Introdução
Ao longo da história, as mulheres religiosas, cristãs e católicas são descritas e narradas a partir de uma ideia de submissão vinculada a um suposto ordenamento transcendental e divino. Tal pressuposição tem como base os valores patriarcais do discurso teológico-institucional de fundamentação bíblica, em que o domínio masculino é indiscutível. Todavia, a condição dessa dominação masculina foi construída e firmada historicamente a partir de um processo de hierarquização religiosa e por se representar como tal em seus enunciados discursivos e em suas práticas de opressão e de conservação do statu quo estruturalmente estabelecido como religião. Embora esse discurso teológico-institucional, mesmo atualmente, continue a reforçar a ideia de que as mulheres devem se colocar em posição de submissão aos homens, temos que nos lembrar que as relações de poder são paradoxais e concorrenciais, uma vez que “as religiões são, ao mesmo tempo, poder sobre as mulheres e poder das mulheres” (Perrot, 2007, p. 80).
Tal como Bourdieu (1999), entendemos que a ordenação religiosa do mundo social surge de uma relação de poder concorrencial entre o ajustamento das novas contribuições dos diversos agentes sociais - considerando aqui a atuação e a contribuição das mulheres - e a conservação simbólica das relações de força vigentes - entendendo aqui a presença dominante dos homens na estrutura hierárquica do catolicismo (Klaumann, 2015). Assim, as mulheres que pertencem, especificamente, ao campo religioso católico e nele se inserem, não apenas se submetem, mas também buscam consolidar estrategicamente as suas posições e assegurar novos espaços de liderança distintos daqueles da oficialidade hierárquica, em vista de algum reconhecimento ou visibilidade dentro do seu próprio campo de atuação e em outros campos de poder e de saber em disputa.
De fato, cada campo constitui um campo de forças em constante disputa, onde se luta para preservar ou transformar essas dinâmicas. E no campo religioso católico, percebem-se as “relações de força entre os agentes e a instituição que lutam pelo monopólio da autoridade, que concede o poder de ditar as regras e de repartir o capital específico do seu campo de poder” (Bourdieu, 1983, p. 114). É nesse cenário que se desenrolam as estratégias dos agentes católicos envolvidos e, especificamente, das mulheres: as formas de expressão que elas defendem, as alianças que forjam e as novas formas de liderança que fundam, tudo isso é mediado pelos interesses específicos que são moldados por essa configuração de forças, a fim de garantir uma visibilidade de si e a viabilidade de suas novas contribuições ao campo religioso católico (Bourdieu, 2004).
A percepção dessas relações de força em que as mulheres se inserem ativamente no campo religioso torna-se mais nítida quando as relações de poder são analisadas também sob a perspectiva de gênero. Conforme propõe Joan Scott, a categoria de gênero pode ser assim conceituada:
(1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre a mudanças nas representações do poder, mas a mudança não é unidirecional. (Scott, 1995, p. 86)
Essa teorização do gênero como relações de poder surge por volta de 1980 e rompe com o determinismo biológico do gênero fortemente difundido no Ocidente pelo catolicismo e, posteriormente aprimoradas no século XIX por algumas correntes científicas. A partir do século XX, houve mudanças significativas para as mulheres: os valores do patriarcado começaram a ser cada vez mais questionados, e isso não foi diferente no campo religioso. O movimento feminista de “segunda onda”2, que colocou em cena o “pessoal como político”, provocou uma ruptura na mentalidade coletiva no que dizia respeito à participação feminina nos espaços públicos e de poder. De fato, foi a partir dos anos 1960 e 1970, quando explodiu a segunda onda, que as mulheres começaram a ser mais atuantes como líderes.
Neste artigo, apresentamos reflexões sobre os desafios enfrentados por mulheres em posição de liderança no campo religioso católico. O objetivo central é narrar a trajetória de Maria Rodrigues de Lima (Dona Terezinha) e de Sueli de Matos Azevedo como líderes religiosas das Incelenças de Barbalha, um grupo formado exclusivamente por mulheres religiosas, católicas, casadas e viúvas, em sua maioria, idosas, agricultoras aposentadas, semiletradas e analfabetas no extremo sul do Ceará. Elas estão ligadas por uma rede de relações de afinidades diversas, como vizinhança, parentesco, amizade e fé religiosa, em que é exigida delas uma conduta moral irrepreensível dentro das definições culturais locais, sobretudo das que exercem a função de líder.
