Introdução
Na atual República Islâmica da Mauritânia, no cruzamento de complexas tradições históricas e estruturas étnicas plurais, encontramos Hemeila, uma personagem feminina da segunda metade do século XVII que continua a ser considerada em várias tradições locais. Esta personagem, ligada a diferentes fórmulas «tribais» de reprodução genealógica, permite-nos observar o intrincado trabalho desenvolvido em torno da definição histórica de diversos grupos hoje estabelecidos no sudoeste da Mauritânia. Para além disso, este texto reflete também sobre a forma de produção de conhecimento antropológico, ligado neste caso a uma imersão prolongada no terreno e à apresentação crítica de dados como experiência diretamente partilhada entre o investigador e os seus interlocutores.
Durante o meu trabalho de campo na República Islâmica da Mauritânia (2002-2018), e perifericamente à investigação que então desenvolvia, fui diversas vezes confrontado com o nome «Hemeila» (um nome não árabe, desconhecido fora deste contexto particular). Era constantemente estabelecida uma associação entre a minha nacionalidade portuguesa e uma ancestral figura feminina que continuava a ser incluída nas tradições genealógicas de diferentes grupos sociais do sudoeste da Mauritânia, onde é sempre reconhecida comonaçra¯n¯ıa(«nazarena»/cristã). Ser português na Mauritânia, nos contextos sociais em que eu trabalhava, espoletava frequentemente narrativas que cruzavam personagens locais com uma remota presençanaçra¯ni, ibérica, ou mesmo portuguesa na região. O nome Hemeila, em particular, era insistentemente repetido. Inicialmente indiferente ao que tomava como meros gestos de simpatia e afeto, o facto de Hemeila me ser sempre destacada, fez com que o seu percurso passasse a ser incluído enquanto objeto de estudo. Pensei então registar as fórmulas genealógicas que lhe estavam associadas e a ordenar o tipo de memórias atualmente associadas a esta personagem, fazendo uso da filiação que me era reconhecida no terreno, e que me colocava numa relação de privilegiada proximidade com esta mulher e os seus/suas descendentes.
Por outro lado, Hemeila tornou-se também um dos elementos que de forma mais valiosa me permitia interligar grupos que antes observara separadamente, facilitando uma análise das categorias operatórias intertribais. As ideias partilhadas sobre Hemeila possibilitavam-me questionar diversos mecanismos desenvolvidos entre diferentes grupos do sudoeste da atual Mauritânia, área reconhecida como verdadeirocarrefourcivilizacional, onde se cruzam elementos filiatórios de origem árabe, «berbere», populações Wolof e Haalpulaar, mas também, para minha surpresa, personagens cristãs/europeias na tessitura sociocultural da região.
Em termos de contributos teóricos, esta reflexão consigna particular atenção à posicionalidade do investigador, à maleabilidade da fórmula constitutiva de um objeto de estudo, e à importância da agência dos interlocutores associados a uma pesquisa etnográfica. Neste caso, a posicionalidade do investigador teve um papel decisivo no tipo de investigação conduzida e reinventada no terreno através da partilha com os seus interlocutores, levando a descobertas jamais antecipadas sobre o tipo de dados obtidos. O objeto de estudo deste trabalho foi abertamente debatido com os participantes nesta investigação, tendo o investigador, muitas vezes, de moldar as suas premissas iniciais a fórmulas mais flexíveis, em que se incluíaminputsdiretamente propostos a partir do terreno e das relações aí estabelecidas. A agência dos atores deste trabalho de investigação revelou-se, neste caso, como outro dos aspectos fundamentais da pesquisa. Como veremos, os meus interlocutores guiaram e discutiram os resultados obtidos, vistos em alguns casos como um processo de redescoberta e revalorização de uma antepassada fundacional, hoje tida como uma figura decisiva - pelo seu exemplo - nos atuais discursos de género desenvolvidos por populações do sudoeste da atual Mauritânia.
Antes de me centrar efetivamente em Hemeila, interessa refletir sobre a sua ascendência, um elemento central na compreensão do papel que hoje continua a ser-lhe atribuído.
