Expor a forma como a historiografia brasileira estuda a idade média, sem dúvida, traz problemas significativos devido às dimensões continentais do Brasil, à falta de integração entre os centros de pesquisa e à carência de uma política de publicação das teses e dissertações que são defendidas no país. Por essas e outras razões, adverte-se que a elaboração de um balanço de toda produção sobre história medieval no Brasil é um trabalho que só pode ser realizado a longo prazo e com a participação de um número suficiente de pesquisadores uma vez que implica em deslocamentos para os centros de produção de teses e dissertações. No entanto, sabe-se que foi realizado, recentemente, um catálogo2das teses e dissertações defendidas no Brasil.
Apresentar-se-ão, da forma mais exaustiva possível, dentro das condições e que se elaboraram esta exposição3, as principais produções a partir dos anos 90 relacionando-as aos grandes vetores da historiografia contemporânea. Para a elaboração desse panorama historiográfico, foram feitas algumas escolhas, dentre as quais se destaca a predileção por mencionar os trabalhos relativos à idade média ibérica e o fato de que se estabeleceu como critério o estudo das principais teses e dissertações. Além disso, optou-se pela produção da pós-graduação dos centros de estudos em idade média das universidades públicas brasileiras. Sublinha-se ainda que não foram considerados os trabalhos sobre idade média produzidos por outros campos do saber.
Serão analisadas as produções da Universidade Federal Fluminense (UFF) pelo fato de que nessa universidade existe o maior centro de pesquisa sobre idade média ibérica do país, coordenado pela professora Vânia Leite Fróes4; da Universidade de São Paulo (USP) por ser a universidade com mais longa tradição de elaboração de trabalhos na área de medieval, bem como por ter sido, até meados da década de 80, a instituição que mais formou pesquisadores nessa área; da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), atualmente, considerada como um centro de excelência na produção historiográfica e por ter importantes trabalhos na área da hagiografia medieval; da Universidade de Brasília (UNB), que tem um papel importante na estruturação e propagação de estudos relativos à idade média na região Centro-Oeste do Brasil e, por último, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), na qual se encontra uma produção de teses e dissertações em idade média no Sul do país.
Adverte-se que a análise das produções de cada universidade está relacionada ao conhecimento bibliográfico e à possibilidade de pesquisa oferecida pelas bibliotecas on- line dessas universidades. Ressalta-se que a ênfase dada à UFF deve-se à maior intimidade dos autores deste texto com essa produção, mas isso, de forma alguma, estabelece algum tipo de hierarquia ou juízo de valor quanto ao que é elaborado nas demais instituições. Acrescenta-se ainda que todas essas universidades são bem avaliadas pela CAPES5.
A UFF abriga uma parte considerável das pesquisas realizadas no estado do Rio de Janeiro. Nessa universidade6, desde o final dos anos 80, começaram a surgir pesquisas sobre idade média em torno das investigações organizadas por Froés7 que fundou um grupo de pesquisa cujo propósito era promover investigações sobre essa temática8. Atualmente, o Scriptorium - Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos, coordenado por Fróes, conta com duas grandes linhas de pesquisa em torno das quais uma série de teses e dissertações foram elaboradas.
O mais antigo campo de investigação está relacionado aos estudos do imaginário e poder político na idade média. Fazem parte dessa linha de pesquisa temas, como, por exemplo, as discussões sobre a função do poder régio, as suas formas de exibição, os mecanismos de produção de memória social, os debates sobre a sacralidade régia, a relação entre história de gênero e as suas relações com o campo da nova história política. Em relação a essa linha de pesquisa, deve-se mencionar a grande influência francesa, sobretudo, através da Écoles des Annales e da Nouvelle Historie. Além dessa influência, destaca-se o diálogo bibliográfico com os autores portugueses e espanhóis.
As investigações sobre o poder político são provenientes do trabalho de Fróes em cuja tese9 defendeu que a figura do rei deve ser compreendida como uma referência identitária. Segundo a autora, o rei é um topos e o seu Paço é um lugar de ordenamento do mundo e do reino. Para melhor esclarecer a relação entre o Paço régio e a sociedade portuguesa dos séculos XV e XVI, ela formulou o conceito de discurso do Paço10.
Dentro dessa perspectiva, o Paço régio foi compreendido como uma área, um eixo organizador que estabelece um padrão de conduta e uma cosmologia. Portanto, existe uma relação entre proximidade e distância que define hierarquias de tempos, lugares e pessoas. Do ponto de vista simbólico, ele se constitui como uma ordem que paira sobre a sociedade ao mesmo tempo que a hierarquiza segundo padrões de condutas definidos dentro da corte régia11.
A partir da década de 90, houve a produção de vários trabalhos cujos conteúdos abordam o imaginário político como uma forma de se discutir a idade média. Autores, como, por exemplo, Nieto Soria12, Pacaut13, Gunée14, Garcia-Pelayo15 exerceram influências sobre os trabalhos dessa linha de pesquisa.
Os conceitos de imaginário16, memória17, maravilhoso18 foram importantes na pesquisa de Miranda19, que analisou o imaginário português entre os séculos XIII e XIV por meio do estudo do maravilhoso de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães.
Para a autora, as preocupações relacionadas à forma e ao estilo da redação dos milagres da santa denunciavam, além das questões relativas à produção de memória, uma preocupação em legitimar a uma nova mentalidade que ganhou força no período: a mentalidade urbana. Além disso, a circulação e a divulgação desse culto mariano asseguraram à região de Guimarães uma identidade e uma vitalidade propícias, que foram associadas à figura régia. Assim, criaram-se condições para o domínio do maravilhoso e para a formação da identidade nacional portuguesa.
Os problemas ligados à história de gênero foram abordados segundo uma história do imaginário político. Em sua dissertação de mestrado, Santos20 articulou temas, como, longa duração, história de gênero, culto mariano, centralização monárquica para estudar a construção do paradigma de rainha em Portugal. Na realidade, a autora demonstrou como o modelo de rainha desempenhou um importante papel na afirmação da identidade portuguesa.
Conforme já escrito, a sua investigação inscreveu-se na longa duração, pois se trabalhou de forma simultânea com dois recortes temporais: o reinado de D. Dinis, período marcado por um projeto de centralização, e o reinado de D. João III, época em que Portugal já se constituíra como um império colonial. Entre esses dois extremos temporais, encontra-se a elaboração da imagem de Isabel de Aragão, esposa de D. Dinis que, no século XVI, foi eleita defensora da nação portuguesa.
Para a composição da sua argumentação em relação ao papel ordenador do paradigma feminino para a sociedade portuguesa, em especial, para reconstituir a produção- circulação-apropriação do paradigma “isabelino”, cuja inspiração veio do culto mariano, Santos analisou conjuntamente diferentes recursos documentais. Em sua conclusão, demonstrou-se como o modelo teve uma grande eficácia simbólica, sobretudo, no que diz respeito à consolidação do papel da rainha como um exemplo de conduta feminina.
Fernão Lopes (1380-1460) e Gomes Eanes de Zurara (1420-1474) tiveram a sua produção cronística estudada para compreender o modo através do qual eles apresentaram as rainhas de Portugal. Assim, Coser21 investigou as representações criadas para a última rainha da dinastia de Borgonha - Leonor Teles (1350-1386), esposa do rei D. Fernando (1367-1383) - e para a primeira rainha da dinastia de Avis, Filipa de Lancaster (1360-1415), mulher do rei D. João I (1385-1433).
Ela constatou que a primeira rainha foi identificada com o reino de Castela enquanto que a segunda foi relacionada ao reino português. Para Coser, tal modelo associativo não foi aleatório. Ele recuperava a tradição cristã medieval que opunha Maria a Eva. Por esse motivo, a historiadora concluiu que o modo pelo qual as rainhas foram representadas também estava vinculado ao programa de legitimação da dinastia de Avis levado a cabo a partir de D. João I.
O tema do imaginário régio também foi estudado por Barros22 cuja pesquisa, além de produzir uma análise empírica do imaginário régio da centralização monárquica nos séculos XIII e XIV através do livro de linhagens e dos cancioneiros portugueses, apresentou um balanço historiográfico sobre o conceito de imaginário. O autor teve a preocupação de comprovar a relação entre o imaginário, espaço de luta simbólica, e os conflitos que aconteceram na corte régia portuguesa no período estudado. Colocou-se, portanto, contra as perspectivas historiográficas que defendem que o imaginário é um campo à parte, sem relação com os conflitos sociais.
