Introdução
Historicamente, os projetos de assentamento de reforma agrária estabelecidos na Amazônia brasileira foram criados como estratégias de colonização e integração do espaço a economia interno-externa e como forma de desafogar as cidades a partir da mudança de fluxo de migração da cidade para o campo (Santos et al., 2020).
O cenário desta pesquisa, o assentamento rural federal Santo Antônio da Pedreira, foi criado em 2006 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) do Brasil, ele é localizado a 54 km de Macapá, capital do estado do Amapá. Ele possui algumas características ambientais como pouca infraestrutura produtiva: estradas, armazéns, água, energia, insumos agrícolas e infraestruturas sociais, ou seja, há ausência em parte dos benefícios do poder público (Sousa, 2022).
Essa descrição mencionada acima, alinha-se com a afirmação do estudo de Dimenstein et al. (2017) e Fernandes e Noll (2023) quando suscitam que as famílias de trabalhadores rurais assentados enfrentam condições de vida e trabalho precárias que provocam a fragilização da saúde e do acesso à educação de qualidade, ao ambiente de interação/coesão social (redes e apoio social), mobilidade e transporte, são fatores que interferem na saúde mental.
Portanto, neste contexto brasileiro e amapaense dos assentamentos rurais, as piores condições de vida revelam-se afetando também os adolescentes. Esta condição é evidenciada na literatura relacionando diretamente aos transtornos mentais comuns (Ribeiro et al., 2020).
Os transtornos mentais comuns (TMC) referem-se a duas categorias diagnósticas principais, as depressivas e as de ansiedade, consideradas “comuns” por serem muito prevalentes na população. No entanto, elas têm impacto no humor e nos sentimentos, e os sintomas podem variar em gravidade e duração (Gonçalves et al., 2014).
Como os estudos sobre TMC em adolescentes de assentamentos rurais são pouco explorados no Brasil, mediante essa lacuna, o objetivo deste artigo foi descrever o perfil sociodemográfico dos adolescentes moradores do assentamento rural federal Santo Antônio da Pedreira no estado Amapá, e identificar os sintomas físicos e psicoemocionais associados aos TCM.
Metodologia
Trata-se de um estudo transversal, descritivo, exploratório, quantitativo realizado em julho de 2023, com adolescentes de 12 a 19 anos de idade moradores do assentamento federal rural Santo Antônio da Pedreira, no estado do Amapá, na Amazônia legal, brasileira.
O assentamento federal rural Santo Antônio da Pedreira, no estado do Amapá, na Amazônia legal, tem 18 anos de criação, tem grande representatividade na agricultura familiar amapaense, além de ser um assentamento, ele foi reconhecido como comunidade remanescente de quilombo, e devido a política da reforma agrária brasileira, nela residem um percentual de amapaenses (25%), na mesma proporção paraenses (25%), enquanto os maranhenses (36%), e aqueles que migraram de outras regiões do Nordeste somam (14%), dessa forma, os residentes nessa comunidade são quilombolas e não quilombolas (Souza, 2022, p.37).
Participantes
Os participantes desta pesquisa foram os adolescentes de 12 a 19 anos, de ambos os sexos moradores do projeto do assentamento rural Santo Antônio da Pedreira. Estimou - se o grau de confiança de 90%, margem de erro de 5%, resultando em 63 adolescentes, porém a amostra foi de 64 respostas válidas (100%). O teste - piloto, do instrumento de coleta, foi respondido por um adolescente, e excluído da amostra final.
Os critérios de inclusão foram ser: adolescentes de 12 a 19 anos de idade, viver no assentamento rural Santo Antônio da Pedreira no estado do Amapá pelo menos 2 anos. Os critérios de exclusão foram: adolescentes que são incapazes de compreender e interpretar, inviabilizando a comunicação, e aqueles que estavam em trânsito nessa comunidade rural.
Instrumentos
O instrumento de coleta de dados, foi composto de dois eixos. O primeiro eixo incluiu as variáveis sociodemográficas, no segundo eixo foi utilizado o questionário Self Reporting Questionnaire (SRQ-20).
As variáveis sociodemográficas relacionadas foram: faixa etária (12 a 19 anos), sexo (masculino/feminino), grau de instrução (não alfabetizado, fundamental incompleto, fundamental completo, médio incompleto e médio completo), renda familiar (< 1 salário mínimo, 1 a 3, 4 a 7, 8 a 10, > 10), religião (católica, evangélica, espirita, umbanda, sem religião, outra, não sabe informar) e cor autodeclarada (branca, parda, preta, indígena).
