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Revista Internacional em Língua Portuguesa

versão impressa ISSN 2182-4452versão On-line ISSN 2184-2043

RILP  no.48 Lisboa dez. 2025  Epub 31-Dez-2025

https://doi.org/10.31492/2184-2043.rilp2025.48/pp.111-127 

Artigo

Música sem fronteiras: partilha de experiências pedagógicas entre Moçambique e Portugal

Maria Isabel Ribeiro de Castro1 

Pedro Júlio Sitoe2 

1Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Bragança, Portugal INET-Md, Universo de Aveiro

2Escola de Comunicação e Artes, Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique


Resumo

Este artigo pretende explanar, a partir das narrativas pessoais e da observação direta, a partilha de experiências pedagógicas, no âmbito do intercâmbio entre professores da área da música, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade Eduardo Mondlane, da cidade de Maputo, Moçambique, e o Curso de Música em Contextos Comunitários da Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Bragança, Portugal. Para o efeito foram criados seminários temáticos nos quais se desenvolveram diferentes atividades artístico-musicais, junto dos estudantes envolvidos. Os objetivos destas experiências pedagógicas, com base na troca e prática de saberes musicais, residiram: 1) na maneira como, a partir da música, é possível encontrar caminhos de aproximação e diálogo musical e linguístico, entre dois países e instituições de ensino superior; 2) na partilha e aquisição de competências diferenciadas que promoveram e enriqueceram o conhecimento. Os saberes musicais oriundos de Moçambique trouxeram a tónica dos estilos e géneros de música e dança tradicionais, a dança popular e urbana e o conhecimento sobre instrumentos musicais que perpetuam a tradição. De Portugal, procurou-se a partilha de diferentes abordagens pedagógicas, através da apresentação de Projetos na Comunidade, onde a música e o canto acontece enquanto processo de conexão entre as pessoas e criação de espaços artístico-musicais diversos. De entre os projetos apresentados, destaca-se o Projeto Cantar Plus que reitera e salienta a música como ferramenta essencial de um processo transformador. Em termos de metodologia recorreu-se: às apresentações áudio e vídeo; exposições escritas e orais; à prática de experiências musicais. Assim, ultrapassando fronteiras e, como resultado destas mobilidades, foi possível a troca de experiências, a partilha colaborativa e um diálogo artístico-musical, onde imperou a língua portuguesa e se promoveu a proximidade e o conhecimento académico entre todos os participantes.

Palavras-chave: Música; intercâmbio; narrativas artístico-musicais; partilha de experiências; conhecimento

Abstract

This article aims to explain, based on personal narratives and direct observation, the sharing of pedagogical experiences, within the scope of exchanges between teachers in the field of music, from the School of Communication and Arts of the Eduardo Mondlane University, in the city of Maputo, Mozambique, and the Music in Community Contexts Course at the Higher Education School, at the Polytechnic Institute of Bragança, Portugal. For this purpose, thematic seminars were created in which different artistic-musical activities were developed with the students involved. The objectives of these pedagogical experiences, with the main emphasis on the exchange and practice of musical knowledge, resided: 1) in the way in which, through music, it is possible to find ways of rapprochement and musical and linguistic dialogue between two countries and higher education institutions; 2) in the sharing and acquisition of differentiated skills that promoted and enriched knowledge. The musical knowledge originating from Mozambique brought the emphasis on styles and genres of traditional music and dance, popular and urban dance and knowledge about musical instruments that perpetuate the tradition. From Portugal, we sought to share different pedagogical approaches, through the presentation of Projects in the Community, where music and singing take place as a process of connection between people and the creation of diverse artistic-musical spaces. Among the projects presented, the Cantar Plus Project stands out, which reiterates and highlights music as an essential tool in a transformative process. In terms of methodology were used: audio and video presentations; written and oral presentations; to the practice of musical experiences. Thus, overcoming borders and, as a result of these mobilities, it was possible to exchange experiences, collaborative sharing and an artistic-musical dialogue, where the Portuguese language prevailed and proximity and academic knowledge were promoted among all participants.

Keywords: Music; exchange; artistic-musical narratives; sharing of experiences; knowledge

Introdução

O presente artigo procura recontar, a duas vozes, os acontecimentos decorridos do intercâmbio entre a Escola de Comunicação e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique e a Escola Superior de Educação, do Instituto Politécnico de Bragança, Portugal. Para o efeito recorreu-se à narrativa (Gomes, 2003; Bastos et al., 2015), enquanto processo para ilustrar e construir as “histórias” de determinadas ações, ou momentos acontecidos, bem como atribuir um determinado significado às experiências ocorridas (Gomes, 2003) e ainda transmitir diferentes informações (Nunes et al., 2017). Desta maneira e, recorrendo ainda à observação direta e participação colaborativa, pretende-se narrar os factos resultantes da partilha de experiências artístico-musicais que foram realizadas entre as duas instituições de ensino superior mencionadas, vocacionadas para a área da música.