Esse autor desenvolveu, provavelmente, devido à influência da Marc Bloch, uma análise comparativa com corte de Castela. Ele demonstrou como a metáfora, criada pelos juristas de Afonso X, de que “o rei é a cabeça, o coração e alma do reino”, foi apropriada em Portugal e difundida durante o período por ele abordado.
No campo da história da saúde, Bastos23 articulou a concepção de “saúde pública” e com a ação centralizadora de Avis. No seu trabalho sobre as epidemias de peste que assolaram a sociedade portuguesa ao longo dos séculos XIV e XVI, o autor demonstrou como a dinastia de Avis produziu uma noção de doença, articulando-a ao processo de centralização. Assim, controlar as epidemias passou a ser uma função do nascente Estado. Nessa dissertação, apresentou-se como o processo de centralização de Avis associou a saúde do rei à saúde do reino.
A pesquisa de Santos24 investigou as Crônicas dos Reis de Fernão Lopes. Nessa pesquisa, adotaram-se os métodos de análise advindos da semiótica, especificamente, a análise de discurso de Courtés25. Com base nessa metodologia, a autora relacionou o texto do cronista à propaganda da dinastia de Avis. Ela mostrou como as crônicas escritas a pedido de D. Duarte representam uma elaboração idealizada da realidade conhecida pelo cronista, ou seja, o imaginário das relações entre Rei e o Povo de modo que o “real”, da forma como ele foi representado pelo cronista, fosse representado segundo os interesses de Avis. Em sua conclusão, apontou que, embora essas categorias fossem antagônicas, eram, ao mesmo tempo, complementares. A relação de complementaridade era proveniente do fato de que, do ponto de vista discursivo, o Rei teria sido sustentado pelo Povo, o qual continuou a colaborar com o soberano no processo de centralização monárquica.
Ferreira26 realizou um estudo comparativo das crônicas ibéricas produzidas nos séculos XIII e XV, visando a acompanhar o processo de construção do mito afonsino, o ato fundador da monarquia portuguesa por Deus e suas progressivas modificações. Relacionou-as com o processo de construção da identidade nacional portuguesa, indicando algumas pistas para se problematizar a própria particularidade da sacralidade da monarquia portuguesa.
Com base nas discussões relativas à percepção do tempo, Ferreira27, influenciado pelas pesquisas de Le Goff28, discutiu, em sua tese, a mudança no uso e na percepção do tempo em Portugal. Ele acompanhou a utilização cada vez mais freqüente do sistema abstrato de medição, cujo surgimento contribuiu para a diminuição do uso das referências naturais e levou até ao aparecimento da medição mecânica do tempo. O autor comprovou que tal processo foi precoce em Portugal e ocorreu durante os primeiros anos da dinastia de Avis.
Por meio da análise das chancelarias, das crônicas e das obras religiosas elaboradas durante os reinados de D. João I e D. Duarte, Ferreira apresentou a forma como o tempo foi reorganizado e apropriado por esses reis. Além disso, o autor demonstrou como, subjacente ao processo de controle das atividades quotidianas, houve uma criação de uma utopia avisina que desloca a temporalidade para o futuro, promovendo assim uma idealização de Portugal.
Accorsi Júnior29 estudou parte da prosa avisina, mais especificamente, aquela produzida no período de D. Duarte e que estava sob seu patrocínio, buscando compreender o caráter civilizatório e legitimador desse discurso, tomando como parâmetro teórico Nobert Elias. Destaca-se sua proposta de compreender o jogo político da corte de Avis como um microcosmo da sociedade portuguesa à época, bem como sua perspicácia no sentido de apontar o lento processo de senhorização desenvolvido pelos filhos de D. João I e seus principais colaboradores, notadamente, o Condestável D. Nuno Álvares.
Por meio dos debates sobre as singularidades do indivíduo, Berriel30 problematizou o discurso moralizador do clero português no final do século XIV e no início do XV. Tomando como parâmetro a noção de indivíduo, considerado como uma categoria da cultura, o autor expôs como a literatura moralizante o reconhecia e propunha a sua salvação. Segundo essa perspectiva, foi possível identificar os vetores que constituíram a individualidade ao mesmo tempo em que se explica a sua inserção no coletivo através do discurso da salvação dos fiéis. Ao investigar o Orto do Esposo, cuja autoria é desconhecida, defendeu-se que seria possível encontrar certo grau de individualidade, embora sejam evidentes os mecanismos de controle da subjetividade.
Em sua investigação de doutorado31, voltou-se para a produção simbólica dos franciscanos portugueses durante grande parte do século XV. Tomou como objeto a estruturação da representação social de Cristão, presente no discurso franciscano, para comprovar que ela se associava à noção de Súdito. Assim, segundo o autor, por meio dessa aproximação, os franciscanos delinearam um equilíbrio entre os poderes temporal e espiritual.
Destaca-se o fato de que o autor não tenha fixado o seu estudo apenas no campo das representações, uma vez que ele demonstrou que a construção ideológica estava de acordo com o universo das práticas sociais, nas quais os reis de Avis e os frades menores apoiavam-se mutuamente. Do ponto de vista do material analisado, as fontes foram as obras Horologium Fidei, de mestre André do Prado, A História Seráfica da Ordem dos Frades Menores de S. Francisco, escrita pelos freis Manoel da Esperança e Femando de Soledade, as Crónicas da Ordem dos Frades Menores, de frei Marcos de Lisboa. No que diz respeito ao discurso de Avis, estudaram-se a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, a Crónica da Tomada de Ceuta, de Zurara, e o Livro da Vertuosa Benfeytoria, obra do infante D. Pedro e do frei dominicano João Verba.
Queirós32 pesquisou a imagem produzida pelo cronista-mor de D. Afonso V, Eanes de Zurara, do infante D. Henrique, tomando como paradigma a figura real. Em suas conclusões, percebe-se que o discurso cronístico foi um suporte para divulgação de modelos de príncipe, de rei e de súdito. Tal estratégia contribui de forma inquestionável para a afirmação de identidade nacional portuguesa.
A prosa de Fernão Lopes foi também investigada por Dantas33, cujo estudo analisou a Crônica de D. Fernando escrita por volta de 1436. Para a autora, o cronista régio, fortemente vinculado com a causa de Avis, teria produzido um paradigma que, ao mesmo tempo que enunciava um modelo de realeza ideal, construía sua contrapartida na personagem de D. Fernando, último rei da dinastia de Borgonha.
Fernandes34 discutiu a implantação do poder senhorial da Ordem do Templo nas vilas de Egas, Soure, Redinha, Pombal e Louriça no período de 1129 a 1231. O autor partiu do pressuposto de que a força conseguida por essa ordem na região veio de sua capacidade de se adaptar ao crescimento urbano e à difusão de uma economia monetária, que estava associada à administração da justiça senhorial na região.
Em sua tese de doutorado35, realizada em outra universidade - Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)36 - ele continuou a questionar-se sobre ao papel das ordens militares em Portugal. No entanto, embora tenha continuado com o mesmo orientador37, enveredou-se um pouco mais nos caminhos das relações entre o Estado e Igreja. Nessa pesquisa, após fazer uma minuciosa análise do contexto da dissolução da Ordem do Templo, evidenciou as singularidades desse processo em Portugal que teve como resultado a criação da Ordem de Cristo na primeira metade do século XIV. Ele partiu da hipótese de que a grande proximidade criada entre a Ordem do Templo e o Estado português devido à reconquista é um dos elementos para o entendimento da criação da Ordem de Cristo em Portugal38.
A pesquisa sua inscreve-se também nas problematizações feitas por Alves39, que atualmente é vinculada ao programa de pesquisa em história medieval da Universidade Federal do Rio de Janeiro onde, do mesmo modo que Gomes, vem desenvolvendo pesquisas em idade média. Ela mapeou os conflitos que ocorreram na região de Pombal, Ega e Redinha entre 1385 e 1481. A autora analisou os choques de interesses entre os poderes senhoriais (leigos e eclesiásticos), os concelhos e os agentes régios. A historiadora indicou como o poder real, através da ação dos seus agentes, conseguiu se impor, quer do ponto de vista simbólico, quer do ponto de vista da administração da justiça.
Ao analisar as querelas na região, mostrou como ocorreram transformações expressivas, cujo resultado foi a imposição do poder régio como o mais importante da região. Para corroborar a sua argumentação, a autora, inicialmente, fez uma caracterização espacial da região, estudou o processo de ocupação através da análise do processo de povoamento e, por último, apresentou as causas dos conflitos na região e os mecanismos utilizados pelo poder régio para se afirmar. Entre as diversas fontes analisadas, destacam-se as cartas de perdão dadas pelos monarcas do período. Alves expôs como elas foram importantes para o processo de centralização régia.