É importante enfatizar que a reunião dessas mulheres em um grupo se deu em razão da partilha de um aspecto particular da vida rural e agrária: o ritual fúnebre do canto de incelências, um rito indispensável para vivos e mortos no contexto da vida cristã-católica que tem como finalidade salvar a alma das pessoas mortas e garantir-lhes o paraíso post mortem.
No contexto religioso católico-brasileiro, incelências é o nome dado a orações cantadas em voz triste e arrastada aos pés ou à cabeceira dos defuntos. É um ritual de passagem de caráter intervencionista que tem como finalidade última fazer com que a alma do recém-falecido, adulto ou criança, chegue em segurança ao Paraíso (Cascudo, 2023; César, 1975; Fernandes, 1938). Sabe-se que essa tradição fúnebre veio de Portugal, no período colonial, sendo um ritual indispensável dessa época (Reis, 1991).
Ao tomarmos as narrativas de Maria Rodrigues de Lima (Dona Terezinha), primeira líder do grupo, e de Sueli de Matos Azevedo como objeto de reflexão desse artigo, não temos como intenção esmiuçar o ritual por elas praticado, mas nos interessa refletir sobre a atuação delas como mulheres em posição de liderança de um grupo de tradição religiosa católica agenciadas pelo poder público municipal e estadual no extremo sul do Ceará.
Conforme as narrativas das mulheres, essa prática está presente no Sítio Cabeceiras3, local onde habitam as integrantes do grupo desde meados do século XIX, e vem sendo passada de geração em geração por meio da oralidade4. Elas são conhecidas nos meios de comunicação e nas publicações acadêmicas como um grupo de mulheres religiosas que cantam para os anjinhos (IPHAN, 2015; Lima, 2022a; Santos, 2017). Não se trata de um grupo que nasceu de forma genuína no Sítio Cabeceiras, mas que foi reinventado para atender às demandas da agenda cultural da Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio de Barbalha, Ceará5. Desse modo, conforme as proposições de Hobsbawm (1997) sobre tradição inventada, o Grupo de Incelenças de Barbalha não foi somente inventado formalmente e institucionalizado a partir de um passado real; ele foi também forjado.
De acordo com a narrativa das mulheres e com o dossiê elaborado pelo IPHAN, a primeira aparição em púbico do grupo recém-inventado ocorreu no final dos anos de 1980, na abertura dos festejos em devoção a Santo Antônio, padroeiro de Barbalha. As mulheres caminharam pelas ruas da cidade junto a um outro grupo de religiosos, também do Sítio Cabeceiras, os Penitentes Irmãos da Cruz, que já participavam dos festejos em devoção ao santo6. Ao que parece, a intenção inicial da Secretaria de Cultura e Turismo (Secult) era que as mulheres organizadas em um grupo denominado de Incelenças atuassem no cortejo como uma extensão da Irmandade de Penitentes Irmãos da Cruz ou, melhor dizendo, a sua “ala feminina” (Lima, 2022a).
Esse grupo de mulheres tem conquistado espaço nas apresentações culturais promovidas pela Secult, em reportagens, documentários e produções cinematográficas. No espaço acadêmico, tem sido alvo de investigação em diferentes áreas do conhecimento sob diferentes abordagens, como a função da música como componente mortuário e a invenção do Grupo de Incelenças (Lima, 2022a; Rocha, 2006). Mesmo não sendo a temática central em discussão, outras produções historiográficas da região do Cariri refletiram sobre a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, do Grupo de Penitentes, sobre o patrimônio cultural, sobre as narrativas relacionadas à morte e aos mortos na região do Cariri e sobre as construções de masculinidades e feminilidades entre penitentes e incelenças, apontando-se o grupo de mulheres e suas práticas rituais como significativas na construção de um imaginário religioso local (Bezerra, 2010; Carvalho, 2011; Lima, 2022b; Machado, 2014; Santos, 2017; Silva, 2021).
