Introdução
Os Estados Unidos da América (EUA) detêm mais de 800 bases em território estrangeiro, realizaram mais de 500 intervenções militares entre 1776 e 2017 e interferiram em 81 processos eleitorais ou políticos entre 1946 e 20002. Mas o Estado mais poderoso do planeta exibe, através de lideranças e elites, desde a sua fundação, medos ou receios existenciais vários, desde nativos americanos, impérios em declínio, ambições de dominação soviética, «teorias de dominó», a pujança das economias ocidentais ou asiáticas, os planos de Saddam ou o terrorismo jiadista. Na atualidade, temores estratégicos dedicam-se à China, à Rússia, ao Irão ou à Coreia do Norte, às «guerras comerciais» com rivais e aliados, crises pandémicas, alterações climáticas, à defesa da democracia interna e externa, e à inteligência artificial. Mesmo que o medo pareça proliferar, e constituindo-se enquanto registo histórico como causa fundacional de decisões e ações políticas, as teorias mainstream da área de Relações Internacionais (RI) dedicam-lhe uma atenção subsidiária, carecendo de corporização, pois, regra geral, ou é assumido como um facto a priori do sistema internacional, ausente de substrato, para realistas clássicos e estruturais, um desvio de regimes atípicos, não democráticos, para liberais, ou algo que tange perifericamente normas, práticas e discursos, para construtivistas3.
Sugerimos avançar algum conhecimento a este necessário desenvolvimento, analisando, através de uma leitura realista crítica, com rastreamento de processos e discursos, a forma como os EUA, através de elites e lideranças, criaram e utilizam uma narrativa estratégica, na resposta a ameaças, independentemente da capacidade destas e da distribuição de poder no sistema internacional, baseada no medo existencial, funcionando este através de dois mecanismos causais - a saliência da mortalidade e uma cosmovisão4.
Há contudo que aclarar as componentes da proposta que afirmam o funcionamento do medo, pois apesar de constituir a emoção mais estudada em RI «mantém-se uma assunção»5.
O contributo teórico que permite integrar estes elementos é a teoria da gestão do terror (TGT), proposta originalmente nos trabalhos antropológicos de Ernest Becker nas décadas de 1960 e 1970, como teoria existencialista, de difícil comprovação empírica, sustentando que os esforços individuais e coletivos, simbólicos e materiais, que investimos na negação da nossa mortalidade, pelo desafio disruptor e existencial que representa, são a essência da preservação e do funcionamento do mundo6. Becker era, contudo, um autor sem escola. Foi na segunda metade da década de 1980, que um grupo de psicólogos sociais - Pyszczynski, Solomon e Greenberg - consegue incorporar esse legado em formatos metodológicos replicáveis, sob a chancela da TGT7.
Centramo-nos neste artigo na hipótese da saliência da mortalidade, que sustenta que quando somos recordados - saliência da mortalidade - da nossa própria finitude, necessitamos de elementos protetores - cosmovisão pessoal e coletiva - para reforço da autoestima e mitigação do medo existencial da nossa vacuidade8.
Teremos assim dois mecanismos causais, a saliência da mortalidade e a cosmovisão, que cumprem uma função estabilizadora face a incertezas.
A saliência da mortalidade é replicada em pesquisas experimentais com recurso a estímulos que enfatizam a ideia da mortalidade. Essas pesquisas revelam que, contrariamente ao grupo de controlo que não está sujeito a esses estímulos, o grupo que está sujeito apresenta indicadores ampliados de hostilidade e aceitação de soluções violentas para com indivíduos ou grupos com ideias políticas, religiosas ou culturais diferentes9.
A cosmovisão, entendida como teoria da realidade individual e social, e coletivamente reconstruída e aceite, tem o fim último de reduzir o terror existencial da mortalidade10. Mas, e se a cosmovisão disponível for ela mesma de cariz exclusivista, composta por elementos que reforçam a disponibilidade para aceitar tratamento diferenciado a membros dos nossos grupos face a outsiders, ativando as nossas «mentes tribais»?11
Teríamos assim não um freio, antes um impulso de concordância para com uma narrativa delineada nesses moldes. Por isso, o nosso argumento subverte a premissa da mitigação que a cosmovisão fornece à saliência da mortalidade, testando-a dentro da narrativa estratégica norte-americana.
Sustentamos que o excecionalismo americano, como cosmovisão, serve na postulação dos EUA como um país escolhido para liderar a ordem internacional, onde qualquer ameaça é entendida como uma transgressão existencial à equanimidade coletiva. Resulta evidente - e como advertência analítica - que qualquer nação se arroga à sua excecionalidade, mas a distribuição de poder no sistema internacional torna os EUA uma unidade diferenciada, existindo ideacionalmente a crença histórica desse carácter desde os colonos puritanos12. Mesmo sem consenso na literatura sobre o excecionalismo americano, avançamos três elementos que o definem neste artigo.
Um, histórico, do seu nascimento com a própria independência13. Outro, estratégico, que o agrega - em vertentes benigna e exemplar - aos interesses nacionais e internacionais norte-americanos14. O terceiro, que se debruça sobre os seus aspectos negativos, messiânicos e exclusivistas15.
Mas se é possível construir uma proposta teórica em torno dos conceitos mencionados, cumpre analisar onde, como, e para quê, se elabora a narrativa estratégica que argumentamos. O espaço, numa democracia, corresponde ao mercado de ideias, onde competem discursos e atores, com informação a circular de forma acessível, e espaço ao contraditório e ao escrutínio16. Nas técnicas, grandes corporações e multinacionais comunicacionais compõem e fazem com que palavras, ideias e símbolos totalizem a nossa experiência temática, proporcionando espaço a que elites e lideranças recorram a uma miríade de métodos e práticas para atingir objetivos17. Quanto a estes, sustentamos, como Layne, que a grande estratégia dos EUA, desde 1942, é hegemónica ou de primazia, congregando aliados e parceiros nos benefícios da ordem internacional que proporciona, e anulando oposições à manutenção ou expansão do seu poder. Do ponto de vista do sistema ou da ordem, ser hegemónico significa ainda mais do que a mera componente material. Significa que existe - criticamente - vontade e capacidade de se estabelecer consenso, evitando o mero recurso à força bruta e à coerção permanentes18.
