Desafiando profissionais de diversas áreas do saber na construção de teorias explicativas e na aplicação de estratégias eficazes de prevenção, o suicídio desponta como fenómeno que mobiliza afetos e tomadas de posição de indivíduos e grupos sociais (Lucas & Bonomo, 2022). A partir da abordagem societal da Teoria das Representações Sociais (TRS; Doise et al., 1993), este estudo buscou compreender as características e relações estabelecidas no campo representacional de suicídio nos espaços virtuais.
Suicídio: da antiguidade grega ao Brasil contemporâneo
Na produção histórica sobre o objeto social suicídio, observa-se que o fenómeno assume diferentes funções na dinâmica das sociedades ao longo dos séculos. Na Antiguidade, o fenómeno encontrava-se profundamente relacionado às práticas do Direito e à regulação política do Estado na Grécia e em Roma (Minois, 2018). A partir da Idade Média, como tentativa de coibir a perda de fiéis, a Igreja Católica deu início à condenação religiosa do ato suicida ao classificá-lo como pecado (Ariès, 2012). Desde o século V, a religião exerceu papel fundamental na constituição de práticas e de significados relativos ao suicídio, posto que havia o entendimento de que a vida do ser humano era de propriedade divina e cabia à Igreja o controle sobre todos os seus aspectos, inclusive sobre o seu fim (Ariès, 2012; Minois, 2018).
A partir do século XIX, outras forças macrossociais passaram a atuar no processo de construção dos sentidos sobre o suicídio. Pela primeira vez, uma publicação médico-científica discorreu sobre o fenómeno, tratando-o como um dos resultados da doença mental do indivíduo com motivações exclusivamente intrínsecas ao sujeito, o que representava uma nova forma de compreender e lidar com o tema na época (Esquirol, 1821). Durante o século XIX, portanto, a ótica científica pautada na Medicina psiquiátrica passou a exercer um papel tão importante quanto o da Igreja Católica na compreensão do tema (Marsh, 2010).
Foi apenas no final do século XIX que foram inauguradas outras formas de se analisar a ocorrência do suicídio, sendo ele categorizado como fato social (Durkheim, 1897/2000): o tema passou a ser entendido como fenómeno influenciado por causas externas ao sujeito, que poderiam ser descritas e associadas às características da sociedade em que estava inserido. Portanto, se no século XXI existem tentativas de repensar práticas relacionadas à prevenção do suicídio como assunto público em diferentes áreas do saber (Lucas & Bonomo, 2022; White et al., 2016), elas se tornaram possíveis a partir do marco científico das obras do século XIX, principalmente de Durkheim (1897/2000), que retirou o foco dos problemas individuais e passou a enfatizar os problemas sociais associados ao fenómeno (Minois, 2018).
Na contemporaneidade, durante a primeira onda da pandemia de Covid-19 no Brasil (Organização Mundial da Saúde OMS, 2020), houve incidência substancial de suicídios nas regiões Norte e Nordeste (Orellana et al., 2021). A pandemia de Covid-19 se configurou como grande desafio sanitário com potencial para abalar a estabilidade política e económica das nações, especialmente do Brasil, que já se deparava com o acirramento da polarização política desde as eleições de 2018 (Fuks & Marques, 2022; Muldon et al., 2021). Tal panorama deu origem a um estado sem precedentes na história recente, se consolidou como a maior tragédia sanitária e humanitária do último século e contribuiu para o possível aumento da subnotificação dos casos de suicídio neste período em algumas regiões (Muldon et al., 2021; Orellana et al., 2021).
O suicídio configura-se como questão que requer intervenções em vários níveis de cuidado. Em relação às estratégias de prevenção brasileiras em larga escala, a campanha anual Setembro Amarelo se destaca como movimento que busca trazer visibilidade ao tema (Bezerra & Silva, 2019). Visando a prevenção do suicídio, a campanha conta com a participação de diversas instituições públicas e privadas e o seu alcance é potencializado, principalmente, pela cobertura midiática que recebe, fazendo com que o suicídio se torne assunto mais recorrente em discussões nas mídias tradicionais e na internet (Bezerra & Silva, 2019; Oliveira et al., 2020). A abordagem do tema nas mídias tem ocorrido de forma a reforçar estereótipos sobre o indivíduo que pensa em suicídio, caracterizando-o a partir de adjetivações pejorativas e juízos morais (Gomes & Fensterseifer, 2019; Monari & Bertolli Filho, 2019). Especificamente em notícias brasileiras, as narrativas reforçam a concepção de criminalização do ato e a sua relação com transtornos mentais (Alves & Santos, 2020; Baére & Conceição, 2018), fato que pode refletir os interesses dos veículos midiáticos mais voltados à comercialização das reportagens do que na promoção de caminhos para a prevenção do suicídio (Ferreira et al., 2021).
Ainda em relação às mídias, a internet representa uma das principais formas de acesso à informação utilizadas pela população na atualidade, configurando-se como espaço comum em que o tema vem sendo discutido com maior frequência (Lucas & Bonomo, 2022; Oliveira et al., 2017). A presença dos usuários brasileiros em chats específicos sobre o assunto pode ser indicativa de uma tendência do uso da internet e das redes sociais como espaços que fomentam o debate sobre o suicídio (Lucas & Bonomo, 2022), tendo em vista que estudos demonstram que o tema mobiliza um número significativo de buscas, publicações e comentários nas redes sociais (Sinyor et al., 2021, 2022). Dessa forma, considerando a presença das discussões online sobre o fenómeno, evidencia-se a importância dos estudos que buscam compreender quais significados sobre suicídio são produzidos nos espaços cibernéticos, tarefa à qual se junta o presente estudo, por meio dos recursos teórico-conceituais e metodológicos da TRS.
A Teoria das Representações Sociais e a abordagem societal
A TRS recupera a noção do sujeito como ator social e como indivíduo ativo na construção da própria realidade a partir do contexto sociocultural em que se insere (Moscovici, 1984). Trabalhando para a mediação entre o sujeito e o mundo social, as representações sociais estão intrinsicamente ligadas à esfera pública, se caracterizando como teorias do senso comum e sendo geradas a partir das práticas comunicativas na vida pública (Jovchelovitch, 2011).
Ao propor a ideia de um conhecimento social, Moscovici (1984) rompeu com a concepção baseada no esquema binário clássico “Sujeito-Objeto”, substituindo-o pela visão de três componentes: “Alter-Ego-Objeto”. Nessa tríade psicossocial, o Alter (Sujeito social) é o mediador das relações entre o Ego (Sujeito individual) e o Objeto (Jovchelovitch, 2011; Moscovici, 1984). Esta abordagem abriu portas para a compreensão multifacetada da relação entre os três termos, de forma dinâmica e dialógica, mostrando que o objeto se constitui como elaboração do sujeito interagindo com o seu meio social (Marková, 2006; Palmonari & Cerrato, 2011). Além disso, é marcada por uma tensão que explica como algumas representações podem ser baseadas em crenças (quando a relação entre Ego-Alter tem mais peso) ou em conhecimento (quando a relação mais forte se dá entre Ego-Objeto) (Jovchelovitch, 2011; Marková, 2006).