As reflexões que aqui queremos apresentar são outras e foram formuladas a partir de entrevistas de história oral produzidas entre os anos de 2013 e 2022 com Maria Rodrigues de Lima (Dona Terezinha), a primeira líder, e Sueli de Matos Azevedo, a atual líder do Grupo de Incelenças de Barbalha. Para Salvatici (2009), o uso da história oral com mulheres contribuiu para expandir as fronteiras da história, pois, ao perscrutar as suas memórias, é possível expor conflitos e tensões das relações de poder das “excluídas da história” não evidenciados por outros documentos. Desse modo, tecer reflexões sobre o Grupo de Incelenças de Barbalha colocando em cena mulheres como líderes religiosas, além de revelar os conflitos e as tensões inerentes às relações de poder no campo religioso católico, nos permite refletir sobre as formas de interferência e de expressão que elas defendem, as alianças que forjam, a visibilidade que alcançam nas estruturas hierarquizadas da sociedade e as novas práticas de liderança que as fundam no campo social e religioso católico (Bourdieu, 2004). Além disso, abordar as subjetividades dessas mulheres nos possibilita explorar a forma como elaboram as suas narrativas a partir do lugar de poder que ocupam.
Um grupo, duas lideranças
Na Figura 1, vemos Maria Rodrigues de Lima (06/12/1935-14/07/2020), a primeira líder do Grupo de Incelenças.
Maria Rodrigues de Lima, mais conhecida como Dona Terezinha, foi a ponte entre a Secult e as outras mulheres do Sítio Cabeceiras, o que fez com que fosse logo reconhecida como líder quando o grupo foi devidamente organizado. Maria também era chamada pelos habitantes do Sítio Cabeceiras e pelos agentes da Secult de “Terezinha de Chico Severo”, levando em seu apelido o nome do marido.
Chico Severo (10/02/1935-26/04/2013) foi Segundo Mestre Decurião dos Penitentes Irmãos da Cruz e, provavelmente, facilitou o acesso e o contato direto de Terezinha com os agentes da Secult. Apesar disso, neste artigo, ao mencionarmos ou citarmos as narrativas de Dona Terezinha, não nos referenciamos a ela como “de Chico Severo”, pois essa forma de nomeá-la reforça as relações hierárquicas de poder estabelecidas na ordem de gênero em que as mulheres são percebidas como propriedade de seus cônjuges e, por se encontrar no campo religioso das relações hierárquicas do catolicismo, remete também a uma ordem de submissão à instituição.
Machado (2015), ao analisar as relações de gênero no campo pentecostal brasileiro, destacou que o casamento na esfera religiosa também atua como uma forma de mobilidade social, facilitando o acesso das mulheres à vida pública. Elas adquirem status, “embora passem a ser conhecidas e respeitadas não por seus próprios atributos e atividades, mas pelo laço matrimonial. Ou seja, são as esposas dos pastores ou, no caso das denominações que já ordenam mulheres, as pastoras auxiliares” (Machado, 2015, pp. 143-144). Caso semelhante acontece com as mulheres do Grupo de Incelenças de Barbalha, ao serem definidas como “esposas dos penitentes” ou “ala feminina” do Grupo de Penitentes.
É importante destacar que, nas narrativas de Dona Terezinha, não identificamos incômodo pelo fato de o Grupo de Incelenças também ser conhecido como “as esposas dos penitentes”. Esse descontentamento do grupo por receber tal alcunha só aparece nas narrativas da segunda líder, conforme enfatizamos posteriormente. O certo é que, ainda que adjetivada na comunidade como “propriedade do marido”, Dona Terezinha soube usar da ocasião e desse status para se afirmar como líder do Grupo de Incelenças. Ela trabalhou diretamente em todo o processo de formação do grupo, ainda que sob o crivo da Secult, com a orientação do marido e seguindo os seus critérios. Seu primo de primeiro grau, Joaquim Mulato (1920-2009), celibatário e Primeiro Mestre Decurião do Penitentes Irmãos da Cruz, também teve influência na construção do grupo. A partir disso, Dona Terezinha definiu como as mulheres estariam trajadas, escolheu as mulheres na comunidade, pensou quais “benditos” cantariam e o que as diferenciaria do grupo masculino - os penitentes que já participavam da Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio desde o início dos anos 1970.
