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Motricidade

versão impressa ISSN 1646-107Xversão On-line ISSN 2182-2972

Motri. vol.21  Ribeira de Pena jan. 2025  Epub 25-Jun-2025

https://doi.org/10.6063/motricidade.38603 

ARTIGO ORIGINAL

O valor educativo do desporto: Desafios e dificuldades percebidas por treinadores de crianças e jovens

The educational value of sport: Challenges and difficulties perceived by children and youth sport coaches

1Instituto Politécnico da Guarda - Guarda, Portugal.

2Centro de Investigação & Inovação em Desporto, Atividade Física e Saúde - Guarda, Portugal.


RESUMO

Este estudo investigou os desafios e dificuldades enfrentadas pelos treinadores ao transmitir valores educativos do desporto e as suas estratégias para lidar com a falta desses valores nos seus jovens atletas. A amostra incluiu quatro treinadores de crianças e jovens do género masculino, com idades entre os 44 e 46 anos, e entre 5 e 20 anos dedicados ao treino de crianças e jovens. Conduziram-se entrevistas anónimas semiestruturadas de interação verbal, com o apoio de um guião. Os principais resultados indicam que os treinadores muitas vezes lutam contra a realidade atual dos pais dos atletas, que priorizam a competição acima de tudo e não transmitem os valores fundamentais aos seus filhos, e enfrentam o uso crescente da tecnologia para transmitir valores desportivos que nem sempre correspondem aos desejados. As principais estratégias identificadas para combater a falta de valores incluem promover o respeito, usar os valores corretos diariamente e incentivar a igualdade. Conclui-se que a família dos atletas influencia significativamente na sua prática desportiva e na transmissão dos valores desportivos, e que os treinadores enfrentam o desafio de os pais ou a família dos atletas nem sempre terem uma atuação pedagógica.

PALAVRAS-CHAVE: valores educativos; desporto; dificuldades; treinador; jovens atletas

ABSTRACT

This study investigated the challenges and difficulties coaches face when transmitting educational values of sport and their strategies to promote these values in their athletes. The sample included four male coaches of children and young people, aged between 44 and 46, with 5 to 20 years dedicated to youth sports training. Semi-structured anonymous interviews of verbal interaction were conducted, with the support of a script. The main results indicate that coaches often struggle with the current reality of athletes’ parents, who prioritize competition above all and do not transmit fundamental values to their children but also face the increasing use of technology to transmit sporting values that do not always correspond to those desired. Key strategies identified to promote sport values include promoting respect, using the appropriate values on a daily basis and encouraging equality. It is concluded that the athletes’ family significantly influences their sporting practice and the transmission of sports values, and that coaches face the challenge of the athletes’ parents or family not always having pedagogical behaviour.

KEYWORDS: educational values; sport; difficulties; coach; young athletes

INTRODUÇÃO

Ao longo das últimas décadas têm-se visto várias mudanças no comportamento dos jovens em relação ao desporto, pois alguns comportamentos tal como, fazer batota, manifestar agressão e violência e desrespeitar adversários e árbitros têm-se tornado mais comuns no desporto jovem (Bredemeier, 1984; citado por Fernandes et al., 2003). Esses comportamentos antiéticos continuam a ser um problema importante no desporto na atualidade (Bovolon et al., 2024), sendo ainda demonstrado no estudo a existência de associações entre os níveis de agressividade e a aceitação de comportamentos antiéticos como batota e violência. Assim, uma responsabilidade indispensável e significativa que os professores e treinadores enfrentam é ajudar as crianças e os jovens a desenvolver valores e princípios, que os possam orientar quando confrontados com escolhas éticas e morais (Fernandes, 2003). Esta mesma ideia é reforçada por Dorsch et al. (2020) e Zhao e Jowett (2022) que afirmam que os pais e os treinadores têm um papel crítico na determinação das experiências, atitudes e resultados de desenvolvimento dos jovens atletas.

