1. Introdução
Nos últimos anos, temos presenciado a redescoberta e valorização do jornalismo local e regional no Brasil. Se antes pouco se ouvia falar das atividades jornalísticas fora das regiões metropolitanas do centro-sul do país, hoje cresce o interesse por conhecê-las, mapeá-las e explorá-las com mais atenção e profundidade. Afinal de contas, são as responsáveis pela cobertura de uma cidade ou região específica.
Esse interesse não é recente. Os estudos de Dornelles (1999) e, mais tarde, de Pinto (2015), Deolindo (2016) e Aguiar (2016), por exemplo, demonstram a preocupação da academia em estudar o jornalismo local e regional no país. O que é recente nos estudos são as contribuições da geografia, introduzidas no campo da comunicação nacional pelo GP Geografias da Comunicação1. Nos 10 primeiros anos de existência, o grupo de pesquisadores brasileiros investiu de forma sistemática em pesquisas sobre cidade, fronteiras, territórios, jornalismo local, regional, regionalização, mídia do interior, conteúdo de mídia local, hiperlocal, fluxos de informação, cartografias, espaço digital, entre outros temas (Moreira, 2019).
Nesse cenário, chamou nossa atenção o fato de os “perímetros das metrópoles, depois das capitais de região ou de estado ( ... ) serem as partes mais visíveis na produção que une a geografia à comunicação” (Fadul & Moreira, 2019, p. 7). Situação que constatamos em nosso levantamento de teses e dissertações de jornalismo local e regional produzidas no país entre 2010 e 2020. A maior parte das investigações encontradas sobre o tema aborda veículos jornalísticos das capitais estaduais e da grande metrópole nacional de São Paulo (Reis, 2022b).
Diante dessa constatação, passamos a nos questionar sobre a realidade midiática das cidades médias2 não metropolitanas, situadas no interior dos estados. Quais meios de comunicação com produção jornalística existem nas cidades médias? Que tipo de produção jornalística realizam no cotidiano (local e/ou regional)? E nas pequenas cidades, há algum tipo de produção informativa ou elas dependem do conteúdo noticioso das cidades médias mais próximas?
Para responder a essas questões, realizamos uma pesquisa durante o curso de doutorado (Reis, 2022a) sobre a função do jornalismo praticado na cidade média de Imperatriz, localizada no sudoeste do Maranhão, no contexto da região em que está inserida, representada aqui por 18 cidades pequenas do entorno (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020)3. São elas: Amarante do Maranhão, Buritirana, Campestre do Maranhão, Cidelândia, Davinópolis, Estreito, Governador Edison Lobão, João Lisboa, Lajeado Novo, Montes Altos, Porto Franco, Ribamar Fiquene, São Francisco do Brejão, São João do Paraíso, São Pedro da Água Branca, Senador La Rocque, Sítio Novo e Vila Nova dos Martírios.
A opção por Imperatriz foi motivada pelo fato de ser: (a) uma cidade do interior, o que vai ao encontro do nosso interesse de pesquisa; (b) reconhecida e classificada como cidade média pela geografia, por meio dos estudos de Branco (2007), Trindade e Pereira (2007), Araújo (2016), Antero (2019) e da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (2019, 2020). Já a definição das cidades pequenas seguiu a matriz do documento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2020) - Regiões de Influência das Cidades: 2018.
A pesquisa partiu de duas hipóteses. A primeira hipótese é de que Imperatriz possui uma forte centralidade midiática que favorece o desenvolvimento de uma atividade jornalística especializada tanto na cobertura e atendimento das demandas locais quanto das regionais, oriundas das pequenas cidades da região de influência. Devido a isso, o jornalismo assume a condição de “influência regional”. A segunda hipótese é a de que as cidades pequenas da região de influência de Imperatriz são “desertos de notícias”, isto é, locais com acesso limitado a notícias e informações confiáveis e abrangentes capazes de atender as necessidades das comunidades e alimentar a base democrática local (Abernathy, 2016). Em função dessa condição, os moradores dessas cidades acabam recorrendo aos veículos jornalísticos de Imperatriz quando precisam informar algum fato ou reivindicar a solução de problemas locais.
Dito isto, este artigo sistematiza os principais resultados e discussões desta pesquisa mais ampla e apresenta o conceito de “jornalismo de influência regional”, concebido a partir dessa investigação. O artigo está dividido da seguinte forma: introdução, apresentação da fundamentação teórica sobre jornalismo local e regional, descrição dos procedimentos metodológicos, dos resultados da pesquisa e, por fim, a conclusão.
2. Leituras Sobre Jornalismo Local e Regional
Definir o que é “jornalismo local” e “regional” parece ser um dos principais desafios enfrentados por quem se aventura na “seara” desse campo de estudos, devido ao fato de as duas denominações terem em comum: “a maior proximidade geográfica dos fatos que reportam, com os leitores que privilegiam e com as fontes às quais dão voz; e a forte identidade sociocultural e político-econômica com os territórios que circulam” (Aguiar, 2016, p. 17). Diante dessa indefinição, apresentamos a seguir algumas reflexões de diversos pesquisadores sobre o assunto, de modo a entender e distinguir melhor cada uma das nomenclaturas.
