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CIDADES, Comunidades e Territórios

versão On-line ISSN 2182-3030

CIDADES  no.48 Lisboa jul. 2024  Epub 29-Jul-2024

https://doi.org/10.15847/cct.36833 

TESTEMUNHO

‘Quando a ideia se fez verbo’. Tributo a Vítor Matias Ferreira (1938-2023)

Maria Assunção Gato1 
http://orcid.org/0000-0001-8154-9537

1Iscte - Instituto Universitário de Lisboa, DINÂMIA’CET-Iscte, Portugal, maria.gato@iscte-iul.pt


«Até há bem pouco tempo, o projecto de realização de uma revista do Centro de Estudos Territoriais parecia ser um daqueles projectos que “um dia” haveria de se fazer, mau grado as vicissitudes que, subtilmente, levavam ao seu sucessivo adiamento.

(…) Talvez que, ao fim e ao cabo, a concretização daquele projecto - que, precisamente, aqui se apresenta - seja simplesmente uma questão de “crescimento” ou, usando termos um pouco mais solenes, seja o resultado de uma “maturação” - maturação de uma ideia feita verbo, mas maturação também, porque não, dos próprios proponentes deste projecto!»

(Vítor Matias Ferreira, “Editorial”, CIDADES, Comunidades e Territórios, 1, p.5)

Fotografia de Paulo Ferreira

Vítor Matias Ferreira 

Abrimos este dossier de homenagem a Vítor Matias Ferreira com excertos do parágrafo introdutório do primeiro editorial do número 1 da CIDADES, Comunidades e Territórios. Em dezembro de 2000 surgia, por fim, a materialização de um projeto editorial concebido por várias cabeças e executado por muitas das mãos que, durante mais de uma década, assumiram a intensa e variada produção científica e técnica do CET (Centro de Estudos Territoriais). Vítor Matias Ferreira era o diretor - exerceu essa função entre 2000 e 2003, e de 2008 a 2010 - fazendo-se acompanhar no Conselho Editorial por Isabel Guerra, Fernando Caria, Alexandra Castro e Dulce Moura.

Fazendo justiça ao nome, a CIDADES, Comunidades e Territórios nasceu com a missão de explorar a complexa e multifacetada “questão urbana”, quer partindo das perspetivas sociológicas e urbanísticas, quer abrindo a análise das relações socio-espaciais a outros domínios e abordagens interdisciplinares. E se um dos objetivos da revista era divulgar o trabalho de qualidade feito pelos investigadores do CET-Iscte junto de públicos variados, uma das grandes ambições era alcançar a colaboração de autores muito diversos e em diferentes localizações, territoriais e científicas.

Decorridos 24 anos, esta nossa revista continua fiel à missão e aos objetivos preconizados pelo grupo de pessoas que assumiram a responsabilidade de lhe dar corpo. Uma dessas pessoas foi Vítor Matias Ferreira, um nome incontornável da sociologia urbana portuguesa e cuja preponderância se encontra muito bem sistematizada num texto recente que lhe é dedicado (Castro, 2022). Nesse texto é sublinhada a sua capacidade analítica e prospetiva de investigador urbano, enquanto apelo constante à urbanidade e ao direito à cidade. Quem conhece minimamente a sua obra não poderá deixar de concordar com a importância deste posicionamento na defesa de uma cidade democrática, de uma cidadania urbana consciente, e cujo exercício entre direitos e deveres também se faz pelo acesso a uma cidade capaz de oferecer “qualidade de vida urbana”.

O primeiro texto que Vítor Matias Ferreira publica na Cidades intitula-se, precisamente, “Cidade e Democracia: Ambiente, Património e Espaço Público” (Ferreira, 2000). Através da sua leitura é possível apurar uma ampla reflexão sobre a necessidade de reformular algumas perspetivas analíticas sobre as cidades contemporâneas, no decurso de mudanças socioeconómicas, de estilos de vida e de modos de governação urbana. Um contexto inspiracional suportado no rescaldo da Expo’98 também terá contribuído para alguns dos questionamentos que surgem neste ensaio.

O Observatório da Expo’98, projeto conduzido no CET em parceria com Francesco Indovina durante os cinco anos que antecederam a realização da Exposição Mundial de Lisboa, potenciaria novas reflexões e questionamentos sobre os modelos de produção urbana e respetivas políticas. O atual distanciamento temporal face às várias dinâmicas urbanas transformadoras decorrentes da Expo’98 permite um olhar, porventura menos crítico e/ou menos ambicioso, sobre o projeto urbano que ela deixou de legado à cidade. Porém, na altura, o estreitamento das expectativas de requalificação social e urbana de parte significativa da cidade a uma curta faixa territorial urbanisticamente reconvertida, levou Vítor Matias Ferreira a concluir que a “montanha pariu um rato”, com a conivência de políticas e políticos.

O tom permanente de crítica às políticas urbanas a penderem sempre para fatores de competitividade económica, em detrimento das dimensões qualitativas e que mais impactam no quotidiano social e vivencial das populações, acaba por estar muito presente na obra de Vítor Matias Ferreira. O início da sua carreira na sociologia urbana ficaria marcado por trabalhos sobre movimentos sociais urbanos e intervenção política (Ferreira, 1975), sobre a reconquista da terra e reforma agrária (Ferreira, 1977), ou a “revolucionária” intervenção político-social ligada ao SAAL (Ferreira,1982).

Retornando aos testemunhos mais expressivos deixados na revista Cidades, importará relembrar o texto “Protagonismo Urbano e Projecto de Cidade: A Condição Pública e Patrimonial das Cidades” (Ferreira, 2001). Neste texto, Matias Ferreira dá conta da importância do protagonismo urbano e da procura das cidades por projeção em cenários globais, quer por via de “grandes projetos”, quer através de outras estratégias de valorização promocional. Contudo, é clarificada a ideia de que pouco valerá um protagonismo urbano assente na mera contabilidade de rácios e rankings se tal não se traduzir também em efetiva qualidade urbana dos territórios em causa.

Ao longo dos primeiros 10 anos da CIDADES, Comunidades e Territórios, Vítor Matias Ferreira foi marcando presença regular enquanto autor, com reflexões “de fundo” em torno da importância da sustentabilidade social e política enquanto condição para ambientes urbanos mais sustentáveis, ou chamando a atenção para as interseções da sustentabilidade com o património, a deriva turística na cidade e efeitos nas comunidades locais. Tendo Lisboa quase sempre como território de partida e de chegada para os seus ensaios, a revista Cidades congratula-se com o privilégio de poder disponibilizar o extenso legado de escrita de Vítor Matias Ferreira, no seu estilo muito próprio, no arquivo digital.

Neste dossier de homenagem a Vítor Matias Ferreira, é igualmente gratificante contar com um conjunto de testemunhos de quem acompanhou parte do seu percurso de investigação dedicado às questões urbanas, e até de quem foi corresponsável pela “aventura” editorial chamada CIDADES, Comunidades e Territórios. Referimo-nos obviamente a Isabel Guerra, outro nome incontornável da sociologia urbana e também cofundadora do CET (junto com Vítor Matias Ferreira e Afonso de Barros). O testemunho vívido de Isabel Guerra é imprescindível para recuperar memorias de “tempos originais”, que apenas alguns dos atuais membros do DINÂMIA’CET-Iscte partilham.

O testemunho de Oriol Nel.lo também não podia deixar de estar presente nesta singela homenagem. Nas palavras do próprio, foram três décadas de amizade partilhada e de muitas cumplicidades científico-reflexivas em torno de descontentamentos sobre tempos presentes e impaciências por melhores cidades futuras. Tanto Oriol Nel.lo, em Barcelona, como Francesco Indovina, em Veneza, marcaram presença assídua na vida pessoal e profissional de Matias Ferreira e, por conseguinte, também na CIDADES, Comunidades e Territórios, conferindo-lhe uma projeção internacional, junto com muitos outros autores estrangeiros de renome nos estudos urbanos.

O tributo de José Luís Casanova vem complementar memórias de Vítor Matias Ferreira enquanto professor-investigador do Iscte-Instituto Universitário de Lisboa, instituição onde exerceu atividade durante 30 anos, desde a sua fundação. A abertura aos diálogos disciplinares e à autonomia investigativa são duas das características destacadas sobre Matias Ferreira no papel de orientador científico e coordenador de equipas. Em três décadas de trabalho com tantas equipas diferentes, muitas outras características caberiam em tantos outros testemunhos. Mas a conclusão de José Luís Casanova não podia ser mais assertiva daquilo que se imagina como representativo de professores que “deixam marca” e “fazem escola”.

O reconhecimento dessa marca levou Paulo Tormenta Pinto a convidar Vítor Matias Ferreira a integrar a equipa do projeto Grandes Trabalhos- Operações arquitetónicas e urbanísticas depois da exposição internacional de Lisboa de 1998. É assim que se dá o fugaz regresso à investigação e, já não ao “seu” CET, mas ao DINÂMIA’CET. Concordando com Tormenta Pinto, a referência de Matias Ferreira seria não só decisiva no enquadramento deste projeto de investigação, como sobretudo, a oportunidade para fechar um ciclo de observação que ele próprio iniciara sobre a zona oriental de Lisboa.

A encerrar este dossier apresenta-se a transcrição de uma entrevista realizada em 2007 para a Universidade Aberta e transmitida pela RTP no programa Entre Nós. “O bairro das pessoas” foi o mote para a conversa entre a jornalista Raquel Santos e Vítor Matias Ferreira. O bairro da Graça era um ponto de partida. A Graça seria sempre um ponto de chegada e sobretudo, de permanência, já que foi o seu bairro durante muitas décadas. Também em homenagem de Vítor Matias Ferreira fazemos da Graça capa para este número da CIDADES, Comunidades e Territórios.

Referências

Castro, A. (2022). Vítor Matias Ferreira, in A. Carmo (org.) Espaço, lugar e território. Figuras do pensamento português contemporâneo. Edições Afrontamento, Porto, pp. 409-416. [ Links ]

Ferreira, V. M. (2001). Protagonismo urbano e projecto de cidade: a condição pública e patrimonial das cidades. CIDADES, Comunidades e Territórios, 2, pp. 33- 45. [ Links ]

Ferreira, V. M. (2000). Cidade e democracia: ambiente, património e espaço público. CIDADES, Comunidades e Territórios , 1, pp. 9-35. [ Links ]

Ferreira, V. M. (1982). Os movimentos urbanos e o SAAL: a ambiguidade e os equívocos. A Ideia, 24-24, pp.17-34. [ Links ]

Ferreira, V. M. (1977). Da reconquista da terra à reforma agrária: as ocupações de terra no Alentejo. Lisboa, A Regra do Jogo. [ Links ]

Ferreira, V. M. (1975). Movimentos sociais urbanos e intervenção política. Porto, Edições Afrontamento. [ Links ]

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