O SRQ - 20 foi uma iniciativa da organização mundial da saúde, cuja objetivo rastrear sintomas psicossomáticos, depressivos e ansiosos e que facilitasse a detecção de casos de forma simples. Esse instrumento foi desenvolvido por Harding et al. (1980) e validado no Brasil por Mari e Williams (1986) O SRQ - 20 é composto por 20 questões sobre sintomas psíquicos e somáticos. As alternativas de respostas são do tipo “sim” ou “não”, e cada resposta positiva equivale a um ponto, se o resultado for ≥7 (maior ou igual a sete respostas SIM) está comprovado sofrimento mental (Gorenstein., 2016, p.83). No quadro 1 foram descritas as 20 questões do SRQ - 20 versão brasileira.
Portanto, foi considerada como variável dependente deste estudo a probabilidade de TMC, e as variáveis sociodemográficas independentes.
Quadro 1 Itens SRQ-20 e seus sintomas
| Pergunta 1 | Sente dores de cabeça | Sintomas somáticos |
| Pergunta 2 | Você tem falta de apetite? | |
| Pergunta 3 | Você dorme mal? | |
| Pergunta 4 | Assusta - se com facilidade? | Humor depressivo - ansioso |
| Pergunta 5 | Tem tremores nas mãos? | Sintomas somáticos |
| Pergunta 6 | Sente - se nervoso, tenso ou preocupado? | Humor depressivo - ansioso |
| Pergunta 7 | Você tem má digestão? | Sintomas somáticos |
| Pergunta 8 | Tem dificuldade de pensar claramente? | Decréscimo de energia |
| Pergunta 9 | Sente - se triste ultimamente? | Humor depressivo-ansioso |
| Pergunta 10 | Você tem chorado mais do que de costume? | Humor depressivo - ansioso |
| Pergunta 11 | Tem dificuldade de ter satisfação em suas atividades? | Decréscimo de energia |
| Pergunta 12 | Tem dificuldade em tomar decisões? | Decréscimo de energia |
| Pergunta 13 | O seu trabalho traz sofrimento? | Decréscimo de energia |
| Pergunta 14 | Sente -se incapaz de desempenhar papel útil em sua vida? | Pensamento depressivos |
| Pergunta 15 | Tem perdido o interesse pelas coisas? | Pensamentos depressivos |
| Pergunta 16 | Sente - se inútil em sua vida? | Pensamentos depressivos |
| Pergunta 17 | Tem pensado em dar fim à sua vida? | Pensamentos depressivos |
| Pergunta 18 | Sente - se cansado todo o tempo? | Decréscimo de energia |
| Pergunta 19 | Você sente desconforto estomacal? | Sintomas somáticos |
| Pergunta 20 | Você se cansa com facilidade? | Decréscimo de energia |
Fonte: Gorenstein et al., 2016.
Procedimento
A aproximação dos adolescentes deu-se pela técnica de amostragem não - probabilística por bola de neve. Assim, respeitando as características da técnica de amostragem, os valores culturais, crenças, e modos de vida específicos do assentamento rural, a pesquisadora precisou estabelecer estratégias de aproximação com o campo de pesquisa. O procedimento de coleta de dados incluiu as etapas descrita abaixo:
Etapa 1 denominada (construindo a rede de contatos): houve a identificação e o contato com a liderança comunitária, os profissionais da equipe estratégia saúde da família (ESF), e os pais e/ou responsáveis pelos adolescentes.
Etapa 2 (compreensão dos objetivos): foram estabelecidas rodas de conversas com liderança comunitária, e os profissionais da equipe saúde da família, e os pais e/ou responsáveis pelos os adolescentes para esclarecer os objetivos da pesquisa e ouvir suas necessidades de cuidado em saúde mental, e de que forma os cuidados eram realizados.
Etapa 3 (no campo de pesquisa): foi utilizado o método de abordagem face a face (bola de neve), com visitas de campo de pesquisa acompanhadas por duas agentes comunitárias da equipe da saúde da família (ACS), como elas são moradoras do assentamento federal Santo Antônio da Pedreira propiciaram e facilitaram o contato direto com a população - alvo.
Assim, a participante inicial foi uma adolescente de 19 anos, indicada por uma das ACS. Neste encontro primeiramente foi disponibilizado e assinado o termo de consentimento livre e esclarecido pelos pais ou responsáveis (TCLE) dos adolescentes, porém os maiores de 18 anos assinaram os seus próprios TCLE’s. Outro termo assinado por todos os adolescentes foi o do assentimento, e após os ambos os termos assinados, o instrumento de coleta de dados foi aplicado.
Após cada encontro, foi solicitado aos adolescentes participantes que apontassem outros contatos, dentro de sua rede comunitária, com as características desejadas pela pesquisadora. Desse modo, pesquisadora foi conduzida pelas ACS nas estradas e caminhos até os lotes/residências dos adolescentes - alvos. Esses encontros ocorreram conforme a disponibilidade de dia, hora do adolescente e seus familiares, em todos os momentos, foi mantido o princípio da voluntariedade e o direito de recusar a participar do diálogo.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Humana da Universidade Federal do Amapá, Parecer Nº 47848421.2.0000.0003.
Análise dos dados
A análise estatística descritiva e inferencial dos dados foi processada pelo software SPSS (Statistical Package for Social Sciences) para Windows, versão 22.0, considerando um nível de significância de 5% (α=0,05). Foi realizada análise bivariada para comparar as características demográficas com o transtorno mental comum. O teste do qui-quadrado (χ2) de Pearson foi empregado na comparação. A estimativa de risco (Razão de Chances para TMC) foi estimada com Intervalo de confiança de 95%, apenas para variável sociodemográfica: sexo.
Resultados
Do total da população-alvo (64 adolescentes), de ambos os sexos, observaram-se as evidencias relacionadas com as variáveis sociodemográficas (Tabela 1), com o predomínio de mulheres 37 (57,8%), de indivíduos mais velhos de 19 anos (25%), com baixa escolaridade 22 (34,4%) e renda familiar, de 1 a 3 salários mínimos 38 (59,4%), católicos 29 (45,3%), e com cor autodeclarada parda 34 (53,1%).
Tabela 1 Distribuição dos adolescentes moradores do assentamento rural, indicio de transtorno mental comum. Amapá, AP, 2024. (N=64)
| VARIÁVEIS | N | FR (%) |
|---|---|---|
| Sexo Feminino Masculino | 37 27 | 57,8% 42,2% |
| Idade 12 13 14 15 16 17 18 19 | 5 6 9 4 12 4 8 16 | 7,8% 9,4% 14,1% 6,3% 18,8% 6,3% 12,5% 25 % |
| Escolaridade Não alfabetizado Fundamental incompleto Fundamental completo Médio incompleto Médio completo | 1 22 6 22 13 | 1,6% 34,4% 9,4% 34,4% 20,3% |
| Renda familiar < 1 salário mínimo 1 a 3 4 a 7 8 a 10 > 10 | 26 38 0 0 0 | 40,6% 59,4% 0,0% 0,0% 0,0% |
| Religião Católica Evangélica Espirita Umbanda Sem religião Outra Não sabe informar | 29 22 1 1 6 3 2 | 45,3% 34,4% 1,6% 1,6% 9,4% 4,7% 3,1% |
| Cor autodeclarada Branca Parda Preta Indígena | 6 34 24 0 | 9,4% 53,1% 37,5% 0,0% |
Fonte: dados do próprio estudo, N: número de indivíduos na amostra não ponderada. FR: frequência relativa.
Em relação à saúde mental, observou-se por meio do SRQ-20, 33 (51,6%) obtiveram pontuação que os classifica como possíveis casos de TMC. Na análise bivariada feita por meio do teste do qui-quadrado de Pearson o TMC associou-se positivamente com o sexo (p=0,04), considerando o (p≤ 0.05). Na tabela 2 identifica-se essa associação, outra evidência é a razão de chance, ou seja, o Odds Ratio ajustado por sexo (intervalo de confiança em nível de 95%), demonstrou uma razão de chance de 2,793 (tabela 3).
Tabela 2 Associação dos adolescentes moradores do assentamento rural, indício de transtorno mental comum. Amapá, AP, 2024. (N=64).