A concepção de territorialidade portuguesa no final da idade média e suas relações com o poder régio e a cultura escrita foi o objeto da pesquisa desenvolvida por Mello40 que reconstituiu os mecanismos de circulação e apropriação do livro Vita Chrisit de Ludolfo da Saxônia. Nessa reconstituição, chegou-se às leituras que foram feitas por D. Duarte e pelos monges do mosteiro de Santa Maria de Alcobaça. A autora abordou como o rei teve acesso, por meio da instituição eclesiástica, a um conjunto de obras cujos conteúdos teriam contribuído em sua formação. Para Mello, esse monarca não só freqüentou o mosteiro como o auxiliou na formação do seu acervo. Entretanto, um dado trazido pela pesquisadora é de que D. Duarte possuía uma herança intelectual que extrapolava os limites desse scriptorium, uma vez que era conhecedor de muitas obras que estavam ausentes das suas estantes. Em sua conclusão, corroborou a sua hipótese de que o conhecimento “bibliográfico” do rei teria contribuído para a elaboração de sua concepção sobre a territorialidade lusa.
Um dos temas recorrentes na produção do Scriptorium - Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos diz respeito aos mecanismos da produção da memória por parte da realeza. Dentro dessa perspectiva, encontra-se a pesquisa de Lacê41, cujo estudo analisou as imagens produzidas sobre o rei D. Afonso Henriques nas memórias hagiográficas de Santa Cruz de Coimbra em meados do século XII. A autora corroborou que essas representações foram produzidas com grande grau de intencionalidade de forma a sacralizar a personagem régia. Nesse modelo, o rei foi, freqüentemente, associado às noções de zeloso da fé, guerreiro e santo pelos cônegos agostinianos. Tal representação teria contribuído para a criação do paradigma de rei perfeito.
No que diz respeito à tradição ibérica de sacralização da guerra, a investigação de Costa42sobre a permanência da mentalidade de cruzada no imaginário cavaleiresco ibérico durante a reconquista portuguesa, apresentou um debate historiográfico sobre a questão da mentalidade de cruzada em Portugal. A sua análise foi assentada em fontes narrativas, cujas histórias reportavam aos episódios da conquista de Lisboa de 1147 e da batalha de Salado de 1340. Ele defendeu que teria ocorrido em Portugal uma releitura dessa mentalidade baseada Libro del Orden de Caballería, de Ramón Llull. Tanto o lulismo como o paradigma cavaleiresco devem ser considerados como indícios da
permanência de uma mentalidade de cruzada em Portugal. Através do estudo do significado do símbolo Santo Lenho do Marmelar, um objeto cristológico presente tanto na conquista de Lisboa como na batalha do Salado, o autor reconstitui a relação entre o ideal de cruzado e as manifestações maravilhosas em torno da relíquia.
Nesse estudo, nota-se uma influência da investigação de Matoso sobre a nobreza portuguesa. Costa evidenciou como no Livro de Linhagens surgem idealizações sobre a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém e a família dos Pereiras a qual, personificada na figura do prior do Hospital em Portugal, D. Álvaro Gonçalves Pereira, foi relatada como uma linhagem cruzadística portuguesa.
Lopes Neto43 empreendeu um estudo sobre a formulação da imagem de D. Afonso V, um rei que, por se adequar às prerrogativas medievais da utilização da justiça, teve a sua imagem associada à de rei justo e piedoso. Baseando-se na análise, principalmente, das Ordenações Afonsinas, a autora comprovou sua hipótese de que a justiça, como representação e como prática social, é um dos elementos fundamentais para a instauração da ordem político-social no interior do reino. Um dos eixos desse estudo estabeleceu um debate em torno do reinado de D. Afonso V, freqüentemente associado a um período de instabilidade no reino e ou a um retrocesso do processo de centralização.
As crônicas dos reis Sancho II e Afonso III de Portugal foram examinadas44 para evidenciar como teria havido uma apropriação lusa da imagem do rei Artur contida na Historia Regum Britanniae de Geoffroy de Monmouth. A apropriação portuguesa teve por base a representação guerreira do rei inglês para realizar a sua releitura. No caso do país Atlântico, como a guerra estava sempre presente foi possível notar uma transposição do modelo guerreiro arturiano para a imagem de Afonso III, porém isso não ocorreu em relação ao seu antecessor. A historiadora comprova como a imagem de Sancho II foi construída de modo a impregná-lo de elementos negativos, justificando assim a sua deposição por Afonso III.
O imaginário político português em seu viés messiânico e escatológico foi o foco de Zierer45 ao estudar a prosa de Fernão Lopes. Nessa tese, estabeleceu-se um diálogo com os estudos de Rabelo46 sobre as concepções de poder expressas em Fernão Lopes. Dentro dessa perspectiva, demonstrou-se como existe uma relação entre o programa de consolidação da dinastia com as representações de cunho escatológico e messiânico. Para a autora, a representação do reino é edenizada e aproxima-se dos elementos imaginários contidos principalmente na Visão de Túndalo, O Conto do Amaro, A Demanda do Santo Graal e no Libro del Infante Don Pedro de Portugal. Ela concluiu
ainda que tais associações não eram aleatórias e faziam parte do programa ideológico difundido pelo Paço de Avis.
Em sua pesquisa Amaral47 conseguiu comprovar a existência de uma demanda ideológica por santidade na casa de Avis durante o processo de conquista do Norte da África. Conseguiu revelar, através do estudo das crônicas de Zurara e do Frei João Álvares, como foram difundidos exempla cujos conteúdos “santificavam” os membros de Avis envolvidos com a expansão marítima. Na realidade, o autor apresentou a existência de uma unidade discursiva para tratar do tema da expansão. Além disso, corroborou a hipótese de que essa unidade discursiva, construída em torno das idéias de missão e predestinação da nação portuguesa, foram utilizadas para reler a derrota de Tânger, em 1437, ao mesmo tempo que transformaram o infante D. Fernando em mártir
nacional. Do ponto de vista historiográfico, foi retomado o debate sobre as categorias do sagrado cristão48 e sobre o uso do conceito de propaganda régia para o final da idade média ibérica49.
A pesquisa de Mello50 concentrou-se na análise da relação entre as cerimônias e os rituais do poder régio e o processo de centralização monárquica. Em seu trabalho, há um debate com as pesquisas de Mattoso51, especificamente, no que diz respeito às transformações sofridas no papel do rei, de Soria52, no que tange à função da cerimônia, e de Gomes53 sobre a questão do ritual. Mello ainda retoma as discussões de Amaral54 e de Lopes Neto55 sobre a relativização da idéia de que o governo de D. Afonso V56 teria representado um retrocesso no processo de centralização desenvolvido desde D. João I.
Ao estudar as transformações no ritual de homenagem entre 1438 e 1495, ela reconstituiu a “evolução” do seu significado político. Portanto, apresentaram-se as modificações da representação do rei como primus inter paris a de adversário, de adversário à árbitro e, por fim, da condição de árbitro a de sustentáculo fundamental tal como Mattoso definiu57.
Outra linha pesquisa desenvolvida pelo Scriptorium diz respeito à grande temática da cultura e estética medieval. Temas, como, por exemplo, a iconografia medieval, a literatura medieval, a música medieval e o teatro constituem-se como objetos privilegiados.
No que diz respeito às análises iconográficas existem trabalhos que abordam o material de livro de horas presentes na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Há algum tempo Fróes58 vem estudando as representações do reino de Portugal entre 1378 a 1528 através das iluminuras dos livros de Horas Portugueses que estão na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Do ponto de vista das influências historiográficas, nota-se uma referência aos trabalhos sobre o estudo da iconografia medieval iniciados por Schmitt59.
Dentro da perspectiva da iconografia medieval, a pesquisa de Vieira60 analisou, sem deixar de lado as questões técnicas da numismática, as representações do rei D. Fernando I revelada pela Coleção de Moedas do Museu Histórico Nacional. Ela propôs uma análise das funções simbólicas das imagens difundidas pelas emissões do período. Além disso, fez uma revisão da história monetária daquela época.