Entretanto, Dona Terezinha estava longe de ocupar uma posição passiva na constituição, na organização e na liderança do grupo. Em alguns trechos de suas narrativas, identificamos os usos que fez de seus micropoderes naquele campo de atuação em disputa, a exemplo da definição da quantidade de mulheres que deveriam compor o grupo. Conforme as orientações da Secult e do Decurião Joaquim Mulato, “diziam que era para ser doze e eu coloquei dezessete. (...) Agora tem doze, né? Mas se fosse eu ainda era as dezessete”7. Como se percebe, isso é jogar com o gênero e dar importância a um conjunto maior de representação de mulheres nos espaços de atuação e de poder, viabilizando ações de interferência e transformação social. “Os jogos de gênero são, também, o jogo como um equipamento; assim como os jogos de xadrez, são como um conjunto de peças à disposição dos atores políticos, para intervir no espaço público” (Capdevila et al., 2024, p. 164).
A narrativa de Dona Terezinha sobre a sua participação como líder do Grupo de Incelenças é rica em detalhes. Na ocasião da entrevista, ela recordou o que a fez escolher o modelo e cor das vestes que usariam, quem participaria e, principalmente, a atuação de sua sobrinha Sueli de Matos, a primeira criança a integrar o grupo como representante do anjo8. Dentro do ritual religioso, há incelenças que são cantadas somente para as crianças mortas, os anjinhos. No processo de invenção do grupo, as incelenças de Barbalha atuariam ritualisticamente nessa perspectiva, pois os penitentes já estariam encarregados de salvar a alma dos mortos adultos. Dona Terezinha recorda que “Sueli era um anjinho desse tamainho”, gesticulando com as mãos e indicando o tamanho de Sueli, que à época tinha quatro anos. Em seguida, explica:
(Ela) foi o anjo. Aí hoje ela é a chefe, né? Porque eu saí, não pude mais andar. Nunca mais andei. Tem muitos anos que eu não andei. Mas hoje é a mesma coisa, quando é no tempo das festas, a gente vai. Elas vão...”9.
Ao narrar o protagonismo de Sueli desde criança no Grupo de Incelenças, Dona Terezinha quis demonstrar que, ao deixar a liderança do grupo por problemas de saúde, soube escolher a sua sucessora: uma mulher que está no grupo desde a sua gênese. Entendemos que esse esforço em fazer de Sueli uma agente atuante desde muito cedo no Grupo de Incelenças serviu para justificar a sua trajetória e, consequentemente, a sua competência de estar na posição de líder. Como demonstramos mais adiante, Sueli enfrenta dificuldades em liderar o grupo por não estar na mesma faixa etária das outras integrantes.
Sueli nasceu em Campinas, São Paulo, em 1980. É a mais nova de duas filhas. Chegou ao Sítio Cabeceiras ainda criança, quando sua mãe, Francisca Rodrigues de Matos (Chica Loura 18/04/1942-30/03/2023) (Figura 2), retornou de São Paulo, lugar para onde migrou em busca de melhores condições de vida e trabalho. Natural do Sítio Cabeceiras e irmã de Dona Terezinha, Chica Loura, conforme é conhecida pelos habitantes do lugar, também fez parte do Grupo de Incelenças.
A infância e vida adulta de Sueli foi ao lado da mãe e dos familiares no Sítio Cabeceiras. É católica e, por muitos anos, atuou em sua comunidade como catequista, preparando crianças e adolescentes para a primeira comunhão e para o crisma. Cursou a Educação Básica, casou-se jovem com um rapaz da mesma localidade e dedicou parte de sua vida a ser dona de casa e agricultora. Posteriormente, fez um Curso Técnico de Enfermagem para conseguir prestar cuidados mais especializados à sua mãe, de idade já avançada. É mãe de uma filha e, antes dos 40 anos, tornou-se avó do Miguel. Até à escrita deste artigo permanecia como líder do Grupo de Incelenças.