A pedagogia do desporto, de acordo com Rosado (1997), reflete sobre o saber do que é uma boa educação físico-desportiva e de como a alcançar, sendo, portanto, uma reflexão que se divide entre o estudo das finalidades da ação educativa e de como alcançá-la. Afirma ainda que, para além disso, a pedagogia do desporto depende também da educação do indivíduo como um todo, não sendo apenas focada em métodos de estudo didáticos que aprimoram a intervenção para o desenvolvimento psicomotor e do conhecimento dos desportos. Para complementar, a pedagogia do desporto, é um ramo das ciências do desporto que se foca no ensino, na vivência, na aprendizagem e no treino desportivo, tendo como objetivo, compreender a organização, aplicação e avaliação de várias formas de práticas desportivas (Galatti et al., 2014).

Antunes et al. (2020) afirmam que o treino desportivo, quando pedagogicamente orientado, possui um valor educativo indiscutível, contribuindo para um desenvolvimento multilateral, ou seja, o desenvolvimento de habilidades motoras fundamentais, e harmonioso dos jovens atletas. Embora poucos estudos se concentrem nos impactos da educação física e do treino desportivo para jovens, há evidências que demonstram benefícios positivos em termos de assertividade, cooperação, comunicação, autocontrolo e resolução de problemas (Monteiro et al., 2008; Opstoel et al., 2019).

Para Ayats (2010), a educação, incluindo o desporto, vai além das instituições formais, tal como as escolas, abrangendo dois processos diferentes que da mesma forma se complementam, a heteroeducação, ou seja, a educação dada mediante um educador (professor, treinador ou familiar), e a autoeducação, desenvolvida pelo educando. Demonstra ainda que não é fácil definir os objetivos educacionais no desporto, mas que é de total importância procurar o equilíbrio, sendo determinado pela própria natureza das relações que estabelece consigo mesmo e com o ambiente. Além disso, o estudo de Raschka e Costa (2024), revela que a prática de desportos, nomeadamente coletivos, é importante para o desenvolvimento cognitivo e socioafetivo dos jovens atletas, desde que seja conduzida de forma apropriada pelos profissionais. Em conformidade, Benítez-Sillero et al. (2022) reiteram que a prática de educação física, desportos e atividades físicas pode ajudar no desenvolvimento de habilidades pessoais, sociais e físicas, sendo adicionalmente um fator importante para que um estilo de vida ativo e uma educação física bem planeada tragam benefícios para a saúde física e mental, especialmente quando envolvem intervenções bem estruturadas.

Segundo Vargas (2010), a educação é o que molda a personalidade do aluno ou atleta, sendo que a atividade desportiva terá acesso a níveis educativos se o principal foco for o praticante e não os resultados, devendo para isso basear-se na ciência e não em ideologias. Afirma ainda que as condições em que são praticadas também são educativas, pois leva à autoestruturação da personalidade do atleta, sendo que a técnica e a tática são apenas uma consequência. Para finalizar realça que o desporto é possivelmente a realização humana que mais influencia a estruturação da personalidade do praticante, através do valor agonístico, que se refere à intencionalidade competitiva ou à luta contra algo, alguém ou si mesmo; do valor lúdico, que envolve a prática focada na diversão de forma mais ou menos estruturada; e do valor eronístico, em que a prática desportiva é realizada apenas pelo gosto ou prazer.

Uma educação de qualidade engloba a aprendizagem de habilidades cognitivas e a construção de valores, sendo que o desporto promove essa aprendizagem através principalmente da inclusão, do respeito, da igualdade e da equidade, sendo que esses valores podem ser utilizados para promover a aprendizagem em qualquer contexto educacional (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, [UNESCO], 2016). A melhoria da autoconfiança, do desempenho académico, da participação, da concentração, da compreensão dos direitos e responsabilidades, do estilo de vida, do trabalho em equipa, das habilidades de comunicação e da resolução criativa de problemas, são vários valores que o desporto pode conceder quando em um ambiente e contexto de apoio positivo, podendo ter como futuros benefícios, o desenvolvimento pessoal, a evolução de relações sociais, o desenvolvimento da capacidade intelectual e emocional, a melhoria da condição física, e o fortalecimento dos recursos financeiros (UNESCO, 2016).

