INTRODUÇÃO
A prática desportiva, especialmente no contexto da formação de atletas jovens, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento físico, psicológico e social dos praticantes (Rodríguez-Bravo et al., 2020; Sinha, 2024). No entanto, este desenvolvimento não está isento de riscos, sendo as lesões desportivas uma preocupação constante, sobretudo nas modalidades de futebol e futsal (Gené-Morales et al., 2021; Gurău et al., 2023; Hespen et al., 2011). O risco de lesões nestes desportos é influenciado por uma série de fatores interligados, como a composição corporal, a competência motora e a saúde mental, que, em conjunto, podem determinar a vulnerabilidade dos atletas a lesões (Borges et al., 2021; Mandorino et al., 2022; McCaskie et al., 2021; Singh & Massod, 2019).
A composição corporal pode ser analisada de acordo com vários modelos e através de várias variáveis, nomeadamente através do Índice de Massa Corporal (IMC): peso e altura (Markowitz, 2018; Peltzer et al., 2022; Weir & Jan, 2019). Um bom desempenho físico e performance estão intimamente relacionados com valores regularizados de IMC (Casonatto et al., 2016; Lopes et al., 2019; Yuan, L. et al., 2023).
No entanto, a composição corporal não deve ser analisada isoladamente, uma vez que a competência motora também tem um papel essencial na prevenção de lesões. Os primeiros anos de vida desempenham um papel crucial no desenvolvimento das competências motoras (Hulteen et al., 2018). É importante salientar que as competências motoras não se desenvolvem de forma espontânea ou automática, mas sim através da aprendizagem e prática (Anderson & Steel, 2022; Lindsay et al., 2023; Robinson et al., 2015). É previsível que crianças e adultos com menor competência motora tenham uma performance mais reduzida que crianças com níveis elevados de competência motora (Contreras-Osorio et al., 2022; Formenti et al., 2021; Rodrigues et al., 2021; Spanou et al., 2022). Para além disso, baixos níveis de competência motora estão fortemente ligados a maiores riscos de lesões musculoesqueléticas (Miller et al., 2020).
Contudo, tanto a composição corporal como a competência motora podem ser afetadas pela saúde mental do atleta, um fator frequentemente negligenciado no contexto desportivo. O estado emocional e psicológico de um atleta pode interferir diretamente no seu desempenho físico (Habay et al., 2021; Yuan, R. et al., 2023). O stress, a ansiedade e a falta de motivação podem prejudicar a concentração e a tomada de decisões, afetando a execução de movimentos técnicos e a capacidade de adaptação ao jogo (Rogers et al., 2023; Sun et al., 2021).
O objetivo deste estudo consistiu em comparar e relacionar a competência motora, composição corporal, características psicológicas e risco de lesão em atletas de formação de futebol e futsal através de um estudo transversal.
MÉTODOS
Participantes
Este estudo transversal foi desenvolvido em dois clubes desportivos diferentes. Tratando-se de uma amostra de conveniência, o total de atletas avaliados foram 228 (189 do sexo masculino e 39 do sexo feminino). Contudo, como os critérios de inclusão os atletas tinham de ser federados, praticar apenas uma modalidade (futebol ou futsal) e estarem ausentes de quaisquer lesões ou impedimentos físicos, enquanto os critérios de exclusão consistiram em não incluir no estudo os participantes que não completassem a bateria de testes completa.
O número final de participantes no estudo totalizou 217 jovens atletas, retirando assim 11 atletas que não cumpriram com os critérios de elegibilidade. O primeiro clube, o Vitória de Santarém, na modalidade de futsal, incluiu a recolha de amostras de atletas dos escalões de benjamins até iniciados (n = 55). Nesta modalidade, a amostra foi composta por 45 atletas do sexo masculino e apenas 10 atletas do sexo feminino. Devido ao número reduzido de atletas femininos, foram consideradas apenas para estatística descritiva. O segundo clube, o Académica de Santarém, na modalidade de futebol, envolveu atletas dos escalões de benjamins até aos sub-15 (n = 162). Na modalidade de futebol, a recolha de dados incluiu atletas de ambos os sexos, num total de 30 atletas do sexo feminino e 132 do sexo masculino. Em ambas modalidades, os atletas treinavam entre duas a três vezes semanais, participando num jogo competitivo semanal. Os jovens atletas participaram no estudo após terem assinado o Consentimento Informado. Além disso, o estudo seguiu as diretrizes éticas para estudos em humanos, como indicado pela Declaração de Helsínquia e foi aprovado pela Comissão de Ética do Instituto Politécnico de Santarém Nº5A-2024ESDRM. Para garantir a confidencialidade, todos os dados foram anonimizados antes da análise.
Procedimentos e protocolos
Primeiramente, foi agendada uma reunião com ambos os clubes para analisar a situação e obter a autorização necessária para a realização da recolha de dados. Após a aprovação, em colaboração com os representantes dos clubes, foram definidos os horários, as datas e os escalões a serem avaliados ao longo do mês de junho.
Os consentimentos informados foram enviados por e-mail e também disponibilizados presencialmente para que os representantes legais dos atletas, por serem menores de idade, pudessem assiná-los. Reuniram-se, assim, todas as condições necessárias para a realização da recolha de dados.
