Os textos selecionados para o número 51 da ex æquo foram submetidos enquanto propostas extratemáticas. Refletindo, porém, a proeminência das questões relacionadas com a violência nas suas múltiplas facetas, alvos e efeitos, algumas propostas foram agrupadas num separador com o título de Perspetivas interseccionais sobre violência contra populações especialmente vulneráveis . Foi nosso entendimento que em si constituem um conjunto que aborda coerentemente, com recurso a metodologias qualitativas, vivências de pessoas em posições sociais de vulnerabilidade, ainda que de diferente natureza.
A violência é, com efeito, um fenómeno que não conhece divisões sociais, atravessando classes, idades, etnias, sexos e géneros, etc. Os textos analisam vivências de violência contra as mulheres, pessoas sem-abrigo e pessoas LGBTQI+ em contextos diferenciados desde o espaço digital, o desporto, o transporte público, as casas de acolhimento e estabelecimentos escolares. Passando de imediato à apresentação dos textos incluídos nesta temática, o conjunto abre com um texto de Verónica Ferreira, sobre os “Machismos virtuais: origem e caracterização de discursos masculinistas presentes em canais Red Pill brasileiros de YouTube”. A Teoria Red Pill, a filosofia central da machosfera, inspira-se no filme Matrix para definir os seus símbolos: a pílula vermelha (Red Pill) é vista como o despertar para a opressão feminista sobre os homens, enquanto a pílula azul representa a ignorância, e a pílula preta, usada pelos solteiros involuntários (incels), revela a aceitação do seu estado “terminal” de celibato. Através da análise de um canal de YouTube, o Redcast, o artigo examina as narrativas de género e as dinâmicas socioeconómicas que caracterizam a produção de conteúdo masculinista, refletindo uma subjetivação social e política neoliberal tanto dos influenciadores quanto do seu público, e um alinhamento com narrativas conservadoras radicais. A tão proclamada crise da masculinidade acaba por reforçar a vitimização masculina e as representações misóginas.
As mulheres acabam por ser as vítimas destes discursos de ódio, destilados online. Será que o feminismo falhou um dos vaticínios formulados por Floyd Dell, em 1914? Membro da Liga dos Homens pelo Sufrágio das Mulheres, Dell afirmou em texto intitulado “Feminism for Men” (1914, 19): “O feminismo tornará possível, pela primeira vez, que os homens sejam livres” (tradução nossa).1 Segundo Dell, libertados da repressão emocional, os homens ficariam livres para dar e receber amor e cuidados, para amar e cuidar das suas crianças, etc. Em vista do machismo extremista que hoje grassa nas sociedades ocidentais, esta opinião, desde sempre presente nos discursos feministas, tem tido pouca recetividade da parte de quem dela seria beneficiário.
O segundo texto, da autoria de Tatiana Lopes, Samuel Moreira e Inês Sousa Guedes, aborda o “Medo de assédio sexual em contexto de transporte público”, por parte das mulheres, os principais alvos desta violência sexual. Escolher caminhos e meios, em questões de mobilidade, implica para as mulheres ter em conta o enquadramento hostil que enfrentam. No texto, é feita uma apresentação e discussão de várias teorias que têm enquadrado a definição do problema do “medo do assédio sexual”, colocando em confronto as diversas perspetivas que ajudam a compreender as razões pelas quais os ofensores são maioritariamente homens e as vítimas mulheres. No texto, da responsabilidade de criminologistas, encontramos um contributo importante para enquadrar o debate sobre as estratégias de criação de carruagens de metro ou de comboio para mulheres, em muitas cidades do mundo (no Brasil, Japão, Índia, Egito, Indonésia e México, por exemplo) e, de igual modo, sobre os problemas suscitados pela utilização destes recursos, frequentemente identificados com o “cor-de-rosa”.
