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Relações Internacionais (R:I)

versão impressa ISSN 1645-9199versão On-line ISSN 2183-0436

Relações Internacionais  no.85 Lisboa mar. 2025  Epub 30-Ago-2025

https://doi.org/10.23906/ri2025.85a06 

A invasão da Ucrânia e o futuro das Relações Internacionais

O ciberespaço e a guerra na Ucrânia

Harry Williams1 

André Barrinha1 
http://orcid.org/0000-0002-6650-3730

1 Department of Politics, Languages and International Studies, Universitay of Bath. North Rd, Claverton Down, Bath BA2 7AY, Reino Unido | hw2384@bath.ac.uk; a.barrinha@bath.ac.uk


Resumo

Era esperado que a invasão da Ucrânia pela Rússia fosse acompanhada por ataques cibernéticos em larga escala. Contudo, embora as cibercapacidades tenham efetivamente desempenhado um papel de apoio no conflito, o grau de sofisticação e intensidade da sua utilização tem sido, de uma maneira geral, limitado, em parte devido ao fortalecimento das defesas ucranianas e ao papel sem precedentes de atores terceiros no conflito, incluindo Estados, corporações privadas e grupos de hackers civis. Este artigo analisa a ciberdimensão do conflito e explora algumas lições que podem ser retiradas deste estudo de caso sobre o uso de cibercapacidades em guerras, e como é que futuros (ciber) conflitos poderão ser estudados por investigadores da área das Relações Internacionais.

Palavras-chave: ciberguerra; operações de informação; Rússia; Ucrânia

Abstract

The invasion of Ukraine by Russia was expected to be accompanied by the deployment of large-scale cyberattacks. While cyber capabilities have undeniably played a supporting role in the conflict, the sophistication and intensity have been limited overall, partly by the strengthened Ukrainian defences and the unprecedented role of third parties, including states, private corporations, and civilian hacking groups. This paper examines the cyber-dimension of the conflict. It explores the lessons that can be learnt from this case study about cyber capabilities in warfare and how IR scholars study future (cyber) conflicts.

Keywords: cyber-warfare; information operations; Russia; Ukraine

Introdução

Antes da invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, existia uma expectativa elevada entre analistas e comentadores de que, caso acontecesse uma incursão militar, esta seria acompanhada por uma série de ciberataques em larga escala por parte de Moscovo1. Nas últimas décadas, a Rússia tinha vindo a conquistar a reputação de uma ciberpotência global2. A perceção de poder da Rússia neste domínio aumentou os receios sobre a ameaça que poderia representar para a Ucrânia, especialmente após a invasão da Crimeia em 2014. Nos anos seguintes a esta, o grupo de hackers russo Sandworm lançou ataques à rede elétrica ucraniana, deixando centenas de milhares de ucranianos sem energia durante várias horas3, enquanto o lançamento do NotPetya em 2017 causou enormes prejuízos financeiros à Ucrânia e teve um custo global de cerca de dez mil milhões de dólares4. Há quem argumente que a Ucrânia tem sido usada como um campo de testes para as cibercapacidades russa5. Já anteriormente, hackers russos tinham levado a cabo ataques contra a Estónia, em 2007, e contra a Geórgia, em 20086, e, como é conhecido, utilizado táticas de guerra de informação nas eleições dos Estados Unidos da América (EUA) em 2016. O histórico de ações russas nesta área, juntamente com a sua posição de ciberpotência (ao que podemos ainda acrescentar a crescente interpretação do ciberespaço como cenário de confronto7), levou à noção generalizada de que qualquer conflito entre a Rússia e a Ucrânia incluiria uma cibercomponente significativa. Chegou-se inclusive a especular que as ciberarmas poderiam tornar o uso da força física desnecessário8, embora a visão predominante fosse a de que estas seriam conjugadas de forma eficaz com a guerra convencional9. Independentemente da forma que o conflito tomasse, esperava-se que o ciberespaço desempenhasse um papel central.

A realidade tem-se revelado algo diferente do esperado. As cibercapacidades têm sido utilizadas pelos dois lados do conflito, mas este não atingiu a dimensão de uma ciberguerra total como alguns especularam10. Ao invés, estas capacidades têm desempenhado um papel secundário. As ações russas têm sido limitadas em termos de sofisticação, e a maioria dos ataques de maior intensidade tem sido evitada pelas defesas ucranianas, com o auxílio de terceiros11. Igualmente, as ações ucranianas neste domínio têm levado a alguns sucessos pontuais, mas nenhum deles com um efeito de nível estratégico.