A apresentação de uma grande potência ao sistema internacional
Da fundação dos EUA até à Administração Truman distam cento e sessenta e dois anos.
Para benefício e sistematização desta análise, subsumem-se três elementos que se mantêm estáveis e coerentes nesse percurso, úteis para a compreensão e abrangência do escopo deste artigo.
Primeiro, a comunicação das ameaças, estruturada enquanto saliência da mortalidade, depois, o excecionalismo americano como essência imbuída na resposta à ameaça, e, por último, os ganhos na expansão de poder dos EUA no sistema internacional.
Quanto ao primeiro, a determinação das ameaças existe desde a chegada dos colonos em 1630. O medo do desconhecido e os nativos americanos - a primeira «ameaça vermelha» -, tidos como tribos satânicas, proporcionam o controlo social através de sermões religiosos com cunho político, que se propagam à revolução que se inicia em 1775, com os ingleses descritos em panfletos como «monstros» e «vermes», a inocularem sarampo em prisioneiros19. Se a guerra civil norte-americana divide e dizima, serve também como forja para a reconstrução da identidade nacional, na imagem sacrificial de Lincoln20. O século XIX assiste a confrontos com o México e impérios europeus, como a Espanha, justificados por uma suposta interferência hostil, com diversas administrações e o yellow journalism a manipularem tragédias como a do USS Maine, e a promoverem conspirações e ameaças globais inexistentes21. A Primeira Guerra Mundial introduz o exagero e a manipulação massiva da ameaça huna, imaginada em solo americano e em atrocidades cometidas na Bélgica, facilitando que Wilson a qualifique como «guerra contra a humanidade» aquando do afundamento do Lusitania, coadjuvado por uma maquinaria propagandística sem paralelo até então, que reproduz e exorbita a demonização da desumanidade de Berlim, e por um enquadramento repressivo interno que tolhe direitos civis e persegue americanos hifenizados, e, já depois da guerra, exagera perigos domésticos, bolcheviques e afro-americanos22. Quando Franklin Roosevelt toma posse em 1933, as agressões nazi e fascista na Europa - enquadradas inicialmente por uma neutralidade e um distanciamento - serão apontadas pelo Presidente como um perigo a «confinar», ampliando-se mediaticamente ameaças imaginárias nazis e dispensando aos japoneses uma diabolização desumanizante, num conflito binário e existencial, do «bem» contra o «mal», enquanto se consolidavam passos da presidência imperial, para aumentar poderes de vigilância e repressão a qualquer dissenso interno23.
O excecionalismo americano que responde a todas as ameaças é até precoce à chegada ao Novo Mundo, quando Winthrop anuncia uma «cidade sobre uma colina, com os olhos do mundo postos em nós». Para Paine e Adams, a luta pela independência, não só conjura uma nova entidade, mas uma entidade providencial, guiada para transformações globais, um «império nascente» para Washington, e um «país escolhido», no dizer de Jefferson24. Símbolos patrióticos como o Tio Sam ou Columbia, surgem no conflito de 1812 com os ingleses, e na década de 1820 inicia-se o Destino Manifesto - ampliado na imprensa da época - que tem nos EUA o país com uma missão, «a luta contínua entre o bem e o mal», justificando expansão e conflitos, como o de 1846 com o México, como um «imperativo moral e civilizacional» pelo Presidente Polk, ou a guerra com Espanha e a brutal repressão filipina, a ocorrerem, respetivamente, em «nome da humanidade», e devido a causas civilizacionais e educacionais, segundo McKinley25.
É este senso, de superioridade e messianismo, que leva Theodore Roosevelt a anunciar que os EUA, como «nação civilizada», devem exercer «supervisão benévola», legado continuado por Wilson, quando pretendeu ensinar os mexicanos - pela força - «a eleger homens bons»26. Reeleito em 1916 com slogans de «Manteve-nos fora da guerra», a natureza do conflito que se avizinhava fez Wilson sublinhar que «o mundo tem de ser seguro para a democracia», catapultando comunicacionalmente o desinteressado «evangelho do americanismo a todo o globo», com posters do Tio Sam a seduzirem soldados para a guerra. A proposta wilsoniana para a paz era uma «nova ordem internacional», balizada pelos seus Catorze Pontos, que eram, na essência, «um documento americano»27. Falhada a paz universal definitiva, e confrontado com o expansionismo nazi na década de 1930, Roosevelt vence a oposição isolacionista e faz saber como os EUA se compelem a «manter no mundo ocidental uma cidadela onde esta civilização possa ser mantida viva», através de «uma Pax Democratica que nos abençoe e ao mundo inteiro», em que a ambição do «Século Americano» serviria de farol à construção do novel sistema nas cinzas da guerra28.
Neste vasto período histórico, os ganhos e resultados para o poder norte-americano podem ser enquadrados em três dimensões: estratégicas, económicas e consensuais.
Nas primeiras, é possível caracterizar dois períodos. O primeiro, de 1796 até à Administração Theodore Roosevelt, que rejeita exercícios de «balança de poderes» regionais com impérios europeus, expande-se continental e extra-regionalmente através de «esplêndidas pequenas guerras» e inclui, nos finais do século XIX, a «Open Door Policy», com o poder norte-americano a servir de garante a um mundo seguro para Washington ampliar mercados recetivos ao seu comércio29. Um segundo, a partir de Wilson, que assiste ao nascimento das fundações de uma política global intervencionista, expressa numa retórica democrática30. Apesar das caracterizações isolacionistas das décadas de 1920 e 1930, dá-se antes a americanização da Europa, e se, já com o conflito global em andamento, Roosevelt aposta no offshore balancing, é o inexorável avanço nazi que obriga os EUA a intervir, levando a Casa Branca a planear a liderança global para o pós-conflito, assente numa estratégia em que não fosse possível a existência de competidores hegemónicos, uma fronteira de segurança expandida por um conjunto de bases globais, e uma rede institucional, que destacava as vantagens da liderança de Washington e da sua Pax Americana31. Em 1943, militares e serviços de inteligência norte-americanos destacavam como prioridade «concentrar forças na Europa para tornar uma política de hostilidade pouco atrativa para Moscovo», mesmo que caracterizassem que «o principal objetivo soviético é a sua segurança»32.
Economicamente, e determinante para a projeção de poder futuro por parte de Washington, os EUA saem robustecidos após as suas intervenções. Se em 1850 o Reino Unido era a potência mais rica e desenvolvida do globo, em 1890 os EUA já produziam tanto quanto a Grã-Bretanha e a França combinadas33. Pela dependência que tinha das suas exportações para a Europa, a entrada no conflito de 1914-1918 é por isso também delineada, e, no final, os EUA são «a principal potência económica mundial e a potência militar dominante»34. A tragédia maior da Segunda Guerra Mundial apresenta, no final, uns EUA quase incólumes, e com metade da capacidade industrial global, bem como a maior armada e força aérea do mundo e o desenvolvimento da arma nuclear35.
Já quanto ao consenso, o estabelecimento da aceitação do caminho para os conflitos faz-se nas declarações de guerra ou de utilização da força, aprovadas com euforia patriótica contra o México, a Espanha, a Alemanha imperial, o Japão e a Alemanha nazi36. Hesitações mediáticas nos períodos iniciais de conflitos, como o travado com Madrid e, depois, nas Filipinas, são cedo abandonadas37. As mensagens e os discursos de Wilson chegam a uma audiência de milhões e os EUA passam a dominar culturalmente o velho continente38. Roosevelt consegue um apoio que oscila entre os 70% e os 90% de aprovação a políticas internacionalistas e, por necessidade, os americanos esquecem temporariamente que Estaline era um ditador brutal e um assassino em massa, assistindo-se a uma mudança de paradigma na descrição do senhor do Kremlin, entoando-se loas ao «Tio Joe»39.
Truman e a resposta à ameaça soviética
As principais preocupações estratégicas de Estaline no fim da Segunda Guerra Mundial eram impedir o ressurgimento agressivo da Alemanha e do Japão, e obter ganhos onde possível40. Mas a Europa de Leste era a sua geografia de segurança da qual não poderia abdicar, transformando vários países em Estados-Satélite até 1949. O Kremlin, contudo, pretende manter uma relação prática com Truman, por duas considerações. Uma estrutural, devido ao poder assimétrico norte-americano, outra económica, pela necessidade de reconstrução interna41.
Mesmo que não existissem intenções - ou sequer capacidades - por parte de Moscovo de um ataque à Europa, ou aos EUA, Truman cedo ficou rodeado de análises militares e de serviços de inteligência que ampliavam ambições e capacidades expansionistas de Estaline, a que se somava a perceção de um colapso europeu, recetivo à influência do Kremlin. Esta conjugação de fatores levou o sucessor de Roosevelt, dias depois de inaugurar a sua presidência, a anunciar ao embaixador soviético que os EUA não tergiversariam mais, colocando em causa entendimentos estabelecidos em Yalta42. Depois de Potsdam, onde Churchill denota em Truman um «homem mudado», a 6 e 9 de agosto de 1945, os EUA bombardeiam nuclearmente Hiroxima e Nagasáqui43. Truman justifica piedosamente a ocorrência, «para poupar os japoneses da destruição completa», ameaçando contudo «uma chuva de ruínas», em caso de não rendição total44. Ainda a 9, Truman estatui que «manteremos as bases militares necessárias para a proteção dos nossos interesses e da paz mundial», e que «a nossa vitória foi uma vitória de um modo de vida face a outro», dizendo-se grato a Deus pela realização científica das bombas45. Por muito que a literatura subscreva o containment como estratégia oficial norte-americana, os EUA não visam um qualquer equilíbrio de poder, antes uma estratégia de primazia ou hegemonia, exponenciada por considerações, irreais, sobre capacidades e intenções russas46.
Existem dois momentos que definem a configuração da ameaça existencial soviética, e como o excecionalismo americano a confronta. O primeiro, quando a Grã-Bretanha reconhece, em 1946, não ter recursos para manter a Grécia e a Turquia fora das ambições comunistas, locais, e de Moscovo. Para congregar audiências na escalada necessária, Truman dirige-se ao Congresso, a 12 de março de 1947, com a recomendação de Vanderberg, o líder republicano do Senado, para «assustar o país»47. Nunca nomeando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), Moscovo ou Estaline, o Presidente recupera maniqueísmos e ativações psicológicas que permitem a fácil identificação da ameaça e do perigo48. No caso grego, relaciona a memória da máquina de guerra nazi com o perigo atual das «atividades terroristas lideradas por comunistas». Nos dois casos, a sobrevivência «como nações livres» estava em causa, e os EUA eram «o único país apto a ajudar», sem o qual «há perigo para a paz no mundo», numa batalha existencial que contrapunha duas cosmovisões radicalmente opostas49. Truman, com os encómios da comunicação social, passa de uma aprovação, em novembro de 1946, de 34% para 63% depois desse discurso50. Os comunistas acabam derrotados na Grécia, as pretensões soviéticas na Turquia são frustradas, e assiste-se à definitiva transição pacífica entre a hegemonia britânica e o novo Leviatã do sistema internacional51. O elencar da Doutrina Truman e a sequência de eventos permitem o lançar das bases estratégicas, institucionais e intelectuais que consolidam uma arquitetura multidimensional de resposta a Moscovo, suportada em três elementos: controlo doméstico, recuperação e integração económica europeia, e um aparato securitário.
O primeiro, que passa também pelo sucesso da narrativa estratégica, é determinante para a composição da compreensão social do contexto de ameaça existencial. Se, em junho de 1945, 77% dos americanos eram favoráveis à participação soviética na guerra ao lado dos Aliados, em março-abril de 1947 47% defendem que simpatizantes comunistas não deveriam ter os mesmos direitos que os outros americanos52. Esta dinâmica, que passa da simpatia à inimizade, é pautada por alertas políticos e empresariais que culminam em programas federais de lealdade, erigidos por Truman em março de 1947, ampliados pelo terror do teste nuclear soviético e a perda da China em fevereiro de 1950, e pelo senador republicano McCarthy e a sua campanha de acusações à «ameaça vermelha»53. Em Hollywood, colabora-se com o Pentágono, na massificação da perceção do expansionismo soviético, relacionado com o nazi, promovendo-se estereótipos que esgrimem o «bem» americano contra o «mal» comunista54.
Quanto à recuperação europeia, o inverno de 1946-1947, que deixa o continente ainda mais debilitado, faz chegar avisos a Washington de que «a Europa se vira claramente para a Esquerda», levando a Administração a preparar o Plano Marshall, aprovado nas duas câmaras, e assinado por Truman em 3 de abril de 1948, que proporciona assistência económica à Europa Ocidental - Estaline enjeitaria o auxílio, pelas exigências liberalizantes - para a recuperação do depauperado continente e consolidação de mercados adicionais para produtos dos EUA, indispensáveis à continuidade da «Open Door Policy»55. Os serviços de inteligência americanos, em julho de 1947, avaliariam que o Plano Marshall foi lido no Kremlin como a certeza da expansão de Washington, obrigando Moscovo a uma «determinação para manter poderes extraordinários sobre a Europa de Leste», fazendo com que Estaline sinta necessidade de reequilibrar estrategicamente, instigando o golpe em Praga em fevereiro de 1948 e a crise em Berlim56.
Securitariamente, do ponto de vista externo, depois de, em 1948, se consolidar o consenso bipartidário para se negociar a criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla inglesa), os americanos não só vislumbram mais um enquadramento de resposta à ameaça soviética, mas também considerações de extensão hegemónica, pela possibilidade de incrementar a integração europeia liderada pelos EUA.
A Aliança, ratificada no Senado em julho de 1949, teria o apoio de mais de 80% da opinião pública americana57. Internamente, desde 1946 que estrategistas americanos ponderavam a hipótese de um conflito com Moscovo, e Acheson assumia que «o objeto da nossa política deve ser o poder preponderante»58. Para se cumprirem objetivos, são indispensáveis ferramentas. Em 26 de julho de 1947, Truman assina o National Security Act, criando instituições de segurança e defesa que transformam a América. Surgem a Central Intelligence Agency (CIA), o National Security Council (NSC) e o Departamento de Defesa. Mas é a vitória comunista na China, e a detonação da bomba soviética, ambas em 1949, que levam o Departamento de Estado a considerar a necessidade de uma «campanha de receio psicológico» para induzir a opinião pública a aceitar esforços suplementares face a Moscovo59. O secretário de Estado Acheson declarava estar-se «não apenas face a uma ameaça à nossa civilização, mas a todo o ambiente físico no qual uma civilização pode existir»60. Os departamentos de Estado e de Defesa formulam e apresentam a Truman o National Security Council Paper Number 68 (NSC-68) em 7 de abril de 1950, em que, por um lado, assumem que os EUA - a quem cabe «a responsabilidade da liderança mundial» - são materialmente superiores à URSS em quase todos os domínios de poder avaliados, mas, por outro, consideram que estão «no maior perigo da sua história». O documento embarca na construção de um cenário apocalíptico, dispensando a Moscovo qualificações como «mal», «irracional» e «fanático», com o Kremlin «animado por uma mistura virulenta de ódio e medo», recomendando um aumento exponencial dos gastos militares61.
O NSC-68 estava «pronto para implementação» aquando da Guerra da Coreia, que marca o segundo momento de análise deste artigo sobre a configuração norte-americana da ameaça existencial soviética, com doses simultâneas de saliência da mortalidade e de excecionalismo americano62.
Com o Sul em grave instabilidade política, em junho de 1950, o Norte, liderado por Kim Ilsung, avança numa tentativa de reunificar a península através de um conflito rápido, com apoio indireto de Estaline e de Mao. A imprensa americana reproduz manchetes apocalípticas. Para Truman, a terceira guerra mundial sucederia se não se fizesse frente aos comunistas que atuavam como «Hitler, Mussolini e os japoneses», num ato «obviamente inspirado pela URSS», extrapolando e racionalizando a ameaça como uma teoria de dominó que chegaria à Europa63. Entre julho e setembro de 1950, 57% dos americanos acreditavam que os EUA se encontravam em plena Terceira Guerra Mundial64. Em 19 de julho de 1950, Truman avança que embora longínqua, o que se passa na Coreia é «importante para todo o americano», e em setembro declara que «a guerra na Coreia é a frente entre a liberdade e a tirania», exortando a que «oremos a Deus para que nos dê força e sabedoria para a grande missão que enfrentamos»65.
A 15 de dezembro, face à rápida sucessão de acontecimentos e à intervenção direta de Pequim, Truman declara uma emergência nacional, exibindo saliência da mortalidade, sobre a liderança soviética - «conduziram um ataque incessante», «utilizam ameaças, traição e violência» -, vincando comparações históricas - «desde Munique que o mundo sabe que a segurança não é comprada por apaziguamento» -, e levando o perigo ao quotidiano doméstico - «as nossas casas, liberdades, país e as coisas em que acreditamos estão em grave perigo, criado pelos dirigentes soviéticos» - e global - «o futuro da civilização depende do que fizermos», «a ameaça comunista impende, não só sobre a Ásia, mas também sobre a Europa» - desviando o excecionalismo para o desempenho virado para a guerra - «uma oportunidade para defender o melhor estilo de vida que alguma vez existiu», porque «nenhuma nação teve jamais maior responsabilidade do que os EUA, neste momento. Temos de nos relembrar que somos os líderes do mundo livre»66.
O tom estava dado, e os mecanismos de resposta disponíveis. A Administração Truman, no ápice do poder material americano, não só define a tipologia da ameaça soviética como existencial, como apresenta o excecionalismo como missão diferenciadora e corretora, bem como estrutura um edifício institucional, interno e externo, que permite e obriga, pela natureza de grande potência, e face aos compromissos globais assumidos, a resposta a qualquer outro desafio securitário.
George H. W. Bush e Saddam
O período histórico compreendido como Guerra Fria ocorre num enquadramento estrutural sem alterações substanciais face ao que se verifica no término da Administração Truman. Até 1991, subsiste - apesar de considerar a emoção como subpolítica - o que Aron qualifica como a «paz do medo», que impede EUA e URSS de se digladiarem de forma aberta67. Se algo se distingue, é a atenção ao detalhe, com ameaças periféricas - do Vietname ao terrorismo - a serem incluídas na contínua expansão da fronteira de segurança americana. É possível arguir duas oposições a esta análise. Uma, que o desenvolvimento tecnológico formulou uma nova dimensão na competição. Mas isso mais não é do que um upgrade científico-militar, que abre um novo capítulo no equilíbrio de terror, e no medo existencial. A segunda, ao se considerar existir um período de declínio norte-americano, nomeadamente entre as administrações Johnson e Carter. Argumentamos, contudo, que esse declínio é mais percecionado e fruto de episódios domésticos do que uma assinalável alteração ou assimetria na distribuição do poder do sistema internacional. Os EUA, mesmo não se somando a capacidades dos seus aliados, nunca tiveram na URSS um rival competente em todas as dimensões que concretizam um grande poder, apesar de fazerem dela a ameaça existencial por excelência. Adicionalmente, mesmo quando a própria Presidência reconhecia declínio, diagnosticava o excecionalismo como remédio. George H. W. Bush sucede em 1989 a Reagan, assumindo-se como «um homem prático», ausente de misticismos no campo da política externa. Apesar da aparente humildade, Bush não se furtaria, em campanha, a antagonizar Dukakis e a plataforma «liberal» democrata, de duvidarem da supremacia americana. Na Casa Branca, Bush apresenta os EUA como «uma nação orgulhosa», «uma força dirigida ao bem», afasta perspetivas declinistas e tem como prioridades de política externa a promoção global «da democracia e mercados abertos», e «o sucesso da glasnost e perestroika na URSS», ligando o futuro da anterior ameaça existencial russa às preferências e interesses norte-americanos68. Mas, com inícios em abril de 1990, surgiria uma outra ameaça. Debatendo-se com uma débil situação económica interna, fruto do conflito anterior com Teerão, Saddam exige regionalmente moratórias à dívida iraquiana e compensações ao Kuwait, que, não satisfeitas, culminariam com a invasão do emirato a 2 de agosto de 1990.
A Administração Bush interpretou essa investida como uma ameaça regional, com possibilidades de impactos globais, e um teste à ordem internacional do pós-Guerra Fria, liderada por Washington. Era indispensável aos EUA transformar a apresentação do regime iraquiano, a quem durante a guerra com o Irão (1980-1988) fornece assistência militar, negligencia atropelos aos direitos humanos, e sendo considerado, já na Administração Bush, como uma «força de moderação», apta à promoção da «estabilidade no Golfo e Médio Oriente»69. O processo de criação da ameaça existencial iraquiana no pré-conflito dá-se, no campo da saliência da mortalidade, em dois momentos.
O primeiro, através da exibição exagerada do poder iraquiano, e o segundo, por uma conotação com um «mal» absoluto. Quanto ao primeiro, no Pentágono, sobrestimam-se receios sobre as capacidades iraquianas, de forma desproporcional e assimétrica, especulando-se sobre eventuais arsenais de armas de destruição maciça, a brevidade com que Bagdade conseguiria armas nucleares, e cálculos alarmistas de baixas militares americanas, somando-se à ampliação das ambições revisionistas e hegemónicas regionais iraquianas, em que, horas após a invasão, o National Security Council define que Saddam pretendia «dominar o Médio Oriente, o que ameaçaria os interesses económicos do Ocidente, a sobrevivência de Israel e a esperança de uma ordem internacional pós-Guerra Fria»70. Quanto ao segundo, a 4 de agosto de 1990, Bush compara, após sugestão do rei saudita, Saddam a Hitler, e, dois dias depois, o Washington Post e o New York Times classificam o ditador iraquiano, respetivamente, como «besta» e «bárbaro». Quando Saddam, em finais de agosto, se faz fotografar junto de cidadãos ocidentais e profere ameaças em caso de ataques americanos, são-lhe dispensadas manchetes de «carniceiro», «doentio» e «repulsivo», e Bush garante que «nem Hitler participaria» em tais situações. Já em setembro, surgem relatos na Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os horrores praticados por forças iraquianas em instalações de saúde kuwaitianas, que vão em crescendo com outras barbaridades, até ao testemunho no Congresso, a 10 de outubro de 1990, com uma audiência de mais de 35 milhões de telespectadores, de uma adolescente kuwaitiana, que relatava como bebés eram retirados de incubadoras. Bush passa a repetir estes episódios nos seus discursos, reforçando «o paralelo entre o que Hitler fez à Polónia, e o que Saddam faz ao Kuwait», escrevendo no seu diário, a 24 desse mês, «esta crise é o “bem” contra o “mal”»71.
Quanto ao recurso do excecionalismo americano como forma de exponenciar a diferença de Washington não só face à ameaça, mas sobretudo como único caminho e poder para corrigir o distúrbio na ordem internacional, o mesmo começa no dia da invasão iraquiana, quando o Presidente assegura que os EUA responderão às ameaças «em qualquer canto do globo onde possam ocorrer». A 11, Bush discursa no Congresso e é enfático sobre «defender os valores civilizados em todo o mundo e manter a nossa força económica a nível interno», ambicionando «uma nova ordem mundial», como Wilson, e que - como Truman, aquando da Coreia - «para que a América lidere, deve permanecer forte e vital. A nossa liderança mundial e força interna reforçam-se mutuamente», pois «não há substituto para a liderança americana», enquanto avisa solenemente «é o Iraque contra o mundo». Bush consolidava o encadeamento histórico da política externa norte-americana - «a minha administração, como todas desde Roosevelt a Reagan, está comprometida com a segurança do golfo Pérsico» -, até pelas questões económicas e petrolíferas que não negligencia, fazendo, para Bush, com que este previsível conflito fosse «um ponto crucial da história», que marcaria «o futuro do mundo nos próximos cem anos». Depois das intercalares de 1990, escreve: «prevaleceremos. O nosso papel como líder mundial será reafirmado». A 16 de dezembro desse ano, quando Bush anuncia o início da operação militar, faz questão de sublinhar «somos americanos: parte de algo maior que nós mesmos»72.
De um ponto de vista hegemónico, a Administração norte-americana obtém resultados internos e externos. Internamente, a aprovação do uso da força no Congresso é votada favoravelmente - no Senado, por 52-47, e na Câmara, por 250-183. Os votos não concordantes dão-se por receios sobre a inexistente máquina de guerra de Saddam e o eventual número de vítimas, e não por preocupações de maior sobre a utilidade estratégica do conflito. Bush, inclusive, estaria disposto a enfrentar um eventual impeachment, e, mesmo sem autorização legislativa, partir para a conflitualidade. As sondagens, por seu lado, apoiam a narrativa da Administração, e a imprensa não só marginaliza manifestações antiguerra, acolhe acriticamente os relatos dos horrores no Kuwait, posteriormente desmentidos, como caricatura massivamente a figura «hitleriana» de Saddam em vestes animais ou demoníacas73. Externamente, e tendo lidado com a erosão e fragmentação da ameaça existencial soviética e o advento da unipolaridade, a Administração consegue, com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a formulação de um conjunto de sanções e exigência de retirada iraquiana do Kuwait, com apoio de Moscovo, reúne uma poderosa coligação militar internacional, e sustentar, através dos aliados, mais de 80% das despesas do conflito74. Acabadas as hostilidades em escassas semanas, com pouco mais de três centenas de vítimas mortais americanas, e cerca de oito a dez mil iraquianos, Bush obtinha 89% de aprovação popular, e exclama, «por Deus, afastámos de vez a síndrome do Vietname»75. Colin Powell escreveria nas suas memórias que, «com o fim da Guerra Fria, perdemos o nosso melhor inimigo», mas a história e o medo existencial promovido pela grande potência, encarregam-se de fornecer constantes novas ameaças, aptas a narrativas estratégicas76.
O 11 de setembro de 2001
Em 2000, o republicano George W. Bush ganha a eleição ao ex-vice de Clinton77, Al Gore, e com os excessos internacionalistas do anterior presidente no retrovisor propõe uma «política externa humilde», afastando o nation-building. Os primeiros passos da Administração republicana exibiam evidências unilateralistas, suportadas no exercício da unipolaridade78. Mas na manhã de 11 de setembro de 2001, «os EUA tornar-se-iam uma nação transformada», obrigando por consequência o mundo a transformar-se. Nesse dia, 19 terroristas sequestraram quatro aviões comerciais, atacando alvos civis e militares, símbolos do poder norte-americano. O acompanhamento televisivo em direto, sobretudo nas icónicas torres em Nova Iorque, resultou em ondas de choque e terror. Cinco dias depois dos ataques, 90% dos americanos diziam ainda ter sintomas de angústia. Horas depois do sucedido, Bush diria ao Presidente mexicano, Vicente Fox, ser o momento em que todos os inimigos dos EUA seriam «procurados, mortos ou vivos». No dia dos ataques, na primeira reação pública, Bush recorreu à qualificação de «mal» para definir o acontecimento. À noite, enquadra os golpes terroristas como feridas impostas à alma americana, em que foi atacado «o mais brilhante farol pela liberdade e oportunidade do mundo», não deixando de situar religiosamente a comunicação: «ainda que ande pelo vale da sombra da morte, não temo mal nenhum, pois Tu estás comigo». As transmissões televisivas do dia dos acontecimentos são um exercício de saliência da mortalidade. Os oráculos noticiosos sublinham «América sobre ataque», relembra-se o ataque a Pearl Harbor, comentadores, especialistas e políticos concordam estar-se perante um «ato de guerra» e apontam de imediato a responsabilidade a bin Laden, mas também a Saddam. Os jornais, nos dias seguintes, destacavam a tragédia e exibiam um bin Laden «possuído», «louco», «monstro», que ambiciona o «Armagedão». As televisões reproduziam imagens das explosões em golfadas apocalípticas, áudios das chamadas telefónicas das vítimas que se encontravam nas torres em chamas a pedir socorro e a despedirem-se das famílias, ou a derrocada ignominiosa dos edifícios. O ambiente nacional era de terror, com a certeza de que se seguiriam novas vagas de ataques iminentes e alertas sucessivos de ameaças79. A Administração, desde a primeira hora, não abandona o medo existencial. A 14 de setembro, numa eulogia às vítimas dos ataques, Bush garante uma resposta absoluta «para remover o mal do mundo».
A 20 de setembro, no Congresso, define a ação dos EUA e, retoricamente, caracteriza a ameaça, o medo existencial e a necessária resposta hegemónica. Quanto à primeira, sublinha de forma inequívoca o eixo bin Laden e o regime talibã. A ligação da ameaça ao medo existencial dá-se quando refere que «a nossa dor passou a raiva, e a raiva a resolução», vincando o terror que atingiu a própria equanimidade e cosmovisão nacionais - «não pretendiam apenas matar pessoas, mas um modo de vida» -, relacionando-o com experiências históricas anteriores, como o fascismo, o nazismo e o totalitarismo. Mas Bush expande a ameaça, apresentando-a com contornos globais, «com milhares de terroristas em mais de sessenta países», não permitindo uma avaliação racional que superasse a interpretação binária dos eventos, em termos absolutos e messiânicos, «liberdade e medo, justiça e crueldade, sempre estiveram em guerra, e sabemos que Deus não é neutro», e determina, sem qualquer hipótese de negociação, que os talibãs entreguem aos EUA a liderança da Al-Qaeda, avisando o Pentágono, «estejam prontos. A hora está a chegar, e a América vai agir», até porque o que «está em jogo, não é apenas a liberdade da América. Esta é uma luta mundial e pela civilização», advertindo globalmente, «ou estão connosco ou com os terroristas». Em comunicações nacionais, Bush passa a referir-se aos «malfeitores», e a um tipo de mal nunca antes visto, exigindo nada menos que uma «cruzada»80. A 7 de outubro, Bush anuncia que o não cumprimento das exigências pelos talibãs levava-os «a terem de pagar um preço», e dá início à operação militar Enduring Freedom - subvertendo a Resolução 1368 da ONU, de 12 de setembro de 2001, que não sustentava qualquer justificação para uma invasão -, com a NBC a intitular a retribuição como «America strikes back». Os EUA atacariam um regime que não dominava um Estado, com um «exército que não existia enquanto tal» e uma organização terrorista que não era a propalada rede global da maldade. Em finais de outubro, uma directiva presidencial de segurança nacional propõe como objetivo «a eliminação do terrorismo», num tom maximalista e quimérico81. O impacto dos ataques e a imediata colocação do enquadramento político da Administração ao discurso do medo existencial produziram resultados hegemónicos. Internamente, amplia poderes presidenciais, recorre à CIA para a realização de uma guerra secreta global antiterrorista, e vê aprovada a Autorização para o Uso da Força, com apenas um voto contra, na Câmara dos Representantes, da legisladora democrata Barbara Lee - que sofrerá uma campanha de ódio postal e em editoriais -, que se opôs aos poderes ilimitados para decretar guerra. Todo o espaço mediático de informação e análise é preenchido maioritariamente por especialistas que concordam com a exclusividade da solução militar, com inexistência de análises que se desviassem do ambiente marcial e existencial. A nível de sondagens, se a 10 de setembro Bush tinha um índice de aprovação de 51%, a 15 do mesmo mês passa para 86% e, uma semana depois, para 90%. O apoio da opinião pública a uma intervenção militar contra o Afeganistão recolhe 85% de concordância, mesmo com baixas volumosas norte-americanas82. O quadro existencial criado para a Guerra Fria é reutilizado, em esteroides, para combater o terrorismo. Do ponto de vista externo, a NATO no dia dos ataques invoca pela primeira vez o artigo v, mais de 100 países ofereceram algum tipo de assistência militar e mais de 40 organizações multilaterais declararam o seu apoio à intervenção, plasmada em todos os fora como uma guerra justa83.
