Ecofeminismo: a Terra como Corpo, o Corpo como Terra
O Ecofeminismo1, enquanto corrente teórica, postula que a exploração da natureza e a opressão das mulheres partilham as mesmas raízes: uma estrutura de pensamento patriarcal, colonial e capitalista que objetiviza, domina e extrai. Greta Gaard (1993) traça o percurso do Ecofeminismo, sublinhando esta conexão e o principal desígnio deste movimento que tem ganhado protagonismo, ao longo das últimas décadas, nos Estudos Literários e Culturais:
Drawing on the insights of ecology, feminism, and socialism, ecofeminism’s basic premise is that the ideology which authorizes oppressions such as those based on race, class, gender, sexuality, physical abilities, and species is the same ideology which sanctions the oppression of nature. Ecofeminism calls for an end to all oppressions, arguing that no attempt to liberate women (or any other oppressed group) will be successful without an equal attempt to liberate nature. (Gaard, 1993, p. 1)
Sublinho que esta “ideologia unificada” pode ser criticada, e tem vindo a sê-lo. Eis alguns pontos de contestação: (a) Não demonstra a História que o racismo moderno e a exploração capitalista da natureza surgiram em contextos históricos específicos e interagiram de formas complexas, em vez de derivarem de uma única fonte?; (b) Como é que se explicam casos em que a opressão das mulheres e a opressão da natureza entram em conflito, por exemplo, em projetos de conservação ambiental que expulsam comunidades indígenas (incluindo mulheres) das suas terras tradicionais? Neste caso, uma visão “pura” da natureza é posta em oposição ao bem-estar de um grupo humano; c) Esta visão não corre o risco de romantizar a natureza (vendo-a como uma vítima passiva e benevolente) e, ao mesmo tempo, infantilizar as mulheres ao associá-las inextricavelmente a um princípio “natural”?
O Ecofeminismo enfatiza a relação entre exploração da natureza e opressão feminina, apoiando ambas numa longa tradição cultural patriarcal. No ensaio Woman and Nature. The roaring inside her (1978), um dos textos fundadores do Ecofeminismo, a filósofa e feminista norte-americana Susan Griffin revela como o patriarcalismo instrumentalizou a linguagem, a ciência e a religião para dominar as mulheres e a natureza. O facto de estas se encontrarem mais próximas da natureza decorre, na sua perspetiva, do afastamento que o homem estabeleceu com o mundo natural:
He says that woman speaks with nature. That she hears voices from under the earth. That wind blows in her ears and trees whisper to her. (…) But for him this dialogue is over. He says he is not part of this world, that he was set on this world as a stranger. He sets himself apart from woman and nature. (Griffin, 1978, p. 1)
Contrastantemente, as mulheres reivindicam essa conexão com a natureza e a sua proximidade com animais (não humanos): “We are the rocks, we are the soil, we are trees, rivers, we are wind, we carry the birds, the birds, we are cows, mules, we are horses” (Griffin, 1978, p. 48). A associação mulher-natureza é muito antiga na cultura, na linguagem e na história, como observa Carolyn Merchant (1983). Mas talvez não seja por acaso que Griffin associa as mulheres a animais domesticados. Do ponto de vista antropológico, tal ligação opõe natureza e cultura, subalternizando a mulher:
Anthropologists have pointed out that nature and women are both perceived to be on a lower level than culture, which has been associated symbolically and historically with men. Because women’s physiological functions of reproduction, nurture, and childrearing are viewed as closer to nature, their social role is lower on the cultural scale than that of the male. Women are devalued by their tasks and roles, by their exclusion from community functions whence power is derived, and through symbolism. (Merchant, 1983, p. 153)
A obra poética de Maria Teresa Horta desconstrói esta assunção. A mulher jamais surge desvalorizada: a coletânea Mulheres de Abril integra mulheres-a-dias, operárias, camponesas, esposas assassinadas pelos maridos, mulheres grávidas despedidas, que aqui adquirem um estatuto heroico. A ligação do universo feminino à natureza não potencia uma hierarquização que inferioriza a mulher, mas representa uma forma de a colocar num plano de igualdade com o sexo oposto. A antinomia natureza-cultura está também apartada desta poesia, onde a natureza é lugar de revelação, de conhecimento, de sabedoria e de promoção de uma ética do cuidado.
