Por volta de 1444, queixava-se Alonso de Cartagena (f. 1456) de que
“mucho querría que parasen mientes los valientes e poderosos en la caballería, que non consiste el loor de los caualleros en tener muchas armas nin en mudar el tajo de ellas e poner su trabajo en hallar nuevas formas de armaduras e poner nombres nuevos, que si nuestros antecesores se levantasen non los entenderían (…)”1.
Focado como estava na sua comparação com o passado, talvez não tivesse ocorrido ao bispo de Burgos o problema que se ia gizando para as gerações vindouras. Longe dos scriptoria monásticos, ignorados pelo burguês letrado ou desconsiderados como adereços do quotidiano pelo autor cortesão, a realidade dos armamentos medievais foram grosso modo caindo nos interstícios da memória histórica e, com o passar dos anos, constelando todo um universo de significantes hoje despidos dos seus significados. Não raras vezes, portanto, o estudioso do armamento medieval vê-se obrigado a deixar de lado o estudo aturado dos objectos e dos seus contextos para se lançar no lodaçal da linguística, numa tentativa de vislumbrar a realidade por detrás de determinado vocábulo - ecoando o “desejo figadal e honesto de dar toda a luz possível ao que a revolução dos séculos tornou grandemente escuro, exótico e desconhecido”, nas palavras de Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo2.
Esta é uma questão com que Ralph Moffat, curador de Armas e Armaduras Europeias nos Museus de Glasgow, está bastante bem familiarizado, e sobre a qual tem vindo a desenvolver algum trabalho ao longo dos anos3. O corolário máximo destes seus esforços foi a publicação de uma série de sourcebooks, ou livros de fontes, com intenção dupla: por um lado, agregar e disponibilizar uma série dispersa de documentos importantíssimos para a história do armamento medieval, muitos deles republicados de publicações de difícil acesso, alguns inéditos; por outro, e a partir destes documentos, criar um glossário abrangente, bem alicerçado, que ainda assim não se limite a informar o leitor mas que também o desafie a questionar as fontes e a sua interpretação. De facto, o título de uma das secções introdutórias ao primeiro volume - “Towards a Working Vocabulary” (Rumo a um Vocabulário Funcional)4 - pode ser entendido como um manifesto para a obra como um todo. Um vocabulário orientado para a língua inglesa, é certo5, mas sempre útil para a realidade europeia como um todo.
A série iniciou-se em 2022 com a publicação do Volume I, respeitante ao século XIV; prosseguiu no início de 2024 com a publicação do Volume II, balizado entre 1400 e 14506; e concluiu-se em Agosto de 2024 com a publicação do Volume III, o terceiro e (presume-se) último destes livros de referência. É este último volume que será agora objecto da nossa atenção.
Embora a ideia de um glossário padronizado do armamento medieval europeu já tenha sido tentada antes, pelo menos para as defesas corporais - o próprio autor menciona o ambicioso Glossarium Armorum: Arma Defensiva, obra a várias mãos e várias línguas munida de um óptimo sistema de referências visuais;7 isto sem esquecer o impacto disseminado de alguns outros glossários criados por investigadores como Claude Blair e Leonid Tarassuk8, Claude Gaier9, Lionello Boccia10 e Carlo Vita11 ou João Gouveia Monteiro12 para o inglês, francês, italiano e português -, esta é uma das raras instâncias em que o glossário é derivado directamente de uma amostra de fontes disponibilizadas na íntegra e de antemão. Que é como quem diz: não se mostra apenas o autómato, abrem-se as entranhas ao mecanismo para que o possamos ver a funcionar. Este conjunto de publicações é mais um óptimo exemplo do quão crucial (e o quão subestimada) a publicação de fontes é para tornar o conhecimento especializado acessível a um público mais amplo, tanto académico como leigo.
Cronologicamente, este terceiro volume cobre a segunda metade do século XV, que muita da academia (particularmente anglófona) considera o crepúsculo da Idade Média. Um crepúsculo deslumbrante e incandescente este, para os estudiosos do armamento: estende-se do fim da Guerra dos Cem Anos até a Guerra dos Treze Anos, cobre as Guerras das Rosas, a Guerra de Granada e o início das Guerras Italianas, beirando já a modernidade. Um período de enormes transformações na arte da guerra e, consequentemente, do armamento medieval.
