Introdução
Face à recorrência de conflitos no Sudão e tendo em conta a centralidade da violência na trajetória específica do Estado1, a eclosão de mais um conflito a 15 de abril de 2023 não deveria ter apanhado de surpresa nem os sudaneses, nem os estudiosos das relações entre o Estado e a sociedade, nem os que se dedicam ao estudo dos conflitos armados. A rivalidade, em crescendo, entre os líderes das Forças Armadas Sudanesas (FAS) e das Forças de Apoio Rápido (FAR) era um indicador sólido de possibilidade de deriva da parceria de conveniência entre o general Abdel Fattah al-Burhan e o general Mohamed Hamdan Daglo. No entanto, a eclosão do conflito e, em particular, o local de escalada da crise política - a saber a transformação da capital do Sudão, Cartum, em principal teatro do conflito -, apanhou de surpresa tanto os representantes internacionais de Estados, organizações internacionais e organizações não governamentais, como os próprios cidadãos e residentes em Cartum.
O artigo tem por objetivo compreender de que forma o afastamento de protagonistas civis, na sequência do golpe de Estado de 25 de outubro de 2021, da arquitetura de governação do Sudão pós-derrube do Presidente Omar al-Bashir implicou um retrocesso no processo de transição e um retorno de rivalidades entre fações nas FAS e entre estas e as FAR. Visa igualmente compreender em que medida a queda de Omar al-Bashir conduziu a uma mudança profunda. Numa primeira parte, o artigo analisa a relação entre a violência e o processo de formação do Estado com vista a compreender o papel de civis e de militares em termos dos projetos políticos de construção do Estado e da nação. Numa segunda parte, o artigo analisa a causalidade do conflito e a sua interligação com outros conflitos tendo em conta o legado das guerras civis anteriores de 1963-1972 e de 1983-2005 que tenderam a colocar em confronto as periferias e o Estado. Na análise do presente conflito (2023-), o artigo tem em conta tanto as arenas políticas internas como regionais e global. Na terceira parte, o artigo tem em conta a multiplicação de iniciativas de mediação para a paz que se têm pautado pelo falhanço em obter um acordo de cessação de hostilidades ou em garantir o acesso contínuo a assistência humanitária aos civis.
Sociologia política e conflitos: o estado faz a guerra e a guerra faz o estado
A recorrência de conflitos no Sudão tem sido uma característica desde a independência do país em 1956. A independência foi alcançada com uma guerra civil em curso.
As Forças Armadas desempenharam um papel determinante na trajetória do Estado. O último golpe de Estado, em 25 de outubro de 2021, interrompeu o período de transição desencadeado pelo movimento social2 que pôs fim ao governo de três décadas do Presidente Omar al-Bashir (1989-2019). Os projetos políticos de construção do Estado e da nação implementados após os anteriores golpes de Estado (1958, 1969, 1989) tiveram o efeito de consolidar o controlo das FAS sobre o poder, tanto político quanto económico3, e, simultaneamente, contribuíram para interromper os breves períodos democráticos. A interferência dos militares na política obstruiu a emergência de atores políticos democráticos. A longevidade do regime al-Inqaz, que corresponde à designação atribuída ao regime do anterior Presidente, ficou a dever-se à aliança entre os militares e os islamitas liderados por Hassan al-Turabi. O apoio deste último foi essencial para a captura do poder por parte dos militares. Este período correspondeu a uma diminuição do espaço público para manifestação de dissensão ou de qualquer tipo de oposição pacífica ao regime4.
Não obstante todas as dificuldades em expressar dissidência, os grupos da sociedade civil sudanesa, em particular durante o regime al-Inqaz (1989-2019), inventaram formas alternativas de mobilizar apoio para protestos e evitar mortes às mãos do aparato de segurança. Na sequência da Revolução de 2018-2019, a repressão dos manifestantes - em particular a ação desencadeada na capital a 9 de junho de 2019 - envolveu eliminação por via da força dos manifestantes, recurso à violação com base no género e a outras violações em massa dos direitos humanos5. Como alguns estudiosos alertaram, ainda nos primeiros dias da transição, tal não significou o fim do controlo militar, nem da aliança entre os militares e os islamitas6.