Viagem, comércio e política genealógica
De forma introdutória, considere-se uma das versões da narrativa fundacional daqabıla (tribo) Idau al-Hajj, onde Hemeila nasceu:
Al-Amin uld Najib uld Xams al-Dın, descendente de um dos fundadores da cidade de Ouadane, criado em meiozuaıâ[religioso/culto], parte para Marrocos com o objetivo de comprar livros. Em Marrocos trabalha para a casa real, sendo daí enviado à Europa para comprar papel.
Nessa viagem, al-Amın desloca-se a Portugal, onde, durante uma refeição, é envenenado. Apercebendo-se do que se estava a passar, toma um antídoto que a sua mãe lhe havia preparado para situações como esta: pó de goma-arábica. Os seus anfitriões, ao aperceberem-se que ele se tinha salvo, perguntam como é que ele tinha conseguido resistir ao veneno. Al-Amın revela que tomou algo que a sua mãe lhe havia dado para situações deste tipo. Os portugueses perguntam-lhe onde encontrar esse produto. Al-Amın diz-se indisponível para os guiar, uma vez que estava em missão para os marroquinos, mas decide ajudar os portugueses escrevendo uma carta que estes deveriam apresentar ao seu irmão mais velho, Atjfgha Aubak, junto à foz do rio Senegal.
Os portugueses começaram então a enviar os seus barcos, estabelecendo relações com os Idau al-Hajj. Estes tornaram-se nos seus principais interlocutores comerciais, responsáveis por reunir a goma-arábica depois vendida nas margens do rio Senegal, ou trocada por tecidos, armas, espelhos…
Quando envelheceu, Atjfagha Aubak emigrou para Ouadane, e nessa altura os filhos de al-Amın reivindicam ser de seu direito o monopólio do comércio com os portugueses. Atjfagha escreveu então aos seus filhos para que estes concedessem o controlo do comércio aos filhos de al-Amın, que assim se converteram nos chefes tribais dos Idau al-Hajj1.
A narrativa fundacional Idau al-Hajj baseia-se na figura de al-Amın uid Najib, o viajante que nunca regressou ao Sara, mas que é ainda assim identificado como o precursor das trocas comerciais da suaqabılacom agentes europeus - elemento central na prosperidade económica até hoje reconhecida a este grupo (Webb, 1995). A compreensão genealógica de al-Amın é bastante linear, não se afastando dos elementos encontrados na tradição oral em epígrafe. Al-Amın não voltou, «perdendo-se» algures em Marrocos, nos entrepostos europeus no litoral marroquino, para lá de Marrocos, em Gibraltar, na Península Ibérica, ou, na versão atualmente mais banalizada (politicamente inócua e socialmente respeitável), durante a peregrinação a Meca. É também um dado unânime que foi al-Amın quem acordou o início do comércio da goma-arábica com comerciantes europeus, delegando no seu irmão Atjfagha Aubak a gestão dessas operações, desenvolvidas nas margens do rio Senegal.
É igualmente aceite, em todas as versões, que al-Amın gerou descendência. Em algumas tradições orais ele é pai de apenas um rapaz, Mukhtar; noutras propostas, mais disseminadas, al-Amın teve, isso sim, dois ou mesmo três filhos: Maham, Mukhtar, e Ahmad Meilud.
Contrariamente ao «glorioso» enquadramento hoje desenvolvido quanto à viagem de al-Amın uid Najib, o seu filho Maham - pai de Hemeila - não herda nenhum dos seus méritos. Se em documentos mais antigos Maham é assinalado como o primogénito de al-Amın - o impulsionador da aventura comercial transcontinental daqabıla-, a atual chefia tribal, ligada à fração Aulad Mukhtar, defende possibilidades genealógicas contraditórias para esta descendência. Existem propostas que simplesmente apagam Maham dos quadros genealógicos, outras que, embora o designem, lhe negam qualquer destaque. Algumas das genealogias mais recentes que enunciam o nome dos líderes daqabıla, por exemplo, não inscrevem o nome de Maham. A memória desta personagem, distanciando-se de qualquer valorização ou inscrição documental, preserva-se hoje quase exclusivamente na tradição oral.