A mídia e o jornalismo local, no entender de Gulyas e Baines (2020), “são pilares fundamentais na vida das comunidades em todo o mundo e desempenham papéis políticos e sociais significativos” (p. 1). São definidos, segundo os autores, por três características universais, encontradas em diferentes veículos jornalísticos, independentemente de qual país ou parte do mundo em que estão localizados: (a) o contexto geossociopolítico, (b) o relacionamento com a comunidade, e (c) a posição em ecossistemas de macromídia. Além disso, examinam e responsabilizam o governo local e os serviços públicos (The Digital, Culture, Media and Sport Committee, 2023), informam e orientam a população sobre o que se passa na cidade, seja grande ou pequena, nos âmbitos da saúde, da política, da economia, da educação, entre outras áreas (Deolindo & Curvello, 2023). Em outras palavras, atuam na produção de informação de proximidade (Peruzzo, 2005). De outro modo, o jornalismo local foi associado ao longo dos anos aos meios de comunicação tradicionais (jornais impressos, emissoras de rádio e televisão). Mas com a chegada da internet e das novas mídias, o digital passou a ser cada vez mais o lugar do jornalismo local. Nesse ambiente, tem enfrentado diversos desafios, e, ao mesmo tempo, vislumbrado boas perspectivas para sua prática e modelo de negócios.
Um dos principais desafios para os meios locais, especialmente os jornais impressos, é a sustentabilidade financeira no digital, pois nesse ambiente o modelo de negócios é outro. Enquanto no modelo tradicional, os jornais tinham na publicidade e venda do produto duas fontes de receitas bem consolidadas, no digital, os veículos ainda buscam e testam estratégias de financiamento, com o objetivo de garantir a sua sobrevivência no novo espaço. É o caso dos paywalls, crowdfundings, doações, serviços de valor adicionado, entre outros (Casero-Ripollés, 2010; Costa, 2014).
Mesmo com essas e outras alternativas econômicas, nos últimos anos, o modelo de negócios dos meios locais “foi demolido pela transição digital, o surgimento de plataformas e agregadores de notícias e as sucessivas crises econômicas” (Jerónimo & Esparza, 2022, p. 5). Isso forçou o fechamento progressivo de muitos veículos locais em várias partes do mundo e a formação dos “desertos de notícias” (Abernathy, 2016; Projor, s.d.), comunidades sem veículos jornalísticos e acesso a notícias e informações do lugar onde vivem.
Além dessas situações, a desinformação emerge como um outro desafio a ser enfrentado pelo jornalismo local nos dias atuais. De acordo com Jerónimo e Esparza (2022), a escassez de recursos e fontes confiáveis em torno da informação local faz com que a desinformação prolifere facilmente em locais mais afastados dos grandes centros. Nesse contexto, os meios locais adquirem um papel central no combate à desinformação, podendo incluir rotinas de fact-checking, reportagens em profundidade e a colaboração de membros ativos da comunidade no processo de verificação da informação (Jerónimo & Esparza, 2022; Torre & Jerónimo, 2023).
Por outro lado, muitos autores (como, por exemplo, Meulenaere et al., 2020) apontam o hiperlocalismo como o futuro da mídia e do jornalismo local. Estes autores consideram a mídia local como algo do passado devido à crise financeira e ao fechamento de veículos. O vazio deixado na reportagem local, conforme os autores, está sendo preenchido hoje por várias novas iniciativas, chamadas de “mídias hiperlocais”. São iniciativas nativas digitais (sites, blogs ou redes sociais) que fornecem notícias e informações intensamente “locais”, relacionadas a um município, bairro ou, até mesmo, uma única rua (Hess & Waller, 2019).
Fora essas discussões, é interessante destacar que o jornalismo local pode adquirir denominações específicas a depender do país. Em Portugal, por exemplo, é chamado, por alguns autores (Camponez, 2002; Jerónimo, 2015), de “jornalismo de proximidade”, por estar fortemente conectado a um território e às comunidades. No Brasil, pode ser chamado de “jornalismo do interior”, ao tratar da realidade de cidades de médio e pequeno porte, situadas tanto na parte interna dos estados, quanto no litoral e na fronteira entre estados (províncias, em alguns casos) ou na divisa de países. Neste espaço, segundo observado por Assis (2013), o jornalismo é produzido com particularidades de organização, estrutura e modos de fazer decorrentes de sua demarcação territorial e, por consequência, da realidade que o circunda. Dessa forma:
fazer jornalismo no interior não consiste apenas em reproduzir padrões comuns aos grandes centros, mas um exercício que se dedica a encontrar as melhores maneiras - estratégias - para agir em cada realidade. Suas estruturas, suas rotinas, seus agendamentos, sua recepção e até mesmo os efeitos provocados pela informação de atualidade exibem, nesse âmbito, dinâmicas consideravelmente diferentes das identificadas em cenários nacional ou internacional. O lugar, por certo, condiciona o fazer jornalístico. (Assis, 2013, p. 3)
Esta visão é apoiada por Dornelles (2013), quando escreve que a geografia desempenha um papel determinante na definição da informação local. Para demonstrar isso, a autora comenta que a circulação estrategicamente localizada de um jornal do interior em determinada região restringe, naturalmente, o lugar de produção e de cobertura dos acontecimentos, os conteúdos locais, a informação disponível, o interesse do público local e, especialmente, a economia da região por onde circula.