O reinado de D. João II foi estudado, do ponto de vista da articulação entre ação centralizadora e o imaginário régio, por Silva61. Ela analisou as crônicas escritas nos séculos XV e XVI sobre esse rei, bem como a representação iconográfica da empresa real, cujo tema é o pelicano. Assim, debateram-se questões de memória e de identidade, segundo os pressupostos da Nova História. Estabeleceu-se um diálogo com o trabalho de Costa62 devido à sua análise da simbologia do poder português. Segundo a autora, a associação do rei à imagem do pelicano tinha como propósito legitimar o seu processo de centralização. Ela recuperou o sentido desse animal para o imaginário cristão. No imaginário medieval, o pelicano representava o pai que se esforça para proteger e sustentar os filhos. O animal também resgata a idéia do assistencialismo, que foi bastante incentivado por D. João II.
No que diz respeito à literatura medieval, sublinha-se as pesquisas de Gonçalves63 que, através dos romances de cavalaria do final do século XII, problematizou as transformações do imaginário Europeu ao estudar a forma como a narrativa de Tristão e Isolda, considerando as suas diversas versões, representou os dualismos no conflito entre paixão e casamento64. A oposição escolhida como objeto de estudo foi a das representações e experiências da corte e da floresta. Segundo o autor, o conflito contido nesses pares opostos foi solucionado pela proposição de uma viagem, no sentido cavaleiresco do termo. Ela teria como resultado a transformação daquele que a empreendeu.
Em sua tese de doutorado, Gonçalves65 retoma uma discussão que foi protagonizada por Gurevic66 em relação dos processos de formação da consciência individual. Gonçalves, através das narrativas de Erec e Enide, Cligès, Yvain, o Cavaleiro do Leão e Lancelot, o Cavaleiro da Charrete, investigou os modelos de realização da pessoa difundidos pelo ideal cortês, seus conflitos e suas interações. A temática do amor foi privilegiada para demonstrar a irrupção, no amante, de sentimento de separação. Tal sentimento é superado por meio de uma aventura, que está relacionada ao reino do herói. Nas narrativas, estão presentes duas formas de amor que são opostas. Em uma delas, o amor se realiza no casamento enquanto que na outra, ele não se concretiza. Desta forma, para o historiador, as duas formas de narrativas geram dois modos de realização da pessoa. No primeiro, a imagem de perfeição através da realeza e do casamento, pode ser representada. No segundo, ela é percebida como um negativo do herói.
Sobre o teatro medieval, Pereira67 revisitou os estudos de Balandier68, Nieto Soria69 e Fróes70, para analisar a imagem do pastor nos autos de Juan de Encina e Lope de Rueda. Associou-se a tradição cristã e grego-romana às apropriações feitas pelo poder régio dessas tradições. A autora colocou que tais encenações antecediam as aparições públicas do rei. Assim, sustentou-se que a forma como o pastor foi representado serviu como um elemento da propaganda política da dinastia. Dentro dessa perspectiva, a investigação sobre o teatro ajuda a revelar como o poder manipula, relê e se apropria do imaginário social.
Dentro do mesmo campo de reflexão em relação ao poder régio, mas utilizando outro tipo de fontes está a pesquisa de Mendes71, que tomou a música como principal fonte para a compreensão da dinastia de Avis. O poder régio fez grande uso de diferentes formas de espetáculo para veicular a imagem de riqueza e poder tanto para a cristandade quanto para os seus súditos. Ao investigar o espetáculo, propôs-se uma associação entre o estudo da música e do teatro, pois se defendeu que existe, no teatro de Gil Vicente, um conjunto discursivo, denominado pela autora com base em Fróes72 de discurso do paço, no qual, as encenações teatrais, as danças, as músicas representam as glórias dos descobrimentos. Mendes demonstrou como a música desempenhou um papel importantíssimo no teatro de Gil Vicente. Além das obras desse autor, foram estudadas as músicas utilizadas em sua dramaturgia que são provenientes de cancioneiros portugueses e espanhóis.
Selles73, cujo objeto privilegiado também foi a música medieval, questionou o papel desempenhado por ela na propaganda política. Segundo o autor, a música possuiu um caráter aglutinador e foi demasiadamente utilizada na Europa da baixa idade média como forma de exibição de poder. No caso de sua pesquisa, que se insere na longa duração, pois estudou todo o período da dinastia de Avis, ele demonstrou como as idéias de glória, de magnificência, de riqueza, de fama e de cultura foram associadas ao rei e ao reino no período em questão. Selles investigou uma série de cerimônias régias, como, por exemplo, entradas, aclamações, casamentos, funerais etc. Um outro foco da pesquisa foi o estudo da inserção direta do poder real na organização musical portuguesa através da concessão de privilégios e proteção de artistas nas Cortes e Capelas. Além dos tratados musicais do período, analisaram-se as crônicas, os cancioneiros poéticos e musicais e os manuais de comportamento de cortesão.
Temas como as relações de produção nas sociedades do medievo através do questionamento das diversas formas apropriação e de organização do trabalho naquelas sociedades fizeram parte das pesquisas de Garcia74, que utilizou os manuais de confissão para apreender as concepções de trabalho. Assim, apresentou as hierarquias sociais segundo os manuais ao mesmo tempo que discutiu a lugar do indivíduo ou dos grupos no interior das atividades e funções ligadas aos “ofícios” e inscritos na sociedade medieval portuguesa dos séculos XIV e XV.
A autora coloca que nos manuais, cujo conteúdo representa um dos discursos da igreja, e nas Constituições Sinodais alguns ofícios ligavam-se aos pecados. No entanto, ela contrapôs a visão eclesiástica à visão sobre essa temática contida nas Ordenações Afonsinas para se demonstrar os pontos de convergência e de desacordo sobre os ofícios tidos como “lícitos” e os “ilícitos”.
Embora os estudos sobre Portugal sejam significativos do ponto de vista numérico, destaca-se o trabalho de Oliveira75 cujo estudo abordou a personagem de Rodrigo Diaz de Vivar, acunhado Cid. Tomou-o como referência paradigmática daqueles que transformaram a guerra em meio de vida de indivíduos desenraizados. Enfatizou-se o episódio da conquista de Valência em 1238.
As pesquisas desenvolvidas por Mônica Farias Fernández em sua dissertação de mestrado e tese de doutorado tem como núcleo o estudo da realeza castelhana. Em seu mestrado76, estudou, para Castela do século XIII, a apropriação, produção e circulação dos modelos de representação da Virgem Maria. Ela os articulou ao reinado de D. Afonso X, especificamente, ao processo de centralização em curso. Quanto ao seu doutorado77, a autora procura, numa perspectiva político-cultural, discutir a imagem sacralizada do rei sábio associado às figuras salomônicas no processo de centralização do poder real em Castela à época de D. Afonso X.
Ainda em relação ao tema do poder régio/identidade, mas fora dos debates sobre Península Ibérica, a tese de doutorado de Freitas78 problematizou o modelo de identitário contido nos Decem Libri Historiarum de Gregório de Tours. Destacou-se a articulação das noções de santidade e de realeza cristã na formulação dessa noção na Gália do século VI. O autor apresentou os critérios de inclusão e exclusão que nortearam a elaboração identitária na região, bem como a sua relação com o deslocamento das fronteiras étnicas entre francos e galo-romanos. Esse autor estabeleceu um debate teórico sobre a noção de identidade baseando-se na análise interacionista de Barth79 e o conceito de microcristandade de Brown80. Embora se baseasse nesses autores, Freitas propõe que o conceito de microcristandade seja ampliado de modo a incorporar a noção de fronteira étnica do primeiro autor trabalhado. Assim, o modelo gregoriano foi analisado à luz dos conflitos advindos da diversidade religiosa estudada através das atas dos concílios da Gália no século VI.
A questão relativa às concepções da realeza aparece em Luchsinger81 através do seu estudo sobre da Hispania visigótica de 568 a 636, período em que se organizou o Regnum de Toledo. Analisou-se Isidoro, bispo de Sevilha, que elaborou um modelo de realeza cristã. Nele, encontra-se a idéia chave de sanção divina atribuída à autoridade do soberano e legitimada pela Igreja de Roma. A historiadora tomou como fonte de investigação as Sententiae, a Historia Gothorum e as Etymologiae. Essa autora também estabeleceu um debate historiográfico com as proposições de Brown.
