1. Introdução
Este artigo aborda o trabalho do coletivo FORCE: Upsetting Rape Culture. Por meio de intervenções públicas, instalações e performances, o coletivo busca promover o engajamento comunitário de sobreviventes e inserir a narrativa elaborada a partir da sua perspectiva em espaços institucionais. O foco específico de nossa análise é o Monument Quilt (Fig. 1), iniciado em 2014 e ainda em processo de institucionalização em parceria com o Baltimore Museum of Art, o Museu de História e Cultura Afro-americana Reginald F. Lewis, e museus de cinco universidades estadunidenses. Além da colcha, também serão abordadas as performances e oficinas relacionadas ao projeto, que mobilizaram centenas de pessoas entre voluntárias/os, líderes comunitárias/os e participantes.
Nossa contribuição é informada por entrevista realizada com Hannah Brancato2, em que se discutiram as origens e o andamento do projeto, as parcerias com instituições culturais e a forte influência da tradição do quilting como método de transmitir e preservar histórias. Em termos metodológicos, o artigo baseia-se nas pesquisas de Julia Bryan-Wilson e Lora J. Bristow sobre bordado e costura como práticas feministas da arte; de Suzanne Lacy, Jacqueline Millner e Catriona Moore sobre arte comunitária; e de Catharine MacKinnon sobre consentimento.
2. FORCE
O coletivo FORCE: Upsetting Rape Culture foi criado em 2010 pela artista, ativista e professora Hannah Brancato e pela jornalista e ativista indígena cherokee Rebecca Nagle. O projeto foi criado com intuito de desafiar as estruturas sociais que perpetuam a cultura do estupro e criar espaços de acolhimento e diálogo entre sobreviventes de violência sexual por meio de práticas interseccionais. Além disso, o coletivo tem como uma de suas principais preocupações incluir as especificidades das comunidades LGBTQIA+, negra e indígena, assumindo uma firme posição contra a supremacia branca. Tendo suas principais atividades centralizadas entre Baltimore, no estado de Maryland (EUA), e a Cidade do México, o coletivo de arte e ativismo passou a contar com dezenas de integrantes e líderes comunitárias/os, e centenas de participantes e voluntárias/os em propostas locais e itinerantes (cf. FORCE: Upsetting Rape Culture).
Suas primeiras intervenções usaram a prática de culture jams3 para abordar o consentimento. Em 2012, a campanha Pink Loves Consent subverteu a marca Pink, da Victoria's Secret, substituindo slogans por mensagens como No Means No e Consent is Sexy em peças de lingerie (Fig. 2). O site da campanha, que também fornecia dados e recursos para sobreviventes, recebeu 200 mil acessos em dois dias e maior engajamento do público com a hashtag #lovesconsent do que as hashtags da empresa nas redes sociais. A Victoria's Secret tentou remover a campanha judicialmente.

Fonte: FORCE: Upsetting Rape Culture (https://upsettingrapeculture.com/pastprojects/pinklovesconsent/).
Figura 2 Pink Loves Consent, 2012. Registro de intervenção digital
Em 2013, o coletivo lançou um site com guias de consentimento para festas universitárias, utilizando o nome da revista Playboy. O site ficou no ar, com um aviso de que não é um conteúdo oficial da empresa4. De acordo com Brancato (2023), o período parecia propício para levar esse tipo de discussão sobre a cultura do estupro e a promoção do consentimento ao espaço público mediante parcerias e mobilizações que iniciavam nas redes sociais:
Desde o início, nos vimos criando espaço para conversas que não estavam acontecendo. E tentamos várias maneiras diferentes de criar esse espaço, contando com as mídias sociais nos primórdios das redes sociais. Então, é quase difícil falar sobre isso porque acho que o uso das redes sociais para organizar sobreviventes significava algo um pouco diferente naquela época, era uma ideia nova. Foi por volta de 2012, a Primavera Árabe, o movimento Occupy Wall Street. Era uma era diferente de organização. E foi a primeira vez, acho que foi a primeira onda, de usar redes sociais dessa forma. (Brancato, 2023)5
Ainda em 2012, o coletivo organizou uma série de projeções no prédio do Capitólio dos Estados Unidos intitulada RAPE IS RAPE. O trabalho foi motivado por comentários dos então deputados Todd Akin e Roger Rivard do Partido Republicano. Os legisladores e outros colegas de partido sugeriram uma alteração do código penal para classificar como crime de estupro apenas casos em que violência física extrema fosse utilizada contra a vítima (”forcible rape” ou “legitimate rape”), ignorando a necessidade de um consentimento afirmativo explícito para o ato (McCambridge 2012; Smerconish 2012). Além do título da série, foram projetados trechos de depoimentos e relatos de vítimas (Fig. 3).