Em relação ao termo “regional”, percebemos que é empregado pelo menos de quatro modos diferentes nos estudos de jornalismo. O primeiro deles, que também se aplica nas expressões “local”, “interior” e de “proximidade”, corresponde ao espaço fora dos grandes centros urbanos ou metropolitanos. Segundo Hanusch (2015),
jornalismo “regional” ou “rural” são termos usados em discussões de jornalismo fora dos centros metropolitanos e muitas vezes significam uma versão “menor” do jornalismo praticado nas grandes cidades, com poucas, ou nenhuma, característica distinta além do tamanho e escopo de seu público. (p. 817)
A segunda forma de uso do termo “regional”, nas pesquisas de jornalismo, está atrelada à noção geográfica da “escala da região”, isto é, “uma entidade espacial maior que uma cidade ou município e menor que um país, ou, em todo caso, como uma categoria que se refere a um espaço ‘intermediário’ entre local e o nacional ou global” (Souza, 2013, p. 145). Neste sentido, o jornalismo regional é entendido como uma prática que acontece em uma microrregião, mesorregião, em um estado ou macrorregião (Aguiar, 2016).
De outra maneira, alguns estudos e publicações sobre mídia e jornalismo empregam a expressão “regional” com o sentido geográfico de “região funcional ou polarizada”, em que uma cidade organiza e comanda outros centros urbanos de menor porte através do seu papel comercial e da prestação de serviços (Haesbaert, 2019). Nessa linha, a produção News in Australia: Diversity and Localism (Notícias na Austrália: Diversidade e Localismo), desenvolvida pelo Centre for Media Transition (2020), define a mídia regional como “aquela que atende a várias comunidades menores, e geralmente está localizada em uma cidade regional maior” (p. 57).
Em último caso, o regional aparece nas pesquisas relacionado aos processos de regionalização, ou seja, aos recortes/delimitações espaciais criados pelas empresas de mídia “para produzir, gerir e/ou representar seu espaço de forma articulada, em função de seus próprios interesses” (Haesbaert, 2014, p. 190). Com base nesse entendimento, Aguiar (2016) explica que os movimentos de intervenção da mídia no espaço geográfico resultam em dois tipos diferentes de regiões: as “jornalísticas” e as “midiáticas”.
Os espaços que servem de referência para as mediações entre os acontecimentos e as audiências, operadas pelos jornalistas, configuram as “regiões jornalísticas”; e os recortes espaciais que servem de referência para a atuação mercadológica dos jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e portais de notícias operadas por empresas ou grupos midiáticos são chamados de “regiões midiáticas”. (Aguiar, 2016, p. 120)
Dialogando com essa percepção, Moura Filho (2014) comenta que a regionalização da mídia ocorre de duas formas: uma física e outra de conteúdo. A regionalização física corresponde “à expansão dos meios de comunicação às áreas mais longínquas e/ou interioranas de determinada região, mediante investimentos estratégicos visando concretizar o alcance midiático na referida área geográfica” (Moura Filho, 2014, p. 20). Já a regionalização dos conteúdos “trata da abordagem de questões regionais no dia a dia da rotina produtiva dos meios de comunicação, valorizando aspectos culturais, costumes, hábitos e problemas vinculados à população pelo viés de proximidade” (p. 20).
Somado a conceitos, a literatura oferece outras definições para distinguir geograficamente as práticas jornalísticas. É o caso do jornalismo metropolitano (Kramp, 2016) e em pequenas cidades (Örnebring et al., 2020). Alinhados a esse conjunto de estudos, que atualiza as denominações geográficas da prática jornalística a partir dos lugares, estudamos o jornalismo em cidades médias e propomos uma definição para seu desenvolvimento.
3. Metodologia
Para a realização desta pesquisa adotou-se uma abordagem metodológica híbrida, combinando procedimentos quantitativos e qualitativos distribuídos nas quatros etapas a seguir: (a) mapeamento dos veículos de comunicação, (b) entrevistas com jornalistas, (c) aplicação de questionários de consumo de notícia e (d) análise de conteúdo.
O mapeamento dos veículos de comunicação foi desenvolvido por meio de uma pesquisa exploratória (Gil, 2002) em duas frentes: na cidade de Imperatriz (Maranhão) e nas 18 cidades pequenas da sua região de influência. No caso de Imperatriz, esta etapa se subdividiu ainda em dois momentos: levantamento dos veículos de comunicação e recolhimento de informações sobre o alcance da produção jornalística dos veículos mapeados. O primeiro momento aconteceu entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019 e consistiu na busca de jornais impressos, emissoras de rádio AM, FM e comunitárias de baixa potência, emissoras de televisão, sites de notícias locais em funcionamento.
A segunda fase do mapeamento em Imperatriz teve início em fevereiro de 2019 e foi realizada por meio do contato (por telefone e pessoalmente) com os departamentos comerciais dos veículos imperatrizenses para solicitar informações sobre a área de cobertura/ distribuição e a programação (no caso de rádio e televisão). Com o material conseguimos traçar um panorama das atividades jornalísticas e verificar a direção dos fluxos informativos.
O mapeamento dos meios na região de Imperatriz foi feito no período pré-pandemia, entre 2018 e 2020, por meio de visitas presenciais aos municípios em virtude da dificuldade de encontrar na internet informações sobre os veículos de comunicação ali existentes.
As entrevistas com os jornalistas foram realizadas de modo presencial, entre os meses de fevereiro e março de 2019, na cidade de Imperatriz. Os entrevistados foram 17 jornalistas que trabalhavam nas redações dos dois jornais impressos existentes na época da pesquisa (Correio e O Progresso) e de três emissoras de televisão da cidade (TV Mirante - afiliada da Globo; Nativa - afiliada da Rede Record; e TV Difusora Sul - afiliada do SBT). Organizamos a amostra dos entrevistados a partir do seguinte critério: jornalistas inseridos em empresas com uma redação básica (mínima) e produção diária de conteúdo. O intuito foi entrevistar jornalistas de diferentes perfis profissionais: (a) com e sem formação em jornalismo; (b) com tempo distinto no exercício da profissão; (c) envolvimento diferente na produção de notícias - repórteres, apresentadores, editores, produtores e cargos de direção.
As entrevistas seguiram o formato semiestruturado (Martino, 2018), com a utilização de um roteiro com 14 questões envolvendo o sistema de opiniões sobre as notícias locais e regionais, motivações e experiências no processo de seleção, tematização e cobertura jornalística dos municípios da região de Imperatriz. Os resultados das entrevistas foram agrupados em duas categorias analíticas: (a) classificação da notícia e (b) rotinas de trabalho na cobertura regional.
A aplicação de questionários de consumo de notícia foi realizada com moradores de Imperatriz e de duas cidades pequenas do entorno - Lajeado Novo (6.923 habilitantes) e Ribamar Fiquene (7.318 habitantes; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2010). Optamos por selecionar apenas duas cidades do entorno imperatrizense em virtude do modelo de aplicação adotado (entrevista), que demanda um tempo maior e uma equipe para aplicação (Novelli, 2005). O critério utilizado para a escolha das cidades foi o tamanho populacional - selecionamentos as duas cidades da zona de influência com menor população. Quanto ao tamanho da amostra, definimos a participação de 100 moradores (com idade mínima de 16 anos) para cada um dos três municípios investigados nesta etapa do estudo. Trata-se de uma amostra não-probabilística, por julgamento ou intencional (Babbie, 1997/2003). Desse modo, foram aplicados 100 questionários em cada munícipio, totalizando 300 respostas ao final do estudo. O questionário, formado por 22 perguntas abertas e fechadas, foi aplicado entre 2018 e 2019 de forma presencial e preenchido pela própria pesquisadora.
Na análise de conteúdo - com base na perspectiva de Herscovitz (2008), voltada para produtos jornalísticos -, foram analisadas matérias veiculadas por dois telejornais e o veículo impresso da cidade: JMTV 1ª Edição (TV Mirante), Na Hora D (TV Difusora Sul) e o jornal O Progresso, entre os dias 10 e 14 de fevereiro de 2020. O corpus do estudo foi constituído por 196 notícias, sendo 56 do JMTV 1ª Edição, 44 do Na Hora D e 96 do jornal O Progresso. Optamos por analisar dois produtos televisivos pelos seguintes motivos: (a) “a televisão ainda é, no Brasil, o meio que permite o acesso mais amplo à informação” (Pontes & Silva, 2012, p. 55); (b) as retransmissoras de televisão na Amazônia Legal possuem uma legislação específica que permite a exibição de produções locais; e (c) as emissoras de televisão em Imperatriz apresentam as melhores estruturas de redação dentre as mídias mapeadas na cidade. Assim, para compor a análise, escolhemos as duas emissoras de televisão mais antigas em atuação no Maranhão e em Imperatriz. Quanto aos programas, priorizamos os telejornais exibidos ao meio-dia nos dois canais televisivos - JMTV 1ª Edição, da TV Mirante, e Na Hora D, da TV Difusora Sul. O jornal impresso O Progresso foi selecionado por ser o único em circulação no município.
Seguindo o protocolo da análise de conteúdo jornalístico, foram definidas cinco categorias de análise: (a) tipo de notícia; (b) tema; (c) valores-notícia; (d) origem da informação; e (e) fontes jornalísticas. A primeira delas compreende a escala geográfica da notícia criada a partir de entrevistas com os jornalistas imperatrizenses. A segunda refere-se aos tipos de assuntos que recebem mais cobertura noticiosa das empresas de jornalismo. A terceira (valores-notícia) são os atributos próprios ou características típicas que tornam um acontecimento noticiável. A quarta categoria indica a procedência da matéria, ou seja, se resulta do processo de apuração dos jornalistas da redação, de divulgação de releases ou vinda de outros veículos. E a quinta identifica as vozes que falam nas matérias jornalísticas.
A coleta dos dados foi realizada em uma planilha no Excel, seguindo as instruções do livro de códigos. Em seguida, as informações foram exportadas para o software Statistical Package for the Social Sciences, para gerar gráficos e tabelas com as frequências e cruzamentos entre as categorias investigadas.
4. Por um Jornalismo de Influência Regional
A proposição evidenciada neste espaço busca construir um entendimento do jornalismo regional não apenas como um contraste ao noticiário/jornalismo nacional ou como uma prática isolada e supervalorizada (Pinto, 2015), mas como um jornalismo de influência, que se torna referência para as pequenas cidades de uma região.
Para melhor explorar essa ideia, fazemos a triangulação dos achados da pesquisa empírica em Imperatriz, no Brasil, e nas 18 cidades pequenas da sua área de influência (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020). Agrupamos os resultados em torno de três eixos principais: (a) infraestrutura de mídia; (b) produção de informação local; e (c) consumo de notícias - com o intuito de perceber a centralidade midiática e a importância do jornalismo imperatrizense no seu entorno regional.
A infraestrutura de mídia corresponde aos sistemas técnicos utilizados para a distribuição de informação no território. Em Imperatriz, esse tipo de infraestrutura está presente desde a década de 1930, por meio dos jornais impressos, mas só se consolidou a partir dos anos 1970, com o desenvolvimento econômico da cidade e a instalação das mídias audiovisuais (emissoras de rádio e televisão). No caso das pequenas cidades, as mídias se estabeleceram, de modo geral, a partir de 1990, apresentando descontinuidades no seu funcionamento ao longo do tempo.