Os quadros genealógicos apresentados na forma escrita parecem trabalhar planos distintos dos da oralidade. A inscrição caligráfica, onde mais facilmente se sedimentará uma narrativa ambicionada como definitiva, tende a desautorizar os labirintos onde a oralidade complexifica, ao extremo, as possibilidades de inscrição desta personagem. E, nestes casos, Maham é quase sempre conhecido como «o tradutor entre os Idau al-Hajj e os comerciantes europeus». Num quadro atual de acentuada «depuração» genealógica, o apagamento de Maham «o tradutor» uld al-Amın, surge-nos quase como inevitável, eliminando-o da liderança do grupo e, porventura mais importante do que isso, apagando as suas (oralmente ainda reconhecidas) ligações com europeus. Verifica-se também que é junto da atual chefia Idau al-Hajj que se opera uma maior ocultação de Maham. Para esta, o primogénito de al-Amın é Mukhtar, e Maham, quando referido, é apenas incluído como um dos seus irmãos mais novos. De facto, os quadros genealógicos exibidos transformam Maham uld al-Amın numa figura apagada, ou mesmo num «homem sem qualidades», conforme se lê numa das genealogias atualmente mais valorizadas, datada da década de setenta do século XX. Note-se como, há muito, o olhar antropológico estabeleceu as narrativas genealógicas escritas como documentos de teor sobretudo político: «as genealogias que são escritas são provavelmente as mais espúrias de todas»2.
Como vimos, entre os Idau al-Hajj não persistem dúvidas quanto à viagem de al-Amın e aos resultados obtidos através dela. Mas, descendendo genealogicamente, parece abrir-se um espaço competitivo onde diversas personagens almejam um lugar de destaque no seio daqabıla, evidenciando-se algumas delas, outras desaparecendo. A defesa de Mukhtar como primogénito do patriarca al-Amın - muito embora a existência de versões credíveis que a contrariam - demonstra o teor eminentemente político desta tese, desconsiderada enquanto mera linhagem. A negação da primogenia de Maham retira-o do quadro que atualmente legitima e nobilita aqabıla, aí incluindo uma outra personagem e respetiva descendência: Mukhtar e os Aulad Mukhtar. Assim, a maleabilidade da argumentação genealógica parece ser a fórmula mais adequada para descrever a operacionalidade deste modelo de definição social e histórica: «A genealogia cuidadosamente delineada é e foi um documento político sujeito às revisões e vicissitudes comuns a todos os documentos desse tipo» (Lindner, 1982, p. 710; ver também Shryock, 1997).
A «amnésia genealógica» a que Maham «o tradutor» está sujeito, e o progressivo destaque de Mukhtar - e da fração tribal epónima -, transformam este no primogénito de al-Amın e no legítimo herdeiro da prosperidade daqabıla. Mukhtar uld al-Amın, sobre quem não recaem quaisquer ambiguidades genealógicas, quaisquer rumores, mas tão-pouco quaisquer memórias que efetivamente o distingam, é a personagem «normalizada», despida de complexidade narrativa. A atual chefia Idau al-Hajj nunca destaca o papel de Maham como tradutor entre aqabılae os seus interlocutores europeus, nem tão-pouco lhe é reconhecida qualquer descendência para além de Hemeila. Não é igualmente explicada a forma como o pai de Hemeila se terá aproximado dosnaça¯rajunto dos quais trabalharia, como se terá tornado tradutor, junto de quem, ou onde, terá aprendido as línguas estrangeiras que dominaria.
Estes elementos mostram «esquecimentos» dificilmente justificáveis e operações apenas iluminadas à luz de movimentações de ordem eminentemente política. Esta teia genealógica inicia-se sempre, contudo, na viagem de al-Amın e nos contactos euro-sarianos que este estabeleceu. A intransigente defesa de uma impoluta patrilinhagem liga-se hoje, mais facilmente, à figura de Mukhtar uld al-Amın, sobre quem não recaem argumentos que o aproximem de uma relação (possivelmente «promíscua») com não muçulmanos.