A disparidade entre as expectativas e os resultados em relação ao uso do ciberespaço no conflito Rússia-Ucrânia oferece um estudo de caso fascinante sobre como cibercapacidades são utilizadas em contextos de guerra. Em termos de estrutura, este artigo examinará, primeiro, os usos das cibercapacidades no conflito Rússia-Ucrânia, em comparação com as expectativas iniciais. Em seguida, explorará as principais lições a retirar deste estudo de caso e as implicações mais vastas para o campo das Relações Internacionais, na investigação sobre o papel do ciberespaço em contextos de guerra. A análise focar-se-á em eventos decorridos entre fevereiro de 2022 e meados de 2024, apoiando-se em dados de fontes de acesso aberto, como relatórios técnicos, publicações e artigos de imprensa, reconhecendo que poderão não representar o panorama completo do conflito devido à omissão de dados classificados ou não publicados.

O uso de ciberataques no conflito

Desde o começo do conflito, a 24 de fevereiro de 2022, que Moscovo tem tentado interferir com os sistemas e redes informáticas ucranianas como complemento às suas operações cinéticas no terreno. Por exemplo, o início da invasão russa da Ucrânia foi precedido, poucas horas antes, de um ataque à Viasat, um importante fornecedor de telecomunicações, que envolveu simultaneamente um ataque distribuído de negação de serviço (DDoS) e intrusão nas redes terrestres, interrompendo os serviços de internet de milhares de utilizadores na Ucrânia e na Europa. Coordenado com a incursão das tropas russas em território ucraniano, o ataque foi provavelmente pensado para dificultar a resposta de Kiev, embora existam relatos contraditórios sobre o impacto do ataque. Victor Zhora, um dos principais responsáveis pelas operações ucranianas no ciberespaço durante o primeiro ano do conflito, afirmou na altura do ataque que este tinha causado «uma enorme quebra a nível das comunicações». No entanto, esta avaliação seria contradita pelo mesmo pouco tempo depois, dizendo não haver provas de que o ataque tivesse piorado a conectividade militar, e salientando que os satélites da Viasat desempenhavam um papel secundário (de backup) no acesso das tropas ucranianas às suas redes de informação12. O lançamento deste ataque no início da campanha parecia apoiar a ideia de que a Rússia utilizaria ciberataques como um pilar essencial na invasão da Ucrânia. Contudo, a realidade acabaria por se revelar um pouco diferente das expectativas.

As táticas disruptivas continuaram nas fases iniciais da guerra, com um aumento de ataques de baixa intensidade, como wipers13, direcionados a empresas, bancos e indústrias governamentais; desfiguração de websites governamentais; ataques de phishing contra altos oficiais militares e governamentais; e ataques de DDoS para interromper o funcionamento de serviços vitais14. No entanto, as ações russas refletiram uma prioridade na quantidade em detrimento da qualidade, numa abordagem muitas vezes descrita como de «força bruta»15, privilegiando o engajamento persistente a um nível de sofisticação baixo. Apesar do aumento no volume de ataques, os analistas observaram uma eficiência reduzida destes em comparação com anteriores ações da Rússia contra a Ucrânia16, o que pode, em parte, ser explicado pela melhoria significativa da qualidade das capacidades de defesa ucranianas17, mas também por uma desadequada preparação russa. Moscovo tinha-se preparado para uma campanha de curta duração alicerçada numa invasão terrestre rápida e esmagadora e em campanhas de desinformação e desestabilização. A gorada expectativa de uma vitória e ocupação rápidas obrigou Moscovo a alterar os seus planos, focando-se na utilização de wipers e de ataques DDoS18.

Não quer isso dizer que a Rússia não tenha tentado ciberataques mais significativos. Em abril de 2022, um ataque à infraestrutura energética da Ucrânia foi identificado pela CSIRT19 ucraniana e rapidamente neutralizado, sem impacto nas redes elétricas visadas20. O malware usado era uma versão mais sofisticada do ataque de 2016 e, se bem-sucedido, teria degradado o sistema a um ponto difícil de restaurar. Uma campanha semelhante foi levada a cabo em outubro do mesmo ano, causando um apagão que coincidiu com uma série de ataques de mísseis na zona de Kiev21. Em dezembro de 2023, um ataque bem-sucedido à Kyivstar - a maior operadora de redes móveis da Ucrânia - danificou significativamente a rede virtual da empresa, interrompendo temporariamente os serviços de comunicação em todo o país22. Este ataque tinha sido precedido, em maio, de uma intrusão que permitiu o acesso de hackers russos a mensagens SMS, dados de localização e possivelmente contas de Telegram dos utilizadores. A interrupção também afetou o funcionamento de sirenes de alerta aéreo nalgumas áreas, bem como os sistemas bancários e caixas automáticas que dependiam da rede Kyivstar, mas supostamente teve pouco impacto na funcionalidade militar da Ucrânia.