A infraestrutura de mídia imperatrizense, comparada à das pequenas cidades, apresenta maior influência no contexto regional por apresentar “firmas de alta ordem de especialização da produção, no caso as emissoras de TV aberta, jornais diários, emissoras de rádio FM” (Deolindo, 2016, p. 171). O jornal impresso e as redes de televisão aberta são fatores considerados pelo estudo Regiões de Influência das Cidades: 2018 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020) para estabelecer a centralidade das cidades em relação aos fluxos informacionais emitidos e recebidos nos centros urbanos.
O município onde se localiza a sede da geradora de televisão e de cada uma de suas afiliadas figura, via de regra, entre aqueles com maior centralidade em sua área, devido à necessidade de haver facilidades tecnológicas locais, tais como a cobertura por linhas de transmissão que permitam a retransmissão do sinal, a presença de equipes técnicas especializadas em suporte e manutenção vinculadas às emissoras, além do potencial econômico e social, este último vinculado, sobretudo, à publicidade e aos mercados regionais. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020, p. 123)
Nas pequenas cidades, as mídias são de baixa ordem (Deolindo, 2016), ou seja, são estruturas mais simples tecnicamente, de baixo custo de operação e passíveis de serem encontradas em centros urbanos de todos os níveis hierárquicos. São classificadas neste estudo em três tipos: (a) analógicas “artesanais” - sistemas de alto-falantes fixos instalados em torres (voz) ou em postes de energia elétrica (rádios cipós); (b) analógicas “tradicionais” - rádios comerciais, rádios comunitárias e jornais impressos mensais; e (c) digitais - webrádios, blogs, portais de notícias, canais no YouTube e jornais por WhatsApp.
Os resultados de infraestrutura confirmam a observação de Deolindo (2016): as mídias mais sofisticadas e complexas estão sediadas em cidades de maior nível hierárquico “com maior demografia, arrojo econômico, um mercado dinâmico e um contexto sólido de produção técnica, cultural, intelectual e artística, além de uma tradição de produção midiática” (p. 275). Essas características foram encontradas em Imperatriz, mas não nas pequenas cidades do entorno.
Em relação aos fluxos produzidos pelas mídias (os fixos), observamos que os de Imperatriz, sobretudo os produzidos pelas emissoras de rádio e televisão, conferem centralidade à cidade, pois extravasam os limites do seu território e do próprio estado, atingindo as regiões central, sudoeste e sul do Maranhão, extremo norte do Tocantins e sudeste do Pará. Este alcance coincide com o dos fluxos do comércio atacadista e varejista, dos serviços de saúde e de educação superior de Imperatriz (Sousa, 2015) e corrobora com a formação da área de influência compartilhada entre Imperatriz e Araguaína, no Tocantins. Segundo Antero (2019), “Imperatriz, adentra área de influência de Araguaína no extremo norte do Tocantins, entre Araguatins, Augustinópolis, Axixá do Tocantins, Buriti do Tocantins, Cachoeirinha, Carrasco Bonito e Esperantina” (p. 9).
É importante ressaltar que os fluxos informativos das mídias de Imperatriz correspondem a um “alcance potencial”, ou seja, a possibilidade técnica de circulação estimada pelas rádios, televisões e jornal impresso. Se olharmos para a circulação efetivamente realizada no território, o “alcance territorial”, provavelmente esta será menor (Pasti, 2013). Mesmo assim, isso não diminui a relevância de Imperatriz na região estudada, tendo em vista que os fluxos gerados pelas pequenas cidades, principalmente pelas rádios cipós (ou rádios postes) e emissoras comunitárias, possuem um alcance estritamente local.
A produção de informação local compreende a elaboração de mensagens sobre acontecimentos, personalidades e assuntos de interesse das comunidades. Neste quesito, os dados convergem, confirmando a hegemonia de Imperatriz na região. A cidade é a única com redações jornalísticas estruturadas, sobretudo as emissoras de televisão, profissionais formados em jornalismo ou com longa experiência de mercado e produção diária de conteúdo jornalístico, em diferentes formatos - notícias, entrevistas, reportagens, entre outros.
Além destes aspectos, a produção imperatrizense consegue contemplar notícias locais, de interesse apenas para seus moradores, e também notícias que interessam e afetam os sujeitos das cidades pequenas da região, com notícias locais-regionais ou “polarizadoras”. Geralmente, são informações relacionadas a serviços e instituições instaladas em Imperatriz, que atendem à população da região, eventos capazes de atrair pessoas do entorno regional para Imperatriz e atividades esportivas com implicações afetivas e ideológicas sobre as pessoas de outras cidades.
Nesse contexto, observa-se que os acontecimentos próprios das pequenas cidades da região tendem a ocupar um lugar secundário na agenda midiática de Imperatriz, sendo noticiados apenas em casos extremos - como mortes, assaltos, acidentes, entre outros. Tal situação revela um processo de invisibilização dos menores centros, que, embora componham a região, não conseguem acessar a mesma visibilidade, relevância ou recorrência na produção noticiosa imperatrizense.
Por esse caminho, observa-se que temas como cultura, trânsito, educação e meio ambiente recebem cobertura menor na imprensa de Imperatriz, enquanto assuntos relacionados à política e polícia são colocados no centro da atenção pública. Essa hierarquização temática acompanha uma tendência observada em outros veículos do interior brasileiro, marcada pela valorização positiva do staff governamental e legislativo nas matérias e pela ênfase na cobertura de crimes (Dornelles, 2013).