Fonte: FORCE: Upsetting Rape Culture (https://upsettingrapeculture.com/pastprojects/rapeisrape/).
Figura 3 RAPE IS RAPE, 2012. Registro de projeção realizada no Capitólio dos Estados Unidos
A questão do consentimento em uma sociedade demarcada pela desigualdade é discutida por Catharine MacKinnon (2016). Além da dificuldade em aplicar legalmente o conceito, para a autora,
[…] o conceito é inerentemente desigual, pressupondo simultânea e silenciosamente que as partes são iguais, quer sejam ou não. Ele se baseia tacitamente em uma noção da liberdade de quem é objeto do ato, na significância de o “voluntário” ser equivalente à iniciativa do “outro”, sob o que são, no sexo, tipicamente condições de fundo invisíveis, às vezes em primeiro plano, de desigualdade sexual (significando de gênero). É como se alguém pudesse ser livre sem ser igual - uma proposição nunca explicada ou sequer vista como necessitando de explicação. (MacKinnon 2016, 440)6
Assim, podemos considerar que o consentimento pode, frequentemente, ser forçado ou até mesmo usado para mascarar a coerção, especialmente quando a “voluntariedade” é presumida em situações em que há significativas assimetrias de poder ou falta de alternativas. É o caso dos estupros maritais, do trabalho sexual e do abuso de poder institucional. Ainda que o conceito seja falho e a ideia de “acolhimento” (welcomeness) proposta por MacKinnon (2016, 450) seja mais abrangente e completa, o consentimento foi disparador essencial para as discussões do coletivo FORCE. E foi central para o desenvolvimento das obras do coletivo em um momento que antecede a adesão massiva em 2017 ao #MeToo, projeto iniciado por Tarana Burke em 2006, quando discussões sobre consentimento e violência sexual tomaram grandes proporções na mídia e na esfera pública7.
A partir da experiência com o uso dos relatos, o coletivo inicia um trabalho de articulação com líderes comunitárias/os e organizações que oferecem serviços a vítimas de estupro e de tráfico sexual, bem como trabalhadoras do sexo, organizando conversas, performances e ateliês que culminariam na construção do Monument Quilt. Para Brancato, a ideia do monumento surge para atender à comunidade que se mobilizava em torno das outras ações do FORCE:
Construímos uma comunidade por meio desses projetos, e é por isso que os mencionei no contexto de como nos organizamos com as pessoas. Acho que decidimos mesmo fazer o Monument Quilt com base nesse público. Com base nas pessoas dizendo: “Ei, é legal fazer essas coisas visionárias sobre como poderia ser uma cultura de consentimento. Mas também, como sobreviventes, realmente não temos espaço para compartilhar o que passamos em público, e também precisamos disso”. Então, começamos o Monument Quilt como uma forma de responder a esse público. E desde o início sabíamos que seria uma tarefa bastante grande. (Brancato, 2023)8
3. Preparando o Monument Quilt
O trabalho de construção do Monument Quilt, uma colcha monumental pensada para ser exposta no gramado do National Mall em Washington, teve início em 2013. A partir de então, foram estabelecidos ateliês de costura que promoviam momentos de escuta sensível mediados por profissionais da saúde mental voluntárias/os e ativistas envolvidas/os na luta contra a cultura do estupro. Os ateliês acolheram sobreviventes homens e mulheres de diferentes idades, orientações sexuais e identidades de gênero, além de amigos e familiares, buscando atender uma comunidade diversa e incluir experiências variadas.