O golpe de Estado e o surgimento do conflito armado em 15 de abril de 2023 obliteraram os sacrifícios dos atores da sociedade civil para promover mudanças durante a Revolução de 2018-2019.
Com efeito, o golpe não significou nem o fim do domínio militar, nem o fim da aliança oportunista entre os militares e os islamitas7. De facto, quando os islamitas chegaram ao poder através de um golpe em 1989, não foram os islamitas de Hassan al-Turabi que conduziram a estratégia militar, embora al-Turabi também a tenha apoiado. Al-Turabi foi marginalizado nos anos de 1990 pelos militares e pela tendência salafita/ neofundamentalista dentro do movimento islâmico sudanês, movimento este que se transformou num movimento salafita/neofundamentalista com acesso ao Estado, restringindo a sua intervenção apenas à vida privada e não à vida pública, como al-Turabi havia previsto. Os islamitas interferiram ao nível da moralidade individual sem alterar a economia ou o funcionamento da política. Com efeito, esta estratégia foi benéfica tanto para os militares como para as fações de islamitas próximas do círculo no poder8. Até que ponto a aliança de conveniência entre as lideranças das FAS e da FAR teria colocado em causa este acesso privilegiado aos recursos críticos do Estado por parte das várias fações no poder? A desconfiança por parte dos elementos das Forças Armadas que mais se identificavam com os islamitas parece explicar em parte a escalada da crise política com o general Fatah al-Burhane a avançar, sem concessões, com uma medida que visava restituir às FAS a preponderância na arena política do Sudão pós-Bashir. Na realidade, tal parece indiciar que as mudanças acomodadas não passaram de medidas desenhadas e arquitetadas para garantir a continuidade no controlo do Estado para além da remoção e afastamento do Presidente Omar al-Bashir. No entanto, a incorporação nas FAS dos combatentes liderados por «Hemedti» (nome por que era conhecido o general Mohammed Hamdan Daglo) colocava-o em posição subordinada ao chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. É a partir deste contexto que devemos entender a resistência do líder das FAR à incorporação das mesmas nas FAS e a sua determinação em assegurar apoios externos que garantissem a orientação de recurso à força como forma de resolução do conflito.
Esta medida visava, por um lado, a restituição do monopólio dos meios de coerção legítima aos militares e, por outro, dar continuidade ao seu controlo dos recursos críticos do Estado e dos sectores-chave da economia continuando a assentar numa fórmula que excluía do centro nevrálgico do poder, da capital e das instituições representativas do Estado, determinados grupos com base em clivagens regionais e étnicas.
Na próxima secção, o artigo visa explorar as causas do conflito e a sua evolução para além da rivalidade conjuntural entre as lideranças dos representantes do Estado e de grupos armados não estatais.
Mapeamento dos protagonistas e os conflitos interligados
Desde o início da guerra que opõe as lideranças das FAS e das FAR, os atores não violentos foram marginalizados e agrupados sob as categorias de «vítimas», «deslocados» e «vítimas de crimes de guerra e de atrocidades em larga escala». De facto, o que parecia uma confrontação armada de curta duração entre as lideranças das FAR e das FAS, ou seja, entre o general Mohamed Hamdan Daglo e o general Abdel Fatah al-Burhan, evoluiu para uma guerra sem fim à vista. Este é o resultado de várias tendências de longo prazo.
A competição pelo poder tem sido justificada com um projeto político de construção do Estado e da nação que marginalizou os grupos que ficam fora da área ribeirinha do Norte9. O acesso ao poder tem sido garantido reforçando clivagens regionais, religiosas, étnicas e raciais. Mesmo após a separação do Sul com a criação do novo Estado soberano do Sudão do Sul em julho de 2011, o ciclo de violência política não foi substituído por uma ordem interna e regional mais pacífica. No caso do Sudão do Sul, assistiu-se ao início de um conflito em dezembro de 2013 que veio opor justamente o Presidente e o Vice-Presidente. No caso do Sudão, a crise duradoura dos projetos políticos de construção do Estado e da nação, a economia política predatória baseada na captura do Estado, e uma tendência de responder à violência com maior violência contribuíram para a recorrência de conflito. No entanto, em contraste com a guerra atual, nas anteriores a capital foi poupada e os diferenteslocide conflito armado permaneceram mais compartimentados não tendo nunca chegado a atingir a capital.