Com o objetivo central focado na música, procurou-se gerar conhecimento e fomentar as partilhas de experiências pedagógicas entre e para os participantes. Pretendeu-se, também, estabelecer espaços onde a música fosse o elo condutor e tivesse um papel gerador de encontros (Sardo, 2011), bem como uma forma de fomentar laços afetivos e convocar à partilha de emoções (Castro, 2015) e troca de práticas artístico-musicais. Neste enquadramento, a música, por ser facilmente transportável e não exigir grande “bagagem” nas deslocações intercontinentais, podendo potenciar experiências artístico-musicais únicas. Pode mesmo ser trans-movida através da memória material e simbólica e tornar-se o “[...] intermediário na articulação e gestão das emoções de um indivíduo na sua relação consigo próprio [...] e sobretudo na sua relação com os seus pares criando e reforçando a coesão dos grupos” (Sardo 2011, p. 93). Nesta linha de pensamento, a música consegue ser facilmente levada de continente para continente, de um lugar para outros distintos espaços, quantas vezes porque só depende da vontade, da memória e imaginação de quem a quer exprimir, fazer ou partilhar. Sobre a transportabilidade da música, Susana Sardo advoga: “A espacialidade e a portabilidade da música são características que lhe permitem estar permanentemente acessível para todos os indivíduos que possam ou queiram fazer música, ouvir música ou pensar sobre ela” (Sardo 2011, p. 92) tornando-a, portanto, facilmente alcançável a quem dela quiser fazer uso, das diferentes formas possíveis.

Esta partilha de experiências artístico-musicais e a relação institucional entre os dois estabelecimentos de ensino superior já acontece desde 2010, ano em que Isabel Castro, uma das autoras deste artigo, se deslocou pela primeira vez a Maputo. Desde essa altura e até à atualidade, o trabalho colaborativo e participações em diferentes campos têm-se intensificado, nomeadamente, no que à música diz respeito e à partilha de experiências pedagógicas artístico-musicais, entre outras. Assim, quando surgiu a possibilidade de se estabelecer um outro protocolo entre as duas instituições, não existiu qualquer dificuldade na articulação de vontades para que o mesmo se pudesse efetuar. O contacto prévio entre continentes e instituições facilitou a mobilidade e reabriu as portas para a partilha de conhecimento e reforço dos laços de amizade.

Neste sentido, este artigo procura descrever a partilha de experiências pedagógicas, que aconteceu no âmbito do intercâmbio já anteriormente referenciado e que juntou, em uníssono, pessoas de diferentes países, mas unidas através da música e da língua. Para a concretização desta ação bilateral foram criadas atividades que comportaram componentes mais expositivas e outras mais práticas. Neste âmbito, foram criados seminários temáticos nos quais se desenvolveram distintas atividades artístico-musicais, junto dos intervenientes envolvidos. Os objetivos dos seminários, que culminaram na troca de experiências pedagógicas, basearam-se, sobretudo, na partilha e prática de saberes musicais, focando-se em dois aspetos: 1) na maneira como, a partir da música, foi possível encontrar caminhos de aproximação e diálogo musical e linguístico, entre dois países e instituições de ensino superior; 2) na partilha e aquisição de competências diferenciadas que promoveram e enriqueceram o conhecimento bilateral.

Nesta sequência, os saberes musicais oriundos de Moçambique trouxeram a tónica dos estilos e géneros de música e dança tradicionais, a dança popular e urbana e o conhecimento sobre instrumentos musicais que perpetuam a tradição.

De Portugal, procurou-se a partilha de diferentes abordagens pedagógicas, através da apresentação de Projetos na Comunidade, onde a música acontece enquanto processo de conexão entre as pessoas e criação de espaços artístico-musicais diversos. De entre os projetos apresentados, destaca-se o Projeto Cantar Plus que reitera e destaca a música e as canções em português, como ferramenta essencial num processo que se pretende ser transformador. Assim, ultrapassando fronteiras, o mar e o deserto, foi possível a troca de experiências e um diálogo artístico-musical que promoveu a proximidade académica, a divulgação, consolidação e aquisição de conhecimento entre todos os participantes.

Para melhor se compreender esta narrativa, entendeu-se dividi-la em duas partes, nas quais se faz a exposição e narrativa dos acontecimentos vividos e partilhados por cada um dos dois docentes envolvidos nesta mobilidade.

1. A Narrativa da mobilidade: o caso da experiência da mobilidade AULP-ERASMUS no Instituto Politécnico de Bragança, por Pedro Sitoe

No âmbito da cooperação entre as universidades da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), suportada pela Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP/ERASMUS), realizaram-se as mobilidades entre duas instituições de ensino superior. A primeira realizada de 19 a 23 de fevereiro por mim, Pedro Sitoe, da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique; e a segunda, de 5 a 9 de agosto pela Maria Isabel Ribeiro de Castro, da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Bragança, Portugal.

A Escola de Comunicação e Artes é uma Unidade Orgânica da Universidade Eduardo Mondlane, criada através da deliberação do Conselho Universitário n.º 14/CUN/2002, de 29 de novembro de 2002, visando oferecer o ensino superior em comunicação e artes. Assim, operacionalizando os pressupostos contidos no documento-projeto de criação, em 2004, iniciou as suas atividades introduzindo o Curso de Licenciatura em Jornalismo e, posteriormente, em 2006, introduziu o Curso de Licenciatura em Música, este, o primeiro curso do ensino artístico ao nível do país. Volvidos dois anos, em 2008, introduziu o Curso de Licenciatura em Teatro, completando assim, os dois cursos do ensino artístico nesta instituição (Deliberação CUN n.º14/CUN/2002, de 29 de novembro de 2002).

O surgimento do ensino superior em música, em Moçambique, é resultado de uma avaliação feita pela Universidade Eduardo Mondlane sobre a necessidade da formação de quadros de nível superior na área das Artes. Esta iniciativa da Universidade Eduardo Mondlane, tornou-a pioneira neste domínio e, de modo que, a introdução do ensino superior artístico fundamentou-se pela:

  • Necessidade oferecer aos interessados a possibilidade de prosseguirem os seus estudos superiores na área da música e teatro, quer a nível artístico, pedagógico e/ou científico;

  • Pela existência de mais de moçambicanos a frequentar cursos de música em universidades sul-africanas e portuguesas, que, ao terminarem os seus cursos, não regressavam ao país por não existirem oportunidades para a sua realização profissional, artística, pedagógica ou científica, o que constituía uma perda de recursos humanos para Moçambique;

  • Na necessidade de formar professores de música para todos os níveis de ensino, implementando a Educação Musical, materializando o que estava previsto na Reforma do Ensino Básico e que contribuir para um desenvolvimento do indivíduo, a médio/longo prazos, no que se refere, não só ao conhecimento da Música e Teatro como parte integrante do ser humano, mas também no que concerne à formação de públicos, à despistagem de alunos que revelam dotação especial para a Música e Teatro – descobrindo aptidões e motivando-os para a prossecução da sua formação – construir-se, em suma, uma sociedade de cultura;

  • Na necessidade de formar profissionais das artes que se dediquem à investigação e produção de conhecimento científico, através do estudo da música moçambicana, tradicional e urbana, e do Teatro nas diversas vertentes, incluindo a história das artes em Moçambique, sua análise, recolha, preservação, etc.;

  • Na necessidade de formar músicos/instrumentistas profissionais, produtores musicais, compositores, orquestradores, diretores musicais, maestros, promotores de concertos, atores de teatro, atores de rádio de televisão e cinema, professores de teatro, diretores de cena/encenadores, cenógrafos, facilitadores e mobilizadores comunitários de teatro, organizadores de eventos teatrais, dentre outros, que certamente irão contribuir exponencialmente para a educação, dinamização cultural, turística, económica e social do país, assim como para o desenvolvimento das indústrias culturais e criativas em Moçambique.

1.1. Apresentação dos seminários temáticos da mobilidade moçambicana no IPB

Conforme o programa previamente estabelecido, o primeiro dia de atividades (19.02.2024) no Instituto Politécnico de Bragança (IPB) consistiu na minha apresentação como professor visitante aos diferentes órgãos das Direções (ESEB; IPB) e tratamento de aspetos burocráticos referentes a estadia (alojamento e alimentação), sempre superiormente acompanhado (conduzido) pela Professora Isabel Castro. Esta foi uma atividade muito importante, pois me permitiu conhecer a instituição, regularizar a situação da estadia além da necessária familiarização com os espaços do trabalho.

No segundo dia de trabalho (20.02.2024), no IPB, apresentei o seminário temático 1, com o tema: Músicas de Moçambique – Estilos e Géneros da Música/Dança (Tradicionais). Este primeiro semanário teve como principal objetivo a partilha de conhecimentos sobre as práticas performativas ancestrais dos moçambicanos em que procurei levar os participantes (estudantes e os professores do IPB) a uma viagem por Moçambique, começando pela caracterização das três áreas musicais do país (norte, centro e sul), para depois apresentar pequenas descrições de alguns estilo/gêneros de músicas/danças (tradicionais) moçambicanas como: Mapiko, N’ganda e Tufo (norte); Nyambalo, Nyau, Mapadza e Utsi (centro; e Nghalangha, Makwhayi e Muthimbha (sul), dentre outras. Para vivenciar os gestos, passos e as dinâmicas da execução/interpretação destas práticas performativas foram projetados vídeos e imagens elucidativas. É de referir que o seminário foi desenvolvido numa dinâmica de participação ativa de todos em que se privilegiou a observação seguida da imitação/repetição. Relativamente aos resultados da atividade, cremos que a ânsia de saber algo mais sobre Moçambique, o envolvimento e o entusiasmo, verificados durante as sessões, demonstram a receptividade e a importância deste tipo de partilha entre duas comunidades universitárias que partilham algo do passado.

Fonte: Captação de imagem serviços técnicos do IPB, 2024

Figura 1 Momento da exposição de um dos Seminários Temáticos, Pedro Sitoe 

No terceiro dia, de trabalho na instituição, foram apresentados os seminários temáticos 2, sobre Músicas de Moçambique: Estilos e Géneros da Música/Dança Urbanas; e o temático 3, referente aos Instrumentos Musicais (Tradicionais) de Moçambique.

No seminário 2 procurei fazer um breve retrato da música urbana moçambicana, em que prontifica a Marrabenta, como a expressão cultural urbana mais divulgada de Moçambique no mundo. Assim, começando pela Marrabenta, apresentei outros estilos/gêneros musicais genuinamente urbanos como: Pandza (zona sul); Xingwere e Bondoro (zona centro); e Rumba e Kwachala (zona norte). Neste seminário, tal como no primeiro, privilegiou-se a elaboração conjunta associada a exposição, pela necessidade de detalhar as caracterizações. Depois das descrições dos estilos/gêneros da música/dança seguiram-se os momentos da execução das danças e demonstrações oferecidos pelos estudantes moçambicanos que estudam no IPB, pelo acordo de Mobilidade AULP-Erasmus.

O seminário temático 3, o último desta mobilidade, foi dividido em duas partes: a primeira consistiu numa abordagem descritiva sobre os instrumentos musicais (tradicionais) moçambicanos incluindo os seus aspetos organológicos. Para a visualização dos instrumentos musicais de Moçambique foram usados vídeos e imagens.

A segunda parte deste seminário, conforme referido anteriormente, foi essencialmente prática e iniciou com a apresentação física da Mbira Nyunganyunga, um lamelafone da família dos idiofones dedilhados, constituído por uma tábua de madeira escavada (chigomero ou gwariva), na qual são fixadas as várias teclas ou palhetas de ferro (Mbira), através de um ou mais travessões (n’tanda/mpfékulo) metálicos (Duarte, 1980; Sitoe e Chau, 1998). A propósito, vale ressalvar que a Mbira, juntamente com a Mbila (Timbila), é um dos poucos instrumentos leccionados com sucesso na Escola de Comunicação e Artes.

Depois de apresentar a constituição do instrumento, a organização frásica da sua música (pergunta e resposta), os aspetos organológicos, dentre outros, seguiu-se à prática da Mbira Nyunganyunga. Assim, foi necessário passar o instrumento por cada participante e culminou com a execução (efetiva) do primeiro exercício oferecido na aprendizagem deste instrumento musical tradicional na ECA-UEM, a obra “Kukaiwa/Vanondokaiwa”. De referir que esta foi uma atividade impactante e muito bem acolhida pelos participantes.

Fonte: Captação de imagem de Isabel Castro, 2024

Figura 2 Apresentação de Instrumentos tradicionais, Pedro Sitoe 

Para finalizar, refira-se que os objetivos preconizados pela AULP-ERASMUS para esta mobilidade, através dos dois professores (Pedro e Isabel), foram cumpridos em grande medida, pois criaram dinâmicas próprias que permitiram a partilha de saberes e o desenvolvimento de competências sobre as músicas do mundo em geral e as dos dois países em particular. Aliás, a apresentação dos seis seminários temáticos (IPB e ECA) foi um momento único em que os professores e estudantes de Moçambique e de Portugal, despidos de complexos, desenvolveram saberes e competências impactantes do fazer musical. Ademais, esta mobilidade mostrou o quanto é necessária a troca de experiências entre estudantes de várias partes do mundo e em especial, entre os estudantes da Europa e África.

2. A Narrativa da mobilidade: o caso da experiência da mobilidade AULP-ERASMUS na Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de Eduardo Mondlane, por Isabel de Castro

Como já mencionado na introdução e, apesar do meu anterior conhecimento da cidade de Maputo, bem como do prévio contacto com a dinâmica da Escola de Comunicação e Artes (ECA), deparei-me com instalações e localização diferentes das que em 2010 havia encontrado, quando pela primeira vez estive em Moçambique. A ECA está agora edificada no campus da Universidade de Eduardo Mondlane, o que implicou novos caminhos e alterações na minha deslocação para o local, dado que me encontrava alojada perto do Maputo Shopping Center, na baixa da cidade. Quando, no primeiro dia, cheguei à instituição, encontrei um edifício e equipamentos completamente novos, o que me deixou satisfeita por perceber o investimento feito na área das artes e, em particular, da música. Desta maneira, as atividades realizadas, durante a semana de trabalho, na ECA, decorreram de 5 a 9 de agosto de 2024 e compreenderam os objetivos previamente estabelecidos, no sentido de implementar e desenvolver as ações delineadas.

Assim, o programa de atividades abrangeu, de forma sucinta, as seguintes fases: reuniões com os elementos da Direção da instituição; reuniões com o professor que me acompanhou homologamente nesta mobilidade; encontros com pessoas e colegas que havia conhecido nas anteriores incursões a Maputo; incremento das atividades/seminários temáticos (1, 2 e 3) com os estudantes; momentos de reflexão e análise do trabalho e das atividades desenvolvidas; e ainda momentos para revisitar Maputo e outros locais.

Tive também a oportunidade de estar com outras pessoas, fora da academia, e com as quais fui estabelecendo contacto ao longo dos anos, muito em particular aqueles que se dedicam à pesca do camarão e que vivem na Katembe, nomeadamente, os atuais proprietários do restaurante Diogo e familiares do restaurante Farol, a quem deixo o meu apreço e amizade.

De seguida exponho, de forma concisa, os seminários temáticos que foram partilhados durante a mobilidade que realizei.

2.1. Apresentação dos seminários temáticos da mobilidade portuguesa na ECA

Como referi, a minha atividade desenvolveu-se a partir de três Seminários Temáticos, com o objetivo de partilhar experiências pedagógicas. Assim, os primeiros seminários, intitulados: (1) Projetos Artísticos na Comunidade a partir da Música; (2) Apresentação do Projeto Cantar Plus, tiveram um teor mais teórico e expositivo; seguindo-se um terceiro Seminário Temático, de cariz eminentemente prático, intitulado: (3) Cantar, cantar, cantar Plus. Todas as atividades foram suportadas através de apresentações em PowerPoint, da utilização da voz e do corpo, para a explanação dos conteúdos teóricos e práticos. De forma a construir a narrativa destas experiências recorreu-se ao registo fotográficos/imagem e captação em áudio e vídeo. Tendo em conta o teor das atividades, optou-se por uma ação colaborativa e participativa, entre a formadora e os participantes.

Quando estruturei a realização das atividades ligadas à música, junto de um público distante da minha área geográfica e fora de Portugal, a preocupação imediata foi a questão do transporte de equipamentos ou instrumentos musicais, dada a distância física e o custo que tal podia acarretar. No entanto, esta situação ficou imediatamente debelada, uma vez que, a música e as diferentes experiências práticas que da mesma podem resultar são passíveis de transmissão, utilizando somente a voz/canto e o corpo, sem a necessidade de outros instrumentos musicais, mais ou menos formais. Foi assim que, a partir desta dimensão, delineei os seminários temáticos, tendo os gestos/movimentos e as canções, cantadas em português, como ferramentas de trabalho e recursos pedagógicos. A interpretação de canções, numa língua comum, representou também um elo de entendimento na comunicação entre os presentes.

Deste modo, no primeiro seminário temático, de caráter teórico (Figura 3. Momento da exposição de um dos Seminários Temáticos, Isabel Castro), foi dado a conhecer aos estudantes visados, o universo de alguns projetos artístico-musicais que foram desenvolvidos na minha instituição de origem e no âmbito de algumas unidades curriculares da área da música. Neste sentido e, a partir da visualização de certos exemplos, procurou-se que os estudantes observassem e compreendessem o impacto deste género de projetos, com enfoque na música, junto de diferentes públicos, na comunidade académica e civil. Os referidos projetos, cujo objetivo principal se centrou na utilização da música e de canções de diversos géneros, foram implementados em contextos, públicos e faixas etárias diferentes. Este seminário foi também importante para que os estudantes envolvidos compreendessem, por um lado, a importância de desenvolver este género de projetos, enquanto uma forma de preparação para abordar questões ligadas à investigação e/ou estudos académicos; e por outro, uma possibilidade de se apresentarem como espaços laboratoriais, onde os estudantes possam ter experiências em contexto real.