A infância de Sueli ficou marcada pela sua passagem pelo Grupo de Incelenças como anjinho. A mãe de Sueli, que estava presente no dia da primeira entrevista, recordou com afeição que “num apareceu nenhum outro anjinho igual a ela. Ela é que enfrentava os palanques. Enfrentava, rezava os benditos. Quem tirava (iniciava o bendito) sempre era ela na Igreja”10. Essa lembrança, carregada pela repetição do verbo enfrentar, provoca uma reflexão sobre a atual condição de líder de Sueli no Grupo de Incelenças. Para sua mãe, essa ação é algo que está em Sueli antes mesmo de ela se tornar adulta. É uma forma de reafirmar a posição de liderança que a filha ocupa.
Sentadas lado a lado, as narrativas de mãe e filha se entrelaçam sem embaraço, como se estivessem a dançar uma valsa, a valsa da memória. Ao encontro das recordações da mãe, Sueli reconstrói a lembrança daquele momento de sua infância, enfatizando a vivência cotidiana que tinha com os rituais fúnebres e religiosos praticados pelos adultos do lugar e como se sentia naquela época. Ela assim se expressa:
Porque assim, quando a gente vai criada vendo aquilo, a gente num tem vergonha de maneira alguma de mostrar o que a gente sabe, né? E eu, de uma certa forma, fui criada ali junto com os Penitentes. Eu bem pequena, acho que com seis anos. Os Penitentes tinham um velório, quem disse que eu dormia. Dormia de jeito nenhum, passava a noite todinha ali no pé, ali junto com minha mãe vendo os Penitentes cantando e cantando também. Aí, quando a gente foi reconhecida pela cultura ali pra mim foi festa. Criança ou não vou mostrar o que eu sei.11
Antes de concluir essa lembrança, Sueli faz um salto no tempo e diz: “Hoje a gente tem um anjo, mas pergunte o que é Incelença, que ela não sabe. Tem vergonha.” Ela reafirma aqui o que sua mãe narrou anteriormente sobre ela enfrentar os palanques. Assim, conclui com a seguinte frase: “Ainda bem que tem as mais idosas que elas dizem: Não. Terezinha passou para ela, porque por ser a mais jovem e por ser de grupo uma das mais velhas, né? Tem umas que dizem assim, aí obedecem”12.
Nessas últimas frases, Sueli já começa a evidenciar, ainda que de forma tímida, que enfrenta dificuldades para manter a liderança do grupo e, ao que parece, para também preservar a sua autoridade. Ela faz questão de enfatizar que é a mais jovem entre as demais mulheres, sendo que é uma das mais antigas do grupo, o que, de certo modo, lhe atribui algum capital social e religioso diante das demais participantes. A sua narrativa recorre à figura de Dona Terezinha, primeira líder do grupo, que, após ficar impossibilitada de andar devido à sua idade avançada, passou à sobrinha a liderança.
O trabalho de liderança
Reconhecidas por preservar uma conduta moral e religiosa rígida, principalmente no que concerne às questões da vida sexual, as mulheres em posição de liderança no Grupo de Incelenças são submetidas à vigilância e ao julgamento moral da comunidade. No contexto daquele campo religioso católico, essas mulheres, por meio das canções de incelenças, afastam do meio dos vivos e encaminham ao mundo dos mortos a alma das pessoas falecidas. Todavia, com base nas narrativas analisadas para este artigo, a partir da invenção do Grupo de Incelenças, essas mulheres, em especial as líderes, passam a desempenhar outro tipo de trabalho. Elas não se restringem a encaminhar as almas dos falecidos no Sítio Cabeceiras e suas adjacências, mas assumem, principalmente, o agenciamento, o cuidado e o ensino dos benditos de incelenças às crianças da comunidade.
Cabe à líder do grupo gerenciar os recursos financeiros repassados pela Secult ou por qualquer outra instituição que solicite apresentação nas festividades locais. Os valores são divididos igualmente, quando não é feito em espécie após a apresentação. A líder fica com a obrigação de ir até à cidade para sacar o dinheiro depositado em sua conta pessoal, para só então fazer o rateio entre as demais mulheres. Toda e qualquer comunicação que ultrapasse os limites geográficos do Sítio Cabeceiras é de sua responsabilidade. Entrevistas com pesquisadores, jornalistas, gravação de reportagens, documentários ou visitas à comunidade são agendados diretamente com Sueli. A partir disso, ela mobiliza as outras mulheres e define se estarão ou não trajadas, qual a roupa, se o evento é no Sítio ou em outro local, a que horas o carro chega, para qual cidade ou local irão. Se o evento ocorre fora das Cabeceiras, ela preza por manter o grupo junto, gere o horário do lanche e a água para as demais integrantes. E, principalmente, é a pessoa que começa a cantar os benditos para que as demais mulheres respondam em coro ao refrão das incelenças.