A proposição do estudo das representações sociais deu origem ao desenvolvimento de novos paradigmas e subsidiou diferentes abordagens, como a societal, conhecida também como o paradigma das três fases (Palmonari, 2009). O quadro teórico-metodológico da abordagem societal fundamenta-se no desenvolvimento do estudo das representações por meio de três fases, sendo elas (Almeida, 2009; Doise, 1992, 2002a): i) a análise do campo representacional compartilhado pelos indivíduos em relação ao objeto; ii) a análise dos princípios organizadores, identificando as diferenças de tomadas de posição individuais que estabelecem a variação do campo representacional; e iii) a análise dos processos de ancoragem das diferenças de tomadas de posição individuais, explicitando hierarquias de valores, pertenças e posições sociais, bem como percepções das relações entre grupos (Doise, 1992; Palmonari, 2009; Valentim, 2016; 2002a).
Os processos de ancoragem têm sido analisados de diferentes formas no campo das representações sociais. Segundo Doise et al. (1992), para investigar o processo de ancoragem deve-se “estudar as modulações em função de sua imbricação específica em um sistema de regulações simbólicas” (Doise, 1992, p. 189). Ou seja, esta tarefa implica em analisar não apenas a dimensão consensual das representações sociais (Trindade et al., 2011), mas, sobretudo, a variabilidade do campo representacional em função das diferenças interindividuais (Doise, 2002b), posto que “os processos de que os indivíduos dispõem para funcionar em sociedade são orientados por dinâmicas sociais interacionais, posicionais ou de valores e de crenças gerais” (Almeida, 2009, p. 719).
Sobre a análise dos processos de ancoragem, Doise (1992, 2002a) propõe três modalidades que condicionam as tomadas de posição individuais no campo representacional: i) a ancoragem psicológica, sendo posicionamentos interindividuais frente ao conteúdo das representações sociais; ii) a ancoragem psicossocial, a partir do modo como os indivíduos estão simbolicamente ligados às relações sociais e aos diferentes posicionamentos próprios de um campo social; e iii) a ancoragem social, a partir de opiniões, crenças e experiências comuns compartilhadas por membros de determinado grupo (Bonomo et al., 2013; Brasil et al., 2018; Doise, 1992, 2002a, 2002b).
Na abordagem societal, para apreender a especificidade do aspecto social das representações, é necessário estudar a sua função na dinâmica das comunicações e das relações sociais (Palmonari, 2009). Se reconhece, portanto, a importância dos meios de comunicação nas teorias formuladas por grupos acerca de objetos que são concebidos como salientes no seu cotidiano. Compondo um dos maiores meios de veiculação de ideologias, crenças e valores, as novas mídias ocupam lugar de destaque na produção do conhecimento popular ao promover debates que provocam o engajamento da sociedade (Lucas & Bonomo, 2022; Moscovici, 1984). Na contemporaneidade, aspectos essenciais para a produção de representações sociais se encontram presentes nas novas mídias: estruturas sociais compostas por pessoas, partilha de valores e objetivos, troca de informações, produção de saberes coletivos e conexão em função de traços identitários comuns (Oliveira et al., 2017).
Ao instituir matrizes sociais, culturais e históricas, as representações sociais atravessam espaços de poder que, por vezes, demandam questionamento e propostas adequadas de intervenção (Jovchelovitch, 2011). Em relação ao suicídio como objeto social, suas representações e a maneira como são ancoradas e objetivadas o têm relegado ao lugar do silenciamento, do não-dito, da repulsa e do intolerável (Lucas & Bonomo, 2022; Ordaz & Vala, 1997). Em resposta aos estados emocionais que o sujeito experiencia, o ato suicida é compreendido como forma de fugir dos problemas e o campo afetivo relacionado ao objeto é composto por sentimentos como tristeza, medo e dor (Bezerra et al., 2021; Calile & Chatelard, 2021; Meira et al., 2020; Melo et al., 2020; Oliveira et al., 2023).
Em outros estudos, as representações sociais de suicídio apresentaram associação com a religião, com a visão de quem tenta suicídio como descrente em Deus, posto que a fé é entendida como fator de proteção (Araújo et al., 2010; Bezerra et al., 2021; Cantão & Botti, 2017; Melo et al., 2020). O fenómeno, ancorado e objetivado pelo elemento morte, é capaz de evocar julgamentos morais, sendo considerado comportamento inaceitável de desistência e covardia (Lucas & Bonomo, 2022; Meira et al., 2020).
A depressão integrou o núcleo central das representações sociais de suicídio em diversas populações (como adolescentes, estudantes de psicologia e cidadãos franceses), sendo o ato considerado, nestes contextos, como consequência final do estado depressivo do indivíduo (Calile & Chatelard, 2021; Kravetz et al., 2021). Ao ser compreendido como resultado de um processo de adoecimento e ancorado nos sintomas clínicos da depressão, a principal vertente da prevenção do suicídio se torna o acompanhamento médico e psicológico individual, sendo este viabilizado pelo sistema de saúde brasileiro chamado Sistema Único de Saúde (SUS; Alexandre et al., 2021; Bezerra et al., 2021; Melo et al., 2020; Lucas & Bonomo, 2022;).
Em algumas situações, o suicídio passa a ser considerado, também, como direito do indivíduo, principalmente em casos de doenças terminais (Santos et al., 2019). Mesmo nestes casos em que o ato é visto como escolha possível, o campo afetivo relacionado ao objeto é composto por sentimentos como tristeza, medo, culpa, dor e sofrimento (Alexandre et al., 2021; Bezerra et al., 2021; Calile & Chatelard, 2021; Melo et al., 2020).
Nesse sentido, evidencia-se a necessidade de compreender as características e relações estabelecidas no campo representacional de suicídio nos espaços virtuais, tendo em vista que representações sociais são produções de sentido que manifestam momentos da realidade social que ultrapassam o âmbito discursivo (Doise, 1992, 2002a; Moscovici, 1984). Portanto, tendo como referência o paradigma das três fases da TRS (Doise et al., 1993; Palmonari, 2009), este estudo teve como objetivo identificar o campo compartilhado, os princípios organizadores das tomadas de posição e a ancoragem psicossocial das representações sociais de suicídio entre usuários do Twitter, analisadas a partir de comentários feitos por esses usuários em reportagens divulgadas na rede social pelo jornal Folha de São Paulo.
Método
Fonte e procedimentos de coleta de dados
Este estudo teve como fonte de dados comentários sobre suicídio feitos por usuários do Twitter e informações sobre suas orientações políticas disponíveis em seus respectivos perfis nesta rede social. Para selecionar o material que compós os conjuntos de dados, primeiro identificou-se todas as reportagens sobre suicídio veiculadas entre 2015 e 2021 pelo perfil do jornal Folha de São Paulo no Twitter. Em seguida, foram coletados todos os comentários feitos em resposta às reportagens identificadas e foram considerados todos os perfis dos usuários que eram os autores dos comentários selecionados.