Esta versão «depurada» da história daqabılasurge, no entanto, fragilizada pelo facto de a descendência de Maham ser reconhecida em universos vizinhos, e particularmente entre aqabıla Aulad Daiman, confederação que partilha um território contíguo ao dos Idau al-Hajj. E, neste caso, Maham é identificado através da sua filha Hemeila, a mulher de origem Idau al-Hajj, de nome estranho (nunca depois dela repetido), que casou no seio deste grupo. Aqui, Hemeila é sempre nomeada como «Hemeila mint [filha de] Maham mint al-Amın ibn Najib». Neste contexto, Hemeila continua a ser apresentada como uma mulher marcante, bastante mais conhecida do que o seu pai. Este, na verdade, destaca-se apenas por ser «o pai de Hemeila».
Mas, de forma a completar a ascendência de Hemeila, interessa ainda integrar ’Aguiga meen Barmi, a mulher geralmente reconhecida como mãe de Hemeila (muito embora entre os Idau al-Hajj este nome não seja hoje em dia reconhecido).
’Aguiga meen Barmi,ia naçrānīa
’Aguiga meen Barmi, a esposa de Maham uld al-Amın uid Najib, é sempre declarada comonaçra¯n¯ıanas tradições orais dos Aulad Daiman. Oal-Ansab al-Aulad Daiman(uma respeitada carta genealógica das populações do sudoeste da Mauritânia), diz-nos claramente que a mulher de Maham era «’Aguiga mint Barmi, uma espanhola ou portuguesa».
Esta é a tese atualmente defendida nos grupos que aceitaram Hemeila em casamento, mas nunca o é, como assinalei, entre os Idau al-Hajj. Entre esses interlocutores, a investigação que eu desenvolvia deveria centrar-se sobretudo nos Aulad Daiman. O facto de Hemeila ter aí casado deveria justificar o maior conhecimento que nesse universo se teria também de ’Aguiga, afastando-se assim os Idau al-Hajj desta estranha teia genealógica.
’Aguiga meen Barmi poderá integrar-se no posicionamento antes proposto relativamente ao apagamento genealógico de Maham. Os discursos atualmente apresentados não valorizam qualquer relação com personagens europeias. A indiscutível ligação entre os Idau al-Hajj e agentes comerciais europeus é sempre veiculada com algum recato, expressando sobretudo a dinâmica comercial e a força económica do grupo. A sua gesta comercial não associa nenhuma das personagens daqabılaa interlocutores europeus claramente identificados. Esta declaração reforça uma imagem na qual, nos limites ocidentais do Sara, uma população enriquece desmesuradamente «à custa» dos europeus, que parecem aqui manipulados pela argúcia comercial dos Idau al-Hajj. Quanto aos aspectos mais «íntimos» desta relação, que muito possivelmente terão existido, estes nunca foram partilhados comigo.
Sem outras indicações, que não a generalização de que ’Aguiga seria umanaçra¯n¯ıa, importa trabalhar as possibilidades etimológicas deste nome: «’Aguiga meen Barmi». E, neste caso, muito embora a ênfase na defesa de uma genealogianaçra¯ni, não é esta a única direção que o nome pode tomar.