Ao pretender-se que o envolvimento desportivo juvenil se traduza em experiências autênticas através da socialização pelo desporto, do envolvimento dos jovens na organização das atividades e do desenvolvimento do sentido de afiliação e de trabalho de equipa, Soares e Antunes (2016), afirmam que a competição desportiva não deve ser vista unicamente como um objetivo final, devendo ser adotada e praticada como uma forma de melhorar o desempenho da equipa, promover o conhecimento e a cultura desportiva.

O desporto tem sido historicamente ligado ao processo de socialização e cultura (Cunha, 2017), funcionando como um sistema cultural moldado por símbolos, mitos, códigos e narrativas (Broch, 2022). Os desportos estão a tornar-se cada vez mais globais, pois, à medida que diferentes nações adotam modalidades estrangeiras, ocorre um intercâmbio cultural. O futebol é um exemplo disso, sendo antigamente mais popular na Europa e América do Sul, mas que cresceu a nível da popularidade, participação e audiência nos Estados Unidos com a Major League Soccer (Asante et al., 2025). Existem vários valores desportivos, tais como a honestidade, a justiça, a transparência, a imparcialidade e o respeito, que se manifestam através do comportamento dos atletas, treinadores, árbitros e espetadores, promovendo a ordem, e uma integração harmoniosa da comunidade (Dilnoza, 2023). O impacto da idade na transmissão de valores sociais e pessoais é evidente ao longo das trajetórias atléticas dos jovens, sendo que dos oito aos catorze anos o foco principal deve ser a prática por pura diversão, na adolescência, dos quinze aos dezoito anos, começa a surgir o desejo de vencer, e depois dos vinte anos ressurge a valorização pela participação lúdica, pois a alegria derivada do jogo em si supera o desejo de vencer.

Num estudo realizado por Gonçalves et al. (2005) é sugerido que, para os praticantes desportivos jovens de Portugal, a prática desportiva é preferencialmente um momento de socialização, do que de treino e aprendizagem. Num outro estudo conduzido por Fernandes et al. (2003), que visava investigar as atitudes desportivas e orientações motivacionais em jovens de 9 a 21 anos, foi verificado que os jovens mostraram estar de acordo em adotar comportamentos em cenários desportivos de acordo com os princípios do desportivismo e fair-play. Por outro lado, os aspetos que obtiveram menor concordância dizem respeito a atitudes e ações que contradiziam os princípios do espírito desportivo.

Deste modo, o presente estudo pretende contribuir para um melhor entendimento do papel atual dos treinadores no desenvolvimento moral e educativo de crianças e jovens, bem como possíveis fatores de influência no processo educativo através da prática desportiva juvenil. Os objetivos específicos deste estudo são identificar os principais desafios e dificuldades dos treinadores em relação à promoção dos valores educativos pelo desporto e as suas formas de combater a falta desses valores nos seus atletas e alunos.

MÉTODO

Participantes

Foram entrevistados quatro treinadores com idades entre 44 e 46 anos, do género masculino, em que apresentam em comum a certificação de treinador nível 1 de futebol. Entre eles, o primeiro e o quarto treinador têm ainda o nível 1 de futsal, o terceiro o nível 2 de futsal, o primeiro apresenta o nível 1 de basquetebol e o segundo treinador possui várias formações na área do fitness. Estes treinadores indicaram entre 4 e 20 anos de experiência como treinadores de crianças e jovens. O primeiro treinador tem atuado ultimamente no escalão de sub-13, o segundo em vários escalões infantojuvenis, o terceiro nos juvenis e o quarto nos sub-15.

Este estudo qualitativo, em que a amostragem não probabilística foi por conveniência, garantiu a confidencialidade dos dados obtidos através de entrevistas anónimas.