A escolha das reportagens do jornal Folha de São Paulo como disparadoras do debate sobre suicídio no Twitter baseou-se no fato de que o folhetim do Grupo Folha tem sido considerado o site brasileiro noticioso de jornal com mais audiência no Brasil (Instituto Verificador de Comunicação IVC, 2020). Quanto ao período temporal para coleta dos dados, utilizou-se como referência a criação da campanha Setembro Amarelo, em 2015 (Bezerra & Silva, 2019; Oliveira et al., 2020). Entende-se que, a partir da criação da referida campanha, o destaque para o tema do suicídio na mídia e nas redes sociais foi maior do que nos anos anteriores e, consequentemente, possibilitou que as práticas comunicativas sobre o assunto fossem mais salientes na esfera pública (Jovchelovitch, 2011).
O procedimento de coleta de dados ocorreu a partir da própria ferramenta de busca do Twitter e foi organizado em duas etapas, a saber, a coleta dos comentários e a coleta de informações sobre a orientação política nos perfis dos comentaristas. Na Etapa 1, após a identificação de 103 reportagens publicadas pelo jornal Folha de São Paulo, os comentários foram coletados obedecendo os seguintes critérios de inclusão: i) deveriam ser compostos por texto e não apenas imagens; ii) deveriam ser públicos; e iii) deveriam ter sido feitos em resposta a uma das 103 reportagens identificadas anteriormente. Foram excluídos todos os comentários que não se enquadravam nos critérios de inclusão estabelecidos, totalizando em 3302 comentários, cujo conjunto compós o primeiro corpus de dados.
Em seguida, na Etapa 2, foram identificados todos os 425 perfis dos usuários autores dos comentários. Através do Twitter, foram coletados dados referentes à orientação política destes comentaristas, bem como informações sociodemográficas de caracterização geral dos indivíduos, como género, região de residência e religião (ver Tabela 1). Tais informações foram obtidas a partir da autodeclaração espontânea, ou seja, a partir de materiais divulgados de forma pública pelos usuários em seus próprios perfis no Twitter. Na Tabela 2, encontram-se integradas as informações referentes às Etapas 1 e 2 da coleta dos dados, as fontes de dados às quais elas se referem e os procedimentos de coleta de dados adotados em cada uma delas.
Em relação ao género, a amostra foi composta majoritariamente por homens (58,82%), e a região Sudeste (30,59%) foi a que mais apareceu nas declarações quanto à região de residência. No que se concerne à religião, 83,76% dos indivíduos não a declararam em seus perfis. Por fim, na orientação política, variável utilizada para a análise das ancoragens psicossociais neste estudo, 46,59% dos usuários se denominavam como pertencentes ao espectro político de esquerda, 38,12% ao de direita e 5,65% ao centro.
Tabela 1 Caracterização sociodemográfica dos indivíduos (n = 425)
| Categoria sociodemográfica | % | |
| Género | Homem | 58,82 |
| Mulher | 31,53 | |
| Não declarado | 9,65 | |
| Região de residência no Brasil | Norte | 2,59 |
| Nordeste | 11,53 | |
| Centro-Oeste | 3,53 | |
| Sul | 4,47 | |
| Sudeste | 30,59 | |
| Fora do Brasil | 2,59 | |
| Não declarado | 44,71 | |
| Religião | Cristão* | 10,82 |
| Católico | 2,35 | |
| Evangélico | 0,71 | |
| Ateu | 0,47 | |
| Espírita | 0,24 | |
| Candomblé | 0,24 | |
| Cabalista | 0,24 | |
| Agnóstico | 0,24 | |
| Budista | 0,24 | |
| Pagão | 0,24 | |
| Não declarado | 83,76 | |
| Orientação política | Esquerda | 46,59 |
| Direita | 38,12 | |
| Centro | 5,65 | |
| Não declarado | 9,65 | |
| *Obs.: Foram considerados cristãos todos os usuários que declararam a crença no cristianismo sem apontar nenhuma vertente específica. |
Tabela 2 Síntese das duas etapas que compõem a coleta de dados
| Etapa da coleta de dados | Fonte de dados | Procedimentos de coleta |
|---|---|---|
| Etapa 1 | 3302 comentários sobre suicídio feitos por usuários da rede social Twitter. | Identificação de todas as reportagens sobre suicídio veiculadas pelo jornal Folha de São Paulo no Twitter entre 2015 e 2021 (n =103); Coleta de todos os comentários feitos nestas reportagens; Aplicação dos critérios de inclusão e exclusão e composição do primeiro corpus de dados ( n=3302). |
| Etapa 2 | Informações sobre a orientação política dos 425 autores dos comentários coletados na Etapa 1. | Identificação de todos os perfis dos autores dos comentários selecionados na Etapa 1 (n =425); Coleta de informações relativas à orientação política disponibilizadas de forma espontânea e pública pelos autores dos comentários em seus perfis do Twitter; Composição do segundo corpus de dados. |
Tratamento e análise dos dados
No que se refere ao tratamento dos dados, para a composição do campo compartilhado das representações sociais de suicídio, o primeiro corpus de dados, referente aos comentários, foi submetido a análises estatísticas básicas viabilizadas pelo software Iramuteq. O critério utilizado para definir os termos que formaram o campo compartilhado foi considerar as palavras que possuíam frequência absoluta maior do que a frequência média do conjunto de palavras da totalidade do corpus, ou seja, 6,60 (47.822 ocorrências por 7.238 formas distintas; Camargo & Justo, 2016). Nos termos que correspondiam ao critério estabelecido, procedeu-se a um agrupamento em categorias temáticas gerais (conforme Tabelas 2 e 3), segundo Análise de Conteúdo Temático-Categorial (Oliveira, 2008).
Para a análise das tomadas de posição de usuários do Twitter e identificação dos princípios que organizam o campo de significados sobre o objeto social suicídio, o primeiro corpus de dados, referente aos comentários, foi submetido à Classificação Hierárquica Descendente (CHD) e à Análise Fatorial de Correspondência (AFC), também viabilizadas pelo software Iramuteq. A CHD é uma forma de análise em que os segmentos de texto são classificados em função da coocorrência de formas lexicais e o seu conjunto é repartido com base na frequência das formas reduzidas (Camargo & Justo, 2016). Por sua vez, a AFC apresenta em plano cartesiano diferentes agrupamentos de palavras que constituem cada uma das classes propostas na CHD. A CHD permite evidenciar regularidades e aspectos comuns que são identificados no texto, ao passo que a AFC possibilita destacar relações de oposição que estruturam o conteúdo (Sousa, 2021).
A partir da constituição das classes na CHD, foram identificados indivíduos cujo conteúdo deram origem aos clusters (ver Figura 1). Para a análise das ancoragens das tomadas de posição identificadas no plano fatorial, em consonância com o objetivo deste estudo, as informações relativas à orientação política dos usuários, que compuseram o segundo corpus de dados, foram submetidas a análises estatísticas descritivas, conforme Tabela 5.