Os exemplos acima demonstram que as operações cibernéticas desempenharam, até agora, um papel limitado no conflito. Parte desta ausência deve-se às defesas ucranianas. A threat intelligence obtida em ataques anteriores permitiu uma maior resiliência dos sistemas ucranianos, e o apoio de organizações terceiras e de Estados aliados provou ser valioso para as defesas locais23.

Do ciberconflito à guerra de informação

Embora a ciberdimensão do conflito tenha ficado aquém de algumas expectativas, o mesmo não se pode dizer das operações de espionagem e informação russas. É possível argumentar que a utilização estratégica mais bem-sucedida das cibercapacidades por parte da Rússia tem-se revelado no domínio da informação. Uma parte significativa das suas operações neste domínio envolveu espionagem e roubo de dados, como a recolha de inteligência para o planeamento estratégico e a identificação de alvos prioritários. A Microsoft identificou pelo menos dois casos em que uma intrusão de rede foi seguida por um ataque de mísseis a um alvo relacionado: um ataque a infraestruturas ferroviárias em Lviv e um ataque a um aeroporto em Vinnytsia, dois dias após ter sido identificada uma intrusão numa rede governamental24. Os Serviços de Segurança da Ucrânia (SBU) afirmaram em 2023 que a Diretoria Principal de Inteligência russa (GRU) estava a visar satélites Starlink para recolher dados sobre a atividade militar ucraniana25. Militares e figuras políticas ucranianas foram, igualmente, alvo de campanhas de phishing e de ataques aos seus dispositivos pessoais26. Em janeiro de 2024, agentes russos invadiram webcams civis em Kiev para recolher dados de imagem sobre as defesas da cidade antes de lançar um ataque com mísseis27. Para além de usar estas informações para planeamento militar, a recolha de dados também pode ser utilizada para controlar uma população através do medo, usando dados pessoais para identificar e alvejar indivíduos que possam representar uma ameaça à força ocupante28. Assim, o foco na recolha de dados e na obtenção de inteligência alinha-se com a expectativa russa de uma vitória rápida e de uma ocupação prolongada da Ucrânia, ao invés do estado de guerra prolongado que se veio a verificar.

Um segundo foco das operações de informação russas tem sido a disseminação de desinformação. As campanhas de desinformação têm origem na doutrina soviética de controlo reflexivo, que consiste na disponibilização de informações para consumo do inimigo com o objetivo de controlar subliminarmente crenças e comportamentos, e tem-se revelado um elemento central nas táticas russas de guerra de informação29. A Rússia criou um «ambiente de informação caótico»30, conduzindo campanhas que variam desde ações para manter o apoio interno ao esforço de guerra na Rússia, até à fragilização da unidade nas nações ocidentais e à distorção das críticas aos crimes de guerra russos, e ao ataque à moral e confiança da população ucraniana na sua capacidade de se organizar e resistir aos ataques russos31. Circularam deepfakes do Presidente Zelensky, incluindo um, no início do conflito, em que ele apelava aos soldados ucranianos para se renderem às forças russas32. Estações de rádio ucranianas foram alvo de transmissões falsas a informar que Zelensky estava em estado crítico33. Políticos e celebridades ocidentais que publicamente apoiaram a Ucrânia foram alvo de ataques de engenharia social para obter declarações que pudessem ser manipuladas de forma a manifestar posições pró-Rússia34. Todas estas táticas refletem uma campanha de subversão destinada a minar a confiança na força e na liderança ucranianas e promover uma agenda pró-Rússia.

Moscovo demonstrou particular sucesso no controlo do fluxo de informação nos territórios ocupados militarmente. Os ocupantes russos na região de Kherson redirecionaram o tráfego local de internet e das redes móveis através de infraestruturas russas, bloqueando o acesso a fontes noticiosas ucranianas e independentes, ao Facebook, Instagram e X (anteriormente Twitter), e implementando normas, vigilância e censura rígidas na internet35. Essas medidas cortaram eficazmente a ligação de Kherson a informações externas, limitando a população ao acesso a notícias e meios de comunicação russos. Os civis foram alvo de informações falsas sobre as ações do Governo ucraniano e bombardeados com propaganda russa36.

No geral, o ciberespaço tem sido predominantemente usado por Moscovo em operações de informação e espionagem, bem como em ataques constantes de baixa intensidade. As cibercapacidades surgem neste conflito como «a cereja no topo do bolo» para as operações russas, em vez de constituírem um ramo principal das suas táticas militares37.

