INTRODUÇÃO
O aleitamento materno exclusivo (AME) é recomendado até aos seis meses de idade por várias entidades, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN) e a United Nations International Children’s Emergency Fund (UNICEF). Além disso, é aconselhada a manutenção do aleitamento materno após diversificação alimentar, pelo menos, até aos dois anos (1).
O aleitamento materno tem inúmeros benefícios tanto para a criança, como para a mãe. Para o bebé está provado o seu papel na prevenção de infeções, hospitalizações, alergias, obesidade, Diabetes mellitus tipo 1, doença celíaca, alguns tipos de cancro e ainda do Síndrome de morte súbita do lactente. As mães que amamentam, por sua vez, têm redução do risco de hemorragia pós-parto e de risco de cancro da mama e do ovário, para além de que têm maior facilidade em retornar ao peso pré-gravidez e diminuição da fertilidade (1).
Nas últimas décadas, a OMS e a UNICEF têm desenvolvido iniciativas para promover o aleitamento materno, como a Declaração de Innocenti de 1990, a Iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés, em 1991, e a Global Strategy for Infant and Young Child Feeding, em 2002 (2).
Em Portugal, a iniciativa Hospitais Amigos dos Bebés, que protegia e promovia o aleitamento materno através do apoio adequado no período pré e pós-natal, esteve em vigor durante mais de 30 anos e foi terminada em 2023. A partir deste ano, a Comissão Nacional para a Promoção do Aleitamento Materno assumiu responsabilidade pela implementação e coordenação de práticas que promovem a iniciação e manutenção do aleitamento materno em instituições de saúde (3). Na última década, as taxas de aleitamento materno exclusivo aumentaram a nível global nos primeiros seis meses de vida, com taxas relatadas de 48% aos seis meses, o que está próximo do objetivo de 50% da OMS para 2025 (1, 4). Em Portugal, a prevalência de aleitamento materno ao nascimento é superior a 90%, embora a taxa de aleitamento materno exclusivo à data de alta da maternidade ronde os 75-98% e aos 6 meses os 18-46% (1). Um novo objetivo de 70% de aleitamento materno exclusivo aos 6 meses foi delineado pela Global Breastfeeding Collective para 2030 (4)
OBJETIVOS
O objetivo deste trabalho foi determinar a prevalência do aleitamento materno exclusivo em recém-nascidos saudáveis à data de alta da maternidade e na consulta de seguimento.
METODOLOGIA
Foi realizado um estudo transversal de todos os recém-nascidos internados no Serviço de Perinatologia de 1 de janeiro a 31 de março de 2024, num hospital terciário do Norte de Portugal. Foram avaliados recém-nascidos saudáveis, com percurso perinatal sem intercorrências e foram colhidos dados relativos à data de alta da maternidade e posteriormente na consulta de seguimento (consulta de recém-nascido), para a qual são elegíveis todos os recém-nascidos com alta desta maternidade. Esta consulta ocorre, na maioria dos casos, no segundo mês de vida, embora, por remarcações, algumas crianças sejam avaliadas antes ou depois deste período. Os dados clínicos foram obtidos a partir dos registos eletrónicos, incluindo sexo, idade materna, idade gestacional, tipo de gravidez, tipo de parto, tipo de aleitamento, motivo do aleitamento com fórmula infantil, peso à alta, idade à data da consulta e peso na consulta.
O conceito de aleitamento materno exclusivo foi definido como uma alimentação exclusiva de leite humano, sendo aceitável suplementos vitamínicos, minerais ou tratamentos farmacológicos.
A análise estatística foi realizada através do programa SPSS® (IBM, USA) versão 29. As variáveis contínuas foram caracterizadas pela média (± desvio-padrão) ou mediana (± desvio-padrão), conforme fosse verificada a distribuição normal e não normal respetivamente; e as variáveis categóricas pelas frequências absoluta e relativa. A comparação de variáveis contínuas foi realizada através do Teste t independente e as categóricas através do Teste qui-quadrado. Foi considerado estatisticamente significativo um valor de p inferior a 0,05. Foi obtida autorização da Comissão de Ética do hospital.