O volume em si divide-se em quatro partes fundamentais - embora o autor apenas considere três no índice -, comuns a todos os três volumes (pelo que muitas das observações aqui levantadas são aplicáveis não apenas ao terceiro volume, mas também aos dois volumes que o antecedem). São elas:
- O volume abre com uma mistura entre os habituais prolegómenos - uma lista de ilustrações, uma lista de documentos, um prefácio e uma secção de agradecimentos - a que se juntam um breve guia sobre como usar a obra e um auxiliar de pronúncia em inglês. O guia de uso é a secção mais variável em todos os três volumes, e demonstra, não só na forma, como as fontes podem ser lidas e entendidas entre si, lançando talvez uma ideia de indicação temática geral para o volume em questão (isto nos volumes II e III), mas, também, os diferentes tipos de uso prático que poderão vir a ter nas mãos dos leitores (esta faceta mais no volume I que nos restantes).
- Uma Parte I, intitulada “Introduction to Source Types” (Introdução aos Tipos de Fontes), que para Moffat se divide em dois grandes blocos: as fontes textuais, por um lado, e as fontes materiais, por outro. O autor passa cada subtipo de fonte em revista - testamentos, inventários, registos comerciais, entre outros, para a documentação; tumulária, vitrais, artefactos arqueológicos, por exemplo, para as fontes materiais -, recorrendo a exemplos específicos da documentação para salientar as suas valências e a utilidade que podem ter para o leitor. É também aqui que se apresentam os critérios de transcrição e de tradução seguidos (ou não, como se verá) ao longo do volume. Esta é, portanto, a secção em que mais patentes estão as preocupações pedagógicas e metodológicas do autor.
- Uma Parte II, o núcleo-duro do volume, com toda a documentação transcrita. Este volume contém 78 entradas, algumas das quais bastante extensas ou agregando em si mesmas vários pequenos documentos. O volume III é ainda assim o mais delgado dos três da série (o primeiro volume abarcava 151 fontes; o segundo continha 109), o que é um pouco surpreendente, considerando a abundância de fontes do final do século XV em comparação com a dos dois períodos anteriores. Tal como nos volumes anteriores, cada fonte é transcrita na sua língua original e, no caso de línguas que não o inglês, é apresentada uma tradução imediatamente após a transcrição. Entre os vários núcleos temáticos que se poderiam assinalar nas fontes deste volume - a manutenção e armazenamento de armas, por exemplo, são tópicos transversais a boa parte da documentação -, talvez o mais importante diga respeito à produção, comércio e circulação do armamento produzido em Milão, o grande centro armeiro da Europa no século XV. A documentação consegue tocar em todas as fases do processo, desde a escolha dos armeiros na oficina, ao contacto com clientes, ao embalamento das armas, numa visão panorâmica do tópico difícil de encontrar (e de fazer) fora de estudos especializados13.
- Uma Parte III, o glossário ilustrado. Se os documentos são o coração do volume, o glossário será a sua alma, e sem dúvida a secção que oferecerá uso mais imediato a longo prazo. Nem todos os verbetes arrolados no glossário contêm uma ilustração correspondente, claro está (por questões de extensão, de custos de licenças, ou simplesmente por não existir qualquer representação conhecida e inequívoca do objecto listado), mas a selecção de fontes visuais é suficientemente esclarecedora mesmo para alguém com pouca experiência em armaria.
O volume termina por fim com uma bibliografia cuidadosamente seleccionada, um tesouro quase tão valioso para o estudo do armamento quanto o resto do livro.
Como diria D. Duarte, os três requisitos para alcançar a mestria em qualquer arte são “grande voontade, poder abastante e muyto saber”14. Neste volume, juntamente com os seus dois antecessores, Moffat demonstra os três em abundância. Mostra não só um conhecimento ímpar das fontes e dos seus arquivos, mas também um à-vontade com a matéria-prima que lhe permite fazer uma série de ligações e cruzamentos raros hoje em dia, que evocam, no seu alcance, os grandes amateurs d’Histoire do século XIX e as suas publicações de material de arquivo. De assinalar também duas qualidades que rareiam por vezes no campo da História nos dias que correm: a humildade académica - o autor é a primeira pessoa a reconhecer sempre o seu potencial de erro e a apresentar o seu trabalho como ponto de partida e não de chegada - e a sua desenvoltura na escrita - Moffat é um autor que sabe escrever, em todos os sentidos do termo, e que consegue contagiar o leitor, mesmo o mais avesso ao tópico, com a sua paixão e erudição.