A guerra que começou em 2023 em Cartum desafia uma representação clara de oposição entre o centro e a periferia na medida em que se baseia numa multiplicidade de causas que se relacionam e sobrepõem.
Mesmo que Hemedti tenha ganhado ascendência pelo seu papel ao lado dos Janjaweed em Darfur no início dos anos 200010, e no conflito atual tenha mobilizado combatentes da sua região original, a sua trajetória ultrapassou a arena política interna. Na sequência do golpe de Estado de 2021, a aliança entre as lideranças das FAR e das FAS transformou-se em rivalidade, e ambas garantiram meios externos de financiamento do esforço de guerra. O comércio ilícito global de ouro do Darfur ganhou importância, desde as sanções económicas contra a Rússia pela sua violação do direito internacional aquando da invasão em larga escala da Ucrânia, e tem levado atores externos a apoiar de forma velada a guerra em curso, permitindo aos beligerantes continuar a financiar a condução do conflito11.
Com efeito, a evolução do conflito e a sua perenidade devem ser compreendidas no contexto das arenas políticas interna, regional e global.
Durante a Revolução de 2018-2019, um conjunto de atores (que pode ser melhor descrito como parte da sociedade civil) desempenhou um papel fundamental na promoção de mudanças. Na realidade, os Comités de Resistência de Bairro, a Associação dos Profissionais Sudaneses e os grupos adicionais que assinaram a Coligação de Liberdade e Mudança, em janeiro de 2019, foram centrais para a sustentabilidade dos protestos sob o regime autoritário e ao longo do período revolucionário. Essas forças falharam em impedir que os militares integrassem a disposição transitória liderada pelo primeiro-ministro civil Hamdok. Posteriormente, essas forças ditas da sociedade civil não aceitaram o acordo entre o primeiro-ministro Hamdok e os líderes do golpe de Estado, que colocaria os atores civis sob a égide dos militares, levando à resignação do Dr. Hamdok. Com o passar do tempo, as lideranças das FAS e das FAR partilharam o objetivo comum de marginalizar os grupos da sociedade civil entre 2018 e 2021.
Após o golpe, até ao eclodir da guerra civil em 15 de abril de 2023, o líder das FAR, Hemedti, tentou uma reaproximação com os representantes da sociedade civil para ganhar ascendência interna sobre a liderança das FAS.
Passado um ano de guerra, podemos reconhecer algumas continuidades, mas também contrastes significativos com o padrão anterior de guerras interligadas no Sudão. No que diz respeito às continuidades, múltiplos agravos e a exclusão persistente de grupos significativos das periferias e a marginalização das suas áreas de origem continuam a ser relevantes. No entanto, em forte contraste com as guerras anteriores no Sudão, a guerra em curso começou na capital, Cartum, e não permaneceu compartimentada. Os cidadãos sudaneses na capital tornaram-se alvos de violência indiscriminada, sendo apanhados pela primeira vez no meio das hostilidades. No entender de Douglas Johnson era apenas uma questão de tempo até à expansão da violência das periferias até ao centro.
A causa imediata do conflito emergiu da resistência de Hemedti a uma das cláusulas da reforma do sector de segurança, que pressupunha a integração das FAR nas Forças Armadas regulares sob a liderança das FAS e do general al-Burhan. Hemedti utilizou a necessidade de incluir forças civis no período de transição para mobilizar apoio além da sua base original e garantir apoio de atores externos12.
Desde o início da guerra, 8,27 milhões de sudaneses tornaram-se deslocados internamente13, principalmente provenientes do estado de Cartum, e estima-se que a guerra tenha provocado entre 16 650 e 28 700 vítimas e três milhões de refugiados em países vizinhos14. Estudos mais recentes desafiam a fiabilidade deste número apresentando evidência empírica para sustentar a tese de que as mortes provocadas intencionalmente e as mortes indiretas contribuem, apenas no Estado de Cartum para uma estimativa aproximada de 61 mil vítimas15. Tanto a violência baseada no género, como a fome, como armas de guerra, têm sido comuns na guerra em curso16. As cenas chocantes que os meios de comunicação convencionais relataram durante a intensa violência em Darfur entre 2003 e 2004 foram novamente levadas a cabo contra civis, mas desta vez sem cobertura mediática, devido à concentração nos conflitos armados entre a Rússia e a Ucrânia e entre Israel e Gaza e entre Israel e o Líbano.