Fonte: Captação de imagem de Anabela Fernandes, 2024

Figura 3 Momento da exposição de um dos Seminários Temáticos, Isabel Castro 

O segundo seminário temático compreendeu a apresentação do Projeto Cantar Plus que tenho desenvolvido em Portugal, junto de diferentes públicos, mas particularmente com crianças pequenas. Esta componente de partilha de experiências sobre o projeto referido teve por finalidade, por um lado, apresentar as diferentes fases e percursos que foram utilizados para a realização de uma investigação levada a cabo pela própria, na área da música, com o intuito de compreender o impacto e efeito da utilização de canções infantis, junto de crianças pequenas; e por outro lado, demonstrar que a utilização da voz (canto) e do corpo podem ser ferramentas de trabalho válidas e com bastante impacto para os fins que se pretendem atingir. Esta é, aliás, uma das linhas de orientação do meu trabalho que procurei reforçar nos seminários apresentados. A voz, através do ato de cantar, como referem alguns autores (Boal-Palheiros & Bourscheidt, 2012) é um instrumento natural e deve ser usado no espaço escolar, dado que é, quase sempre, possível de ser experimentado. Este segundo seminário foi importante para os estudantes, porque permitiu partilhar os diferentes pontos da construção de uma investigação, como por exemplo: a relevância de esclarecer, de forma clara, uma determinada problemática; os objetivos a concretizar; a necessidade de efetuar a revisão da literatura sobre aspetos relevantes e que permitam apoiar e sustentar o enquadramento teórico; a definição do contexto e respetiva metodologia de trabalho; a análise e reflexão sobre os resultados obtidos; ou ainda a conclusão de todo o trabalho realizado. Este segundo momento permitiu também dar a conhecer algumas áreas e linhas de investigação realizadas em Portugal, no que concerne ao impacto da música e na forma como esta pode influenciar o comportamento humano. Neste âmbito foram apresentados alguns trabalhos de investigadoras portuguesas que, ao longo de décadas, se têm dedicado ao estudo da música em diferentes vertentes, como por exemplo Graça Mota (1999), Graça Boal-Palheiros (1999), Graça Mota et al. (2002), Helena Rodrigues (2001; 2005) e Cristina Cruz (2010), para referenciar algumas das citadas. Em traços gerais, creio que a discussão em torno da questão sobre os processos como se pode processar e estudar um determinado fenómeno, com o foco na música, foi bastante cativante e gerou espaços de debate entre todos.

O terceiro seminário temático foi essencialmente prático e teve como objetivo primordial explicar e permitir vivenciar como, a partir do ato de cantar e das canções em português, é possível a execução de diferentes atividades musicais. Assim, o seminário, intitulado de Cantar, cantar, cantar Plus, teve também a intenção de colocar em prática os processos explanados nos seminários anteriores. Como resultado, os formandos tiveram a oportunidade de experienciar como, através da aprendizagem de canções, destinadas às crianças pequenas e do ato de cantar, é possível transmitir ideias, mensagens, histórias, tradições, conteúdos relacionados com a música, entre outros; como as canções e cantar podem ser um meio para estimular a memorização; uma forma de utilizar os sons do corpo, de criar movimento, dança e assim, treinar a motricidade; uma maneira de construir jogos; um processo para conhecer o ritmo, a melodia, a dinâmica; um processo para promover a criatividade; uma forma de transmissão da língua materna (Gordon, 2000a; Gordon, 2000b; Rodrigues, 2001; Rodrigues, 2005; Cruz, 1998; 2010); ou simplesmente um processo para criar espaços de encontro e emoção, lazer e bem-estar (Castro, 2020;2021) e mesmo alegria.