Similarmente, o Ecofeminismo rejeita a subalternização histórica da mulher, da natureza, dos animais não humanos e do corpo. Greta Gaard analisou o modo como a tradição intelectual ocidental construiu diversos dualismos hierárquicos - homem/mulher; razão/emoção; cultura/natureza; mente/corpo - nos quais o primeiro termo é valorizado e o segundo desmerecido. Tal estrutura simbólica não é neutra, mas sustenta práticas de dominação sobre aquilo que é associado ao feminino, à natureza, aos animais não humanos e ao corpo. O Ecofeminismo tem como objetivo desconstruir tais dualismos e demonstrar que a feminização da natureza (como algo passivo que deve ser controlado) e a naturalização da mulher (como parte do domínio instintivo) serviram para legitimar o controlo e a exploração de ambas:
the way in which women and nature have been conceptualized historically in the Western intellectual tradition has resulted in devaluing whatever is associated with women, emotion, animals, nature, and the body, while simultaneously elevating in value those things associated with men, reason, humans, culture, and the mind. One task of ecofeminists has been to expose these dualisms and the ways in which feminizing nature and naturalizing or animalizing women has served as justification for the domination of women, animals, and the earth. (Gaard, 1993, p. 5)
Em sentido idêntico, Val Plumwood destaca o contributo do Ecofeminismo para a discussão acerca da conexão entre subjugação feminina e subjugação da natureza: “Ecofeminism has contributed a great deal both to activist struggle and to theorising links between women’s oppression and the domination of nature over the last two decades” (1993, p. 1).
De acordo com a perspetiva ecofeminista, na obra poética de Maria Teresa Horta, o corpo feminino nunca é um corpo individual e dominável, como bem se revela em “Basta” (de Mulheres de Abril - 1976):
- digo -
que se faça
do corpo da mulher
a praça - a casa -
a taça
A ÁGUA
Com que se mata
a sede
do vício e da desgraça
(Horta, 2009, p. 448)
O corpo constitui um território político, um campo de batalha, mas também um ecossistema pulsante, no qual surgem de modo intensivo imagens que fundem elementos biológicos, botânicos e geológicos. O corpo é “aquário” (Horta, 2009, p. 406); o pescoço é “caule / a ligação do corpo / com o qual se une / em seu vagar / se verga e entorpece aos poucos” (Horta, 2009, p. 405); o púbis é “dália dormente / largada sobre o corpo”, “guelra do corpo / a respirar a névoa” (Horta, 2009, pp. 415-416); a vagina é “cálida flor”, “feltro das pétalas” e “flor carnívora voraz do próprio suco” (Horta, 2009, p. 417); os corpos cheiram “a musgo / a líquen, a raízes perdidas” (Horta, 2009, p. 667); o ser amado é “minha foz / de lava e lume // Eu sou o rio de águas separadas” (Horta, 2009, p. 707).
Estes exemplos revelam o deslocamento da experiência feminina de um confinamento sociológico para um plano universal e natural, no qual, ecoando a premissa do Ecofeminismo, o que a cultura patriarcal faz com o corpo das mulheres é o mesmo que realiza sobre os ecossistemas: ambos são cercados, dominados, silenciados e controlados. Negando estes mecanismos de dominação do corpo feminino, a poetisa converte-o num território e pratica um exercício de restituição ecológica.
O ethos ecológico da poesia de Maria Teresa Horta é visceral nas coletâneas poéticas. O corpo poético é lugar de erosão, de fertilização, de turbulência e de acalmia, refletindo os ciclos naturais da Terra. A sensualidade, tópico central da obra poética de Maria Teresa Horta, é associada a uma naturalidade - com frequência a uma animalidade - que a aparta da moralidade repressiva e a religa a impulsos vitais e primordiais. A própria o confessa em “Ardente” (de Inquietude - 2006): “Distancio-me daqueles que me querem / regida por leis que contrariam / o sonho a poesia e a quimera” (Horta, 2009, p. 767).
Nesta lógica, se o corpo feminino surge associado a impulsos primários e naturais, o patriarcado representa o artificial, o estéril e o cortante, traduzidos em termos como “asfalto”, “aço” e “grades”. A resistência - da Mulher e da Natureza - assenta, portanto, na reafirmação do biológico, do orgânico e do indomável. Mulher e Natureza são entidades analogamente indomáveis na poética de Maria Teresa Horta.
