Fui aluno do Vítor Matias Ferreira no final da licenciatura de Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), tendo então usufruído da pequena grande glória de começar a trabalhar em investigação com ele e a sua equipa no Núcleo de Estudos Urbanos e Territoriais do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE.
Pude contar com o seu apoio como orientador da minha tese de licenciatura na área disciplinar da Sociologia Urbana, e fui de novo seu aluno no Mestrado de Sociologia do ISCTE um pouco mais tarde.
Foram vários os anos em que tive o grande prazer de colaborar com o Vítor em diversos projectos de pesquisa e estudos, de partilhar com ele o dia-a-dia de trabalho, e de conviver com o seu carácter caloroso e estimulante. O Vítor Matias Ferreira realizou actividade muito profícua e deixou legado relevante em muitas frentes, como professor, como investigador, no desenvolvimento institucional, em termos cívicos e políticos. Mas é sobre esta minha experiência de trabalho em investigação com ele que pretendo deixar algum testemunho.
O Vítor gostava de produzir conhecimento socialmente útil. As pesquisas e estudos em que colaborei com ele tinham invariavelmente uma componente analítica e uma vocação pública, de modo a poderem alimentar a reflexão e o debate aberto a todos, e a informar a acção profissional, institucional e individual.
E fazia questão de partilhar o mais possível este trabalho que ia realizando. Partilhava-o desde logo na fase da concepção, e depois igualmente na elaboração teórica, na recolha e análise de informação, na publicação, e nos seus prolongamentos públicos, incentivando e integrando sempre iniciativas e projectos dos colegas de equipa que acolhia como seus.
Associava vários sociólogos às diversas actividades inerentes ao trabalho de investigação em que estava envolvido, claro, mas também antropólogos, historiadores, arquitectos, politólogos, urbanistas, economistas, geógrafos, engenheiros.
E depois também jornalistas, intelectuais, etc.
Juntava pessoas de várias áreas científicas e profissionais, mas também de gerações, com qualificações, e de categorias académicas distintas.
De vários países, de diferentes instituições e organizações.
Gostava de juntar pessoas, de diversificar a participação na produção científica. E de prolongar, muitas vezes, esta interacção em momentos de convívio extra-laboral.
Não fechava portas; abria sempre mais e novas portas.
Não apenas às pessoas, na produção e no consumo de trabalho científico, mas igualmente no exercício das suas tarefas de coordenação, de orientação, e de docência: não era adepto da inculcação ou da directividade. Criava permanentemente espaço relacional e comunicativo para deixar os interlocutores intrigados e a tomarem conta de si próprios, estimulando a reflexão e a autonomia.
Este espírito aberto também transparece nos modos de produção académica, nos objectos de estudo, e nas metodologias que foi convidando a visitar e estagiar quem com ele colaborava.
Interessava-lhe a investigação fundamental, mas também a aplicada, e promover a discussão de modo a poder formular soluções para diversos problemas; isto é particularmente visível, por exemplo, nos Observatórios que fundou ou em que teve cargos de responsabilidade (Matias Ferreira et al., 1999a; Matias Ferreira et al., 1995; Matias Ferreira et al., 1994a; Matias Ferreira et al., 1994b).
Atraía-o o fenómeno urbano (Matias Ferreira et al., 1997a; Matias Ferreira et al., 1997b) mas também a problemática do território em geral, nos seus diferentes aspectos, e as questões do ambiente e da sustentabilidade (Matias Ferreira et al., 1999b). Buscava sentidos para o seu entendimento no presente, mas também no passado, e também procurava formular possíveis cenários futuros.
Desafiava quem com ele trabalhava a manusear metodologias e técnicas que eram particularmente enriquecedoras do trabalho de pesquisa e complementavam métodos mais clássicos nas ciências sociais, como o “brainstorming”, a prospectiva (Matias Ferreira et al., 1992b), os jogos de simulação (Matias Ferreira et al., 1992a), o inquérito a observadores privilegiados, a avaliação de impactos.
Revi-me em tudo isto. Absorvi tudo isto.
O Vítor Matias Ferreira continua entre nós, sim, pelo que fez e pelo que deixou, na vida das pessoas, e das instituições que frequentou.