Instrumentos

Para a finalidade deste estudo, foram feitas quatro entrevistas semiestruturadas de interação verbal cara a cara, através de um guião que se encontra disponível a pedido ao autor correspondente. Este guião estava estruturado em três partes, sendo a primeira responsável pela caracterização do individuo com base em oito perguntas; a segunda, com quatro perguntas, relacionadas com as características e desafios associados à intervenção pedagógica dos treinadores de crianças e jovens; e a terceira, a mais importante, em que três perguntas estão associadas aos valores educativos do desporto e à sua partilha, e duas com questões relacionadas à formação e reconhecimento dos treinadores. Foram utilizadas apenas perguntas de caráter aberto, pois apresentam como vantagens, a possibilidade de reconstruir o sentido da resposta e relacionar dados, a informação é mais detalhada, mais completa e mais fiável e a possibilidade de surgir informação inesperada, logo maior liberdade exploratória.

Procedimentos

As entrevistas foram gravadas em formato de áudio através de smartphones, sendo posteriormente transcritas com a maior precisão possível, incluindo todas as hesitações, gaguejos e repetições (transcrição ad verbatim). A transcrição foi realizada inicialmente, através da função de digitação por voz do Google Docs e de seguida pela revisão manual do texto produzido.

Análise dos dados

Este estudo qualitativo, devido à sua natureza aberta e flexível, contêm uma grande quantidade de informações descritivas que requerem organização e tratamento para permitir a intervenção do fenómeno em questão. Dada a natureza do estudo, focado nas ideias dos treinadores entrevistados sem influências externas, a análise de conteúdo foi exploratória (Bardin, 2013). Assim, a análise considerou os temas do guião da entrevista e as respostas dos quatro treinadores de maneira a encontrar relações entre essas mesmas respostas. Foram analisadas com maior prioridade as respostas às perguntas da terceira parte do guião.

RESULTADOS

A partir da análise e organização dos dados foi realizado um diagrama (Figura 1) representando uma árvore das categorias geradas, contemplando as principais questões colocadas aos treinadores e as suas respetivas respostas.

Figura 1. Árvore de categorias. 

A primeira questão relevante a este estudo (primeira questão da terceira parte do guião) questionou os treinadores sobre o que são os valores educativos do desporto, e podemos observar que cada um indica uma definição distinta, mas de qualquer forma similares. Para o primeiro entrevistado os valores educativos do desporto são, os princípios da educação recebida transcritos para a parte desportiva; para o segundo, são os valores que ajudam na formação integral do cidadão, dando como exemplos de pilares desses valores o respeito, a solidariedade e o espírito de equipa; o terceiro menciona o sucesso desportivo com o devido cumprimento das regras; e para o quarto e último, é acima de tudo a interação entre os atletas e a capacidade de partilhar, mencionando ainda que esses valores se têm vindo a perder há relativamente muito tempo, e o que os desportos coletivos os obriga a ter.

A seguinte questão relevante pretendeu saber qual é o papel ou responsabilidade que o treinador poderá ter na partilha desses valores aos atletas ou alunos, em que o primeiro treinador indica confiantemente que qualquer treinador tem que saber respeitar para ser respeitado; o segundo indica que os treinadores, para partilhar esses valores, devem ser o modelo dos atletas, praticando os valores corretos diariamente não só enquanto professor, mas também cidadão; o quarto indica essa mesma responsabilidade; e o terceiro refere novamente a ideia do primeiro entrevistado, referindo ainda a expressão “ninguém é mais importante do que ninguém”, o que sugere a igualdade.

“…temos que respeitar. Toda a gente respeita o próximo, jogadores respeitam os miúdos, têm que respeitar o treinador, têm que respeitar os colegas, têm que respeitar o massagista, têm que respeitar o adjunto, o roupeiro, e aqui ninguém é mais importante do que ninguém…” (Treinador 3)

A terceira questão relevante pretende identificar quais são os desafios ou dificuldades que os treinadores enfrentam em relação a formas de combater a falta desses valores, sendo que o primeiro entrevistado expôs que atualmente o maior problema são possivelmente os pais, pois todos querem ser treinadores, mas nem formadores às vezes conseguem sê-lo; o segundo e quarto entrevistados falam das novas tecnologias, sendo que através dos media as crianças e jovens seguem os exemplos dos seus ídolos desportivos, o que maior parte das vezes não é o que os treinadores querem pois consideram pouco adequado. O segundo entrevistado menciona também a possível falta de empenho dos pais na transmissão dos valores fundamentais, podendo ser feita de uma forma incorreta através da escola ou da família.