O nome próprio «’Aguiga» tem uma rara utilização na Mauritânia, muito embora seja um substantivo conhecido em árabe clássico. Deve, contudo, assinalar-se que a‘aqiqaé reconhecida como uma valiosa pedra preciosa importada para o litoral sariano pelo comércio europeu desde o século XVI. Esta pedra surge referida, por exemplo, noEsmeraldode Duarte Pacheco Pereira, e é incluída em diversas listagens do início do século XVI. O manuscrito de Valentim Fernandes (fólio 66) aponta-a como um dos produtos trocados em Arguim: «As mercadorias que os Portugueses la tem [em Arguim] som … coral vermelho em contas redondas, alaquecas valem muyto». Vitorino Magalhães Godinho, também neste sentido, destaca as «alaquecas» entre os produtos mais valiosos transacionados desde Arguim: «As mercadorias de mais-valia [transacionadas em Arguim] são o trigo, a prata e as alaquecas» (Magalhães Godinho, 2008, p. 333). Pierre de Cénival e Théodore Monod (Cénival & Monod, 1938), trabalhando também a partir de Valentim Fernandes, afirmam tratar-se de uma pedra preciosa vermelha, «semelhante à granada», com confirmadas propriedades medicinais (coincidindo com a perceção que na atual Mauritânia se tem deste mineral) (Ibidem, pp. 141-142). A’aguiga, hoje incluída no fabrico de colares e outros ornamentos, é também conhecida como «pedra da sorte», podendo ser colocada, por exemplo, debaixo da língua antes de iniciar uma discussão importante.
Quanto ao nome «Barmi», surgem-nos duas hipóteses: a primeira ligada ao universo Wolof; uma segunda que associa aquele nome ao interior sariano e às populações Tuareg. A ligação aos Wolof é exposta, entre outros, por Jean Boulègue: «cada um desses reinos [Wolof ] deveria pertencer simultaneamente aogeñoreal e a um dosmeenreais, chamadosgarmi» (Boulègue, 1987, p. 58). Ameen garmi, linhagem nobre matrilinear, possibilitaria assim uma ousada aproximação entre ’Aguiga meen Barmi e «’Aguiga meen Garmi». A segunda hipótese permite considerar uma pista a leste, associada ao interior sariano, à região de Baguirmi (atual Chade) e aos Barmi/Barma. NaTarikh El-Fettachevidencia-se esta aproximação: «Barma é o nome geralmente dado em árabe aos habitantes de Baguirmi e a esse país» (Kati, 1964, p. 194).
Estas possibilidades, mais do que declarar uma certeza etimológica, desejam expor ’Aguiga a universos não europeus, acentuando a relevância do seu presente enquadramento identitário, esmagadoramente associado a um passadonaçra¯ni(sendo que qualquer uma das hipóteses acima apontadas é conciliável com a história dos Idau al-Hajj). Ressaltam desta leitura dois elementos: o facto de a mãe de Hemeila revelar uma situação genealógica bastante obscura, remetida nas atuais tradições para um universo ibérico/cristão; e o facto de o seu pai, Maham «o tradutor» uld al-Amın uid Najib, ter sido praticamente apagado, ou negativamente destacado, nos quadros genealógicos atualmente veiculados pela sua própriaqabıla.
Quem é Hemeila?
Situada cronologicamente no terceiro quartel do século XVII, Hemeila foi-me sempre descrita de forma elogiosa, assinalando-se o relevo que socialmente ainda a define. Todos os meus interlocutores lhe reconhecem uma dimensão marcante, «uma mulher especial», pela sua fortuna pessoal, pela sua inteligência e carácter determinado. Quer entre os Idau al-Hajj - o seu universo de origem -, quer no seio dos Aulad Daiman - onde casou -, as opiniões, para além de serem ainda bastante vivas, partilham sempre os méritos e o valor desta personagem. Esta verdadeira «princesa» é, também, tida como um exemplo mais que perfeito das qualidades femininas atualmente idealizadas. A sua defesa da monogamia, por exemplo, ao não aceitar um segundo casamento do seu marido, é até hoje outro elemento marcante.
Hemeila é ainda considerada como uma figura significativa devido à ajuda que prestou aquando da guerra de Xarbubba, estruturante para grande parte das populações do sudoeste da Mauritânia - e fundamental no entendimento do conceito dejihadem África (Curtin, 1971). O seu filho, al-Va¯lli, terá sido um dos principais comandantes dessa guerra, e continua a defender-se que foi graças à intervenção de Hemeila que os seus familiares Idau al-Hajj, respondendo a uma solicitação do seu «sobrinho», aceitaram, no final da guerra, acolher inúmeros órfãos destas campanhas.
