1. Introdução
1.1. #MeToo e instituições de ensino superior
O movimento #MeToo alimentou conversas glocais sobre assédio sexual, violência baseada no género e desigualdades sistémicas, levando a um novo escrutínio destas questões nas instituições de ensino superior em diferentes contextos geográficos.
O Me Too surgiu em 2006, com Tarana Burke, ativista afro-americana, com o objetivo de apoiar mulheres sobreviventes de violência sexual, nomeadamente as mulheres negras, em comunidades marginalizadas. Burke usou a expressão Me Too para criar um espaço de empatia e solidariedade, permitindo que as vítimas partilhassem as suas experiências e percebessem que não estavam sozinhas. Porém, o movimento só ganhou visibilidade global em 2017, quando o hashtag #MeToo foi amplamente difundido nas redes sociais, sobretudo após as denúncias contra o produtor de cinema Harvey Weinstein. A atriz Alyssa Milano foi a impulsionadora do hashtag, incentivando outras mulheres a compartilharem as suas próprias experiências (Cerqueira, Taborda & Pereira 2023; Roque et al. 2024). Algumas críticas, a partir dos feminismos, argumentaram que o ecossistema mediático do #MeToo privilegiou as vozes e narrativas de mulheres brancas, jovens, pertencentes a uma elite cultural, (re)produzindo exclusões e invisibilidades quanto à classe, idade e etnicidade (Zarkov & Davis 2018; Cerqueira 2025). O backlash ao #MeToo foi sonoro: o movimento foi apelidado de “caça às bruxas” e acusado de diluir as fronteiras entre sedução e assédio.
O #MeToo estendeu-se a outras esferas profissionais, como o ensino superior (Sen 2020). Embora haja iniciativas anteriores em diversos contextos geográficos, a proliferação transnacional do #MeToo impulsionou a uma maior consciência pública do problema do assédio sexual na academia (D'Agostino & Elias 2020).
Existe já uma vasta literatura científica que aborda, sob diversos ângulos, a articulação entre o #MeToo e a academia (e.g., Tenbrunsel, Rees & Diekmann 2019). Promoveram-se debates sobre as desigualdades de género em diversas áreas científicas (Jagsi 2018; McCall 2019), a precariedade laboral genderizada (Täuber et al. 2022) e as injustiças epistemológicas (Ennser-Kananen 2019). A visibilidade pública destas questões conduziu também a uma maior discussão sobre os impactos do assédio sexual nas carreiras das mulheres (Mansfield et al. 2019), um maior escrutínio das estruturas de poder genderizadas, expondo a cultura de silêncio dominante em muitas universidades e o fracasso das instituições em abordar e prevenir eficazmente o assédio sexual (Mendes, Horeck & Ringrose 2022).
Porém, após o #MeToo, aumentaram os processos judiciais contra as mulheres que divulgaram nomes no espaço público, e estas continuam a ser marginalizadas nos debates sobre assédio sexual na academia (Godden-Rasul & Serisier 2024). Também se verificam movimentos reacionários (como o #HimToo) e várias lógicas antifeministas em diferentes contextos geográficos que procuram deslegitimar os avanços do #MeToo no que diz respeito ao combate às desigualdades de género e à violência sexual (Graff & Korolczuk 2022).
Apesar dos exemplos de boas práticas que têm sido criados em vários contextos geográficos (como a implementação de códigos de conduta e mecanismos de denúncia em diversas instituições), da maior exigência de responsabilização das instituições e da maior visibilidade destas questões, “existem barreiras estruturais significativas para que o tratamento de casos de violência e assédio baseados no género seja eficaz e justo” (Bull & Shannon 2023, 54)1. As respostas da liderança nas instituições têm sido frequentemente inadequadas, inconsistentes ou mesmo cúmplices na manutenção da injustiça de género (Zhao, Roberts & Wescott 2024).
1.2. #MeToo na academia em Portugal
O assédio sexual em contexto laboral vem sendo estudado em Portugal desde os anos 1990, com a investigação a convergir com estudos internacionais que demonstram que o assédio sexual é marcado por dinâmicas de género e outras desigualdades sociais: as mulheres, especialmente as provenientes de meios socioeconómicos desfavorecidos e com contratos precários, costumam ser as mais afetadas (Amâncio & Lima 1994; Torres et al. 2016; Ferreira 2017).