Foram ainda feitas mais duas questões (quarta e quinta questão da terceira parte do guião), em que a quarta visava obter a opinião dos treinadores em relação aos cursos de treinadores, sabendo se preparam ou contribuem adequadamente para a formação dos técnicos desportivos nesta área, e a quinta tencionava verificar se os entrevistados sentem que o seu papel enquanto treinador é devidamente reconhecido pelo clube, pais, comunidade desportiva e sociedade. Relativamente à quarta questão todos afirmaram que obter cursos de treinador é importante, pois de acordo com o primeiro entrevistado, idealizamos chegar o mais perto possível dos formadores; de acordo com o segundo entrevistado é sem dúvida o ponto de partida para trabalhar na área desportiva; segundo o terceiro, quanto mais formações, mais cadeiras, mais áreas envolvidas no curso de treinador, ou seja, mais tempo dedicado, haverá uma maior evolução na aprendizagem dos treinadores; e consoante o quarto, que treinou sem curso 4 a 5 anos (maior parte do seu tempo enquanto treinador) afirma que aprendeu muito e que durante o curso, verificou que a maneira de como planeava o treino anteriormente era a errada. Afirmou ainda mais tarde, que acredita que os clubes têm que ter todos pessoas formadas, pois assim, todos lutam por algo que têm conhecimento.

“Sim, andei 4/5 anos a treinar sem curso e agora com curso. Os cursos são importantíssimos. Antes achava que os cursos eram só um papel, mas atualmente a minha opinião mudou, porque aprendemos muito, mas também depende de como as formações estão a ser feitas. Eu tive bons formadores, em que me fizeram acreditar em duas coisas muito importantes, o treino; a maneira de como o preparar, que era o oposto do que eu fazia; e acima de tudo o porquê de planear o treino daquela maneira.” (Treinador 4)

No que diz respeito à quinta questão, o segundo entrevistado, foi o único que afirmou que o seu papel enquanto treinador é devidamente reconhecido pelo clube, pais, comunidade desportiva e sociedade, pois afirma que acima de tudo, quer que quem trabalhe com ele se sinta bem e tire maior prazer da vida, supondo ainda que deixa um impacto positivo na vida dos atletas. Já o primeiro e terceiro entrevistados, alegam que são reconhecidos por alguns, mas “detestados” por outros, dando como exemplo a excessiva e desnecessária atitude competitiva dos pais e a irreflexão de quem contribuiu significativamente para o crescimento do clube e dos atletas. Por fim o quarto entrevistado nega totalmente o reconhecimento, pois afirma que atualmente a sociedade e os clubes querem ganhar desde pequenos, não dando tempo ao treinador para implementar o essencial da modalidade, o que pode resultar na derrota e posteriormente em críticas negativas aos treinadores e aos atletas.

“…é um pau de dois bicos, não é, por uns somos reconhecidos por outros somos odiados… E depois quando os pais olham mais ao nível competitivo, tipo ganhar a todo custo, … eu acho que não devíamos pensar assim, devíamos pensar sim em apoiar os miúdos, quer eles sejam bons quer eles sejam maus” (Treinador 3)

“atualmente a sociedade ou os clubes querem ganhar desde pequenos e muita das vezes não dá. Não dá tempo ao treinador para implementar as suas ideias e trabalhar com o que tem… Nós queremos trabalhar o essencial, as bases, os fundamentos e etc, e ao contrário da ideia que eles têm que é ir para os jogos para principalmente ganhar, e se não ganham, o treinador é mau, os jogadores são maus.” (Treinador 4)