Destacar as especificidades das tarefas desempenhadas pela liderança do Grupo de Incelenças tem como foco refletir sobre práticas concretas das mulheres na sociedade. Uma mulher, mesmo estando em uma posição de liderança, não consegue se desvencilhar da demanda do cuidado, especialmente quando está envolvida diretamente com pessoas com as quais tem laços de parentesco. Sueli é enfática e usa a palavra “zelo” ao lembrar como cuida das mulheres mais idosas do grupo:
Por exemplo, tem mãe com oitenta anos que o maior prazer que ela sente é de participar do grupo, e o trajeto às vezes é longo, o transporte também não é muito favorável pra idade, né? Aí ela já fica triste. Aí eu até entro, vamos assim dizer, num conflito aqui com ela, porque ela diz que vai e eu digo que ela não vai. Porque eu não quero judiar, né? Porque de uma certa forma, por mais que ela seja minha mãe, mas ali quem tá falando é a líder do grupo e também uma filha que tá zelando. Assim como eu zelo dela também tem mais três, tem mais duas que eu por muitas vezes não levo elas porque esse desconforto para elas, tanto no transporte como no andar.13
No meio de toda essa demanda de ordem burocrática, ainda há a demanda do cuidado. Por ser um grupo formado em maioria por senhoras idosas, Sueli narrou que vem tentando resguardar as mais idosas das apresentações que exigem enfrentar longas distâncias e percorrer estradas perigosas. O acesso antecipado ao dia, ao local e ao horário, assim como o contato direto com o motorista, permite a Sueli fazer uma seleção antecipada das integrantes.
Quando lhe perguntamos se, por ser mais jovem, já teve a liderança questionada pelas demais mulheres do grupo, ela assim vinculou sua liderança à sua disposição de cuidar e de zelar:
Já, já aconteceu e eu falo. Foi entre o grupo mesmo, justamente como eu falei anterior, que eu quero zelar por elas, quero preservar a saúde das idosas e tem muitas que não entende, como hoje mesmo mãe falou, né? parou na época de Zinha, que é minha tia Terezinha, era dessa forma e você tá mudando. E teve outros encontros que as idosas fica chateada comigo, não entende mas diz que na época de tia Terezinha elas iam para todo canto e não tinha esse negócio de escolher, mas eu não escolho, eu apenas quero preservar elas.14
Podemos observar que a narrativa de Sueli está permeada pelo seu trabalho de cuidado e de zelo com as mulheres mais velhas do grupo. O que de fato não apareceu na narrativa de Dona Terezinha, quando perguntada sobre o mesmo assunto, foi a sua atuação na invenção do Grupo de Incelenças. Nesse ponto, cabe lembrar o que nos foi apontado por Pollak sobre o fato de a entrevistada retornar várias vezes ao mesmo acontecimento durante uma entrevista. Ele nos diz que essas ocorrências
(...) devem ser consideradas como instrumentos de reconstrução da identidade, e não apenas como relatos factuais. Por definição reconstrução a posteriori, a história de vida ordena acontecimentos que balizaram uma existência. Além disso, ao contarmos nossa vida, em geral tentamos estabelecer uma certa coerência por meio de laços lógicos entre acontecimentos chaves (que aparecem então de uma forma cada vez mais solidificada e estereotipada) e de uma continuidade, resultante da ordenação cronológica. Através desse trabalho de reconstrução de si mesmo o indivíduo tende a definir seu lugar social e suas relações com os outros. (Pollak, 1989, p. 13)
De fato, a narrativa de Sueli sugere uma tentativa, ainda que implícita, de construir sua identidade em um dos espaços socialmente valorizados, tanto pelos homens quanto pelo sistema patriarcal vigente: o lugar do cuidado e do zelo. Ao negar explicitamente o papel de “esposa de penitente” - uma posição amplamente aceita e reconhecida na comunidade do Sítio Cabeceiras -, Sueli parece buscar uma forma alternativa de legitimação social. Ela o faz ao se afirmar como líder do grupo, assumindo os papéis de “boa mãe” e “boa filha”, figuras idealizadas que se dedicam integralmente ao cuidado dos familiares e daqueles que lhes são próximos.