Kiev contra-ataca

À medida que a Ucrânia enfrentava um aumento no volume de ciberataques, a sua principal preocupação consistia na manutenção da funcionalidade dos sistemas militares e governamentais visados pela Rússia. No entanto, paralelamente a este foco na defesa, surgiu um movimento crescente disposto a retaliar contra os esforços russos, particularmente entre hacktivistas. Grupos como o IT Army e o Cyber Regiment desempenharam um papel importante nas capacidades ofensivas da Ucrânia. Embora não sejam oficialmente patrocinados por Kiev, foram feitos esforços para legitimar e coordenar as suas atividades38. O grupo hacktivista descentralizado Anonymous também tem estado ativo, tendo atacado órgãos de comunicação social e canais de televisão estatais russos39. Embora seja difícil quantificar a eficácia desses grupos no contexto do conflito mais amplo, esses atores desempenharam pelo menos um papel indireto na interrupção das operações russas40.

Ao longo do conflito, as agências de inteligência e cibersegurança da Ucrânia também aumentaram a sua atividade. Em particular, 2024 assistiu a um aumento marcante na atividade contra a Rússia pela Diretoria Principal de Inteligência da Ucrânia (HUR), a qual, em fevereiro, conseguiu acesso a servidores russos contendo documentos classificados e informações detalhadas sobre oficiais de alto escalão e unidades estruturais do Ministério da Defesa da Rússia41. Outros ataques visaram websites governamentais russos, aeroportos e infraestruturas de telecomunicações, resultando em significativas interrupções de internet em toda a Rússia42.

Tal como os ataques russos, os ataques ucranianos não dominaram os holofotes num conflito marcado pela violência cinética, mas demonstraram ainda assim uma presença persistente no tabuleiro de xadrez contínuo em que se tornou o conflito entre os dois países.

Lições aprendidas

O conflito Rússia-Ucrânia oferece, pois, várias lições importantes sobre o uso do ciberespaço num conflito armado. Em primeiro lugar, no contexto de guerra, a destruição física e as operações militares cinéticas são mais fáceis e simples de planear e executar do que ciberataques de larga escala, além de gerarem um impacto mais direto e eficaz. Apesar dos avanços tecnológicos na guerra, o conflito permanece essencialmente cinético. Existe uma disparidade assimétrica entre as capacidades cibermilitares e cinéticas, sendo o potencial destrutivo de um míssil ou de um ataque de drones significativamente maior do que o resultado direto de um ciberataque43. Por exemplo, enquanto a maioria dos ciberataques russos contra infraestruturas falhou ou foi eliminado, as redes elétricas têm sido um alvo principal de ataques com mísseis e drones, reduzindo significativamente a funcionalidade e operatividade das infraestruturas elétricas e hídricas ucranianas44. Em suma: «é muito mais simples para a Rússia lançar um bombardeamento de artilharia contra uma subestação elétrica do que hackeá-la de Moscovo»45.

Em segundo lugar, os ciberataques de larga escala exigem tempo e planeamento. O uso eficaz de malware a um nível estratégico requer um longo tempo de preparação e desenvolvimento, sendo frequentemente de uso único, já que os alvos rapidamente desenvolvem defesas contra as vulnerabilidades na origem desses ataques. Antecipando uma vitória rápida, a Rússia utilizou cibercapacidades sofisticadas no início do conflito. No entanto, quando a Ucrânia se mostrou defensivamente mais bem preparada do que o esperado, a Rússia foi forçada a recorrer a ataques de baixa intensidade, como DDoS e wiper malware, que são mais fáceis de implementar e exigem menos planeamento prévio46. Nestas condições, o uso de operações de informação, espionagem e subversão revelou-se mais eficaz do que a utilização de ciberataques de natureza destrutiva para conseguir uma vantagem militar.

Em terceiro lugar, a articulação entre operações cinéticas e ciberoperações permanece difícil, mesmo para atores poderosos como a Rússia. Existem poucos exemplos claros de uso de ciberataques diretamente associados a ações militares cinéticas47, e menos ainda em que haja evidência de articulação planeada e não apenas coincidência. As dificuldades logísticas e a necessidade de coordenação entre departamentos e agências governamentais dificultam essas mesmas atividades. Além disso, o espaço temporal necessário para o planeamento e a execução de operações cibernéticas nem sempre se coaduna com os rápidos desenvolvimentos militares no campo de batalha. Em qualquer destes contextos, a coordenação parece fazer mais sentido em missões de recolha de inteligência que visam fornecer informações sobre os alvos aos militares48, beneficiando das cibercapacidades sem estar limitada às mesmas.