Resultados
Seguindo o paradigma das três fases (Doise et al., 1993), os resultados são apresentados a partir da seguinte sequência: i) ‘Campo compartilhado das representações sociais de suicídio’, com a descrição de termos derivados dos comentários dos usuários do Twitter e suas respectivas frequências absolutas; ii) a formação de clusters de sujeitos em função do conteúdo característico associado ao objeto social suicídio; e iii) projeção dos termos no plano fatorial, com a tomada de posição dos usuários e a identificação dos princípios que organizam o campo de significados em análise. Estes dois últimos processos foram descritos na subseção ‘Princípios organizadores e processos de ancoragem das representações sociais de suicídio’.
1 - Campo compartilhado das representações sociais de suicídio
O campo semântico que constitui o objeto suicídio para os sujeitos da representação apresentou-se organizado a partir de uma multiplicidade de significados, organizados em duas dimensões principais: a dimensão 1 organiza os conteúdos que correspondem à dinâmica social em que o fenómeno do suicídio se insere como objeto de representação social; e, na dimensão 2, estão presentes os significados elaborados que se associam diretamente ao objeto suicídio.
Na primeira dimensão (ver Tabela 3), estão presentes as categorias: i) Cenário político brasileiro e mundial; ii) A pandemia de Covid-19; iii) Mídia e veículos de comunicação em massa; e iv) O direito às armas. Essas categorias organizam os conteúdos relativos às diferentes conjunturas da realidade cotidiana atual que oferecem sentido ao fenómeno do suicídio para os usuários do Twitter. São mencionadas situações sociais mais abrangentes, como sistemas político-económicos e as crises sanitárias mundiais, bem como os processos mais específicos à realidade do país, como as articulações midiáticas e a legislação brasileira.
Na categoria Cenário político brasileiro e mundial, há a discussão sobre posicionamentos políticos, explicitando a oposição entre as orientações políticas de esquerda e de direita. Há também a menção a figuras envolvidas em episódios políticos nacionais e internacionais, como Jair Bolsonaro, Lula, Donald Trump e Nicolas Maduro. A política também é pauta que está presente na categoria A pandemia de Covid-19. Nesta, os usuários tecem críticas ao posicionamento governamental para conter o vírus, citam medidas de contenção, como o lockdown e a testagem da população, bem como a vacina e seus possíveis efeitos colaterais.
Efeitos colaterais são considerados também na categoria Mídia e veículos de comunicação em massa. Os usuários suscitam o debate sobre o papel dos jornais na divulgação do suicídio e sobre a necessidade de medidas para evitar gatilhos em quem consome conteúdos midiáticos sobre o tema. Também em relação aos desdobramentos que aumentariam ou diminuiriam as taxas de suicídio, os usuários abordam O direito às armas. Nesta categoria, discutem acerca da criação de leis que garantam maior acesso às armas de fogo no Brasil e os usuários debatem sobre as implicações que elas teriam nas taxas de mortalidade no país.
A dimensão 2 (ver Tabela 4) é constituída pelas categorias: i) Suicídio como resultado de doença; ii) Epidemiologia do suicídio; iii) O direito de morte; iv) Religião; v) Quem tenta suicídio; e vi) Sentimentos e respostas emocionais. Tais categorias versam sobre os significados associados diretamente ao suicídio, a partir de considerações que levam em conta a saúde pública, a ciência e a religião. Além disso, evidenciam a imagem de quem tenta suicídio para os usuários do Twitter e quais sentimentos são disparados pelo fenómeno.
Tabela 3 Dimensão 1 - Dinâmica sócio-contextual associada ao objeto suicídio
| Cenário de polarização política brasileiro e mundial | A pandemia de Covid-19 | Mídia e veículos de comunicação em massa | O direito às armas | ||||||||||
| Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. |
| Brasil | 118 | Lava Jato | 16 | Saber | 153 | Hospital | 13 | Falar | 155 | Netflix | 16 | Arma | 89 |
| Gente | 79 | Justiça | 16 | Vacina | 74 | Denunciar | 13 | Folha de São Paulo | 114 | Informação | 15 | Precisar | 57 |
| País | 73 | Corrupto | 16 | Tomar | 50 | Chinês | 13 | Ver | 136 | Tema | 14 | Assassinato | 28 |
| Mundo | 70 | Reitor | 15 | Genocida | 36 | Tragédia | 12 | Bem | 85 | Falha | 14 | Jeito | 23 |
| Presidente | 60 | Preso | 15 | Perder | 31 | Frente | 12 | Ler | 84 | Opinião | 13 | Comprar | 22 |
| Jair Bolsonaro | 60 | Pobre | 14 | Crime | 28 | Economia | 12 | Série | 83 | Manchete | 13 | Maior | 21 |
| Político | 49 | Fome | 14 | Overdose | 27 | Aguardar | 12 | Bom | 81 | 12 | Acesso | 18 | |
| Ato | 49 | Criminoso | 14 | Lockdown | 25 | Voltar | 11 | Problema | 54 | Romantizar | 11 | Lei | 17 |
| Povo | 46 | Covardia | 14 | Covid-19 | 24 | Maluco | 11 | Acreditar | 50 | Reportagem | 11 | Tiro | 15 |
| Direita | 46 | Processo | 13 | Apoiar | 24 | Louco | 11 | Matéria | 41 | Perfil | 11 | Maneira | 15 |
| Governo | 42 | Pessoal | 13 | Humano | 23 | Inferno | 11 | Assistir | 37 | Comentar | 11 | Liberar | 15 |
| Brasileiro | 35 | Militar | 13 | Vírus | 22 | Engraçado | 11 | Mostrar | 35 | Parabéns | 11 | Vender | 11 |
| Lula | 34 | Liberdade | 13 | Psicopata | 22 | Coronavac | 11 | Mídia | 33 | Lado | 10 | Encontrar | 10 |
| Esquerda | 29 | Condenar | 13 | Momento | 22 | Caos | 11 | Lixo | 32 | Jornalismo | 10 | Facilitar | 9 |
| Idiota | 28 | Assassinar | 13 | Pandemia | 20 | Querido | 11 | Carta | 32 | Internet | 10 | Arma de fogo | 9 |
| Comunista | 21 | Eleger | 12 | Casa | 20 | Linha | 10 | Jornal | 30 | Filme | 10 | Segurança | 8 |
| Mandar | 20 | Capitalismo | 12 | Baixo | 20 | Dória | 10 | Imprensa | 28 | Cancelar | 10 | Corda | 8 |
| Juiz | 20 | Venezuela | 11 | Trabalhar | 19 | Comentário | 27 | Abordar | 9 | Compra | 8 | ||
| EUA | 20 | Sérgio Moro | 11 | Teste | 18 | Público | 24 | Assinante | 7 | Porte | 7 | ||