DISCUSSÃO

Através das entrevistas podemos também verificar que os treinadores têm a perceção que o comportamento dos pais influencia negativamente a educação dos atletas, o que resulta de acordo com Rosado (1997), na ausência de uma pedagogia adequada nas suas vidas e experiências desportivas. Com esta informação, é possível afirmar que o processo heteroeducativo definido por Ayats (2010), não está a ser corretamente aplicado por parte dos pais dos atletas, enquanto o processo autoeducativo é, por vezes, direcionado para uma educação digital inadequada. É também colocado em questão o estudo realizado por Gonçalves et al. (2005), que diz que a prática desportiva é preferencialmente um momento de socialização, do que de treino e aprendizagem nos jovens atletas em Portugal, pois o quarto entrevistado afirma que os valores educativos do desporto são acima de tudo um momento de interação e comunicação. Contudo, esta afirmação requer um maior fundamento, pois esse estudo abrange jovens entre os 12 e 18 anos, sendo possível que o foco da prática desportiva varie entre os mais novos e os mais velhos. Além disso, de acordo com os desafios em relação à partilha dos valores educativos observados, os pais preocupam-se mais no sucesso, do que os próprios treinadores ou filhos, levando a prática desportiva jovem como um momento total de competição que é desnecessário. Considerando isso, pode-se constatar, conforme afirma Vargas (2010), que a personalidade do atleta pode estar a ser afetada negativamente e que a atividade desportiva não está a ser devidamente educativa, devido ao foco obsessivo dos pais pelo resultado.

Em relação à questão relacionada ao reconhecimento do papel do treinador, as respostas dos entrevistados variam de total reconhecimento e impacto positivo na vida dos atletas até um reconhecimento parcial ou inexistente devido à competitividade excessiva e falta de tempo para implementar os fundamentos essenciais da modalidade. Essa variabilidade destaca a necessidade da comunicação contínua entre treinadores, pais, clubes e atletas, de modo a promover uma relação saudável entre eles, destacando que o grande objetivo é o crescimento dos atletas (Horne et al., 2020).

O estudo enfrentou limitações relacionadas ao número de treinadores, que poderia ser maior; à heterogeneidade da experiência dos participantes, que variou entre 4 e 20 anos de experiência; ao número de questões colocadas, que poderiam ser mais e com maior enfase nos objetivos do estudo; à interpretação subjetiva das respostas dos treinadores; e à falta de profundidade nas respostas obtidas. Deste modo, é sugerido um aprofundamento do estudo com maior número de treinadores, garantindo uma amostra mais homogénea, e questões mais direcionadas, para assim serem obtidas informações mais abrangentes e precisas, permitindo uma resposta mais eficaz ao objetivo do estudo e a possível generalização dos resultados.

CONCLUSÕES

Este estudo teve o objetivo de identificar os principais desafios e dificuldades dos treinadores em relação à partilha dos valores educativos do desporto e as suas formas de combater a falta desses valores nos seus atletas e alunos. De acordo com os resultados obtidos podemos verificar que, muitas vezes os treinadores enfrentam o desafio de os pais ou a família dos atletas acharem que têm mais conhecimento do que eles, mas na realidade, nem sempre conseguem transmitir os valores fundamentais aos atletas como formadores, e que as tecnologias estão cada vez a ser mais usadas como meio de transmitir valores desportivos, através de exemplos desportivos, mas às vezes os valores transmitidos não correspondem aos que o treinador deseja transmitir. Foi também constatado que as principais responsabilidades do treinador como forma de combate à falta dos valores desportivos nos atletas são, a capacidade de respeitar o próximo, para que os atletas se respeitem entre eles; o uso correto dos valores diariamente; e a promoção da igualdade, pois assim o treinador torna-se num exemplo que os atletas devem seguir.

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Financiamento: nada a declarar

Recebido: 29 de Outubro de 2024; Aceito: 06 de Maio de 2025

*Autor correspondente: Instituto Politécnico da Guarda - Escola Superior de Educação, Comunicação e Desporto, Avenida Doutor Francisco Sá Carneiro, 50 - CEP: 6300-559 - Guarda, Portugal. E-mail: rafazzzmmm@gmail.com

Conflito de interesses:

nada a declarar

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