Em 2021, ano em que o #MeToo ganhou força em Portugal (Roque et al. 2024), o debate foi polarizado (Faustino 2025). Em 2022 (ano de realização das entrevistas do presente estudo), o assédio sexual na academia ganhou significativa projeção mediática através da revelação de denúncias de assédio sexual a estudantes por parte de professores da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL) (Câncio 2022). Em 2023, a publicação de um capítulo que descrevia práticas de assédio sexual, moral e extrativismo num centro progressista (Viaene, Laranjeiro & Tom 2023) - que os média identificaram como sendo o Centro de Estudos Sociais (CES) (Câncio 2023) - desencadeou uma atenção mediática ao assédio sexual na academia sem precedentes no contexto português (Garraio, Santos & Cerqueira 2025).
Estes debates mediáticos (Faustino et al. 2025) demonstram que, à semelhança do que aconteceu noutros contextos (e.g., Bull & Shannon 2023), em Portugal, o #MeToo contribuiu para aumentar a consciencialização sobre o assédio sexual no meio académico, fomentou iniciativas de solidariedade entre e com as mulheres que se manifestaram, e apoiou o desenvolvimento de mecanismos institucionais para lidar com a questão (Roque et al. 2024).
A investigação sobre assédio sexual nas instituições de ensino superior portuguesas é ainda escassa e tende a focar-se nas experiências dos/as estudantes (e.g., Leite 2001; Neto 2020). São raros os estudos que analisam as experiências de docentes e investigadoras (Garraio, Santos & Cerqueira 2025). Porém, o interesse científico pelo problema do assédio sexual na academia está a aumentar (Neves et al. 2025). Refiram-se, por exemplo, o projeto de investigação Unit4Equity - strengthening universities’ response to sexual harassment with an equity approach (2023-2026), na Universidade da Maia, assim como investigação conduzida na Universidade de Coimbra (Neto 2020), na Universidade do Minho (Amorim 2021) e no Iscte - Instituto Universitário de Lisboa (Faustino et al. 2025; Garraio, Santos & Cerqueira 2025; Ribeirinha et al. 2025).
A par da crescente perceção social do assédio sexual como uma forma de violência e discriminação de género que deve ser erradicada do local de trabalho, as universidades têm vindo a implementar códigos de ética atentos ao assédio sexual e a desenvolver iniciativas para o combater, como parte de políticas mais amplas de promoção da igualdade de género e acesso das mulheres à academia e aos cargos de decisão (Cruz, Cerqueira & Araújo 2024). O primeiro Relatório da Comissão de Acompanhamento da Implementação de Estratégias de Prevenção do Assédio nas Instituições de Ensino Superior foi publicado em dezembro de 2024 (Casaca 2024).
1.3. Objetivo do estudo
Este estudo resulta de um projeto de investigação sobre o assédio sexual na academia portuguesa na era MeToo, realizado no Centro de Investigação e Intervenção Social (CIS-Iscte), com a coordenação de Maria Helena Santos, e cujo horizonte de pesquisa se prendeu com as experiências e perceções das mulheres académicas sobre o assédio sexual em Portugal. O objetivo deste artigo, em particular, é identificar as perceções destas mulheres em torno do #MeToo, tentando perceber se, e em que medida, este movimento desafiou a forma como compreendem o assédio sexual e a dimensão do problema. Pretende também entender de que forma as suas experiências na academia se interligam com a sua visão do #MeToo. As perguntas que nortearam esta parte da investigação foram: quais as perceções sobre o #MeToo por parte das mulheres da academia?; e de que forma estas mulheres avaliam o impacto do #MeToo nas dinâmicas de assédio sexual nas universidades? Nesse sentido, este estudo oferece um contributo original para o conhecimento sobre as repercussões do #MeToo em Portugal, através de um ângulo pouco estudado: as vozes das mulheres da academia.