A avaliação realizada no presente estudo incluiu a aplicação da bateria de testes Motor Competence Assessment (MCA) (Luz et al., 2016), o Inquérito de Morbidade Referida (IMR) (Pastre et al., 2004), o Questionário das Características Psicológicas Relacionadas com o Rendimento Desportivo (CPRD) (Gimeno et al., 2012) e a medição as variáveis de massa corporal e altura, de acordo com os protocolos da International Society for the Advancement of Kinanthropometry (ISAK) (Norton & Eston, 2018).
A MCA é uma bateria que avaliar três diferentes dimensões da competência motora, através de dois testes por dimensão, nomeadamente:
Locomotora (salto em comprimento e corrida de vaivém 4x10 metros);
Estabilidade (saltos laterais e deslocação de plataformas);
Manipulativa (velocidade de saída do pontapé e lançamento de bola).
Para a aplicação dos testes foram usadas uma bola de futebol (Kipsta, n.º5, França), uma bola de ténis (Artengo, França) e um radar de velocidade (Bushnell, SpeedstarV, China). Todos os resultados foram medidos em escala quantitativa (i.e., distância, tempo, número de execuções, ou velocidade). Os resultados brutos dos testes foram classificados de acordo com os percentis por sexo e idade de cada participante. O resultado final foi calculado através da média dos percentis de todos os testes (Rodrigues et al., 2019). O Inquérito de Morbidade Referida (IMR) é um instrumento amplamente utilizado para recolher informações sobre o histórico de lesões dos atletas. Este questionário permite identificar o número, o tipo de lesões, o mecanismo de lesão e o local anatómico das lesões sofridas num período específico.
O CPRD avalia as características psicológicas relacionadas com o desempenho desportivo, abrangendo as seguintes dimensões:
Controlo do Stress;
Motivação;
Habilidade Mental;
Coesão de Equipa;
Influência da Avaliação do Rendimento.
A avaliação da composição corporal incluiu a medição da massa corporal e da estatura. A massa corporal foi medida utilizando uma balança digital (Balança Tanita BC601, Japão). Para tal foi solicitado ao participante que subisse na balança, apoiando a planta dos pés sobre a mesma, distribuindo a massa igualmente pelos apoios e mantendo o olhar em frente. A estatura foi medida utilizando um estadiómetro (Seca, modelo 217, Alemanha). Para esta medida foi solicitado ao participante que se descalçasse e assumisse a posição antropométrica, realizando a correção da cabeça para o plano de Frankfort (Norton & Eston, 2018).
Os vários protocolos foram aplicados sobre a forma de percurso, na qual cada atleta teve de completar várias estações, i.e., protocolos. Cada estação, i.e., teste, tinha afiliado a si um ou mais investigadores para assegurar a aplicação dos protocolos. Esta organização permitiu a aplicação dos vários protocolos em simultâneo e de forma eficiente.
Análise estatística
A análise estatística foi analisada através do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 27 (IBM Corp, Armonk, NY, USA). Inicialmente, utilizou-se a estatística descritiva para caracterizar a amostra através de médias e desvios-padrão. Depois aplicou-se o teste de Kolmogorov-Smirnov para testar a normalidade dos dados. Foi aplicado um teste T de Student para comparar as modalidades e sexo nas variáveis que obtiveram distribuição normal e um teste de Mann-Whitney U nas variáveis que não obtiveram distribuição normal. Através da utilização do programa G-Power (Faul et al., 2007), obteve-se um poder estatístico de 89%, considerando a análise de “Post hoc” para o objetivo principal do estudo).
Para analisar as associações entre as diferentes variáveis, aplicou-se a correlação de Person nas variáveis que obtiveram distribuição normal e a correlação de Spearman que não obtiveram distribuição normal. Os resultados foram significativos quando p < 0,05. Todas as correlações foram avaliadas com base nos critérios definidos por Cohen et al. (1983), que classificam a magnitude das correlações da seguinte forma:
Esta abordagem permite uma interpretação consistente e padronizada da força das associações observadas entre as variáveis.
RESULTADOS
Os resultados obtidos neste estudo fornecem uma compreensão abrangente sobre as diferenças e semelhanças entre as modalidades de Futebol e Futsal. É de denotar que dado o pequeno tamanho da amostra do sexo feminino da modalidade de futsal (n = 10), estas atletas apenas foram consideradas para a estatística descritiva, como apresentado na Tabela 1, não tendo sido consideradas para a estatística inferencial.
Tabela 1. Caracterização da amostra por sexo, modalidade e percentagem.
| Modalidade | Amostra | Percentagem (%) | |
|---|---|---|---|
| Rapazes | Ambas | 187 | 82,03 |
| Raparigas | Ambas | 30 | 17,97 |
| Rapazes | Futsal | 46 | 21,20 |
| Raparigas | Futsal | 9 | 4,15 |
| Rapazes | Futebol | 132 | 60,83 |
| Raparigas | Futebol | 30 | 13,82 |
A média de peso e altura de ambas as modalidades são semelhantes, não existindo uma grande discrepância tal como podemos observar na Tabela 2.
