022).
Quando se fala em estudantes de cursos superiores de saúde este fenómeno é intensificado, uma vez que desde cedo, estes realizam ensinos clínicos em contextos de prática, no cuidado ao outro, sendo estes ambientes emocionalmente desafiantes, pelo confronto com o sofrimento humano e a morte de uma forma regular. A acrescer que, no momento que adquirirem o estatuto de profissionais, é esperado pela sociedade que sejam capazes de estabelecer relações interpessoais eficazes com a equipa, utentes e famílias, e como tal têm de conseguir gerir emoções de forma eficaz, inerentes a estas interações, dando respostas eficientes em períodos curtos, de tempo. Assim, durante a formação graduada, estes devem desenvolver competências específicas que os empoderem nesta área. Sabe-se que os profissionais de saúde [outrora estudantes] que apresentam uma melhor compreensão das próprias emoções e das dos outros, têm melhores níveis de humanização, satisfação e segurança na prestação de cuidados (Machado et al., 2021).
Neste estudo pretende-se avaliar os níveis de IEP em estudantes do ensino superior da área da saúde, numa instituição da região centro de Portugal.
Enquadramento
O desenvolvimento das competências emocionais tem adquirido nos últimos anos um maior interesse pelos investigadores, foi com Goleman que emergiu o conceito de inteligência emocional (IE) como basilar nos processos de gestão emocional. Este conceito corresponde ao nível de interpretação dos indivíduos, no que diz respeito à compreensão e gestão do seu estado emocional, incluindo também a capacidade de apreciar o estado emocional dos outros (Lampreia-Raposo et al., 2023). Apresenta-se, ainda, categorizado em quatro domínios: autoconsciência, autogestão, consciência social e gestão social, que se retroalimentam, não sendo possível deter competências sociais sem empatia ou autogestão sem autoconsciência (Chung et al., 2023). Desta forma, os estudos sobre IE tornam-se relevantes, pois sabe-se que existe associação entre elevados níveis de IE, e presença de competências pessoais eficazes para ultrapassar obstáculos durante a vida académica (Alvi et al., 2023; Hwang & Kim, 2023; Sousa et al., 2022) e posteriormente nos desafios que a profissão irá impor (Rodríguez-Leal et al., 2023; Vidal Barrantes, 2023). Sabe-se ainda, que níveis elevados de IE podem ser agentes protetores face à ansiedade, depressão e stresse (Dasor et al., 2023) e que interferem com a capacidade de adaptação e desempenho académico dos estudantes do ensino superior (Somaa et al., 2021; Idrogo Zamora, & Asenjo-Alarcón, 2021). A IE quando integrada nos processos de aprendizagem, vai permitir que os estudantes sejam capazes de ultrapassar adversidades, adaptando-se a mudanças eminentes e a resolverem situações de incerteza e desafio pessoal (Telaska & Minho, 2022). Assim, de forma a desenvolver a IE têm sido promovidos programas de apoio psicológico com estudantes de ensino superior, e que contribuem positivamente para o desenvolvimento da autoconfiança, bem-estar psicológico e melhores níveis de IEP (Campos et al., 2023). Estes programas trabalham a aceitação e validação das emoções, sendo determinantes para que haja relações sociais positivas entre todos os elementos da academia, e inclusive o sucesso académico (Almegewly et al., 2022; Campos et al., 2023).
Assim, é fundamental que os estudantes sejam capazes de desenvolver a sua IEP, que é a habilidade que cada um tem para compreender, clarificar e regular as suas emoções (Salovey et al., 1995 Fernandez-Berrocal et al., 2004), em especial os estudantes que frequentam cursos superiores de saúde, pelos desafios que irão enfrentar ao cuidar do outro e na necessidade de se autorregularem emocionalmente.
Questão de investigação
Quais os níveis de IEP em estudantes de cursos superiores de saúde, numa instituição de ensino superior da região centro de Portugal?