É unanimemente reconhecido que Hemeila, uma mulher nascida nos Idau al-Hajj, casou fora daqabıla. Hemeila, «filha» dos Idau al-Hajj, casou com al-Kouri uld Sid al-Va¯lli (Aulad Daiman), e é mãe de al-Va¯lli uld al-Kouri uld Sid al-Va¯lli. São estes os elementos partilhados entre os universos sociais Idau al-Hajj e Aulad Daiman que continuam a enquadrar Hemeila.
Face ao sempre declarado prestígio da personagem, surpreende o facto de não lhe corresponder uma filiação clara. O seu pai e a sua mãe confundem-se, como vimos, entre diversas hipóteses, quer no grupo que a acolheu em casamento, quer entre os Idau al-Hajj. Quaisquer que sejam as teses propostas, a sua linhagem materna não é «genealogizável», surgindo impreterivelmente uma complexa identidadenaçra¯nicomo única possibilidade de enquadramento. «A linhagem materna não é relevante», é uma frase que me foi repetida por alguns interlocutores, em oposição à preponderância (atual) da genealogia paterna. Mas esta era uma hipótese difícil de conciliar com o facto de a própria Hemeila continuar a ser reconhecida como uma personagem eminente.
Todos os documentos Idau al-Hajj consultados (escritos e oralmente recolhidos) identificam Hemeila como sua «filha», afirmando também que o seu avô é seguramente al-Am¯ı n uld Najib. Se entre os Aulad Daiman - aqabılaque acolheu Hemeila em casamento e onde ela se divorciou (tendo regressado então para os Idau al-Hajj, viajando provavelmente para a margem senegalesa do rio) - se poderá entender algum desconhecimento quanto aos ascendentes desta mulher, entre os Idau al-Hajj esta questão é dificilmente compreensível. Paradoxalmente, os Idau al-Hajj continuam também a enaltecer Hemeila e a destacar o seu casamento com al-Kouri uld Sid al-Va¯lli, formalizando uma reconhecida amizade entre ambas asqaba¯’il.
Assim, muito embora Hemeila seja sempre prezada, tanto naqabılade onde saiu para casar, como no grupo que a recebeu, encontramos também aqui incoerências nas propostas que a inscrevem genealogicamente.
Um cemitério na Guibla
Procurando completar a discussão em torno de Hemeila, decidi visitar o cemitério (maqbar) de Tindalah, o mais importante e mais antigo cemitério dos Idau al-Hajj. De forma algo surpreendente, Hemeila e Maham encontram-se sepultados lado a lado, num local privilegiado do cemitério, e com as suas lápides bem assinaladas, muito embora os séculos passados desde a sua morte. Este dado constituirá uma prova do interesse do grupo na preservação destas personagens, ao contrário de outras, bastante mais recentes, e igualmente com um papel destacado na história daqabıla, que não têm uma sepultura consagrada neste espaço.
Contudo, na lápide de Maham lê-se, «Maham ibn Mukhtar». E assim, a figura sepultada ao lado de Hemeila em Tindalah, será, não o seu pai, mas o seu primo paralelo patrilateral. Quer entre os Aulad Daim¯an, quer entre os Idau al-Hajj, não se reconhece qualquer casamento de Hemeila posterior à aliança matrimonial com al-Kouri uld Sid al-Va¯lli.