Tabela 2. Apresentação da estatística descritiva, média e desvio padrão, das variáveis de peso e altura por modalidade e sexo.
|
|
|
|
|---|---|---|
| Futsal (masculino) | 47,75 ± 15,31 | 1,53 ± 0,16 |
| Futebol (total) | 44,07 ± 11,65 | 1,54 ± 0,14 |
| Futebol (masculino) | 44,08 ± 11,66 | 1,54 ± 0,14 |
| Futebol (feminino) | 46,71 ± 12,58 | 1,51 ± 0,11 |
| Nota: | ||
DP: desvio-padrão.
Relativamente à modalidade de futebol, comparando ambos os sexos em relação aos percentis de competência motora, variáveis de composição corporal, número de lesões e resultados relativos ao questionário IMR, tal como podemos observar na Tabela 3, verificou-se que os rapazes pesam significativamente menos que as raparigas e apresentam valores de percentil do teste shuttle run significativamente inferiores.
Tabela 3. Comparação das variáveis: altura, saltos laterais, plataformas, saltos horizontais, shuttle run, horas de sono e lesões em função do sexo na modalidade de futebol.
|
|
|
Valor p | |
|---|---|---|---|
| Peso (kg) | 46,71 ± 12,58 | 44,08 ± 11,66 | < 0,001*** |
| Altura (m) | 1,51 ± 0,11 | 1,54 ± 0,15 | 0,509 |
| Saltos Laterais (pc) | 74,67 ± 18,55 | 89,29 ± 20,35 | 0,678 |
| Plataformas (pc) | 30,66 ± 23,46 | 34,34 ± 28,10 | 0,509 |
| Saltos Horizontais (pc) | 80,85 ± 20,01 | 78,68 ± 26,65 | 0,678 |
| Shuttle Run (pc) | 88,13 ± 13,36 | 76,16 ± 24,13 | 0,010** |
| Horas de Sono # | 1,57 ± 0,77 | 1,27 ± 0,69 | 0,083 |
| Lesões 2023 (n.º) | 0,27 ± 0,64 | 0,29 ± 0,55 | 0,873 |
DP: desvio-padrão; pc: percentil; # Horas de sono: 8h-9h: 1, 10h ou mais: 2, 6h-7h: 3, 4h-5h: 4; ***diferença significativa com p ≤ 0,001; **diferença significativa com p ≤ 0,01.
Em relação à comparação entre as modalidades de futebol e futsal no sexo masculino, verificou-se que os jogadores de futsal apresentam valores médios superiores no peso e na altura, embora estas diferenças não sejam estatisticamente significativas, tal como apresentado na Tabela 4. Não obstante, os jogadores de futebol destacaram-se com valores significativamente superiores nos percentis dos saltos laterais e shuttle run. Adicionalmente, verificou-se que os jogadores de futsal relataram mais horas de sono, com uma tendência significativa e apresentaram um número significativamente menor de lesões em 2023.
Tabela 4. Comparação das variáveis: altura, saltos laterais, plataformas, saltos horizontais, shuttle run, horas de sono e lesões em função da modalidade para o sexo masculino.
|
|
|
Valor p | |
|---|---|---|---|
| Peso (kg) | 44,08 ± 11,66 | 47,76 ± 15,31 | 0,212 |
| Altura (m) | 1,54 ± 0,15 | 1,54 ± 0,16 | 0,766 |
| Saltos Laterais (pc) | 89,29 ± 20,35 | 53,84 ± 24,19 | < 0,001*** |
| Plataformas (pc) | 34,34 ± 28,10 | 38,24 ± 25,89 | 0,372 |
| Saltos Horizontais (pc) | 78,68 ± 26,65 | 51,29 ± 29,10 | < 0,001*** |
| Atirar (pc) | 100 ± 0,00 | 100 ± 0,00 | < 0,319 |
| Pontapear (pc) | 100 ± 0,00 | 100 ± 0,00 | < 0,621 |
| Shuttle Run (pc) | 76,16 ± 24,13 | 45,35 ± 29,99 | < 0,001*** |
| Horas de Sono # | 1,27 ± 0,69 | 1,60 ± 0,96 | 0,054 |
| Lesões 2023 (n.º) | 0,29 ± 0,55 | 0,06 ± 0,25 | 0,014* |
DP: desvio-padrão; pc: percentil; # Horas de sono: 8h-9h: 1, 10h ou mais: 2, 6h-7h: 3, 4h-5h: 4; ***diferença significativa com p ≤ 0,001; *diferença significativa com p ≤ 0,05.
As relações entre variáveis físicas, psicológicas e de competência motora em atletas de futebol feminino foram exploradas e encontram-se apresentadas na Tabela 5. Verifica-se que as variáveis antropométricas, como peso e altura, apresentam relações relevantes com indicadores de competência motora, nomeadamente os percentis dos saltos laterais e shuttle run. No entanto, variáveis psicológicas, como a motivação, estão associadas de forma pouco expressiva a fatores de competência motora.