Essa postura narrativa adotada por Sueli não é aleatória; ela reflete e reproduz uma das expectativas sociais mais arraigadas em relação às mulheres dentro da ordem hierárquica de gênero. Ao se colocar como cuidadora e zeladora, Sueli não apenas reforça um estereótipo historicamente associado ao feminino, mas também demonstra uma forma de submissão e obediência às normas patriarcais que regem sua comunidade. Embora ela rejeite um papel tradicional específico (“esposa de penitente”), acaba por adotar outro que, de modo igualmente significativo, a insere em uma dinâmica de poder que privilegia a valorização do cuidado como atributo feminino por excelência.
Essa dualidade na construção identitária de Sueli - entre a rejeição de um papel e a adoção de outro - é interpretada aqui à luz de teorias de gênero que discutem a internalização das normas e o controle de mulheres. A partir de uma performatividade de gênero e de uma ética do cuidado como uma construção culturalmente associada às mulheres, podemos compreender como Sueli, mesmo ao buscar uma posição de liderança, acaba por reproduzir padrões que a mantêm vinculada a uma estrutura de dominação masculina.
Assim, a narrativa de Sueli não apenas revela uma tentativa de afirmação pessoal, mas também evidencia as complexidades e contradições inerentes à construção de identidades de mulheres em contextos marcados por fortes expectativas de gênero. Sua escolha do papel de cuidadora, embora aparentemente lhe proporcione autonomia, pode ser vista como uma estratégia de sobrevivência social que, paradoxalmente, a mantém presa a uma lógica patriarcal que limita as possibilidades de autonomia e reconhecimento pleno das mulheres.
Uma questão de gênero...
Historicamente, os espaços de poder e de privilégio na sociedade têm sido ocupados por homens. O protagonismo das mulheres em posição de liderança no campo religioso ainda é uma realidade escassa, sobretudo no catolicismo, visto que o exercício do sacerdócio lhes é inacessível. Assim, instituições como a Igreja Católica atuam de modo a perpetuar normas que legitimam e reforçam a hierarquia de gênero, tornando essa desigualdade os pilares de seus fundamentos (Perrot, 2007).
No contexto social em estudo, a reprodução de uma ordem hierárquica religiosa é perceptível desde a fundação do Grupo de Incelenças. Os homens definiram e estabeleceram quais espaços essas mulheres poderiam ocupar, quer no âmbito da prática ritual, quer durante as apresentações em público. Eles, os homens, tiveram todo um cuidado para preservar a sua centralidade diante das atenções do público.
Sueli Matos relembra episódios em que o Grupo de Incelenças de Barbalha era constantemente mencionado e colocado como algo de segunda ordem/categoria, talvez por ser integrado pelo segundo sexo. Ela diz:
Teve uma época quando tia me passou a liderança, e às vezes a gente ia para os lugares e as pessoas não falavam o Grupo de Incelenças, falava as mulheres dos penitentes, falava as alimentadoras de vozes. Isso ali já foi me deixando um pouco constrangida”15.
A preservação da ordem hierárquica entre esses grupos de religiosos está presente desde a definição de quais “benditos de incelenças” essas mulheres podem cantar até à organização em que elas saem em cortejo no dia da Festa de Santo Antônio, atrás dos homens, e não à frente ou ao lado deles.
