É com particular agrado que apresentamos este novo número da revista Laboreal. Mantendo a estrutura que a tem caracterizado, o Dossier temático assume um espaço primordial ao reunir, desta vez, várias contribuições centradas na problemática da qualidade de vida no trabalho - uma preocupação presente, também, nos artigos da secção O trabalho e suas histórias, isto é, nas suas rubricas Textos Históricos e Datário.
1. A propósito do dossier: a noção de qualidade de vida no trabalho em debate
A noção de qualidade de vida no trabalho integra, pois, os fundamentos das nossas disciplinas e do projeto da Laboreal: a penosidade do trabalho nunca poderá ser considerada como uma inevitabilidade intangível e qualquer situação que ponha em causa a saúde de quem trabalha exige uma busca de alternativas.
Todavia, nos últimos tempos, tem sido atribuído à noção um estatuto de qualificação global de intervenções multidimensionais, tidas como sistémicas. Abarcando, deste modo, uma larga variedade de projetos de intervenção, quer a nível organizacional quer na gestão dos recursos humanos ou, ainda, na vigilância das questões de saúde e segurança no trabalho. O acrónimo QVT acabou por simbolizar as ações desenvolvidas nesse amplo quadro, promovendo simultaneamente o seu sucesso.
Daí que os parceiros sociais tenham acordado em alguns países obrigar-se a tratar tal questão nas respetivas negociações a nível da empresa ou/e coletivas.
A França é referida, muitas vezes, como um país onde cedo os parceiros sociais adotaram tal posição. Tornou-se por isso um caso interessante nesta matéria, tanto pelas opções definidas como pelas análises suscitadas.
Através do Accord national interprofessionnel, assinado em 19 de junho de 2013, pelas organizações patronais e sindicais mais representativas a nível nacional, estabeleceram um quadro negocial relativo à melhoria da qualidade de vida no trabalho e da igualdade profissional. Posteriormente, em abril de 2014, o governo da época tornou obrigatório o conteúdo de tal Accord, independentemente da adesão das outras organizações dos parceiros sociais e dos sectores de atividade.A
As expetativas, infelizmente, transformaram-se rapidamente em desilusões. Os primeiros balanços, nomeadamente os realizados pela ANACT (Agence Nationale pour l’Amélioration des Conditions de travail: https://www.anact.fr/qualite-de-vie-au-travail-et-egalite-professionnelle-quels-effets-de-laccord-national), cedo revelaram que, nos acordos concluídos neste novo quadro, a questão da organização do trabalho e do conteúdo da atividade apareciam muito pouco, assim como as matérias concernentes à saúde no trabalho (prevenção dos riscos profissionais, riscos psicossociais, perturbações músculo-esqueléticas, etc.). Além de, também constatarem a ausência de uma autêntica perspetiva de prevenção primária que deveria atuar a montante das situações para se poder intervir na origem dos problemas diagnosticados. Na verdade, nesses acordos, dominavam as preocupações de implementação de medidas adaptativas, corretivas ou curativas.
Entretanto, verificaram-se reformulações, até uma mudança da sigla, passando a QVCT a partir de 2021, tendo sido inserido o ‘C’ para tornar mais evidente a preocupação com a qualidade das condições de trabalho. Porém, como recentemente sublinhou Franck Héas, “as negociações empresariais sobre a QVCT continuam a ser muito heterogéneas, um “albergue espanhol” (…) confirmando-se também a abordagem predominantemente sanitária e a dimensão comportamentalista de muitos dos acordos de QVCT” (Héas, 2024, p. 115, tradução livre). Uma tendência forte que não deixou de suscitar preocupações, pois, “a prevalência da individualização no domínio da QVCT é igualmente suscetível de reforçar a responsabilização dos trabalhadores (…), passando a saúde das pessoas em causa a ser uma questão de saúde das pessoas no trabalho e menos uma questão de organização do trabalho e de gestão da empresa” (Héas, 2024, p. 116, tradução livre).