2. Metodologia
2.1. Participantes
O projeto que está na base deste estudo baseia-se numa amostra de conveniência, selecionada entre os nossos contactos profissionais com base nos seguintes critérios: i) mulheres com carreiras estáveis no meio académico português, com conhecimento do seu funcionamento e dinâmicas; ii) diversidade e equilíbrio aproximado em termos de idade e categoria profissional; iii) equilíbrio aproximado entre o número de participantes cujo trabalho era informado por Estudos sobre as Mulheres, de Género e Feministas (EMGF) e participantes cujo trabalho científico não tinha qualquer ligação com estas áreas; iv) mulheres filiadas a universidades em diferentes regiões do país. Foram realizadas 18 entrevistas individuais semiestruturadas e pequenos questionários de perfil sociodemográfico a mulheres filiadas em universidades de Lisboa (4), Coimbra (6), Porto (4) e Braga (4). As participantes tinham uma idade média de 52 anos (DP = 10,44): a mais nova tinha 40 anos e a mais velha 68. Duas estavam reformadas, mas mantinham atividades científicas; quatro eram professoras catedráticas; oito eram professoras associadas/investigadoras principais e seis eram professoras auxiliares/investigadoras assistentes; 15 tinham ocupado cargos de direção e coordenação; 10 tinham desenvolvido investigação informada pelos EMGF (4 eram de áreas científicas das Humanidades e 6 de Ciências Sociais); e 8 tinham investigação sem qualquer relação com os EMGF (1 de STEM, 3 de Ciências Sociais e 4 de Humanidades).
As entrevistas a mulheres da academia portuguesa, que constituem o corpus deste artigo, foram realizadas em 2022. Remetem para um contexto específico marcado, por um lado, pela proximidade temporal ao pico da presença mediática do #MeToo em Portugal, através do #eutambém de 2021, e, por outro, pela irrupção mediática do problema do assédio sexual na academia em torno do caso da FDUL, em 2022, nos meses que antecederam a realização das entrevistas. Desta forma, são entrevistas feitas numa altura de forte presença mediática do #MeToo e do assédio sexual na academia. É de sublinhar, no estudo, o recorte de classe: todas as entrevistadas eram detentoras de vínculos profissionais sólidos e estáveis, representando por isso um perfil muito particular na academia, profundamente marcada pela precariedade. Paralelamente, o número expressivo de entrevistadas com trabalho na área dos EMGF potencia uma maior familiaridade com o objeto deste estudo.
2.2. Procedimento
As participantes foram contactadas por email e, após terem aceitado participar no estudo, foi-lhes enviado um questionário de perfil sociodemográfico e um termo de consentimento elaborado de acordo com as orientações da Comissão de Ética do CIS-Iscte. Este documento informava sobre os objetivos do estudo, a confidencialidade aplicável e incluía um pedido de autorização para gravar as entrevistas. Os documentos foram preenchidos, assinados e enviados para as investigadoras do estudo antes da realização da entrevista. As entrevistas decorreram entre 19 de maio e 11 de novembro de 2022. Quinze entrevistas foram realizadas através da plataforma Zoom e três foram realizadas presencialmente nos gabinetes das participantes. A duração média das entrevistas foi de 38 minutos. Em seguida, as entrevistas foram integralmente transcritas, anonimizadas e analisadas.
2.3. Instrumentos
Os dados sociodemográficos foram recolhidos através de um breve questionário com os seguintes itens: idade, nacionalidade, filiação, categoria profissional, anos de serviço, áreas de investigação, cargos de coordenação/chefia, supervisão de doutorandos/as e pós-doutorandos/as. O guião das entrevistas englobou três secções: 1) as experiências das participantes como vítimas de assédio sexual no meio académico; 2) as experiências das participantes como testemunhas de assédio sexual e o seu papel em posições de tomada de decisão na resposta a queixas; e a 3) avaliação das participantes sobre o #MeToo. Um artigo centrado nas duas primeiras secções foi publicado numa revista internacional (Garraio, Santos & Cerqueira 2025) e o presente artigo centra-se na última secção, sobre o #MeToo. Nesta secção, foram colocadas duas questões: O que pensa do #MeToo? Considera que contribuiu para uma maior consciencialização para o problema do assédio no mundo do trabalho? Com estas questões, procurámos conhecer as opiniões das participantes sobre o #MeToo; como reagiram ao movimento; se este as fizera alterar as perceções sobre a dimensão do assédio sexual no mundo do trabalho; e como avaliavam o comportamento de quem denuncia casos de assédio sexual na academia.