Há, claro, um contraponto aos elogios. Esta não é uma obra perfeita (o que, de resto, seria inteiramente indesejável: o conhecimento, como as ervas daninhas, floreja melhor por entre as fendas que outros nos deixam; um estudo perfeito é um tópico morto e enterrado). Verificam-se algumas falhas, imprecisões e questões metodologicamente menos bem conseguidas, a maioria dos quais decorrentes das limitações da investigação individual do autor, que inevitavelmente dificultam o objectivo pretendido. O autor está ciente da maioria delas, antecipando-se-lhes com alguns mea culpa, particularmente nas Partes I. No entanto, compreender o que o livro faz mal - o que, saliente-se, é muito pouco - é quase tão proveitoso para os estudantes de História em geral, e de Hoplologia mais especificamente, quanto compreender o que se faz bem.
Para começar, embora Moffat liste alguns dos seus critérios de transcrição ou de interpretação dos originais, a falta de uniformização das transcrições - devidamente assinalada pelo autor15 - cria uma série de problemas que não se extinguem na cacofonia visual entre documentos. Pode, de facto, levantar alguns problemas quanto à interpretação de diferentes grafias do que poderá ou não ser a mesma palavra em diferentes fontes. Nalguns casos, esta uniformização parece ter sido impossibilitada pelo desaparecimento dos documentos originais, e por isso desculpável; noutros, poderia ter sido evitada.
Intimamente ligada a esta questão está a apresentação da documentação inglesa apenas em inglês medieval. Apesar de Moffat escrever claramente com o público anglófono em mente, deveria ter sido equacionada uma adaptação para inglês moderno de alguma desta documentação, o que teria possibilitado sanar algumas potenciais confusões (até mesmo para falantes nativos) e tornar o volume mais acessível a investigadores estrangeiros, com menor domínio do inglês quatrocentista. E, já agora: é também peculiar que só no primeiro e no terceiro volume se ofereçam ao leitor pequenos guias de pronunciação, que decerto teriam sido proveitosos em todos os volumes da obra.
Por fim, o corpus: apesar de admirável, é assinalável tanto pelo que contém como por algumas notáveis ausências, mais neste último volume do que nos outros dois. Salvo raras excepções, não temos praticamente documentação (ou menção) respeitante aos reinos ibéricos, por exemplo, ou às regiões da Europa Central e do Norte. A maior parte destas ausências explica-se pela já assinalada selecção de línguas de trabalho que Moffat faz logo no primeiro volume: “I am steadfastly unapologetic that this volume seeks to establish a working vocabulary in English (…) Linguistically limited to sources in Latin, French, English, (some) Italian, and Scots, there is clearly much work to be undertaken on similar sources in our wealth of dialects and languages used in Europe and beyond”16. A já conhecida dificuldade que os investigadores estrangeiros têm em aceder a alguns arquivos, principalmente ibéricos, também deverá ter pesado nesta decisão. Contudo, uma obra cujo objectivo é apresentar um olhar panorâmico do armamento medieval europeu parece ficar descompensada sem, pelo menos, algumas fontes sobre a produção de armas em territórios germânicos, em cidades como Nuremberga ou Ausburgo. A omissão de documentos sobre as oficinas imperiais de Innsbruck, local de trabalho dos mestres armeiros da família Helmschmied, é gritante pela sua importância e impacto cultural no período. As fontes publicadas acabam por abarcar apenas uma rede de ligação entre Inglaterra, França, a Flandres e o norte de Itália, com pouco mais do que algumas menções esparsas e nebulosas a outras realidades periféricas. É um corredor altamente representativo das práticas de manufactura e comercialização do armamento da época, sim, mas fica longe de apresentar a imagem completa do armamento medieval que o título da série parece sugerir.
Ressalvas feitas, e no seu cômputo geral, estes são defeitos mínimos. O terceiro volume é, como toda a série, um tomo de consulta indispensável e que deverá constar de qualquer boa biblioteca de estudos medievais. Mais do que os objectos em si, o armamento medieval é reflexo de uma sociedade em guerra, em que as armas são instrumento bélico, mas também lavor e ganha-pão, alfaias domésticas, objectos lúdicos, adereços artísticos ou de ostentação. Compreendê-las nos seus variados contextos é compreender boa parte da mentalidade europeia de Quatrocentos, e, sem obras como esta, dificilmente atingimos essa percepção. Esta série é, enfim, uma porta aberta e convidativa para um dos elementos centrais da realidade tardo-medieval, cuja ombreira se recomenda vivamente a cruzar.
Referências bibliográficas / Bibliographical references
Fontes / Sources
Fontes impressas / Printed sources
CARTAGENA, Alonso - Tratados militares. Ed. Noel Fallows. Madrid: Ministerio de Defensa, 2006.
DOM DUARTE - Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela que fez El-Rey Dom Eduarte. Ed. Joseph M. Piel. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986.














