INTRODUÇÃO
Sendo um dos temas das agendas políticas, a problemática do desperdício alimentar (DA) tem ganho expressão na opinião pública, seja pelos problemas económicos e sociais a ele associados, seja por questões relacionadas com a sustentabilidade do planeta e as questões ético-morais subjacentes (1).
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), cerca de um terço de todos os alimentos produzidos no mundo são perdidos ou desperdiçados em alguma fase da cadeia de abastecimento alimentar, usando mais de um quarto (28%) da área agrícola mundial (2, 3).
Estima-se que, em 2022, 29,6% da população mundial estava em insegurança alimentar moderada ou grave, e até 783 milhões de pessoas foram afetadas pela fome, cerca de 122 milhões a mais do que em 2019 (4). O DA também é responsável por cerca de 8 a 10% das emissões de gases com efeito de estufa (5). Uma vez que os impactos ambientais se acumulam ao longo do ciclo de vida dos produtos alimentares, o DA ao nível do consumidor representa o encargo mais elevado.
Na União Europeia (UE), todos os anos se contabilizam, em média, 59 milhões de toneladas de DA de acordo com dados do Eurostat (Portugal é o terceiro país da UE onde se deita mais comida fora: 181 kg por habitante, valores estimados, 2021) (6).
O DA tem um vasto leque de impacto. A nível do ambiente, é responsável por gerar 16 % do total das emissões de Gases com Efeitos de Estufa (GEE) do sistema alimentar na UE. A nível económico, gera uma perda anual de até 132 mil milhões de euros. A nível social, contribui para aumentar a insegurança alimentar, uma vez que cerca de 33 milhões de pessoas na UE não têm condições económicas para adquirir uma refeição completa de dois em dois dias, enquanto toneladas de alimentos são desperdiçadas (7, 8).
A nível global, a FAO destaca que a pegada de carbono de todos os alimentos que são produzidos, mas não consumidos, incluindo as alterações no uso do solo, está perto das 4.4 Gt de equivalentes de CO2 por ano (5, 9-11). Consequentemente, se o DA fosse um país, tornar-se-ia o 3.º emissor, depois dos Estados Unidos da América e da China (4).
A percentagem mais elevada de DA é gerada na fase de consumo, incluindo os agregados familiares e os serviços de restauração. O DA dos consumidores é essencialmente uma questão comportamental e a redução desse desperdício é crucial para alcançar a meta 12.3 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável da Comissão Europeia de reduzir para metade a quantidade de DA per capita até 2030 (12). Numa ótica de sustentabilidade é urgente assegurar que os recursos usados para viver o presente, não serão comprometidos para as gerações futuras.
A Escola enquanto local de ensino por excelência deve associar a oferta de uma alimentar saudável e equilibrada ao desenvolvimento de uma consciência social para a sustentabilidade alimentar.
OBJETIVOS
Estimar o impacto económico, social e ambiental do DA em 3 escolas do distrito de Viana do Castelo.
METODOLOGIA
Este é um estudo piloto realizado no âmbito do Projeto de Otimização das Dietas Escolares (P0DE) (13, 14), do tipo observacional descritivo. Foi selecionada uma amostra não randomizada e de conveniência de 3 escolas do distrito de Viana do Castelo (escolas onde o P0DE se encontrava implementado e onde o desperdício alimentar foi identificado pela escola/município como um problema), com recolha de dados nos meses de fevereiro e março de 2024, durante 5 dias, seguidos ou interpolados, perfazendo 15 dias de avaliação.
Avaliou-se o DA da refeição do almoço, de todos os alunos que frequentam os refeitórios das Escolas A (5.º ao 12.º ano), B (1.º ao 12.º ano) e C (5.º ao 8.º ano) com idades compreendidas entre os 6 e 19 anos, durante o período mencionado, pelo método físico de pesagem agregada não seletiva. Foi ainda quantificado o número de refeições servidas. As ementas estavam pré-definidas pelas escolas/ municípios e diferiam entre elas.
Para a estimativa do custo unitário de cada refeição utilizaram-se os dados fornecidos por cada escola, relativos ao custo de todos os géneros alimentícios adquiridos durante o ano letivo (Escola A), ano civil (Escola B) e período de setembro de 2023 a janeiro de 2024 (Escola C), e ao número de refeições servidas em igual período. Não foram contabilizados os custos indiretos. Para o cálculo deste custo apenas foi considerado o custo relativo ao prato, tendo-se subtraído aos custos totais – dos custos referentes aos hortícolas e fruta, assumindo-se que correspondem à sopa e sobremesa.