Tabela 5. Apresentação da correlação das variáveis: peso, altura, saltos laterais, plataformas, percentil do teste shuttle run, horas de sono, lesões, motivação, habilidade mental, coesão de equipa, controlo do stress e influência da avaliação no rendimento nas atletas de futebol feminino.
| P | A | SL | PL | SH | SR | HS | L | MOT | HM | CE | CS | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | r = 0,737, p = 0,001 | |||||||||||
| SL | r = -0,204, p = 0,288 | r = -0,343, p = 0,068 | ||||||||||
| PL | r = -0,057, p = 0,77 | r = -0,174, p = 0,367 | r = 0,243, p = 0,195 | |||||||||
| SH | r = -0,047, p = 0,807 | r = 0,068, p = 0,726 | r = 0,309, p = 0,096 | r = 0,063, p = 0,739 | ||||||||
| SR | r = -0,545, p = 0,002 | r = -0,282, p = 0,139 | r = 0,176, p = 0,353 | r = 0,135, p = 0,477 | r = 0,409, p = 0,025 | |||||||
| HS | r = 0,305, p = 0,108 | r = 0,346, p = 0,066 | r = -0,235, p = 0,212 | r = -0,013, p = 0,946 | r = -0,105, p = 0,586 | r = -0,064, p = 0,736 | ||||||
| L | r = 0,305, p = 0,108 | r = 0,346, p = 0,066 | r = -0,235, p = 0,212 | r = -0,013, p = 0,946 | r = -0,105,p = 0,586 | r = -0,064, p = 0,736 | r = 0,306, p = 0,115 | |||||
| MOT | r = 0,167, p = 0,396 | r = 0,316, p = 0,102 | r = 0,193, p = 0,317 | r = -0,105, p = 0,586 | r = 0,450, p = 0,014 | r = 0,224, p = 0,244 | r = -0,057, p = 0,75 | r = -0,057, p = 0,75 | ||||
| HM | r = 0,291, p = 0,133 | r = 0,204, p = 0,297 | r = 0,067, p = 0,73 | r = 0,004, p = 0,983 | r = 0,204,p = 0,287 | r = -0,053, p = 0,787 | r = 0,232, p = 0,251 | r = 0,232, p = 0,251 | r = 0,232, p = 0,251 | |||
| CE | r = 0,288, p = 0,138 | r = 0,248, p = 0,203 | r = 0,107, p = 0,579 | r = -0,162, p = 0,401 | r = 0,001, p = 0,998 | r = -0,023, p = 0,905 | r = 0,019, p = 0,9 | r = 0,019, p = 0,9 | r = 0,019, p = 0,9 | r = -0,073, p = 0,715 | ||
| CS | r = -0,224, p = 0,253 | r = 0,039, p = 0,846 | r = -0,048, p = 0,803 | r = 0,073, p = 0,706 | r = 0,494, p = 0,006 | r = 0,288, p = 0,13 | r = 0,194, p = 0,314 | r = 0,194, p = 0,314 | r = 0,194, p = 0,314 | r = -0,132, p = 0,495 | r = 0,204, p = 0,301 | |
| IAR | r = -0,174, p = 0,376 | r = -0,130, p = 0,509 | r = -0,071, p = 0,715 | r = 0,122, p = 0,53 | r = 0,294, p = 0,121 | r = 0,149, p = 0,441 | r = -0,145, p = 0,463 | r = -0,145, p = 0,463 | r = -0,145, p = 0,463 | r = 0,146, p = 0,457 | r = -0,192, p = 0,329 | r = 0,194, p = 0,31 |
P: peso; A: altura; SL: saltos laterais; PL: plataformas; SH: saltos horizontais; SR: shuttle run; HS: horas de sono; L: lesões; MOT: motivação; HM: habilidade mental; CE: coesão de equipa; CS: controlo do stresS; IAR: influência da avaliação do rendimento.
A relação entre fatores psicológicos e a incidência de lesões foi explorada não tendo sido identificadas correlações significativas entre a incidência de lesões e as variáveis motivação, habilidade mental, coesão de equipa, controlo do stress e influência da avaliação no rendimento, tal como apresentado na Tabela 6. Adicionalmente, observam-se associações relevantes entre as medidas antropométricas, como peso e altura, e o desempenho em determinados testes de competência motora.
Tabela 6. Correlação das variáveis: peso, altura, saltos laterais, plataformas, shuttle run, horas de sono, lesões, motivação, habilidade mental, coesão de equipa, controlo do stress e influência da avaliação no rendimento nas atletas de futebol masculino.
