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Medievalista

versão On-line ISSN 1646-740X

Medievalista  no.39 Lisboa jun. 2026  Epub 30-Jun-2026

https://doi.org/10.34619/z6cp-kpe1 

Editorial

Editorial - O calvário da FCT e a ciência piolhosa

Editorial - The ordeal of the FCT and lousy science

Luís Filipe Oliveira1 
http://orcid.org/0000-0001-7861-9311

João Luís Inglês Fontes1 
http://orcid.org/0000-0002-7122-4357

1 Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Instituto de Estudos Medievais 1070-312 Lisboa, Portugal


Ao longo de trinta anos, ou quase, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) não foi uma instituição exemplar. Por culpas próprias, ou de contexto, criadas pelas opções dos diferentes governos e por restrições orçamentais, nunca manteve políticas estáveis e nunca conseguiu assegurar a previsibilidade essencial ao planeamento da vida académica e da investigação. Sem arriscar decisões, pareceu oscilar em permanência entre modelos distintos - do financiamento individual ao colectivo, da promoção de laboratórios de Estado à transferência da investigação para as universidades, da multiplicação de pólos à criação de grandes centros. Sem avançar orientações precisas, permitiu que os concursos e as avaliações, e, claro, os financiamentos, flutuassem em função das preocupações e dos interesses dos diferentes júris, cujas decisões iam dando estímulos diversos e inconsequentes, se não contraditórios, à comunidade científica. Sem avisos prévios, não foram poucas as vezes em que se alteraram os procedimentos e os calendários, ou as ocasiões em que a Fundação modificou as regras que ela anteriormente definira e anunciara. Como sucederia com matérias importantes na gestão financeira dos centros e dos projectos, com a exigência de comprovativos de todo ausente dos protocolos iniciais, ou com os recentes contratos de tenure, doravante obrigados a quatro horas semanais de docência, contra o que estava inicialmente previsto. De uma forma, ou de outra, parece evidente que a FCT foi responsável por muita da incerteza e da precaridade das últimas décadas, sem permitir aquela mesma tranquilidade que já os antigos acreditavam ser um ingrediente indispensável da vida cultural e científica.

Nada disto altera o papel decisivo que a FCT teve no desenvolvimento e na consolidação da ciência em Portugal, ao longo das últimas décadas. Mais que discutir e avaliar o seu legado - indiscutível na internacionalização da ciência feita no país, no desenvolvimento da investigação e na profissionalização da gestão e da comunicação de ciência -, haverá que ponderar formas de resolver os problemas detectados e de melhorar o funcionamento da instituição, sobretudo no que diz respeito à estabilidade do financiamento e do emprego científico. Se este é, ao que tudo indica, o entendimento mais habitual na academia, a actual tutela tem outra perspectiva. Como se sabe, decidiu extinguir a FCT para unir o financiamento da ciência com o da inovação, sob a égide de uma nova agência (AI2), que será uma empresa estatal de direito público. Os riscos e os problemas desta solução já foram denunciados e são conhecidos (https://pelaciencia.com/), mas parecem traduzir uma vontade de subordinar a ciência à inovação, quer dizer, à lógica da utilidade, da transformação do conhecimento em tecnologia e da aplicação desta no mundo empresarial. Não são boas notícias para a ciência em geral, e, sobretudo, para as ciências humanas e sociais, esses domínios dos saberes inúteis e sem valor prático imediato e mais mensurável, defeitos maiores nos dias que correm. Tanto mais que, nas palavras do governo, a nova agência vem com o desígnio de aumentar a eficácia do financiamento científico do país e reduzir os desperdícios da investigação.

O Ministério da Educação e da Ciência já tinha mostrado ao que vinha, em meados do ano, quando concentrou a maior parte do financiamento disponível nos centros avaliados com Excelente, criando, assim, pela primeira vez, e sem aviso prévio, um abismo enorme com os outros centros, mesmo os que foram avaliados com Muito Bom. Por causa desta opção, muitos deles enfrentam o risco de maior ou menor paralisia, ou até de extinção a curto, ou a médio prazo, circunstância que alterará os equilíbrios do sistema científico, dificultando a sua renovação. Talvez seja esse o objectivo central do programa em curso, até porque a nova Agência (AI2) se propõe desfragmentar o sistema e reduzir o número de centros financiados, sem que se vislumbrem, porém, os ganhos da medida no aumento da eficácia e na redução dos desperdícios. Tal como já houve quem achasse o país piolhoso, o Sr. Ministro parece considerar que a ciência portuguesa, ou parte dela, pelo menos, é igualmente piolhosa e que terá de a expurgar dessa maleita e ser ele o arauto de novos tempos.

As preocupações quanto ao presente e ao futuro, sobretudo dos mais jovens, não são alheias a este número da revista. A recordação de um dos nossos maiores, o Professor António Borges Coelho, recentemente falecido, serviu de mote ao texto de abertura. Nele, Hermenegildo Fernandes evoca a figura de um cientista social e de um resistente à perseguição e à ditadura, com um percurso que mostra como o estudo e a reconstrução do passado serve e informa a acção cívica no presente, esse valor primordial, sem preço e sem medida, das ciências do homem em sociedade. Por ambos, o estudo e a acção cívica, assentarem numa visão integrada do mundo e se aliarem à descoberta dos outros e dos esquecidos, ao combate da indiferença e das injustiças e à transformação da sociedade. Como insistia António Borges Coelho, há que fazer ouvir as vozes dos mortos, de todos sem excepção, para que as águas da vida e do futuro corram limpas.

Mais libertos destas considerações, os artigos abrem com um prometedor estudo de Manuel Pedro Ferreira sobre as cantigas de seguir, ou os contrafacta, no qual se identificaram os modelos extra-peninsulares das cantigas galegas e portuguesas e se propuseram, a partir da métrica e da música, novas reedições de três daquelas composições. Recupera, pois, dados importantes sobre as redes de transmissão e de recriação cultural na Idade Média, mormente na Europa do Sul. O trabalho de Miguel Maia tem, por outro lado, o mérito de revelar o interesse das práticas actuais no estudo da apicultura medieval, e, sobretudo, na identificação dos testemunhos que indiciam a transformação duma economia recolectora numa produção orientada para o mercado e cada vez mais especializada. Entre os outros artigos publicados, destaca-se a análise de Gustavo Felipe da Silva da natureza e dos limites da potestas do Papa no domínio espiritual e no temporal, a partir dos trabalhos de Guilherme de Ockham, ou o modo como Inês Hortas Marques insiste na importância do trivium na educação medieval para interrogar as marcas da retórica latina na composição da Vida e Milagres da Rainha Santa, um texto do século XIV e de autor desconhecido. Com os últimos trabalhos, regressa-se ao campo dos estudos literários: primeiro às narrativas, com Ana Rita Martins a sublinhar o papel do mar e da viagem enquanto espaços de reinvenção do herói e de construção identitária, a partir de dois romances rimados em inglês medieval; depois à poesia da época vitoriana, com Sónia Aires Lima a procurar os rastos dos modelos medievais de género e de poder no feminino, já no quadro dos estudos actuais sobre os usos do passado.

As secções fixas da revista mantêm a diversidade de temas e de perspectivas. Nas recensões, infelizmente em número mais reduzido, João Nisa apresenta um livro colectivo sobre as rebeliões medievais como instrumentos de acção política, que adoptou uma geografia alargada - da Hispânia à Suécia, da Sicília à Hungria e à Irlanda -, mais rara em trabalhos deste género. As formas da vida religiosa nas cidades medievais são, por outro lado, o tema de outro livro colectivo apresentado por João Luís Fontes, aqui com uma geografia menos ampla, mas com uma riqueza de dados e de análises, bem evocativa de uma perspectiva renovada do religioso e do papel deste na construção do mundo urbano. Mais abundantes, as notas de investigação incluem a apresentação de um trabalho de Miguel Rodrigues sobre as distintas representações literárias das cinco linhagens mais antigas da nobreza portuguesa, a análise dos espaços e dos poderes da mulher nobre em Castela, feita por Andrea Pagès Poyatos a partir de nove testamentos datados entre 1367 e 1515, ou a exploração que Inês Olaia fez do conceito de dois corpos, o físico e o político, aplicado às rainhas portuguesas numa cronologia muito semelhante. Juntam-se-lhes, ainda, o inventário do simbolismo erótico que estaria presente nos marginalia de textos religiosos de uso pessoal do século XIV, realizado por Ana Beatriz Mestre, ou o modo como Jorge Garrido López reconstituiu o peso da produção têxtil no al-Andalus de finais da época medieval, quando se detecta o apoio das elites políticas a produções dirigidas para o mercado e a maiores níveis de especialização, em particular no que respeita à seda, e também, talvez, ao linho.

A publicação de um poema inédito sobre a morte de um cavaleiro, escrito em francês medieval, mas com traços anglo-normandos, constitui o texto de abertura da Varia. Trata-se de uma produção erudita, que mistura as tradições bíblicas e clássicas, talvez elaborada a propósito do falecimento de Balduíno de Toulouse em 1214, no contexto da cruzada contra os cátaros, como sugere Rémy Cordonnier, o responsável pela descoberta e pela edição. Integram esta secção as notícias de três encontros internacionais: o primeiro realizado em Aguilar del Campo, sobre o naturalismo e a imitação na arte medieval, que valorizou o diálogo com os modelos literários, o segundo em Palmela, sobre a vasta arqueologia dos prazeres, da mesa, ao conforto, aos jogos e aos adornos, o último em Évora, sobre António de Holanda e a iluminura na arte da Renascença, que revelou a importância das técnicas de análise não-invasivas e das humanidades digitais. Encerra ela com um balanço preliminar de um projecto de investigação interdisciplinar sobre os códices e a vida conventual no mosteiro de Lorvão, que foi acolhido pelo IEM e desenvolvido em parceria com outros centros de investigação.

Não faltam, pois, motivos de interesse e de reflexão neste número que ora se apresenta e se coloca à consideração de todos. Tomados em conjunto, ajudam a revelar o passado como um mundo perdido e opaco, cuja compreensão exige um olhar atento a todas as dimensões do humano, à multiplicidade dos seus actores e das suas vozes, para ultrapassar uma alteridade que desafia constantemente as capacidades do pensamento crítico e complexo. Era este o legado maior de António Borges Coelho e doutros investigadores das gerações passadas, que importa fazer ouvir e saber praticar, por difícil que seja. Poderá ser uma tradição decisiva para resistir à espuma dos dias, para combater a indiferença, o ódio e a injustiça, e para preservar o bem comum.

Luís Filipe Oliveira

João Luís Fontes

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