Tendo em vista esse padrão temático, as fontes populares e testemunhais acabam sendo invisibilizadas nas matérias jornalísticas e as fontes oficiais privilegiadas, o que reforça uma lógica informativa centrada em vozes institucionais e oficiais.
A cobertura regional, apesar de enfrentar dificuldades com os deslocamentos até as cidades, está presente no cotidiano das mídias imperatrizenses, facilitada pelo WhatsApp, que favorece o processo de apuração e construção da notícia à distância, por meio de mensagens de texto, áudios, vídeos e fotografias, conforme comentam os jornalistas:
muita coisa a gente recebe hoje pelo WhatsApp. ( ... ) O próprio público, quando é uma denúncia, entra em contato com a gente pelo aplicativo e solicita uma equipe. Não vou muito longe, semana passada nós fizemos uma reportagem, não fui eu, foi a colega que foi em Montes Altos para cobrir um açude que embarreirou em determinado ponto, que ia cortar uma estrada importante para o escoamento da produção agrícola e para a passagem de fazendeiros com gado. ( ... ) Ficamos sabendo dessa situação porque os moradores mandaram vídeos por WhatsApp para a gente. Nós até poderíamos dar a informação só com os vídeos, mas enviamos a equipe para a cidade. (Jornalista 14, TV Mirante, comunicação pessoal, 19 de fevereiro de 2019)
Com o WhatsApp, recebemos várias demandas de outras cidades que a gente nem imagina que o sinal da TV Difusora Sul chega. Por exemplo, Sítio Novo do Maranhão estava há mais de 10 dias sem água no mês passado, e os moradores de lá mandaram vídeos das pessoas carregando os baldes de água. Por meio desse vídeo, o apresentador fez o comentário no jornal, cobrou providências e o prefeito da cidade entrou em contato com a gente e deu a resposta. (Jornalista 12, TV Difusora Sul, comunicação pessoal, 12 de fevereiro de 2019)
Na produção regional, percebemos, tanto nos relatos dos jornalistas entrevistados quanto na análise de conteúdo, o papel de mediação das reivindicações das pequenas comunidades. Os veículos jornalísticos de Imperatriz, especialmente as televisões, são vistos pelos moradores das cidades vizinhas como verdadeiros fóruns regionais, onde é possível relatar problemas e cobrar soluções dos poderes públicos ou entidades responsáveis.
Por outro lado, a produção de informação local nas pequenas cidades é precária e praticamente inexistente. As rádios comunitárias transmitem mais a exibição de músicas, programas religiosos, prestação de serviços e reprodução de conteúdo informativo coletado em agências de notícias, sites e blogs regionais e nacionais. A informação local, quando existe na programação, é aquela que chega até aos comunicadores via WhatsApp e é informada de modo improvisado, às vezes sem apresentar sequer o lead completo, contextualização, apuração, fontes e outros elementos da notícia.
As rádios cipós funcionam como serviços de publicidade, com prestação de serviços (documentos perdidos, notas de falecimento, divulgação de eventos, recados para moradores da área rural, etc.) e músicas. A informação local, assim como nas emissoras comunitárias, quando chega aos locutores é transmitida de maneira bem simples, sem uma estrutura e tratamento jornalístico.
Nos blogs, um dos meios mais presentes nas pequenas cidades, prevalecem as reproduções de releases e notícias de sites regionais e nacionais. As informações locais apenas divulgam as ações dos gestores e da administração pública, situação oriunda das vinculações políticas que os blogueiros possuem com as prefeituras e câmaras municipais.
Por essas situações, que interferem na qualidade da informação local, consideramos as pequenas cidades da região de influência de Imperatriz como “desertos de notícias”, conforme o conceito de Abernathy (2016). São locais que, apesar de infraestrutura de mídia, não produzem notícias nem conteúdo informativo capaz de atender às necessidades específicas da comunidade, de contribuir para a compreensão da realidade local e reforçar ou formar identidades culturais (Peruzzo, 2003).
Convém destacar que esta constatação contraria a classificação do Atlas da Notícia (Projor, s.d.), que considera, por exemplo, Amarante do Maranhão, João Lisboa, Governador Edison Lobão, Cidelândia, São Francisco do Brejão, como “quase desertos de notícias” por possuírem um ou dois veículos jornalísticos em seus territórios. Essa presença é quantitativa, mas não qualitativa, porque não garante conteúdo informativo resultante da prática jornalística.
O consumo de notícias é o momento em que o público tem acesso às mensagens informativas produzidas pelas mídias. É considerado por Sposito et al. (2007) como um dos aspectos fundamentais para pensar os papéis regionais e de intermediação das cidades médias.
Nesse aspecto, os principais pontos em comum no consumo de notícias das cidades de Imperatriz, Lajeado Novo e Ribamar Fiquene são: (a) a televisão é o principal meio de acesso à informação, seguida pela internet, rádio e jornal impresso; (b) a internet é o meio com maior frequência e regularidade de uso; (c) os celulares e as redes sociais são os dispositivos e as plataformas mais adotadas pelos entrevistados para consumir informação na internet; (d) a rádio é a mídia de maior proximidade, já que as emissoras ouvidas são locais ou regionais; (e) os aparelhos tradicionais são os dispositivos preferidos para consumo de conteúdo radiofônico; e (f) a maioria dos leitores de jornal ainda prefere a versão impressa em papel, em vez da digital.