Em quarto lugar, o uso de táticas de informação pela Rússia dentro da Ucrânia foi menos eficaz do que o pretendido. Embora se possa argumentar que o controlo russo sobre as notícias e sobre a comunicação social dentro das suas próprias fronteiras e em territórios ocupados pode ser eficaz para manter uma imagem forte e uma opinião pró-Rússia49, as operações de informação russas não conseguiram derrubar a resistência da população ucraniana50. Os agentes russos estavam preparados para uma vitória rápida seguida de uma ocupação, e as suas táticas não se adequavam a uma guerra prolongada. Um exemplo disso, logo em 2022, foi a já mencionada circulação de um deepfake do Presidente Zelensky a pedir a rendição das forças ucranianas. No entanto, levantaram-se vários problemas: a tecnologia usada para criar o deepfake estava desatualizada, o que resultou num vídeo de baixa qualidade; o lançamento foi mal agendado, várias semanas após o início do conflito, quando Zelensky já havia feito discursos inspiradores ao público e seria improvável que fizesse tal declaração; e a divulgação não foi feita por canais oficiais, colocando a sua legitimidade em causa51. Além do mais, o Governo ucraniano já havia instituído proibições à circulação de meios de comunicação e jornalistas russos, limitando ainda mais o alcance e o impacto da propaganda russa entre os civis.

Em quinto lugar, a defesa, a preparação e a resiliência são vitais no ciberespaço. O fracasso da Rússia em levar a cabo ciberataques estrategicamente significativos deve-se, em parte, às suas próprias limitações operacionais, mas também à defesa e oposição ucranianas. O uso da Ucrânia como campo de teste para as cibercapacidades da Rússia forneceu ao país uma década de aprendizagem, permitindo-lhe identificar vulnerabilidades e reforçar as suas defesas. Isso também foi resultado do árduo trabalho de bastidores dos aliados ocidentais para aumentar as cibercapacidades e as ciberdefesas da Ucrânia. Os EUA têm trabalhado de perto com o Governo ucraniano para fortalecer a resiliência e segurança do ciberespaço ucraniano, com organizações como a USAID52, o FBI (Federal Bureau of Investigation) e a CISA (Cybersecurity and Infrastructure Security Agency) a desempenharem papéis importantes na proteção das redes de informação no país. Estas duas últimas organizações, em particular, ajudaram também a desmontar campanhas de desinformação direcionadas ao Governo e às forças armadas ucranianas53. Também a União Europeia (UE) enviou especialistas para ajudar a Ucrânia a defender-se contra ciberataques54. Alguma desta ajuda aconteceu após a invasão russa, mas houve igualmente vários programas em curso ao longo da última década, o que serviu para garantir que a Ucrânia estivesse bem preparada para defender o seu ciberespaço. Esses esforços ajudaram, por sua vez, a reforçar as defesas ucranianas e a limitar o impacto dos ataques realizados pela Rússia55.

Por último, os atores não estatais têm desempenhado um papel sem precedentes no conflito, tanto em termos defensivos como ofensivos. Além da ajuda de países aliados, empresas multinacionais de tecnologia ofereceram assistência valiosa à Ucrânia durante o conflito. A Microsoft e a Mandiant (da Google) estabeleceram uma parceria com o Governo ucraniano para fornecer informações relativamente a potenciais e efetivos ataques ao ciberespaço ucraniano56, analisando também táticas russas para prever áreas críticas de defesa à medida que o conflito avançava57. Uma área de particular vulnerabilidade identificada foi a dependência do Governo ucraniano relativamente a servidores de dados. A Amazon Web Services ajudou a hospedar e a proteger dados do Governo e do sector privado ucranianos na sua nuvem58, transferidos com a ajuda da Microsoft59. Satélites Starlink da SpaceX forneceram internet e comunicações para substituir as redes degradadas e destruídas no início da guerra, e têm sido utilizados para fins militares e humanitários60. A Google expandiu o seu Project Shield para proteger os websites dos órgãos de comunicação social e da sociedade civil ucraniana contra ataques DDoS61. Muitas das organizações do sector privado que ofereceram ajuda fizeram-no por conta própria ou financiadas por aliados ocidentais da Ucrânia62.

No que diz respeito às capacidades ofensivas da Ucrânia, os hacktivistas revelaram-se importantes no conflito63. Os seus ataques contra instituições e empresas russas têm afetado o normal funcionamento da economia e da sociedade russas64. Apenas dois dias após a invasão, o vice-primeiro-ministro ucraniano, Mykhailo Fedorov, apelou publicamente a que hackers se voluntariassem para ajudar a Ucrânia, direcionando ataques a sistemas russos65, o que levou à criação do famoso IT Army. Mais tarde, surgiram outros grupos semelhantes, como o Cyber Regiment, a Ukrainian Cyber Alliance e o IT Stand for Ukraine66. Além disso, grupos como o Anonymous também se envolveram no conflito, declarando abertamente uma ciberguerra contra a Rússia67.