RESULTADOS
Dos 416 recém-nascidos avaliados, 211 (50,7%) eram do sexo feminino; e 412 (99,0%) eram não gemelares. A maioria dos partos ocorreu de forma eutócica (47,6%), sendo que 146 (34,1%) foram por cesariana e os restantes (17,5%) foram auxiliados por ventosa. A maioria (92,8%) dos recém-nascidos era de termo, tendo sido a mediana das idades gestacionais observadas de 39 semanas (DP ± 1,3). A mediana do peso ao nascimento foi de 3189,0 gramas (DP ± 450,4).
A média das idades das mães foi de 31,98 anos.
Na consulta foram observados 373 destes recém-nascidos, tendo os restantes (10,3%) faltado. A média da idade dos recém-nascidos registada na consulta foi 31,5 dias (DP ± 10,6), com um mínimo de 9 dias e um máximo de 73 dias.
À data de alta da maternidade, 252 (60,6%) dos recém-nascidos alimentavam-se exclusivamente de leite materno, sendo que 19 (4,6%) faziam apenas alimentação de fórmula infantil (18 dos quais por opção materna e o restante por contraindicação materna) e os restantes (34,9%) alimentavam-se com alimentação mista (29 por opção materna e 116 por necessidade de suplementação).
À data da consulta, 205 (54,9%) dos bebés avaliados alimentavam-se exclusivamente de leite materno e 168 faziam fórmula infantil como suplemento (26,3%) ou regime alimentar exclusivo (18,8%).
A prevalência do AME diminuiu desde a alta da maternidade de 60,6% para 54,9% (p<0,001) à data da consulta.
A maioria dos recém-nascidos (67,3%) manteve o regime de alimentação que tinha à data de alta da maternidade. Observou-se uma associação estatisticamente significativa entre o tipo de aleitamento à data de alta da maternidade e na consulta de seguimento (qui-quadrado de Pearson = 41,655; p<0,001). Entre os que estavam em AME à data de alta, 68,4% mantiveram-se em AME na consulta, enquanto 31,6% passaram a aleitamento não exclusivo. Já entre aqueles que não estavam em AME à alta, 34,5% passaram a AME no período até à consulta de reavaliação, enquanto os restantes 65,5% se mantiveram em aleitamento materno não exclusivo.
Os motivos apontados para o início de aleitamento com fórmula infantil após a alta da maternidade foram: hipogalactia/ perceção materna de leite “de fraca qualidade” (n=23) e dificuldades na amamentação, como problemas de pega e dor mamária (n=16). Em 45,1% dos processos dos bebés que suspenderam AME não se encontrava registada a causa da interrupção.
A média do peso registado na consulta foi 3905,3 gramas (DP ±675,9), com uma média de aumento de peso diário de 22,3 gramas (DP ±13,0), não tendo ocorrido um ganho ponderal médio diário significativamente diferente para os diferentes tipos de aleitamento (p=0,755).
Na Tabela 1, são apresentados os dados comparativos entre o grupo de bebés em aleitamento materno exclusivo e não exclusivo, quer à data de alta da maternidade, quer no momento da consulta do recém-nascido.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A prevalência de aleitamento materno à data de alta da maternidade foi de 95,4%, o que está de acordo com os dados nacionais (1), sendo que 60,6% dos recém-nascidos eram alimentados exclusivamente de leite materno. Como razões para a alimentação/suplementação com fórmula infantil foram apontadas: a necessidade de suplementação por hipogalactia em 70,7% dos casos, opção materna em 28,7% ou contraindicação materna (0,6%).
A prevalência de aleitamento materno exclusivo foi inferior nos recém-nascidos nascidos por cesariana, embora não se tenha estabelecido uma diferença estatisticamente significativa entre o tipo de parto e a exclusividade do aleitamento materno. O sexo dos recém-nascidos e a idade materna também não mostraram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos.