| Covarde | 20 | Pano | 11 | Voluntário | 17 | Jornalista | 23 | Exame | 7 | ||||
| População | 19 | Nicolas Maduro | 11 | Gripezinha | 17 | Gostar | 23 | ||||||
| Bandido | 19 | Esquerdista | 11 | Efeito | 17 | Gatilho | 23 | ||||||
| Vladimir Herzog | 18 | Bozo | 11 | Relação | 16 | Forma | 22 | ||||||
| Ditadura | 18 | Trump | 10 | Governador | 15 | Fato | 22 | ||||||
| Cidadão | 18 | Sujo | 10 | Em Casa | 15 | Foto | 21 | ||||||
| Canalha | 18 | Cadeia | 10 | Anvisa | 15 | Suposto | 20 | ||||||
| Burro | 18 | Assassino | 10 | Preocupar | 14 | Ruim | 20 | ||||||
| Votar | 17 | Mentiroso | 9 | Irresponsável | 14 | Vergonha | 19 | ||||||
| Política | 17 | Praticar | 8 | Gado | 14 | Servir | 18 | ||||||
| Mão | 17 | Inacreditável | 8 | Ocorrer | 13 | Divulgar | 18 | ||||||
| PT | 16 | Damares Alves | 8 | Laudo | 13 | Escrever | 18 | ||||||
| Prova | 16 | Jogar | 17 | ||||||||||
Tabela 4 Dimensão 2 - Significados associados ao objeto suicídio
| Suicídio como resultado de doença | Epidemiologia do suicídio | O direito de morte | Religião | Quem tenta suicídio | Sentimentos e respostas emocionais | |||||||
| Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | Termo | Freq. | |
| Depressão | 45 | Ano | 44 | Favor | 33 | Deus | 58 | Família | 50 | Triste | 58 | |
| Causa | 45 | Número | 36 | Concordar | 25 | Cristão | 25 | Filho | 39 | Merda | 54 | |
| Caso | 45 | Aumentar | 26 | Eutanásia | 17 | Absurdo | 19 | Amigo | 32 | Entender* | 46 | |
| Saúde | 42 | Estudo | 20 | Obrigar | 15 | Religião | 17 | Mulher | 29 | Sofrer | 28 | |
| Sério | 36 | Por cento | 15 | Suicídio assistido | 12 | Alma | 15 | Homem | 26 | Culpa | 28 | |
| Doença | 31 | Risco | 13 | Escolha | 12 | Julgar | 14 | Vítima | 23 | Desespero | 21 | |
| Pagar | 30 | Índice | 12 | Ótimo | 11 | Força | 14 | Jovem | 23 | Sentir | 20 | |
| Sistema Único de Saúde | 29 | Atual | 9 | Terminal | 11 | Graça | 11 | Pai | 20 | Dor | 19 | |
| Ajudar | 29 | Fator | 8 | Decidir | 10 | Religioso | 9 | Adolescente | 18 | Medo | 18 | |
| Dinheiro | 27 | Diminuir | 8 | Digno | 9 | Coração | 9 | Criança | 17 | Amor | 16 | |
| Doente | 25 | Crescer | 7 | Bíblia | 8 | Geração | 11 | Empatia | 14 | |||
| Assunto | 25 | Irmão | 10 | Lidar | 13 | |||||||
| Tratar | 19 | Coitado | 9 | Lamentável | 13 | |||||||
| Psicológico | 19 | Familiar | 8 | Sofrimento | 12 | |||||||
| Médico | 19 | Coragem | 8 | Superar | 9 | |||||||
| Motivo | 18 | Infeliz | 7 | Enfrentar | 8 | |||||||
| Sistema | 17 | Sentimento | 8 | |||||||||
| Salvar | 16 | |||||||||||
| Droga | 15 | |||||||||||
| Ajuda | 14 | |||||||||||
| Uso | 11 | |||||||||||
| Tratamento | 10 | |||||||||||
| Serviço | 10 | |||||||||||
| Saúde mental | 8 | |||||||||||
*Obs.: o termo entender, ao ser categorizado como resposta emocional, denota sentimentos de incompreensão e inconformidade face ao suicídio (ex.: "não consigo entender essa morte!", "não entendo a razão disso ter acontecido!", "ninguém entende o que se passava com ele!").
Na categoria Suicídio como resultado de doença, a depressão é elucidada como a principal causa dos episódios de suicídio. Também nesta categoria é debatida a importância do SUS para o tratamento dos casos de depressão no Brasil. Seguindo a linha de discussão do suicídio como tema de saúde pública, a categoria Epidemiologia do suicídio traz o debate do fenómeno sob a ótica das pesquisas científicas e estão presentes argumentações acerca dos fatores de risco que podem aumentar o número de mortes por ano no país.
Ao debaterem O direito de morte, o tema é considerado a partir das legislações e jurisdições brasileiras, a partir de posições e justificativas a favor da criação e implementação de leis e políticas públicas que garantam o direito à eutanásia e ao suicídio assistido no Brasil. Já na categoria Religião, o tema é abordado a partir do viés religioso, principalmente, resgatando crenças cristãs e significados historicamente atribuídos ao suicídio pelas religiões. Votos para que Deus tenha compaixão da alma de quem se suicida são mencionados, assim como o debate sobre o julgamento divino e social e a referência aos ensinamentos da bíblia.
Na categoria Quem tenta suicídio, são elucidadas as imagens daqueles que tentam o suicídio. Os usuários destacam a figura da pessoa jovem, que tem família, infeliz e com coragem de se suicidar, se tornando mais uma vítima. A partir da construção da imagem de quem tenta suicídio, são demonstrados os conteúdos afetivos relativos ao tema na última categoria Sentimentos e respostas emocionais. A maioria dos afetos demonstrados pelos comentaristas é marcadamente negativa, como tristeza, incompreensão, culpa, desespero, dor e medo.
Observa-se, portanto, que o conteúdo compartilhado das representações sociais de suicídio entre usuários da rede social Twitter se subdivide em duas dimensões principais, sendo que a primeira versa sobre o contexto brasileiro e mundial em que o fenómeno se insere, mais especificamente nas esferas políticas, de saúde, midiáticas e legislativas. Já a segunda, refere-se aos significados associados ao objeto social suicídio e compreende a sua interpretação a partir das óticas científicas e religiosas, além da composição da imagem de quem tenta suicídio e dos sentimentos provocados pelo tema.
2 - Princípios organizadores e processos de ancoragem das representações sociais de suicídio
Na Figura 1, é apresentado o dendrograma das classes estáveis, com a sistematização dos dados com base na CHD. A partir da constituição das seis classes de significados, foram formados os seis clusters de sujeitos.
O cluster 1 corresponde a 22,90% do corpus analisado e é formado por 115 indivíduos. Estes trazem o debate sobre a série 13 Reasons Why, da Netflix, apontando os possíveis gatilhos deste material midiático para a população. Discutem se existem e se são necessárias outras maneiras de divulgar o assunto, citando estudos atuais e manuais da OMS.
