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Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

versão impressa ISSN 2182-5173

Rev Port Med Geral Fam vol.41 no.1 Lisboa fev. 2025  Epub 28-Fev-2025

https://doi.org/10.32385/rpmgf.v41i1.14228 

Legado de medicina geral e familiar

O legado da Professora Isabel Santos: as pessoas

Bruno Heleno1 
http://orcid.org/0000-0002-3943-1858

Daniel Pinto1 

1 NOVA Medical School | Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa. Lisboa, Portugal.


A Professora Isabel Santos determinou o rumo da especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) em Portugal. Poucas pessoas pensaram mudanças tão drásticas e tão fundamentadas nas bases da especialidade: formação pré-graduada, pós-graduada, educação contínua e investigação. Da sua mentoria resultaram centenas de discípulos, entre estudantes, internos, especialistas, doutorandos, investigadores sénior, líderes e responsáveis por organizações de saúde e por políticas públicas. Pela sua ação direta e indireta temos hoje mais médicos em Portugal, sobretudo mais médicos de família.

A professora

Foi decisiva na formação de novos especialistas em MGF, primeiro como diretora-adjunta do Instituto de Clínica Geral, depois como coordenadora do Internato de Clínica Geral da Zona Sul durante uma década (1989-99) e novamente como coordenadora do Internato de MGF de Lisboa e Vale do Tejo (2014-16). Como Presidente do Colégio foi a última responsável pela reformulação do programa de formação do internato da especialidade (publicado em 2019). Implementou uma revolução na avaliação dos especialistas com a organização de uma prova escrita comum e uma padronização da avaliação prática de todos os júris da prova final de especialidade (2016-2022). Mais recentemente, em colaboração com José Augusto Simões e Victor Ramos, publicou o primeiro Manual Prático do Médico Orientador de Formação. Esta obra é uma referência sobre os fatores determinantes da aprendizagem, as técnicas pedagógicas e os métodos de avaliação na formação de médicos internos. O seu objetivo foi sempre alargar a formação de médicos de família para corresponder às necessidades da população e, ao mesmo tempo, pôr em prática sistemas que permitam certificar que um interno adquiriu as competências necessárias para se tornar especialista.

Na carreira académica aliou formação pré-graduada com o estímulo à investigação científica. Foi capaz de aliar competências pedagógicas (Mestre em Ciências da Educação, pela Universidade de Lisboa, em 1995) e científicas (Doutora em Medicina, pela Universidade Nova de Lisboa, em 2006). Foi responsável pelo ensino pré-graduado da MGF na Faculdade de Ciências Médicas, orientadora de três doutoramentos (Prof. José Mendes Nunes, Prof. Teresa Ventura e Prof. Daniel Pinto). Foi membro fundadora da EURACT (European Academy of Teachers in General Practice/Family Medicine) e da ADSO (Associação de Docentes e Orientadores de Medicina Geral e Familiar).

A pensadora

É fácil reconhecer-lhe o espírito de liderança, o gosto pelo debate de ideias e a capacidade de tomar decisões difíceis. Estas características ajudam a explicar como conseguiu provocar a mudança nos diferentes locais em que trabalhou. Seja na administração pública, na universidade, nos centros de saúde ou organizações profissionais, derrubou sucessivas barreiras, agilizando, racionalizando e simplificando.

A Professora Isabel Santos sabe onde quer chegar. Servir os doentes, a população e a MGF. Perspicaz, é capaz de olhar de forma abrangente para a situação do momento e ver onde estão as oportunidades para fazer a diferença. É determinada e estratégica na prossecução dos objetivos que traça. Construiu muitas equipas ao longo do seu percurso, identificando bem as pessoas, valorizando o trabalho e papel de cada elemento. E tem a habilidade rara de saber sair. Isto não se limita a saber quando os projetos ficam em boas mãos. Investe tempo em assegurar que a equipa partilha uma visão e valores, prepara a geração seguinte de líderes e assegura-se que estes têm uma rede de apoio para os momentos menos bons. Por fim, há a tenacidade. Tem uma enorme capacidade de trabalho, uma energia contagiante e uma capacidade de concretizar coisas.

Quem teve o gosto de trabalhar com a Professora Isabel Santos adjetiva o seu pensamento de criativo, divergente ou fora-da-caixa. É capaz de encontrar soluções inovadoras, mas simultaneamente realistas. E o seu pensamento brilha nas coisas que facilmente associamos à Prof. Isabel: discussão acesa, no confronto de argumentos, no vigor da discordância. Ao mesmo tempo, sempre criou condições para que os seus colaboradores possam expressar a sua opinião e argumentar por caminhos diferentes sem qualquer receio. Há neste pensamento um entusiasmo em aprender e evoluir. Há neste pensamento uma determinação e defesa feroz de causas importantes. A combinação de criatividade, inovação, entusiasmo e determinação inspira. Provoca mudança.