O impacto económico do DA gerado foi calculado através da estimativa do custo das sobras, dos restos e do desperdício total dos alimentos (restos e sobras, excluindo-se o desperdício da preparação). O impacto social foi estimado através do cálculo do número de alunos que poderiam ser alimentados com o DA gerado, tendo em conta o peso da refeição produzida per capita. O impacto ambiental, nomeadamente a pegada de carbono (kg de equivalentes de CO2 (CO2 e)) e a pegada hídrica (litros de água), foi determinado com recurso à Food Waste Prevention Calculator da Comissão Europeia (15).
RESULTADOS
Foram desperdiçados 873 kg de alimentos produzidos e não consumidos, num total de 4775 refeições planeadas e de 4577 refeições servidas, representando 30% de DA, sendo que por aluno é desperdiçada uma média de 191 g (Tabela 1).
Tabela 1: Número de refeições e quantificação do desperdício alimentar

NRS: Número Refeições Servidas
PR: Peso dos Restos
PRP: Peso (kg) Refeição Produzida
PRpc: Peso médio (g) dos restos per capita
PS: Peso das Sobras
PSpc: Peso médio (g) das sobras per capita
O custo total do DA foi de 2095 euros, sendo que diariamente implica um custo de 140 euros, com os quais poderiam ser alimentados 93 alunos. Verificou-se que os restos têm um impacto maior no custo total do DA, com 1393 euros, contrastando com as sobras com um custo de 880 euros, representando um número de refeições desperdiçadas de 946 e 564 respetivamente (Tabelas 2 e 3).
Tabela 2: Quantificação do número de refeições desperdiçadas (Impacto Social)

PR: Peso dos Restos
PRPpc: Peso médio (g) da refeição produzida per capita
PS: Peso das Sobras
PRDpc: Peso Refeição Distribuída per capita
Diariamente são desperdiçados, aproximadamente, 488 m3 de água e emitidos 198 kg equivalentes de CO2 (Tabela 4).
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O DA é uma grave ameaça à sustentabilidade dos sistemas alimentares. A produção e o consumo de alimentos representam valores próximos de 20% a 30% das emissões de gases com efeito de estufa (16, 17). Logo, o decréscimo do DA e a consciencialização sobre o consumo desordenado são fatores essenciais para a proteção ambiental de forma a responder de maneira sustentável à crescente procura de alimentos, às mudanças climáticas e escassez de recursos naturais (18, 19).
Os estudos relativos ao impacto económico e social do DA em escolas são escassos e, da pesquisa efetuada, inexistentes relativos ao impacto ambiental.
Este estudo emprega uma abordagem multifacetada e inovadora, permitindo uma visão integrada da problemática comparativamente com outros estudos, ao avaliar o impacto do DA, na sua vertente económica, social e ambiental, e ao utilizar a Food Waste Prevention Calculator da Comissão Europeia para quantificar a pegada de carbono e hídrica.
Neste estudo, o DA apurado tem um custo médio diário de 140 euros, valor muito superior ao encontrado por Ribeiro (2019) de 57,1€ (20), sendo o número de refeições avaliadas também superior (318 vs. 280). No entanto, a metodologia de cálculo deste custo é diferente, o que pode justificar a diferença de valores.
Moura (2012) mostra que 44 pessoas poderiam ser alimentadas diariamente com o desperdício total de alimentos, mas não foi estimado o seu custo económico (21). Já outro estudo mais recente revela resultados superiores, com uma média diária de 119 pessoas que poderiam ser alimentadas com o desperdício gerado numa unidade de alimentação coletiva, valor este que vai de encontro aos resultados deste estudo, com uma média diária de 93 pessoas que poderiam ser alimentadas com o DA quantificado (19). Um outro estudo de Silva (2021) revela que poderiam ser alimentados 904 alunos (330 com as sobras e 604 com os restos) com o total de desperdício gerado, valores estes inferiores aos deste estudo em poderiam ser alimentados 1393 alunos (564 com as sobras, 946 com os restos) (22). Estas comparações têm, no entanto, a limitação de terem sido utilizadas fórmulas de cálculo diferentes. O presente estudo teve por base a quantidade de refeição produzida per capita, que nos pareceu mais adequada face aos objetivos nutricionais estabelecidos através de capitações definidas para a refeição escolar e de acordo com as faixas etárias dos alunos de cada escola, enquanto os estudos mencionados utilizaram o peso dos alimentos consumidos.