Obviamente, as controvérsias foram muitas. E as que caracterizaram o caso francês vão ao encontro dos debates que tiveram lugar noutros países, não só europeus. Porque o contexto das nossas sociedades não deixa de ser preocupante, especialmente no plano da evolução do trabalho, do emprego e das condições em que são desempenhadas as atividades profissionais. Os grandes inquéritos à nível europeu (ver particularmente: https://www.eurofound.europa.eu/pt/surveys/inquerito-europeu-sobre-condicoes-de-trabalho-iect) evidenciam que as(os) trabalhadoras(es) asseguram as suas funções sob uma pressão temporal crescente numa conjuntura de desresponsabilização progressiva da entidade empregadora na gestão das questões de saúde no trabalho.
Num momento marcado por uma multiplicidade de novos desafios, com a propagação do trabalho híbrido, o recurso à IA, a banalização da precariedade do emprego e os alertas a propósito das evoluções da saúde mental (https://www.eurofound.europa.eu/en/publications/2025/quality-life-eu-2024-results-living-and-working-eu-e-survey), este debate revela-se de uma grande pertinência e poderá impulsionar novas investigações e projetos de intervenções que coloquem com seriedade os objetivos de uma QVCT no centro das preocupações. A paleta dos objetos de estudo é forçosamente larga, pois a problemática é, à partida, “multidimensional, envolvendo os trabalhadores e a empresa, o individual e o coletivo, considerando os quadros profissionais e o desempenho económico, apreendendo a vida pessoal e profissional, a psique e o físico, integrando a organização do trabalho e a saúde” (Héas, 2024, p. 112, tradução livre). Mas certo é que o campo fica já lavrado e os artigos deste dossier completam e enriquecem a reflexão.
2. Os contributos do Dossier
Seis artigos integram este Dossier, apresentando, a partir de quadros teóricos e metodológicos diversos, pesquisas e reflexões que irão sem dúvida contribuir de forma construtiva para o aprofundamento do debate, abrindo o campo dos possíveis nesta matéria com a perspetiva de investigações e projetos de intervenção inovadores.
Seis artigos - dois de cariz mais teórico e quatro que nos relatam pesquisas empíricas, todos atravessados pela mesma vontade de reafirmar a importância de abordagens críticas, participativas e transdisciplinares.
Seis artigos que contribuem, desta forma, para uma área de conhecimento dinamizada pelas polémicas que suscitou, recusando soluções simplistas e colocando no centro da análise a experiência concreta das(os) trabalhadoras(es) e o potencial transformador da ação coletiva.
2.1. As reflexões conceituais
Abrimos o Dossier com um artigo de Marcello Rezende & Leticia Masson que se situa na continuidade do debate referido neste Editorial. Todavia, vão mais longe numa análise que ancora a problemática no Brasil. Questionam, pois, a noção de QVT numa genealogia crítica do campo de intervenção pretendido, explorando as suas articulações com o campo da Promoção da Saúde e da Saúde do Trabalhador - e as confusões criadas. Destacam então os riscos de uma abordagem reducionista, de uma visão restrita da promoção da saúde, desvinculada dos pressupostos epistemológicos e políticos que historicamente sustentaram o campo designado no Brasil e em vários países da América Latina como o da Saúde do Trabalhador.
O artigo de Sabrina Rouat & Yves Clot, por sua vez, propõe uma análise da ação no domínio da saúde no trabalho a partir de duas perspetivas distintas: uma que procura “afetar os atores” para que modifiquem a organização, e outra que visa “afetar a organização” de forma a transformar a experiência dos atores. Esta dualidade leva-os a discutir o papel do psicólogo do trabalho na construção de alianças capazes de promover mudanças organizacionais sustentáveis. A reflexão aqui proposta interroga os limites e as potencialidades da intervenção psicológica no campo da QVT.