Hackers e hacktivistas civis também desempenharam um papel do outro lado do conflito. Grupos como Solntsepek, InfoCentr, Killnet e o Cyber Army of Russia Reborn surgiram para combater as atividades cibernéticas ucranianas68. Para ambos os países, a relação entre os grupos hacktivistas e o Estado é pouco clara, particularmente no que diz respeito à distinção entre ataques sancionados pelo Estado e ataques ad hoc organizados por estes grupos. Como já foi dito, o IT Army da Ucrânia e muitos outros grupos mais pequenos de hackers voluntários formaram-se na sequência direta de apelos das autoridades ucranianas, e parece que os alvos têm sido fornecidos através de canais governamentais69. O líder do grupo IT Stand for Ukraine confirmou que a sua equipa trabalhava diretamente com as autoridades ucranianas, mas era independente do Estado70. Especulou-se que comandantes russos terão dado assistência e articulado os grupos hacktivistas de forma a concertar os seus esforços, mas o líder do Killnet declarou, numa entrevista à BBC, que o grupo era «completamente independente dos serviços especiais russos»71. De qualquer forma, a sua participação no conflito ampliou e complexificou a lista de atores beligerantes envolvidos no mesmo.

Lições para as Relações Internacionais

Até agora, defendemos que a cibercomponente do conflito tem sido relevante, mas não determinante no esforço de guerra na Ucrânia. Contrariamente às expectativas, a iniciativa de integrar operações militares cibernéticas e cinéticas não tem sido extraordinariamente destrutiva; o ciberespaço não funcionou como um multiplicador de força decisivo. A aparente relutância ou incapacidade da Rússia em levar a cabo operações em grande escala contra a bem defendida Ucrânia pôs em evidência o elevado grau de complexidade que aquelas geralmente envolvem, bem como a dificuldade de as conjugar com as operações cinéticas. No entanto, a verdade é que se retirássemos os elementos cinéticos do campo de batalha, estaríamos a assistir ao mais intenso ciberconflito da história, com ambos os lados a executarem múltiplas operações neste domínio. O ciberespaço faz agora parte integrante da guerra, tal como a utilização de drones e de outros sistemas de armas tecnologicamente sofisticados. Contudo, estes não tomaram conta do campo de batalha por completo, coexistindo com instrumentos rudimentares e armas antiquadas, tais como telefones com fios e metralhadoras vintage72. Essencialmente, o conflito na Ucrânia revela um tipo de guerra em que o passado, o presente e o futuro da tecnologia coexistem. Por conseguinte, a utilização de cibercapacidades tem de ser entendida no âmbito de um ecossistema tecnológico mais vasto, que pode ser simultaneamente sofisticado e anacrónico.

Outro aspecto digno de realce é o facto de não ter havido uma escalada significativa para além das fronteiras do conflito. Nos primeiros meses de guerra, talvez em resposta à coligação de países que se juntaram para ajudar a Ucrânia, a Microsoft detetou intrusões russas em redes de organizações, fora da Ucrânia, de pelo menos 42 países diferentes, com especial incidência nos EUA e na Polónia, o centro logístico da ajuda militar e humanitária à Ucrânia73. A atividade contra a Polónia, em particular, pode ter representado uma tentativa de interromper o fornecimento de ajuda e de armas à Ucrânia. As operações de informação têm como alvo a unidade e a cooperação ocidentais contra a Rússia. O grupo Star Blizzard, ligado ao Estado russo, visou funcionários dos serviços secretos, peritos em assuntos russos, organizações não governamentais e think tanks em toda a Europa, predominantemente através de ataques phishing personalizados e sofisticados74. Apesar da atividade continuada dos intervenientes russos no Ocidente, não houve qualquer ciberataque de larga escala ligado ao conflito fora das suas fronteiras. Até nova indicação, poder-se-á afirmar que a dissuasão dos EUA e dos aliados contra a Rússia tem sido moderadamente eficaz.