Tem um percurso de várias décadas em que nos demonstrou domínio sobre os assuntos em que se envolve. O seu raciocínio tem rigor lógico e parte de premissas bem fundamentadas, ora por prova científica ora por princípios éticos sólidos. Este rigor permite-lhe a exigência, para si e para os outros. E permite-lhe outra habilidade rara: tomar decisões difíceis. Reprovar o aluno que sempre passou a tudo com 9,5, mas em quem ninguém confia para cuidar de um familiar seu; ou resistir à pressão hierárquica, quando isso põe em causa valores éticos. Estas decisões difíceis só são possíveis a quem tem rigor e autoridade.

Há um terceiro elemento essencial que complementa a criatividade e o rigor. Os afetos. Sempre mostrou uma profunda atenção às emoções dos outros, especialmente em momentos de maior fragilidade. Mesmo quando as palavras têm de ser mais duras, nunca perdeu de vista a humanidade do outro. Tem a rara habilidade de dizer coisas difíceis preservando a dignidade de quem a ouve, sem humilhar. E com humildade foi capaz de reconhecer quando se excedeu. Este equilíbrio entre rigor e sensibilidade criou um ambiente de respeito, confiança e inspiração, permitindo-lhe liderar e concretizar coisas difíceis.

A cidadã

A Professora Isabel Santos sempre esteve disponível para exercer a sua cidadania, participando de forma voluntária em estruturas e organizações que contribuem para o bem comum. Entre 2009 e 2014 foi membro da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida, contribuindo para pareceres sobre temas relevantes para os cuidados de saúde primários. Destacam-se, entre outros, os pareceres sobre informação de saúde e registos informáticos, os projetos de lei relativos às Diretivas Antecipadas de Vontade e um Código de Ética para a Saúde.

Foi Presidente do Colégio da Especialidade de MGF entre 2018 e 2020. Durante o seu mandato destaca-se a simplificação dos processos de verificação da idoneidade formativa, com critérios atualizados, digitalização e incentivo à colaboração em rede. Foi definido o Perfil de Competências do Especialista, consolidando as bases da especialidade, e revisto o Programa de Internato, ajustando-o às necessidades atuais. Foram ainda estabelecidos tempos médios recomendados para as diferentes tipologias de consulta em MGF.

Mesmo depois da aposentação não deixou de querer contribuir como vogal do Conselho Regional Sul da Ordem dos Médicos (2020-2022). Nestas funções foi fulcral para o desenho de um curso para Orientadores de Internato Médico, o que é um marco na formação de formadores médicos. Esteve também profundamente empenhada na verificação da idoneidade formativa dos serviços médicos.

A mentora

Mais do que professora, é mentora. Sempre reconheceu e valorizou o potencial de quem com ela colabora, criando oportunidades e abrindo portas. Inspira, motiva, desafia e liberta, ajudando os outros a desenvolverem-se e a alcançarem o seu melhor. Liderou com uma visão clara do bem comum, confiando nos outros e promovendo o trabalho em equipa. Mesmo nos momentos mais exigentes, está presente, pronta a aconselhar com o muito que viu, ouviu, passou e refletiu. É um exemplo de dedicação desinteressada a causas maiores que si mesma e tem demonstrado que, quando se quer ver mudança, é preciso ser agente dessa mudança.

A sua mentoria estende-se para a atividade clínica. Quem a viu exercer, via uma médica que percebia além dos sintomas: era atenta para o indivíduo, o contexto e as entrelinhas de cada história. Via pelos olhos do outro, colocando o doente no centro de todas as decisões. Para além disso, tem estado sempre comprometida com o serviço público, com a qualidade dos cuidados de saúde, com os interesses dos doentes - sobretudo os menos favorecidos.

Quem a viu ensinar percebeu um respeito profundo pelos formandos, um apelo ao pensamento crítico e uma grande exigência, sobretudo no que toca ao profissionalismo médico. Mostrou que aprender é desafiar o que tomamos como certo e que a formação de médicos não se limita ao conhecimento e à técnica, mas exige um compromisso com a saúde dos doentes e da população. Sob a sua orientação, muitos cresceram não apenas como profissionais, mas também como pessoas.

O legado de Isabel Santos são gerações de médicos mais numerosas e bem preparadas. São aqueles que foram tocados mais de perto por si e agora procuram manter o seu legado. São os textos, os debates, as organizações e a cultura institucional que deixa. São as pessoas.

Agradecimentos

Este texto foi possível através de múltiplos contributos, recebidos ao longo dos últimos anos, em diversas homenagens à Professora Isabel Santos. Gostaríamos de agradecer a Alexandra Fernandes, Ana Rita Maria, Catarina Viegas Dias, Cecília Shinn, Gonçalo Envia, Helena Boavida, Jaime Correia de Sousa, José Augusto Simões, José Mendes Nunes, Luisa Sá, Luiz Miguel Santiago, Luís Pisco, Margarida Fázio, Maria João Martins, Maria João Queiroz, Nuno Jacinto, Raquel Batista Leite, Teresa Ventura, Victor Ramos e Yonah Yaphe. Algumas das melhores ideias deste texto vêm deles.

Recebido: 10 de Fevereiro de 2025; Aceito: 10 de Fevereiro de 2025

Endereço para correspondência Bruno Heleno E-mail: bruno.heleno@nms.unl.pt

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