2.2. Os pesquisadores em ação
Os referenciais empíricos aqui apresentados iniciam-se com o artigo de Akin Reis, Daeana Bourscheid e Elka Lima Hostensky, que refere o seu trabalho de campo no âmbito de uma análise da implementação de um comité de QVT numa instituição pública de ensino superior no Brasil. Recorrendo às metodologias de observação-participante e pesquisa-intervenção, ancoradas na Ergonomia da atividade, evidenciam os desafios, tensões e aprendizagens envolvidas na constituição de grupos operativos em QVT. Aqui, o fortalecimento do coletivo e a apropriação crítica do conceito de QVT surgem como dimensões fundamentais para a consolidação de políticas institucionais efetivas neste domínio.
Evelyn Schulz e Catarina Silva, investigaram os efeitos da pandemia de COVID-19 sobre a saúde mental de docentes do ensino superior no Brasil, destacando a elevada prevalência de sintomatologia negativa e a influência de fatores organizacionais e psicossociais que interpelam o estilo de vida dos docentes. A pesquisa, ainda que limitada pelo número de participantes, chama a atenção para a urgência de políticas preventivas mais estruturadas, que ultrapassem abordagens assistencialistas e convoquem a ergonomia para um papel mais ativo na conceção de ambientes de trabalho saudáveis.
Com outro ângulo de análise, Nair Monteiro da Silva & Hélder Pordeus Muniz lembram no seu artigo as qualidades heurísticas da Ergologia. Optaram por analisar as renormatizações ocorridas durante a pandemia num órgão público federal do Brasil, adotando esta perspetiva para compreender as estratégias coletivas de adaptação e resistência dos trabalhadores. Através de entrevistas inspiradas na história oral, os autores identificam processos de microgestão criativa e a formação de novas “Entidades Coletivas Relativamente Pertinentes”, revelando as formas pelas quais os trabalhadores reinventam as normas e reorganizam o trabalho perante exigências externas.
Por fim, é a Clínica da atividade que sustentou a intervenção analisada por Antoine Bonnemain no âmbito do serviço de limpeza municipal da cidade de Lille em França. Mostra como a deliberação organizada em torno de um trabalho bem feito pode conduzir os operadores de terreno a influenciar os processos de decisão que dizem respeito ao seu próprio trabalho. No decurso deste processo, eles desenvolvem o seu poder de agir sobre o próprio trabalho e assumem novas responsabilidades na organização. Numa perspetiva de uma "ecologia do trabalho", eles tornam-se assim "sentinelas", velando, por um lado, pela qualidade do seu trabalho e da sua própria saúde, mas por outro lado também, e simultaneamente, velando pela saúde pública em geral.
3. Além do Dossier
Concluímos este número com a habitual secção O Trabalho e Suas Histórias, propondo dois contributos originais que convidam à revisitação de acontecimentos, figuras e contextos marcantes do mundo laboral: o Comentário de um Texto Histórico e o Datário,
O comentário do texto histórico incide sobre um artigo de Jean-Marie Faverge, “La démarche clinique en psychologie industrielle”, publicado em 1968 na revista Bulletin de Psychologie. É Maria Ianeva que o analisa e o discute, num texto que tem como título “O psicólogo como "caçador de problemas" ou técnico de soluções? Faverge e a abordagem clínica na psicologia industrial”. E o prazer é grande na leitura desta decifragem de um texto emblemático do pensamento de J-M. Faverge - onde desenvolveu uma reflexão particularmente precisa e concreta sobre a sua longa experiência de pesquisador e docente. E fê-lo, sublinha Maria Ianeva, de modo particularmente original e contemporâneo.
Quanto ao Datário, desta vez celebra, com Anísio Araújo, os 100 anos de um dos primeiros grandes filmes que colocaram o Trabalho no centro dum cenário cinematográfico: 'La vocation d’André Carel (ou la puissance du travail)', filme mudo franco-suíço realizado por Jean Choux. Uma oportunidade para beneficiar da sabedoria de Anísio Araújo e enriquecer a nossa reflexão sobre a presença do trabalho, como argumento principal ou acessório, na história do cinema.
Desejamos uma ótima e proveitosa leitura!
Em nome do Comité Editorial da Laboreal,
Lúcia Simões Costa & Marianne Lacomblez