Os quadrados de tecido que compõem o Monument Quilt são confeccionados principalmente com materiais como algodão, feltro e outros tecidos duráveis, frequentemente enriquecidos com elementos adicionais, tais como bordados, pinturas, apliques e colagens, que representam as experiências pessoais das/os sobreviventes e o que elas/es têm a dizer sobre o tema (Fig. 4 e Fig. 5). As cores predominantes são o vermelho e o branco, escolhidas por seu simbolismo: o vermelho remete ao sangue, à dor e à resistência, enquanto o branco evoca a cura e a esperança, embora outras cores também possam ser utilizadas conforme a intenção de cada participante. Cada quadrado possui dimensões padronizadas de aproximadamente 1 metro quadrado. Os mais de 3 mil quadrados foram, então, agrupados em 750 blocos para facilitar a organização e a montagem da instalação.
Em entrevista, a cofundadora Hannah Brancato cita como principais inspirações para o projeto o AIDS Memorial Quilt e o trabalho da psiquiatra estadunidense Judith Herman sobre síndrome de estresse pós-traumático e recuperação em vítimas de abuso sexual. O AIDS Memorial Quilt foi concebido como parte do Names Project, fundado em 1987 pelo ativista Cleve Jones como uma forma de homenagear e lembrar aqueles que faleceram devido ao descaso governamental em relação com o HIV e o preconceito contra os grupos mais atingidos. A colcha é formada por 48 mil painéis de tecido customizados com bordados, patchwork, pedrarias, tintas e itens pessoais de alguns dos homenageados (de mechas de cabelo a peças de roupa), pesa cerca de 54 toneladas e, quando aberta, ocupa um milhão de metros quadrados, sendo o maior projeto de arte comunitária já realizado (Bryan-Wilson 2017, 184). Foi exibida em sua integridade somente duas vezes, em 1987 e 1996, ambas no National Mall. Atualmente, a colcha é preservada pela Names Project Foundation e o National AIDS Memorial, e seu conteúdo pode ser acessado digitalmente9.

Fonte: FORCE: Upsetting Rape Culture (https://app.themonumentquilt.org/).
Figura 4 Monument Quilt, 2013-2019. Detalhe. Referência do quadrado: 169 Zona: NE2 Bloco: 66

Fonte: FORCE: Upsetting Rape Culture (https://app.themonumentquilt.org/).
Figura 5 Monument Quilt, 2013-2019. Detalhe. Referência do quadrado: 265 Zona: N3 Bloco: 105
O quilting, segundo Lora J. Bristow (2013, 13), passou a ser amplamente considerado uma prática feminista da arte, tanto em seus aspectos materiais quanto em sua metodologia, a partir das décadas de 1960 e 1970, citando o artigo “Quilts: The Great American Art”, publicado por Patricia Mainardi em The Feminist Art Journal em 1973. Já Bryan-Wilson enfatiza a importância do trabalho Feminist Series (1972), de Faith Ringgold, e afirma:
Embora os historiadores da arte, desde a consolidação da disciplina, como Alois Riegl, tenham se debruçado sobre os têxteis para obter, entre outras coisas, teorias de padrão e estilo, na arena da história da arte contemporânea, devo enfatizar que foi o ativismo das feministas que trouxe os têxteis para o debate de forma mais proeminente. (Bryan-Wilson 2017, 13)10
E, apesar de historicamente associados ao doméstico e ao feminino, Bryan-Wilson exemplifica como os têxteis são reconfigurados em contextos contemporâneos para questionar normas sociais e políticas. Tal abordagem também é realizada pela historiadora da arte Ferren Gipson no livro Women's Work: From Feminine Arts to Feminist Art (2022), afirmando que:
A história do 'trabalho de mulher' fez com que materiais como tecidos e cerâmica se tornassem ferramentas especialmente poderosas para abordar questões feministas na arte moderna e contemporânea. Esses materiais são reforçados por uma capacidade especial de expressar histórias e perspectivas diversas de mulheres, devido às suas associações históricas com o feminino. Por essa razão, eles são os meios perfeitos para desconstruir estereótipos, explorar diferentes experiências da feminilidade e romper com espaços historicamente dominados por homens. (Gipson 2022, 6)11
Ademais, Bristow (2013, 18) comenta sobre a participação masculina nas comunidades de quilting, principalmente na contemporaneidade, fenômeno que caracteriza o trabalho do NAMES Project, e está presente nas atividades do FORCE em sua busca por inclusão e mudança. O coletivo também ressalta que a costura é uma atividade que possibilita a promoção do diálogo durante as oficinas, e Brancato (2023) afirma que, apesar de ser uma tarefa delicada, todas as atividades eram pensadas como ambientes seguros para trocas sensíveis, mesmo considerando as tantas diferenças entre participantes.
O trabalho de Herman inspirou a abordagem em relação à participação de sobreviventes e voluntários, além das políticas de cuidado empregadas pelo coletivo em suas atividades. Herman (1992, 181) destaca o valor terapêutico de as/os sobreviventes compartilharem suas narrativas de trauma em um ambiente seguro e de apoio que pode ajudar a processar o trauma, reduzir sentimentos de vergonha e quebrar o silêncio que muitas vezes perpetua o sofrimento. A psiquiatra também destaca a importância do apoio comunitário, quebrando uma lógica de isolamento, e desafiando os moldes sociais que revitimizam ou culpabilizam sobreviventes (Herman 1992, 214).
A partir disso, foram desenvolvidas rodas de conversa e oficinas como um prelúdio à colcha. Algumas dessas atividades resultaram nas performances Mourning and Rage (Fig. 6), realizada em fevereiro de 2014 na Lincoln Memorial Reflecting Pool em Washington, e To Be Heard (Fig. 7), realizada em junho de 2016 no Baltimore Museum of Art. Ambos os trabalhos são centralizados no compartilhamento de relatos. No primeiro, a frase I Can't Forget What Happens, But No One Else Remembers12 foi instalada em letras vermelhas flutuantes no espelho d’água do memorial após um cortejo. A frase foi retirada de um poema escrito por Brancato sobre sua experiência pessoal e vontade de criar um monumento permanente para vítimas e sobreviventes. O segundo trabalho consiste em uma performance criada por Melani Douglass, integrante do coletivo parceiro Gather Together, para acompanhar a exposição parcial da colcha (viabilizada pelo Janet & Walter Sondheim Artscape Prize) em uma sala do museu. Após o percurso interno, as participantes se reuniram em frente ao museu levantando faixas com os dizeres I am not what’s broken13. Em outubro de 2016 foi organizada a atividade Survivors Speak Out, em parceria com TurnAround Inc., organização que auxilia e presta serviços a vítimas de estupro, tráfico sexual e trabalhadoras do sexo.

Fonte: FORCE: Upsetting Rape Culture (https://upsettingrapeculture.com/pastprojects/mourningandrage/).
Figura 6 Mourning and Rage, 2014. Registro de intervenção realizada na Lincoln Memorial Reflecting Pool, National Mall, Washington DC (fevereiro de 2014)
4. Exibindo e arquivando o Monument Quilt
Durante um período de seis anos, enquanto aconteciam as intervenções no Museu de Baltimore e em locais representativos do centro do poder na capital dos Estados Unidos, as oficinas de costura e as versões parciais da colcha fizeram uma itinerância por cerca de 33 cidades dos EUA e México. Essa itinerância foi apoiada por 100 organizações de sobreviventes e incluiu diversas universidades, instituições culturais e até mesmo setores do exército.