Por último, o conflito tem posto em evidência o papel ambíguo dos atores não estatais no conflito. A Ucrânia tem recebido ajuda de empresas e países terceiros, bem como de hackers e grupos de hacktivistas voluntários. Como demonstrado acima, os atores envolvidos não se limitam ao confronto entre Estados. Várias empresas multinacionais ofereceram assistência à Ucrânia em matéria de capacidades defensivas e ofensivas, nomeadamente a Microsoft, a Google e a AWS. Este apoio foi elogiado por muitos. Sem estas ajudas, a Ucrânia poderia já ter perdido a guerra75. No entanto, é de notar que as motivações destas empresas podem não ser inteiramente altruístas; é do interesse de empresas como a Microsoft defenderem-se contra ciberataques, uma vez que o potencial spillover de malware de rápida disseminação poderia causar danos aos seus próprios sistemas, e o assumir de uma postura moral coloca-as numa posição potencialmente favorável a nível global76. De qualquer modo, o envolvimento ativo destas empresas no conflito introduziu a chamada big tech como um importante ator nesta guerra77.

O outro debate em torno dos intervenientes não estatais diz respeito ao envolvimento de grupos de hackers voluntários no conflito. Existem dúvidas quanto à legalidade das suas ações, em particular, se são suficientemente organizados para constituírem um grupo armado aos olhos do Manual de Tallinn 2.0 sobre o direito internacional aplicável às ciberoperações e, por conseguinte, passíveis de serem puníveis78. Em resposta, o Governo ucraniano tem envidado esforços para legitimar o seu papel a título oficial79. O ataque a infraestruturas civis por grupos hacktivistas russos e ucranianos também causou controvérsia. Em outubro de 2023, o Comité Internacional da Cruz Vermelha publicou um «Código de Genebra para a Ciberguerra», que repudia ataques hacktivistas que afetem civis80 e que foi aceite pela Killnet e pelo IT Army of Ukraine. Mais uma vez, o envolvimento ativo destes atores levanta questões sobre a importância estratégica destes, mas também sobre o seu estatuto jurídico no conflito; nomeadamente, se podem ser considerados alvos legítimos, e qual o estatuto jurídico dos países onde estes piratas informáticos estão alojados.

Tal como em muitas outras dimensões da guerra e da política externa, o conflito na Ucrânia trouxe novas e importantes noções sobre o papel do ciberespaço na guerra.

Conclusão

O conflito entre a Ucrânia e a Rússia é um exemplo sem precedentes sobre o modo como as cibercapacidades são utilizadas em contexto de guerra. Antes da invasão, havia um receio generalizado de que a Rússia pudesse lançar ciberataques de elevada sofisticação contra as infraestruturas críticas e os sistemas vitais da Ucrânia, de forma a obter uma vantagem militar e garantir uma vitória rápida. No entanto, as cibercapacidades têm assumido um papel mais secundário no conflito; apesar de uma presença contínua, têm-se centrado predominantemente na perturbação e informação, e não tanto na destruição.

Tomando este conflito como um estudo de caso, podemos tirar várias conclusões sobre a utilização do ciberespaço na guerra. Em primeiro lugar, tem sido demonstrada a relação assimétrica entre as capacidades cinéticas e cibernéticas, nomeadamente, que a destruição física é mais fiável e eficaz, e mais fácil de coordenar do que ciberataques de alta intensidade. Quer devido às defesas ucranianas, quer devido a falhas russas, a maioria dos ciberataques destrutivos contra os sistemas ucranianos não foi bem-sucedida. Um ataque militar contra o mesmo alvo pode ser mais rápido e mais preciso no seu impacto. Os ciberataques de larga escala também levam tempo a preparar e a desenvolver, e a capacidade dos alvos para adaptarem as suas defesas com base na inteligência de ataques limita-os frequentemente a uma única utilização. No que respeita às operações russas de desinformação na Ucrânia, estas têm tido uma eficácia muito limitada. Por último, o conflito pôs em evidência a importância da defesa, da preparação e da resiliência dos sistemas informáticos. Sem as fortes defesas desenvolvidas pela Ucrânia em parceria com os Estados aliados e sem o papel sem precedentes das empresas multinacionais, os ciberataques russos teriam sido mais eficazes e oferecido uma vantagem mais clara para a Rússia.