2.4. Análise de dados
Foi realizada uma análise temática manual (Braun & Clarke 2006) do material das entrevistas, uma metodologia que permite “identificar, analisar e relatar padrões (temas) nos dados” 2 (79), bem como identificar subtemas dentro dos temas analisados. A análise foi realizada pela primeira e a última autoras e revista pelas outras investigadoras, seguindo as seis fases de Braun e Clarke (2006): i) familiarização com os dados, através da transcrição das entrevistas e anotação das ideias iniciais; ii) codificação inicial dos dados; iii) organização dos códigos de acordo com os temas relevantes; iv) revisão dos temas e criação de um mapa de análise temática; v) definição e nomeação dos temas; e vi) elaboração de um relatório relacionando a análise com as questões de investigação e a literatura relevante, incluindo a seleção e análise final dos excertos das entrevistas que refletem as experiências mais representativas dos temas identificados. O material das entrevistas, norteado pelas perguntas de partida, foi codificado através de uma análise mista, empregando as abordagens dedutiva e indutiva. Numa abordagem dedutiva, orientada pela teoria, tivemos em conta a revisão de literatura sobre o #MeToo. Contudo, numa abordagem indutiva, orientada pelos dados, pudemos também identificar temas inesperados no âmbito do quadro teórico. A análise foi informada por uma abordagem feminista, que explora as relações entre género, poder e sexualidade, e entende o assédio sexual como uma expressão de poder baseada no género (Uggen & Blackstone 2004). Os resultados apresentados na secção seguinte decorrem desta análise.
3. Resultados
A análise temática do corpus do material das entrevistas permitiu identificar os quatro temas presentes na Tabela 1.
Tabela 1 Temas e subtemas
| Temas | Subtemas |
|---|---|
| Perceções do #MeToo como movimento de consciencialização e visibilização do assédio sexual | Efeito catalisador do #MeToo |
| Redução do isolamento das vítimas | |
| Perceções sobre o #MeToo no contexto profissional e académico | Academia como espaço de resistência à mudança e de silêncio |
| Transversalização das questões de género na educação | |
| Perceções sobre as mulheres que denunciam o assédio | As denunciantes como corajosas |
| Medo de represálias e estigmas | |
| Críticas sobre o #MeToo e a sua mediatização | Perceção de exagero ou “caça às bruxas” |
| Mediatização episódica |
Fonte: Elaboração própria.
3.1. Perceções do #MeToo como movimento de consciencialização e visibilização do assédio sexual
Um dos temas identificados centra-se no papel do #MeToo como um marco simbólico e prático para a visibilização do assédio sexual, especialmente em contextos profissionais e académicos. O tema divide-se em dois subtemas, que demonstram: i) o efeito catalisador do #MeToo; e ii) a redução do isolamento das vítimas.
No primeiro subtema, o #MeToo é referido como um ponto de viragem que permitiu, segundo algumas entrevistadas, reavaliar vivências pessoais passadas e reconhecer a existência de comportamentos abusivos que anteriormente não eram nomeados como tal. Neste sentido, o #MeToo surge enquadrado como movimento transformador, a partir do qual se conseguiram nomear situações de assédio sexual ou violação. Este permitiu que várias entrevistadas reinterpretassem experiências pessoais passadas, libertando-se do sentimento de culpa e alavancando um processo de validação e de reconstrução, como ilustra o seguinte excerto:
Mas foi a partir do #MeToo… [...] se calhar, não sou só eu que vivenciei isso… muitas outras mulheres também experienciaram o início de situações que viveram e tomaram consciência de que não eram normais, são abusivas, que são… que extrapolam todos os limites…. a partir da maior consciência, do maior empoderamento que o movimento trouxe, eu posso atribuir só ao #MeToo. Porque, antes disso, a culpa era minha, a responsabilidade era minha, eu é que tinha bebido demais, eu é que não tinha trancado bem a porta da casa de banho. [E8]
O #MeToo não só gerou transformações na perceção individual das experiências pessoais como também impulsionou mudanças sociais, no sentido de uma maior atenção e consciência coletiva para as questões da igualdade, do consentimento, da culpabilização das vítimas, do poder nas relações sociais de género.