A violência sexual nas universidades é um problema persistente, com estudos indicando que aproximadamente 11,2% das/os estudantes sofrem assédio sexual ou estupro durante o período acadêmico (Cantor et al. 2015, 15). Estima-se que 50% dos estupros cometidos ocorrem nos primeiros meses do ano letivo, quando as/os estudantes, especialmente calouras/os, estão mais vulneráveis a agressões sexuais (Flack et al. 2008, 1180). O período foi denominado Red Zone. Já a inclusão das forças armadas na discussão também é importante por diferentes fatores. Além do uso histórico de violência sexual como arma de guerra, dados obtidos pelo Sexual Harassment/Assault Response and Prevention Program (SHARP) demonstram que milhares de homens e mulheres em serviço sofreram algum tipo de abuso sexual em 2012. Uma nova pesquisa realizada pelo Departamento de Defesa em 2021 apontou que, de um total de 35.900 agressões sexuais, somente 7.260 foram denunciadas ou tiveram suas denúncias aceitas por superiores14. Além do descaso, é importante destacar como o tópico de vítimas do sexo masculino ainda é um grande tabu e largamente silenciado.
Materiais produzidos e distribuídos pelo FORCE demonstram a importância de promover uma cultura de consentimento em instituições intrinsecamente hierárquicas como o exército, a polícia, instituições governamentais e as universidades. O coletivo reconhece como tais instituições foram desenvolvidas a partir de ideais do supremacismo branco e utilizam a violência sexual como ferramenta de manutenção desses ideais, destacando suas origens coloniais e como a Justiça continua extremamente parcial ao homem branco. O coletivo também publicou manuais informativos sobre o modo como vítimas que oficializam suas denúncias são transformadas em culpadas pelo sistema penal15 e quais as ações que a comunidade em geral pode realizar para impulsionar mudanças.
A exibição final do Monument Quilt ocorreu em maio de 2019 no National Mall, em Washington, quando as mais de 3 mil colaborações foram dispostas sobre o gramado formando os dizeres No Estás Solx e You Are Not Alone [Você não está só]. A instalação foi acompanhada de performances e leitura de experiências individuais e coletivas na construção e itinerância da colcha. Algumas das organizações parceiras montaram tendas para oferecer seus serviços ao redor da colcha. Pela primeira e única vez, o trabalho foi exposto em sua totalidade. Em 2020, o coletivo, em parceria com o Museu de Baltimore e outras instituições, iniciou o processo de arquivamento. Os blocos foram fotografados e catalogados, e diferentes partes da colcha foram incluídas em acervos institucionais. Também se criou um aplicativo e um site para permitir o acesso digital ao conteúdo.
5. Costurando comunidades
Assim como o quilting foi incorporado às práticas feministas da arte a partir da década de 1960, a arte comunitária perpassa a produção de diversas artistas feministas a partir desse período, mobilizadas pelos debates acerca dos direitos das mulheres, mas também pelas violências sofridas. É o caso de Suzanne Lacy, artista cuja abordagem comunitária sobre as violências perpetradas pela sociedade patriarcal resultou em dezenas de projetos em diferentes contextos. Um dos trabalhos de Lacy, em colaboração com Leslie Labowitz, sobre vítimas de feminicídio, intitulado In Mourning and Rage (1977), pode ser considerado referencial para as intervenções do FORCE, principalmente uma das intervenções do coletivo de nome similar.
Lacy (2016, 239) afirma que trabalhos comunitários de caráter público possibilitam “locais de aprendizado mútuo nos quais as pessoas estruturam narrativas coletivas contextualizando suas experiências”, e indaga “Como é que as realidades individuais, reveladas em um contexto público, dão origem a entendimentos novos e potencialmente fortalecedores?”16 Assim, a participação comunitária em projetos de larga escala tenta impulsionar o debate e influenciar mudanças na sociedade. No caso do FORCE, o objetivo é a conscientização sobre uma cultura de consentimento e a eliminação da violência sexual a partir do diálogo entre relatos tão diversos, bem como o questionamento das estruturas e instituições que perpetuam essa violência. Essa ideia também é reforçada por Lacy (2022, 26) no prólogo do livro Art as Social Practice: Technologies for Change, texto no qual afirma que “superar a divisão, a impotência e a ‘marginalização’ por meio da conversa é, eu diria, a metodologia fundamental da arte de prática social”17.