No ensaio sobre “Dominio masculino y discriminación en el deporte. Reflexiones desde las teorías de masculinidades y corrientes feministas”, da autoria de Loreto Chihuailaf-Vera, Carlos Matus-Castillo e Bárbara Álvarez-Olavarría, interpela-se o campo desportivo como dispositivo patriarcal que discrimina as mulheres, reproduz estruturas de poder e reforça a masculinidade hegemónica. Desde a Grécia Clássica, o desporto tem sido visto como um meio de glorificar o corpo masculino e as lentas mudanças que têm ocorrido não alteram radicalmente a sua natureza. O desporto feminino avançou muito lentamente, intensificando-se apenas no último quartel do século XX. No ensaio, as autoras mostram como o dispositivo desportivo continua a reproduzir as relações sociais de género.
Tamara Gámez Ramos e Ana Alcázar-Campos analisam os recursos de apoio a pessoas LGTBIQ+ sem abrigo, disponibilizados a nível europeu, no texto intitulado “De casas grises a hogares arcoíris. Una revisión de los alojamientos de apoyo específicos para personas LGTBIQ+ en situación de sinhogarismo en Europa”. Enquadrando a questão no atual momento de reação conservadora e aumento dos discursos de ódio contra estas pessoas em particular condição de vulnerabilidade, as autoras chamam a atenção para o elevado risco de estar em causa a garantia do direito universal à habitação. Na ausência de um levantamento sistemático, as autoras ensaiam o mapeamento da situação em vários países europeus recorrendo a múltiplas abordagens (pesquisa bibliográfica, desk surveys e entrevistas). Os números a que chegaram - um total de 125 alojamentos e 865 vagas, geridas por 41 entidades sociais diferentes, em 14 países da União Europeia - são alarmantes e não respondem de modo algum às necessidades existentes. O estudo mostra a urgência de incluir estas pessoas nas quantificações de sem-abrigo, nas políticas sociais e projetos de intervenção.
Tendo um subgrupo desta mesma população discriminada como referência, Marcus Pereira Junior, Filomena Teixeira e Ana V. Rodrigues, num estudo exploratório focado na “Expressão de género e utilização de casas de banho e balneários escolares: perceções de estudantes de um curso de formação inicial de professoras/es”, abordam uma das questões que mais polémicas tem suscitado nas políticas para a inclusão das pessoas transexuais e transgénero. O objetivo do estudo foi auscultar a opinião de estudantes de um curso de formação inicial de docentes sobre o acesso a casas de banho e balneários unissexo nas escolas e sobre a adequação dos espaços escolares a essa configuração. A metodologia qualitativa mobilizada permitiu aferir o quão divergentes e normativos são os discursos produzidos sobre a questão. Interessante é também a diferenciação de posicionamentos quanto às casas de banho e aos balneários, num quadro em que estes são interpretados como espaços em que o controlo das corporeidades é particularmente apertado.
Na abertura à secção de Estudos e Ensaios, com o ensaio de Antónia Coutinho intitulado “Linguagem sensível ao género - ou a língua reinterpretada”, damos continuidade à temática da inclusão, mas agora ao nível da linguagem, já explorada em diversas das suas facetas no dossier sobre “Género e linguagem: perspetivas e desafios”, incluído no número 49 da ex æquo . Linguagem sensível ao género é a expressão que, na opinião da autora, melhor se adequa às exigências que fazemos à linguagem para que diminua o viés que torna sobressaliente determinado tipo de pessoas invisibilizando todas as outras. Na perspetiva linguística de base interacionista social, adotada neste artigo, a recriação da linguagem será determinada pelos usos que dela serão feitos. Encontramos aqui apoios para as análises que vão sendo feitas sobre as alternativas ao masculino genérico.
No segundo artigo desta secção, dá-se igualmente continuidade ao debate já entabulado sobre temáticas em números anteriores da ex æquo. Paulo Marques Alves prolonga, com efeito, as abordagens do dossier do número 50 sobre “Transições democráticas, direitos das mulheres e igualdade de género - de onde partimos e onde estamos”, com que assinalámos os 50 anos da Revolução de Abril de 1974 e os 25 anos da revista. No texto sobre “Militância no feminino no movimento sindical português: a persistência das desigualdades de género 50 anos depois de Abril”, o autor confronta-nos com a evidência empírica sobre a participação das mulheres portuguesas nas estruturas sindicais em Portugal, ao longo dos últimos 50 anos. Como se anuncia no título, as desigualdades da participação analisada persistem, embora bastante mais atenuadas, por via das políticas proativas de promoção da igualdade entre mulheres e homens, como sejam a criação de comissões de mulheres, a reserva de lugares e as quotas, por exemplo, e apesar das resistências e dos efeitos perversos causados por estas medidas. Pode, sem dúvida, afirmar-se que a análise incidente sobre as estruturas sindicais pode ser extrapolada para muitas outras áreas da política, e não só.