Por sua vez, a idade gestacional dos recém-nascidos relacionou--se com o tipo de aleitamento efetuado, sendo a idade gestacional do grupo de que não realizava AME significativamente inferior (p<0,001). Esta diferença pode relacionar-se também com o facto de os recém-nascidos prematuros ou com idade gestacional inferior apresentarem um menor peso ao nascimento, já que se verificou que os recém-nascidos que não faziam AME tinham também um peso significativamente inferior (p=0,003).
Adicionalmente, embora apenas quatro dos recém-nascidos da nossa amostra fossem fruto de gestações gemelares, existiu à data da alta da maternidade uma diferença estatisticamente significativa entre o aleitamento materno e o facto da gravidez ser única ou gemelar, com os gémeos a serem na totalidade alimentados de aleitamento misto (p=0,013).
Na altura da consulta, verificou-se uma diminuição da prevalência de AME, de 60,6% para 54,9% (p<0,001), com 19,0% dos bebés a iniciarem alimentação com fórmula infantil neste período e 13,7% dos que recebiam fórmula à data de alta a passarem para AME. O tipo de aleitamento na consulta de seguimento mostrou-se fortemente associado ao regime alimentar à alta hospitalar, confirmando a importância de estratégias eficazes para iniciar o AME durante o internamento. Embora cerca de um terço dos bebés em aleitamento materno não exclusivo à alta tenham iniciado AME posteriormente - possivelmente refletindo aconselhamento pós-alta ou decisão materna - a maioria manteve o regime inicial, achado que reforça que o período imediato pós-parto é determinante para a manutenção do AME.
A prevalência de AME evidenciado no nosso estudo foi semelhante à de outros estudos realizados no 1.º mês de vida (5), embora existam outros estudos mais antigos que relatem prevalência superiores (6), e os principais motivos de interrupção da amamentação foram a perceção de leite insuficiente ou “de fraca qualidade” ou a opção materna por dificuldades na amamentação, à semelhança do que foi descrito noutros estudos (6, 7).
Não se verificaram diferenças estatisticamente significativas entre os dois grupos no peso à data da consulta, nem no ganho ponderal diário. Adicionalmente, nesta altura, a idade gestacional, o tipo de parto e o sexo não foram fatores significativos de diferenças entre os grupos de AME e não exclusivo. Esta diferença quanto ao impacto do menor peso e idade gestacional no tipo de aleitamento, observada entre o período da alta da maternidade e da consulta, poderá refletir o efeito do apoio prestado após a alta e da orientação adequada na adaptação materna à amamentação, permitindo que bebés inicialmente em risco de não receber AME fossem incorporados posteriormente nesse grupo. Outra explicação possível é que a amostra à consulta, com 10,3% de faltosos, tenha incluído predominantemente recém-nascidos mais saudáveis, o que pode ter mascarado a associação observada à alta. Quando comparamos os dados deste estudo com os de um estudo semelhante realizado por Santos-Silva et al., no mesmo centro em 2019 (8), verificámos que a prevalência de AME à data de alta da maternidade diminuiu de 80,5% para 60,6%. Em ambos os estudos, a idade materna, a idade gestacional e o peso ao nascimento foram semelhantes. Pelo contrário, a taxa de cesarianas aumentou de 20,8% (em 2019) para 34,9% (em 2024), estando documentado que o parto eutócico é um dos fatores que promove o aleitamento materno (1, 6). O facto de a prevalência de cesarianas em Portugal estar a aumentar ao longo dos anos e ser superior aos números relatados a nível mundial (37,5% versus 21,0%) (9,10) pode ser um fator promotor da diminuição da prevalência de AME ao longo do tempo, o que constitui um motivo de preocupação e merece especial atenção.
Quanto à avaliação do aleitamento na consulta durante o 2.º mês de vida: em 2019, a prevalência de AME era 59,7% (8) e neste estudo, verificou-se uma prevalência de 54,9% na consulta de seguimento. De salientar que, em 2019, nenhum dos bebés do grupo de aleitamento com fórmula infantil passou para AME (8), enquanto neste estudo de 2024, 13,7% destes bebés passou a AME, o que pode traduzir uma melhoria no aconselhamento das mães durante o internamento e após a alta da maternidade.
