SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 número51Garras dos sentidos índice de autoresíndice de assuntosPesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

Links relacionados

  • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

Compartilhar


Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher

versão impressa ISSN 0874-6885

Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher  no.51 Lisboa jun. 2024  Epub 30-Jan-2025

https://doi.org/10.34619/lyvk-o7xj 

Nota de Abertura

Viajantes no mapa do tempo, em busca das vozes e vivências femininas

Natividade Monteiroi  ii 
http://orcid.org/0000-0002-7944-8363

iGrupo História, Territórios e Comunidades - HTC do Centre for Functional Ecology - Science for People & the Planet (HTC/CFE), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, 1070-312 Lisboa, Portugal. Email: nati.monteiro@netcabo.pt

iiGrupo Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, 1070-312 Lisboa, Portugal.


É para nós muito gratificante apresentar o número 51 de Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, uma revista com identidade própria, que faz parte de um projecto de investigação com uma história já longa e que tem vindo a afirmar-se como referência dos Estudos sobre as Mulheres, Estudos Feministas e de Género. Em 2023, celebraram-se os 25 anos de Faces de Eva e os 50 números da Revista, com uma exposição e um ciclo de conferências, em que se fez o balanço do caminho trilhado e se perspectivou o futuro, com a nítida consciência dos desafios a enfrentar numa área de estudos em constante mudança e inovação.

Sempre fiel à sua matriz fundacional, a Revista Faces de Eva tem procurado quebrar o silêncio imposto às mulheres, dar-lhes voz e visibilidade para que elas possam afirmar-se como seres humanos com direitos em todas as dimensões da vida em sociedade. A diversidade das temáticas abordadas, quer nos estudos de carácter científico, quer nos textos que ilustram as várias secções de saberes empíricos mais abrangentes, tem acompanhado a expansão e a inovação desta área de estudos, tendo em conta que uma realidade histórica, sociológica, política, cultural, ou outra, pela sua riqueza e complexidade, pode ser lida e explicada sob uma multiplicidade de olhares e de perspectivas. Ao longo destes 25 anos, tem resgatado do esquecimento muitas mulheres, nacionais e estrangeiras, e trazido à luz a existência de muitas outras, dando-as a conhecer na pluralidade das suas vivências, percepções e experiências e das suas lutas pela liberdade, reconhecimento social, igualdade de direitos e dignidade humana. A galeria de figuras femininas que Faces de Eva tem apresentado ao público constitui um exemplo de como as mulheres têm construído um percurso de liberdade e autonomia, afirmado a sua identidade e actuado pessoal e socialmente em prol de uma sociedade mais justa, igualitária, pacífica e fraterna. Organizadas para combates diversos ou como activistas de movimentos sociais, políticos e feministas, elas participaram na construção da democracia, conquistaram o seu próprio espaço e ganharam um lugar na História. Estamos cientes de que a promoção, a partilha e a disseminação do conhecimento produzido têm contribuído para alargar os campos temáticos e as perspectivas de análise, renovar os quadros conceptuais e metodológicos e ampliar o debate teórico em torno desta área disciplinar, com as tonalidades e nuances conferidas pelas diversas área científicas.

O caminho percorrido e o trabalho realizado não teriam sido possíveis sem a sabedoria, a inteligência, a sensibilidade e a perspectiva de futuro da fundadora de Faces de Eva, Zília Osório de Castro, das investigadoras que fizeram e fazem parte da equipa de trabalho e, especialmente, daquelas que aceitaram partilhar com ela a direcção da Revista ao longo deste quartel de século, com destaque para a Isabel Henriques de Jesus, pela sua dedicação e empenho, a quem deixamos aqui os nossos agradecimentos, simpatia e admiração.

Com a publicação do número 51 da Revista Faces de Eva, damos início a um novo ciclo, com uma nova direcção, neste caso uma direcção colegial, que assume com prazer a responsabilidade de dar continuidade aos trabalhos encetados, em 1999, por um grupo de investigadoras e investigadores que sonharam alto, aventurando-se numa área científica ainda pouco explorada entre nós, “olhando o passado e projectando o futuro, com os olhos postos nas estrelas e os pés caminhando na terra dura das realidades”, como escreveu Zília Osório de Castro no primeiro número publicado (Castro, 1999, p. 7).

Aproveitamos para saudar todos os membros de Faces de Eva, de ontem e de hoje, a quem agradecemos o saber, o empenho e a qualidade emprestada à investigação, às diversas publicações e a todas as iniciativas e actividades científicas e culturais realizadas. Porque acreditamos que o trabalho realizado em grupo é mais valioso e enriquecedor, convidamos todas as Evas a acompanhar-nos neste percurso e a dar continuidade a este projecto, cujo objectivo maior é o de dar voz, rosto e visibilidade às mulheres, como sujeitos históricos activos e participantes de uma narrativa no feminino, com passado, presente e futuro, e como seres humanos com dignidade social e direitos inalienáveis.