Se antes da independência do Sudão do Sul (pré-2011) a exportação de combustíveis fósseis, nomeadamente de petróleo, era o recurso crítico para o Sudão, o comércio global de ouro de Darfur para o Golfo e além (desde a invasão da Rússia à Ucrânia) ganhou importância e tem impulsionado atores externos para a guerra em curso. Atores regionais apoiam as FAR de Hemedti, especificamente os Emirados Árabes Unidos (EAU), assim como a Rússia através dos mercenários do grupo Wagner. No entanto, o padrão volátil de formação de alianças que marca as dinâmicas da região do Corno de África e as dinâmicas internas dos Estados da região, também se aplica às relações com os atores de fora da região - neste caso, a Rússia, pelos seus interesses em assegurar um porto (em Porto Sudão) nesta região geoestratégica do mar Vermelho17, tem vindo a aproximar-se cada vez mais daquele que é definido pela denominada comunidade internacional como o Presidente de facto do Sudão: o general al-Burhan. Em termos da arena política interna, Musa Hilal, que inicialmente foi mentor de Hemedti, após ter sido preso e depois libertado na sequência do golpe de Estado, mudou de lado e atualmente está alinhado com as FAS. Face a um padrão volátil de formação de alianças tanto dentro do Sudão como na região, as trajetórias dos protagonistas são importantes para entendermos a evolução do conflito.
Tanto Hemedti como o general al-Burhan beneficiaram de apoio financeiro externo através da sua mobilização eficiente de tropas no terreno para lutar na guerra do Iémen ao lado da fação apoiada pela Arábia Saudita e pelos EAU. Contudo, atualmente, os EAU estão por trás das RSF, assim como a Etiópia (por razões distintas)18, enquanto o Egito, a Arábia Saudita e o Irão têm apoiado a liderança das FAS. A interferência nos assuntos internos do Sudão por parte dos EAU levou o Sudão a colocar uma resolução de condenação à atenção do Conselho de Segurança das Nações Unidas (Conselho de Segurança). As próprias FAS teriam recorrido à Rússia para exercer o seu direito de veto para bloquear a aprovação de uma Resolução no seio do Conselho de Segurançaa a 18 de novembro de 2024, avançada pelo Reino Unido e pela Serra Leoa, que visava garantir a proteção de civis. Neste caso, a liderança das FAS utilizou a mesma linha de argumentação da necessidade de preservar a soberania do país através da não interferência nos assuntos internos do Sudão acusando o Reino Unido de neocolonialismo19. Esta é uma estratégia narrativa populista20 que tem sido utilizada por outros líderes militares em África, nomeadamente no Sahel em relação à antiga potência colonial - a França -, para legitimarem o seu acesso e/ou a sua permanência no poder para além do período inicialmente previsto na sequência de golpes de Estado21.
As arenas políticas, tanto as regionais como a global, têm contribuído para exacerbar o conflito armado. A dinâmica de segurança da região caracteriza-se por um padrão volátil de formação de alianças e, no atual conflito, tal resultou numa multiplicação de iniciativas de paz. Antes da guerra, as lideranças das FAS e das FAR estavam bem posicionadas junto da Arábia Saudita e dos EAU devido ao seu apoio com «botas no chão» na interferência externa das monarquias do Golfo na Guerra do Iémen. Neste momento, os EAU e a Etiópia estão por detrás das FAR, enquanto o Egito, a Arábia Saudita e o Irão têm prestado apoio à liderança das FAS. O fornecimento de drones às FAS pelo Irão e às FAR pelos EAU levou a uma escalada do conflito e a uma intensificação de vítimas civis22.