Amor: ecologia do corpo
A representação do amor concorre também para uma poética de integração entre o humano e o natural. Tome-se como exemplo a composição “O amor” (da coletânea Cidadelas Submersas - 1961):
Diremos o amor
em cada pedra
O homem parou
as mãos
no horizonte
e o sol foi-lhe
central no cérebro.
[…]
Diremos o amor
em cada nada
repetindo luz
nas pedras
com mãos de água
na verticalidade
alada
de raiz
sem órbita
(Horta, 2009, pp. 77-78)
Dito nas pedras, no nada, com mãos de água, o amor não é separado da matéria e da Terra; constitui um princípio vital que perpassa todos os elementos. Nesta visão ecológica da existência, o humano não a domina, mas participa de um continuum de vida e de energia. A “verticalidade alada / de raiz / sem órbita” é a representação imagética do crescimento e da conexão da árvore que sobe sem se desligar da terra. Esta verticalidade enraizada e alada aponta para uma ecologia de equilíbrio entre o alto e o baixo, o espiritual e o material.
Na leitura ecofeminista, o sujeito poético, porque vai além de uma mera descrição da natureza, subverte a tradição patriarcal que separa o homem da Terra e do corpo feminino: a mulher não domina a natureza; ela é natureza, móvel, fluida e relacional. As suas “mãos de água” convocam o toque, a fertilidade e a capacidade de gerar e de cuidar.
Esta proposta do amor como conhecimento e comunhão reconhece o que é invisível, pequeno ou marginal (justamente o que uma cultura patriarcal exclui). Através de uma dissolução de fronteiras entre Humanos e Natureza, de uma exaltação do amor como energia cósmica e de uma forma de amar enraizada, sensível e relacional, a composição cumpre valores ecofeministas. “Dizer o amor” é um ato ecológico e político que reata laços com o mundo natural e com o princípio feminino que o habita.
Também na composição poética “Chuva” (de Jardim de Inverno - 1966) é clara uma abordagem ecofeminista:
Saboreio devagar
o inverno desta chuva
a temperatura curvada
e madura duma nuvem
da cinza bronze dos lagos
estagnados nos passeios
a água destinada
à chuva
que saboreio
(Horta, 2009, p. 244)
A afirmação inicial corresponde a um comportamento que não se limita a observar - ação exterior - mas incorpora sensorialmente um elemento natural, subvertendo a separação entre sujeito e mundo. Trata-se de uma ecologia da experiência através da qual a natureza é vivida (não dominada) em gestos acolhedores (sugeridos pela expressão “temperatura curvada”). Corpo e nuvem partilham a maturidade do tempo - ambos são férteis e em constante mutação. Esta consciência dos ciclos da matéria - da água dos lagos que retorna a chuva num movimento infinito de renovação - celebra a circularidade natural e os gestos de prazer de quem saboreia demoradamente. Uma vez mais, o corpo feminino une-se ao corpo da terra, e a composição aponta para um erotismo da natureza. Não para um erotismo antropocêntrico, pois na poesia de Maria Teresa Horta a relação sexual é descrita como um processo ecológico de absorção, devoração e transformação mútua, sem hierarquia. Na relação amorosa, não há sujeito e objeto, há um ciclo metabólico onde ambos são natureza. Desde logo, a mulher liga-se sensorial e igualitariamente à natureza: sentir prazer é, aliás, aceder ao conhecimento assente numa conexão entre corpo e natureza. É nesse mesmo sentido que, por exemplo, em “Sensação” (de Cidadelas Submersas), ecoam também os princípios fundamentais do Ecofeminismo:
A terra é-me
nos lábios
todas as maçãs
de sol nacarado de água
[…]
Todas as aves
que de seios
a madrugada
absorveu de tempo
[…]
Mar de plantas
com raízes de brisa e de mulher
(Horta, 2009, p. 89)
As experiências sensoriais privilegiam a sinestesia e a fusão de imagens, desmantelando dualismos: sujeito/objeto, corpo/natureza. Se a terra se torna uma sensação nos lábios, se os seios são a origem das aves e se a mulher é a raiz das plantas, o texto propõe uma experiência de interconexão. Poder-se-á afirmar que, muito mais do que uma descrição da relação do corpo feminino com a natureza, a composição oferece um modelo de identidade ecológica em que o ser humano se reconhece como parte do mundo natural. Ao fazer da terra uma sensação nos lábios, dos seios a origem das aves e da mulher a raiz das plantas, o poema propõe uma epistemologia baseada na interconexão e uma dissolução entre os limites do corpo humano (mais rigorosamente, do corpo feminino) e o ambiente natural. Tal proposta desestabiliza os dualismos hierárquicos que caracterizam o pensamento ocidental patriarcal e antropocêntrico (cf. Plumwood, 1993).