O DA apurado nas 3 escolas em análise revela ter assim um impacto económico no orçamento anual altamente impactante, apresentando um valor médio de 25 146€ (17 062€ na Escola A, 34 419 € na Escola B e 23 958 € na Escola C, representando cerca de 29, 26 e 14% do orçamento anual respetivamente).
Os 873 kg de DA implicam a emissão de cerca de 4 017 kg CO2eq, o que equivale aos gases emitidos por um carro numa viagem de 11 994 km (aproximadamente, 7 viagens de ida de Viana do Castelo a Paris) e 7 318 m3 de água (aproximadamente 36 600 duches de 10 minutos), sendo o impacto per capita de aproximadamente 1 kg CO2eq e 1,6 m3 de água, o que representa uma viagem de 3 km de carro e cerca de 8 duches de 10 minutos (15).
A redução do DA obtida através da prevenção ou redirecionamento para consumo humano e alimentação animal, foi demonstrada como mais efetiva (−4.2 kg a −1.3 kg CO2e por kg de DA) do que a reciclagem (material, como fator de produção para as indústrias química e alimentar: −0.06 kg a 1.2 kg CO2e por kg de DA; nutricional, como compostagem: -0.13 kg a 0.09 kg CO2e por kg de DA; recuperação energética/ combustível: -0.15 kg a −0.002 kg CO2e por kg de DA) (23, 24).
Desta forma, os destinos do DA diferem significativamente, desde a opção ambiental mais favorável até à menos favorável na hierarquia de gestão de resíduos estando a prevenção no nível mais elevado da pirâmide. Na etapa seguinte, a redistribuição para consumo humano, alimentação animal e compostagem. Nos níveis mais baixos, encontram-se as piores opções ambientais, como a recuperação de energia (por exemplo, digestão anaeróbica) e a eliminação de resíduos alimentares em aterros, que deve ser utilizada como última opção (25, 26).
Em 2017, o Parlamento Europeu concluiu que o primeiro comportamento a adotar é a prevenção do desperdício de alimentos e, quando este não for possível, o alimento deverá ser reutilizado (27, 28) (Figura 1). Reutilizar estes alimentos traduz-se por adaptá-los a outras refeições e, quando tal não for possível, recorrer à doação para outras pessoas, doando a instituições locais, com as quais sejam estabelecidas parcerias para o efeito, ou, no caso dos restos, para alimentação animal (27, 29). Neste estudo, na Escola A o DA gerado é recolhido para compostagem, na Escola B é redirecionado para alimentação animal e na escola C parte do desperdício é também redirecionado para alimentação animal, sendo a maior parte direcionada para aterro. A escola A é a única das 3 que possui um procedimento instituído pelo município para recolha e tratamento (compostagem) de resíduos orgânicos, o que seria importante replicar nas restantes escolas, no que aos restos diz respeito. Em relação às sobras, seria importante o estabelecimento de parcerias para doação destas a instituições de cariz social ou famílias carenciadas.
CONCLUSÕES
O DA tem uma série de implicações, relacionadas entre si, como a segurança alimentar, a saúde humana, o desenvolvimento económico e o impacto ambiental. Do ponto de vista do ciclo de vida, o DA representa, para além de uma oportunidade perdida de alimentar a crescente população mundial, uma enorme pressão sobre o ambiente, quer em termos de consumo de recursos naturais, quer de poluição ambiental e perda de biodiversidade.
Nas 3 escolas o custo do desperdício revelou um impacto deveras significativo no orçamento anual de cada uma, assim como um impacto ambiental tremendamente elevado. Urge determinar as suas causas e encontrar estratégias que permitam a sua redução, sem descurar a oferta de uma refeição escolar saudável e equilibrada do ponto de vista nutricional. Paralelamente, implementar mecanismos de redistribuição alimentar eficazes, onde o DA pode ser uma oportunidade desperdiçada para mitigar a insegurança alimentar entre alunos vulneráveis.

