| P | A | SL | PL | SH | SR | HS | L | MOT | HM | CE | CS | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | r = 0,874 p = 0,001 | |||||||||||
| SL | r = 0,327 p = 0,004 | r = 0,361 p = 0,001 | ||||||||||
| PL | r = -0,126 p = 0,280 | r = -0,027 p = 0,817 | r = 0,299 p = 0,001 | |||||||||
| SH | r = 0,132 p = 0,256 | r = 0,298 p = 0,009 | r = 0,508 p = < 0,001 | r = 0,275 p = 0,002 | ||||||||
| SR | r = 0,091 p = 0,432 | r = 0,124 p = 0,285 | r = 0,421 p = 0,001 | r = 0,252 p = 0,005 | r = 0,494 p = 0,001 | |||||||
| HS | r = -0,114 p = 0,622 | r = -0,052 p = 0,823 | r = 0,183 p = 0,252 | r = 0,291 p = 0,065 | r = 0,134 p = 0,402 | r = 0,242 p = 0,127 | ||||||
| L | r = 0,355 p = 0,114 | r = 0,446 p = 0,043 | r = 0,176 p = 0,272 | r = -0,120 p = 0,454 | r = 0,245 p = 0,123 | r = -0,051 p = 0,753 | r = 0,074 p = 0,702 | |||||
| MOT | r = 0,183 p = 0,428 | r = 0,112 p = 0,630 | r = 0,176 p = 0,272 | r = 0,033 p = 0,840 | r = 0,018 p = 0,909 | r = 0,111 p = 0,488 | r = 0,298 p = 0,117 | r = 0,061 p = 0,754 | ||||
| HM | r = 0,043 p = 0,852 | r = -0,022 p = 0,924 | r = -0,160 p = 0,316 | r = 0,223 p = 0,162 | r = -0,230 p = 0,149 | r = -0,017 p = 0,917 | r = -0,172 p = 0,259 | r = -0,355 p = 0,018 | r = 0,037 p = 0,810 | |||
| CE | r = 0,023 p = 0,921 | r = -0,015 p = 0,950 | r = -0,188 p = 0,238 | r = -0,162 p = 0,401 | r = -0,236 p = 0,137 | r = -0,064 p = 0,689 | r = -0,020 p = 0,895 | r = -0,387 p = 0,009 | r = -0,020 p = 0,895 | r = 0,449 p = 0,002 | ||
| CS | r = -0,016 np = 0,946 | r = -0,089 p = 0,701 | r = -0,005 p = 0,974 | r = 0,073 p = 0,706 | r = -0,086 p = 0,594 | r = -0,208 p = 0,191 | r = -0,071 p = 0,646 | r = -0,366 p = 0,014 | r = -0,071 p = 0,646 | r = 0,375 p = 0,011 | r = 0,406 p = 0,006 | |
| IAR | r = 0,161 p = 0,486 | r = 0,156 p = 0,500 | r = 0,176 p = 0,272 | r = -0,120 p = 0,454 | r = 0,199 p = 0,213 | r = -0,064 p = 0,689 | r = -0,192 p = 0,211 | r = -0,172 p = 0,264 | r = 0,034 p = 0,835 | r = 0,469 p = 0,001 | r = 0,384 p = 0,009 | r = 0,648 p = 0,001 |
P: peso; A: altura; SL: saltos laterais; PL: plataformas; SH: saltos horizontais; SR: shuttle run; HS: horas de sono; L: lesões; MOT: motivação; HM: habilidade mental; CE: coesão de equipa; CS: controlo do stresS; IAR: influência da avaliação do rendimento.
Por fim, destaca-se a centralidade das características psicológicas nas correlações observadas em atletas de futsal masculino, tendo estas uma boa correlação entre si, como se observa na Tabela 7. Um facto interessante nesta tabela é que existe uma relação relevante para a variável “habilidade mental” e a variável “peso”.
Tabela 7. Correlação das variáveis: peso, altura, saltos laterais, plataformas, shuttle run, horas de sono, lesões, motivação, habilidade mental, coesão de equipa, controlo do stress e influência da avaliação no rendimento nas atletas de futsal masculino.
| P | A | SL | PL | SH | SR | HS | L | MOT | HM | CE | CS | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A | r = 0,872 p = 0,001 | |||||||||||
| SL | r = 0,018 p = 0,920 | r = -0,069 p = 0,692 | ||||||||||
| PL | r = -0,087 p = 0,619 | r = 0,008 p = 0,964 | r = 0,272 p = 0,046 | |||||||||
| SH | r = 0,068 p = 0,696 | r = 0,185 p = 0,286 | r = 0,116 p = 0,403 | r = 0,440 p = 0,001 | ||||||||
| SR | r = -0,382 p = 0,023 | r = -0,367 p = 0,030 | r = 0,039 p = 0,781 | r = 0,165 p = 0,234 | r = 0,444 p = 0,001 | |||||||
| HS | r = -0,070 p = 0,698 | r = 0,067 p = 0,709 | r = -0,229 p = 0,122 | r = 0,041 p = 0,784 | r = 0,054 p = 0,720 | r = 0,012 p = 0,936 | ||||||
| L | r = 0,138 p = 0,442 | r = 0,182 p = 0,311 | r = 0,136 p = 0,362 | r = -0,046 p = 0,758 | r = 0,055 p = 0,711 | r = -0,282 p = 0,055 | r = 0,017 p = 0,909 | |||||
| MOT | r = 0,020 p = 0,914 | r = 0,090 p = 0,617 | r = 0,073 p = 0,627 | r = -0,165 p = 0,266 | r = -0,013 p = 0,933 | r = -0,026 p = 0,863 | r = 0,047 p = 0,749 | r = 0,148 p = 0,317 | ||||
| HM | r = 0,319 p = 0,070 | r = 0,304 p = 0,086 | r = 0,037 p = 0,805 | r = -0,003 p = 0,983 | r = 0,054 p = 0,716 | r = 0,148 p = 0,321 | r = -0,077 p = 0,605 | r = 0,051 p = 0,733 | r = 0,535 p = 0,000 | |||
| CE | r = 0,072 p = 0,689 | r = 0,173 p = 0,335 | r = 0,043 p = 0,775 | r = 0,117 p = 0,433 | r = 0,104 p = 0,488 | r = -0,022 p = 0,883 | r = -0,109 p = 0,462 | r = 0,156 p = 0,288 | r = 0,465 p = 0,001 | r = 0,331 p = 0,021 | ||
| CS | r = -0,049 p = 0,789 | r = 0,062 p = 0,733 | r = 0,230 p = 0,120 | r = 0,090 p = 0,549 | r = 0,085 p = 0,569 | r = 0,203 p = 0,170 | r = -0,019 p = 0,899 | r = 0,036 p = 0,806 | r = 0,442 p = 0,002 | r = 0,359 p = 0,012 | r = 0,554 p = 0,000 | |
| IAR | r = -0,079 p = 0,662 | r = 0,032 p = 0,859 | r = 0,006 p = 0,968 | r = 0,251 p = 0,089 | r = 0,212 p = 0,152 | r = 0,050 p = 0,740 | r = 0,100 p = 0,499 | r = 0,071 p = 0,630 | r = 0,110 p = 0,458 | r = 0,107 p = 0,469 | r = 0,431 p = 0,002 | r = 0,558 p = 0,000 |
P: peso; A: altura; SL: saltos laterais; PL: plataformas; SH: saltos horizontais; SR: shuttle run; HS: horas de sono; L: lesões; MOT: motivação; HM: habilidade mental; CE: coesão de equipa; CS: controlo do stresS; IAR: influência da avaliação do rendimento.