Este conflito tem igualmente dado várias lições importantes que podem influenciar a forma como os futuros investigadores da área das Relações Internacionais estudam a utilização das cibercapacidades ofensivas na guerra. Sendo este o primeiro grande conflito do século XXI entre forças armadas tecnologicamente sofisticadas, a Rússia e a Ucrânia demonstraram as vantagens potenciais da utilização de ciberataques a par da atividade militar e, sobretudo, as suas limitações. Os receios de uma rápida escalada dos ciberataques revelaram-se infundados, e verificou-se, em geral, uma falta de coordenação entre as operações cinéticas e as cibernéticas. Por outro lado, a Rússia demonstrou o potencial disruptivo dos ataques de baixa intensidade como forma de engajamento persistente, bem como os modos de utilização e manipulação da informação com vista à obtenção de vantagens no teatro de operações. Além disso, a utilização de ciberataques espalhou o conflito para além das fronteiras, com a Rússia a levar a cabo intrusões em redes, operações de espionagem e atividades disruptivas contra aliados ucranianos e países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla inglesa). Apesar de não haver registo de ataques cibernéticos de larga escala contra alvos nestes países, a guerra já não está confinada aos Estados em conflito. Por último, abriu o debate sobre o papel ambíguo e sem precedentes dos intervenientes não estatais, nomeadamente no que diz respeito à legalidade e à moralidade das ações de civis e de empresas nesta guerra.

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Notas

1 COURTNEY, William; WILSON, Peter A. - «If Russia invaded Ukraine». RAND. 2021. Consultado em: 23 de agosto de 2024. Disponível em: https://www.rand.org/pubs/commentary/2021/12/expect-shock-and-awe-if-russia-invades-ukraine.html; MILLER, Maggie - «Russian invasion of Ukraine could redefine cyber warfare». POLITICO. 28 de janeiro de 2022. Consultado em: 10 de outubro de 2024. Disponível em: https://www.politico.com/news/2022/01/28/russia-cyber-army-ukraine-00003051.

2A Rússia ficou em quarto lugar no Índice Nacional de Ciberpoder (cyber power) de 2020, destacando-se em áreas como o controlo de informação e capacidades ofensivas. Voo, Julia, et al. - National Cyber Power Index 2020. Belfer Center, 2020. De forma semelhante, em 2022, ocupou o terceiro lugar no ranking geral; este relatório foi publicado seis meses após a invasão, de modo que as ações da Rússia no início do conflito já contribuíram para esta classificação. VOO, Julia, et al. - National Cyber Power Index 2022. Belfer Center, 2022.

3BRONK, Chris; COLLINS, Gabriel; WALLACH, Dan - «The Ukrainian information and cyber war». In Cyber Defense Review. Vol. 8, N.º 3, 2023, pp. 33-49; MUELLER, Grace B., et al. - «Cyber operations during the Russo-Ukrainian War». CSIS. 2023. Consultado em: 13 de julho de 2024. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/cyber-operations-during-russo-ukrainian-war; PRZETACZNIK, Jakub; TARPOVA, Simona - Russia’s War on Ukraine. European Parliament, 2022.

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6A Rússia levou a cabo operações maciças de negação de serviço contra a Estónia em 2007, em retaliação contra a deslocação do Monumento ao Soldado de Bronze, e operações de informação disruptivas contra a Geórgia em 2008, durante a Guerra Russo-Georgiana. MUELLER, Grace B., et al. - «Cyber operations during the Russo-Ukrainian War».

7HAKALA, Janne; MELNYCHUK, Jazlyn - Russia’s Strategy in Cyberspace. NATO Strategic Communications Centre of Excellence. 2021. Consultado em: 10 de outubro de 2024. Disponível em: https://stratcomcoe.org/cuploads/pfiles/Nato-Cyber-Report_11-06-2021-4f4ce.pdf.

8GILES, Kier - «Putin does not need to invade Ukraine to get his way». Chatham House. 10 de janeiro de 2022. Consultado em: 10 de outubro de 2024. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2021/12/putin-does-not-need-invade-ukraine-get-his-way.

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15GREENBERG, Andy - «Ukraine suffered more data-wiping malware in 2022 than anywhere ever».

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17WATLING, Jack; DANYLYUK, Oleksandr; REYNOLDS, Nick - «Preliminary lessons from Russia’s unconventional operations during the Russo-Ukrainian War, February 2022-February 2023». RUSI. Fevereiro de 2023. Consultado em: 9 de setembro de 2024. Disponível em: https://www.rusi.org/explore-our-research/publications/special-resources/preliminary-lessons-russias-unconventional-operations-during-russo-ukrainian-war-february-2022.

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Recebido: 30 de Novembro de 2024; Aceito: 22 de Janeiro de 2025

Harry Williams, Doutorando no Departamento de Política, Línguas e Estudos Internacionais da Universidade de Bath, como parte do EPSRC Centre for Doctoral Training in Cyber Security. A sua pesquisa centra-se em cibersegurança e em cultura popular e política mundial.

André Barrinha, Professor associado de Relações Internacionais na Universidade de Bath. O seu trabalho foi publicado em revistas como Contemporary Security Policy, International Affairs e Journal of European Integration. Atualmente, dirige a secção Science, Technology and Art in International Relations da International Studies Association

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