A origem dos telejornais, programas de rádio, sites/blogs e jornais impressos acessados pelos entrevistados mostrou que Imperatriz é uma das principais referências no consumo de informação de proximidade. Em todos os quatro itens, as produções imperatrizenses foram indicadas pelos moradores, com destaque para os programas radiofônicos e sites/blogs. O consumo dos telejornais imperatrizenses apareceu de forma inexpressiva nas cidades de Lajeado e Ribamar devido aos problemas de acesso ao sinal das televisões, enquanto na própria cidade de Imperatriz, onde são produzidos, o acesso acontece com mais facilidade. Os jornais impressos editados em Imperatriz prevalecem entre os títulos lidos pelos moradores das três cidades investigadas.
Em relação às notícias que mais interessam aos moradores das cidades de Lajeado, Ribamar e Imperatriz, percebemos uma correlação entre a produção de informação e a preferência noticiosa dos moradores. Nas duas pequenas cidades, com uma produção de informação local limitada, as notícias nacionais são as que mais interessam. Já em Imperatriz, que possui produção informativa diária, as notícias locais são as que chamam mais atenção e despertam maior interesse dos entrevistados.
Os meios de acesso à informação local são também diferentes entre as pequenas cidades e a cidade média. Em Lajeado Novo e Ribamar Fiquene, a conversa informal é a forma mais utilizada pelos moradores para saber dos acontecimentos locais, enquanto em Imperatriz, a televisão, por meio dos telejornais, é o principal veículo de informação local. Esses resultados, assim como os da preferência noticiosa, podem estar associados à presença de produção informativa nas cidades.
A configuração de Imperatriz como um polo regional de notícias foi reconhecida pela maioria dos entrevistados de todas as cidades, estando relacionada às seguintes características: (a) tamanho demográfico, (b) quantidade e diversidade de meios de comunicação, (c) quantidade e qualidade das notícias, e (d) recebimento e distribuição de fluxos de informação de Imperatriz para a região. Neste último aspecto, notamos uma expressiva manifestação dos fluxos imperatrizenses nos grupos de WhatsApp das pequenas cidades apontados por seus moradores, o que vale outro estudo mais aprofundado sobre isso futuramente.
Com base na triangulação dos dados em torno da infraestrutura de mídia, produção de informação e consumo de notícias, concluímos que a cidade média de Imperatriz possui centralidade midiática devido ao contexto regional em que está inserida, de baixa densidade demográfica, econômica e produções informacionais débeis. Tal arranjo favorece o desenvolvimento de uma atividade jornalística particular na cidade média, com destaque e comando perante os pequenos centros urbanos da região. Se trata aqui do jornalismo de influência regional, caracterizado como:
Lócus da produção de “notícias polarizadoras”, que envolvem ou afetam moradores das pequenas cidades do entorno regional;
Produtor de notícias sobre as cidades que estão na sua região de influência e que normalmente não são pautadas pelos meios de comunicação das capitais estaduais ou nacionais;
Fórum regional, responsável por fazer a mediação das demandas e reivindicações das pequenas comunidades da região de influência;
Referência para o consumo da “informação de proximidade”, que expressa as especificidades, o cotidiano, histórias e necessidades da região;
Canal de intermediação das informações produzidas por agências, assessorias e veículos jornalísticos de cidades do estado, do país e do mundo.
5. Anotações Finais
Ao investigar a função do jornalismo na cidade média de Imperatriz (Maranhão) no contexto regional, confirmamos a primeira hipótese da centralidade midiática a partir da concentração e consolidação da infraestrutura de mídia ao longo do tempo na cidade e o desenvolvimento do “jornalismo de influência regional”.
A ação de elites locais (empresários e políticos) associada à “necessidade social por notícia” impulsionou a instalação das atividades midiáticas em Imperatriz, culminando com a paisagem contemporânea de 18 serviços de mídia distribuídos entre: oito estações de rádio, seis emissoras de televisão, três sites de notícias e um jornal impresso. Em função desta elevada oferta estabelece-se uma rede de fluxos informativos (rádio, televisão, impresso e internet) em direção às cidades pequenas do Maranhão, Pará e Tocantins.
O estudo Regiões de Influência das Cidades: 2018 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020) indicava parte da centralidade midiática de Imperatriz ligada à presença de jornais impressos diários e afiliadas a redes nacionais de televisão, pressupondo a presença de atividades jornalísticas dentro dessas infraestruturas. Nesta investigação, ao identificar e caracterizar os serviços midiáticos da cidade média em questão, o jornalismo deixa de ser uma suposição para ser um dado de realidade. Embora possa parecer uma obviedade, o estudo não se aprofunda nas atividades especializadas em produção de notícia. Antes disso, a incursão pelos estudos geográficos com cidades médias já sinalizava os papéis regionais de intermediação e distribuição de bens e serviços para a redondeza. Há todo um saber acumulado sobre as potencialidades das cidades médias no contexto regional, porém sem explorar os serviços de mídia e a produção jornalística. Diante esta lacuna, argumentamos que as cidades médias funcionam como locais de referência de mídia/jornalismo para a região a partir da produção de notícias e do consumo da informação de proximidade. Ao seguir esta perspectiva, percebemos que nos estudos de jornalismo local e regional, a cidade (independente da classificação geográfica) não é um referencial bem explorado em suas funcionalidades urbanas, aparecendo mais como um dado de localização e não como um elemento capaz de gerar implicações para a prática jornalística.