Com algumas pontes para o diálogo com este estudo, encontramos o seguinte da autoria de Bárbara Carvalho e Maria João Cunha sobre “Transições e resistências de género no espaço de opinião: temáticas e perceções de mulheres colunistas dos jornais Expresso e Público ”. Nele apercebemo-nos dos custos suportados pelas mulheres derivados da sua participação minoritária no espaço público androcêntrico dos jornais. Observamos a perpetuação da menorização dos seus contributos e problemáticas e a reprodução das resistências à sua participação que as mantém em posições segregadas horizontal e verticalmente.
Nesta mesma secção, destacamos dois textos que nos remetem para o campo da representação artística. Em “Interromper o estigma: imagética do aborto nas obras de artistas portuguesas”, Teresa Melo e Dalila Cerejo analisam três obras visuais produzidas entre 2004 e 2023 que assumem uma posição crítica relativamente à estigmatização do aborto em Portugal. Com base nesta análise, as autoras refletem sobre o papel da arte como meio de visibilização e consciencialização da realidade e, em última análise, como potencial agente de transformação social. No segundo artigo, intitulado “O cinema de Tila Chitunda como autoetnografia”, Catarina Sales Oliveira explora o modo como esta realizadora e produtora audiovisual usa o método autoetnográfico para problematizar não só a sua história pessoal, mas também a história coletiva, abordando questões centrais do mundo contemporâneo, como mobilidades e migrações, identidade e desigualdade social.
A fechar a secção de Estudos e Ensaios, incluímos dois textos que se debruçam sobre questões pedagógicas. O primeiro sugere-nos que reflitamos sobre as vantagens da integração da perspetiva de género no ensino, constituindo uma excelente demonstração de que até no ensino primário e na matemática essa estratégia compensa. O outro texto avalia uma experiência de recurso à cultura audiovisual, mostrando que esta estratégia pedagógica facilita a aquisição de competências de crítica feminista na formação de docentes.
O artigo de María Santágueda-Villanueva e María José Madrid-Martín sobre “La inclusión de mujeres matemáticas relevantes en el aula. Una experiencia con futuro profesorado de educación primaria” insere-se nos debates atuais sobre questões de género e competências socioafetivas, socorrendo-se da importância didática da História da Matemática. O seu interesse decorre de um duplo ponto de vista: da não assunção, por parte da comunidade educativa, das vantagens desta estratégia pedagógica, e dos ataques à integração das perspetivas de género na educação (Ferreira et al. 2024).
Laura Triviño-Cabrera aborda o desafio que constitui hoje a formação feminista do pessoal docente de História, Geografia e Filosofia no artigo “El videoclip Formation de Beyoncé para la formación feminista interseccional del profesorado”. A autora descreve a sequência de atividades em que mobiliza o videoclip anunciado no título, mostrando como este pode ser usado como uma ferramenta didática inovadora e capaz de captar o interesse estudantil. Este texto será de grande utilidade para docentes, pelo menos assim o esperamos.
As sugestões de leitura deste número estão limitadas a duas publicações. Monise Martinez guia-nos através da coletânea publicada pela Routledge, sobre Religion, Gender, and Populism in the Mediterranean, organizada por Alberta Giorgi, Júlia Garraio e Teresa Toldy. Carla Martins, por seu turno, revê a coletânea coordenada por Rita Basílio de Simões, editada pela Imprensa da Universidade de Coimbra, sobre Género, violência e ódio online: conceitos e representações. Fechamos assim com a temática de abertura - a violência no mundo digital, que não é menos insidiosa do que a que ocorre offline.