As pesquisadoras Jacqueline Millner e Catriona Moore abordam os aspectos de comunidade e participação nas práticas feministas da arte contemporânea em Contemporary Art and Feminism, ao analisarem trabalhos realizados em diferentes contextos, assim como a influência de artistas e comunidades indígenas e racializadas no desenvolvimento de “estruturas analíticas para considerar questões-chave de estratégia política, ativismo e prática” (Millner & Moore 2022, 2)18. As autoras (Millner & Moore 2022, 15) afirmam que artistas feministas se afastaram da análise da representação de gênero em sistemas ideológicos fixos e generalizáveis, em uma mudança da ‘política de representação’ para uma ‘política de ação’, permitindo articulações mais amplas da arte com movimentos sociais e políticos. Entretanto, para Millner e Moore (2022, 16) as artistas não abandonaram “a ideia feminista de que representações de diferença, busca pela verdade e reconciliação são processos de materialização e alusão: a estética como uma ética incorporada e afetiva” e tampouco a ideia de que o pessoal é político como parte da construção coletiva19.
O livro conta com uma discussão sobre o modo como as práticas feministas da arte contemporânea têm o potencial de reimaginar e desenvolver públicos e comunidades, contribuindo para a criação de espaços seguros. Millner e Moore (2022, 129) também abordam o ‘craftivismo’20, especialmente o trabalho têxtil realizado de forma colaborativa, como uma ética material do cuidado que, atrelada ao pensamento feminista, contraria “os binarismos de gênero e hierárquicos do pensamento ocidental que opõem arte e artesanato, masculino e feminino, o universal e o particular, o público e o privado”21 e viabiliza práticas ativas de diálogo e cuidado comunitário.
A importância desse aspecto comunitário, central no processo de recuperação sugerido por Judith Herman (1992) e reforçado a todo momento pelo trabalho do coletivo, também é parte da análise de trabalhos têxteis realizados por artistas e coletivos feita pela historiadora da arte Julia Bryan-Wilson (2017), e parte integral da pesquisa de Lora J. Bristow sobre as relações sociais a partir do quilting. Bristow (2013, 7) comenta que, historicamente, a atividade é considerada “importante para sustentar a comunidade e a sobrevivência individual, apoiando a cultura e a identidade do grupo”22 em questão, estando ligada principalmente à sobrevivência de comunidades afro-americanas a partir do período da escravidão nos Estados Unidos, de comunidades indígenas e de comunidades brancas na região da Appalachia. Ou, seja, não estamos falando somente de um trabalho de arte comunitária, mas também de um trabalho de memória comunitária, fator de extrema importância para a criação do FORCE e de sua principal referência, o AIDS Memorial Quilt. Segundo Hannah Brancato (2023),
Acredito que os memoriais fazem parte de um arco maior de resposta comunitária à violência que tira o fardo do indivíduo. Esse era parte do objetivo do nosso projeto. A natureza temporária do nosso projeto é um chamado à ação. Nossa intenção era: “Isto é um chamado à ação”. Isso não vai durar para sempre. E o que o resto de nós vai fazer quando acabar?23
Brancato comentou sobre as particularidades de um memorial realizado com materiais que necessitam de cuidado especial em seu manejo e manutenção. Ao analisar os quipus24 de Cecilia Vicuña e o trabalho das arpilleras25 chilenas, Bryan-Wilson (2017, 178) tece uma reflexão parecida, apontando como “as fibras e os tecidos são encarregados da complexa tarefa de manter a memória, mesmo que, como o tecido, as memórias se desbotem, se desgastem com o uso excessivo e se tornem esgarçadas”26.