| Variáveis | valor | df | Significância Sig. (2 lados) | Sig exata (2 lados) | Sig exata (1 lado) | |
| Sexo | Qui-quadrado de Pearson. Correção de continuidade. Razão de verossimilhança. Teste Exato de Fisher. Associação linear por linear | 3,945 3,003 3,985 3,884 | 01 01 01 01 | ,040 ,083 ,046 ,049 | ,076 | ,040 |
| Escolaridade | Qui-quadrado de Pearson. Correção de continuidade. Razão de verossimilhança. Teste Exato de Fisher. Associação linear por linear | 3,937 4,359 ,047 | 04 04 01 | ,040 360 ,828 | ||
| Renda familiar | Qui-quadrado de Pearson. Correção de continuidade. Razão de verossimilhança. Teste Exato de Fisher. Associação Linear por Linear | ,002 0,000 ,002 ,002 | 01 01 01 01 | ,968 1,000 ,968 ,969 | 1,000 | ,585 |
| Idade | Qui-quadrado de Pearson. Razão de verossimilhança Associação Linear por Linear | 9,108 10,880 2,470 | 7 7 1 | ,245 ,144 ,116 | ||
| Religião | Qui-quadrado de Pearson Razão de verossimilhança Associação Linear por Linear | 5,264 6,815 1,524 | 6 6 1 | ,510 ,338 ,217 | ||
| Cor autodeclarada | Qui-quadrado de Pearson Razão de verossimilhança Associação Linear por Linear | 1,743 1,743 1,702 | 2 2 1 | ,418 ,415 ,192 | ||
Fonte: dados do próprio estudo, DF: Degrees of Freedom: graus de liberdade de uma distribuição de amostragem, sig = significância.
Tabela 3 OR estimado para sexo e TCM em adolescentes moradores do assentamento rural Amapá, AP, 2024. (N=64).
| Valor | Intervalo de confiança de 95% | ||
|---|---|---|---|
| Inferior | Superior | ||
| Razão de Chances para Transtornos Mentais Comuns (1,00 / 2,00). | 2,793 | 1,002 | 7,787 |
| Para grupo Sexo = 1,00 | 1,543 | ,986 | 2,417 |
| Para grupo Sexo = 2,00 | ,553 | ,301 | 1,015 |
| N de Casos Válidos | 64 | ||
Fonte: dados do próprio estudo, OR= Odds Ratio (ou razão de chances)
Discussão
A adesão a este estudo foi considera boa. No Brasil, existe escassos estudos envolvendo a temática, saúde mental (TMC) e adolescentes moradores de assentamento rural, essa fragilidade torna-se mais latente quando mencionasse a região Norte do país, Amazônia rural.
Tal constatação é amparada pelo estudo de Troian e Breitenbach (2018) no qual suscita que apesar de possuírem papel preponderante no processo de desenvolvimento, sobretudo rural, estudos sobre as juventudes do meio rural ainda são pouco expressivos. Há muito a ser descoberto acerca das percepções, anseios e motivações dos jovens rurais; os motivos que os fazem desejar sair e permanecer no meio rural, a relação com os pais, com o trabalho, entre outros.
Nossos resultados apontaram o indicativo de 51,6% de TMC. Prevalência semelhante de TMC (52,2%) foi encontrada em outro estudo brasileiro que envolveu adolescentes escolares e dados de riscos cardiovasculares. Porém, números menores foi identificado no estudo brasileiro suscitando uma prevalência de depressão (15,8%) e ansiedade (3,5%) em adolescentes de São Luís respectivamente (Monteiro et al., 2020; Orellana et al., 2020).
No âmbito internacional, o estudo de Rajkumar et al. (2022) uma meta - análise com adolescentes indianos, constatou valores menores de depressão (27%) e, ansiedade (26%) quando comparados aos nossos achados. Diferentemente dos adolescentes portugueses cuja a prevalência de depressão foi elevada (66,5%) (Loureiro & Serqueira, 2018).
Presume-se que esta diferença de prevalência de TMC em adolescente de populações diversas é influenciada por fatores socioeconômicos, culturais, ou seja, pelos determinantes e condicionantes em saúde, tipo de instrumento utilizado no rastreio, e escore.
No aspecto socioeconômico, nossos resultados identificaram apenas a associação positiva para a variável (sexo) e indicativo de TMC, apontando a seguinte estimativa de risco: as meninas tem três vezes mais chances de apresentarem TCM se comparado com os meninos.
Nesta mesma evidencia foi constatada em dois estudos brasileiros, quando presumem que as mulheres têm uma prevalência de ansiedade e de depressão duas a três vezes maior que os homens, uma possível justificativa é o fato de que as mulheres têm uma autopercepção de pior saúde facilidade seus sintomas e procuram mais os serviços de saúde (Lehmkuhl & Arakawa-Belaunde, 2021; Ribeiro et al., 2020).
Neste estudo, as adolescentes apontaram como possível justificativa, a desigualdade entre os gêneros no que tange os afazeres domésticos e isolamento social, pois no meio rural, a costumes patriarcais são mais latentes quando comparada a área urbana, há sobrecarga dos serviços domésticos para as meninas, assim confinando - as dentro de casa, assim ocorre menor oportunidades educacionais e profissionais, esta constatação é compartilhada com os achados no estudo brasileiro de Soares e Meucci (2020).