Metodologia
Trata-se de um estudo quantitativo do tipo descritivo desenvolvido numa instituição de ensino superior da região Centro de Portugal. Recorreu-se a uma amostra não probabilística por conveniência constituída com 94 estudantes dos cursos de licenciatura e de mestrado em enfermagem, fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional (TO), e dietética e nutrição (DN). Por se ter obtido uma taxa de respostas baixa entre os estudantes de cursos de TO (n = 3) e de DN (n = 2) foi realizado o agrupamento dos dados, nestes dois cursos. Foi aplicado um questionário eletrónico, elaborado pelas autoras na plataforma Google Forms®, sendo composto por duas partes. A primeira parte foi constituída por dados sociodemográficos e a segunda parte por 24 perguntas da Escala Trait Meta-Mood Scale-24 (TMMS-24; Queirós et al., 2005). Esta escala traduz-se pela medida da IEP, definida como a habilidade individual para entender, clarificar e regular emoções, permitindo-nos medir se os estudantes estão em maior ou menor risco de transição ou manutenção, podendo desta forma, melhorar o desempenho dos mesmos e contribuir para o seu sucesso (Sousa, 2019). Composta por 24 itens que podem ser agrupados em três fatores de oito itens cada. Os três fatores que a compõem são: Atenção às emoções, Clareza de sentimentos e Reparação do estado emocional. Cada item é pontuado de 1 a 5 sendo que 1 significa discordo totalmente, 2 discordo em parte, 3 nem concordo nem discordo, 4 concordo em parte e 5 concordo plenamente (Queirós, 2021). A Atenção permite afirmar que o estudante é capaz de sentir e expressar os sentimentos de forma adequada, ou seja, é o nível que as pessoas pensam que têm de atenção relativamente aos seus sentimentos. A Clareza permite afirmar que existe uma boa compreensão dos estados emocionais, ou seja, como as pessoas pensam que percebem e entendem as suas próprias emoções. Por fim, a Reparação permite afirmar que se é capaz de regular os estados emocionais corretamente, ou seja, a capacidade que a pessoa pensa que tem em quebrar os estados emocionais negativos e aumentar os positivos (Queirós et al., 2005).
Esta escala foi validada com estudantes do ensino superior em Portugal, tendo sido obtido um valor de alfa de Cronbach total da escala e dos três fatores superior a 0,80. Os valores de ( para cada fator foram os seguintes: atenção com ( = 0,87, clareza com ( = 0,89 e o fator reparação com um ( = 0,80 (Sousa, 2019). No presente estudo, para a consistência interna da escala obteve-se um valor total para os três fatores de ( = 0,921. Os valores encontrados de ( para cada fator foram os seguintes: fator atenção com ( = 0,890, fator clareza com ( = 0,902 e fator reparação com ( = 0,906. Uma vez que os valores se encontram entre 0,70 e 0,90 considera-se, assim, uma boa consistência interna (Dixe, 2022).
Os dados foram tratados no programa estatístico IBM SPSS Statistics, versão 28.0, de 2021. Recorreu-se a estatística descritiva (médias, medianas, valores absolutos e relativos, desvio-padrão), e a estatística inferencial. Assumiu-se através do teorema do limite central a normalidade das variáveis, uma vez que existia uma amostra de 94 estudantes, sendo, portanto, superior a 30. Para a homogeneidade das variâncias utilizámos o teste de Levene. O teste t-Student foi utilizado para estudar a diferença entre duas variáveis independentes e o teste ANOVA para verificar diferenças entre três ou mais variáveis independentes.
Este estudo obteve parecer favorável pela Comissão de Ética da instituição onde foi realizado o trabalho com o número CE/IPLEIRIA/06/2023. Foi respeitado o direito pela propriedade intelectual, através do pedido formal à autora que validou a escala para a população portuguesa. Foi também obtido o consentimento informado de cada estudante que decidiu voluntariamente participar no estudo, validando assim o seu consentimento, através de uma questão prévia ao preenchimento do instrumento de colheita de dados. Na redação deste artigo foram respeitadas as regras da STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology (STROBE) statement-checklist.
Resultados
Foram analisadas 94 respostas de estudantes de uma instituição de ensino superior da região centro de Portugal (Tabela 1). A idade mínima dos indivíduos da amostra foi de 18 anos e a máxima foi de 55 anos (M = 25 ± 8,848). Todos os estudantes (100%) eram portugueses, sendo que a maioria pertencia à área geográfica do centro (77,7%). 20,2% da totalidade da amostra detinha estatuto trabalhador-estudante. Quando analisado o ciclo de estudos a que pertenciam, verificou-se que 84% eram de licenciatura e 16% de mestrado. Das áreas de estudo oferecidas pela instituição, não se obteve nenhuma resposta de estudantes de fisioterapia e de terapia da fala.