O segundo subtema diz respeito às repercussões do #MeToo no sentimento de solidão e silêncio das mulheres vítimas de assédio sexual. Várias entrevistadas consideraram que o #MeToo proporcionou um espaço de identificação coletiva e de reconhecimento mútuo:
Acho que trouxe mais aspetos positivos, sobretudo, de se falar desta questão, as vítimas [...] sentirem que têm uma voz própria e que não estão sozinhas. [E15]
Acho que teve algum impacto e tem tido algum impacto entre as gerações mais jovens, entre as mais informadas e, sobretudo [...], entre aquelas que, ou logo à partida, ou depois, um pouco por influência até do próprio movimento e da consciência que ele desperta, se aproximam muito mais de um certo ativismo e de uma postura que eu diria mais feminista. [E10]
Contudo, algumas mulheres entrevistadas, sobretudo especialistas na área dos EMGF, revelaram que, para elas, o #MeToo não trouxe novidades:
Não diria [que o #MeToo foi novidade], porque eu estudo as questões do trabalho há muitos anos e sempre tive consciência de que esse era um lado da experiência laboral das mulheres, que […] não tinha a visibilidade que a sua presença na vida das pessoas tinha. [E11]
3.2. Perceções sobre o #MeToo no contexto profissional e académico
Um segundo tema identificado evidencia que a academia é percebida como um contexto resistente à mudança, com estruturas hierárquicas que dificultam a denúncia e a transformação institucional. Este tema divide-se em dois subtemas, que revelam: i) a academia como espaço de resistência à mudança e de silêncio; e ii) a transversalização das questões de género na educação.
Um primeiro subtema evidencia que o meio académico é percebido pelas entrevistadas, sobretudo dos EMGF, como um ambiente resistente à mudança, onde o assédio sexual é, muitas vezes, silenciado por estruturas hierárquicas e falta de mecanismos institucionais eficazes. Para as entrevistadas, o #MeToo teve pouca influência na academia portuguesa, onde, em 2022, ainda faltavam estruturas de apoio e canais eficazes de denúncia:
Em muitas instituições continuam a não se criar organismos, ou entidades, ou mecanismos de denúncia que sejam eficazes, que protejam a confidencialidade das vítimas, que, de facto, lutem por haver consequências efetivas para estes atos, ou para estas agressões. [E8]
As instituições são de uma crueldade sem nome em relação a estas vítimas. [E6]
Um segundo subtema agrega respostas das entrevistadas que defenderam a necessidade de se integrar na educação, de forma mais transversal, as questões de género e do assédio sexual, no sentido de promover a mudança de mentalidades:
O que eu acho que era mais importante era, de facto, estas questões da desigualdade de género, que incluem a questão do assédio, era importante que fossem tratadas de forma transversal em várias disciplinas. [E10]
3.3. Perceções sobre as mulheres que denunciam o assédio
O terceiro tema mostra como as mulheres que denunciam o assédio sexual são percebidas pelas entrevistadas, destacando-se o binómio coragem/risco. As entrevistadas enfatizaram a coragem destas mulheres, reconhecendo, ao mesmo tempo, os custos da denúncia e a ausência de apoios. Este tema divide-se assim em dois subtemas: i) as denunciantes como corajosas; e ii) o medo de represálias e estigmas.
O primeiro subtema revela que as entrevistadas reconheceram a enorme coragem de quem denuncia o assédio, sobretudo em contextos de fortes assimetrias de poder, como é o contexto académico:
As qualidades que eu lhes atribuo [às mulheres que denunciam] são qualidades, creio eu, todas elas positivas, de coragem, de disponibilidade, quase de missão, porque é chegar-se à frente e não há nenhuma consequência positiva que venha para a vida individual da pessoa que denuncia. Não creio. Só, talvez, um alívio, um certo alívio, talvez, de… de nomear o agressor. [E13]
O segundo subtema revela a perceção de que as denúncias das mulheres que sofreram assédio sexual continuam a ser dificultadas pela vergonha ou pelo medo de represálias institucionais, pelo estigma social e pela perda de oportunidades profissionais, o que pode contribuir para o silêncio e a perpetuação do problema. É também latente a ideia de que, frequentemente, as estruturas institucionais, em vez de protegerem as vítimas, levam à perpetuação do silenciamento:
Há muitas que ainda não são capazes de dar esse passo e denunciar… por temerem represálias… enfim, por temerem o estigma social. [E2].
