INTRODUÇÃO
O carcinoma oral e orofaríngeo inclui todas as neoplasias que ocorrem nos lábios, gengivas, mucosa oral, palato duro e mole, pavimento da boca, língua e amígdalas. Segundo a Comissão Europeia, o cancro é a segunda principal causa de morte na União Europeia, representando 21,6% de todas as mortes em 2021 (1). Embora não esteja entre os mais prevalentes, a incidência deste tumor continua a ser significativa e exige medidas eficazes de rastreio e prevenção. Representa a sétima causa de cancro nos países da União Europeia, com um risco de desenvolvimento ao longo da vida de 1,85% nos homens e 0,37% nas mulheres, segundo um estudo de 2009 (2). Algumas regiões apresentam um risco mais elevado, como a França, enquanto outras, como é o caso da Grécia e Chipre, possuem taxas inferiores. Contudo, a escassez de estudos recentes dificulta a atualização desta distribuição. Ainda assim, os padrões epidemiológicos indicam que estas variações se devem, sobretudo, a diferenças no consumo de tabaco e álcool, bem como à implementação de políticas de saúde pública para controlo desses fatores de risco. Além disso, fatores culturais, socioeconómicos e políticas de saúde pública influenciam estas disparidades. Por exemplo, países com programas eficazes de controlo do tabagismo e campanhas de sensibilização para os riscos do consumo de álcool tendem a apresentar incidências mais baixas de cancro oral e orofaríngeo. Contudo, é possível que, em alguns países com taxas mais reduzidas, o menor número de diagnósticos possa refletir também limitações no rastreio, menor referenciação ou subnotificação dos casos. Diferenças na dieta, prevalência de infeções pelo vírus do papiloma humano (HPV) e acesso a cuidados de saúde também podem contribuir para as variações observadas entre os países (2).
O tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas são os principais fatores de risco e estão presentes em 90% dos casos (3), possuindo um efeito sinérgico. Entre outros fatores de risco, destacam-se a radiação ultravioleta e a inflamação crónica da cavidade oral. Adicionalmente, devem ser considerados a exposição ocupacional a substâncias carcinogénicas, como faúlhas metálicas, amianto e solventes industriais, que afetam trabalhadores de profissões como serralheiros, soldadores e operários da construção civil (3) (4). A exposição ambiental a poluentes e toxinas também pode aumentar o risco. Outros fatores incluem determinadas características antropométricas e genéticas, como a suscetibilidade individual e diferenças raciais na resposta a agentes carcinogénicos. A utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como máscaras respiratórias e viseiras, são essenciais para reduzir a exposição a estes fatores de risco (4). O rastreio dos fatores de risco deveria ser uma etapa prévia e integrada nos programas de Saúde Oral, permitindo a identificação precoce de comportamentos e condições predisponentes. A sua inclusão eficaz ajudaria a reduzir a incidência da neoplasia oral, ao atuar preventivamente antes do surgimento da doença. A International Agency for Research on Cancer (IARC) classifica o vírus do papiloma humano HPV16, como pertencente ao Grupo 1 (carcinogénico para humanos) e o HPV18 como pertencente ao Grupo 2A (provavelmente carcinogénico para humanos) no desenvolvimento do cancro orofaríngeo. Tem um prognóstico desfavorável, com taxas de sobrevivência a cinco anos de cerca de 40%. No entanto, se diagnosticados precocemente, a taxa de sobrevivência pode ultrapassar os 80%. Como inicialmente são silenciosos, até 50% dos cancros orais são diagnosticados em estádios avançados quando os utentes apresentam sintomas como úlceras, dor, hemorragia ou tumefação na boca e/ou no pescoço (4). A Direção Geral da Saúde (DGS) estima que, em Portugal, sejam diagnosticados cerca de 1000 casos anualmente, com uma taxa de mortalidade a cinco anos de aproximadamente 50% (5). O rastreio do cancro oral em Portugal, conforme definido pela DGS, é uma medida de saúde pública fundamental para a deteção precoce desta doença, que pode ter um impacto significativo na morbilidade e mortalidade da população. Implementado como parte do Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral (PNPSO), o rastreio tem como objetivo identificar lesões pré-malignas e malignas na cavidade oral em fases iniciais, permitindo intervenções mais eficazes e menos invasivas. Este processo envolve a sensibilização da população e dos profissionais de saúde para a importância do diagnóstico precoce, além da realização de exames clínicos regulares e específicos, especialmente nos grupos de risco acrescido, que incluem fumadores, consumidores excessivos de álcool, indivíduos infetados pelo vírus HPV, pessoas com exposição prolongada à radiação ultravioleta, bem como aqueles com historial de lesões orais pré-malignas ou inflamação crónica da cavidade oral. A Direção Geral de Saúde enfatiza a necessidade de uma abordagem integrada e multidisciplinar, que inclua a educação para a saúde, a capacitação de profissionais e o acesso facilitado aos serviços, através da criação de consultas prioritárias nos cuidados de saúde primários, do reforço da telemedicina para triagem inicial, da redução dos tempos de espera para biópsias e tratamentos especializados, bem como do financiamento de programas de rastreio, de diagnóstico e tratamento gratuitos para grupos de risco, visando reduzir a incidência e a mortalidade associadas ao cancro oral em Portugal.