No caso aqui em exame, os penitentes Irmãos da Cruz detêm o poder sobre o Grupo de Incelenças. São validados socialmente por meio dos seus mestres (que ocupam o papel de líderes) como os únicos que têm acesso ao saber e ao sagrado. Esse poder se manifesta entre esses religiosos no âmbito público e privado; porém, é importante destacar que, pelo menos no que diz respeito à esfera pública, o grupo de mulheres encontrou formas de resistência às hierarquias impostas ao Grupo de Incelenças. Sueli destaca:
Eu digo: não. Enquanto grupo a gente existe, a gente tem o nosso grupo, a gente tem uma identidade e por que não? Aí eu fui e lutei contra isso. E todos os encontros que tinha da cultura, até mesmo com o gestor da cidade, eu bati de frente, eu falei para eles: ou vocês fazem uma apresentação de forma individual e usa o nosso nome Grupo de Incelência ou então a gente não vai mais aceitar, eu não vou mais aceitar ser chamada de mulher de penitente e nem de alimentadora de vozes, não.16
Como se pode depreender, Sueli questiona padrões de comportamento que relegam a ela e às demais mulheres do grupo a posição de coadjuvantes do grupo masculino dos penitentes. Enquanto Dona Terezinha reafirma a posição de esposa de penitente, Sueli a questiona e a recusa. Entre a forma de atuação das duas líderes, percebe-se que há um jogo de poder e uma forma de negociação que garantiram a visibilidade de si e a viabilidade de suas lideranças naquele campo religioso fortemente masculinizado. Para Dona Terezinha, foi oportuno se afirmar como esposa de um Mestre Decurião. Essa posição a fez ser procurada pela Secult. Mesmo sob orientação e supervisão do grupo masculino, Dona Terezinha revela em sua narrativa que também pôde agir sorrateiramente para ir contra as determinações dos homens. Ela diz: “Eu coloquei dezessete, diziam (os homens penitentes) que era pra botar só doze, mas eu botei dezessete, e se fosse hoje eu colocaria era mais”17.
Enquanto isso, Sueli tem uma trajetória que difere da de Dona Terezinha, pois a sua entrada nas práticas religiosas não foi admitida por meio da autoridade e do reconhecimento dos homens, e sim projetada por uma mulher que já estava em uma posição de liderança. Além disso, o Grupo das Incelenças é atualmente reconhecido e institucionalmente legitimado, dispensando a necessidade da aquiescência dos penitentes. Essa legitimação do grupo surge desse processo de mudança e renegociação reivindicado pelas lideranças dessas mulheres que estabeleceram novas práticas de organização e vivência no interior do campo religioso e que instauraram, conforme salienta Klaumann (2015),
certas “virtualidades heréticas” a serem admitidas e consumidas pela população e por parte dos especialistas da fé católica, compondo o cenário relacional, conflitivo e concorrencial da economia das trocas simbólicas dos campos religioso e político daquela região. Enfim, há o aparecimento de uma nova ordem arbitrária das coisas e aprimora-se e se mantém, pela apropriação ou pelo ajustamento de certas virtualidades - quando não rompe -, o sistema de dominação simbólica. (Klaumann, 2015, p. 586)
Após anos de existência do grupo, é possível perceber, portanto, a construção de uma identidade das incelenças por conta dessas lideranças e de suas “virtualidades heréticas”, o que exigiu o reconhecimento de sua autonomia em relação ao Grupo dos Penitentes. Esse processo teve início com as negociações de Dona Terezinha durante a criação e formação do Grupo das Incelenças, ainda que limitadas pelas figuras do marido e do primo.
Conclusão
Ao refletirmos sobre o protagonismo das mulheres em posição de liderança no Grupo de Incelenças de Barbalha, Ceará, a exemplo dos casos de Dona Terezinha e Sueli de Matos Azevedo, entendemos que a força de resistência e a presença real das mulheres no campo religioso católico, atuando em seus mais diversos organismos e espaços de poder, revelam outra faceta que serve para pensarmos a emancipação e a liderança de mulheres naquele campo de poder. Embora muitas vezes invisibilizadas, o que se nota é que há uma forte e significativa atuação de mulheres que não são reconhecidas e que não pertencem efetivamente à estrutura hierárquica da Igreja Católica, mas se mostram muito presentes, atuantes e abundantes como liderança, resistência e influência nos espaços de micropoderes, seja para reforçar o statu quo da oficialidade católica e corroborar a hierarquização de gênero, seja para fazer frente e estabelecer um contrapeso nessa força hierárquica. Afinal, as relações de poder não são tão hegemônicas, monolíticas e absolutas que não sejam afrontadas por outras formas de resistência e outras formas de liderança e interferência que também são, por isso, negociadas e assumidas pela hierarquia eclesiástica, mesmo que invisibilizadas.
