Vieira82 analisou os gestos físicos do rei através da biografia de Carlos V de França (1337-1380) escrita por Christine de Pisan - Le Livre des Faits et Bonnes Meurs du Sage roi Charles V. Demonstrou por via de um rei paradigmático a relevância do controle do corpo e das emoções para o rei medieval. A temática da tese está circunscrita no âmbito das discussões realizadas na França pela Nova História. Além disso, destaca-se o fato de que o autor tenha tido a preocupação de apontar a relação entre a questão da gestualidade e a encenação do poder. Foi demonstrado que os gestos do rei, regulados por protocolos que começam a surgir nas cortes européias, eram um importante instrumento político do final da idade média. As circunstâncias em que este miroir aux princes foi escrito - uma encomenda da casa real para seus membros - mostra a sua função de instrumento de propaganda política. Cabe destacar que não se trata de uma biografia desse rei. Na verdade, o autor confrontou o texto de Christine de Pisan com outras versões conhecidas da vida da personagem para compreender a sua transformação em um rei ideal. Por último, o autor destacou o contexto da guerra dos Cem Anos como um elemento para explicar a necessidade de afirmação da legitimidade da dinastia dos Valois.
Christine de Pisan também foi objeto da investigação de Schweinberger83, embora ela tenha dado uma ênfase à questão de gênero. A autora baseou-se no manual pedagógico Le Livre des Trois Vertus, escrito em 1405, para demonstrar a influência que o texto teve na corte de Avis uma vez que ele foi posteriormente traduzido para o português. Na realidade, tomou-se o Espelho de Cristina, impresso em Lisboa em 1518 a pedido de D. Leonor (1458-1525), para demonstrar como o paradigma da mulher virtuosa e cristã e, sobretudo, letrada encontrou solo fértil em Portugal e serviu como uma espécie manual de convivência palaciana do mundo cortesão.
Em relação à USP é importante sublinhar, que embora essa universidade tenha tido um papel fundamental na difusão da pós-graduação brasileira e tenha formado grande parte dos pesquisadores que atualmente realizam pesquisas em idade média pelo Brasil, nunca foi organizado um centro de pesquisa em história medieval. A sua produção sempre esteve e ainda está vinculada ao quadro de professores que atuam na sua pós-graduação.
Em 1942, Eurípedes Simões de Paula, sob a orientação de Jean Gage, defendeu a primeira tese brasileira sobre idade média na Universidade de São Paulo. Esta tese versava sobre o comércio varegue e o Grão-Principado de Kiev84. Obtendo, em 1946, o Provimento de Cátedra com a tese Marrocos e suas relações com a Ibéria na Antigüidade85, Paula orientou várias dissertações e teses sobre o período medieval na USP. Tais trabalhos86 enfocavam as mais diversas temáticas, englobando desde teses sobre a medicina de Paracelso87 até o culto de amida no Japão medieval88. Infere-se, através dos títulos disponibilizados nos catálogos, no que diz respeito a teses e dissertações sobre o Ocidente medieval, há uma preponderância de trabalhos que tratam de questões relacionadas à política e à Igreja89. Dentre todas as dissertações e teses
orientadas por Paula, destacam-se, as teses de Victor Deodato da Silva e de José Roberto Almeida Mello e a dissertação e a tese de Nachman Falbel uma vez que esses historiadores se tornaram professores da Universidade de São Paulo e tiveram um papel importante na produção acadêmica, orientando muitos dos historiadores que, por sua vez, orientaram professores que, atualmente, lecionam história medieval nas universidades e participam de programas de pós-gradução.
Silva90 produziu sua tese Legislação econômica e social consecutiva à peste negra de 1348 e sua significação no contexto da crise do fim da Idade Média em 1970 na USP. Oito anos depois, elaborou, também na USP, sua tese de Livre Docência Declínio da cavalaria e as transformações da nobreza no fim da Idade Média na Europa Ocidental91. Dos dez trabalhos sobre idade média orientados por Silva, quanto à delimitação espacial, quatro são sobre Portugal, dois sobre Itália, um sobre Inglaterra/Itália, um parece ser sobre a Itália, um sobre a Península Ibérica e um sobre a França. Deve-se mencionar que, em relação aos dez, há informações mais precisas de apenas dois deles: Imaginário e realidade social nas crônicas de Fernão Lopes e O poder feminino na Península Ibérica da Reconquista.
Dos quatro trabalhos sobre Portugal, dois dizem respeito à dinastia de Borgonha - Governo de D. Fernando I, o Formoso, de Portugal: suas pretensões à coroa castelhana e suas conseqüências na política portuguesa92 e D. Dinis, o Pai da pátria, de Portugal: a formação de uma imagem, as suas realizações político-diplomáticas e suas repercussões93 - e dois estão cronologicamente relacionados à dinastia de Avis - Rei como fonte de justiça nas crônicas de Fernão Lope94 e Imaginário e realidade social nas crônicas de Fernão Lope95. Esse último, composto por seis capítulos, propõe-se a retratar o imaginário e a realidade social nas crônicas de Fernão Lopes tendo como objeto de análise a concepção de história, o uso do nome de Deus e as manifestações da presença divina, as cerimônias pertinentes aos pilares das relações sócio-políticas de onde se destacam as coroações, a armação do cavaleiro e o julgamento de fidelidade, o casamento e suas modalidades marginais, as principais manifestações sentimentais do homem medieval português e os grupos marginalizados na obra de Lopes.
Os dois trabalhos sobre Itália distanciam-se tanto temática quanto cronologicamente. Um trata da Puglia e sua relação com o domínio exercido pelo reino de Aragão no final do século XV e início do XVI96 e o outro versa sobre o século XII, sobre o universo leigo e o eclesiástico nos Concílios de Latrão I, II e III97.
A dissertação Viagens de Chaucer à Itália de Neto98 aborda as viagens desse inglês. Para esse autor, a Inglaterra e a Itália constituem a delimitação espacial da tese99, que trata do interesse inglês pela Sicília e a visão sobre a Itália presente nos escritos dos viajantes ingleses dos séculos XII e XIII.
Sobre a França, Victor Deodato da Silva orientou a dissertação defendida em 1978 Margarida de Provença: interesses familiares e política100, cujo título parece remeter a uma história política vista a partir de um personagem feminino, Margarida de Provença, a mulher de Luís IX, São Luís. Quase vinte anos depois, em 2000, foi defendido outro trabalho que enfocava a questão da mulher e do poder. Foi a tese O poder feminino na Península Ibérica da Reconquista da professora Maria do Carmo Santos 101 da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Tal tese analisa a posição ocupada pelas rainhas ibéricas nos diversos reinos peninsulares durante a guerra de Reconquista, em especial, procura compreender de que maneira e em que medida estas mulheres participaram do poder político e de que forma os cronistas percebiam o papel desempenhado por elas nestes episódios.
Com a orientação de Simões de Paula, Mello102 defendeu em 1972 a tese Insularização da monarquia angevina e a formação da nação inglesa: séculos XIII e XV, vistos através de canções e poemas políticos. Como professor da USP e ainda trabalhando com a Inglaterra medieval, Mello103 defendeu, em 1980, a tese de Livre Docência: Duas
faces de um soberano: Ricardo II na literatura de seu tempo. Em 1993, orientou a tese Tolosanos, cátaros e faidits: conflitos sociais e resistência armada no Langue-doc durante a Cruzada Albingense de José Rivair Macedo104, atualmente professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS. No seu trabalho, Macedo realizou uma reflexão sobre a contribuição da produção historiográfica da França no que diz respeito às questões sociais do Languedoc no século XIII, mais especificamente, sobre o momento da cruzada albigense. Além disso, tomando como fontes primárias crônicas e poemas daquela época, analisou a articulação do fenômeno da heresia com as camadas sociais do Languedoc no desencadeamento, desenvolvimento e repressão do catarismo.
Tal articulação foi examinada a partir de dois movimentos: a ligação da aristocracia rural com o catarismo e a relação do grupo que tinha o controle dos órgãos municipais da cidade Tolosa com os ministros cátaros. Buscando eliminar os cátaros, os representantes da Igreja dominaram a nobreza rural, através da expropriação de seus bens e direitos, fazendo com que os nobres que tinham relações com o catarismo se transformassem em faidits e derrotaram a resistência de Tolosa com o objetivo de substituir o patriciado que controlava esta cidade. O cerne de sua tese é composto pelo estudo dos modos de resistência dos habitantes de Tolosa à investidas das forças a serviço da Igreja assim como da associação entre faidits e tolosanos entre 1209 e 1224, que teve como conseqüência a vitória temporária daqueles que defendiam o catarismo.