O cluster 2 representa 24,60% do corpus analisado e é formado por 62 indivíduos, que trazem o debate sobre a regulamentação da posse e do porte de armas no Brasil. Discutem os possíveis riscos e benefícios que tal regulamentação poderia trazer para a população. Este cluster apresenta o argumento de que, se as pessoas não tiverem acesso às armas, de qualquer forma, elas irão se suicidar utilizando outros métodos. Também discutem a eficácia do SUS no Brasil e fazem comparações com os sistemas de saúde de outros países, como os EUA.
O cluster 3 corresponde a 21,60% do corpus analisado, é composto por 110 indivíduos e seu conteúdo característico aborda, principalmente, o contexto brasileiro durante a pandemia de Covid-19. Nele, é levantado o debate sobre o episódio que ocorreu durante os testes da vacina contra a Covid-19 no Brasil: o suicídio de um dos voluntários. Há a associação do suicídio do voluntário com os efeitos colaterais da vacina. Além disso, os indivíduos abordam o tema da manipulação midiática e discutem casos famosos em que houve distorção das informações transmitidas, como a morte do jornalista Vladimir Herzog na época da ditadura militar.
O cluster 4 representa 10,64% do corpus analisado e é composto de 78 indivíduos. Esse cluster traz conteúdos relativos à religiosidade, à fé, aos sentimentos e às respostas emocionais frente ao suicídio. O islamismo e o Estado Islâmico também são debatidos, principalmente a partir da imagem que os associa aos clamados “homens-bomba”.
O cluster 5 corresponde a 10,32% do corpus analisado e é composto por 32 indivíduos. Este cluster apresenta críticas, ofensas e xingamentos voltados para os usuários que se definem como eleitores de Jair Bolsonaro, para os eleitores da direita de forma geral e para a forma de jornalismo feita pelo jornal Folha de São Paulo.
Por fim, o cluster 6 representa 9,86% do corpus analisado e é formado por 28 indivíduos. Neste cluster, estão presentes críticas voltadas ao campo político brasileiro, principalmente ao governo de Jair Bolsonaro e à operação Lava-Jato. Os indivíduos debatem o caso do reitor Luiz Carlos Cancellier, que se suicidou após ter o seu nome envolvido na operação Lava-Jato, e tecem críticas à forma de condução dessa investigação.
Na Figura 2, pode-se conferir a AFC, com a projeção das palavras que contribuem para a formação dos agrupamentos que organizam a dinâmica representacional sobre o objeto social suicídio, bem como a projeção dos clusters de sujeitos. São eles: i) agrupamento 1 - Ciência versus religião; e ii) agrupamentos 2 e 3 - Polarização política e conflitos intergrupais. O agrupamento 1 encontra-se no centro de gravidade do plano fatorial, ao passo que os agrupamentos 2 e 3 localizam-se no polo negativo do Fator 2, estando o agrupamento 2 (polo negativo) em oposição ao agrupamento 3 (polo positivo) no Fator 1.
Na Tabela 5, são apresentadas informações acerca da orientação política dos indivíduos, extraídas dos perfis do Twitter dos usuários pertencentes a cada agrupamento.
Tabela 5 Orientação política dos usuários do Twitter
| Ciência versus religião | Polarização política e conflitos intergrupais | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Agrupamento 1 365 indivíduos | Agrupamento 2 32 indivíduos | Agrupamento 3 28 indivíduos | |||||
| Orientação política | Esquerda | 44,11% | Esquerda | 56,25% | Esquerda | 67,86% | |
| Direita | 40,00% | Direita | 28,13% | Direita | 25,00% | ||
| Centro | 5,75% | Centro | 6,25% | Centro | 3,57% | ||
| Não declarado | 10,14% | Não declarado | 9,38% | Não declarado | 3,57% | ||
No agrupamento 1, que aponta para as dicotomias entre a ciência e a religião na construção dos significados sobre suicídio, estão presentes os clusters 1, 2, 3 e 4. Neste agrupamento, as orientações políticas autodeclaradas dos indivíduos são, respectivamente: esquerda (44,11%), direita (40%), centro (5,75%) e não declarado (10,14%).
No centro de gravidade do plano fatorial, o agrupamento 1 apresenta conteúdos que refletem a construção do objeto social suicídio a partir da ciência e da religião. Os significados associados ao tema emergem de discussões acerca de hipóteses científicas sobre práticas que estariam relacionadas ao número de suicídios, como o armamento da população, a veiculação do tema na mídia e a vacinação contra a Covid-19. Ao mesmo tempo, a construção de significados também ocorre a partir de conhecimentos religiosos, considerando o papel das figuras divinas e das religiões na orientação da conduta dos humanos ao lidar com o suicídio.
Se contrapondo no Fator 1, os agrupamentos 2 e 3, denominados Polarização política e conflitos intergrupais, estão associados aos clusters 5 e 6 e se organizam a partir das pertenças políticas dos comentaristas do Twitter. No agrupamento 2, os indivíduos se autodenominam como de esquerda (56,25%), de direita (28,13%), de centro (6,25%) ou não declarado (9,38%). Já no agrupamento 3, os indivíduos se declaram como de esquerda (67,86%), de direita (25%), de centro (3,57%) ou não se declaram (3,57%).
O conteúdo dos agrupamentos 2 e 3 é formado por expressões críticas à direita brasileira. No agrupamento 2, essa crítica aparece através do conflito entre os grupos de eleitores dos diferentes espectros políticos, com a presença de termos pejorativos e xingamentos direcionados aos que se identificam como de direita. Já no agrupamento 3, as críticas se direcionam aos governantes de direita e surgem, principalmente, a partir da postura de tais figuras em relação a casos de suicídio divulgados pela mídia.
Discussão
Seguindo a proposição teórico-metodológica do paradigma das três fases (Doise et al., 1993), este estudo analisou o processo de ancoragem psicossocial e os princípios organizadores das tomadas de posição de usuários do Twitter em relação às representações sociais de suicídio. Portanto, a partir do objetivo de identificar o campo compartilhado associado ao objeto social suicídio, os princípios organizadores e os processos de ancoragem psicossocial do conteúdo representacional, discutem-se os resultados através da dinâmica das representações sociais.
Os resultados referentes ao campo compartilhado das representações sociais de suicídio para os usuários do Twitter (ver Tabelas 3 e 4) indicaram a existência de quatro categorias principais, que descrevem diferentes facetas do objeto de representação suicídio (ver Tabela 4): i) suicídio como questão relativa à religião (categoria Religião); ii) imagem e sentimentos de quem tenta suicídio (categorias Quem tenta suicídio e Sentimentos e respostas emocionais); iii) suicídio associado à depressão (categoria Suicídio como resultado de doença e Epidemiologia do suicídio); e iv) suicídio como direito do indivíduo (categoria O direito de morte).