De referir que as indicações de amamentação não se alteraram com a pandemia por COVID-19, sendo esta sempre aconselhada como opção primária para alimentação dos recém-nascidos, mesmo em caso de infeção materna por Sars-CoV-2 (11), e que não se verificaram alterações significativas nas prevalências de aleitamento materno pré e pós-pandémicas (12).
Sabe-se que existem vários fatores que determinam a implementação e manutenção do aleitamento materno. Os cuidados de apoio à amamentação nas maternidades são essenciais para a introdução da mesma. Para além disso, a licença de horário de amamentação, a possibilidade de alimentação com leite materno nas creches e amas e a existência de locais apropriados para a amamentação em lugares públicos são fatores que aumentam a manutenção do aleitamento materno ao longo do tempo (9). Além disso, alguns fatores que têm sido associados positivamente ao aleitamento materno no 1.º mês de vida são a imigração, um aumento de peso adequado durante a gravidez, a decisão pré-concecional de amamentar, a partilha de cama, a participação em cursos de educação materna e a ausência de suplementação com fórmula infantil no hospital. Contrariamente, ser fumadora durante a gravidez, ter anemia no 3.º trimestre ou nas primeiras 24 horas após o parto e a utilização de tetinas ou chupeta na 1.ª semana são fatores que impactam negativamente a amamentação (13, 14).
Algumas limitações do nosso estudo são o facto de ser retrospetivo, de termos avaliado a prevalência de aleitamento materno apenas até à primeira consulta hospitalar após a alta, de não ter sido possível avaliar de forma consistente o motivo de interrupção do AME e da idade da consulta ser variável (entre 9 e 73 dias). Embora a maioria das consultas tenha ocorrido durante o 2.º mês de vida, optou-se por incluir todas as crianças com consulta de seguimento, permitindo uma análise mais abrangente e sem exclusão de casos, embora se reconheça que esta heterogeneidade temporal possa influenciar a comparação direta com estudos estritamente limitados ao 2.º mês.
A amostra grande comparativamente com outros estudos sobre este tema e o facto de ter sido realizado nos mesmos moldes que outro anterior e permitir a sua comparação são pontos positivos do mesmo.
CONCLUSÕES
Este estudo teve como objetivo avaliar a prevalência de AME e os fatores a ele associados nos primeiros meses de vida. Observou-se uma diminuição da prevalência de AME desde a alta hospitalar até à primeira consulta de seguimento, corroborando os dados do estudo realizado em 2019 no mesmo centro. O tipo de aleitamento à alta hospitalar mostrou-se como o principal preditor da manutenção do AME na consulta, sendo que os recém-nascidos em AME à data de alta apresentaram maior probabilidade de continuar nesse regime até à consulta.
Além disso, a prevalência de AME à alta hospitalar foi inferior à registada em 2019. Este declínio, aliado ao aumento da taxa de cesarianas em 2024, reforça a necessidade de reavaliar as indicações para este tipo de parto e de implementar estratégias específicas de apoio à amamentação dirigidas a estas mães e recém-nascidos.
Conhecer a prevalência da amamentação e identificar tanto os fatores que a favorecem quanto aqueles que contribuem para sua interrupção nos primeiros meses é essencial para protegê-la e aprimorar a promoção do AME. O período crítico para a manutenção da amamentação ocorre durante o primeiro mês após a alta hospitalar, devendo este ser um momento de atenção especial e de disponibilidade de suporte profissional para as mães.
Considerando o impacto negativo que a suplementação com fórmula infantil e o uso de tetinas e chupetas podem ter sobre o AME, a indicação para iniciar suplementos deve ser avaliada cuidadosamente. Além disso, medidas como aumentar o financiamento de programas e políticas de promoção e suporte do aleitamento materno, limitar o marketing de substitutos do leite materno, ampliar o acesso a aconselhamento especializado sobre amamentação e criar linhas de urgência para suporte à alimentação de lactentes e crianças podem contribuir para fortalecer a manutenção do AME.