6. Considerações finais
O trabalho do coletivo FORCE: Upsetting Rape Culture foi uma tentativa de incentivar discussões sobre violência sexual e promoção de uma cultura do consentimento a partir das experiências de sobreviventes. O coletivo e as diversas comunidades envolvidas com o projeto puderam desenvolver um espaço para processar suas experiências, buscar e ofertar auxílio e, principalmente, descobrir que não estavam sozinhas. Misturando uma abordagem midiática com táticas de engajamento comunitário, Brancato e Nagle conseguiram ultrapassar a discussão sobre consentimento. Este conceito, que serviu como disparador essencial para as discussões públicas do coletivo FORCE - especialmente em um período que antecede a adesão massiva em 2017 ao #MeToo -, foi corretamente definido por Catharine MacKinnon (2016) como insuficiente para centralizar as experiências das/os participantes e desenvolver um tipo de crítica coletiva às instituições que possibilitam a perpetuação da cultura do estupro.
A criação de um monumento, mesmo a partir de um suporte frágil e de instalações efêmeras, segue uma tradição da arte feminista e da arte engajada, como apontado por Suzanne Lacy (1995; 2016) e Julia Bryan-Wilson (2017). E, como afirma Hannah Brancato (2023), a relevância do projeto é amplificada por sua natureza temporária, que questiona o que será feito pela comunidade quando a obra não estiver mais visível. Espera-se que cada fragmento do Monument Quilt, exposto nas instituições culturais e de ensino que os adquiriram, siga possibilitando discussões, pesquisas e novas práticas artísticas.
Mas temos visto que as condições de avanço dos direitos das mulheres e demais grupos tratados como minorias sociais que viabilizaram um trabalho cuidadoso, mas de teor extremamente crítico, também são frágeis. Se no México a eleição, em 2024, de Claudia Sheinbaum como a primeira mulher presidente potencializa as esperanças de um olhar mais atento às violências de gênero na administração do país27, do outro lado da fronteira as coisas são diferentes. Com a reeleição de Donald Trump no mesmo ano e o ritmo acelerado de retirada de direitos e censura de qualquer tópico que possa ser relacionado com a temática da diversidade em 2025, a situação dos direitos das mulheres e pessoas LGBTQIA+ é preocupante. Os dados mais atualizados apresentados pelo National Sexual Violence Resource Center em 2025 são de uma análise publicada em 2023 sobre o biênio 2016/201728, por exemplo. Além dos laços entre o presidente e o silenciamento do caso Epstein, Trump teceu comentários públicos sobre a não criminalização da violência doméstica (Donegan 2025). Segundo a jornalista e pesquisadora Moira Donegan, a administração está fazendo o possível para retirar fundos de organizações que promovem a proteção e os direitos das mulheres, especialmente no caso de ONGs trans inclusivas. Condicionou também a concessão de fundos a ONGs de combate à violência doméstica, exigindo que colaborassem com o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE - Immigration and Customs Enforcement) na entrega de mulheres que fossem vítimas de abuso. Essa política, por sua vez, dificultaria seriamente que mulheres sem documentação buscassem assistência e apoio.
Assim, o Monument Quilt se transformou em algo mais que um memorial para sobreviventes de violência sexual. Ele agora é um memorial de um período em que o diálogo sobre esse tema foi incentivado e abraçado por diferentes grupos e instituições em seu país de origem. Um período de reflexão. Agora, esperamos que o trabalho do FORCE sirva como um chamado para a ação e o enfrentamento, como descrito por Brancato em nossa entrevista. Não somente como um exemplo de cuidado comunitário e mobilização coletiva através da arte, mas de como é essencial seguir questionando explicitamente as estruturas de domínio dos corpos, quem as mantém e a quem elas beneficiam.
