Tabela 1 : Dados sociodemográficos dos estudantes da amostra
Variáveis | Mín. | Máx. | M | DP | n | % |
Idade ≤ 19 anos 20 a 25 anos ≥ 26 anos | 18 | 55 | 25,14 | 8,848 | 94 17 55 22 | 100 18,1 58,5 23,4 |
Sexo Feminino Masculino | 88 6 | 93,6 6,4 | ||||
Nacionalidade Portuguesa | 94 | 100 | ||||
Área Geográfica Norte Centro Lisboa e Vale do Tejo Algarve Açores | 5 73 13 1 2 | 5,3 77,7 13,8 1,1 2,1 | ||||
Trabalhador-estudante Sim Não | 19 75 | 20,2 79,8 | ||||
Ciclo de estudos Licenciatura Mestrado | 79 15 | 84,0 16,0 | ||||
Área de curso Enfermagem TO/ DN Cuidados Paliativos | 82 5 7 | 87,2 5,4 7,4 |
Nota. Min. = Mínimo; Max. = Máximo; M = Média; DP = Desvio-padrão; n = Tamanho da amostra; % = Percentagem; TO = Terapia ocupacional; DN = Dietética e nutrição.
A análise descritiva dos fatores da Escala Trait Meta-Mood Scale-24 (TMMS-24) estão representados na Tabela 2. Nesta, podemos verificar que o valor médio no fator Atenção é superior aos valores encontrados para os outros fatores da escala (M = 31,16 ± 6,25). De ressalvar que o valor máximo por fator é 40 e o mínimo 8.
Na escala total o valor máximo possível de resposta é 120 e o mínimo é de 24, sendo que a percentagem do valor médio de IEP encontrado na amostra (M = 85,90) corresponde a 71,58% (Tabela 2).
Tabela 2 : Dados descritivos dos fatores da Escala TMMS-24
Variáveis | n | Mín. | Máx. | M | DP | |
---|---|---|---|---|---|---|
Fatores | Atenção Clareza Reparação Escala Total | 94 94 94 94 | 9 10 8 28 | 40 40 40 115 | 31,16 26,67 28,07 85,90 | 6,25 6,78 6,36 15,09 |
Nota. n = Tamanho da amostra; Mín. = Mínimo; Máx. = Máximo; M = Média; DP = Desvio-padrão.
Perante a informação presente na Tabela 3, podemos observar que, no fator Atenção, que diz respeito à forma como o estudante é capaz de sentir e expressar os sentimentos de forma adequada, os valores médios mais elevados foram obtidos nos estudantes do sexo feminino. Assim como os estudantes com mais idade em todos os fatores e na escala total. De salientar que foram os estudantes que frequentavam o ciclo de estudos de mestrado que apresentaram também maior valor no fator Atenção (M = 32,00 ± 4,00). Nos fatores Clareza, que diz respeito à compreensão dos estados emocionais, e Reparação, que é à capacidade de regular os estados emocionais corretamente, observamos que a média mais elevada nestes fatores, pertence aos estudantes de mestrado em cuidados paliativos (M = 33,29 ± 4,49). São os estudantes de mestrado que apresentam maiores valores médios de IEP (M = 94,33 ± 13,47), quando comparado com os valores médios dos grupos de licenciatura (M = 84,30 ± 14,92). Na variável idade, os estudantes com 26 anos ou mais, são os que apresentam maior valor de IEP (M = 90,55 ± 18,85; Tabela 3).