DISCUSSÃO
O propósito deste estudo consistiu em comparar e relacionar a competência motora, a composição corporal, as características psicológicas e o risco de lesão em atletas em formação de futebol e futsal, através de uma análise transversal.
Com base nos dados apresentados na Tabela 2, os atletas de futsal masculino registaram a maior média de peso entre os grupos analisados. As atletas de futebol feminino, por sua vez, apresentaram uma média de peso ligeiramente inferior. Estes resultados alinham-se com a literatura científica anterior, a qual indica que os atletas do sexo masculino tendem a apresentar um peso corporal superior ao das atletas do sexo feminino (Bartolomei et al., 2021; Brandner et al., 2022). Quanto à altura, os atletas de futebol masculino foram classificados com os mais altos, seguidos pelos jogadores de futsal masculino. Apesar da mínima diferença em 1 cm que resulta numa ausência de significância estatística, estes resultados médios corroboram alguns estudos anteriores que indicam que os jogadores de futebol tem tendência a ser ligeiramente mais altos que os atletas de futsal (Burdukiewicz et al., 2014; Karimi et al., 2015).
As atletas femininas apresentaram uma média significativamente superior no percentil do teste de Shuttle Run em comparação com os atletas masculinos. Embora este resultado contrarie a literatura predominante, que aponta para uma maior aptidão física em atletas do sexo masculino (Galán-Arroyo et al., 2023; Ružbarský et al., 2022; Zhang et al., 2021), há um estudo que sustenta uma perspetiva diferente. Após a aplicação de um programa de aptidão física durante três anos implementado no período pós-escolar, verificou-se que as raparigas apresentaram um desempenho superior ao dos rapazes em testes de resistência (Messiah et al., 2018). Estes resultados sugerem que, em contextos específicos e mediante intervenções adequadas, as diferenças de sexo na aptidão física podem ser atenuadas ou mesmo invertidas. Todavia, é relevante salientar que a presente amostra teve um número muito superior de atletas masculinos do que femininas, o que também pode ter influenciado os resultados.
Os resultados dos testes de competência motora: atirar e pontapear, mostraram percentis máximos constantes (100,00 ± 0,00) em ambas as modalidades, o que é pouco comum, especialmente em estudos com crianças ou outras populações especiais (Rodrigues et al., 2019). No entanto, estes resultados podem ser explicados pelo contexto específico do futebol e do futsal, modalidades em que a manipulação de bola, seja através de chutos ou lançamentos, constitui uma habilidade central no desenvolvimento técnico dos atletas (Hunter et al., 2021; Sekulic et al., 2021). A especificidade da amostra, composta por praticantes destas modalidades, tende a refletir um nível de proficiência mais avançado em habilidades motoras específicas em comparação com populações gerais (Sekulic et al., 2021; Slimani & Nikolaidis, 2018).
Os jogadores de futebol (sexo feminino e masculino) apresentaram um desempenho significativamente superior nos saltos laterais quando comparados aos jogadores de futsal (sexo masculino), conforme a Tabela 4. Esta diferença reflete uma vantagem considerável dos jogadores de futebol nesta habilidade motora específica, o que pode ser explicado por fatores inerentes às exigências das duas modalidades. No futebol, os deslocamentos laterais são amplamente utilizados em situações defensivas, como na marcação de adversários e no acompanhamento de jogadas, bem como em ações ofensivas, como ultrapassagens rápidas e dribles (Angelino et al., 2018; Zouhal et al., 2018). Além disso, a necessidade de cobrir áreas maiores do campo de jogo implica que os atletas sejam constantemente desafiados a realizar deslocamentos laterais rápidos e eficientes (Akpinar, 2022; Wylie et al., 2019; Zouhal et al., 2018). Por outro lado, no futsal, embora os deslocamentos laterais também sejam importantes, as dimensões reduzidas do campo e a maior frequência de ações de curta distância podem favorecer outras capacidades motoras, como aceleração e agilidade em espaços reduzidos (Gomes et al., 2024; Lima et al., 2024).