De volta a Nouakchott (outubro de 2007), confronto um dos meus interlocutores Idau al-Hajj, Xaıkh Ahmad, com as minhas descobertas no cemitério. Foi para mim uma surpresa encontrar sem dificuldade a lápide de Hemeila, num cemitério onde grande parte das mais antigas sepulturas não é já identificável. No entanto, existem diferenças significativas entre a lápide que celebra Hemeila e a de Maham, a seu lado. A personagem feminina tem uma inscrição recente, escrita sobre cimento, enquanto a de Maham se apaga já sobre uma pedra centenária. Xaıkh Ahmad sabe perfeitamente ao que me refiro, precisando que naqabılase repete que as primeiras personagens enterradas em Tindalah serão «Maham al-Kabir» («Maham uld Mukhtar uld al-Amın», clarifica) e Hemeila. Quanto à recente lápide de Hemeila, afirma que esta terá sido refeita há alguns anos pelo antigo imame de Zamzam, a aldeia mais próxima deste cemitério. Ter-se-á tratado apenas de uma banal reparação, necessária após um período particularmente chuvoso que terá destruído algumas lápides. Continuando a refletir sobre estas personagens, pergunto onde afinal se encontra sepultado Mukhtar uld al-Amın, epónimo da atual liderança do grupo, não tendo conseguido localizar a sua lápide em Tindalah. A resposta, algo surpreendente, complica a narrativa atualmente mais valorizada entre os Aulad Mukhtar: «Não se sabe… ninguém sabe…».
Existem, naturalmente, muitas e muito importantes personagens sarianas desaparecidas, vítimas dos árduos percursos nómadas até há pouco realizados, de doença, acidentes, rixas ou batalhas (Taylor, 1995). No entanto, o processo memorial associado aos patriarcas fundacionais é geralmente reinventado, e amiúde «santificado» com sinalização própria num espaço fúnebre. Contudo, este tipo de processo não se verifica no caso do patriarca dos Aulad Mukhtar, nem com al-Amın, ou com o seu pai, Najib. Em Nouakchott, rapidamente encontro o autor da inscrição fúnebre de Hemeila no cemitério de Tindalah. Procurando discernir quem repousava, efetivamente, na sepultura ao lado de Hemeila, interrogo Ahmad al-Karim al-Zaiad sobre as duas lápides. Este interlocutor confirma que há cerca de vinte anos refez de facto a lápide que assinala a sepultura de Hemeila, «copiando escrupulosamente os dados indicados na original». Afirma que Hemeila e Maham estarão entre as personagens mais antigas de Tindalah. Diz-me também que atualmente existe uma enorme confusão em torno do nome «Maham», que surge associado a dois homens: «o pai de Hemeila é Maham uld al-Amın uid Najib; o “vizinho” de Hemeila em Tindalah é Maham uld Mukhtar, seu primo paterno». Em sua opinião, Hemeila apenas se casou uma vez, com al-Kouri uld Sid al-Valli; Maham uld al-Amın é o pai de Hemeila; Maham uld Mukhtar é o primo paralelo patrilateral de Hemeila.
Conclusão: Hemeila reencontrada
O etnólogo é bem o único a entregar-se à busca desinteressada de todos os itinerários possíveis entre dois pontos do espaço genealógico. Pierre Bourdieu,Esboço de uma teoria da prática
É verdade que em todas as hipóteses genealógicas expostas pelos Idau al-Hajj se inclui a vocação comercial daqabılae, na esmagadora maioria das vezes, a declaração de uma longa e profícua colaboração com europeus (que se mantém até ao período colonial, no início do século XX). Se é verdade que estaqabılase corresponde com os «mais próprios» quadros genealógicos, ideológicos e religiosos - ligação aonasabprofético, associação à região de Adrar (berço de grande parte das populações falantes de Hassaniyya [Taine-Cheikh, 1994] hoje estabelecidas no sudoeste da Mauritânia), inata vocação comercial - é também verdade que se aceita a proximidade com comerciantes europeus como uma mais-valia abertamente defendida… Conquanto este encontro não toque no foro íntimo das chefias do grupo, o que arriscaria «corromper» o exemplar enquadramento local dos Idau al-Hajj.
«O comércio não implica as mesmas solidariedades ou obrigações que a comunhão. Pelo contrário, o comércio diferencia as partes envolvidas, define-as em termos de interesses separados e opostos, embora também complementares», escreveu Sahlins (2004, p. 38) sobre os cruzamentos entre cultura local e historicidade nas ilhas Sandwich. Este excerto ilustra exemplarmente as ambiguidades inerentes a uma relação comercial, perfeitamente enquadrado no modelo apresentado pelos Idau al-Hajj. Na verdade, o tipo de relacionamento sugerido entre aqabılae os seus parceiros europeus deve resumir-se a uma relação estritamente comercial. No entanto, o encontro com europeus desencadeou, sem dúvida, debates profundos dentro daqabıla, e terá balizado o tipo de relações estabelecidas com comunidades vizinhas.