Nachman Falbel teve sua dissertação e sua tese orientadas por Simões de Paula. Defendida em 1969, sua dissertação105 versava sobre as heresias dos séculos XII e XIII. Sua tese, datada de 1972, intitulou-se Luta dos espirituais e sua contribuição para a reformulação da teoria tradicional acerca do poder papal106. Em 1977, obteve a Livre Docência na USP com a tese Arnaldo de Vilanova, sua doutrina reformista e sua concepção escatológica107. Das vinte e oito teses e dissertações que orientou, dezesseis são sobre Idade Média. Estudando, principalmente, questões relacionadas à religião, a maior parte dos dezesseis trabalhos que Falbel orientou trata, de alguma forma, daquela temática.
Sete estudos supervisionados por Falbel fundamentam-se em pensadores de grande relevância para o medievo. A filosofia política de Guilherme de Ockham foi tema da dissertação108 e da tese109 de Souza. Em 1980, Utimura110, analisou, na sua dissertação, a concepção de São Bernardo de Claraval sobre o poder espiritual e, no ano seguinte, Lejbman111 defendeu uma dissertação sobre Egidio Romano e seu tratado De Ecclesiastica Potestatae. A obra Sacramental de Clemente Sanchez foi objeto de análise de Horch112 em tese de 1985. Um intervalo de quase vinte anos separa a tese de Horch de um trabalho baseado na obra de um determinado pensador. A retomada de estudos de tal natureza se deu com a tese, defendida em 2003, da professora Ana Paula Tavares Magalhães113 da USP. Em Contribuição à questão da pobreza presente na obra Arbor Vitae Crucifixae Iesu, de Ubertino de Casale, Magalhães aborda a questão da pobreza tal como ela é concebida na principal obra do frade franciscano Ubertino de Casale (1259-c.1328), a Arbor vitae crucifixae Iesu. Para Casale, o voto de pobreza deveria ser rigorosamente observado, sendo imposta uma série de normas extremamente rigorosas e tendo como referência fundamental o usus pauper. Em 2004, também foi defendida uma tese114 sobre um pensador medieval. Parece que, com Santo Tomás de Aquino e a fronteira histórica entre a fé e a razão, Palma procura tratar das conseqüências da condenação do aristotelismo em 1277 para o pensamento tomista, isto é, a desestruturação da harmonia tomista entre fé e razão, que auxiliou o desenvolvimento do racionalismo renascentista.
A relação de ordens monásticas com a formação do Estado português foi estudada por Galli no mestrado115 e no doutorado116. Sua dissertação, defendida em 1979, versa sobre a relação das ordens de Cluny e de Cister com a formação de Portugal enquanto que sua tese, de 1983, focaliza o papel Cister na constituição daquele Estado.
Ainda no âmbito dos trabalhos que se relacionam com o tema da religião, encontra-se a dissertação de Magalhães117. Defendida em 1998, trata da questão espiritual dos beguinos da região da Provença.
Três estudos orientados por Falbel abordam a questão dos judeus nos reinos de Navarra e Leão e Castela. O primeiro, de 1976, foi a dissertação Política do reino de Navarra a partir do reino de Carlos II em relação aos judeus até o ano de 1391 de Sanchez118 que, em 1981, defendeu a tese Contribuição ao estudo dos Judeus em Navarra durante a Idade Media119. Neste mesmo ano, ocorreu a defesa da tese de Silva120, que se intitula Crítica e autocrítica das cortes reais e nobres de Leão e Castela na época de Afonso, o Sábio: o caso particular dos judeus nos cancioneiros galaico-portugueses.
Os trabalhos Relações conjugais e extraconjugais na alta nobreza portuguesa no final do século XIV e inicio do século XV de Feldman121, A arte da guerra no século XII: as campanhas italianas de Frederico I Barbarossa (1154-1162) de Araújo122 e O rei, o guerreiro e o herói: Beowulf e sua representação no mundo germânico de Medeiros123 tiveram também a orientação de Falbel. A respeito da dissertação de Feldman, não existem no banco de dados bibliográficos da USP, o Dedalus124, maiores informações disponíveis.
A dissertação de Araújo tem como objetivo estudar a arte da guerra no século XII por meio das duas primeiras campanhas italianas de Frederico I Barbarossa contra as comunas lombardas (1154-5 e 1158-62). Isto é, o autor enfoca a guerra como parte imprescindível do desenvolvimento da civilização no século XII, afetando e integrando várias esferas como a Cultura, a Tecnologia, a Política, a Economia e a Sociedade. Assim, percebe que a guerra se insere no conceito medieval de Arte, Ars, isto é, a técnica do fazer. A dissertação de Medeiros examina o poema Beowulf e sua relevância na sociedade da Inglaterra anglo-saxônica, principalmente, no que tange às imagens régias e aristocráticas. Segundo Medeiros, o poema Beowulf e outras obras de caráter heróico teriam um objetivo modelar para a aristocracia guerreira no momento da reconquista dos territórios ocupados pelos escandinavos desde o começo das primeiras invasões. As imagens presentes naquelas obras e, de forma especial, no Beowulf, espelhariam um ideal aristocrático germânico. Contudo, tal ideal era profundamente influenciado pela tradição cristã.
Conforme exposto acima, após ter sido orientado em suas dissertação e tese por Victor Deodato da Silva na USP, o professor Jônatas Batista Neto da Universidade do Estado de São Paulo defendeu, também nesta universidade, sua tese de livre docência, Guelfos e gibelinos em Florença125, em 1985. Dentre as onze teses e dissertações orientadas por Batista Neto, seis são sobre Idade Média ocidental. Destas seis, três têm como recorte espacial a França, uma trata de Portugal, uma tem Florença como delimitação e uma, pela escassa informação disponível, não se pôde delimitar com certeza o seu recorte espacial. Para tanto, seria necessário acessar o catálogo analógico da USP.
A França é a delimitação espacial da dissertação aprovada em 1994, Religiosidade, mentalidades e representações na Idade Média: os demônios e os mortos no De vita sua de Gilbert de Nogent (1055-1125) de Morás126. Rimoli127, usando como fontes primárias os Lais de Marie de France, analisou, na dissertação defendida em 1996, os tipos femininos do imaginário medieval. Na tese As múltiplas facetas de Alexandre Magno no “Roman d’Alexandre”128 de 2001, Custódio procura, a partir da adaptação do mito de Alexandre à realidade francesa do século XII, indicar alguns aspectos do imaginário presentes na Idade Média.
Em relação a Portugal, Jônatas Batista Neto orientou a dissertação de Megiani129, Jovem rei encantado: aspectos da construção e personificação do mito messiânico português, segundo as informações do Dedalus130.
A tese de Biason131 tem a mesma delimitação espacial da tese de livre docência do seu orientador: Florença. Defendida em 1998, a tese Decadência e corrupção na história de Florença: a visão de Nicolau Maquiavel, ao analisar a última produção do autor. Levando em consideração as concepções desenvolvidas período feudal, Morás132, em Os entes sobrenaturais na Idade Média: imaginário, representações e formas de ordenamento social no período tem como objetivo compreender o significado dos entes sobrenaturais - fadas, anjos, demônios, santos dentre outros - que são admitidos pela cultura do medievo e entender a forma pela qual as propriedades e as características daqueles entes contribuem para os modelos de ordem social da época.
Após a elaboração, na Universidade de São Paulo, de uma tese133 que se insere cronologicamente na modernidade, o professor Carlos Roberto Figueiredo Nogueira defendeu na USP, em 1993, sua tese de Livre Docência intitulada Nascimento da bruxaria: da identificação do inimigo a diabolização de seus agentes134 na qual se
aprofunda em assuntos ligados à Idade Média. Das dezoito teses e dissertações orientadas pelo professor Nogueira, cinco tratam explicitamente do período medieval. Destaca-se a dissertação de Nogueira135, Do homem ao Cristo: o espaço-tempo na
construção da imagem de São Francisco de Assis, defendida em 1997, também tenha como recorte cronológico a Idade Média.
Pereira136 defendeu, em 1996, a dissertação Herói e o soberano: modelo heróico e representações da soberania na Demanda do Santo Graal. Dois anos depois, Vereza137 apresentou a dissertação Visões do inimigo: imagens de mouros em Castela no século XIII.
Sob a orientação de Nogueira, foi aprovada em 2003 a tese de Pereira e, em 2004, foram defendidas as teses de Visalli e de Jayo. No trabalho intitulado Práticas de magia e agentes mágicos no cotidiano e nas representações sociais da cavalaria (séculos XII e XIII), Pereira138, aborda a presença da magia nos romans arturianos em verso e em prosa, elaborados nos séculos XII e XIII. Segundo a autora, essa presença indica a grande circulação nos ambientes nobiliárquicos de determinadas heranças culturais e formas de expressão religiosa divergentes daquelas que eram defendidas pelos cânones eclesiásticos, uma forte tolerância a essas tradições, e uma ambivalência da cultura clerical no que diz respeito aos agentes mágicos e à magia. Desta forma, mesmo que subordinados aos projetos literários demandados pelo seu público e seus patrocinadores, os clérigos-escritores dos romans de cavalaria eram bastante condicionados pelas analogias e identidades entre os valores da cultura clerical hegemônica e os diferentes modelos culturais que guiavam a composição de suas obras.
Visalli139 em Cantando até que a morte nos salve: estudo sobre laudas italianas dos séculos XIII e XIV, procura mostrar que, apesar do caráter pessoal de várias laudas do poeta franciscano Jacopone de Todi, sua produção estava inserida no conjunto das laudas, expressões religiosas populares destinadas ao canto coral e que, em sua grande maioria, eram anônimas e compostas em língua vulgar. Perda e salvação da Espanha no imaginário castelhano: a invasão muçulmana na Península Ibérica de Jayo140 tem como objeto as diversas visões que, com o passar do tempo, os cristãos tiveram do desembarque islâmico de 711 e da formação de um núcleo rebelde ao governo muçulmano nas montanhas de Astúrias. Inicialmente, a historiadora trata da apreensão, ocorrida apenas no século XI, por parte dos autores cristãos da versão lendária da invasão muçulmana, que já era veiculada por fontes árabes, apontando, assim, para a influência árabe nas fontes cristãs. No século XV, quando o muçulmano estava vencido, suas virtudes passaram a ser idealizadas. No século posterior, a versão lendária mostra que o período de ocupação muçulmana não teve grandes conseqüências e foi superado pela Reconquista.
Hilário Franco Júnior defendeu sua tese de Livre Docência intitulada Ensaios de mitologia medieval141 em 1993, na USP, onde lecionava. Nesta mesma universidade, orientou, segundo a seção “orientações” do seu currículo que se encontra na Plataforma Lattes142, site do CNPq, e o banco de dados bibliográficos da USP, Dedalus143, três dissertações e sete teses.
Sob sua orientação, Almeida144 defendeu, em 2001, a dissertação O pecado original na escultura romântica da Borgonha - séculos XI e XII, que é um estudo sobre o imaginário relacionado à moral sexual e ao Pecado. Em quatro imagens românicas do Pecado Original esculpidas em quatro igrejas da Borgonha, na França, as figuras de Eva - Maria - Madalena participavam no processo de Pecado/ Salvação dos fiéis. Tais imagens, que se relacionavam com o ideal penitencial veiculado pela ordem cluniacense, faziam parte da liturgia desenvolvida naquelas igrejas. Em 2002, foi aprovada a dissertação Navigatio Sancti Brendani Abbatis: tempo, espaço, outro mundo e peregrinação no relato da viagem de São Brandão à terra repromissionis de Asfora145. Neste trabalho, Asfora procura compreender o motivo do grande sucesso do Navigatio Sancti Brendani Abbatis. Busca o sentido histórico dessa narrativa inserindo- o e analisando-o com base no contexto do período no qual foi elaborado. Fundamentando-se em quatro categorias analíticas - a peregrinação e as idéias de espaço, de tempo e de Outro Mundo - a historiadora localizou os sentimentos e as ideias nas quais os textos se inserem e comprovou o papel da linguagem, construção e organização formal do texto na transmissão de significados que só se tornam compreensíveis se relacionados aos códigos culturais nos quais o texto se filia.
Na dissertação Intento sensu et vigilanti mente: esboço de uma problemática histórica do som no Ocidente medieval146, defendida em 2007, Aubert apresenta a forma como o som sofreu processos de ‘semantização’ discutindo as transformações histórias das formas de apreensão do som pelo pensamento. Na segunda parte da dissertação, o autor expôs o processo de enformação do som por meio da análise da liturgia latina. Por fim, ele trouxe um estudo de caso através do qual a dinâmica entre os processos de semantização da forma sonora e o de enformação sonora do conteúdo.
Em 1997, Franco Júnior orientou a tese Imagem e Reflexo: religiosidade e monarquia no reino visigodo de Toledo (séculos VI e VII) de Andrade Filho147, professor da Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, UNESP. A tese de Souza148, professora da Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, A Cristianização dos mortos: a mensagem evangelizadora da Legenda Áurea de Jacopo de Varazze foi defendida em 1998. Foi aprovada, em 1999, a tese Topologia da mentalidade medieval: reflexões de Teixeira149.
Em 2002, Machado150, teve a sua tese, Da visão teológico-antropocêntrica nas Cantigas de Santa Maria: um estudo sobre a concepção medieval e cristã da História aprovada. A tese trata do estudo da concepção medieval e cristã da História por meio de sua representação nas Cantigas de Santa Maria. A partir de uma perspectiva semântica, Machado aprofunda o estudo das Cantigas no plano subjacente do discurso e encontra um eixo condutor de uma história universal, marcado por um caráter teológico e antropocêntrico, que alinhava os diversos conteúdos daquela obra e que dirigia o projeto político-cultural e exemplar-didático de Afonso X. Essa ideologia, fundamentada no maravilhoso cristão, é espelhada na narração dos milagres da Virgem e traz para a esfera do discurso as estruturas mentais fundamentais - o belicismo, o simbolismo e o contratualismo - que guiavam as relações do homem com os planos natural, transcendental e social, que estavam intimamente ligados. O conteúdo edificante e moralizante dos milagres de Santa Maria e dos louvores a ela endereçados dava à história o caráter de uma prolongada e difícil luta entre o Bem e o Mal, tendo em vista o modelo ideal de perfeição da civilização cristã e a construção, na Terra, da Cidade de Deus. Desta forma, Heloísa Machado examina determinados signos contidos nas Cantigas procurando em cada capítulo apresenta as principais categorias daquela visão bíblica da história, ao mesmo tempo terrena e sagrada, atualizadas pelo contexto político de Castela na segunda metade do século XIII.
Flávio de Campos151, professor da USP, defendeu em 2000 a tese A escrita e a conversação honesta sobre a história de Portugal: as “Tardes do Verão” do frei Jerônimo Baía - uma edição atualizada e anotada que versa sobre a transcrição anotada e atualizada do manuscrito autógrafo Tardes de Verão e Conversação Honesta de Vária História escrito, a partir de 1667, pelo frei Jerônimo Baía. Tal obra contém vários gêneros e é definida como uma epopéia em prosa. As suas características retóricas e dialéticas são percebidas como modelares das práticas de comportamento e de convívio dos membros da sociedade cortesã.
Mário Jorge da Motta Bastos152, professor de História Medieval da Universidade Federal Fluminense, onde orienta dissertações e teses relacionadas à idade média, defendeu, em 2002, a tese Religião e hegemonia aristocrática na Península Ibérica (séculos IV-VIII). O estudo examina as ligações entre a propagação do cristianismo e a afirmação da hegemonia da aristocracia no processo de formação do regime senhorial entre os séculos IV e VIII na Península Ibérica. Para o historiador, é fundamental para caracterizar tal processo a ligação entre religião, cultura e relações sociais de produção em desenvolvimento no período, uma vez que, a partir dessa articulação, ele trata das questões que dizem respeito à conversão e à preservação de práticas e crenças estranhas ao cristianismo, geradas no âmbito das relações de dominação e resistência. A íntima vinculação existente entre a visão de mundo - das relações estabelecidas pelos homens entre si e com o meio natural - propagada pelo cristianismo e a afirmação da preponderância da aristocracia na época e na sociedade trabalhadas é percebida através do estudo de diversas fontes tais como, por exemplo, a hagiografia, a liturgia e a legislação régia.
A última tese que Franco Júnior orientou foi Um monge no divã. O adolescer de Guibert de Nogent (1055-1125?): uma análise histórico-psicanalítica, defendida por Levinsky 153 em 2004. Neste trabalho, que relaciona história e psicologia, Levinsky, a partir do estudo de um caso, o adolescer do monge Guibert de Nogent, procura estabelecer considerações gerais sobre o adolescer no período medieval. Na verdade, os seus dois objetivos principais são definir a adolescência como uma fase intrínseca ao desenvolvimento dos seres humanos - tal fase deve ser considerada a partir da construção da identidade adulta e da sua relação com a cultura - e desenvolver, através da relação histórico-psicanalítica, uma metodologia que possa ajudar na compreensão da formação do sujeito psíquico em suas relações com os fatos e processos históricos e que não despreze o coletivo e o individual, a cultura e o homem.