Saddam e a soma de todos os medos
O Vice-Presidente de Bush, Dick Cheney, e vários responsáveis da Administração republicana nutriam, desde a década de 1990, uma visão maximalista, não só sobre a extensão dos poderes presidenciais e o papel dos EUA na ordem internacional, mas também sobre a indispensabilidade de depor Saddam, alterando o quadro de poderes e valores no Médio Oriente. Horas depois dos ataques de 11 de setembro, a hipótese de relacionar o ditador iraquiano com bin Laden era avançada como certeza na Casa Branca, planeando-se uma intervenção em Bagdade. Com a narrativa também disponível nos média, dois dias depois dos ataques, 78% dos americanos entendiam que Saddam esteve envolvido na sua preparação, apesar de os serviços de inteligência norte-americanos não terem qualquer evidência que suportasse tal asserção84. O exagero da ameaça, traduzida pela saliência da mortalidade, é produzido pela Administração e suportado, de novo, acriticamente, pelos média. Bush marca o tom no discurso do Estado da União em janeiro de 2002, o primeiro transmitido pela internet, quando agrega, de forma exemplar, saliência da mortalidade e excecionalismo.
Quanto à primeira, Bush apresenta o «Eixo do Mal» - estabelecendo um nexo retórico com o eixo nazi-fascista -, os novos vilões da ordem internacional, composto pelo Irão, pelo Iraque e pela Coreia do Norte, que pretendiam «armas de destruição em massa» para as «providenciarem a terroristas» e estes «atacarem os nossos aliados ou chantagearem os EUA». Sobre o Iraque, amplia as capacidades militares e de guerra biológica de Saddam85. O ano de 2002 foi um calendário rotineiro de medo existencial, apresentando Saddam como o inimigo público n.º 1. Todos os membros do gabinete assumem o papel de arautos da iminência de ameaças e desgraças. Em várias instâncias, e de forma contumaz, de novembro de 2001 a outubro de 2002, Cheney assegura que os EUA não podem permitir «1% de hipóteses de que a Al-Qaeda consiga armas nucleares», confirma encontros entre um dos terroristas do 11 de Setembro e os serviços de inteligência iraquianos e garante que Saddam reconstruiu o seu programa nuclear. A conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice, avisa que não se pode esperar pela «nuvem nuclear» para se saber que Saddam detém a arma, e o secretário da Defesa Rumsfeld garantia que existiam «terroristas da Al-Qaeda no Iraque». Nos média, a exposição dos americanos às notícias e alertas de hipotéticos atentados, que aumentavam exponencialmente, bem como às avaliações de fontes governamentais e oficiais, e análises de especialistas, concordantes com a visão governamental, causou um agudo ampliar do sentimento de medo e de ameaça permanente86.
Quanto ao excecionalismo, é introduzido no mesmo discurso do Estado da União de janeiro de 2002, quando, de forma peremptória, Bush garante e exalta como «este chamamento da história veio para o país certo» - como Roosevelt, e Truman -, e, em fevereiro de 2002, é definitivo: «a guerra contra o terror é simples. É o bem contra o mal». E o messianismo ajuda a estratégia. Em agosto de 2002, Condoleezza Rice assegura que os EUA têm um «poderoso caso moral para o regime change»87. Em outubro, Bush garante que os EUA «recusam-se a viver em medo. Esta nação - na Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria - nunca permitiu que poderes brutais e sem lei definissem o curso da história». A 26 de fevereiro de 2003, Bush avança considerações excecionalistas que catapultavam o desígnio americano para libertar o planeta de Saddam, oferecendo liberdade e paz para o país e abrindo o potencial de transformação democrática da região, relacionando como os EUA fizeram o mesmo com o Japão imperial e a Alemanha nazi. A 17 de março, dá quarenta e oito horas para que Saddam e a família abandonem o Iraque, e a 19 informa que as operações para libertar o Iraque começaram - sem autorização legal da ONU -, levando Cheney a proclamar «seremos saudados como libertadores»88.
Hegemonicamente, do ponto de vista interno, a Administração Bush mantém e avança resultados. A 30 de setembro de 2001, o primeiro documento estratégico do Departamento de Defesa da Administração Bush, a Quadrennial Defense Review, mantém o provimento hegemónico tradicional sobre o papel global dos EUA, e tem um foreword, assinado por Rumsfeld, em que se relembra que a guerra travada globalmente foi levada aos EUA «pelas forças malignas do terror», semelhante ao apocalíptico NSC-68 de Truman. A 26 de outubro de 2001, o Congresso sufraga o USA Patriot Act, que fornece mecanismos e extensão legal sem precedentes às autoridades policiais e aos serviços de inteligência americanos. No Senado é aprovado com 98 votos favoráveis, contra apenas um voto, e na Câmara dos Representantes os 66 votos contrários são insuficientes para ganhar relevo na comunicação social ou no espaço de discussão pública. A equipa legal da Casa Branca, incentivada por Cheney, sustenta uma interpretação expansiva dos poderes presidenciais, visando uma presidência imperial. A autorização militar pedida por Bush ao Congresso é aprovada a 16 de outubro de 2002, legitimando-o a atacar Saddam, caso este não cumpra as resoluções da ONU. No Senado, 77 senadores votaram favoravelmente a AUMF face a 23 oponentes e na Câmara dos Representantes 296 favoráveis face a 13389. Dá-se, adicionalmente, um fracasso retumbante do mercado de ideias. Nos dois meses anteriores à invasão, 75% dos analistas que comentavam a situação nas cadeias televisivas nacionais americanas tinham ou tiveram ligações profissionais com o Governo ou as Forças Armadas. Entre setembro de 2002 e fevereiro de 2003, mais de 90% das notícias da ABC, NBC e CBS justificavam a necessidade de resolver a questão iraquiana através de um conflito. Em termos de opinião pública, nos dias seguintes ao discurso do Estado da União de 2002, em que se define o «Eixo do Mal», a aprovação de Bush atingiria os 80%. De setembro a dezembro de 2002, várias sondagens revelam que nunca menos de 70% e até 90% dos inquiridos acreditavam que Saddam se preparava para atacar os EUA, e em fevereiro de 2003 80% consideravam provável que o iraquiano já detivesse armas nucleares90.
Externamente, Bush, mesmo que de setembro a novembro de 2002 tenha aberto a possibilidade de as Nações Unidas procederem a inspeções, e permitir que a diplomacia parecesse ter possibilidades de mitigar o conflito, cedo se percebe que os EUA não se sentiriam constrangidos por arranjos multilaterais e institucionais, começando a despachar tropas para o Kuwait em janeiro de 2003. A 5 de fevereiro de 2003, o secretário de Estado Powell relata, numa torrencial sessão repleta de informações e provas, ao Conselho de Segurança da ONU as evidências incontroversas - depois desmentidas - das ligações do Iraque à Al-Qaeda e da posse de um arsenal de armas de destruição maciça, com amplo respaldo na opinião pública e publicada norte-americana. A 6 de março, Bush ignora o Relatório Blix, que não encontra suporte ao propalado cenário da reconstrução do programa nuclear de Saddam. As tentativas de exigir factos que comprovem a ameaça iraquiana e soluções diplomáticas e antiunilateralistas do Presidente francês Chirac e do chanceler alemão Schroeder, mas também da China e da Rússia, não só não surtem qualquer efeito prático, como espoletam um sentido de antagonismo dos EUA face à «velha Europa», em contradição com a preferência pelas «coligações de vontade» ou o apoio incondicional, como expresso na Cimeira das Lajes a 16 de março.
E a hegemonia também se verifica nos detalhes e no irrisório. A Câmara dos Representantes indica ao restaurante de serviço que altere a designação das french fries para freedom fries e o responsável legislativo da maioria republicana na Câmara dos Representantes, Tom DeLay considera que «nós já não somos uma superpotência. Somos uma super-hiperpotência»91.
Considerações finais
Van Evera avalia que «a principal ameaça para grandes potências modernas, são elas próprias. A sua grande ameaça é a tendência que têm em exagerar perigos que defrontam, e responder-lhes com beligerância contraproducente»92. Os Estados Unidos fazem-no. De uma forma que Mearsheimer descreve como a possibilidade de Washington «se dedicar a políticas insensatas e ainda assim manter-se a nação mais poderosa do planeta»93. É de certa forma o regresso ao paradoxo que iniciou este artigo. Se os medos percorrem a memória americana, servindo funções narrativas em momentos conflituais, a Administração Truman encontra na narrativa estratégica que se desenvolve desde a fundação dos EUA as bases para construir e consolidar institucionalmente um modelo multidimensional, que serve de resposta, na ordem e sistema internacionais, à percecionada ameaça soviética, de forma que esta não rivalize com a primazia ou a hegemonia americanas. Essa narrativa estratégica privilegia o medo existencial, preenchido pela saliência da mortalidade e o excecionalismo americano. A conjugação de ambos permite funcionar a dois níveis, interno e externo. Primeiro, domesticamente, situar a continuidade da ameaça de Moscovo, a permanência das exigências do papel global de Washington, o crescimento exponencial de um estado de segurança absoluta e o apoio a iniciativas presidenciais que expandem consecutivamente o chamado «interesse nacional». A saliência da mortalidade é patente na forma como se recorre à evocação discursiva fatalista e apocalíptica da ameaça do Kremlin ou do comunismo, interno e externo, manipulando e inflacionando as capacidades de Moscovo. Já o excecionalismo funciona e serve como corretor para manutenção de uma autoestima apropriada, que não se deslocalize da ordem estatal e como projeção de uma identidade única que, por via disso mesmo, obriga a sacrifícios nacionais em prol da diferença que os EUA devem desempenhar no mundo, por via dos seus valores fundacionais e históricos distintos. Quanto ao segundo nível, externo, não só se visa conter a ameaça soviética - que estava contida - mas não permitir que a hegemonia norte-americana seja colocada em causa. Nesta dimensão, a saliência da mortalidade é discernível na configuração das crises internacionais e na forma como discursivamente, presidência, elites e média embarcam, em sucessivos episódios em que se julga ver a disrupção da absoluta segurança nacional, avançando a fronteira de segurança que se expande globalmente. Já o excecionalismo, funciona como montra global da diferença benigna que os Estados Unidos oferecem face ao sistema monolítico que os desafia. Os casos do Iraque, em 1990, do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003, permitem evidenciar como esse mesmo discurso do medo existencial e os já referidos mecanismos causais respondem a ameaças diferentes, em sistemas internacionais de polaridades distintas, e com outras gerações de atores políticos. Se Truman não embarcou para a conflitualidade direta com a URSS, o modelo criado para lhe responder é adaptado às conveniências das lideranças e às vivências das novas ameaças, mesmo que estas, periféricas e sem os recursos e capacidades que o Império do Mal tinha, não coloquem em causa a primazia ou a hegemonia americanas.