A experiência sensorial apresentada em “Sensação” abre com uma declaração ontológica radical: o elemento terra não se situa fora do sujeito, funde-se com ele através do paladar, e os lábios são recetores disponíveis para a acolher. O poema restaura a noção de “carne do mundo”2, a primazia das perceções sensoriais, através das quais, numa acentuada perspetiva empirista, o ser humano se envolve com tudo o que o rodeia:
Sensorial dimension of experience brings with it a recuperation of the living landscape in which we are corporeally embedded. As we return to our senses, we gradually discover our sensory perceptions to be simply our part of a vast, interpenetrating webwork of perceptions and sensations borne by countless other bodies (Abram, 1996, p. 82).
Numa leitura ecofeminista, são especialmente significativos os versos “Todas as aves / que de seios / a madrugada / absorveu de tempo”, pois o corpo feminino representado pelos seios integra-se no ciclo cósmico e natural. Como fonte de vida, os seios são símbolo da nutrição. Aliás, logo o segundo segmento - “Todas as aves / que de seios / a madrugada / absorveu de tempo” - reforça as potencialidades ecofeministas, porquanto o corpo feminino (os “seios”) não é um objeto isolado, mas um elemento integrante do ciclo ecológico e cósmico. Os ritmos naturais - plasmados na alvorada - são associados aos ciclos biológicos femininos (metaforizados na lactação). Nos três últimos versos do excerto citado, a expressão “Mar de plantas / com raízes de brisa e de mulher” representa uma síntese absoluta das anteriores fusões: o “mar de plantas” remete para uma fertilidade imensa, com raízes que estão no solo, mas também na leveza do ar. As raízes, espiritualizadas e desmaterializadas, tornam-se um elemento etéreo, como imagem de unidade que também define a mulher.
Em outro poema, “Saudade”, bastam três versos - “Tenho no corpo a / secura / e toda a aspereza da terra” (Horta, 2009, p. 244) - para sugerir uma outra conexão: aquela que se estabelece entre o corpo e a terra árida. O corpo feminino, agora privado do fluxo e da fertilidade proporcionados pela água - metáfora do desejo, da emoção e da Vida -, incorpora um desequilíbrio natural: o corpo torna-se extensão de uma terra ferida, convertendo-se, em leitura ecofeminista, em ecossistema degradado. A leitura pela lente do Ecofeminismo permite aqui considerar que a secura da terra reflete as consequências materiais e simbólicas do patriarcado: o corpo - da Mulher e da Terra - perde vitalidade quando subjugado à lógica da dominação, quando esgotado pela cisão entre o ser humano e a natureza.
Em “Sensação” e “Saudade”, é evidente uma poética do ciclo ecológico como metáfora da condição feminina. No primeiro, corpo e natureza fundem-se em comunhão erótica e regeneradora; no segundo, a quebra dessa união revela a esterilidade simbólica resultante da desconexão com o mundo natural e com o próprio corpo. Uma cultura de separação conduz a um empobrecimento - existencial e ambiental - e deixa de reconhecer no corpo feminino a matriz da vida e da ecologia (pressupostos fundamentais do Ecofeminismo).
A cisão entre homem/razão e mulher/natureza - que Susan Griffin identifica com a cultura ocidental patriarcal - é refutada por Maria Teresa Horta, desde logo nestas duas composições poéticas, pois ora se assiste a uma reconciliação sensorial entre corpo e água (que encena o retorno a uma unidade primordial), ora se desenham as consequências negativas dessa cisão quando a terra e o corpo feminino são privados de fluidez e reduzidos à secura.