Ainda analisando as diferenças entre modalidades, os resultados evidenciaram uma diferença significativa na incidência de lesões reportadas entre as modalidades de futebol e futsal, como demonstrado na Tabela 4. Em média, os jogadores de futebol relataram mais lesões em 2023 em comparação aos jogadores de futsal. Verifica-se assim um maior risco de lesões associado à prática do futebol em relação ao futsal. Embora a amostra de atletas de futebol seja maior do que a de futsal, o que induz alguma variação, este resultado está alinhado com a literatura existente que destacam o futebol como uma das modalidades desportivas com maior suscetibilidade a lesões (Agel et al., 2016; Hammer et al., 2020; Pizzarro et al., 2024; Prieto-González et al., 2021; Yaghobi & Goodarzi, 2015).
No futebol feminino, o peso apresentou uma correlação significativa forte com o percentil do teste de competência motora Shuttle Run, como se pode observar na Tabela 5. Este resultado indica que uma maior massa corporal está associada a um desempenho inferior em testes de agilidade e velocidade, como o Shuttle Run. Estes resultados estão em consonância com estudos anteriores que evidenciam que a maior massa corporal tende a prejudicar a performance em habilidades que requeiram rápidas mudanças de velocidade e ou direção (Arnason et al., 2004; Wong et al., 2009). Inclusivamente, a massa, a par da menor distância vertical do centro de gravidade ao solo e da maior base de sustentação e é um dos fatores que contribui para maior equilíbrio, sendo necessário aplicar mais força para alterar o estado de um corpo com maior massa (Hall, 2019). Curiosamente, esta associação não se revelou ser significativa para a modalidade de futsal. Apesar de ambas as modalidades primarem pelas rápidas mudanças de velocidade e direção, estes aspetos são especialmente importantes no futsal, modalidade em que o campo é muito mais reduzido o que torna o jogo mais rápido, caracterizados por esforços intermitentes de curta duração (Barbero-Alvarez et al., 2008; Ramos-Campo et al., 2016). Os atletas de futsal podem assim estar mais adaptados a este tipo de habilidades e esforços de curta duração, pelo que no teste de Shuttle Run, o impacto da massa corporal possa não se revelar significativo (Oppici et al., 2018).
Já no futsal, a altura apresentou uma correlação significativa moderada e negativa novamente com o percentil do teste de Shuttle Run, sugerindo que uma altura mais elevada pode influenciar desfavoravelmente a performance em testes de agilidade. Vale a pena denotar que a altura vertical do centro de gravidade ao solo é um dos fatores de contribuem para um maior equilíbrio, sendo que quanto menor for esta altura, maior será a capacidade de equilíbrio (Hall, 2019).
No futebol feminino, apenas se verificou uma correlação negativa significativa entre o peso e o percentil do Shuttle Run. Já no futebol masculino, foram identificadas algumas correlações positivas, como o peso com os saltos laterais, a altura com os saltos laterais e a altura com os saltos horizontais. Os resultados evidenciam assim que as variáveis de composição corporal e competência motor apresentam algumas relações, podendo as mesmas diferir mediante a especialidade da modalidade.
Analisando a relação entre a competência motora e as características psicológicas, os resultados indicaram uma ausência generalizada de correlações significativas, exceto no futebol feminino, onde o percentil dos saltos horizontais apresentou associações positivas com a motivação e o controlo do stress. Estes resultados sugerem que a relação entre a competência motora e características psicológicas depende do contexto da modalidade e do grupo analisado, podendo inclusivamente não se verificar correlação significativa em crianças/jovens, tal como verificado em literatura anterior (Reda & Al-Jubouri, 2022).
Relativamente à relação entre as características psicológicas e a incidência de lesões, ao contrário do esperado, não se verificaram associações positivas em nenhuma das modalidades. Isto sugere que, nesta amostra, as variáveis psicológicas como motivação, habilidade mental, coesão de equipa, controlo do stress e influência da avaliação do rendimento, não demonstraram uma relação direta com o número de lesões reportadas. A literatura anterior tem evidenciado de forma consistente a relação entre as características psicológicas e a incidência de lesões nestas modalidades (Mendes et al., 2022; Scharfen & Memmert, 2019). A ausência desta relação na amostra em estudo pode advir de vários fatores tais como a realização de preparação física específica destes atletas com a finalidade de prevenção de lesões, a existência de uma equipa de fisioterapia e recuperação física em permanência, a incorporação na equipa técnica exclusivamente de técnicos com formação superior mais sensíveis aos riscos de lesão, o menor volume de treino semanal, a menor quantidade de jogos ou jogos em contextos menos competitivos. Os estudos futuros que objetivem investigar a associação entre as características psicológicas e a incidência de lesões deverão considerar uma análise mais completa e holística dos vários fatores que podem moderar esta associação.