Como questão relativa à religião, o suicídio é considerado ato absurdo e passível de julgamento divino. Na constituição destas representações para os usuários do Twitter deste estudo, os significados sobre o objeto social em questão seguem a dinâmica das religiões cristãs, que defendem o valor da alma (Marsh, 2010). Para estes usuários do Twitter, portanto, como a alma do indivíduo é um presente divino, tirar a própria vida seria uma forma de pecado, que é julgada tanto pelo meio social quanto pelas entidades divinas. A associação do suicídio à religião é uma tendência encontrada em pesquisas anteriores que investigaram as representações de suicídio em outros contextos (Lucas & Bonomo, 2022; Bezerra et al., 2021; Gomes & Fensterseifer, 2019; Meira et al., 2020; Melo et al., 2020).
Para além de pecador, o indivíduo que tenta suicídio é objetivado a partir da imagem da pessoa jovem, afastada da família e que se torna vítima (Lucas & Bonomo, 2022; Cantão & Botti, 2017; Ordaz & Vala, 1997; Oliveira et al., 2023). No campo afetivo, essa imagem provoca sentimentos como tristeza, sofrimento, culpa, desespero, dor e medo, o que está de acordo com estudos que abordaram os afetos envolvidos nas representações sociais de suicídio em outras populações (Alexandre et al., 2021; Bezerra et al., 2021; Calile & Chatelard, 2021; Meira et al., 2020; Melo et al., 2020; Oliveira et al., 2023).
Na associação com a depressão, o suicídio é representado como resultado do estado depressivo enfrentado pelo indivíduo. Compreendida como doença pelos usuários do Twitter, a depressão aparece como a causa principal de mortes autoprovocadas, sendo este um achado que está de acordo com a tendência encontrada em outras pesquisas que investigaram representações de suicídio na última década (Alves & Santos, 2020; Calile & Chatelard, 2021; Kravetz et al., 2021).
Para os indivíduos deste estudo, além de se configurar como causa principal, a depressão também é considerada como doença tratável e passível de cura. Tal compreensão possibilita que o suicídio seja visto como fenómeno evitável e transforma o tratamento para a depressão na principal forma de evitar casos de suicídio. Desse modo, o acompanhamento especializado em saúde mental para o indivíduo que sofre é elucidado como de fundamental importância para a prevenção do suicídio (Alexandre et al., 2021; Bezerra et al., 2021; Melo et al., 2020), e estes usuários do Twitter salientam o SUS como principal via de acesso da população aos tratamentos atuais (Lucas & Bonomo, 2022).
Assim como na depressão, as representações sociais de suicídio como direito do indivíduo também são objetivadas a partir da dinâmica saúde e doença, sendo associada à eutanásia, ao suicídio assistido e às doenças terminais. Os sujeitos da representação consideram que, a partir do momento em que não há possibilidade de cura em caso de doença, a interrupção da própria vida de forma digna deveria ser uma escolha possível (Santos et al., 2019).
Movimentando esses conjuntos de significados que compõem o campo representacional de suicídio para os usuários do Twitter estudados, três forças macrossociais foram identificadas como princípios organizadores dessas representações sociais: a ciência, a religião e a política. Por meio da AFC (Figura 2), identificou-se que a ciência e a religião organizam as tomadas de posição dos clusters de sujeitos 1, 2, 3 e 4, conforme agrupamento 1 - Ciência versus religião; e a política, por sua vez, parece orientar as tomadas de posição dos clusters 5 e 6, relacionados aos agrupamentos 2 e 3 - Polarização política e conflitos intergrupais.
Considerando a dimensão Ciência versus religião, desde o século XIX, com as publicações de Esquirol (1821) e de Dukheim (1897/2000), as investigações científicas passaram a contribuir para a reconstrução de significados associados ao suicídio ao longo dos séculos, se opondo às explicações de cunho religioso, posto que estas atribuíam ao fenómeno status de pecado passível de condenação (Marsh, 2010). Como mostram estudos anteriores que investigaram as representações sociais de suicídio, os sentidos que se ancoram na dualidade ciência e religião são uma constante em diferentes populações e contextos (Lucas & Bonomo, 2022; Calile & Chatelard, 2021; Cantão & Botti, 2017; Kravetz et al., 2021; Meira et al., 2020).
Destaca-se a ancoragem histórica do suicídio em que tanto as crenças religiosas como as pesquisas científicas vêm atualizando os sentidos que são atribuídos ao fenómeno no meio social e organizando o campo representacional do objeto em questão. A partir da AFC, observou-se que este embate entre ciência e religião ganhou ainda mais saliência no contexto da pandemia de Covid-19 (OMS, 2020). Enquanto os conhecimentos científicos tensionaram o debate sobre suicídio a partir do sentido da patologia, da depressão e do sofrimento individual, que remontam ao pressuposto por Esquirol (1821) no século XIX, a religião trouxe a noção do pecado e do pecador, do absurdo e da condenação da alma, noções que aludem às proposições de Santo Agostinho, no início da Idade Média (Marsh, 2010). Portanto, a partir de uma crise sanitária mundial sem precedentes e em face ao fenómeno de polarização política no Brasil (Fuks & Marques, 2022; Orellana et al., 2021), estes significados foram reaquecidos e sua densidade social se refletiu na reorganização do campo representacional e nas tomadas de posição dos sujeitos frente a estes significados (Doise et al., 1993).
Neste estudo, o contexto de polarização política vivenciado ao redor do mundo e também no Brasil (principalmente, a partir das eleições presidenciais de 2018), contribuiu para que a dimensão política se manifestasse como princípio organizador das representações sociais de suicídio. Este princípio atua, sobretudo, no plano das relações entre grupos (Doise, 1992), como demonstrado por meio da oposição entre orientações políticas de esquerda e de direita nos resultados do presente estudo. Os indivíduos que se declararam de direita, por exemplo, se colocaram como favoráveis ao armamento da população, com o argumento de que isso não aumentará as mortes por suicídio. Já os indivíduos que se declararam de esquerda, por sua vez, defenderam a regulação das mídias com o objetivo de diminuir o efeito contágio, que pode provocar mais mortes por suicídio na população.
Tendo em vista o conjunto de resultados apresentados, parece ser importante ressaltar, ainda, que o suicídio, como fenómeno que mobiliza o pensamento social, não deve ser entendido apenas como manifestação individual de sofrimento psíquico (Bezerra & Silva, 2019). A individualização do tema pode resultar na manutenção e no fortalecimento de uma suposta culpa atribuída ao indivíduo que sofre (Lucas & Bonomo, 2022), podendo contribuir para o seu afastamento do meio social e na sua discriminação, como nos casos em que sofrem maus tratos por profissionais nas emergências hospitalares (Meira et al., 2020).
Considerando o momento sócio-político-económico atual, entende-se que os conhecimentos científicos que organizam o campo representacional de suicídio na esfera pública são pautados na individualização de patologias (Jovchelovitch, 2011). Neste panorama, em que há a defesa das características individuais em detrimento da multiplicidade e dos contextos históricos coletivos (Lucas & Bonomo, 2022), o suicídio também é lido a partir dessa perspectiva. Nos resultados acerca do campo comum, tanto a noção que postula o suicídio como direito individual como aquela que o relaciona à depressão demonstram isso.