Quando forjamos uma estratégia metodológica na comunicação para explorar tais percepções, descobrimos nas cidades médias uma atividade jornalística especializada em: (a) produção simultânea de notícia local e regional, a qual denominamos “notícia polarizadora” justamente pela capacidade de impacto na população do entorno; (b) realização da cobertura noticiosa da região de influência; (c) mediação das demandas e reivindicações das pequenas comunidades; (d) oferecimento da informação de proximidade para o consumo da região; e (e) intermediação de fluxos informativos produzidos por outros centros urbanos. Todas essas características, juntas, dão forma a um jornalismo com potencial de atuação diferenciado no contexto fora das regiões metropolitanas, que denominamos “jornalismo de influência regional”.
O uso do termo “influência regional” busca qualificar uma modalidade de jornalismo que se diferencia tanto do jornalismo local - restrito às dinâmicas do município - quanto do jornalismo regional tradicional, característico de cidades situadas em microrregiões, mesorregiões, estados ou macrorregiões, cuja produção noticiosa ultrapassa os limites territoriais do município de origem para contemplar informações relevantes a outras localidades da região (Aguiar, 2016; Reis, 2018). A terminologia também remete ao papel estratégico que o jornalismo praticado em cidades médias não metropolitanas assume ao estar inserido em um contexto de escassez de notícias e acesso precário à informação local, como se observa nas cidades do entorno de Imperatriz. Ou seja, mais do que pautar outras localidades da região, o jornalismo de influência regional torna-se uma referência informativa para as pequenas comunidades, suprindo lacunas estruturais deixadas pela ausência de produção local.
Do ponto de vista das cidades pequenas, confirmamos a hipótese de que os 18 centros urbanos na região de influência de Imperatriz podem ser considerados “desertos de notícias”, a partir da perspectiva de Abernathy (2016). Isto significa que observamos muito além da presença de infraestrutura de mídia nestes locais: foram 36 iniciativas mapeadas, entre blogs, rádios comunitárias, rádios cipós e outras. De modo geral, fluxos noticiosos percorrem tais mídias, mas não se trata de produção jornalística local que vise atender as necessidades próprias das comunidades. Além disso, constatou-se a forte vinculação política nas mídias do interior maranhense, o que gera desconfiança a respeito das informações divulgadas. O conceito central de “deserto de notícias” vai além da presença ou não de veículos jornalísticos, pois se preocupa com a independência e a qualidade das notícias. Por este motivo, as interferências políticas constatadas nas propriedades das iniciativas maranhenses respaldam a condição de desertos de notícias, pois a comunicação ocorre “para patrão”, conforme relato de um entrevistado.
Pela ótica do Atlas da Notícia (Projor, s.d.), algumas das cidades aqui pesquisadas se configurariam como “quase desertos de notícias” em virtude da presença de um ou dois veículos jornalísticos. No entanto, é preciso fazer uma série de ressalvas quanto a esta iniciativa brasileira. A apropriação do termo “deserto de notícia” é diferente da concepção original trabalhada nos Estados Unidos. No Atlas, a preocupação é quantitativa, sem exame de vinculações políticas. Além disso, sua metodologia é baseada em bancos de dados públicos do Governo Federal e em colaboração de voluntários. Por isso, há divergências quanto aos nossos achados e percepções, pois nesta investigação estivemos presentes nas cidades, verificando a existência in loco e o funcionamento das atividades de mídia. Isso não reduz a importância do projeto do Atlas, um importante ponto de partida para nortear os estudos sobre produção de notícia local no Brasil. Acreditamos, porém, que a classificação deve ser adotada com cautela, pois como também vimos, as mídias são moventes, aparecem e desaparecem muito rápido nas pequenas cidades, e os dados públicos governamentais não conseguem acompanhar as mudanças de cenário. Além da definição proposta, o estudo desenvolvido abre caminho para outras pesquisas e análises da prática profissional. Uma sugestão é o estudo de cidades médias em outras regiões do Brasil com o intuito de encontrar novas funções jornalísticas nestes lugares. Também é possível investigar mais a fundo a função das cidades médias como locais centrais para o escoamento de informações de proximidade para as cidades vizinhas, muitas vezes, desertos de notícias. Enquanto muito se problematiza a necessidade de promover iniciativas jornalísticas nas cidades pequenas - o que não contestamos -, ampliamos o debate para as cidades médias porque, como observamos, elas podem servir como lócus de cobertura regional. Por muito tempo limitou-se o jornalismo regional a um recorte espacial para além da sede do veículo, fazendo os jornalistas pensarem que fazer jornalismo regional exige necessariamente pautar o acontecimento de uma cidade externa. Mostramos que na cidade média é possível alinhar a cobertura local à regional tendo em vista as implicações que os serviços, instituições e eventos sediados no seu território geram sobre a região.
As cidades pequenas também se mostram territórios férteis para investigações científicas no âmbito da Comunicação. Aqui elas foram estudadas em relação a uma cidade média, mas podem ser analisadas de forma isolada ou em conjunto, buscando identificar tendências comunicacionais próprias destes lugares.
Por fim, indicamos a necessidade de novos estudos no campo da comunicação que tenham como foco as pequenas cidades brasileiras, reconhecendo sua relevância para a compreensão das dinâmicas informativas fora dos grandes centros urbanos. Neste trabalho, essas localidades foram analisadas em articulação com uma cidade média, mas pesquisas futuras podem explorá-las de forma isolada ou comparativa, com o objetivo de identificar tendências comunicacionais próprias desses contextos.










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