Acreditamos que as mulheres, individualmente, podem correr o risco de se tornar invisíveis, enquanto unidas, em grupo ou colectivamente, podem fazer a revolução. Por revolução entendemos mudar as formas de pensar e de agir nas relações da convivência humana, substituir o paradigma das hierarquias do poder e da dominação pelo da partilha, da colaboração e do respeito pelo Outro, na sua pluralidade e diversidade. A emergência das mulheres no espaço público e na vida da polis mudou a ordem, as prioridades, as percepções e os valores das sociedades contemporâneas. Foram elas que puseram em marcha a revolução que pretende pôr fim à cultura hegemónica da marginalização e da exclusão. Têm sido elas a questionar o modelo social, político e cultural vigente, a identificar problemas e a propor soluções, a reivindicar direitos de cidadania para minorias subalternas e subalternizadas e a participar no aprofundamento da democracia.

A cientista indiana Vandana Shiva, ao reflectir sobre a diversidade da natureza, dos seres humanos, das realidades e explicações do mundo, afirma que “a diversidade é o princípio que dá forma ao trabalho e aos conhecimentos das mulheres” (como citado por Rivière, 2002, p. 263). Tecendo duras críticas ao pensamento hegemónico que preside aos processos culturais e industriais do actual modelo de progresso, acrescenta que o masculino tende para a homogeneidade e o uniforme, enquanto o feminino, pela relação indefinível das mulheres como fonte de vida, entende e favorece a diversidade (como citado por Rivière, 2002, p. 266). Nesta linha discursiva, a escritora e jornalista Margarita Rivière, analisa o pensamento de muitas mulheres que entrevistou e defende que a proposta feminina para o futuro é a de um mundo mestiço, isto é, um mundo inclusivo em que caiba toda a diversidade (Rivière, 2002). As mulheres não impõem, mas propõem um mundo onde os diferentes modelos económicos, sociais, políticos e culturais convivam harmoniosamente, no respeito pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça social e dos direitos humanos.

Neste número da Revista Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, homenageamos Agustina Bessa-Luís, a ‘grande senhora das letras portuguesas’, como a qualificou o ensaísta Eduardo Lourenço (Lourenço, 2009). Na sua vasta obra ficcional, Agustina recorre com frequência à temática feminina, com personagens rebeldes, insubmissas e transgressoras, que assumem atitudes e comportamentos ditos como viris, invertendo papéis, desafiando estereótipos e contrariando as normas estabelecidas. Esta subversão dos valores vigentes poderia ser entendida como um protesto contra a injustiça e a repressão exercida sobre as mulheres pela sociedade patriarcal. No entanto, Lídia Jorge sublinha que, em Agustina, se encontra “uma espécie de sublevação em relação àquilo que, em geral, é o estereótipo feminino, fundamentado num contraditório ainda mais radical” (Jorge, 2009, p. 53). As suas figuras femininas que parecem impregnadas de um carácter a que geralmente se chama viril, ela chamá-las-ia “vencedoras, apenas no plano da representação, por compensação da perda no plano do real” (Jorge, 2009, p. 53). Mais feminina que feminista, a obra literária de Agustina representa um legado inestimável para as suas sucessoras e um campo largo de estudo e reflexão sobre a condição feminina para investigadoras/es e admiradoras/es. Nesta linha de pensamento, o escritor Eduardo Lourenço salienta que Agustina, com o romance A Sibila, “instaurou uma espécie de reinado da literatura feminina em Portugal; o universo da sua ficção, povoado de personagens femininas, indomáveis e imortais como ela, será recebido como herança natural pelas suas sucessoras” (Lourenço, 2009, p. 40).

A modesta homenagem que aqui prestamos a Agustina Bessa-Luís materializa-se nas fotografias que ilustram a capa e a contracapa deste número de Faces de Eva, no dossiê com os artigos que analisam três das suas obras, e com o poema Garra dos Sentidos, de sua autoria, oferecido a Mísia, que o cantou e incluiu no disco com o mesmo título, distinguido em França, em 1998, com o prémio Charles Cros. Para ela, que partiu este ano, deixamos também a nossa homenagem. A sua voz continuará connosco para nos encantar.

Referências Bibliográficas

Castro, Z. O. (1999). Apresentação (Presentation). Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher, (1-2), 1-7. [ Links ]

Jorge, L. (2009, Janeiro). A perspectiva da maga (The wizard’s perspective). Revista Ler, 76, 53. [ Links ]

Lourenço, E. (2009, Janeiro). A indomável (The indomitable). Revista Ler, 76, 40. [ Links ]

Rivière, M. (2002). O mundo segundo as mulheres (The world according to women). Ambar. [ Links ]

Aceito: 19 de Novembro de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons