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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199versão On-line ISSN 2183-0436

Relações Internacionais  no.84 Lisboa dez. 2024  Epub 31-Mar-2025

https://doi.org/10.23906/ri2024.84a09 

A ordem mundial em desordem: o regresso global da guerra e o fim da paz

Afeganistão: da solidificação do regime talibã às possibilidades de reconciliação. Testemunhos da diáspora

Afghanistan - from the solidification of the Taliban regime to the possibilities of reconciliation: testimonies from the diaspora

Ricardo Alexandre471 

1 IPRI-NOVA, Rua de D. Estefânia, 195, 5.º Dt.º, 1000-155 Lisboa, Portugal | ricardosousa@fcsh.unl.pt / ricardo.alexandre@tsf.pt


Resumo

Que Afeganistão temos hoje, mais de três anos após o regresso dos talibãs ao poder? De que forma se materializa o que aparenta ser uma solidificação do regime? Qual o papel e impacto das sanções internacionais sobre as autoridades locais ilegítimas e sobre a população? Este artigo procura dar um conjunto de respostas possíveis a estas questões, considerando a realidade política e socioeconómica afegã, com base nos instrumentos documentais disponíveis e centrando o texto em testemunhos em primeira mão, a partir de entrevistas com afegãos na diáspora. Procura-se igualmente problematizar a viabilidade de um diálogo intra-afegão, como possibilidade de abertura de um processo de reconciliação nacional, que liberte o Afeganistão das amarras do parcial isolamento internacional e da crise humanitária profunda em que se encontra.

Palavras-chave: talibãs; diáspora; reconciliação

Abstract

What is Afghanistan like today, more than three years after the Taliban’s return to power? How does the regime seem to be consolidating? What is the role and impact of international sanctions on illegitimate local authorities and the population? This article seeks to provide a set of possible answers to these questions, considering Afghanistan’s political and socio-economic reality, based on available documentary instruments and focusing the text on first-hand testimonies based on interviews with Afghans in the diaspora. It also seeks to problematize the viability of an intra-Afghan dialogue as a possibility for opening a process of national reconciliation that would free Afghanistan from the constraints of partial international isolation and the deep humanitarian crisis that the country faces.

Keywords: Afghanistan; Taliban; diaspora; reconciliation

Introdução

O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) gastou 2,3 triliões de dólares (milhões de milhões), durante os vinte e um anos de invasão e ocupação do Afeganistão. Quando em 2021 aconteceu a retirada - que começou a ser pensada durante o segundo mandato de Barack Obama, foi delineada durante a Administração Trump e levada a cabo por Joe Biden - a guerra já tinha provocado a morte de 2324 militares dos EUA, 3917 contratados dos EUA e 1144 soldados de países aliados. Muitos afegãos perderam a vida: 70 mil militares e polícias afegãos, 46 319 civis (dados, provavelmente, subestimando a realidade) e cerca de 53 mil combatentes islamitas, os chamados insurgentes. Quase 67 mil outras pessoas foram mortas no Paquistão na relação com a Guerra do Afeganistão.

O mundo tem receado que, isolados internacionalmente, com a economia sufocada e imensas restrições no acesso ao sistema bancário internacional, os talibãs voltem a investir no cultivo da papoila de ópio. De facto, no início de 2024, uma recuperação da produção seguiu-se a uma redução maciça de 95% em 2023, quando a proibição «quase eliminou a produção de papoila em todo o país, levando a um declínio severo na produção de ópio no Afeganistão»1. No entanto, como sustenta Mishra, «ainda que o cultivo tenha aumentado, os níveis actuais permanecem substancialmente inferiores aos de 2022, que registou 232 000 hectares de cultivo de papoila»2. A diretora executiva do Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNDOC, na sigla inglesa ), Ghada Waly, ex-ministra da Solidariedade Social no Egito, afirma que «as mulheres e os homens do Afeganistão continuam a enfrentar terríveis desafios financeiros e humanitários, e são urgentemente necessários meios de subsistência alternativos»3.

São muitos e diversos os problemas que o país hoje enfrenta. Da violência contra civis às questões de saúde, da fuga de cérebros ao impacto das alterações climáticas. E, por exemplo, o caso da educação. O Afeganistão é atualmente o único país do mundo onde o ensino secundário e superior é estritamente proibido a mulheres e raparigas com mais de 12 anos. Três anos depois da queda de Cabul, a capital do país, pelo menos 1,4 milhões de raparigas tiveram deliberadamente negado o acesso ao ensino secundário devido às proibições. Se na contabilidade forem incluídas as raparigas que já estavam fora da escola antes de os códigos legais religiosos rigorosos pelos talibãs terem voltado a ser impostos, «há agora quase 2,5 milhões de raparigas no país privadas do seu direito à educação, o que representa 80 por cento das raparigas afegãs em idade escolar»4.

Também houve uma diminuição de mais da metade no número de estudantes matriculados em universidades desde 2021, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla inglesa). O país enfrentará uma escassez de licenciados formados para empregos altamente qualificados, o que agravará os problemas de desenvolvimento. Novos dados da UNESCO mostram que o Afeganistão tinha apenas 5,7 milhões de raparigas e rapazes na escola primária em 2022, em comparação com 6,8 milhões em 2019. Esta queda nas matrículas no ensino primário é o resultado da decisão dos talibãs de proibir as professoras de ensinar rapazes, agravando a escassez de professores, bem como pela falta de incentivo dos pais para enviarem os seus filhos à escola num ambiente socioeconómico cada vez mais difícil. Teme-se que o aumento da taxa de abandono escolar possa levar a um aumento do trabalho infantil e do casamento precoce.

De acordo com a agência ONU Mulheres (da Organização das Nações Unidas - ONU), no seu último relatório, o «apagamento político» de uma parte substancial da população, também se reflete a nível social, uma vez que «98% das mulheres inquiridas sentiram que tinham influência limitada ou nula sobre as decisões tomadas nas suas comunidades». Alison Davidian, representante da ONU Mulheres no Afeganistão, afirma:

«há três anos uma mulher afegã poderia tecnicamente decidir concorrer à presidência. Agora, ela pode nem conseguir decidir quando ir comprar mantimentos. Penso que quando se retira o direito das mulheres à educação e se restringe os seus direitos ao trabalho e à vida pública, isso afecta todos os direitos e afecta a agência das mulheres de forma mais geral»5.

Apesar dos desafios e reveses no Afeganistão, é importante reconhecer os progressos significativos alcançados durante as duas últimas décadas. A expansão da educação para as raparigas e as oportunidades de emprego para as mulheres foram transformadoras. Mas a 15 de agosto de 2021 tudo mudou. Urge, portanto, conhecer melhor o que veio a seguir.

A solidificação do regime e os direitos das mulheres

De acordo com várias fontes no terreno contactadas pelo autor, há hoje uma solidificação do regime talibã, que procura conseguir uma legitimidade política e reconhecimento nacional e internacional, para a conquista do poder conseguida pela via armada, «gastando muito dinheiro na tentativa de garantir e estabilizar o seu governo», como relatou ao autor, em entrevista em setembro de 2024, o diplomata e analista Omar Samad. Trata-se de um investigador sénior não residente do Centro da Ásia Meridional do Conselho do Atlântico (Atlantic Council), fundador e presidente da Silkroad Consulting, LLC. Antes de ingressar nesse Conselho, Samad foi especialista residente no Centro de Gestão de Conflitos do Instituto de Paz dos EUA, embaixador do Afeganistão em França (de 2009 a 2011) e no Canadá (de 2004 a 2009) e porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) em Cabul. Também atuou como conselheiro e redator de discursos do MNE, Abdullah Abdullah.

A economia afegã está, obviamente, sob grande pressão, por um lado devido ao corte da ajuda ao desenvolvimento após o golpe de 2021, bem como por causa da pobreza e corrupção estruturais no país. O endurecimento, em meados de 2024, da Lei de Promoção da Virtude e Prevenção do Vício diminuiu ainda mais os direitos das mulheres e meninas, embora exista, segundo fontes contactadas pelo autor, «uma grande oposição a este tipo de política dentro dos próprios talibãs». Omar Samad explica: «Até onde isso pode ir e até onde pode mudar algumas mentalidades, não sabemos. Será um tipo de sistema um tanto subterrâneo». Trata-se de um sistema político-religioso «muito diferente do que conhecemos, a hierarquia é uma hierarquia muito diferente, mas é muito claro que existem diferenças de opinião dentro dos talibãs». Havia, no início, uma expectativa de que os talibãs permitissem espaço para que outros membros da sociedade afegã desempenhassem um papel e tivessem voz, mas no novo sistema, como Samad reconhece,

«isso não aconteceu, eles confiaram principalmente nos seus próprios seguidores e no seu próprio sistema de lealdade. O Afeganistão precisa de abrir mais espaço para intercâmbios políticos, pelo menos, que ocorram entre diferentes comunidades no país. É um desafio que permanece por alcançar».

M. S., jornalista afegã da etnia hazara, na diáspora (a identidade e o local de residência são ocultados por razões de segurança), revela que, atualmente,

«os rapazes são o grupo-alvo mais importante dos talibãs para treino em extremismo,Jihade ataques suicidas. Além disso, os talibãs detestam a forma como o povo afegão se veste nas cidades e pediram aos homens que mantivessem as barbas compridas e usassem roupas compridas como os talibãs. Não permitem que o povo afegão corte o cabelo. As mulheres devem usarhijabspretos longos para que não se veja nenhuma parte do corpo, incluindo o rosto, as mãos e os pés». Os talibãs emitiram «cerca de 70 ordens restritivas contra as mulheres nos últimos três anos». Segundo a organização não governamental ReliefWeb, «o Afeganistão está assolado por crises sobrepostas ligadas e agravadas pelo aprofundamento das desigualdades de género». Esses decretos dos talibãs visam as vidas, os corpos e as escolhas das mulheres e das raparigas. A crescente crise dos direitos das mulheres «desafia o progresso em todos os objetivos e indicadores de desenvolvimento sustentável»6.

Na verdade, os talibãs têm atacado os direitos das mulheres e das meninas desde que regressaram ao poder em agosto de 2021. Estão proibidas mulheres para a maioria das profissões, mas também na utilização de parques, ginásios e outros locais públicos.

Numa das suas últimas ordens, o líder dos talibãs anunciou inclusive que as vozes das mulheres são proibidas, considerando-as «partes privadas». Os talibãs recorrem a «espiões para identificar e prender raparigas e mulheres que praticam a desobediência civil», afirma M. S. Esta mulher jornalista que saiu do país após a tomada do poder pelos talibãs, afirma que os «estudantes de teologia» que mandam no país, «querem que as pessoas normais do Afeganistão se tornem completamente membros dos talibãs, em termos de aparência e intelectualmente».

M. S. conta-me que

«os talibãs sabem que o seu governo não é legítimo para o povo afegão, por isso recorrem à repressão e à censura extensivas para continuar o seu governo. Estão a tentar eliminar as vozes da oposição dentro e fora do Afeganistão. O âmbito da repressão e da censura dos talibãs incluiu mesmo alguns funcionários da ONU».

Já no segundo semestre de 2024, os talibãs proibiram a viagem ao Afeganistão de Richard Bennett, o relator especial da ONU para os direitos humanos no Afeganistão, porque criticou as políticas dos talibãs contra as mulheres e contra os direitos humanos. Pergunto a Omar Samad se é possível enquadrar a discriminação contra as mulheres como prioridade ideológica dos talibãs? O ex-diplomata considera que essa discriminação

«faz parte de uma mentalidade dentro da educação talibã. É uma questão complexa, que tem as suas raízes na década de 1970, quando os comunistas assumiram o poder e impuseram algumas medidas muito extremas às aldeias, que reagiram. No início da década de 80, levou a uma rebelião nacional contra o regime comunista e essa ideologia de rebelião islâmica também está enraizada em algumas tendências culturais, ideológicas e religiosas rurais que foram forçadas e reforçadas pelo sistema demadras7 que foi criado durante as décadas de 1980 e 1990, especialmente no Paquistão e em alguns campos de refugiados afegãos, e que foram influenciados por escolas de pensamento não tradicionais, como o salafismo e owahabismo, entre outras».

Sabe-se que o Governo talibã vai mudar o conteúdo dos manuais escolares. «O sistema educativo do Afeganistão corre o risco de ser talibã e de extremismo islâmico», denuncia M. S. «Atualmente, os rapazes que estudam nestas escolas terão um futuro preocupante». Numa tal situação, questiona M. S., «se as raparigas puderem estudar, poderão ter um futuro risonho?» «Antes de vir para a Europa», admite a jornalista, «era ativa na defesa dos direitos das mulheres», mas, como ativista, considera que estudar «em escolas cujo conteúdo foi manipulado pelos talibãs não é útil para rapazes e raparigas. Não precisamos de uma geração instruída que sofra uma lavagem cerebral com extremismo»8. O futuro do país não pode nem deve ser construído com base na exclusão de metade da população.

No fórum que decorreu em Nova Iorque, em setembro de 2024, à margem da Assembleia Geral da ONU, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, reafirmou que «continuaremos a amplificar as vozes das mulheres afegãs e a apelar a que desempenhem um papel pleno na vida do país, tanto dentro das suas fronteiras como no cenário global». O secretário-geral da ONU, António Guterres reiterou que as Nações Unidas nunca permitirão que «a discriminação baseada no género se torne normalizada em qualquer parte do mundo», acrescentando que «o que está a acontecer no Afeganistão pode ser comparado com alguns dos sistemas de opressão mais flagrantes da história recente»9.

«Reunimo-nos em tempos perigosos e é doloroso ser mulher, e nunca tanto como agora no Afeganistão», disse Margot Wallström, ex-ministra dos Negócios Estrangeiros sueca e presidente do Fórum das Mulheres sobre o Afeganistão. «O último decreto talibã pretende silenciar as mulheres, torná-las invisíveis. Mas não aqui na ONU. Hoje, deixaremos que as suas vozes e preocupações sejam ouvidas»10, afirmou. A atriz Meryl Streep apresentou aí uma versão curta do documentárioThe Sharp Edge of Peace, que segue a única mulher da equipa do Governo afegão que negociou com os talibãs em Doha, Catar, em 2020. Lembrou que as mulheres afegãs receberam o direito de voto em 1919, antes das mulheres no seu país natal, os EUA. No fórum na sede da ONU, Streep afirmou que, hoje em dia,

«mesmo os animais na capital do Afeganistão, Cabul, têm mais liberdade do que as mulheres […] um gato pode sentar-se na varanda da frente e sentir o sol no rosto. Pode perseguir um esquilo até o parque. Um esquilo tem hoje mais direitos do que uma rapariga no Afeganistão porque os parques públicos foram fechados às mulheres e raparigas pelos talibãs. Um pássaro pode cantar em Cabul, mas uma menina não, e uma mulher não pode cantar em público. Isto é extraordinário. Esta é uma supressão da lei natural. Isso é estranho»11.

A crise humanitária e uma espécie de isolamento internacional

Como escrevi no livro que publiquei em 2022, apresentado em Lisboa pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Professor Augusto Santos Silva, no preciso dia em que começava a invasão russa em larga escala da Ucrânia, «para uma parte muito significativa da população afegã, mais do que aferir o nível do cumprimento de promessas dos líderes talibãs relativamente aos direitos das mulheres e das minorias, a prioridade é conseguir sobreviver»12.

Três milhões de crianças afegãs são consideradas gravemente desnutridas. «Os doadores estão distraídos com outras crises em todo o mundo e talvez também sintam algum cansaço em relação ao Afeganistão.»13

O regime de sanções obviamente prejudicou as perspetivas económicas de muitas pessoas, o país vive uma crescente e contínua crise humanitária, há um recorde negativo de malnutrição. «Uma das preocupações diárias de muitos afegãos é a forma de preparar a próxima refeição», revela ao autor o analista e ex-diplomata afegão, residente nos EUA, Omar Samad.

Em agosto de 2021, a Embaixada dos EUA em Cabul suspendeu as operações que foram posteriormente transferidas para Doha, no Qatar. A partir daí, o envolvimento do Governo dos EUA com os talibãs centrou-se nas restrições impostas às mulheres e às raparigas pelas autoridadesde factodo Afeganistão e sublinhou a importância de respeitar os direitos de todos os afegãos, incluindo os membros dos grupos religiosos. Foram discussões técnicas no nível de grupos de trabalho entre representantes dos EUA e dos talibãs. Mas isso não quer dizer, pelo menos por enquanto, que o reconhecimento da legitimidade política dos talibãs, enquanto autoridade governante do Afeganistão, possa estar para breve.

A aposta da ONU parece estar numa «abordagem passo a passo» com as autoridadesde facto, exigindo-lhes que, por exemplo, «tornem a governação mais inclusiva e respeitem os direitos das mulheres e das raparigas». Em troca, a comunidade internacional aliviaria «gradualmente as restrições e forneceria apoio ao desenvolvimento»14. Mas o endurecimento das leis relacionadas com a moral e os decretos atentatórios emitidos pelas autoridades religioso-políticas do Afeganistão acabam por comprometer essa estratégia, uma vez que afastam países que poderiam estar dispostos a ténues aproximações em matéria de ajuda ao desenvolvimento, já que não encontram nem boa-fé nem vontade de cumprir compromissos internacionais por parte dos talibãs. As negociações em Doha, no Qatar, acabam por servir para a liderança talibã desenvolver a sua diplomacia e tentar quebrar o isolamento internacional. Na terceira ronda negocial, Zabihullah Mujahid, o principal porta-voz do Governo talibã, escreveu na plataforma social X que a delegação se reuniu «com representantes de países como a Rússia, a Índia e o Uzbequistão à margem da reunião»15. Ou seja, mostrando que o regime não está totalmente isolado e que há cada vez mais países, nomeadamente com forte peso regional, disponíveis para dialogar, negociar, transacionar com os talibãs. Será importante salientar que nenhum país reconheceu oficialmente os talibãs como governo do Afeganistão, e a ONU disse que o reconhecimento é quase impossível enquanto as proibições à educação e ao emprego feminino permanecerem em vigor. No fim dessa terceira ronda negocial em Doha, Rosemary DiCarlo, subsecretária-geral da ONU para assuntos políticos e de consolidação da paz, e que presidiu ao evento, disse que as negociações foram «construtivas» e «úteis», tendo sido a primeira vez que «uma secção transversal tão ampla da comunidade internacional e das autoridadesde factoteve a oportunidade de manter discussões tão detalhadas», classificando as discussões como francas e manifestando votos para que tenham sido, «acredito, úteis»16. DiCarlo descartou o reconhecimento do regimede factoem Cabul, «a menos que os talibãs acabassem com as restrições à educação e à participação das mulheres na vida pública»17. Falando à Voz da América, um diplomata ocidental disse que os membros da delegação afegã eram «muito competentes» e o seu conhecimento técnico era «impressionante»18.

Na verdade, o Afeganistão não pode regressar ao seio da comunidade internacional, nem desenvolver-se plenamente do ponto de vista económico e social, se continuar privado das contribuições e do potencial de metade da sua população, ou seja, das mulheres. Embora cerca de 16 países tenham embaixadas no Afeganistão, a comunidade internacional tem hesitado em reconhecer o Governo talibã, principalmente porque ele não é inclusivo e restringe os direitos das mulheres e meninas no país. A promessa dos talibãs de um governo inclusivo provou ser apenas propaganda. «Demonstraram repetidamente que o seu único interesse é consolidar o poder para a sua visão extremista», afirma Massoud, o líder da resistência afegã, numa entrevista à televisão norte-americana CNN19.

Afghanistan fatigue e outras prioridades

Parece haver uma certaAfghanistan fatigue. Os doadores estão ocupados com outras crises e talvez também sintam algum cansaço em relação ao Afeganistão. Antes da tomada de poder pelos talibãs havia milhares de milhões de dólares a afluir ao país; agora, as exigências humanitárias são grandes e o financiamento está a diminuiu drasticamente. Há, de facto,umaAfghanistan fatigue? Fadiga da comunidade internacional em relação ao Afeganistão? E o que tal significa para um país em que antes do advento do novo emirado talibã, a ajuda externa equivalia a 40% do produto interno bruto e financiava mais de metade do orçamento anual de seis mil milhões de dólares do governo, incluindo 75% a 80% do total das despesas públicas? A repentina mudança de «regime deu azo à retirada abrupta de toda a ajuda internacional, mergulhando o Afeganistão numa queda livre económica e precipitando uma crise humanitária catastrófica»20. A isto soma-se a deflação de preços em toda a economia, escassez de moeda, enfraquecimento do poder de compra, surtos de doenças, danos em infraestruturas críticas e deterioração dos serviços públicos básicos. Os afegãos têm acesso limitado a abrigo, educação, cuidados de saúde, eletricidade, alimentos, água potável e sistemas de saneamento, e cerca de 6,3 milhões estão deslocados internamente - o segundo maior número no mundo depois da Síria21. Relatórios para 2024 da OCHA22 e da USAID23 estimam que quase 16 milhões de afegãos enfrentam insegurança alimentar aguda, mais de 22 milhões necessitam de assistência de proteção e quase nove milhões de crianças carecem de apoio educacional. À medida que outras crises globais chamam a atenção da comunidade doadora, a situação do Afeganistão vai passando cada vez mais para segundo plano, apesar das profundas necessidades do país, com mais de 85% a viver abaixo do limiar de pobreza.

É improvável também que o Afeganistão seja uma prioridade para a Administração Trump 2.0, mas também não se prevê nenhuma reversão do essencial da política norte- americana em relação ao país, seja voltar a armar os movimentos antitalibãs, seja, por outro lado, entrar na via do reconhecimento oficial do regime. Os EUA continuam, ainda assim, a ser o grande doador internacional do Afeganistão, com cerca de três mil milhões de dólares desde agosto de 202124.

As alternativas à ajuda ocidental

E se essa ajuda não vier do Ocidente, outrosplayersencontrarão terreno livre para desenvolver as suas estratégias. A Índia, que tem uma agenda muito própria de afirmação regional e global, que não é a da China ou a da Rússia, mas também não é a dos EUA, investiu, nos últimos vinte anos,

«centenas de milhões de dólares no desenvolvimento do porto de Chabahar, no sudeste do Irão, e construiu uma autoestrada que o liga ao oeste do Afeganistão. Em março, os talibãs anunciaram que iriam investir cerca de 35 milhões de dólares no porto de Chabahar, uma medida que visa diminuir a dependência em relação ao vizinho Paquistão»25.

É preciso dizer que as relações entre os talibãs e o Paquistão, aliados de longa data, deterioraram-se acentuadamente nos últimos anos.

Em relação ao Afeganistão, a Índia parece ter deixado para trás uma posição mais moral e sancionatória para passar a ser muito pragmática; isto é, atua de acordo com os seus próprios interesses, não para defender valores em solo afegão. E o mesmo se pode dizer da China. Pequim tem aumentado constantemente o envolvimento com os talibãs, «culminando numa dança complexa de pragmatismo e oportunidades após a retirada americana em 2021», como escreve Rustam Ali Seerat26. A China vê a retirada americana do Afeganistão e a tomada do poder pelos talibãs como o início de uma «nova era» de desenvolvimento independente e uma transição do «caos para a ordem». Os interesses fundamentais da China no Afeganistão permanecem assim constantes e podem ser categorizados em três pilares: «conectividade, segurança e acesso a recursos como minerais, petróleo e gás»27.

A China vê o Afeganistão como um elo crucial na sua ambiciosa Iniciativa Faixa e Rota (BRI, na sigla inglesa), ou Nova Rota da Seda, uma estratégia global de desenvolvimento de infraestruturas. A China procura estender a BRI para oeste através da Ásia Central, alavancando o Corredor Económico China-Paquistão (CPEC) e o porto de Gwadar. Esta expansão promete a extração de recursos, o acesso ao mercado e uma porta de entrada para a lucrativa região da Ásia Central.

Para angústia ocidental, a verdade é que a Rússia, o Irão e a China reconciliaram-se com o domínio talibã, mostrando-se «indiferentes relativamente às sanções económicas ocidentais aos talibãs, como o congelamento dos ativos do banco central afegão, não se preocupando muito com questões de direitos humanos, liberdades civis e direitos das mulheres»28. Aliás, a Rússia tem vindo a desenvolver as suas relações com os talibãs há vários anos. Em 2017, fornecia aos talibãs armas e informações para combater o IS-K (Estado Islâmico de Khorasan), afiliado do ISIS (sigla inglesa do Estado Islâmico do Iraque e do Levante), por referência à província homónima no Afeganistão, mas também, e como não pode- ria deixar de ser, os Estados Unidos, procurando «fazer com que os EUA sangrassem militarmente e se enredassem no Afeganistão, mesmo quando Moscovo se opunha a bases americanas de longo prazo no Afeganistão»29. Desde a retirada dos EUA em 2021, Moscovo tem trabalhado para reduzir a influência americana na região. Mas não foi capaz de convencer os talibãs a governar apenas interinamente, embora tenha apoiado tacitamente os talibãs em vários fóruns internacionais, incluindo em Doha, ao não insistir num novo enviado especial da ONU a que os talibãs se opuseram. Juntamente com a China, a Rússia condenou as sanções ocidentais (embora não tenha pressionado para as remover).

A relação entre o Irão e o Afeganistão é uma «mistura complexa de cooperação e competição, enraizada na sua história comum, mas tensa por diferentes situações políticas e desafios económicos. Teerão procura, acima de tudo, mitigar o impacto interno da instabilidade do Afeganistão»30.

Segurança com os talibãs: falsas promessas ou realidade

Em junho de 2024, a ONU divulgou um relatório em que documentou um aumento dos ataques anti-talibã durante os primeiros seis meses deste ano. Terão sido 29 operações realizadas pela Frente Nacional de Resistência, enquanto, nofeedX do grupo, há alegações de muito mais operações - mais de 200, como alegam. Tendo feito da garantia da segurança para os civis a sua principal bandeira política após a tomada do poder pela força das armas, os talibãs têm tido um sucesso relativo, mas evidente, no decréscimo de ações do IS-K. De qualquer modo, o Daesh (Estado Islâmico) da província de Khorasan é uma ameaça para todos os governos da região, incluindo o regime talibã, o Paquistão, o Irão, os estados da Ásia Central e a Índia. A maioria dos seus ataques desde o seu aparecimento em 2015 ocorreu no Afeganistão e, em menor grau, no Paquistão, mas o grupo «também conduziu vários ataques no Irão nos últimos anos», tal como ataques de pequena escala no Tajiquistão e no Uzbequistão, mas incentiva a violência tanto naqueles países como na Índia. Em março de 2024, como afirma Tricia Bacon, «depois de quatro homens armados atacarem a Câmara Municipal de Crocus, em Moscovo, matando mais de 150 pessoas, todos os olhares se voltaram para o Estado Islâmico da província de Khorasan (IS-K)»31. Pouco depois, «o Estado Islâmico assumiu a responsabilidade pelo ataque, enquanto o IS-K o anunciou sem o reivindicar diretamente». Na realidade, o ataque em Moscovo não representa apenas uma expansão na capacidade transnacional do grupo, mas «também destaca as dificuldades de combate à organização»32.

Segundo declarações da jornalista M. S. ao autor, em setembro de 2024,

«o Daesh Khorasan está a renascer no Afeganistão e a Europa será um dos alvos dos seus ataques. Anteriormente, o mundo ocidental pensava que poderia controlar o Daesh através dos talibãs, mas os relatórios mostraram que o Daesh influenciou mesmo a estrutura do governo talibã e foi capaz de melhorar as capacidades de ataques suicidas e de preparação de combate ao longo de três anos».

Mas por que razão o Daesh conseguiu tornar-se poderoso durante o regime talibã? «Porque o pensamento dostalibe do Daesh tem muitas raízes comuns». Os talibãs e o IS-K têm estado em guerra pelo menos nos últimos dez anos. Têm «uma visão muito diferente de como impor ashariaa uma sociedade. E assim, nos últimos três anos, os talibãs pareciam ter, em grande medida, enfraquecido a posição do IS-K no Afeganistão», mas acredita-se que a conflitualidade interna afegã, alimentada por certos sectores próximos destes grupos no vizinho Paquistão, continuará enquanto houver «motivações, na região e fora dela, para usar o terrorismo como ferramenta».

A resistência afegã

A maioria dos afegãos teve de se submeter aos talibãs não porque abrace a sua ideologia misógina, mas porque os «estudantes de teologia» parecem deter muito do monopólio das armas no país. Ainda assim, há um movimento de resistência nascente. Peter Bergen da CNN entrevistou Ahmad Massoud, que disse estar envolvido numa «luta pela alma e futuro da nossa nação, e estamos determinados a vencer, não importa as probabilidades»33. Filho de Ahmad Shah Massoud, líder da resistência afegã aos talibãs há mais de duas décadas e meia, quando estes tomaram o poder no Afeganistão pela primeira vez em 1996, lidera - 35 anos de idade e com o peso do nome do pai nos ombros, assassinado pela Al-Qaeda apenas um par de dias antes dos atentados do 11 de Setembro de 2001 - a Frente Nacional de Resistência aos talibãs:

«Em 5 de setembro de 2019, recebi um mandato claro dos nossos cidadãos, reunidos no mausoléu do meu pai, para liderar uma solução para esta crise iminente. O momento crítico chegou a 15 de agosto de 2021, quando o meu povo e alguns dos ex-membros das forças armadas do Afeganistão estabeleceram a Frente Nacional de Resistência do Afeganistão, confiando-me a liderança. Não foi uma escolha, mas um chamamento ao dever a que respondi afirmativamente sem hesitação»34.

Alega ter levado a cabo mais de 200 operações militares neste ano e de ter, atualmente, mais de cinco mil homens armados sob o seu comando, dados de impossível verificação independente, dada a escassez de informação jornalística no terreno, além de os novos senhores do poder em Cabul terem banido centenas de meios de comunicação afegãos.

Massoud disse a Bergen que «a verdadeira vitória dos talibãs não foi no campo de batalha; foi na mesa de negociações», um acordo de retirada que foi negociado pela equipa do então Presidente Donald Trump e executado por Joe Biden. Massoud vive num local não divulgado na Ásia Central, dirigindo operações militares no Afeganistão de fora do país. A entrevista foi feita pore-mail. Massoud afirmou que «os talibãs acreditam que podem punir o povo do Afeganistão, especialmente as mulheres, e ainda assim conseguir reconhecimento internacional. Hoje, nenhum governo os reconhece oficialmente, embora vários mantenham relações diplomáticas com eles». Massoud denuncia a existência de uma impunidade, que diz ser

«resultado direto da política de apaziguamento da comunidade internacional com os talibãs nos últimos três anos. Se esperamos ver uma mudança no comportamento dos talibãs, devemos alterar a nossa abordagem em relação a eles. É tão simples quanto isso. Os talibãs só respondem ao poder e à força. O envolvimento diplomático só os encorajou»35.

Não tem dúvidas de que

«a retirada apressada dos EUA em 2021 fez-nos perder muitas conquistas. Tínhamos direitos como a liberdade de expressão, e uma nova geração, tanto de mulheres quanto de homens, estava a surgir. Perdemos tudo isso quando o acordo com os talibãs foi assinado em 2020 e quando a retirada aconteceu abruptamente em 2021. Agora somos o único país totalmente controlado por terroristas»36.

O líder da resistência afegã, nesta entrevista à CNN no início de setembro de 2024, afirmava estar com capacidade operacional de guerrilha em 20 das 34 províncias que constituem o território afegão, reivindicando uma crescente capacidade organizativa e de recrutamento. Massoud forneceu números concretos, embora de impossível verificação independente: «Hoje, temos mais de 5000 forças permanentes espalhadas por cerca de 20 províncias. Conseguimos aumentar as suas capacidades, mesmo sem receber nenhum apoio externo. Desde janeiro de 2024, lançámos 207 operações em todo o país»37. Uma delas terá sido, no mês anterior(?), um ataque ao Aeroporto de Cabul, o que, no entender do líder da resistência nacional afegã, demonstrou «as significativas capacidades militares e de inteligência que desenvolvemos desde 2021. Gostaria de esclarecer que todos os nossos alvos são e serão alvos militares. Apenas atacamos onde os talibã e outros grupos terroristas residem e evitamos vítimas civis»38.

Quando os americanos abandonaram o Afeganistão há três anos, deixaram para trás equipamentos militares no valor de 8,5 mil milhões de dólares, segundo uma estimativa da ONU. É mais do que o orçamento de defesa de algumas nações europeias. Na verdade, mais do dobro do orçamento português para a defesa nacional (3065,1 milhões de euros). O valor do equipamento militar abandonado pelos americanos alterou, muito naturalmente, a dinâmica do campo de batalha. Agora, os talibãs estão melhor armados do que nunca. Não se trata apenas «da nossa resistência; trata-se de impedir que o Afeganistão se torne um núcleo de terrorismo internacional». E para isso, reclama Massoud, o apoio internacional à resistência afegã, é mais do que necessário:

«não estamos apenas a combater os talibãs; estamos envolvidos num conflito mais amplo contra uma coligação de grupos terroristas regionais e globais. Não é realista esperar que neutralizemos sozinhos esta ameaça. A nossa luta não é apenas pelo Afeganistão; é pela segurança global. Qualquer nação deve reconhecer a necessidade estratégica de apoiar a nossa causa e os nossos esforços»39.

Até porque Massoud não hesita em afirmar publicamente as responsabilidades da comunidade internacional, e em particular dos EUA, pelo regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão:

«O acordo de Doha, em particular, minou o moral das nossas forças de segurança e dos funcionários governamentais. Se os EUA se tivessem simplesmente retirado sem negociações, os talibãs não estariam no poder hoje. As consequências foram devastadoras - desmoralizou as forças armadas do Afeganistão, normalizou as relações com os terroristas, facilitou a libertação de milhares de extremistas das nossas prisões e abriu o caminho para a queda do nosso governo. Este erro colossal deu aos talibãs uma vitória que não conseguiram alcançar através da força das armas»40.

Tendo lançado um livro que é um manifesto,In the Name of My Father: Struggling for Freedom in Afghanistan(«Em Nome do Meu pai: Lutando pela Liberdade no Afeganistão»), Massoud reiterou a Peter Bergen (que havia entrevistado o seu pai em 2021 e escrito o prefácio do livro de memórias do «velho» Massoud) que estão a lutar «por um Afeganistão democrático, descentralizado e pluralista, onde todos os cidadãos, independentemente do género, etnia ou crença religiosa, gozem de direitos iguais. Este é o nosso objetivo inegociável»41.

O jovem comandante afirma que a resistência está a construir

«as bases para um novo Afeganistão, um sistema resiliente contra o extremismo e que responda às diversas necessidades de todos os nossos cidadãos. Não se engane - estamos preparados para uma longa luta. É uma luta pela alma e pelo futuro da nossa nação, e estamos determinados a vencer, independentemente das probabilidades»42.

O diálogo intra-afegão e o papel da diáspora

Há uma imperiosa necessidade de um diálogo intra-afegão, algo que foi absolutamente descurado pela intervenção internacional ao longo de duas décadas. O sistema político adotado depois de 2004, com a comunidade internacional a tentar fazer um pouco destate-building(construção de Estado), provou ser fundamentalmente inadequado face à realidade demográfica de um país altamente diversificado, sem maioria étnica, baseado igualmente em muitas fidelidades tribais, de clã e regionais. A Constituição concentrou poder excessivo em Cabul, centralização que acabou por se revelar um fator primordial na fraqueza do governo e na marginalização de numerosas comunidades. A situação piorou dramaticamente durante a presidência de Ashraf Ghani, concentrando em si a tomada de decisões, e a um pequeno círculo de conselheiros, exacerbando a alienação de grandes segmentos da população afegã.

Na referida entrevista à CNN, Massoud, o jovem líder da resistência nacional afegã, afirma que

«o controlo dos talibãs sobre o Afeganistão já está a diminuir. A sua falta de disciplina, competência, legitimidade e desunião interna tornam o governo, a longo prazo, ineficaz. Não esperamos apenas a sua queda - estamos a trabalhar para garantir isso. Isto não é apenas oposição - é a base de uma alternativa democrática para o futuro do Afeganistão. Não estamos à espera que os talibãs fracassem; estamos a construir o sistema que irá substituí-los»43.

Massoud garante que

«as fraturas dentro dos talibãs estão a alargar-se. A sua implosão não é uma questão de se, mas de quando. Quando esse momento chegar - e chegará mais cedo do que muitos esperam -, estaremos prontos. O governo democrático que estamos a preparar preencherá o vazio, representando todos os cidadãos e trazendo estabilidade à nossa nação»44.

Daqui a uma década, confia, o Afeganistão não estará apenas livre do domínio talibã - «estará no caminho de se tornar um farol de democracia na região. Isso não é ilusão - é o nosso objetivo»45.

Qual pode ser o papel da diáspora afegã, uma vez que os talibãs estão consolidados no poder e podem não estar sequer interessados nesse diálogo? «Há várias plataformas de afegãos», explica-me Omar Samad, que

«visam utilizar o envolvimento e o diálogo para reconstruir alguma confiança e abrir canais de comunicação para que os afegãos possam falar com os afegãos, mesmo que tenham lutado entre si no passado. É uma proposta desafiadora e muito, muito difícil e complexa devido à história de sessenta anos de conflito contínuo de diferentes formas no Afeganistão».

Portanto, é necessária uma abordagem muito ponderada em termos de «como, quando e onde iniciar o diálogo e que tipo de diálogo pode funcionar no contexto afegão». Samad afirma que a primeira coisa que precisa ser feita

«é reconhecer um ao outro, reconhecer o outro lado, independentemente de o outro ser comunista ou liberal, de ser talibã ou outro tipo de islamismo militante, esteja no país ou fora do país, embora, é claro, a maioria das pessoas do regime anterior estejam agora fora do país. […] Geralmente as pessoas têm tentado usar armas em conflitos e tentado iniciar conflitos para impor a vontade de um lado sobre os outros. Portanto, espero que tenhamos aprendido a lição de que através da violência e da atividade armada não é possível alcançar o nosso objetivo. É aqui que o diálogo e o envolvimento precisam começar; precisamos de garantir que seja o mais inclusivo possível, que seja estruturado e que construa confiança e consenso ao longo do tempo. Caso contrário, penso que ficaremos presos onde estamos e o país não terá a oportunidade de ter um sistema mais inclusivo e mais participativo no futuro. A única maneira de o ter é começarmos a conversar uns com os outros».

Para Samad, há muitas lições a retirar dos vinte anos de presença ocidental no Afeganistão,

«tanto para os afegãos, para a região como para outros países. Portanto, espero que utilizemos o caso do Afeganistão de forma construtiva e que aprendamos e não repitamos os erros do passado e isso aplica-se também ao povo, aos líderes e àqueles que afirmam representar, digamos, as comunidades na diáspora. Temos de ser mais responsáveis relativamente ao futuro do país e não sermos apanhados pelo barulho e pelo emocionalismo que, por vezes, não ajuda as pessoas que estão no terreno».

M. S. não está tão otimista em relação ao sucesso de um diálogo intra-afegão:

«Creio que a experiência das últimas duas décadas provou que o diálogo com os talibãs é um grande erro. Existem duas razões importantes: os talibãs baseiam-se no extremismo islâmico. Se os líderes quiserem reconsiderar as suas políticas extremistas através do diálogo intra-afegão ou mesmo do diálogo com a comunidade internacional, enfrentarão o risco de colapso, porque os soldados talibãs são forças ideológicas e se virem que os seus líderes estão a corrigir as suas políticas extremistas, existe uma grande possibilidade de serem separados deste grupo. A segunda razão é que os talibãs só compreendem a linguagem da força e das ameaças reais, porque sempre travaram aJihade sempre falaram a mesma língua, e só compreendem a linguagem daJihad. A única solução para o problema do Afeganistão é a unidade dos grupos étnicos contra os talibãs e eliminarem os talibãs».

Em suma, defende que o diálogo é possível entre todos, mas excluindo da equação os talibãs. Para ela,

«se considerarmos o mundo como um corpo e os terroristas como um vírus, o Afeganistão foi infetado pelo vírus. O mundo tornou-se passivo face a este vírus porque pensa que não o pode eliminar, deve tolerá-lo e aceitá-lo, mas a tolerância e aceitação do vírus no organismo não significa que o vírus deixará de se multiplicar e ameaçar, tornando-se uma ameaça maior porque o corpo já não tenta resistir ao vírus».

Brain draine construção de elites

Embora não estejam disponíveis dados sobre o número exacto de profissionais qualificados e licenciados que deixaram o país, nomeadamente jovens, a Organização Internacional para as Migrações estima que, em setembro de 2024, mais de 166 mil afegãos deixaram o país, apenas para os vizinhos Paquistão e Irão. «A fuga de cérebros continua a acontecer mesmo depois de vários anos de governo do Emirado Islâmico, criando grandes lacunas na sociedade», diz Sohaib Raufi, diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Regionais em Cabul, ao Arab News46. Durante estes três últimos anos, milhões de afegãos fugiram para outros países. As estatísticas anunciadas pelas autoridades paquistanesas e iranianas dizem respeito a mais de dez milhões de pessoas.

Por conseguinte, explica-nos Samad, a construção de elites afegãs é

«um processo longo que exigirá a construção de confiança também dentro da comunidade internacional, e não apenas entre os afegãos. Participei como parte do grupo da sociedade civil, na última vez em julho, na terceira reunião de Doha, eram cinco mulheres e dois homens, e a maioria deles veio de dentro do país e expressámos de forma livre e independente as nossas opiniões sobre o que precisa de ser feito. Os talibãs entraram, noutra reunião, e expressaram as suas opiniões. A comunidade internacional expressou a sua opinião. Portanto, precisamos de continuar esta discussão».

As possibilidades de reconciliação nacional

Um processo de reconciliação nacional no Afeganistão dificilmente poderá ter viabilidade se não for encorajado a partir do exterior. Quando, a pensar na publicação deste artigo, conversei com Omar Samad, ainda a campanha eleitoral para a presidência dos EUA estava em curso, mas era importante tentar compreender que impacto poderia ter no processo afegão, fosse a vitória republicana, como se veio a verificar com o triunfo de Donald Trump, ou democrata. Samad explica que

«em primeiro lugar, a posição dos dois partidos na política externa em relação às mudanças no Afeganistão fala muito sobre o passado. Tu fizeste isso, eu fiz aquilo. Há muito esse tipo de discurso. E então, o outro lado reage. Portanto, há muita retórica sobre o passado. Quase não se pensa no futuro quando se trata do Afeganistão; aquilo que precisa ser feito, seja na forma de restrições aos talibãs ou nas oportunidades que existem em termos de reconstrução de pontes e construção de confiança sobre o Afeganistão, para que este não se torne uma ameaça ou um problema ou um estado falhado novamente. Essa discussão ainda não está realmente a ter lugar, espero que aconteça».

Consciente de que não pode «prever o que os EUA irão fazer», considera que

«existe uma obrigação por parte da comunidade internacional de garantir que o povo afegão não morre à fome por causa de sanções ou de más políticas dentro ou fora do país. Portanto, precisamos de ter a certeza de que tomamos as decisões corretas e que temos em conta as necessidades humanitárias do povo afegão».

Conclusão

O Afeganistão precisa de encontrar um terreno comum para neutralizar as ameaças, tomando medidas graduais e desenvolvendo uma visão a longo prazo, um processo longo que exigirá a tal construção de confiança entre o país e a comunidade internacional, e não somente entre os afegãos. Torna-se imperioso tomar medidas práticas para garantir que o Afeganistão não seja esquecido ou isolado. Como afirma Samad, é urgente

«despolitizar certos aspectos do nosso envolvimento, porque quanto mais politização se fizer, maiores serão as probabilidades de reação negativa e mesmo, em alguns casos, de medidas mais drásticas que poderiam ser implementadas ou impostas à população afegã por parte dos talibãs, como tem estado, de resto, a acontecer».

Há muito caminho a fazer para tentar contrariar a profecia do meu saudoso amigo, embaixador José Cutileiro, que viveu sete meses no Afeganistão, durante a sua adolescência: «Ó filho, o Afeganistão nunca vai ser uma Holanda da quarta divisão». Já não seria mau que fosse um Afeganistão da segunda ou terceira. Para um dia poder almejar patamares superiores. Quem sabe, uma liga dos campeões da região. Como já foi, embora num passado cronológico, mas também simbólico, cada vez mais distante.

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Notas

1 MISHRA, Vibhu - «Rise in Afghan opium cultivation reflects economic hardship, despite Taliban ban». 6 de novembro de 2004. Consultado em: 10 de novembro de 2024. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2024/11/1156566. Salvo indicação em contrário, todas as citações são traduções livres do autor.

2Ibidem.

3Ibidem.

4 «AFGHANISTAN: 20 YEARS of steady education progress “almost wiped out”». UN News. 14 de agosto de 2024. Consultado em: 10 de novembro de 2024. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2024/08/1153191.

5Ibidem.

6 «RESOLVE OF Afghan women in the face of erasure: three years since the Taliban takeover». Relief Web. 13 de agosto de 2024. Consultado em: 10 de novembro de 2024. Disponível em: https://reliefweb.int/report/afghanistan/resolve-afghan-women-face-erasure-three-years-taliban-takeover.

7Escola muçulmana ou casa de estudos islâmicos; a palavra vem do árabemadrasah, ou madrassa, que em árabe originalmente designava qualquer tipo de escola, secular ou religiosa, pública ou privada.

8«AFGHANISTAN: 20 YEARS of steady education progress…»; «RESOLVE OF Afghan women in the face of erasure...».

9Ibidem.

10 «AFGHANISTAN: NO future without women’s participation». UN News. 28 de setembro de 2024. Consultado em: 10 de novembro de 2024. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2024/09/1154721.

11Ibidem.

12 ALEXANDRE, Ricardo -Breve História do Afeganistão de A a Z. Lisboa: Oficina do Livro, 2022.

13Entrevista com o autor a 18 de setembro de 2024.

14Ibidem.

15 «UN PUSHES for inclusive future in Afghanistan at Doha talks». UN News. 1 de julho de 2024. Consultado em: 11 de novembro de 2024. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2024/07/1151666.

16 ZAMAN, Sarah -«UN talks in Doha end; recognition remains distant dream for Taliban». VOA. 1 de julho de 2024. Consultado em: 10 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.voanews.com/a/un-talks-in-doha-end-recognition-remains-distant-dream-for-taliban-/7681320.html.

17Ibidem.

18Ibidem.

19 BERGEN, Peter - «Leader of Afghanistan’s resistance movement says he will defeat the Taliban “no matter the odds”». CNN Politics. 1 de setembro de 2024. Consultado em: 11 de novembro de 2024. Disponível em: https://edition.cnn.com/2024/09/01/politics/ahmad-massoud-afghanistan-resistance-interview/index.html.

20 «THE FUTURE of assistance for Afghanistan: a dilemma». CSIS - Center for Strategic and International Studies. 13 de junho de 2024. Consultado em: 12 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/future-assistance-afghanistan-dilemma.

21Ibidem.

22Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

23Agência dos EUA para o desenvolvimento internacional.

24 «THE AZADI briefing: what will Trump’s election victory mean for Afghanistan?». Radio Free Europe/Radio Liberty. 8 de novembro de 2024. Consultado em: 12 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.rferl.org/a/afghanistan-trump-taliban-us-policy/33194904.html.

25 «INDIA’S LEAP of faith in Afghanistan: tango with the Taliban». The Diplomat. 13 de novembro de 2024. Consultado em: 13 de novembro de 2024. Disponível em: https://thediplomat.com/2024/11/indias-leap-of-faith-in-afghanistan-tango-with-the-taliban/.

26 SEERAT, Rustam Ali - «China navigates a new Afghanistan with the Taliban as its rulers». Friedrich Naumann Foundation for Freedom. 5 de julho de 2024. Consultado em: 12 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.freiheit.org/ south-asia/china-navigates-new-afghanistan-taliban-its-rulers.

27Ibidem.

28 «RUSSIA-AFGHANISTAN relations in the aftermath of the Moscow attack». Brookings. 28 de março de 2004. Consul- tado em: 12 de novembro de 2024. Dispo- nível em: https://www.brookings.edu/ articles/russia-afghanistan-relations-in-the-aftermath-of-the-moscow-attack/.

29Ibidem.

30Ibidem.

31 «THE ISLAMIC State in Khorasan province: exploiting a counterterrorism gap». CSIS - Center for Strategic and International Studies. 11 de abril de 2024. Consultado em: 11 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/islamic-state-khorasan-province-exploiting-counterterrorism-gap.

32Ibidem.

33BERGEN, Peter - «Leader of Afghanistan’s resistance movement says he will defeat the Taliban “no matter the odds”».

34Ibidem.

35Ibidem.

36Ibidem.

37Ibidem.

38Ibidem.

39Ibidem.

40Ibidem.

41Ibidem.

42Ibidem.

43Ibidem.

44Ibidem.

45Ibidem.

46 «AFGHANISTAN’S BRAIN drain continues as job security, education prospects fade». Arab News. 10 de novembro de 2024. Consultado em: 12 de novembro de 2024. Disponível em: https://www.arabnews.com/node/2574042/world.

Recebido: 16 de Setembro de 2024; Aceito: 15 de Novembro de 2024

47

Investigador integrado do IPRI-NOVA e colaborador do OBSERVARE da Universidade Autónoma de Lisboa e do CEI-ISCTE, onde se doutorou em Ciência Política, com especialização em Relações Internacionais (2017). Jornalista da TSF, fez reportagem em várias zonas de conflito. É autor do livro Breve História do Afeganistão de A a Z (2022).

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