A figura 4 (Figura 4. Momento da exposição do Seminário Temático: Cantar, cantar, cantar Plus) representa um dos instantes do processo de aprendizagem e execução de uma das canções trabalhadas no decorrer do terceiro seminário. A canção – se queres ir a Vigo, Vigo, Vigo, vem dançar comigo (Jos Wuytack, 2008) foi trabalhada de forma sequencial e seguiu as várias etapas de aprendizagem. O mesmo aconteceu em relação a outras cantigas, sempre com a utilização da voz e do corpo. Assim, nas várias canções ensinadas procedeu-se de acordo com diferentes fases, tais como: aprender a letra/história/texto da canção por partes; aprender a canção com vocábulos (sem letra); consolidação da canção através de gestos/mímica; aprender a canção através de movimentos corporais (por exemplo: rodas; danças, tal como pode observar-se na figura 4); aprender a canção com a aplicação e recriação de jogos musicais; entre outras fases (Ver tabela 1. Exemplo sobre o processo utilizado para trabalhar canções infantis).

Fonte: Captação de imagem de Anabela Fernandes, 2024

Figura 4 Momentos da exposição do Seminário Cantar Plus, Isabel Castro. 

Tabela 1 Exemplo sobre o processo utilizado para trabalhar canções infantis 

Canções Temas/estratégias de aprendizagens Atividades Competências e objetivos a valorizar Metodologia/recursos
Se queres ir a Vigo, Vigo, Vigo, vem dançar comigo processo de repetição; memorização visual e auditiva; imitação; concentração; (outros...)

aprender as canções por partes (e/ou com vocábulo);

• utilizar mímica/gestos, de acordo com a temática da canção;

• construir movimentos e sons com o corpo (expressão dramática e motora);

• interpretação das canções;

• trabalhar a expressão plástica: através da construção/desenhos sobre os temas cantados;

• exercícios e jogos musicais.

utilizar a voz (canto) e o corpo; sons do corpo; ritmo; melodia; andamento; imitação; timbre; estimulação da memória auditiva e rítmica; coordenação motora; dinâmicas (...) observação direta; participação colaborativa; narrativas; voz; corpo; música; captação de som e imagem.

Em cada canção, os estudantes puderam perceber que também é possível explorar diferentes conteúdos específicos da área da música, como as dinâmicas, o tempo, intensidade; ou ainda trabalhar diferentes formas de expressar quer o texto, quer a canção, ou fomentar atividades de improvisação.

Neste sentido, sobre esta questão, uma das canções expostas durante o seminário prático, intitulada Bolinha de Sabão (Figura 5. Adaptação para uma canção de embalar, por Isabel Castro) teve como principal objetivo criar um espaço dedicado à improvisação, imaginação e criatividade. Assim, após a aprendizagem da melodia, solicitou-se aos participantes a reinvenção de outras letras, para posterior interpretação. A tarefa foi realizada em grupos, havendo um período de tempo para as diferentes equipas se dedicarem à elaboração do exercício pedido. Após a produção dos textos, com outras letras adaptadas à canção, cada grupo expôs a sua parte. O resultado foi surpreendente, tendo sido construídos pequenos poemas que se juntaram ao texto original da canção de embalar ensinada, dos quais se transcrevem alguns:

“Veio um passarinho, e foi trabalhar

Ficou o dia inteiro, e assim adormeceu”

Refrão

“Bebé do coração, não chore hoje não

Mamã está a qui, para bem cuidar de ti”

(...)

Figura 5 Adaptação para uma canção de embalar, por Isabel Castro 

Procurou-se que os Seminários Temáticos representassem, além da partilha de experiências pedagógicas, uma forma de os estudantes envolvidos obterem outros conhecimentos teóricos e práticos com a finalidade de poderem replicá-los em diferentes contextos da sua atuação futura.

Entende-se que foram cumpridos os objetivos delineados e que as dinâmicas criadas permitiram o envolvimento dos participantes e a partilha de experiências, bem como a fruição estética e um excelente ambiente de trabalho.

Assim, as atividades realizadas, a partir da aprendizagem de canções e centradas no ato de cantar em português, funcionaram como uma ferramenta para construir diferentes saberes, bem como a aprendizagem de múltiplas competências. A forma lúdica como todo o processo decorreu, criou um ambiente no qual foi possível envolver todos os participantes, promover diferentes competências artísticas, quer ao nível da expressão de distintas linguagens, como ao nível da execução motora.

Para finalizar esta narrativa, creio que todos os dias durante os quais decorreram as atividades foram importantes, embora o primeiro e o último tenham sido, em minha opinião, os mais impactantes. No primeiro dia pairava a expectativa de como tudo iria acontecer e de que forma a minha partilha poderia ser importante para quem me recebeu. O último dia deixou alguma tristeza pela partida, um certo “sabor a pouco” por parte dos que me ouviram, pelo que regressei de coração cheio e com a certeza de ter cumprido a tarefa a que me propus.