Tabela 3 : Dados descritivos das variáveis sociodemográficas por fatores da Escala TMMS-24
Variáveis | n | Mín. | Máx. | M | DP | |
Atenção | Feminino Masculino ≤ 19 anos 20 a 25 anos ≥ 26 anos Licenciatura Mestrado Enfermagem TO/DN Cuidados Paliativos | 88 6 17 55 22 79 15 82 5 7 | 9 22 9 22 10 9 23 9 29 23 | 40 39 39 40 38 40 38 40 36 37 | 31,33 28,67 27,12 32,51 30,91 31,00 32,00 31,00 32,60 32,00 | 6,19 7,06 8,06 4,97 6,46 6,59 4,00 6,53 2,70 4,65 |
Clareza | Feminino Masculino ≤ 19 anos 20 a 25 anos ≥ 26 anos Licenciatura Mestrado Enfermagem TO/ND Cuidados Paliativos | 88 6 17 55 22 79 15 82 5 7 | 10 23 12 15 10 10 26 10 26 29 | 40 37 35 40 39 40 39 40 32 39 | 26,41 30,50 23,24 26,69 29,27 25,72 31,67 26,00 28,40 33,29 | 6,80 5,50 6,51 5,86 8,11 6,71 4,68 6,82 2,30 4,49 |
Reparação | Feminino Masculino ≤ 19 anos 20 a 25 anos ≥ 26 anos Licenciatura Mestrado Enfermagem TO/DN Cuidados Paliativos | 88 6 17 55 22 79 15 82 5 7 | 8 23 9 17 8 8 22 8 17 22 | 40 33 36 40 40 40 40 40 33 40 | 27,98 29,50 26,12 27,76 30,36 27,58 30,67 27,79 27,60 31,71 | 6,49 3,83 6,69 5,63 7,37 6,32 6,05 6,24 6,95 7,18 |
Escala Total | Feminino Masculino ≤ 19 anos 20 a 25 anos ≥ 26 anos Licenciatura Mestrado Enfermagem TO/DN Cuidados Paliativos | 88 6 17 55 22 79 15 82 5 7 | 28 71 32 58 28 28 74 28 81 74 | 115 106 102 115 114 115 114 115 95 114 | 85,72 88,67 76,47 86,96 90,55 84,30 94,33 84,79 88,60 97,00 | 15,15 15,13 17,26 11,30 18,85 14,92 13,47 15,15 6,58 15,26 |
Nota. n = Tamanho da amostra; Min. = Mínimo; Max. = Máximo; M = Média; DP = Desvio-padrão; TO = Terapia ocupacional; DN = Dietética e nutrição.
Na Tabela 4 foi obtida a diferença entre variáveis sociodemográficas e os fatores através do teste t-Student e o teste ANOVA. Para a idade dos estudantes verificou-se a existência de diferença estatisticamente significativa em todos os fatores Atenção (p = 0,014), Clareza (p = 0,041), Reparação (p = 0,026) da escala TMMS-24, assim como para o valor da escala total (p = 0,005), evidenciando, pelos valores médios da tabela anterior, que os estudantes com mais idade apresentaram valores médios mais elevados de IEP (76,47 ± 17,26 para os mais jovens e 90,55 ± 18,85 para os estudantes com mais idade). Foi também calculada a diferença estatística entre os ciclos de estudos (licenciatura e mestrado) e os fatores da escala. Apesar de já se terem verificado na tabela 3 a existência de valores médios mais elevados para os estudantes de mestrado, só foi encontrada diferença estatisticamente significativa para o fator Clareza (p = 0,047), significando que os grupos de mestrado apresentam valores de IEP diferentes dos estudantes de licenciatura. É de salientar que os valores dos estudantes de licenciatura são inferiores (25,72 ± 6,71) aos dos estudantes de mestrado (31,67 ± 4,68). Para o estudo de diferença entre os fatores e o tipo de curso de saúde que estudantes frequentavam, foi utilizado o teste ANOVA que permitiu verificar uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos e o fator Clareza (p = 0,001). No sentido de se perceber quais os grupos que apresentaram essa diferença estaticamente significativa, foi realizado o teste pós hoc (teste de Bonferroni), tendo-se verificado que os estudantes de cuidados paliativos, foram quem apresentou essa diferença significativa, quando comparados com os outros grupos, para o fator Clareza (p = 0,037).
Tabela 4 : Relação entre os fatores da escala TMMS-24 e as variáveis sociodemográficas dos estudantes, através de testes paramétrico s
Variáveis | p ( t-Student ) | p (ANOVA) | p (Teste Bonferroni ) | |
Idade | Atenção Clareza Reparação Escala Total | 0,014 0,041 0,026 0,005 | ||
Ciclo de estudos (licenciatura; mestrado) | Clareza Escala Total | 0,001 0,017 | 0,047 | |
Área do Curso (enfermagem; TO; DN; cuidados paliativos) | Clareza Escala Total | 0,001 0,017 | ||
Cuidados Paliativos | Clareza | 0,037 |
Nota. p = Teste de significância; TO = Terapia ocupacional; DN = Dietética e nutrição.