Doutorando-se em 2002 em História Medieval pela Université Lumière Lyon 2, na França, com a tese Reges pro publicis utilitatibus. Le problème de la légitimité royale de Clovis à Clotaire II (fin Ve - début VIIe siècle)154, o professor Marcelo Cândido da Silva orientou na USP, onde leciona, as dissertações de Pereira e de Amaral, que foram defendidas em 2007. Em A representação do espaço urbano na hagiografia medieval franciscana (Compilatio assisiensis e Memoriale in desiderio animae): perspectivas de uma política social mendicante155, Pereira, baseado nas obras Compilatio assisiensis e Memoriale in desiderio animae, compilações hagiográficas do século XII sobre a vida de São Francisco de Assis, procura perceber as concepções sobre cidade dos hagiógrafos franciscanos e os elementos que eles usaram para formular tais concepções. Pereira analisa se aquelas idéias estão de acordo com um possível discurso franciscano direcionado para as práticas citadinas e também examina em que grau esses elementos se conjugaram na prática pastoral dos franciscanos nos espaços urbanos em que atuaram. Amaral, em Romance de Melusina: linhagem, penitência e poder156, tem como objetivo estudar o Romance de Melusina através de uma visão histórica que percebe que elementos como, por exemplo, a guerra e a justiça evocam o contexto de sua produção.
Ao mesmo tempo, a historiadora não abandona as estratégias textuais do autor, João d'Arras, na construção da história nem as particularidades do romance.
Orientado por Franco Júnior, conforme foi mencionado acima, Flávio de Campos, professor da USP, orientou a dissertação Entre a ermida e a cidade: solitários sociáveis e a produção do significado no século XII, de Castanho157. Ao analisar determinado poema do século XII do cônego de Chartres Paganus Bolotinus, Castanho identificou os homens contra os quais o cônego tinha escrito o poema. Assim, pôde elaborar considerações sobre o eremitismo medieval, indicando que representações e práticas não ortodoxas tenham existido entre os que se sentiram atraídos pelo eremitismo. Além disso, Castanho elaborou comentários teóricos sobre o trabalho do historiador, sobre níveis e dinâmicas culturais, levando em consideração suas ligações com a forma literária presente na fonte primária da pesquisa e com a sociedade analisada.
Na UNICAMP, destacam-se as pesquisas que foram realizadas sob a orientação de Neri de Barros Almeida, sobretudo, no que diz respeito aos trabalhos vinculados as hagiografias medievais, no entanto, embora se tenha as informações de outras pesquisas empreendidas nessa instituição sob a orientação dessa pesquisadora, encontrou-se apenas uma dissertação disponível para consulta on-line. Trata-se da dissertação de Figuinha158 cujo tema problematiza a relação entre ascetismo e poder episcopal em Santo Agostinho. O autor estudou essa relação na conjuntura da controvérsia donatista durante a primeira década do século V. O autor avaliou os problemas causados por essa controvérsia ao bispo de Hipona. Problematizou-se também como os valores ascéticos foram usados nas campanhas anti-donatista ao mesmo tempo em que se organizava a igreja católica. Por último, demonstrou-se como houve um empenho para se desenvolver um modelo mais organizado de monasticismo, centrado na autoridade episcopal, para que fosse possível diminuir as tensões entre os monges ao redor do bispo de Hipona.
A produção historiográfica sobre a idade média na UnB teve início em 1997 quando, ao ser criado o curso de doutorado, houve a reorganização das linhas de pesquisa do programa, que, de duas áreas relacionadas à história do Brasil, passou a contar com três linhas temáticas de pesquisa. Desta forma, a partir daquele ano, houve a possibilidade de serem realizadas teses e dissertações sobre o medievo. Em relação à história medieval, atuam a professora Maria Eurydice de Barros Ribeiro, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos Medievais (PEM)159, e o professor Celso Silva Fonseca, representante do Laboratório de Estudos Medievais.
A primeira dissertação em história medieval defendida na UnB160, A justiça e os deveres senhoriais na obra de Philippe de Beaumanoir “Costumes de Beauvaisis”, foi elaborada por Resende161 em 1997 e orientada pela professora Maria Eurydice Ribeiro. No ano seguinte, essa professora orientou a dissertação, Laços de sangue, laços de fé,162, sob sua supervisão, Soares de Deus163 produziu a dissertação Do Oriente vem o vento que os leva ao Ocidente: representações literárias e iconográficas do espaço na Baixa Idade Média. Em 2006, houve a defesa da última dissertação, A golpes de machado: as origens da monarquia Franca, de Eduardo Fabbro164, que foi orientado pelo professor Celso Fonseca.
No que diz respeito às teses, foram produzidas, em 2004, Arautos da paz e bem: os fransciscanos em Portugal (1214 - 1336) de Mendes165 e, em 2005, A forma do mundo: o programa iconográfico do mapa de Hereford (século XIII) de Soares de Deus166. Ambas foram orientadas pela professora Maria Eurydice.
Dos seis trabalhos, apenas o resumo da dissertação de Fabbro consta na biblioteca digital de teses e dissertações da UnB167. Tal dissertação versa sobre a monarquia franca, que é vista a partir da sua penetração no mundo romano e da sua relevância política na ordenação do baixo império. Assim, o historiador percebe a monarquia germânica como fazendo parte, depois da queda do Império Romano do Ocidente, de um processo interno de reordenação desse império.
Na UFRGS, o professor José Rivair Macedo, único professor da área de História Medieval que atua na pós-graduação, orientou uma tese e nove dissertações sobre idade média168. Dentre as nove dissertações, constam, na biblioteca de teses e dissertações on- line dessa universidade os resumos de apenas quatro delas.
A tese orientada História do cerco de Lisboa: da representação factual à representação do imaginário de Peiruque169 foi aprovada em 2003.
Em 2001, orientou duas dissertações, Moço que tal faz, coração tem decerto pra mais”: o ideal de cavalaria na obra de Fernão Lopes na construção do personagem Nuno Álvares Pereira de Nordin170 e O Orlando furioso e o ideal de “nobreza” na Ferrara renascentista de Ribeiro171. Outras duas dissertações foram defendidas em 2002: A dama pé de cabra: o pacto feérico na Idade Média ibérica de Silveira172 e Traição e poder: um estudo sobre o conceito de lesa-majestade em Castela medieval de Souza173. Em 2003, foi aprovada A categoria de espaço no Libro de las Cruzes de Afonso X, o Sábio de Mattos174.
El rey que es formosura de Espanna: imagens do poder real na obra de Afonso X, o sábio (1221-1284) de Kleine175 e O próximo como o “outro”: cristianismo e judaísmo na Corte imperial (Portugal, século XV) de Campos176 foram aprovadas em 2005. Kleine tem como objetivo estudar o aspecto propagandístico da obra de Afonso X levando em consideração a produção e a difusão da obra e a sua ligação com o projeto político de centralização empreendido pelo rei. Desta forma, para perceber o modo pelo qual o monarca revela o seu projeto político na sua obra, a historiadora examina as imagens do rex sapiens, rex iustus e do rex christianus. Campos estuda a representação dos judeus na obra do século XV, Corte Imperial, no contexto do término, na Península Ibérica, da coexistência inter-religiosa e da promulgação, em Portugal, das leis anti- semitas.
Com a dissertação “Fémina inquieta y andariega”: valores simbólicos da literatura cavaleiresca nos escritos da Santa Teresa de Jesus (1515-1582), Santos177 analisa a relação e a influência do ideal e o simbolismo cavaleiresco na obra de Santa Teresa d’Ávila através do estudo dos textos lidos pela santa e pelo seu contato com os livros de cavalaria.
Em 2007, Teixeira 178 defendeu A encruzilhada das idéias: aproximação entre a Legenda Áurea (Iacopo Varazze) e a Suma Teológica (Tomás de Aquino), dissertação na qual Teixeira analisa a cultura escolar e a pregação, dois eixos da atuação religiosa dos dominicanos na segunda metade do século XIII. O debate sobre os pecados e as virtudes e a questão do aspecto arcaico da Legenda Áurea de Iacopo Varazze foram abordados a partir da comparação desta obra com a Suma Teológica de Tomás de Aquino.