Sobre a esfera pública, alguns estudos atuais apontam para a necessidade de orientar o entendimento do suicídio a partir desta dimensão coletiva (Lucas & Bonomo, 2022; White et al., 2016). Seguir com a compreensão individualizada do tema é descartar um dos maiores achados de Durkheim (1897/2000) sobre o assunto: o suicídio é um fato social. A obra do autor foi inovadora e um marco nas Ciências Sociais não apenas por inaugurar um novo método de pesquisa e por demonstrar que o suicídio pode ter diferentes causas. Um dos pontos mais importantes do estudo foi, justamente, apontar que existe uma lógica de estruturas macrossociais estabelecida que produz diferentes significados para o suicídio. Este é um dos pontos de destaque porque, na busca pela compreensão destes significados, várias áreas de estudo se debruçaram sobre o tema a partir da publicação da pesquisa de Durkheim (1897/2000). Desde a Sociologia até a Medicina, passando pela Psicologia e por várias outras áreas, há uma tentativa de reivindicação de que o fenómeno suicídio é formado ou por fatores que são psicológicos ou por fatores que são sociais (Marsh, 2010; White et al., 2016). A partir dos resultados encontrados, entende-se que os significados produzidos sobre suicídio não se limitam apenas às características individuais do sujeito, mas também não podem ser plenamente compreendidos através apenas de contextos externos a ele.
Defende-se, portanto, que o suicídio é um fenómeno psicossocial (Moscovici, 1984), compreendendo que o sujeito produz conhecimento ao mesmo tempo em que também é produzido nesse conhecimento herdado, de forma ativa, em uma relação dialógica triangular Sujeito-Objeto-Alter (Jovchelovitch, 2011; Moscovici, 1984). Seguindo essa lógica, a compreensão do suicídio como fenómeno psicossocial permite, para além do entendimento das representações do objeto em questão, a análise sobre uma coletividade em um determinado momento histórico, tendo em vista que os mesmos processos que constituem tal objeto também constituem os sujeitos da representação (Moscovici, 1984). Não é possível considerar separadamente estes processos do conteúdo do pensamento social, e o estudo das representações sociais se apresenta como mais do que a listagem de sentidos elucidados sobre o suicídio. É uma tentativa de apreender o jogo representacional em esferas públicas - no caso, a rede social Twitter -, considerando as representações como estruturas simbólicas que medeiam o laço entre sujeito e sociedade (Jovchelovitch, 2011).
Na relação dialógica entre Sujeito-Objeto-Alter, que define a concepção psicossocial deste estudo, a relação entre os três componentes pode ser variável (Marková, 2006). Essa variação faz com que haja uma diferença entre representações baseadas em crenças ou em conhecimento. A partir dos resultados encontrados, observou-se que a ciência, como princípio organizador, modula representações baseadas em conhecimento: os grupos necessitam encontrar evidências a respeito do fenómeno suicídio e podem testar, criticar ou discutir conhecimentos específicos sobre ele. Nessas representações, a relação Sujeito-Objeto encontra-se em primeiro plano pela possibilidade de o sujeito analisar a natureza do suicídio de forma mais autónoma dos demais.
A religião e a política, por sua vez, modulam representações sociais baseadas em crenças. São de origem social, impregnadas de afetividade, apresentam consistência e duração e suas ligações com o objeto provêm dos grupos e da tradição mais do que do próprio objeto suicídio. Nesse tipo de representação, as relações entre Sujeito-Alter estão em primeiro plano: as crenças culturalmente compartilhadas tornam os indivíduos insensíveis às diferenças e às inconsistências do suicídio enquanto objeto de representação social (Palmonari & Cerrato, 2011).
Por fim, os processos de significação abordados nas análises e resultados suscitam a importância de compreender como se configura o campo representacional sobre suicídio, para que propostas adequadas de intervenção sejam pensadas nos contextos sociais contemporâneos (Jovchelovitch, 2011). Como demonstrado, os espaços virtuais são formados por indivíduos e grupos que promovem interações, fortalecem vínculos de pertencimento e fomentam a construção de identidades e representações sociais, rompendo com as dinâmicas de espaço e de tempo tradicionais (Oliveira et al., 2017).
Conclusões
Os resultados encontrados contribuíram para identificar os elementos comuns das representações sociais de suicídio e como se organizam, além de explicar as variações individuais decorrentes das inserções psicossociais específicas dos sujeitos da representação no contexto deste estudo. No campo compartilhado, o conteúdo se relacionou ao contexto brasileiro e mundial em que o fenómeno se insere e aos significados associados ao objeto social suicídio. Em referência às heterogeneidades nas tomadas de posição relativas ao tema, a ciência, a religião e a política foram os três princípios organizadores que configuraram o campo representacional. Sobre as realidades simbólicas coletivas que ancoraram as diferentes tomadas de posição, as pertenças políticas dos usuários do Twitter se destacaram neste estudo como pontos de ancoragem psicossocial privilegiados.
A partir do exposto, é possível entender como o suicídio se configura como um fenómeno que revela a dinâmica da própria sociedade. Para além da compreensão do objeto social em questão, foi possível registrar, a partir dos resultados, como as estruturas sociais se organizaram no contexto de polarização política e crise sanitária, e como essa organização modulou os comportamentos de grupos e as tomadas de posição individuais.
Esta pesquisa se demonstra relevante no entendimento da elaboração e da veiculação de significados associados ao fenómeno nos meios digitais, bem como na relação que estes significados possuem com as pertenças dos indivíduos. Tais reflexões podem possibilitar uma melhor adequação de propostas de prevenção do suicídio nos contextos sociais contemporâneos do Brasil. Entretanto, salienta-se que este estudo se restringe aos conteúdos referentes à rede social Twitter e às pessoas que a utilizam como canal de debate acerca do suicídio. Esta pesquisa foi realizada com coleta de dados virtuais e se limita à população que possui acesso à internet, o que pode não ser representativo da população geral.
Entre as possíveis questões decorrentes das análises expostas, destaca-se a indagação direcionada às pertenças religiosas dos indivíduos e o papel que elas poderiam desempenhar no processo de ancoragem social, tendo em vista que a religião foi um dos princípios organizadores do campo representacional de suicídio neste estudo. Dessa forma, seriam interessantes novas investigações que abordem em profundidade as pertenças religiosas e a sua relação com as tomadas de posição dos indivíduos frente ao suicídio. Também se mostram importantes as investigações que focalizem as pertenças políticas dos sujeitos das representações de suicídio em outros contextos digitais.
Credit declaração de contribuição dos autores
Lorena Schettino Lucas: Concetualização, Curadoria dos dados, Análise formal, Aquisição de financiamento, Investigação, Metodologia, Administração do projeto, Visualização, Redação do rascunho original. Mariana Bonomo: Concetualização, Metodologia, Administração do projeto, Recursos, Supervisão, Redação - revisão e edição. Joaquim Pires Valentim: Metodologia, Administração do projeto, Recursos, Supervisão, Redação - revisão e edição.