Sim [fala de coragem], porque são pessoas com poder, não é? Diretor do centro, diretor de uma revista e queres publicar naquela revista… [E4]
3.4. Críticas sobre o #MeToo
O último tema identificado demonstra que, embora tenha sido percebido como maioritariamente positivo, o #MeToo também foi alvo de críticas: algumas participantes consideram que o movimento contém riscos de instrumentalização ou exagero, enquanto outras criticam a forma como foi mediatizado. Este tema engloba assim dois subtemas, reveladores da: i) perceção de exagero ou “caça às bruxas”; e da ii) mediatização episódica.
Algumas entrevistadas, sobretudo com trabalho científico não informado pelos EMGF, expressaram reservas quanto ao #MeToo, considerando que, por vezes, este gerou excessos, prejudicando a sua legitimidade. Este primeiro subtema foca-se na crítica sobre a forma de atuação do movimento na esfera pública:
Também há aquele aspeto negativo, que é a caça às bruxas e, às vezes […] de se exagerar em certas… em certos aspetos. [E15]
Às vezes, estes movimentos também correm o risco de algum exagero. Ou seja, de repente, haver uma monopolização total do discurso sobre estas matérias e, de repente, todos somos vítimas e qualquer situação é assédio, qualquer situação é de inferiorização da mulher. [E16]
O segundo subtema aborda a mediatização do movimento, ou seja, a forma como os média trataram o #MeToo. No entender das entrevistadas o foco mediático centrou-se em casos de figuras públicas e de forma episódica e não aprofundada, o que foi criticado pelas académicas auscultadas, que acreditam que isso desviou a atenção dos problemas estruturais e quotidianos em contextos não mediáticos, como é o contexto laboral e o académico:
No caso do contexto de trabalho, eu acho que o #MeToo passou um pouco ao lado em Portugal do contexto de trabalho [...], porque a sua mediatização, quando a partir da perspetiva hollywoodesca, acabou por retirar a [...] perspetiva do assédio no local de trabalho para ser o assédio das estrelas e das celebridades. [E1]
A cobertura jornalística é muito superficial, [...] até pelo framing que dá. Portanto, fala-se de cobertura #MeToo e qual é a imagem que aparece na manifestação? Qual é a ideia que as pessoas ficam com o Movimento #MeToo? Manifestações na rua. Por que raio? As pessoas não conseguem associar a complexidade e o problema social associado ao Movimento #MeToo que realmente existe e a importância que ele tem. [E14]
Entre as entrevistadas, houve quem alertasse para cooptações e distorções, assim como para os desafios colocados ao #MeToo perante casos concretos que desafiem estereotipias em torno dos perpetradores:
Eu acho que, num primeiro momento, contribuiu mais para essa consciencialização. E, entretanto, como foi cooptado por inúmeros movimentos diferentes, com diferentes perspetivas e com diferentes objetivos, também, e numa senda um bocado pós-feminista dos média, eu acho que, a partir de um determinado momento, acabou por se traduzir numa culpabilização das vítimas, em particular, quando está em xeque, sobretudo, um agressor que seja sobejamente conhecido e que tenha, sobretudo, uma grande legião de fãs no mundo. Isso aconteceu, no caso português, com o Cristiano Ronaldo: era impossível aquilo ter acontecido, porque ele era um herói nacional. [E1]
4. Discussão e notas conclusivas
Os resultados revelam a complexidade dos entendimentos sobre o #MeToo por parte das entrevistadas. Se, por um lado, estas académicas demonstram um reconhecimento do #MeToo enquanto movimento transformador, produtor de mudanças estruturais e potenciador da desocultação e nomeação de várias formas de violência sexual, expressam também ambivalências e críticas.
Num registo reflexivo, várias entrevistadas partilharam como o #MeToo tinha sido catalisador de um processo de questionamento biográfico, revendo as suas próprias experiências à luz de novas dimensões discursivas e interpretativas sobre o assédio sexual. Paralelamente, apontaram para a emergência de redes de solidariedade e apoio, desafiantes da culpabilização, estigma e isolamento que tantas vezes recaem sobre as vítimas-sobreviventes de violência sexual. A identificação destas redes de solidariedade e do seu efeito aproxima-se do propósito do Me Too de Tarana Burke de 2006 (Burke 2021).