Será esta uma das conclusões a retirar do debate encetado com a visita ao cemitério de Tindalah, onde se prova o apagamento de algumas das personagens mais importantes do inicial trato euro-sariano. Como há muito notado em antropologia - e como confirmado na discussão aqui exposta -, a definição de fórmulas identitárias comporta o seu permanente rearranjo3.
As relações aqui expostas evidenciam a consolidação de estruturas onde a arabidade, e alguns dos seus temas paradigmáticos, se discutem e, quase sempre, se impõem. O longo processo de arabização do ocidente sariano (Norris, 1986) é claramente observado nestas tradições, como se comprova nas fórmulas escolhidas para a apresentação genealógica (patriarcal) dos grupos, ou nas políticas de aliança hoje mais valorizadas. A reflexão sobre a minha prática antropológica no Sara, aqui retomada duas décadas após o início do meu trabalho na região, prova que os dados que venho recolhendo derivam diretamente das formas de interlocução geradasin situ. Como indicado no início deste texto, fui praticamente forçado a trabalhar sobre Hemeila, de tal forma se fazia localmente a minha identificação com esta personagem. Foram, na verdade, os meus interlocutores na Mauritânia a gerar grande parte da reflexão aqui apresentada, ainda que posteriormente organizada de acordo com o meu cânone académico e discutida à luz da significativa literatura especializada. Sabemos que a antropologia, muito em particular, convoca mecanismos analíticos intimamente ligados aos interlocutores selecionados, e à identidade reconhecida ao investigador no terreno (Gupta, 2014).
Alguns dias após a minha visita ao cemitério de Tindalah entendo a dimensão do meu achado. Sou acossado por inúmeras mulheres, na maior parte dos casos minhas absolutas desconhecidas, que me perguntavam se eu tinha de facto visto a sepultura de Hemeila? Era verdade o que se contava na aldeia? Onde se encontra essa sepultura? Como era? Em que estado se encontra?
Eu havia mantido o tema reservado, mas o comentário do meu mais próximo colaborador no terreno acabou por divulgar a minha descoberta. Eu não estava ciente do alcance da minha visita ao cemitério e da sua repercussão, nomeadamente entre as mulheres Aulad Daiman, suas descendentes diretas. Eu estava sobretudo centrado no contexto Idau al-Hajj, pensando sobre os iniciais contactos euro-sarianos, sobre os modelos complexos gerados a partir de trocas comerciais, e na forma como os encontros euro-sarianos eram atualmente valorizados e/ou encobertos.
Nunca imaginei que esta investigação viesse a despertar tanta curiosidade junto dos/ das descendentes de Hemeila, mas havia uma justificação plausível para tal acontecer. Até então, entre os Aulad Daiman não se sabia onde estava sepultada a «mãe» de grande parte daqabıla. Aceitando-se geralmente que esta estivesse sepultada algures na margem sul do rio Senegal, «para onde», dizia-se, «teria partido depois do fim do casamento com al-Kouri». A descoberta da sua sepultura, a apenas cinquenta quilómetros da atual aldeia Aulad Daiman, invertia todas as ideias existentes quanto ao que se havia passado com esta mulher.
Se os Idau al-Hajj, «pais» de Hemeila, assinalam a sua sepultura no seu cemitério mais representativo, entre os Aulad Daiman não se sabia onde estava sepultada Hemeila antes de o antropólogo a buscar, encontrar e trabalhar todos os núcleos genealógicos que ainda a referem. Na aldeia, no momento em que preparo o meu regresso a Nouakchott, constato que se organizam agora visitas à sepultura da «mãe» que julgavam desaparecida para sempre, e que havia agora sido redescoberta pelo antropólogo português, carinhosamente tratado de «tio materno»4.