Discussão
Os participantes do estudo eram maioritariamente do sexo feminino (93,6%), o que vai ao encontro das estatísticas nacionais no que diz respeito à representatividade por sexo nas profissões da área da saúde em que, segundo dados dos Censos de 2021, estas são compostas por 40,32% homens e 59,68% mulheres (Pordata, 2022). Os resultados evidenciaram, ainda, que os estudantes que participaram no estudo apresentavam um valor de IEP de 71,58% (M = 85,90 [24,120]), valor considerado positivo, mas que carece ainda de melhoria, pois sabe-se que o desenvolvimento de competências transversais, denominadas soft skills, em que se integram a IE dizem respeito a habilidades interpessoais e socio-emocionais que são muito procuradas no mercado de trabalho (Sancho-Cantus et. al., 2023; Villán-Vallejo et al., 2022). Assim, desenvolver esta área irá potenciar a competitividade no mercado de trabalho, ao permitir desenvolver melhores performances e profissionais mais empoderados. Para isso é fundamental implementar intervenções eficazes, desde a formação graduada até à pós-graduada. O desenvolvimento da IE pode ser possível através da realização e promoção de trabalhos de grupo, avaliações orais e atividades dinâmicas e interativas de cariz sócio comportamental (Pádua et al., 2021). Estas estratégias de desenvolvimento poderão ao permitir desenvolver a IE, empoderar os estudantes a reconhecer, gerir e controlar sentimentos e emoções, melhorando níveis de resiliência e persistência em momentos de fragilidade (Goleman, 2016). Neste estudo, verificou-se que era na formação graduada que esta competência deveria ser mais desenvolvida (M = 84,30 ± 14,92). Estes resultados podem ser explicados pelo facto de os estudantes de mestrado deterem formação académica em unidades curriculares de desenvolvimento pessoal, com maior treino e formação em estratégias de autoconhecimento e autogestão emocionais, assim como serem o grupo de estudantes com mais idade. Estudos anteriores (Costa et al., 2021), salientam que a idade apresenta uma correlação positiva com os valores de IEP.
No que diz respeito à área de curso que os estudantes frequentavam obtiveram-se, também, diferenças estatisticamente significativas para o fator Clareza (p = 0,001), tendo-se verificado que os estudantes de cuidados paliativos (p = 0,037) apresentaram os valores de IEP mais elevado (M = 33,29 ± 4,499). Sabe-se que nesta área de prestação de cuidados é fundamental a demonstração de IE (Pimenta & Calvalcante, 2022), uma vez que é esperado aos profissionais que comuniquem más notícias frequentemente, que aliviem o sofrimento, que promovam o conforto, centrando-se na vontade do outro, mesmo que seja divergente da sua. Assim, o desenvolvimento da IE para o controlo de emoções e sentimentos é imprescindível para o autocuidado do profissional e para a qualidade dos cuidados prestados. Este desenvolvimento vai-se adquirindo com a experiência, nos contextos clínicos, onde estes vão desenvolvendo estratégias individuais e em equipa, que lhes permitam desempenhar a difícil tarefa de acompanhar alguém no processo de morrer (Pimenta & Cavalgante, 2022).
Como limitações a este estudo identifica-se o tamanho da amostra, quando analisados os grupos de estudantes por cursos, implicação que não permite a generalização dos resultados, também, pela baixa adesão de respostas abaixo dos 10% da população da instituição onde se desenvolveu o estudo. Sugere-se que em trabalhos futuros se possa alargar, o mesmo a outras instituições do ensino superior com cursos superiores de saúde, de forma a minimizar condicionantes inerentes às especificidades da estruturação dos cursos, que podem diferir de instituição para instituição, assim como explorar causas e estratégias atualmente utilizadas e mobilizadas pelos estudantes, através de estudos mistos.
Conclusão
O desenvolvimento da IEP em estudantes de ensino superior pode ser considerado um indicador de qualidade de performance dos mesmos e de preparação para a entrada no mercado de trabalho. Os valores de IEP encontrados sugerem a necessidade de atualizar e desenvolver projetos nos contextos académicos que apoiem os estudantes no desenvolvimento desta soft skill. Atualmente a preparação dos profissionais de saúde durante o processo de formação graduada é ainda muito centrada no saber-fazer, não preparando adequadamente os futuros profissionais de saúde para os exigentes desafios no cuidar da pessoa, onde a estabilidade da componente emocional é fundamental. Os alarmes sociais em torno do aumento de alterações ao nível da saúde mental, associadas a distúrbios emocionais são cada vez mais preocupantes, pelo que instituições de saúde, instituições do ensino superior e os decisores políticos deverão encabeçar projetos conjuntos, que possam reverter este quadro que se adivinha como um problema de saúde pública a médio prazo, com consequências a nível económico, profissional, social e político.