Como nota final, partilho um dos comentários tecidos (e aqui transcritos a partir de um dos vídeos realizado durante a execução dos seminários) por uma das pessoas que frequentou os seminários:

“Para dizer a oportunidade. Para dizer à professora Isabel por ter estado connosco. Muitas coisas aprendemos na sala de aulas, mas isto aqui, é o que nós vamos implementar nas nossas salas. Inclusive hoje mesmo, o “Bom Dia”, vão cantar. Então, é o que precisamos. Um pouco de vivência às coisas. Não só dentro da sala, como o que vamos fazer. (...). Foi uma aprendizagem muito boa, obrigada!” (Maputo, agosto, 2024).

Conclusão

Na linha do que tem vindo a ser referido, entende-se que este género de seminários temáticos é importante para o estreitamento de laços entre as duas instituições, bem como enquanto uma forma de partilha de experiências musicais e formação pedagógica dos participantes.

Em relação aos seminários temáticos direcionados para o público da Escola de Artes da Universidade de Eduardo Mondlane entende-se que os principais objetivos da apresentação dos mesmos foram conseguidos.

Neste sentido, os dois primeiros seminários focaram essencialmente a relevância de construir projetos originais com base nas artes, mais concretamente na música, como forma de ligação à comunidade e distintos contextos. Mais se reforçou que a música pode ser uma importante ferramenta para envolver diferentes grupos sociais, fornecendo espaços de expressão, diálogo e resolução de diferentes situações, nomeadamente, capacitando os indivíduos e comunidades no seu todo, promovendo espaços e ambientes inclusivos, intervindo socialmente, fomentando a igualdade e oportunidades entre todos, estimulando a colaboração criativa e a troca de conhecimentos de forma holística.

Procurei ainda, a partir de alguns dos autores referenciados (Gordon, 2000a; Mota et al, 2002; Cruz, 2010, entre outros), salientar que as artes, e em particular a música, têm permitido ser “o objeto de pesquisa” em diversos âmbitos, como na Psicologia, na Peurociência, na Educação, na Antropologia, nos Estudos Musicais ou nos Estudos Culturais. A pesquisa nesses domínios tem vindo a observar os efeitos positivos das artes e da música, na saúde, no desenvolvimento cognitivo, na gestão das emoções, na aprendizagem e em outras áreas e vertentes. Através destes seminários, pretendeu-se também, salientar que a coexistência de ambientes onde as artes e a música acontecem, pode desempenhar um papel crucial na educação e na formação ao longo da vida, dado que auxiliam na estimulação da criatividade, da improvisação, da imaginação, da expressão pessoal e na capacidade de resolver problemas. Através de atividades alicerçadas nas artes e na música, onde aconteçam aulas abertas, oficinas práticas, workshops interdisciplinares, seminários temáticos, entre outros procedimentos, é possível desenvolver competências fundamentais, como por exemplo: trabalhar em equipa, fomentar a comunicação, promover o pensamento crítico, criar espaços lúdicos, ampliar o sentido estético, entre outras proficiências, vertentes e saberes. A criação de espaços onde as artes e muito especificamente a música, aconteçam pode “(...) levar os sujeitos a serem capazes de perceber, ver, sentir, apreciar, e produzir (...)” (Carvalho et al, 2014, p.73) e estar na sociedade de uma forma mais humana, mais aberta e plena.

Nesta perspetiva de pensamento foi ainda meu propósito que as pessoas envolvidas compreendessem e observassem como, a utilização de canções, da voz e do corpo podem representar recursos importantes para trabalhar diferentes valências da área da música, no que concerne, por exemplo: à partilha da importância de cantar canções para diferentes públicos, principalmente crianças; à possibilidade de, a partir das canções, se poder criar diferentes atividades; ao desenvolvimento e despertar do interesse pelo ato de cantar; à promoção de espaços de educação/integração (musical/artística); à possibilidade de se construir/dinamizar projetos artísticos; ao processo de utilizar as canções como forma/ferramenta de trabalhar em/na/com a comunidade; ao desenvolvimento de uma forma de promover e propagar a língua portuguesa.

Para finalizar, parece-nos que os Seminários Temáticos apresentados por cada formador, bem como as atividades que foram realizadas, permitiram construir caminhos fundamentais para criar espaços de aprendizagem em diferentes áreas e contextos; permitiram, através de fatores comuns – a música e a língua portuguesa – a partilha de diferentes processos e experiências pedagógicos como forma de estabelecer pontes e diálogos culturais e esbater fronteiras.

Outros Documentos consultadosDocumentos e despachos aprovados na criação da Escola de Comunicação e Artes e do Curso de Licenciatura em Música.

Referências

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Recebido: 16 de Julho de 2024; Aceito: 03 de Junho de 2025

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