Com frequência na sua obra poética, também o encontro amoroso é descrito como fusão de corpos humanos com a terra, erotizando a relação com o não humano como modo de intimidade vital. Na composição poética “Infinito” (da coletânea Cidadelas Submersas), revela-se uma estética da incorporeidade: a reciprocidade expressa em versos como “os teus braços em redor da terra / e a terra em redor dos meus joelhos” traduz uma ontologia relacional através da qual os corpos humanos se inscrevem na materialidade terrestre. A dimensão cósmica e sensual do texto plasmada nos versos “a saliva das estrelas” e “o infinito louco / dos desejos” aponta para uma erotização do cosmos, numa orientação ecoerótica que associa o desejo e o inscreve na Natureza. O “infinito” torna-se, assim, uma poética de reconciliação entre o desejo humano e a vitalidade telúrica:
O indistinto
é como nos teus olhos
a saliva das estrelas
Balões de ócio
amarelo
a caminharem de serem
Como os teus braços
em redor da terra
e a terra em redor dos meus joelhos
como o infinito
rouco
dos teus beijos
o infinito louco
dos desejos
(Horta, 2009, pp. 84-85)
Se o encontro dos amantes pode ser lido pelo viés ecofeminista, o amor filial contém também sugestões articuladas com tal orientação, num exemplo paradigmático representado na composição “Mãe” (de Espelho Inicial - 1960):
mãe
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas
tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam de existires
perdi-me noite na planície
branca
sobrevivente das madrugadas
da memória
trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te um naufrágio
de flores cansadas
e o único jardim de amor
que cultivei de navios ancorados ao espaço
(Horta, 2009, pp. 53-54)
“Mãe” é um relato de perdas, num tom elegíaco que articula o luto pessoal (pela ausência da figura materna) com o luto ecológico, associado a uma crítica social à urbanização. A morte das plantas não resulta somente de um acidente natural, resultando sobretudo dos efeitos de subordinação da terra e do feminino a regimes de exploração, diante dos quais se manifestam gestos de cuidado e de perpetuação da memória - cultivar um jardim e tatuar uma imagem - que são modos de resistência simbólica. Conjugam-se na composição imagens corporais - pulsos, mãos e ancas - com paisagens naturais - planícies brancas e espaços marítimos. A Natureza é lugar de memória e de sobrevivência, mas surge ameaçada pela alienação ecológica trazida pela urbanização: as “ruas de ancas verticais” antropomorfizam a cidade e apresentam uma corporeidade desestabilizadora: do corpo-terra/mar para o corpo-edifício urbano.
A figura materna é o eixo da composição. Na leitura ecofeminista, a mulher, a mãe e a natureza são associadas metaforicamente: a mãe é mulher e terra, cuidado, alimento e dedicação. Tatuar a sua imagem é uma tentativa de perpetuar a sua memória, idealizada agora em figura angelical. Todavia, evidencia-se um sofrimento pungente de perdas: da mãe e da terra. O afeto pela mãe é indissociável da ligação à terra; a mãe torna-se memória, mas ainda inscrição no corpo da filha; a mãe é fertilidade, mas a sua ausência faz temer o abandono de uma ética de cuidado do jardim - também ele símbolo de fertilidade.
Epílogo de uma Terra viva: a Mulher
Ler a poesia de Maria Teresa Horta numa perspetiva ecofeminista não significa forçar uma agenda ecológica na sua obra. Pelo contrário, desvenda uma camada profunda, embora por vezes ofuscada pelo impacto da sua mensagem política, constituída por um projeto que visa mudar não apenas as relações de poder entre géneros, mas a forma de estar no mundo. Na sua poesia, o corpo feminino, a palavra e a natureza conspiram entre si para derrubar muros de dominação, que a poesia lírica “Liberdade” condensa numa poderosa visão afetiva da mulher como força vital e geradora, tanto da vida humana, quanto da continuidade do mundo natural. Origem e elevação, raiz e cume, a mulher é sustentáculo e transcendência; força silenciosa e contínua que sustém a beleza e a fecundidade da vida; lugar de criação, de repouso e de energia, eixo vital do mundo, que resiste à invisibilidade e ao silenciamento: “Em liberdade somos / nós mulheres o cimo / da raiz” (Horta, 2009, p. 470).