Analisando a influência das dimensões das características psicológicas entre si, verificou-se uma correlação positiva forte entre motivação e habilidade mental no futsal, corroborando estudos que indicam que atletas mais motivados tendem a demonstrar maior capacidade de concentração e resiliência em contextos competitivos (Shanmugaratnam et al., 2024; Yu et al., 2024). A coesão de equipa apresentou uma correlação positiva forte com o controlo do stress. Este resultado reflete a importância do suporte social e do trabalho em equipa na gestão de pressões psicológicas (Delfin et al., 2023; Fogaça, 2019; Sullivan et al., 2022).
Por fim, não se verificaram correlações significativas entre horas de sono e competência motora nas duas modalidades. Esta ausência de correlação diverge da maioria das evidências na literatura, que frequentemente apontam uma relação positiva entre o sono adequado e o desempenho motor (Coel et al., 2022; Kirschen et al., 2018). Para entender esse desfecho, é importante considerar um fator importante: os atletas das modalidades de futebol e futsal podem apresentar uma grande variabilidade na qualidade do sono, mesmo que as horas totais reportadas não difiram substancialmente (Nédélec et al., 2019; Whitworth-Turner et al., 2018). Estudos sugerem que a qualidade do sono (e.g., ciclos de sono profundo e sono com movimento rápido dos olhos) desempenha um papel mais relevante na recuperação e na performance física do que as horas totais de sono relatadas (Charest & Grandner, 2020; Nakagi et al., 2024; Nelson et al., 2021).
Limitações e recomendações para futuros estudos
A diversidade de atletas dentro de cada modalidade constitui uma das limitações do presente estudo. Adicionalmente, a não realização de análises considerando o nível de experiência, a idade e o contexto competitivo dos atletas pode ter restringido a identificação de diferenças e associações significativas. Embora o estudo tenha incluído 217 jovens atletas de dois clubes desportivos, a amostra pode não ser representativa de todos os jovens atletas de futebol e futsal em Portugal, pelo que o seu tamanho representa um ameaça externa ao estudo que limita a generalização dos resultados para toda a população. Além disso, o facto de existir maior número de atletas do sexo masculino avaliados em comparação com o número de atletas do sexo feminino também sugere cuidado na interpretação de resultados. Esta situação tem ainda maior enfâse na modalidade de futsal, uma vez que apenas 45 atletas do sexo masculino e 10 do sexo feminino foram avaliados.
A ausência de avaliação da maturação dos atletas, bem como o controlo menstrual das atletas feminina representam outras limitações internas ao estudo. A maturação biológica pode influenciar significativamente a competência motora, a composição corporal e o risco de lesões, especialmente em jovens atletas (Radnor et al., 2021). O ciclo menstrual também pode variar de pessoa para pessoa nas suas relações com o desempenho físico (Rocha-Rodrigues et al., 2021). Futuramente, recomenda-se a inclusão de medidas de maturação e de controlo do ciclo menstrual de forma a fornecer uma compreensão mais detalhada e profunda das variáveis estudadas.
Adicionalmente, fatores externos como o ambiente de treino e a intensidade das sessões de preparação física, podem ter influenciado o desempenho e as respostas dos atletas, não tendo sido plenamente controlados. Sugere-se tal controlo e análise em futuros estudos.
Por fim, variáveis como as horas de sono, obtidas através de autorrelato, podem estar sujeitas a viés de resposta por parte dos atletas, comprometendo parcialmente a precisão dos dados recolhidos. Estas limitações reforçam a necessidade de interpretar os resultados com consideração e de alertar estudos futuros que abordem estas questões de forma mais aprofundada.
CONCLUSÃO
Este estudo permitiu identificar diferenças relevantes entre as modalidades de futebol e futsal, bem como entre os sexos, relativamente à composição corporal, competência motora, características psicológicas e incidência de lesões.
Relativamente à comparação entre modalidades, verificou-se melhor competência motora nos percentis dos saltos laterais, saltos horizontais e shuttle run. Também se verificou que os atletas de futebol apresentaram uma maior incidência em comparação com os atletas de futsal.
Quanto à análise correlacional, relativamente à competência motora, no futebol feminino, o peso mostrou uma correlação significativa e negativa com o desempenho no teste de Shuttle Run, reforçando a influência da composição corporal em tarefas que requerem rápidas mudanças de direção e velocidade. No futsal, a altura demonstrou uma relação significativa e negativa com o mesmo teste, sugerindo que o centro de gravidade desempenha um papel importante no equilíbrio e na agilidade. Estas diferenças evidenciam as especificidades de cada modalidade, nomeadamente as exigências do futebol em espaços amplos e do futsal em ambientes reduzidos e de alta intensidade.
Por outro lado, as características psicológicas mostraram, de forma geral, uma relação limitada com a competência motora. Apenas no futebol feminino foram observadas associações positivas entre os saltos horizontais e a motivação, bem como entre os saltos horizontais e o controlo do stress. Estes resultados indicam que as relações entre variáveis psicológicas e motoras são contextuais e podem ser influenciadas pelas exigências específicas de cada modalidade.
Na presente amostra, foi identificada uma relação significativa entre a composição corporal e a competência motora, com os atletas que possuem uma melhor composição corporal a alcançarem percentis superiores de competência motora. No entanto, não se observou qualquer relação entre a competência motora e as características psicológicas. Importa salientar que estes resultados refletem exclusivamente as especificidades desta amostra, podendo estudos futuros revelar resultados distintos.