Em contradição, o estudo com adolescentes sul africanos, a menor prevalência de depressão foi associada aos entrevistados do sexo feminino, esta contradição pode ser resultado do envolvimento mais frequente de adolescentes do sexo masculino em trabalhos tediosos ou artesanais, o que pode afetar seu estado de depressão (Ajaero et al., 2018).
O termo tedioso foi associado ao isolamento geográfico pelos adolescentes envolvidos neste estudo, referindo - se que nesta comunidade há apenas dois espaços de lazer, um campo de futebol e o rio. Segundo instituto brasileiro de geográfica e estatística (2022) a densidade demográfica do estado do Amapá é de 5,15 habitante por quilômetro quadrado. Igualmente, uma meta - análise sobre tratamento de depressão e ansiedade em adolescentes em escolas rurais, explicitou que como as áreas rurais são muitas vezes geograficamente extensas, os residentes rurais podem ter de percorrer longas distâncias para obter serviços em saúde mental tornado assim uma dificuldade no acesso ao serviço de saúde mental (Berryhill et al., 2022).
Esse apontamento é compartilhado por Cid e Pereira (2016, p. 551), quando os adolescentes assinalam os aspectos negativos na região onde vivem, a precariedade de serviços; a falta de diversidade nos serviços oferecidos (de lazer, comércio e transporte), a influência de condições climáticas (como a chuva) nas condições de mobilidade.
Por fim com a confirmação de indicio de TCM, fica claro a necessidade de um espaço de escuta para estes adolescentes, como preconiza a portaria de rede de atenção psicossocial. Mas esta escuta deve ser realizada com o olhar culturalmente sensível, neste contexto a enfermagem incluem - se subsidiado pelo seu arcabouço teórico (teoria transcultural de enfermagem), mas ainda há muito a ser conquistado, um dos caminhos é o engajamento responsável dos profissionais de saúde em todas as esferas de cuidado.
Como limitações do presente estudo indicamos a o tamanho da amostragem do estudo, estando relacionada às dificuldades de acesso à população assentada e o seu distanciamento dos serviços de saúde.
Conclusão
Os adolescentes são muito responsivos ao ambiente, passando por mudanças físicas, emocionais assim eles são propensos a instabilidade associada a saúde mental, dessa forma a presente pesquisa contribuiu para lançar luz sobre o perfil sociodemográfico dos adolescentes moradores do assentamento rural identificando os sintomas físicos e psicoemocionais associados aos transtornos mentais comuns.
Vale ressaltar que o nosso objetivo foi alcançado, pois os resultados revelaram um indicativo de TMC de 57,8%, um pouco mais que a metade entre os adolescentes, eles são na maioria mulheres, mais velhos, se autodeclaram pardos, católicos, possuem ensino fundamental e médio incompletos, vivendo com uma renda familiar de um salário mínimo.
Outra constatação foi que a única variável sociodemográfica associada positivamente ao indicativo de TMC foi o sexo, na qual as adolescentes mulheres possuem três vezes mais chances de apresentarem essa condição se comparado aos homens.
As possíveis origens concentram-se em: diferença do gênero, associado a costumes patriarcais, com sobrecarga nos serviços domésticos, e na injusta oportunidade educacional e profissional entre os gêneros e no isolamento geográfico.
Ressalta-se que estes achados são singulares, pois pouco estudos voltam-se para esta temática, com jovens rurais (assentamento), população que possuem costumes culturais peculiares envolvendo as ações de cuidado em saúde seculares como o benzimento, uso de plantas medicinais.
Portanto, os resultados permitem compreender que existem desafios a serem vencidos no meio rural amazônico como fazer chegar verdadeiramente os serviços de cuidado à saúde mental de maneira que o cuidado possa ser realizado de modo adstrito e intersetorial conforme preconizado pela política de atenção básica, assim o cuidado será implementado de maneira longitudinal e não vertical, e coerente culturalmente.
Implicações para a prática clínica
Os resultados deste estudo colaboram para maior compreensão da vida dos adolescentes que moram em assentamentos rurais, seus costumes e os desafios que enfrentam quando se trata de saúde mental. Dessa forma, podem contribuir para criar estratégias e programas que promovam o bem-estar desses jovens, prevenindo os casos de Transtornos Mentais Comuns.