Multiplicação de iniciativas de mediação: constrangimentos e limites
Desde a eclosão do conflito até ao presente assistimos a uma série de iniciativas para a paz. Este conjunto de iniciativas falhou na obtenção de um acordo de cessação de hostilidades durante tempo suficiente para o acesso e proteção dos civis. A primeira iniciativa foi realizada sob a égide da Arábia Saudita, dos EAU e da Organização das Nações Unidas (ONU) e teria conduzido à Declaração de Jeddah de Compromisso em Proteger os Cidadãos do Sudão. Seguiram-se outras iniciativas que também não alcançaram o resultado esperado, desde a iniciativa do Egito (que já incluiu elementos da sociedade civil), à da União Africana, ou à de Genebra, de agosto de 2024 (em que as partes não se dignaram a comparecer). Com a resistência das partes a quaisquer iniciativas de obtenção de um cessar-fogo e/ou de garantir o respeito pelo direito internacional a guerra do Sudão prolonga-se sem um fim à vista. Na próxima secção o artigo visa abordar um elemento que pode trazer uma oportunidade de fazer avançar uma visão alternativa para um Sudão pós-conflito.
Protagonistas da sociedade civil: dar uma oportunidade à paz e restituir o processo de transição aos seus autores
O Painel de Alto Nível da União Africana sobre o Sudão organizou o Diálogo pela Paz das Mulheres do Sudão entre 3 e 4 de julho de 2024 em Kampala (Uganda). Este esforço para incluir as perspetivas das mulheres não foi sem precedentes. De facto, o lançamento oficial da Coordenação das Forças Democráticas Civis, conhecida como Taqaddum, organizou a sessão «Diálogo das Mulheres sobre o Fortalecimento da Solidariedade Feminina e a Restauração da Transição Democrática». A convenção fundadora constitui um marco na paisagem política do Sudão, pois reuniu mais de 600 representantes de diferentes grupos da sociedade civil e de partidos políticos, incluindo membros de formações da diáspora sudanesa de 24 países. Sem apoio externo, tanto de atores regionais, como da parte dos Estados Unidos, da União Europeia e da ONU, as implicações positivas desta iniciativa serão anuladas pela determinação das partes beligerantes em sustentar a guerra.
Conclusão
O golpe de Estado de 2021 representou a subversão da mudança revolucionária iniciada em 2018-2019 e do processo de democratização daí resultante.
A deriva da parceria de conveniência entre as lideranças das FAS e das FAR foi antecedida pela rivalidade crescente entre o general Fatah al-Burhan e o general Mohammed Hamdan Daglo, nomeadamente tornou-se apreensível através das deslocações de ambos fora do Sudão e dos encontros com chefes de Estado da região e para além da mesma perpassando o complexo composto pela encruzilhada de dinâmicas de segurança da sub-região do Corno de África e do mar Vermelho, este último abarcando as monarquias do Golfo. O envolvimento de atores externos não escapou ao padrão volátil de formação de alianças e este envolvimento tem sido determinante na incapacidade dos envolvidos em iniciativas de mediação de modo a contribuir para a diminuição da intensidade do conflito e para a obtenção de um acordo de cessação de hostilidades. Com financiamento externo e através do acesso a armamento o conflito no Sudão tem sido marcado por características comuns a outros conflitos em curso: impunidade e violação em larga escala de direitos humanos e atrocidades, violação do direito internacional humanitário mediante tomada de civis enquanto alvos preferenciais, eliminação, rapto, ferimento e tomada como prisioneiros de funcionários de saúde incluindo médicos e mediante eliminação de atores humanitários locais.
Na sequência de uma série de iniciativas de mediação para a paz sem quaisquer resultados tangíveis que tenham contribuído para a diminuição da intensidade do conflito armado, há dois aspectos que podem ser aproveitados na tentativa de diminuir o fardo do conflito para os civis: em primeiro lugar, a continuidade na aposta e reforço, apoio e proteção aos atores e iniciativas humanitárias locais que se desenvolveram e alicerçaram a sua resposta em movimentos prévios emanados da sociedade civil; e em segundo lugar, o apoio e inclusão de elementos da sociedade civil nas iniciativas de mediação para a paz em particular da Aliança das Forças Democráticas Civis (Taqqadum). Torna-se prioritária a canalização de assistência de emergência para aquela que é a crise humanitária com maior número de deslocados internos (11 milhões no total) e em que o espetro da fome aumenta diariamente o número de baixas civis associadas ao conflito.