Tanto as visões de acolhimento como de crítica, dúvida ou ambivalência sobre o #MeToo entre as entrevistadas mostram que os debates no contexto português se articulam com os debates internacionais. Neste âmbito, a preocupação com algum “excesso” e a possível horizontalização das diferentes experiências, a que alude uma das entrevistadas ao referir-se ao monopólio discursivo em torno do assédio sexual, são críticas muito presentes no backlash ao #MeToo (Boyle 2019). Numa afirmação mais polarizada, a referência ao termo “caça às bruxas” ecoa uma formulação que foi amplamente disseminada internacionalmente, com o propósito de deslegitimar o movimento (Fileborn & Phillips 2019).
Ademais, é ilustrativa a preocupação com a excessiva cobertura mediática de casos de celebridades (Gill & Orgad 2018; Sikka 2022), assim como a perceção de um tratamento mediático episódico e pouco aprofundado do fenómeno social do assédio sexual. Ao mesmo tempo, a referência e problematização do caso Ronaldo por uma das entrevistadas encontra eco na literatura científica que analisou a tendência para o afunilamento em perfis de perpetradores como Weinstein, monsterizáveis pela sua figura, estética, comportamento predatório ou em declínio de carreira (Boyle 2019), ao mesmo tempo que outros como Ronaldo, com estatuto de herói, são ilibados no imaginário coletivo (Garraio et al. 2020; Silveirinha et al. 2020).
A heterogeneidade das visões e narrativas sobre o #MeToo é assinalável, sobretudo quando esta se verifica entre vozes do mesmo campo disciplinar. É de notar que, mesmo entre académicas da área dos EMGF, se verificam visões divergentes. Tal dado, por si só, revela a pluralidade de visões dos feminismos, abrindo também para outros questionamentos: por exemplo, sobre a posicionalidade das entrevistadas, os respetivos quadros teórico-epistemológicos e universos de pesquisa, e diferenças geracionais - variáveis que, pelo recorte e dimensão do estudo, não é possível explorar em profundidade.
As entrevistadas caracterizam o meio académico como um espaço resistente à mudança, aspeto que marcou os debates mediáticos em torno do assédio sexual na academia em 2022 e 2023. Estes debates reforçaram e aprofundaram as ideias expressas por várias docentes e investigadoras sobre a academia e os fatores que potenciam o assédio, sexual e moral: a rigidez das suas estruturas e as hierarquias genderizadas, a par da falta de códigos de conduta e canais independentes de reporte (Faustino et al. 2025; Garraio, Santos & Cerqueira 2025). Neste contexto, importa sublinhar que o Relatório supracitado (Casaca 2024) suporta algumas das preocupações sobre os mecanismos (ou a sua aplicabilidade) preventivos e de resposta a situações de assédio sexual e moral nas instituições de ensino superior em Portugal, apontando para várias insuficiências, lacunas e assimetrias nas entidades de ensino superior. Para além do diagnóstico, o Relatório oferece um conjunto de recomendações, compagináveis com as sugestões e afirmações de algumas das entrevistadas - nomeadamente, sobre a transversalização das questões da igualdade de género nos diversos campos de ensino.
Este estudo reflete entendimentos partilhados num contexto específico, temporalmente situado. Paralelamente - e apesar das garantias de anonimato - há contingências que podem ter condicionado a interação entre entrevistadoras e entrevistadas. O meio académico português é um circuito pequeno, cuja escala e dimensão propiciam (re)conhecimentos entre quem faz parte do mesmo ambiente profissional. Este facto pode ter encorajado discussões abertas, mas pode ter, simultaneamente, dificultado a divulgação de informação, porque envolvia colegas comuns. Acresce, ainda, a sobrerrepresentação das académicas com investigação no campo dos EMGF, resultante da amostra por conveniência. Os resultados devem ser analisados à luz destas limitações.
Estes resultados são balizados também no tempo em que foram obtidos. Desde então, o debate público sobre o assédio sexual na academia foi densificado. Ademais, o contexto político nacional sofreu mutações consideráveis, com o fortalecimento e representação política parlamentar, sem precedentes, da extrema-direita.3 Estes fatores, articulados com o distanciamento temporal de 2017 (início do #MeToo), justificam aprofundar o presente estudo em futuros projetos e ângulos de investigação, ampliando também a amostra de participantes (e.g., incluindo pessoas com vínculos precários). Tal aprofundamento permitirá compreender as narrativas, entendimentos e resistências face ao #MeToo numa nova conjuntura política, com discursos polarizados e com a proliferação de narrativas antifeministas em múltiplas esferas, nomeadamente no mundo digital.