Este artigo visa explorar a relação entre os fatores ocupacionais e o cancro oral, discutindo a importância da identificação de fatores de risco, vigilância dos trabalhadores expostos e a implementação de medidas de proteção adequadas.
CASO CLÍNICO
Descreve-se um caso de um indivíduo do sexo masculino, 56 anos, serralheiro. Antecedentes pessoais de gastrite crónica, dislipidemia, perturbação depressiva, fumador ativo (30 Unidades Maço/Ano) e consumo excessivo de álcool (77g/dia). Apresenta-se ao exame periódico de Medicina do Trabalho, com queixas de odontalgia e odinofagia com seis meses de evolução, associadas a agravamento progressivo e, no momento da observação, disfagia para sólidos. Negava disfonia, dispneia, perda ponderal ou febre recentes. Ao exame objetivo da cavidade orofaríngea, apresentava lesão ulcerada do palato mole com extensão até à úvula. Na palpação do pescoço apresentava adenopatias de pequenas dimensões (menores que um centímetro) bilaterais. Perante a suspeita clínica, foi encaminhado ao Serviço de Urgência Hospitalar, onde foram realizados exames complementares, incluindo tomografia computorizada (TC) cervical e biópsia, confirmando o diagnóstico de carcinoma invasivo, com diferenciação pavimentosa, moderadamente diferenciado. O trabalhador foi referenciado a um centro oncológico especializado, onde realizou faringectomia parcial com esvaziamento ganglionar cervical bilateral. O estudo anátomo-patológico da peça operatória confirmou a presença de um carcinoma espinocelular, HPV 16 negativo, envolvendo estruturas orofaríngeas. Posteriormente realizou tratamento com radioterapia e quimioterapia adjuvante.
DISCUSSÃO/CONCLUSÃO
O rastreio e a prevenção do cancro oral devem estar inseridos numa estratégia abrangente de saúde ocupacional, considerando que trabalhadores expostos a substâncias carcinogénicas apresentam um risco aumentado. Segundo o Plano Nacional de Promoção para a Saúde Oral, o exame objetivo da cavidade oral deve ser efetuado por rotina, de dois em dois anos nos utentes pertencentes aos grupos de risco. Ele também prevê o diagnóstico clínico de lesões malignas ou potencialmente malignas, detetadas pelo utente ou por um profissional de saúde. Na presença de lesões suspeitas, o utente deverá dirigir-se ao seu Médico de Família que procederá à emissão de um Cheque Diagnóstico. Posteriormente, utilizará o cheque numa consulta de Medicina Dentária convencionada. Neste caso, pelas queixas apresentadas e pelas características e extensão da lesão, optou-se por enviar o trabalhador ao Serviço de Urgência para um diagnóstico e orientação mais rápida.
A Medicina do Trabalho tem como propósito atenuar riscos laborais e ajustar condições ocupacionais para prevenir doenças relacionadas ao exercício profissional. Assim, embora não seja sua função realizar rastreios sistemáticos para neoplasias, o Médico do trabalho pode ter um papel relevante na identificação precoce de fatores de risco e na promoção de condições laborais seguras. No contexto dos serralheiros e trabalhadores expostos a poeiras e fumos metálicos, a inalação de substâncias potencialmente carcinogénicas pode contribuir para o desenvolvimento de lesões orais pré-malignas (6). A principal abordagem deve centrar-se na monitorização da exposição ocupacional, na educação para a saúde e promoção de medidas preventivas, como o uso adequado de EPIs, nomeadamente máscaras com filtro para partículas e proporcionar ventilação adequada nos locais de trabalho, como medida de proteção coletiva. Para além disso, recomenda-se a rotação de tarefas para minimizar o tempo de exposição e a fiscalização rigorosa do uso de EPI (6). É fundamental avaliar de que forma as limitações funcionais decorrentes do diagnóstico e tratamento do cancro oral podem impactar a atividade laboral, garantindo que os trabalhadores afetados possam manter a sua produtividade e qualidade de vida. No caso dos funcionários já diagnosticados com cancro oral, o Médico do Trabalho pode desempenhar um papel relevante na adaptação das suas funções, assegurando que não estejam expostos a substâncias que possam agravar a condição ou comprometer a sua recuperação. Medidas como a alteração de postos de trabalho, a redução da carga horária e a adequação ergonómica do ambiente de trabalho são essenciais para garantir a reintegração profissional destes trabalhadores. Por fim, a implementação de estratégias estruturadas no ambiente laboral, incluindo ações educativas, vigilância médica regular e referenciação precoce de casos suspeitos, representa um contributo significativo para a deteção precoce do cancro oral. Estas medidas não só reduzem a mortalidade associada à doença, como também melhoram a qualidade de vida dos trabalhadores, reforçando a importância da prevenção e da intervenção precoce no contexto da saúde ocupacional.
Dessa forma, este artigo realça a importância de estratégias que visam a prevenção da exposição aos riscos ocupacionais relacionados ao carcinoma oral.













